Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

27
Mar 16

ng6283903.jpgpublicado na edição de hoje, 27 de março, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
“Je Suis… Brussels”

É um facto... é condenável e provoca um enorme sentimento de revolta e indignação o que se passou, esta semana, em Bruxelas, na capital belga e em pleno coração da União Europeia.

O terrorismo tem de ser combatido; a intolerância, a não aceitação do outro, a falta de liberdade e de democracia, têm de ser combatidos de forma voraz e eficaz. Não podemos viver com esta noção de medo, de insegurança, da desconfiança permanente por quem caminha ao nosso lado, com a crescente onda de exclusão e de radicalismos ou extremismos que surgem nestes momentos trágicos e que têm surgido em torno da questão dos refugiados (que normalmente é sempre "mal" colada a estes episódios). Nada disto tem a ver com a trágica crise humanitária dos refugiados… bem pelo contrário. Fogem da mesma tragédia que a Bélgica sentiu por minutos e que muitos, desde adultos a crianças, vivem há anos e permanentemente.

Mas também temos que ser coerentes e racionais nestas alturas. Indignamo-nos, revoltamo-nos, somos todos "Charlie" e "Je Suis...", rezamos por Paris, como rezámos por Madrid, Londres e agora também por Bruxelas ("Pray for Brussels"). Mas somos, ao mesmo tempo, hipócritas. Tocam-nos, legitimamente, os atentados em "nossa casa", no seio da “nossa” Europa, no coração das instituições europeias. Temos esse direito? Claro que temos... o direito e a obrigação "moral e solidária". E é verdade que está em causa a defesa do princípio da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade (pelo menos), a que se junta uma inacreditável irresponsabilidade política dos países europeus e da União Europeia quer na sua defesa, quer no combate ao terrorismo, quer na forma exploratória com que sempre lidou com países como a Síria, o norte e o centro de África ou o Médio Oriente, quer na forma como não consegue lidar com a tragédia humanitária dos refugiados. Acresce ainda a responsabilidade dos Estados Unidos e do que foi a crise no Iraque e a “histórica” cimeira das Lajes onde Bush impôs o ataque a Sadam com as repercussões que hoje sentimos com a revolta sunita.

Há hipocrisia e incoerência quando privilegiamos uma Europa e uma sociedade exclusivamente economicistas e financeiras, para depois virmos "chorar" pela Liberdade, pela Democracia, pelos Valores Sociais (a justiça social, a igualdade, a inclusão, etc.).

Mas é também sermos hipócritas e incoerentes quando bradamos aos céus e a todos os ventos por estes atentados, reclamamos a justiça pelas vítimas inocentes, mas, simultaneamente, desviamos o olhar, sentimos indiferença, apatia, Nigéria, Quénia, Mali, Tunísia, Costa do Marfim, Centro de África, Afeganistão, Iraque... e principalmente quando não conseguimos defender, nem proteger, a Síria ou negociamos imoralmente com a Turquia deixando-a a "ferro e fogo", sem vertermos uma única palavra ou lágrima de revolta.

Pedimos bandeiras para fotos de perfil, luzes que espelhem as cores da Bélgica na Torre Eiffel ou na Torre de Belém, mas importa questionar: onde esteve projectada a bandeira da Rússia quando abaterem o avião russo no deserto ou a bandeira da Turquia sempre que lá há um (constante) atentado ou a da Tunísia a lembrar o último atentado no resort em 2015 ou na Costa do Marfim também num resort, no início deste mês, etc., etc., etc.?

Pela coerência, pela verdade, pelo respeito por todos, Je Suis... Madrid, Londres, Charlie, Paris, Bruxelas, Turquia, Nigéria, Quénia, Síria, Costa do Marfim, Tunísia, Iraque, ... onde existam vítimas da intolerância, da falta de liberdade, dos radicalismos e extremismos (sejam eles políticos ou religiosos... ou ambas as coisas).

"Je Suis..." pela LIBERDADE, IGUALDADE, pela VIDA, pelos DIREITOS UNIVERSAIS.

Hoje, como "ontem" noutras circunstâncias, "Je Suis... Bruxels", sem hipocrisia. Mas também por uma Europa (e União Europeia) inclusiva, capaz de receber e acolher, sem xenofobias, capaz de incluir sem guetos, sem marginalização, dar liberdade com responsabilidade. Porque o problema deste terrorismo fanático e religioso tem contornos conhecidos e tem de ser combatido para além fronteiras, bem na sua génese, com a assunção de responsabilidade: da Europa, da ONU, da Arábia Saudita, do Médio Oriente, do próprio Islamismo, dos Estados Unidos. As vítimas inocentes merecem esse respeito, merecem essa honra.

publicado por mparaujo às 21:52

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