Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

09
Mar 15

Arcos antigo.jpgpublicado na edição de ontem, 8 de março, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Identidades perdidas…

Não sou, nem espero vir a ser, adepto do chavão “antigamente é que era…”. Uma sociedade, uma comunidade, um país, desenvolve-se e estrutura-se na evolução e na dinâmica dos acontecimentos que marcam a sua história. E não agarrado a “amarras” saudosistas.
Não quero dizer com isto, antes pelo contrário, que se deva esquecer e “enterrar” o passado. Longe disso. Manter viva a identidade histórica, cultural e social de uma comunidade (seja qual for a sua dimensão) é tão importante como promover a dinâmica e a evolução, viver o presente e projectar futuros. Não viver amarrado a um tempo passado não é o mesmo que negá-lo ou renegá-lo como se não tivesse sido nesse mesmo tempo que foi alicerçado e se vive o presente.

Veio-me à memória, principalmente num tempo em que face às circunstâncias destes últimos dias a memória parece cada vez mais colocada em causa, o falecimento recente de Amadeu Ferreira, um dos principais impulsionadores do mirandês, segunda língua oficial portuguesa, que, apesar da sua circunscrição regional diminuta, não deixa de ser uma das referências históricas de Portugal (nas suas origens) e uma marca da identidade cultural e social do nosso país (independentemente das nossas ligações ou indiferenças à “terra fria” do Nordeste Transmontano).

Valorizar e promover a identidade de uma comunidade é sustentar a sua história e enriquecer o presente que se vive.
Aveiro tem, nesta vertente, bons e maus (alguns péssimos) exemplos. E também projectos e planos com valor.

Não me parece relevante, a menos que por razões nostálgicas, o ressurgir do “polícia sinaleiro” (que Aveiro teve em tempos e vários) como aconteceu noutras cidades (Porto e Lisboa, como exemplos). Mas a ideia da autarquia aveirense recuperar e dar dignidade aos espaços antigos dos engraxadores nos Arcos, parece-me um excelente projecto. Não pela profissão em si, mas pela revitalização de um espaço nobre na cidade, pela sua identidade e por aquilo que sempre representou no coração urbano. Identidade e referência que serviram de base à escolha do título destas rubricas bissemanais (mais ou menos regulares… e já lá vão nove anos), bem como o título do blogue “Debaixo dos Arcos”. E os motivos são simples. A zona da Praça Melo Freitas e dos Arcos, aos quais se juntou mais tarde, o monumento à Liberdade, para além da sua inclusão no típico bairro da Beira Mar, foi, durante muitos e muitos anos, um espaço de encontro, de diversidades, de tertúlias espontâneas, do escárnio e mal dizer populares e instintivos. Também local de culturas, de comércio e feira (bem antigo, por exemplo a feira das cebolas), de informação (basta recordar os espaços onde eram afixadas as primeiras páginas de jornais como o extinto Comércio do Porto, o Primeiro de Janeiro, o Jornal de Notícias, entre outros, as notícias do Beira Mar e do Galitos, etc) e de ponto de encontro, marcado pela constante presença característica dos engraxadores. Retomar esta identidade é renovar a vida e o centro da cidade e valorizar a sua história.

Pena é que se tenham perdido, no tempo e com o tempo, outras oportunidades de preservação da nossa identidade. Excepção para o aproveitamento turístico dos canais urbanos da Ria, Aveiro, enquanto cidade, deixou de ter que oferecer e mostrar a sua identidade a quem nos visita. Apesar do esforçado EcoMuseu da Troncalhada, uma cidade que se alicerçou na importância social e económica do Sal, perdeu quase toda a beleza das salinas e não tem um verdadeiro Museu do Sal.
Aveiro, enquanto cidade, que foi crescendo em torno das suas cerâmicas e azulejarias, que o tempo e as ‘economias’ foram eliminando, não tem um Museu da Cerâmica e do Azulejo (Ovar tem, por exemplo), apesar de continuar com o edifício da antiga Estação desocupado.
Em contrapartida Aveiro, enquanto cidade, há alguns anos (não muito distantes) integrou a rede de Turismo Religioso, infelizmente sem articulação alguma e com a maioria das igrejas e capelas permanentemente fechadas. A par disto resta a incerteza quanto ao futuro do Museu Santa Joana, outro ícone da história da cidade.

Apesar de Aveiro ter, ao longo dos tempos, perdido muito da sua identidade e da sua história, resta a esperança nestas iniciativas por mais simples que, por mais simples que pareçam, são de um importante valor.

publicado por mparaujo às 09:50

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