Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

29
Jun 16

Projeto-Vivo-Bairro-Aveiro.jpg

publicado na edição de hoje, 29 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Faltam pessoas

Há, a nível nacional, nomeadamente nos principais, tradicionais e históricos centros urbanos das grandes cidades e das cidades médias portuguesas, uma patologia grave e comum: a sua descaracterização, a sua desertificação, o seu abandono, a sua degradação. E esta patologia, ou patologias, tem a sua sustentação no decréscimo ou abandono das actividades económicas e comercias, das tradições, da história, da vida comunitária e social. Esta é uma realidade que se acentuou na última década, é generalizada a vários pontos do país, já por diversas vezes referenciada, seja na comunicação social, seja por diversas entidades. Não é recente, nem novidade, a referência ao centro histórico e tradicional do Porto, aos bairros típicos de Lisboa, à “baixa” de Coimbra, etc. Aveiro não foge à (infeliz) regra. Basta recordar as diversas referências, neste aspecto, à Avenida Dr. Lourenço Peixinho, a algumas zonas do bairro da Beira Mar ou à tão repetida Rua Direita e zonas envolventes (Praça Marquês do Pombal, Bairro do Alboi - apesar da requalificação - Rua Belém do Pará e Gustavo Ferreira Pinto Basto).

Ao longo dos tempos, por diversas razões, estes centros foram perdendo a sua vitalidade, a sua identidade, a sua referência urbana ou a sua actividade comercial, deteriorando-se o património, o espaço público e acentuando a desertificação. Mudaram-se serviços, alterou-se a sua identidade e referência comercial, perderam-se as pessoas. E é essencialmente neste aspecto eu se torna mais notória a degradação dos centros urbanos: a ausência das pessoas. Seja pelo abandono dos espaços habitacionais, seja pela falta de pontos de referência (serviços, comércio, cultura). No caso da Rua Direita e da Avenida é evidente a degradação comercial, patrimonial e a desertificação: fecharam serviços (muitos), fechou comércio que, apesar de tradicional, era referência, as pessoas deixaram de habitar estes locais. Apesar da realidade é de louvar e registar a resistência e a motivação que leva os poucos moradores e comerciantes desta zona a não baixarem os braços, a lutarem contra o “destino”, contra a corrente, a promoverem o espaço público, as tradições e o sentido de comunidade e bairro, entretanto perdidos no tempo. Iniciativas como as que são proporcionadas pelo projecto Vivó Bairro, sustentadas na vontade dos cidadãos e alicerçadas em sólidas e importantes parcerias (Câmara Municipal de Aveiro, Universidade de Aveiro, etc.) são importante para a vitalidade dos centros urbanos, apara a mobilização das comunidades e dos bairros. Mas ainda mais… são importantes contributos para que se pense, se planeia, se estruture o território urbano. E neste aspecto é importante que os projectos que se desenvolvam ou as acções que se promovam tenham na sua estruturação uma condição fundamental: a construção de um território (bairro) ou de uma comunidade não se faz sem pessoas, sem que haja quem habite espaços, sem que haja quem procure o espaço público, sem que haja um foco gerador de movimentos e fluxos. Mesmo que tal implique alterações nas identidades e características destes centros e bairros.

Em Lisboa, a título de exemplo, tem havido publicamente alguma crítica à forma como se tem requalificado alguns bairros tradicionais e típicos da capital. Acusam os críticos que os bairros têm sofrido um acréscimo e um fluxo de pessoas sem raízes, visitantes ou turistas, que provocam uma rotação populacional que descaracteriza aquelas zonas. Mas a verdade é que a recuperação do património imobiliário em espaços de alojamento turístico local teve três aspectos que importa destacar: a recuperação e reabilitação urbana; o combate à desertificação; o combate à degradação dos imóveis que no caso de arrendamento não se afigurava possível. No fundo, o repensar uma nova identidade para aquelas zonas tradicionais de Lisboa permitiu dar uma nova vida aos bairros e às comunidades.

O que é importante é que as pessoas voltem a habitar os centros urbanos, preencham e vivam aqueles espaços públicos, permitindo, dessa forma, a revitalização das tradições, do comércio e da vivência comunitária, preservando o património e combatendo a desertificação e a degradação urbanas.

Que vivam os bairros.

publicado por mparaujo às 10:41

27
Jun 16

O Bloco de Esquerda na sua X Convenção, realizada este fim-de-semana, e pela voz da sua coordenadora Catarina Martins, defende a realização de um referendo sobre a permanência de Portugal na União Europeia (Zona Euro + UE). Mesmo que não seja de forma tão linear como no Reino Unido, já que para o BE e para Catarina Martins tal referendo está dependente da aplicação, ou não, de eventuais sanções europeias por incumprimento da meta do défice em 2015, a verdade é que o processo seria. em tudo, semelhante: deve ou não Portugal permanecer na União Europeia.

O populismo é gritante. Em pleno encerramento da Convenção e ainda sob os efeitos do resultado do referendo no Reino Unido (e o estado de choque que provocou no reino Unido e na Europa) nada melhor para o efeito mediático e para o populismo político do que um "sound bite" com este impacto na tentativa de aproveitamento político da frágil relação entre os portugueses e a União Europeia, nomeadamente pelo que foram os impactos da austeridade destes últimos quatro anos.

Mas há também uma enorme irresponsabilidade política por parte de Catarina Martins nesta afirmação (mais tarde tentada a amenizar as palavras face aos danos provocados e ao isolamento em relação a todos os outros partidos com assento parlamentar, ao Governo e ao Presidente da República). Primeiro, porque não é concebível que um partido que apoia no Parlamento o actual Governo queira fazer pressão ou chantagem públicas sobre a União Europeia em pleno processo negocial. Para além de toda a contradição de posição quando criticaram PSD e CDS por estes pedirem a Bruxelas que não sejam aplicadas as eventuais sanções.

Segundo, a irresponsabilidade é ainda maior quando parece que BE e Catarina Martins não perceberam o que esteve por trás da decisão de muitos dos britânicos que votaram "out" (alguns que agora se arrependem da sua decisão). Se não é por populismo ou por irresponsabilidade política que sentido faz o BE "associar-se" ou aproveitar um momento político do reino Unido quando é mais que sabido que as motivações que levaram ao voto no Brexit derivaram de vertentes políticas e, essencialmente, sociais (emigração, xenofobia, homofobia, racismo, ...) e que estão também na origem de muitas das reacções das extremas-direitas europeias (por exemplo, em França, na Áustria ou na Holanda)?

Um verdadeiro tiro no pé... provavelmente um prenúncio do que aconteceria em Espanha, no mesmo dia, com a derrota do Podemos nas eleições gerais espanholas; Podemos que até teve lugar de destaque nesta X Convenção do BE.

BE - X Convencao.jpg

publicado por mparaujo às 14:57

26
Jun 16

uk sai da UE.jpgpublicado na edição de hoje, 26 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
A EU em estado de choque

Na quinta-feira, 51,9% dos votantes do Reino Unido (Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte) decidiram-se, em referendo, pela saída do Reino Unido da União Europeia.

As perguntas que rapidamente surgiram, as de maior projecção, foram: Quem ganhou e quem perdeu? Qual o futuro do Reino Unido e da Europa?

Antes das respostas uma relevante nota prévia: este resultado, ou melhor, o impacto que este resultado possa ter no Reino Unido ou na Europa tem um rosto e um responsável: David Cameron. Não fora a tentação política do populismo fácil, a falta de capacidade e coragem política para enfrentar a crítica e a contestação, e o Reino Unido jamais passaria por uma situação desta natureza. A afronta de Cameron aos seus opositores e a via mais simplista e fácil de responder à crítica vão ficar na história política de Inglaterra e vão julgar a história política do agora ex Primeiro-ministro britânico.

À parte disto a resposta à primeira pergunta afigura-se simples de dar, mas provavelmente difícil de explicar.

De uma forma muito pragmática e sintética, apesar de todos os festejos de quem votou “Out” (BRexit) e após estes momentos de euforia e choque, parece óbvio que todos perderam ou perderão e que ninguém ganhou. Não ganhou uma sociedade britânica que cavou um enorme fosso geracional, hipotecando a vontade dos eleitores mais jovens de permanecerem no seio da União Europeia. Segundo os dados divulgados para uma média de idades na ordem dos 21 anos (com mais 69 anos de esperança de vida) cerca de 69% votaram pela permanência na UE. Por outro lado, para um a faixa etária com uma média de idade de cerca de 73 anos (com mais 16 anos de esperança de vida) a decisão de saída da União Europeia foi expressa por cerca de 58% dos votantes. Além disso, a forma como a Irlanda do Norte e a Escócia se manifestaram (55,7% e 62%, respectivamente) a favor da permanência na União Europeia deixa antever alguma conflitualidade política e uma brecha significativa na coesão britânica. De tal forma que o próprio futuro do Reino Unido afigura-se instável e incerto quando à sua integridade geopolítica, mas também são ainda desconhecidos (por mais prognósticos que se queiram apontar) os impactos ao nível económico que esta decisão possa provocar na economia e sistema financeiro do Reino Unido.

E quanto à Europa? Aqui não há muitas dúvidas. Foi aberta a Caixa de Pandora. Os danos colaterais vão ser significativos com a desintegração da União Europeia no horizonte, com a pressão política interna para referendos similares em países como Holanda, Bélgica, Dinamarca e até Suécia. E a culpa é da própria Europa.

A União Europeia perdeu já há algum tempo a sua génese, a sua identidade e a sua coesão. Subjugada há muito pela vertente e pelo pilar económico-financeiro, excessivamente dependente do poder germânico e de um sistema tecnocrata demasiado pesado e irrealista (aliás, sistema que nem é eleito), a União Europeia descorou o seu fundamento da solidariedade e não soube ou não foi capaz de lidar com a vertente política e social no seu todo.

Porque não haja qualquer dúvida. A saída do Reino Unido da União Europeia nada tem a ver com mercados, sistema financeiro ou questões ideológicas como referiu o líder da CGTP, Arménio Carlos, quando se referiu ao “grande capital e ao capitalismo”. Antes pelo contrário, bem pelo contrário.

A decisão teve uma clara influência da descaracterização política da Europa, da falta de solidariedade entre os Estados-membros, da falta de capacidade de resolução dos graves problemas sociais que atingiram a União Europeia, nomeadamente a questão das emigrações e dos refugiados.

E infelizmente não deveremos ficar por aqui.

publicado por mparaujo às 20:38

22
Jun 16

O dia é marcado pela participação da selecção portuguesa no último jogo de fases de grupos do Euro2016 que se realiza em França.

Face à alteração introduzida pela UEFA nos quadros competitivos, este foi uma primeira fase de um Europeu carregado de matemática, estatística e máquinas de calcular com a possibilidade de passagem à fase seguinte dos quatro melhores terceiros classificados de todos os grupos. Enfim... vale o que vale.

Deste modo poderá bastar à selecção portuguesa um empate no jogo de logo, às 17:00 horas, frente à Hungria. O que não retira um conjunto de críticas, de decepção e de desilusão face à forma como a equipa das Quinas disputou os dois jogos anteriores.

O nervosismo é alto, dentro e fora da equipa... isso é por demais evidente.

Aliás, só dessa forma se justifica a atitude de Cristiano Ronaldo para com um jornalista da CMTV, hoje de manhã.

Primeiro, não faz sentido que a Federação Portuguesa de Futebol permita o acompanhamento milimétrico da imprensa à selecção nacional e depois impeça que haja condições para que sejam entrevistados os jogadores. A comunicação social, a informação, não serve de meio promocional e não pode ser, permanentemente, vista como uma imprensa de "péd e microfone".

Segundo, podemos não gostar do CM e da CMTV, podemos até "odiá-los" e, por outro lado, qualquer cidadão tem o direito de não querer responder ou de ser importunado (e para tal existe a segurança da FPB e a sua Direcção de Comunicação e Imprensa). Ao Cristiano Ronaldo (pela maioria das razões óbvias) ou a qualquer cidadão não existe o direito de ofender o trabalho informativo de um profissional ou destruir o seu equipamento de trabalho.

Mesmo..... que seja o CM ou a CMTV.

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publicado por mparaujo às 12:04

15
Jun 16

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publicado na edição de hoje, 15 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Nem só as vacas voam

Confesso que não me trouxe estranheza nenhuma a alegoria usada pelo Primeiro-ministro na apresentação da reforma do Programa Simplex quando usou a imagem da “vaca voadora”. É do senso comum o recurso a essa analogia, como a do “já vi um porco a andar de bicicleta” ou igualmente “já vi um porco a voar”, para reforçar a ideia de que não há, em determinados contextos, tarefas ou objectivos impossíveis.

O que me causa maior estranheza e consequente repúdio é que não sejam apenas as vacas a voar na actual conjuntura. Lamenta-se é que seja também a ética, a moral e a responsabilidade política, a voarem.

O Partido Socialista e o Governo tiveram ainda muito recentemente, pelo menos a um nível interno (a ver vamos se a coragem política será a mesma no confronto com as instituições europeias e/ou a Alemanha), a coragem de enfrentar a Europa criticando e repudiando as eventuais sanções que possam vir a ser aplicadas a Portugal por incumprimento das metas e por défice excessivo. E muito bem. Aplauda-se. O que se estranha é que esta força política, esta coragem para o confronto, não seja aplicada internamente no que diz respeito ao sector da banca nacional. Ainda há, e com toda a certeza haverá, muito por explicar no que diz respeito ao negócio Banif/Santander. Muitas responsabilidades, sejam de quem for, ainda terão de ser assumidas ou atribuídas. E, em cima do processo, eis que surge o que para o comum dos cidadãos seria impensável: uma crise no banco do Estado, Caixa Geral de Depósitos.

Em causa estão cerca de 2,3 milhões de depósitos em risco; foi já anunciada ou está prevista a injecção de capital no valor de mais de 4 mil milhões de euros; em cima da mesa está o despedimento colectivo de cerca de 2000 funcionários em cerca de três anos. De novo a deficiência do nosso sistema financeiro, de novo as contas públicas e os contribuintes a sofrerem mais sacrifícios, de novo mais desemprego. E qual a medida do Governo, aprovada em Conselho de Ministros? Abrindo um perigoso procedente com uma excepção á regra que será pouco perceptível e aceitável, o Executivo de António Costa deliberou acabar com a limitação salarial da figura de gestor público na Administração (para os 19 administradores, repito, dezanove) da Caixa Geral de Depósitos. Isto não é, na actual conjuntura, minimamente moral e politicamente aceitável.

Mais… Muito mais estranhas são as posições do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português. Aqui a hipocrisia política, a falta de ética, a forma como se contraria todo um discurso e retórica desde sempre utilizados só porque agora sentem o conforto do poder é condenável. A cada passo, em momentos importantes na gestão do país, se vê confirmado o único objectivo que move BE e PCP na aliança com o PS na governação: apenas, pura e simplesmente, o impedimento de uma alternativa e governação à direita. Não há um interesse pelo país, pelos portugueses, apenas um móbil ideológico.

Para quem nos seus discursos políticos e programáticos sempre defendeu transparências e combateu a corrupção, sempre se disse ao lado dos mais fracos, dos que mais precisam, sempre se mostrou pronto para lutar pela justiça e equidade, sempre defendeu o bem público… nem uma palavra de condenação da decisão do Conselho de Ministros, nem uma dúvida sequer em relação à situação da CGD e, pior ainda, contra tudo o que tem sido exemplo até à data, um feroz bloqueio a uma comissão de inquérito parlamentar.

Também é assim que a ética, moral e responsabilidade políticas voam neste país.

publicado por mparaujo às 10:28

14
Jun 16

emigrar_nao.jpg

ou, se preferirmos, o que "hoje é verdade, amanhã será mentira". Em qualquer dos casos um questionável falta de memória, ou uma apurada memória selectiva, e uma considerável incoerência política.

Passos Coelho, ainda nos primeiros meses do seu mandato legislativo (dezembro de 2011), aconselhou os portugueses desempregados com habilitações, nomeadamente os professores a "olharem para os países de língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa".

Faltou apenas a "crucificação real em praça pública" porque tudo foi dito e proclamado como um grave e inaceitável desrespeito pelos portugueses. O apelo a que portugueses saíssem do país para encontrar o que na sua terra natal não lhes era permitido foi considerado (eu incluído) como um grave desrespeito pelos portugueses e pelos sacrifícios que, na altura, eram exigidos.

Não houve oposição que, tempos em tempos, não viesse recordar, na retórica política, esta infeliz e condenável afirmação de Passos Coelho.

Relembremos algumas das ferozes críticas endereçadas a Passos Coelho.

«um primeiro-ministro que aconselha os professores a emigrar é um Primeiro-ministro que não acredita no seu país, com braços caídos, que desistiu de lutar», António José Seguro, líder (á data) do PS.

«dizer que têm de emigrar é uma falta de vergonha imensa, o senhor Primeiro-ministro pode aproveitar e ir ele próprio desgovernar outros países e outros povos», Mário Nogueira, secretário-geral da FENPROF.

passos acoselha professores a emigrar.jpg

Mas em Portugal vivemos constantemente num atropelo à memória política, numa inaceitável incoerência política, num manifesto interesse político-partidário que apenas se manifesta quando daí tira proveito ou dividendos eleitoralistas e se cala quando a crítica incomoda o interesse e o poder instalado.

Há dois ou três dias, em França, após a disponibilidade do Presidente francês François Hollande para receber professores de português, o Primeiro-ministro António Costa tinha esta inequívoca (e gémea) expressão, face ao compromisso do governo francês de alargamento do ensino de português nas escolas francesas (só mudou a geografia): «é também uma oportunidade de trabalho para muitos professores de português que, por via das alterações demográficas, não têm trabalho em Portugal e podem encontrar trabalho aqui». (fonte: jornal i)

Diferenças nas posições, no contexto e no apelo só mesmo a ridícula afirmação de Mário Nogueira ao Jornal de Notícias, claramente demonstrativa do que é a política e como se faz política em Portugal: «as declarações de António Costa foram feitas no calor e entusiasmo do 10 Junho». Enfim... ridículo.

Quanto ao resto um condenável silêncio das vozes que há cinco anos vieram a terreiro bradar aos sete ventos: professores, sindicatos, BE, PCP, etc. Coerência e falta de memória política portuguesa é isto. Triste, mas é isto.

 

publicado por mparaujo às 14:10

08
Jun 16

21 Congresso PS.jpg

publicado na edição de hoje, 8 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Um congresso estratégico

A realização, no fim-de-semana passado, do 21º Congresso Nacional do Partido Socialista marcou a agenda política nacional. Os Congressos são, por norma, momentos altos da vida interna dos partidos com mais ou menos impactos externos muito em função das conjunturas políticas que se vivam. O 21º Congresso Nacional do PS não fugiu à regra, foi, aliás, bem mais contundente que o 36º Congresso Nacional do PSD realizado em Espinho no passado mês de abril. Fazendo aqui um paralelismo, porque os paralelismos, nestas circunstâncias, são inevitáveis, poder-se-ia deduzir que este congresso socialista foi tão morno ou soube tão a pouco como o dos sociais-democratas realizado em abril.

Duas vozes críticas internas, a de Francisco Assis e a de Ricardo Gonçalves (Sérgio Sousa Pinto acabou por entrar mudo e sair calado após o seu regresso à Comissão Política Nacional de onde se tinha demitido, precisamente em rota de colisão com a solução governativa encontrada após as eleições legislativas de 2015), uma tentativa de abertura do congresso à chamada “sociedade civil” mas falhada com a intervenção e escolha do nome de Pacheco Pereira como “outsider” partidário (a grande ausência terá sido, eventualmente, a de Manuela Ferreira Leite) e, por último, a forma muito descuidada com que o Congresso socialista olhou para a realidade do país (o desemprego que não desce, a economia que não cresce, a dificuldade de criação de emprego, a fraca produtividade e a queda das exportações, o défice excessivamente alto) apesar da pomposa ovação dedicada ao ministro da Educação demonstrando um claro e inequívoco apoio no processo dos contractos de associação no ensino básico e secundário. Poderíamos, portanto, dizer que foi muito pouco o que se viu e ouviu na FIL, em Lisboa, e não fossem os noticiários e a comunicação social, o 21º Congresso do PS passaria completamente à margem. Mas não foi bem assim… aliás, não foi, de todo, assim. Do ponto de vista da estratégia política, tão (ou demasiadamente) importante para a vitalidade governativa e para a consolidação interna do PS, este Congresso dos socialistas foi, de facto (e doa a quem doer) um enorme sucesso.

Primeiro porque consolidou a liderança de António Costa à frente do partido e da equipa governamental, bem como, salvo as duas excepções já referenciadas, eliminou qualquer impacto crítico interno unindo o partido em torno do que são, actualmente, os seus pragmatismos e princípios políticos.

Segundo porque validou e reforçou todos os compromissos assumidos com os partidos que legitimam parlamentarmente o actual Governo sendo cada vez mais previsível que a legislatura dure muito para lá das autárquicas de 2017, provavelmente até ao seu final.

Terceiro porque radicalizou a sua posição política e redefiniu a sua concepção ideológica, deixando cada vez mais claro um total vazio no centro político nacional, desviando-se cada vez mais para a esquerda e, desta forma, estancou ou bloqueou os ganhos que o Bloco de Esquerda estava a ter neste espectro político-partidário e eleitoral, reconquistando eleitorado (basta rever as últimas sondagens).

Por último, deixou o principal partido da oposição, o PSD, cada vez mais distante, cada vez mais isolado, com uma tarefa cada vez mais ingrata e difícil e, estrategicamente, colocou Passos Coelho entre a espada e a parede. A opção clara do Governo do PS de “syrização” da governação nacional e da relação entre o país e as instituições europeias, para além do impacto claramente positivo (mesmo que perigoso e instável) na opinião pública farta de tanto sacrifício e austeridade (mesmo que ela não tenha desaparecido, de todo), colocou o PSD e Passos Coelho num autêntico beco político sem saída. Se o PSD não condenar expressa e formalmente eventuais sanções europeias a Portugal será sempre visto como conivente com a austeridade europeia, com a ausência de solidariedade entre os países da UE, terá sempre o ónus sobre si de ser cúmplice com um grave atropelo e atentado à soberania nacional. Por outro lado, se o PSD se colocar ao lado do PS e da Esquerda na resolução que condene eventuais sanções a Portugal cairá a máscara de bom aluno, do cumprimento dos acordos e das medidas promovidas nos últimos quatro anos, perderá argumento e força política para ser oposição à actual conjuntura política e governativa, algo aliás que não tem conseguido encontrar, diga-se, desde as últimas eleições legislativas e desde o último congresso social-democrata.

Este foi o grande sucesso político do Congresso do PS e esta foi a grande vitória estratégica de António Costa. Por muito tempo? Logo se verá. Para já é um facto.

publicado por mparaujo às 10:15

01
Jun 16

Marcelo e Costa.jpg

Publicado na edição de hoje, 1 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O incómodo presidencial

Apesar do impacto que os primeiros dias ou as primeiras semanas da função presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa causou na sociedade portuguesa, o “estado de graça” foi-se desvanecendo com o tempo e com a evolução conjuntural política, externa ou interna, como era expectável.

Também não é menos verdade que, apesar do resultado inequívoco alcançado por Marcelo Rebelo de Sousa nas eleições presidenciais no início deste ano, com o leque de votantes a abranger os diversos quadrantes partidários, esta intromissão no eleitorado de esquerda não foi bem digerida por alguns responsáveis partidários, nomeadamente no Bloco de Esquerda. Daí não ser de estranhar alguma animosidade ou desconfiança política em relação ao actual Presidente da República.

A mais recente controvérsia resulta da afirmação pública de Marcelo Rebelo de Sousa. No final de uma visita ao Regimento de Comandos, na Amadora, o Presidente da República referiu que não seria por sua influência ou pressão que haveria alguma crise política no país e que entendia ser sempre preferível que as legislaturas durassem todo o seu mandato (quatro anos). Até aqui nada de novo em relação às posições de Marcelo Rebelo de Sousa que são publicamente conhecidas. A controvérsia surge pelo facto do Presidente da República ter acrescentado um outro dado a esta sua afirmação: a referência ao processo eleitoral autárquico do próximo ano e que, no seu entender, poderá marcar o actual ciclo político.

Face a esta observação política, legítima para quem, em qualquer momento de uma legislatura, necessita de analisar a conjuntura política, social e económica, avaliar o estado da Nação e ponderar e decidir sobre o futuro político do país, não se compreendem algumas reacções críticas à observação do Presidente da República, nomeadamente por parte do Bloco de Esquerda e de alguns sectores do PS.

Primeiro, porque o Presidente da República teve uma afirmação natural para quem tem nas mãos uma das funções de garante da democracia no país, mesmo que pareça, às vezes, que Marcelo Rebelo de Sousa tenha alguma dificuldade em despedir o seu “fato de comentador dominical”.

Segundo, porque o Presidente da República não deixou nenhum recado directo ou específico ao PS, ao Governo ou aos partidos que suportam, no Parlamento, esta governação. A menos que haja informação ou dados políticos relevantes no segredo dos deuses ou nos bastidores do poder que confirmem os rumores públicos de que Belém terá elementos suficientes para duvidar do sucesso das políticas governativas e da manutenção dos compromissos assumidos à esquerda entre o PS/Governo, BE e PCP, nomeadamente no que diz respeito à confiança no cenário económico e financeiro traçado para o país.

Por último, criticar o Presidente da República de tentativa de “presidencialização do regime”, como afirmou Catarina Martins, ou de que a mensagem de Marcelo Rebelo de Sousa foi tudo menos estabilizadora, como foi referido por vozes socialistas, leva a crer que, afinal, as palavras e a análise política do Presidente da república não foi, nem parece ser, assim tão descabida. Mas é estranho… é estranho porque o óbvio da afirmação de Marcelo Rebelo de Sousa é que não tem necessariamente de ser direccionada para o Governo ou para os partidos da “posição”.

As eleições autárquicas de 2017 são, de facto, em termos políticos e partidários, um marco muito relevante neste ciclo legislativo que vivemos. E serão um reflexo político com consequências para actual conjuntura política, sendo óbvia a sua extrapolação para o contexto político nacional. As autárquicas de 2017 serão um marco determinante para o Governo, como avaliação do trabalho até à data realizado; serão também para o Bloco de Esquerda que nunca foi um partido vocacionado para a gestão autárquica e que permitirá ainda avaliar o peso político de um partido é a principal alavanca deste Governo, mantendo em permanente pressão o Partido Socialista; mas serão igualmente determinantes e fulcrais para o PSD e para a liderança de Passos Coelho, principalmente porque determinarão o futuro do partido enquanto oposição e determinarão identicamente a estratégia política do partido e de Passos Coelho para as próximas legislativas.

Com ou sem estabilidade, a análise do Presidente da República é óbvia, natural e assertiva: de facto, as eleições autárquicas de 2017 marcarão, seja para quem for, um novo ciclo político.

publicado por mparaujo às 09:53

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