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20
Dez 15

Nobel da Paz Uniao Europeia.jpgpublicado na edição de hoje, 20 de dezembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
A galardoada Europa, Nobel da Paz

As recentes eleições regionais em França, disputadas a duas voltas, deixaram marcas e instalaram algum pânico político e social, por mais que se queira valorizar os resultados finais com a vitória do partido republicano de Nicolas Sarkozy e da derrota de Marie Le Pen. Mas a verdade é que os resultados significativamente positivos da Frente Nacional na primeira volta obrigaram a direita e os socialistas a um jogo de rins político e a muita retórica para evitar o que seria o início do extremismo partidário e ideológico em França. No entanto, apesar de Marie Le Pen não ter ganho em nenhum dos círculos eleitorais, importa referir que a extrema-direita aumentou, neste processo eleitoral, o número de votos e de eleitos. Mas este avançar dos extremos partidários e ideológicos na Europa não é exclusivo da extrema-direita francesa. A realidade mais recente verificou-se na Grécia com uma inimaginável coligação entre esquerda radical e extrema-direita, bem como o crescente número de partidos radicais e eurocépticos que surgiram das últimas eleições europeias, criando obstáculos democráticos e promovendo radicalismo, nacionalismos ou fundamentalismos seccionistas. No entanto, este extremar ideológico não cria apenas um vazio programático no centro político, de que Portugal é recentemente exemplo e o qual a Espanha quer evitar com uma eventual aproximação entre PP e PSOE, mas projecta-se, muito para além da política, nas vivências sociais da Europa, de cada Estado-membro, das comunidades. Do ponto de vista político, a crise financeira global do pós-2008 projectou as primeiras posições extremistas e radicais, abalou a identidade europeia e os seus princípios fundadores, fez nascer os eurocépticos e as cisões. A trágica crise dos refugiados que tem batido às portas da Europa e que tem assolado a estabilidade internacional fez explodir, para além da vertente política, uma realidade ideológica e fundamentalista com claros impactos na sociedade. A Europa, abalada na sua estruturação, nas suas relações internas, nos impactos que crise provocou na solidariedade, na justiça e na equidade entre os Estados-membros, e a instabilidade e o impacto económico-social que a austeridade gerou nalgumas comunidades, não conseguiu, nem está a conseguir, lidar com esta tragédia humana, quer internamente, quer na solução ou resolução do problema na origem (ou origens), tendo nas mão umas das maiores tragédias do pós-Guerra, fazendo recordar o êxodo húngaro de 1956 ou o conflito na ex-Jugoslávia e nos Balcãs entre 1991-1999, por exemplo. Curiosamente perante uma Europa que ainda há bem pouquíssimo tempo (2012) foi galardoada com o Nobel da Paz.

A desorientação política da União Europeia, a falta de posições concertadas entre os Estados, o surgimento do radicalismo e do fundamentalismo, a queda dos valores da solidariedade e da tolerância, têm sido razões mais que suficientes para se justificar esta incapacidade de encontrar uma solução cabal e capaz. Por outro lado, tudo isto tem levado a posições surreais só justificáveis pela total ausência de estratégia social e política. A mais recente foi avançada ainda esta semana pela imprensa que dava nota que a Dinamarca se prepara para iniciar o novo ano de 2016 com a aprovação de uma lei que permite confiscar jóias e dinheiro (valor acima dos 300 euros) a quem solicitar asilo, nomeadamente aos refugiados.

É gritante esta incapacidade de distinguir um imigrante de um refugiado. É gritante e preocupante esta incapacidade para lidar com a tragédia, com quem simplesmente foge da morte, de quem é obrigado a desafiar a vida para se salvar da morte certa.

Para quem não sabe o que lhe reserva o dia de amanhã, quanto mais o futuro, para quem procura na Europa a salvação apesar das dificuldades económicas e sociais que a Europa vive (por exemplo, o desemprego), por que razão se há-de confiscar alguma esperança que ainda lhes resta?

Para nota final, a propósito da chegada dos primeiros refugiados a Portugal, algumas reportagens davam conta da preocupação de muitas famílias quanto ao futuro após os dez meses de apoio que lhes foi concedido, nomeadamente na mais que conhecida e sentida falta de emprego no nosso país. Confiscar alguma da hipotética capacidade de sobrevivência faz algum sentido? Confiscar o que é a propriedade e o sonho de qualquer cidadão é moralmente legítimo?

No entanto continuamos a viver numa Europa galardoada com a Paz.

publicado por mparaujo às 11:10

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