Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

29
Jun 16

Projeto-Vivo-Bairro-Aveiro.jpg

publicado na edição de hoje, 29 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Faltam pessoas

Há, a nível nacional, nomeadamente nos principais, tradicionais e históricos centros urbanos das grandes cidades e das cidades médias portuguesas, uma patologia grave e comum: a sua descaracterização, a sua desertificação, o seu abandono, a sua degradação. E esta patologia, ou patologias, tem a sua sustentação no decréscimo ou abandono das actividades económicas e comercias, das tradições, da história, da vida comunitária e social. Esta é uma realidade que se acentuou na última década, é generalizada a vários pontos do país, já por diversas vezes referenciada, seja na comunicação social, seja por diversas entidades. Não é recente, nem novidade, a referência ao centro histórico e tradicional do Porto, aos bairros típicos de Lisboa, à “baixa” de Coimbra, etc. Aveiro não foge à (infeliz) regra. Basta recordar as diversas referências, neste aspecto, à Avenida Dr. Lourenço Peixinho, a algumas zonas do bairro da Beira Mar ou à tão repetida Rua Direita e zonas envolventes (Praça Marquês do Pombal, Bairro do Alboi - apesar da requalificação - Rua Belém do Pará e Gustavo Ferreira Pinto Basto).

Ao longo dos tempos, por diversas razões, estes centros foram perdendo a sua vitalidade, a sua identidade, a sua referência urbana ou a sua actividade comercial, deteriorando-se o património, o espaço público e acentuando a desertificação. Mudaram-se serviços, alterou-se a sua identidade e referência comercial, perderam-se as pessoas. E é essencialmente neste aspecto eu se torna mais notória a degradação dos centros urbanos: a ausência das pessoas. Seja pelo abandono dos espaços habitacionais, seja pela falta de pontos de referência (serviços, comércio, cultura). No caso da Rua Direita e da Avenida é evidente a degradação comercial, patrimonial e a desertificação: fecharam serviços (muitos), fechou comércio que, apesar de tradicional, era referência, as pessoas deixaram de habitar estes locais. Apesar da realidade é de louvar e registar a resistência e a motivação que leva os poucos moradores e comerciantes desta zona a não baixarem os braços, a lutarem contra o “destino”, contra a corrente, a promoverem o espaço público, as tradições e o sentido de comunidade e bairro, entretanto perdidos no tempo. Iniciativas como as que são proporcionadas pelo projecto Vivó Bairro, sustentadas na vontade dos cidadãos e alicerçadas em sólidas e importantes parcerias (Câmara Municipal de Aveiro, Universidade de Aveiro, etc.) são importante para a vitalidade dos centros urbanos, apara a mobilização das comunidades e dos bairros. Mas ainda mais… são importantes contributos para que se pense, se planeia, se estruture o território urbano. E neste aspecto é importante que os projectos que se desenvolvam ou as acções que se promovam tenham na sua estruturação uma condição fundamental: a construção de um território (bairro) ou de uma comunidade não se faz sem pessoas, sem que haja quem habite espaços, sem que haja quem procure o espaço público, sem que haja um foco gerador de movimentos e fluxos. Mesmo que tal implique alterações nas identidades e características destes centros e bairros.

Em Lisboa, a título de exemplo, tem havido publicamente alguma crítica à forma como se tem requalificado alguns bairros tradicionais e típicos da capital. Acusam os críticos que os bairros têm sofrido um acréscimo e um fluxo de pessoas sem raízes, visitantes ou turistas, que provocam uma rotação populacional que descaracteriza aquelas zonas. Mas a verdade é que a recuperação do património imobiliário em espaços de alojamento turístico local teve três aspectos que importa destacar: a recuperação e reabilitação urbana; o combate à desertificação; o combate à degradação dos imóveis que no caso de arrendamento não se afigurava possível. No fundo, o repensar uma nova identidade para aquelas zonas tradicionais de Lisboa permitiu dar uma nova vida aos bairros e às comunidades.

O que é importante é que as pessoas voltem a habitar os centros urbanos, preencham e vivam aqueles espaços públicos, permitindo, dessa forma, a revitalização das tradições, do comércio e da vivência comunitária, preservando o património e combatendo a desertificação e a degradação urbanas.

Que vivam os bairros.

publicado por mparaujo às 10:41

25
Fev 16

Na notícia dá pelo nome de "Licor de Aveiro"... penso que por uma questão de marketing e de comercialização.

Tradicionalmente, entre as gentes da beira-mar (zona antiga da cidade), dos devotos de S. Gonçalinho, também dá pelo nome de "Xiripiti" ou "Licor de Alguidar".

Seja como for... é de Aveiro, bem de Aveiro, e foi premiado em Moscovo.

Obrigado Rússia. Spasibo Moskvu.

Licor de Aveiro - Xiripiti.jpg

 (clicar na imagem para aceder à notícia na Litoral Magazine)

publicado por mparaujo às 11:30

23
Abr 15

Faleceu um dos homens que mais lutou e fez por Aveiro, na história desta terra e destas gentes.

Mas há mais, muito mais, na vida para além da política.

E a ligação ao Dr. Girão Pereira era muito mais que isso e desde que me conheço como gente.

Pela primeira vez... faltam-me as palavras. E faltam-me mesmo... por um turbilhão de sentimentos.

Só não me digam "é a vida". Quanto muito... "foi uma vida". Intensa, cheia e dada.

Descanse em paz.

girao pereira.jpg

 

publicado por mparaujo às 09:40

09
Mar 15

Arcos antigo.jpgpublicado na edição de ontem, 8 de março, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Identidades perdidas…

Não sou, nem espero vir a ser, adepto do chavão “antigamente é que era…”. Uma sociedade, uma comunidade, um país, desenvolve-se e estrutura-se na evolução e na dinâmica dos acontecimentos que marcam a sua história. E não agarrado a “amarras” saudosistas.
Não quero dizer com isto, antes pelo contrário, que se deva esquecer e “enterrar” o passado. Longe disso. Manter viva a identidade histórica, cultural e social de uma comunidade (seja qual for a sua dimensão) é tão importante como promover a dinâmica e a evolução, viver o presente e projectar futuros. Não viver amarrado a um tempo passado não é o mesmo que negá-lo ou renegá-lo como se não tivesse sido nesse mesmo tempo que foi alicerçado e se vive o presente.

Veio-me à memória, principalmente num tempo em que face às circunstâncias destes últimos dias a memória parece cada vez mais colocada em causa, o falecimento recente de Amadeu Ferreira, um dos principais impulsionadores do mirandês, segunda língua oficial portuguesa, que, apesar da sua circunscrição regional diminuta, não deixa de ser uma das referências históricas de Portugal (nas suas origens) e uma marca da identidade cultural e social do nosso país (independentemente das nossas ligações ou indiferenças à “terra fria” do Nordeste Transmontano).

Valorizar e promover a identidade de uma comunidade é sustentar a sua história e enriquecer o presente que se vive.
Aveiro tem, nesta vertente, bons e maus (alguns péssimos) exemplos. E também projectos e planos com valor.

Não me parece relevante, a menos que por razões nostálgicas, o ressurgir do “polícia sinaleiro” (que Aveiro teve em tempos e vários) como aconteceu noutras cidades (Porto e Lisboa, como exemplos). Mas a ideia da autarquia aveirense recuperar e dar dignidade aos espaços antigos dos engraxadores nos Arcos, parece-me um excelente projecto. Não pela profissão em si, mas pela revitalização de um espaço nobre na cidade, pela sua identidade e por aquilo que sempre representou no coração urbano. Identidade e referência que serviram de base à escolha do título destas rubricas bissemanais (mais ou menos regulares… e já lá vão nove anos), bem como o título do blogue “Debaixo dos Arcos”. E os motivos são simples. A zona da Praça Melo Freitas e dos Arcos, aos quais se juntou mais tarde, o monumento à Liberdade, para além da sua inclusão no típico bairro da Beira Mar, foi, durante muitos e muitos anos, um espaço de encontro, de diversidades, de tertúlias espontâneas, do escárnio e mal dizer populares e instintivos. Também local de culturas, de comércio e feira (bem antigo, por exemplo a feira das cebolas), de informação (basta recordar os espaços onde eram afixadas as primeiras páginas de jornais como o extinto Comércio do Porto, o Primeiro de Janeiro, o Jornal de Notícias, entre outros, as notícias do Beira Mar e do Galitos, etc) e de ponto de encontro, marcado pela constante presença característica dos engraxadores. Retomar esta identidade é renovar a vida e o centro da cidade e valorizar a sua história.

Pena é que se tenham perdido, no tempo e com o tempo, outras oportunidades de preservação da nossa identidade. Excepção para o aproveitamento turístico dos canais urbanos da Ria, Aveiro, enquanto cidade, deixou de ter que oferecer e mostrar a sua identidade a quem nos visita. Apesar do esforçado EcoMuseu da Troncalhada, uma cidade que se alicerçou na importância social e económica do Sal, perdeu quase toda a beleza das salinas e não tem um verdadeiro Museu do Sal.
Aveiro, enquanto cidade, que foi crescendo em torno das suas cerâmicas e azulejarias, que o tempo e as ‘economias’ foram eliminando, não tem um Museu da Cerâmica e do Azulejo (Ovar tem, por exemplo), apesar de continuar com o edifício da antiga Estação desocupado.
Em contrapartida Aveiro, enquanto cidade, há alguns anos (não muito distantes) integrou a rede de Turismo Religioso, infelizmente sem articulação alguma e com a maioria das igrejas e capelas permanentemente fechadas. A par disto resta a incerteza quanto ao futuro do Museu Santa Joana, outro ícone da história da cidade.

Apesar de Aveiro ter, ao longo dos tempos, perdido muito da sua identidade e da sua história, resta a esperança nestas iniciativas por mais simples que, por mais simples que pareçam, são de um importante valor.

publicado por mparaujo às 09:50

29
Out 14

pavilhao_do_beira-mar.jpgpublicado na edição de hoje, 29 de novembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Um fim mais que anunciado

A realidade foi sendo protelada durante algum tempo mas chegou: o pavilhão do Beira Mar, o pavilhão do Alboi, o pavilhão dos Santos Mártires, encerrou portas. O Sport Clube Beira Mar perde, assim, um dos seus últimos patrimónios e um ícone para as modalidades amadoras, nomeadamente o Basquetebol, o Boxe, o Judo, entre outras. Já para não falar na extinta modalidade do Andebol. Como aveirense e após alguns anos como treinador de basquetebol no clube não posso deixar de sentir alguma mágoa pelo rumo dos acontecimentos e pelo desfecho final. Assisti e vivi momentos empolgantes e vibrantes que ficarão, enquanto conseguir, na minha memória, para além de todos aqueles que comigo os partilharam. Ver encerrar este espaço que comporta inúmeras histórias e “estórias” do desporto e da vida aveirense é sempre de lamentar.

Mas a realidade tem um outro lado da moeda.

A continuidade, ou não, do pavilhão do Beira Mar já não é um processo novo. Há mais de 12 anos que já se falava da construção de um novo pavilhão: primeiro na antiga zona da Lota e posteriormente junto ao novo estádio. Toda a polémica envolvendo a anterior SAD e um grupo de ex-directores do clube acabou por ditar o fim do pavilhão.

Só que há, neste processo, um conjunto de interrogações que importa destacar.

Em Portugal há um princípio genético na sociedade de uma tendência questionável para o sentido de posse e de propriedade, muitas das vezes aliada a bairrismos discutíveis. O “ter” sobrepõe-se, maioritariamente, ao “haver”, “ser” e “comunitário”. Durante anos a fio, o país viveu alheado da sustentabilidade dos recursos, da partilha, da dimensionalidade. No caso concreto, Aveiro não foi capaz, por inúmeras e distintas razões, de criar estruturas únicas, comuns, que pudessem ser partilhadas por várias instituições e pelos aveirenses. Relacionando com esta questão do pavilhão do Alboi, teria sido muito mais eficaz e eficiente a construção de uma estrutura única que servisse escolas, comunidade e clubes, nomeadamente o Galitos e o Beira Mar. Nada complicado. Mas a verdade é que não foi feito.

Por outro lado, há ainda uma questão que o próprio clube deve meditar neste infeliz desfecho. Desde a questão do caso “penhora do pavilhão”, ano após ano (e a história não é assim tão recente) que se interroga a continuidade das modalidades naquele espaço. Toda a movimentação que agora surge em torno do pavilhão e do erguer de um novo, deveria ter tido outros desenvolvimentos e outros esforços ao longo deste período. Porque este final era, inquestionavelmente, conhecido e expectável.

Deixou-se cair, um pouco, no esquecimento e no arrastamento de uma solução sustentável para o Pavilhão do Alboi, tal como se arrasta o renascimento e a reestruturação do clube, devolvendo-o de novo aos bons momentos, ou, qui ça, a uma total reformulação da vida do clube que pode passar, sem qualquer tipo de constrangimentos, pela chamada “estaca zero”, como são tantos os exemplos no país (Feirense, Salgueiros, Boavista, etc., etc.)

Há uma certeza nesta infeliz realidade. O Sport Clube Beira Mar perdeu, nas duas últimas décadas, identidade, ligação à cidade e à Região e, principalmente, perdeu património: não tem um estádio próprio, não tem uma piscina, não tem um pavilhão, não tem uma sede e não tem sócios.

Não foi apenas um pavilhão que o Beira Mar perdeu… foi muito da sua alma e da sua história.

Espero que saiba e consiga, a bem de Aveiro e dos aveirenses, renascer destas cinzas.

publicado por mparaujo às 09:23

22
Set 14

Longe vai o tempo das paisagens com os montes brancos de sal a seguir ao Canal de S.Roque ou na marginal em direcção à Gafanha da Nazaré. Não é uma questão de saudosismo, é a constatação de uma realidade.

O chamado "progresso" urbano, a vertente ambiental, as alterações na Ria de Aveiro, razões económicas e sociais, ditaram o abandono da quase totalidade das salinas/marinhas em Aveiro.

Por isso, longe também vão os tempos de um dos grandes pólos económicos e de desenvolvimento da cidade e da região: o Sal.

Há, no entanto, quem ainda resista aos novos tempos e aos novos mercados. Poucos, mas ainda os há e que vão resistindo mesmo nas adversidades.

É o que relata o jornalista Rui Tukayana, da TSF, neste trabalho sobre a produção de sal neste ano de 2014: muita qualidade mas pouca quantidade devido a um verão perfeitamente atípico.

"Pouco sal nas salinas", uma reportagem de Rui Tukayana.

Faz falta em Aveiro um museu permanente (para além do ecomuseu da Troncalhada) da história social, cultural e económica do Sal. Tal como faz falta um museu permanente da história social, cultural e económica do Azulejo, do Barro e da Cerâmica.

Não por saudosismo mas pela preservação da identidade e história aveirenses, projectando-se assim novos futuros.

publicado por mparaujo às 11:41

20
Jul 14

publicado na edição de hoje, 20 de julho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Não ‘crucificar’ o mensageiro
“Não crucifiquem o mensageiro” é uma expressão normalmente usada para desresponsabilizar quem transmite uma determinada mensagem, informação, decisão, pela qual não é responsável ou decisor. Vem a referência a propósito de presença do Secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, na apresentação pública do Plano Intermunicipal de Mobilidade e Transportes da Região de Aveiro (PIMTRA) promovido pela CIRA, na passada quinta-feira.
Seria de esperar que a apresentação pública do referido plano tivesse tido um outro impacto junto dos aveirenses e da região de Aveiro. Por exemplo, a intermunicipalidade na gestão do transporte público, a vertente das acessibilidades e trânsito, a análise de fluxos de movimentações e atractividades, o impacto dos modos suaves de mobilidade como os pedonais e cicláveis, a reabilitação da Linha do Vouga entre Aveiro e Águeda e, tal como referiu o presidente da CIRA, tem um relevante impacto ao nível da economia, dos fluxos laborais e de ligação entre pólos universitários (UA e ESTGA). Mas, infelizmente, a presença do “mensageiro” do Governo desvalorizou a inquestionável importância do Plano Intermunicipal de Mobilidade e Transportes da Região de Aveiro. E infelizmente porque a presença do Secretário de Estado dos Transportes, inevitavelmente, transferiu para outras temáticas a curiosidade da opinião pública.
Primeiro, a questão da ligação ferroviária Aveiro-Salamanca associada ao projecto vulgarmente conhecido como rede TGV. A Rede de Alta Velocidade é um dos episódios mais insólitos da agenda política ainda do tempo de governação de José Sócrates. Foram estudos atrás de estudos, planeamentos não executados, obras que foram interrompidas, anúncios de ligações depois não confirmados, abandono do projecto com a entrada da Troika e a mudança de Governo, reavaliação do projecto, reformulação dos conceitos, de novo anúncios e desmentidos, confirmações e apenas considerações… Houve de tudo, há de tudo. Aveiro é disso exemplo. Afastada a ligação do Porto de Aveiro/Salamanca na primeira abordagem do plano, prevista na reformulação do projecto sendo, aliás, motivo de gáudio dos aveirenses, tudo volta, de novo, à incerteza e à indefinição, a novos estudos e reavaliações, tal como afirmou o Secretário de Estado. A esperança dos aveirenses reside agora na recentemente criada “Plataforma A25” que congregará os argumentos e as convicções dos municípios de Aveiro, Viseu e Guarda, com o peso económico e comercial do Porto de Aveiro. Projecto inter-regional que se reveste cada vez mais de maior importância conhecida a posição da autarquia de Coimbra, à qual se juntou a voz do anterior presidente, que contestam a ligação Aveiro-Salamanca contrapondo com a pretensão do reforço da linha da Beira Alta.
Mas o mau presságio ainda estaria para vir. Sérgio Monteiro deu uma considerável “machadada” na pretensão antiga dos aveirenses, e da região envolvente, de verem anulados os pórticos que circundam Aveiro. O Secretário de Estado dos Transportes foi claro ao afirmar que “os pórticos vão prosseguir activos em Aveiro. O Governo não está em condições de prescindir das receitas". Indo mais alonge ao afirmar que o Governo não podia “abrir um precedente”.
Sendo certo que esta “guerra” estará longe de estar perdida, acreditando no esforço que a autarquia aveirense e a CIRA ainda poderão fazer para reverter a situação, a verdade, tal como já o referi por diversas vezes aqui, é que o processo de reivindicação foi demorado, lento e cometeu o “erro” de se focar apenas no pórtico do Estádio (esquecendo o de Angeja, o da saída da A1/A29 e o de Oliveirinha/S.Bernardo) esgotando a eficácia da argumentação mais abrangente da cintura interna de Aveiro e dos impactos sociais e económicos na zona envolvente (onde se inclui a ligação das zonas industriais de Cacia, Taboeira e Mamodeiro, e ao Porto de Aveiro). E esta realidade não pode ser contraposta por argumentos de “abertura de precedentes” já que ela vai muito para além da questão do princípio do utilizador-pagador ou da sustentabilidade financeira das ex-scut.
Infelizmente, o “mensageiro”, que não pode estar isento pelas responsabilidades governativas que tem, trouxe péssimas notícias aos aveirenses. E Aveiro não pode voltar a cruzar os braços e ficar passivamente à espera.

publicado por mparaujo às 12:12

15
Jun 14

publicado na edição de hoje, 15 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Reflexão com a mão no barro

É do conhecimento público que este ano não haverá lugar à tradicional Feira do Artesanato de Aveiro – FARAV. Por decisão da autarquia aveirense haverá lugar à reflexão sobre o futuro deste evento. Além disso, iniciou-se ontem um novo projecto e conceito de animação do espaço público com o “Artes no Canal” que, entre outros, tem como objectivo fundir um conjunto de iniciativas avulsas e esporádicas que iam ocorrendo na cidade. Por outro lado, a Feira do Livro de 2014 foi transferida do Rossio para o Mercado Manuel Firmino. O que é que há de comum nesta mistura de factos e realidades ocorridas na vida cultural aveirense? Muita coisa.

Referi aqui, e disse-o a quem de direito, em 2010, quando foi transferida a FARAV do Parque de Exposições de Aveiro para o Rossio que era importante repensar a estratégia e a estrutura da feira de artesanato e que a mesma se deveria manter no Parque de Exposições de Aveiro, razão pelo qual foi construído e custou muito dinheiro ao erário público. Também na altura, como proposta de reflexão, sugeri que à FARAV fosse aglutinada um conjunto de outras iniciativas que, edição em edição, iam perdendo o seu impacto. Como, por exemplo, a Feira do Livro.

Recordo ainda, a propósito da falta de afluência de público/visitantes, que a FARAV precisava de atractividade complementar ao evento, já que, por outros exemplos como a Feira de Março, a Automobilia, etc., a localização do Parque de Exposições, só por si, não reflecte a ausência de visitantes no certame. Aliás, em 2009, quando fiz para o Boletim Municipal uma peça sobre a FARAV/2009 recordo-me de entrevistar um casal de visitantes que se tinham deslocado de Oliveira de Azeméis para visitar a feira.

E tal como a Câmara Municipal de Aveiro lançou o “Artes no Canal” como projecto aglutinador de eventos avulsos, projectando, num único momento (mesmo que repetido no tempo), cultura para o espaço público, assim me parece que se deva repensar a FARAV e outros eventos similares.

A questão da FARAV, como eventualmente a Feira do Livro, passa por dimensioná-la, estruturá-la, conceder-lhe centralidade regional, quem sabe repensar a sua duração, e principalmente torná-la mais atractiva, promovendo, a par do artesanato, outros momentos e motivos de interesse para os aveirenses e para quem nos visita. Não me parece descabido que exista uma Feira do Artesanato, da Gastronomia e do Livro simultaneamente e no mesmo espaço físico. Ou ainda acrescentando o Festival de Folclore. O que Aveiro não pode continuar a ter é um conjunto enorme de pequenos eventos, com a sua importância, mas sem grande impacto, e, muitas vezes, repetitivos nos seus objectivos.

Continuarmos a ter eventos que vão perdendo dinâmica, impacto e importância, será transformá-los naquilo que cabe, legitimamente e por uma questão de cidadania, ao empenho e intervenção dos aveirenses no seu espaço e na sua cidade, que são eventos pontuais, com escala reduzida e centralizados na rua, no bairro, na freguesia. Com todo o valor e respeito.

No que toca à FARAV, à Feira do Livro (muito polarizada entre o Porto – que aliás nem se realizou este ano - e Lisboa, com uma falha enorme na zona centro), e a outros eventos, não os promovendo como referência regional é ir limitando a sua importância e condenando-os à extinção.

O que, obviamente, não é bom para Aveiro, para os aveirenses e, acima de tudo, para os artesãos e agentes culturais.

Que se faça uma boa reflexão… com a mão no barro.

publicado por mparaujo às 12:55

20
Abr 14

Publicado na edição de hoje, 20 de abril, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Reforço da coesão e afirmação

Aveiro tem tido, ultimamente, uma agenda política recheada de factualidades, umas positivas, algumas nem por isso, outras polémicas. Basta recordar, a título de exemplos, a polémica na saúde que envolve o Centro Hospitalar do Baixo Vouga (Aveiro, Estarreja e Águeda), a desqualificação da Linha do Vouga como um todo, a perspectiva da importante ligação ferroviária Aveiro-Salamanca, os investimentos previstos para o Porto de Aveiro, mas também a injustiça dos pórticos na periferia urbana, a falta de investimento no Baixo Vouga Lagunar e na Ria de Aveiro, o esquecimento da ligação rodoviária Águeda-Aveiro, para além do flagelo que é a erosão costeira na região. E em causa está a região (e os legítimos interesses de cada um dos seus municípios) e não apenas Aveiro e a sua configuração urbana.

Não falta dinamismo e empenho por parte da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro (CIRA), não é de menosprezar o compromisso da Plataforma A25 (autarquias de Aveiro, Viseu e Guarda), não é menos relevante o facto de Aveiro ter um importante papel na municipalidade nacional com a vice-presidência da Associação Nacional dos Municípios Portugueses (ANMP).

Mas há a outra face da moeda. Por mais dedicação, trabalho, esforço, despendidos pela valorização da região; por mais que a conjuntura actual leve a repensar o papel do Estado e necessidade de serem encontradas alternativas à subsidiariedade da administração central; o poder das principais decisões de gestão está centralizado, principalmente, no Governo e na Assembleia da República. Regressa por isso a tão histórica questão do “peso político”, ou da sua ausência, tantas vezes reclamado por ilustres aveirenses como Girão Pereira e Carlos Candal. O peso político espelhado no papel desempenhado por José Estêvão (Linha do Norte), Luís Gomes de Carvalho (Barra de Aveiro), Mendes Leite, Lourenço Peixinho (Hospital de Aveiro), Homem Cristo. Claro que isto é história… mas reescrever a história é viver o presente e projectar o futuro. E Aveiro precisa urgentemente de reescrever a sua história, sob pena de todo o esforço resultar inglório; precisa de marcar a diferença para ser referência regional, precisa de voltar a ter “peso político”; precisa de reforçar a sua identidade e de desenvolver, reforçar e promover as suas potencialidades (sejam elas culturais, sociais e económicas). É que a realidade é algo divergente deste contexto. Geograficamente, Aveiro sempre balançou entre a indefinição de pertencer ao Norte ou ao Centro, gravitando entre as “pressões” do Porto e de Coimbra. Por outro lado, a reforma administrativa que reconfigurou as regiões substituindo os distritos pelas NUT III foi “madrasta” em relação ao distrito de Aveiro. Antes da reforma (até 2011), o Distrito de Aveiro era composto por 19 municípios que ocupavam uma área geográfica com cerca de 2800 quilómetros quadrados, entre a serra e o mar, e com uma população que rondava os 800 mil habitantes. Além disso, o distrito tinha importantes pólos industriais, instituições académicas relevantes, diversidade cultural. Neste momento a CIRA é composta por 11 municípios, tendo perdido sete municípios para a área metropolitana do Porto e um para a região de Coimbra, com uma população que ronda os 400 mil habitantes.

Mas o paradoxo não se limita à redução da área geográfica e populacional, já que a Região de Aveiro manteve muita da sua identidade e muitas das suas potencialidades. O paradoxo é significativo ao nível político. Como em muitas matérias, o Governo faz as reformas pela “metade”, com incoerências legislativas que acabam por ter repercussões negativas. Extintos os Governos Civis, implementadas as NUT, não houve a necessária correspondência ao nível das leis eleitorais, mantendo-se os círculos distritais. Resultado… Aveiro (curiosamente, o distrito) elegeu 16 deputados, sendo que apenas quatro pertencem à área geográfica da CIRA (Aveiro, Ovar e Águeda), seis à área metropolitana do Porto (anterior zona norte do distrito) e um pertencente à região de Coimbra (os outros cinco deputados eleitos nem sequer são do distrito de Aveiro).

Daí que não se estranhe, para além dos crónicos problemas internos e estruturais, a desvalorização do Centro Hospitalar do Baixo Vouga (apesar de todo o esforço da CIRA, dos aveirenses, dos estarrejenses e dos aguedenses); a ausência das prioridades de investimento público da ligação Aveiro-Águeda; a anulação do curso de medicina na Universidade de Aveiro; o esquecimento da Ria de Aveiro e do Baixo Vouga Lagunar; a manutenção dos pórticos na periferia urbana de Aveiro, entre outros. Daí que não seja de espantar ver um deputado eleito pelo círculo de Aveiro a defender a revitalização da Linha do Vouga (apenas o ramal norte) com ligação à rede de transportes e mobilidade da área metropolitana do Porto.

A Região de Aveiro precisa de mais “braços” a lutar por ela, pela sua coesão e afirmação.

publicado por mparaujo às 15:07

16
Abr 14

Publicado na edição de hoje, 16 de abril, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

As prioridades de Investimentos

O Governo divulgou recentemente (na semana passada) uma lista de investimentos públicos prioritários. A lista inicial comportava cerca de 30 projectos que rapidamente se transformaram em 59 projectos prioritários, face às legítimas pressões locais e regionais. Ou melhor, quero eu acreditar que as pressões foram do poder local e regional, sendo óbvio que estes investimentos públicos “mascaram” todo um conjunto de interesses privados.

No entanto, não me vou debruçar sobre a questão da natureza do investimento, da sua fundamentação pública ou privada, da sua sustentação política, ou, mais relevante ainda, da sua sustentabilidade económica já que uma parte do investimento cabe ao erário público.

Que o país precise de infra-estruturas ferroviárias e marítimas acho que é algo que não me parece muito questionável. Precisamos de dimensão portuária e dimensão ferroviária com ligação à Europa, agora que está tão badalada a recuperação das exportações. Já no que respeito às infra-estruturas rodoviárias parece-me ser de primordial bom-senso que as prioridades sejam de facto realidades prioritárias, já que o país sofre de disparidades colossais nos investimentos desta natureza. O Plano Estratégico de Transportes e Infra-estruturas (PETI3+), inserido no próximo quadro comunitário 2020, apresenta 59 prioridades, com um valor global de investimento de cerca de seis mil milhões de euros, em áreas como sector ferroviário (44%); sector portuário e marítimo (25%); sector rodoviário (15%); transportes públicos de passageiros (12%); sector aeroportuário (4%). No sector ferroviário destaca-se, a nível nacional, a reabilitação da Linha do Norte, a fusão entre a REFER e a Estradas de Portugal, a ligação ao Porto de Sines e a privatização da CP Carga. No que diz respeito à área portuária destaque para os projectos de ampliação dos terminais de Lisboa, Leixões e Sines. Quanto ao investimento rodoviário importa referir a conclusão das obras do túnel do Marão, o eixo do IP3 e a ligação final da A25 (Vilar Formo – Espanha), para além do novo sistema de cobrança de portagens, um novo modelo de regulação e a sustentabilidade financeira do sector, nomeadamente com a renegociação das sempre controversas PPP’s. No que respeita aos transportes públicos o Plano incide essencialmente sobre os Metros de Lisboa e Porto e sobre políticas de concessão e exploração de transportes públicos a nível nacional.

E Aveiro? Curiosamente Aveiro surge no “mapa” deste PETI3+ que tem como “lema”: “Para que tudo fique mais perto”. E, felizmente, no caso de Aveiro a Europa parece ter perspectivas de ficar mais perto, já que no sector ferroviário o Eixo (Leixões) – Aveiro (incluindo a plataforma de Cacia) – Salamanca é igual prioridade à do Eixo Sines-Caia, bem como o desenvolvimento da plataforma de Cacia. Também no sector portuário, não como prioridade mas a nível de preferência global, o Plano prevê igualmente intervenções no Porto de Aveiro melhores condições de acessibilidade marítima, melhor logística e infra-estruturas, melhores condições de cargas/descargas.

Mas nem tudo é um mar de rosas. O Plano não prevê a reabilitação da Linha do Vouga entre Aveiro e Águeda (apenas a da zona norte, entre Albergaria e Espinho), nem perspectiva qualquer futuro para aquela rede ferroviária. O Plano não prevê um dos investimentos mais prioritário e urgente para a Região que é o eixo rodoviário Aveiro-Águeda, quer pelos fluxos laborais, quer por razões económicas (a significativa dimensão industrial da região de Águeda e Bairrada). O Plano não prevê mecanismos de recuperação e desenvolvimento de serviços municipais de transportes públicos, como é o caso da MoveAveiro.

Além disso, ainda mais relevante que estas três falhas de investimento em Aveiro, é preocupante que o Governo se preocupe, por mais legitimidade que tenha, apenas com um plano de desenvolvimento nacional sustentado nos transportes e acessibilidades. Porque Aveiro, infelizmente, precisa de mais. E mais que são também preocupação e promoção de valores económicos e sociais. Aveiro precisa de um investimento no seu património natural que é a Ria de Aveiro; Aveiro precisa de investimento na ligação rodoviária Aveiro-Águeda; Aveiro precisa de uma definição do futuro da Linha do Vouga (Sul); Aveiro precisa de um investimento sério e eficaz na área da saúde que combata o esvaziamento do Centro Hospitalar do Baixo-Vouga e promova, a nível regional (numa área com cerca de 400 mil pessoas) uma saúde de referência. Ao contrário, Aveiro ver perder para Coimbra especialidades como estomatologia, oftalmologia, cardiologia, hematologia clínica, ginecologia-obstetrícia, neonatologia e urologia, entre outras.

É que nem só de “betão” vive o país e se desenvolve um país.

publicado por mparaujo às 09:34

26
Mar 14

publicado na edição de hoje, 26 março, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Da urbanidade à dimensão regional.
É indiscutível que, neste período pós-eleitoral (apesar dos cerca de seis meses que decorreram desde as eleições autárquicas de setembro de 2013), têm sido significativos os projectos e os planos para o desenvolvimento de Aveiro, quer a nível local, quer a nível regional. Independentemente do que foi feito ou ficou por fazer, são mais que naturais e legítimas as perspectivas que se criam quando há mudanças na gestão municipal.
A nível local, excluindo, por razões óbvias, questões da gestão interna municipal, regressam à agenda pública aveirense temas que preocupam os aveirenses e naturalmente a autarquia: são os exemplos da reabilitação urbana, como a Rua Direita, a Avenida, a zona nascente da Estação, os edifícios devolutos na zona da Beira Mar e na envolvente ao Alboi; são os exemplos ao nível da mobilidade, como o estacionamento, o trânsito, os transportes públicos, os projectos/campanhas de mobilidade saudável (pedonal e ciclável); são os exemplos da promoção do turismo, como a anulação da taxa turística nos passeios de moliceiro na Ria (embora se espere substituída por outro tipo de receitas, já que o que está em causa é a utilização, para fins privados, de um bem e espaço público, tal como se paga o imposto de circulação automóvel, por exemplo) ou ainda a potencialidade que abarca a zona lagunar da antiga Lota e das marinhas envolventes às duas margens do antigo Porto Comercial (zona Tir/Tif); são os exemplos relacionados com a vertente cultural e a promoção do património histórico da azulejaria e cerâmica aveirenses, por exemplo, com o aproveitamento do edifício da antiga Estação, de promoção da identidade gastronómica aveirense, e da promoção da sua identidade relacionada com a Ria e o Sal; são os exemplos na vertente ambiental potenciando espaços com capacidade de implementação de um novo Parque da Cidade como é toda a zona a sul entre Centro de Congressos/Av. 25 de Abril e a EN109; são os exemplos na saúde como a falta das Unidades de Saúde Familiar de Esgueira, Cacia e S. Bernardo. Para além disso, é ainda o exemplo da necessidade de se atrair investimento que desenvolva económica e socialmente Aveiro, como a reabilitação das três zonas industriais (Cacia, Taboeira e Mamodeiro). Há, portanto, espectativas, sonhos e projectos aveirenses mais que suficientes para que, com a vontade de todos, Aveiro tenha qualidade de vida sustentável e atractiva.
Mas a realidade dos contextos locais/municipais dos dias de hoje já há algum tempo que perderam as suas fronteiras e limites. A dimensão regional tem um peso extremamente significativo no desenvolvimento ou estagnação dos municípios que a constituem. E nesta área há questões verdadeiramente importantes e prementes. Mesmo que a realidade não seja, de todo, optimista. Basta recordar a interessante peça publicada no Diário de Aveiro do passado domingo (23 de março), da jornalista Maria José Santana, em que retrata a perda de serviços públicos na região de Aveiro desde 2000: escolas, centros de saúde, tribunais, direcções regionais, repartições de finanças, o que referencia Aveiro como a quarta região que mais organismos públicos perdeu na última década.
Mas Aveiro tem todas as potencialidades para, através da sua região, regressar à merecida referência no mapa regional a nível nacional. Para tal, com todo o significativo esforço que se exigirá aos aveirenses, às entidades privadas, às públicas (como a Universidade, a CIRA, as autarquias, o Porto de Aveiro), Aveiro tem de manter vivas as suas bandeiras do desenvolvimento e do bairrismo político: um Centro Hospital do Baixo Vouga de referência; a gestão regional da Ria e do Baixo Vouga ao nível ambiental, económico e turístico; a ligação rodoviária Aveiro-Águeda; o fim da cobrança das portagens na cintura externa nos quatro pórticos (estádio, Angeja, acesso à A1/A29, Oliveirinha/S.Bernardo; a ligação ferroviária Aveiro-Salamanca que permitirá, entre outros, a afirmação nacional do Porto de Aveiro e o desenvolvimento económico e industrial; ou ainda a intermunicipalização, já há vários anos discutida, dos transportes públicos, não apenas rodoviários (vulgarmente, autocarros) como no caso da reabilitação da Linha do Vouga.
Como se pode ver Aveiro precisa de muito trabalho que não cabe, obviamente, apenas na esfera política, nem demarcado por limites temporais dos mandatos autárquicos. Mas que se afigura urgente, parece claro, a menos que os aveirenses se sintam bem dependentes de outros actores políticos e de outras regiões. Para sermos pequeninos basta estarmos quietinhos.

publicado por mparaujo às 09:41

23
Fev 14

publicado na edição de hoje, 23 fevereiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Uma região doente

Veio a público, na passada terça-feira, um ranking que mede o impacto e o valor da “marca do município”. Entre os 308 municípios que compõem o mapa administrativo nacional, Aveiro posiciona-se me sexto lugar, tendo à sua frente os municípios de Lisboa, Porto, Braga, Oeiras e Coimbra. Nos três itens de avaliação, o município aveirense foi classificado como a sexta região com melhor capacidade de atrair investimento, o décimo sexto ao nível da atracção turística e o décimo segundo em qualidade de vida. Os parâmetros que dão origem aos resultados (globais e parciais) estão relacionados, por exemplo, com a taxa de desemprego, o número de hospitais, o valor do salário médio, a taxa de criminalidade ou a oferta turística (por exemplo, dormidas), entre outros.

Um sexto lugar, entre os 308 municípios, é um facto que merece o nosso contentamento e júbilo, para além de ser um dado que deva ser aproveitado politica e socialmente. Mesmo que números sejam números, valem o que valem, e, muitas vezes, “escondem” uma outra realidade. Aquela realidade que os aveirenses vivem no dia-a-dia. É gratificante que Aveiro esteja acima da média no que respeita aos valores da empregabilidade, bem como o dado do valor do salário médio pago que significa uma interessante capacidade empresarial para a valorização do trabalho, mesmo que a produção industrial esteja confinada, essencialmente, ao parque industrial de Cacia e o restante tecido económico se delimite aos serviços (com todo o risco de volatilidade inerentes). Além disso, apesar de acontecimentos pontuais ou limitados a zonas específicas (como a Praça do Peixe), Aveiro ainda é, de facto, um município onde a criminalidade está longe dos valores e da realidade nacional. É ainda relevante o impacto que o sector académico, nomeadamente a Universidade de Aveiro, tem no município, mesmo que haja ainda um percurso significativo a percorrer na relação entre o poder político, empresarial e académico.

Mas há dois dados que merecem especial atenção. Aveiro tem “apenas” uma praia costeira, S. Jacinto, embora tenha um património natural e ambiental invejável: o rio, a Ria, as marinhas, a Reserva Natural das Dunas de S. Jacinto, aos quais podemos juntar a gastronomia, a cultura e o património histórico. Apesar do décimo sexto lugar na classificação global na área do Turismo, é evidente que falta muito que explorar nas potencialidades existentes para a captação de turistas, com óbvios impactos na economia local e regional.

Por último, mas mais significativo é o valor atribuído ao “Viver” (12º lugar). Neste aspecto, surgem inúmeras dúvidas e interrogações face a este valor quando comparado com a realidade municipal. Ou então, o panorama nacional da qualidade de vida nos municípios é, deveras, preocupante. Numa primeira análise, basta olharmos para áreas como a acessibilidade (o estado das vias, o trânsito na E.N.109, os pórticos que circundam a cidade ou a ausência das ligações rodoviária a Águeda ou ferroviária a Salamanca, a título de exemplo); a mobilidade (a falta de promoção do projecto BUGA, a deficiência dos transportes públicos ou a diferenciação entre o serviço da CP suburbanos do Porto e regional de Coimbra, e, ainda, a linha do Vouga); a ausência de um novo espaço verde urbano, um novo parque, já aqui defendido na recuperação e um projecto antigo para a zona a nascente da cidade (entre o cruzamento de S. Bernardo e o pavilhão do Galitos). Mas acima de tudo, tendo em conta que um dos parâmetros é a área da saúde, é legítimo questionar a posição de Aveiro face aos recentes dados que revelam um sistema caótico na prestação destes cuidados elementares para o bem-estar das populações. Os problemas estruturais do Hospital Infante D. Pedro (já aqui apontados e que mereceram a aposta num novo complexo hospitalar em Aveiro) ou da distribuição da oferta de saúde pelo Centro Hospitalar do Baixo Vouga (Águeda, Estarreja e a inclusão de Anadia) não são recentes, mas continuam a preocupar: já em finais de 2013 eram preocupantes e graves os problemas de resposta da urgência hospitalar, nomeadamente na escassez de recursos e meios humanos, que originaram a intervenção da tutela e da Ordem dos Médicos. Mas para além desta realidade, é muito mais significativo e confrangedor saber que o Centro Hospitalar do Baixo Vouga não dá uma resposta cabal e eficaz aos cuidados médicos da sua região, isentando, obviamente, os seus profissionais face às condições em que exercem as suas funções. O encerramento das consultas de Hematologia colocou em risco a vida de vários doentes que esperaram cerca de dois anos por uma primeira consulta que deveria ocorre num espaço de uma semana, sendo este um exemplo das dificuldades sentidas na resposta aos cuidados de saúde, em várias áreas, do Centro Hospitalar do Baixo Vouga, quer por razões estruturais, quer organizacionais.

É importante que os responsáveis políticos e do sector olhem de outra forma para a saúde de Aveiro.

publicado por mparaujo às 11:44

05
Fev 14
http://1.bp.blogspot.com/-ShrdV2qCviA/US3VE7tQUJI/AAAAAAAAMLk/S_EedZRgV7U/s1600/Aveiro.JPG

publicado na edição de hoje, 5 de fevereiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Olhares sobre Aveiro

Vem a propósito a lembrança das mensagens da última campanha eleitoral autárquica e do discurso de tomada de posse (devidamente tornado público) do actual Executivo camarário.

É, para já, notório o cumprimento de um dos pilares anunciados no período eleitoral e reforçado na tomada de posse: recolocar Aveiro como referência de uma região. Presidência da CIRA, vice-presidência da ANMP, relançamento da plataforma A25, integração do grupo europeu do poder local, entre outros. Resta esperar pelos resultados e impactos que isso possa trazer para Aveiro.

Sendo certo que a reorganização interna de todo o universo municipal está pendente das conclusões da auditoria interna, prevendo-se que os seus resultados possam ser conhecidos ao longo deste primeiro semestre do ano; já o desenvolvimento social e económico, e a qualificação urbana estão dependentes do resultado do esforço anunciado para este primeiro ano de mandato no que diz respeito à recuperação e equilíbrio financeiro das contas do Município.

No entanto, volvidos os primeiros 100 dias de mandato autárquico e porque foi determinação expressa pela autarquia acolher as vontades dos aveirenses, as suas sugestões e os seus “olhares” sobre a sua cidade e o seu concelho, resta-me, nessa qualidade, devolver um conjunto de reflexões que foram, por diversas vezes, ao longo de oito anos do “Debaixo dos Arcos”, repetidamente expostas e consideradas relevantes para o desenvolvimento local e a qualidade de vida em Aveiro.

Do ponto de vista da qualificação urbana Aveiro tem carências significativas. Há duas áreas que são vitais: revitalizar, quer do ponto de vista social, quer económico, quer, essencialmente, urbano (espaço público e edificado) o centro da cidade – Rua Direita e Avenida. Mas há ainda a zona a nascente da Estação (entre o túnel e a E.N.109) que urge promover a sua urbanização; a zona da antiga Lota (agora já fora do programa do Pólis da cidade) onde poderia, com uma qualificação urbana e ambiental coerente e consistente, surgir uma marina e equipamentos complementares (lazer, turismo e ciência/educação ambiental) aproveitando ainda toda a zona lagunar e as marinhas/salinas; a zona sul do plano pormenor do centro (toda a área entre o cruzamento para S. Bernardo e o pavilhão do Galitos) onde esteve planeado o novo parque da cidade, qualificando ambientalmente toda aquela área a sul da avenida 25 de Abril (entre esta e a E.N.109) proporcionando uma melhor qualidade de vida aos aveirenses com mais espaço verde e de lazer; e, por fim, a zona a norte das Barrocas, a área das Agras do Norte, entre Esgueira e a A25, requalificando urbanisticamente todo aquele espaço “abandonado”, permitindo o crescimento da cidade.

Mas o desenvolvimento de Aveiro não estará apenas compaginado à vertente urbanística. A cidade precisa, urgentemente, de um planeamento ao nível da mobilidade, integrado e sustentável, com impactos na vertente pedonal, ciclável, da promoção do transporte público (seja ele municipal ou concessionado), do estacionamento e do ordenamento do trânsito (nomeadamente na zona da Vera Cruz).

Por outro lado, Aveiro não pode esquecer o seu património, quer por razões históricas e sociais (identidade colectiva), quer por questões económicas (turismo, por exemplo). Primeiro o seu património histórico, cultural e social, porque o presente e o futuro não se constroem renegando o passado. Seja a gastronomia, a azulejaria (a falta que faz o museu do azulejo), o sal, entre outros, Aveiro precisa de investir na sua preservação e promoção. Segundo, o seu património natural, inserido na região, como são os casos da Ria de Aveiro e das salinas/marinhas. Do ponto de vista turístico, não temos muito mais para projectar e “vender” para captar visitantes e receitas, sem esquecer a tão desaproveitada praia de S. Jacinto, a única praia do concelho.

Terceiro, do ponto de vista do património ambiental, são necessários projectos que promovam a Ria, a zona lagunar do Baixo Vouga, o retomar do projecto do Rio Novo do Príncipe (ao nível ambiental, turístico e desportivo) e a reserva ambiental de S. Jacinto.

Por fim, Aveiro precisa de promoção cultural, de vida nos espaços públicos que traga uma maior qualidade de vida e bem-estar aos aveirenses. As poucas e parcas praças que temos na cidade, Rossio, Melo Freitas, Marquês de Pombal, precisam de dinamismo, de vida, de animação, que promova o convívio, a cultura, entre os aveirenses.

É óbvio que nem tudo poderão ser prioridades, nem tudo poderá ser equacionado, face às contingências económicas do país e da autarquia. Mas, pelo menos, espero que não sejam esquecidas estas realidades, umas mais relevantes que outras, com impacto no desenvolvimento de Aveiro. Fica o contributo.

publicado por mparaujo às 09:43

09
Jan 14

Já lá vão décadas e décadas, a perder de vista. Aliás, tão a perder de vista que não há, hoje, memória do ano em que a festa começou.

Mas um dado é certo: cada novo ano (ou Ano Novo) começa com a maior festa de Aveiro - S. Gonçalinho.

A festa que conquistou um lugar privilegiado na beira-mar (depois da festa em honra da Sra. das Febres ter perdido o seu fulgor - esta era a principal festa), nas suas gentes, na sua história, na sua cultura e também, obviamente, na sua religiosidade. Depois... depois saltou as "fronteiras" do bairro e ganhou lugar na freguesia; saltou as "fronteiras" da freguesia da Vera Cruz e ganhou a devida projecção pela cidade, pelo concelho e pela região.
Começa hoje, até segunda-feira (dia 13)...

Aqui, em Aveiro "Tomates é para os fracos"... aqui "chovem" (literalmente) Cavacas.

publicado por mparaujo às 09:09

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