Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

29
Out 17

jf_gvc_0.jpg

publicado na edição de hoje, 29 de outubro, do Diário de Aveiro

Debaixo dos Arcos
Carta Aberta à Assembleia de Freguesia

Realizada, na passada terça-feira, a Sessão de Instalação dos Órgãos Autárquicos na União de Freguesias de Glória e Vera Cruz, terminaria aí, formalmente, o mandato do quadriénio 2013-2017 na Assembleia de Freguesia, à qual muito me orgulho ter presidido.

Terminado esse ciclo e iniciado o novo mandato com os recém eleitos, fruto da vontade democrática expressa pelos eleitores no processo eleitoral de 1 de outubro passado, recorrendo à expressão usada pelo Presidente da Assembleia Municipal de Aveiro, Prof. Doutor António Nogueira Leite, na sessão de instalação da Câmara e Assembleia municipais, como “freguês (munícipe) e contribuinte” legitima-me esta breve nota de despedida.

É consciência assumida e generalizada, é da própria concepção da democracia, mas, simultaneamente, não pode, nem deve ser mera retórica ou demagogia, que o exercício da função pública e política autárquica numa freguesia transporta um importante e nobre princípio democrático: o da proximidade política e pública com o cidadão e com a comunidade. E isto tem que ser, cada vez mais, valorizado no papel do autarca. Mesmo numa Assembleia de Freguesia que reúne, por norma e salvo as raras e devidas excepções, quatro vezes por ano. O que diga-se, é, na maioria dos casos, face ao número, redutor do papel e do trabalho dos eleitos que o foram por livre vontade dos fregueses eleitores para serem seus representantes e defensores das suas vontades, necessidades, preocupações e bem-estar, bem como da coesão social e identitária, do desenvolvimento e da afirmação de cada comunidade.

Espera-se, pois, de cada um em particular que a vossa acção seja muito mais pessoal do que partidária, mesmo que política porque tudo na vida pública é política na sua verdadeira acepção. Se é certo que a ideologia nos talha a visão que temos do mundo e da sociedade e foi, maioritariamente, condição para a candidatura nas respectivas listas partidárias, a vida das pessoas e das comunidades é um valor social e político muito mais grandioso e prioritário do que a confrontação ou a dialética partidária. Espero, como freguês da Glória e da Vera Cruz, que haja no debate e na exposição de ideias e realidades, na acareação política em cada intervenção vossa, a capacidade de expressar o sentimento colectivo da comunidade e a vontade particular de cada cidadão de forma transparente, clara, responsável, realista e sustentável, com o merecido respeito que a legítima diferença de olhares, ideias e concepções da realidade que a democracia exige e eleva.

Os tempos não serão, como não o foram outrora, fáceis e exigem uma vontade e motivação fortes, mesmo que o desânimo e alguma desilusão, fruto da concepção administrativa territorial e da moldura legislativa em vigor do Poder Local, possa vir, com o tempo e face aos diminutos espaços de participação política na fiscalização à governação da Freguesia, ganhado presença e toldando as intervenções e as acções de cada um dos eleitos. Assim como não deve servir de argumento para inacção, para o encolher de ombros, para a apatia governativa, infelizmente algumas vezes referido, requerido e usado, a sobreposição administrativa e legal da gestão territorial e hierárquica entre Câmara e Freguesia. O respeito, a relação próxima, a relação institucional com a Câmara Municipal, por todas e quaisquer razões, deve ser privilegiada e promovida, deve ser permanentemente procurada e não (in)comodamente ou resignadamente (mesmo que inconformada) aguardada num gabinete ou atrás de uma secretária. Mas isso não pode, nem deve impedir que a Freguesia encontre e procure o seu espaço próprio e legítimo de acção, de forma inovadora e premente. E há tantos desafios para vencer, nomeadamente, mais que a obra e o betão, a coesão e promoção social, a defesa dos valores culturais e identitários das freguesias e da Cidade, as pequenas mas relevantes intervenções no espaço público por forma a contribuir para a melhoria do bem-estar e da qualidade de vida da Glória e da Vera Cruz.

Por último, uma palavra para o recém-empossado Presidente da Mesa da Assembleia de Freguesia, António Andias. Foi extremamente fácil, demasiado até, o trabalho da presidência da Assembleia de Freguesia no último mandato unicamente porque o respeito, a relação franca e próxima, o livre exercício democrático, entre todos os vogais da Assembleia facilitou, em tudo e em todo, o exercício de gestão do órgão autárquico. Para além dos votos de um excelente trabalho, manifesto o desejo e a esperança que o ambiente e a transparência com que os anteriores autarcas da Assembleia de Freguesia sempre exibiram nas suas funções, pelo menos, se mantenha.

Pela Glória e pela Vera Cruz.

publicado por mparaujo às 12:28

06
Set 17

tomada de posse.jpg(foto da tomada de posse... Assembleia de Freguesia Glória e Vera-Cruz - 18/10/2013)

publicado na edição de hoje, 6 de setembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Dever cumprido

Não é fácil adivinharmos o futuro; aliás afigura-se, a qualquer ser humano, impossível. Daí a expressão comum «nunca digas nunca». No entanto, haverá sempre a garantia daquilo que possam ser os desejos, as perspectivas e as expectativas. Praticamente concluído o mandato autárquico 2013/2017 estão, desta forma, terminadas as minhas funções como Presidente da Assembleia de Freguesia da União de Freguesias de Glória e Vera Cruz. Mesmo sem a certeza do que possa estar para além do horizonte atrevo-me a dizer que não será um “até já” ou um “até breve”… é, com a garantia do presente, um “até sempre”.

Foram várias as vivências autárquicas ao longo de alguns anos como vogal (e neste último quadriénio como presidente) da assembleia de freguesia. Por exemplo, ficam as marcas de ter estado presente na mudança da sede da Rua Dr. Nascimento Leitão para a Rua Mário Sacramento; a inauguração da casa da Sustentabilidade; a reforma administrativa que resultou na fusão das duas freguesias urbanas (Glória e Vera Cruz).

A descrença e a desilusão na política local aveirense, a todo e a qualquer nível, de forma generalizada e sem qualquer pretensão de particularizar, partidarizar ou personificar, levam-me a dizer “adeus”, “até sempre”. Há um vazio crítico, um “buraco negro” de militância e participação nos partidos políticos aveirenses e na vivência política local. Algo, diga-se, pelo panorama e pelo que é possível conhecer, se alastra a um significativo número de municípios/regiões no país.

Por razões óbvias inerentes à conjuntura eleitoral que se vive e ao tempo que medeia o próximo acto eleitoral autárquico, aconselha o bom-senso e a ética que não faça qualquer juízo particular em relação ao mandato agora terminado, dado que entre os colegas autarcas que comigo percorreram este último mandato nas freguesias da cidade de Aveiro há recandidatos e candidatos. Mas há quatro notas que importa relevar das experiências autárquicas vividas.

Primeiro, realçar o respeito político e pessoal vivido por todos, assente numa pluralidade partidária significativa, que só beneficiou o papel e a acção da Assembleia de Freguesia através de uma vivência tão substancialmente participada quanto informal. O que, para além do contributo cívico e político de todos, só facilitou o meu papel e função na presidência da mesa.

Segundo, lamentar que o país, depois de tantos alertas, depois de uma reforma administrativa e legislativa do Poder Local desconexa, sem qualquer consistência e com resultados práticos duvidosos, não tenha, volvidos estes anos, parado para reflectir, repensar e implementar uma verdadeira alteração ao mapa administrativo do poder local (regiões, municípios, freguesias) aliada a uma premente alteração do quadro legislativo do Poder Local (finanças locais, lei eleitoral local, competências, financiamentos, etc.). Infelizmente, em Portugal, o tempo arrasta demasiadamente a realidade que se vive sem que as soluções e decisões surjam coerentes e consistentes.

Terceiro, o país tem que reflectir sobre o (sério) problema da legitimidade democrática e da sobreposição administrativa territorial: competências, financiamento, responsabilidade, gestão. Não é compatível o exercício democrático da eleição autárquica com a sobreposição administrativa e política de uma região face a um município ou de uma câmara face a uma freguesia, principalmente as de cariz e realidade urbanas.

Por último, embora este mandato tenha tido (por comparação com outros na então freguesia da Glória) vários momentos de presença de cidadãos (fregueses) em algumas sessões da Assembleia de Freguesia, Portugal ainda tem uma enorme iliteracia política e de cidadania para colmatar. Falta participação e presença dos cidadãos junto dos órgãos que elegeram, falta sentido de cidadania na vida das comunidades. A democracia não pode, nem deve, estar refém de uma “cruz” de quatro em quatro anos, do vício crítico de “sofá” dos eleitores quando se aproximam eleições. E a culpa é dos cidadãos. A democracia constrói-se com todos e em todos os momentos (nas eleições, no direito fundamental a eleger – e a ser eleito – na participação na vida das comunidades, dos bairros, das freguesias, dos municípios) sem que isso retire ou menorize a responsabilidade e legitimidade democrática do poder de decisão dos eleitos.

Mas ao país, a todo o país, ainda falta muita democracia.

publicado por mparaujo às 08:12

20
Out 13

Publicado na edição de hoje, 20 de outubro, do Diário de Aveiro.
Resumo da intervenção na tomada de posse como Presidente da Assembleia de Freguesia da Glória e Vera Cruz.

Debaixo dos Arcos

Aos fregueses da Glória e Vera Cruz (*)

A realidade autárquica aveirense mudou a partir do dia 29 de setembro, quer para o Executivo, quer para a Assembleia de Freguesia da Glória e Vera Cruz. A nova área de abrangência, fruto da agregação das duas freguesias, é substancialmente maior, transportando novos desafios ou ampliando outros. Entendo que não vale a pena andarmos constantemente a relembrar isso ou a escondermo-nos nas críticas à Lei da Reforma Administrativa Territorial Autárquica. Pessoalmente, é sabida, porque mais que pública e publicada, a minha posição: a reforma administrativa territorial era necessária, mas foi claramente um desastre, uma noção perfeitamente deficiente da realidade do poder local, uma errada concepção prática. Disse-o, escrevi-o, votei-o. Mas também é sabido que em relação à agregação das freguesias urbanas a minha posição sempre foi clara: não vem mal nenhum ao mundo, antes pelo contrário, na agregação das duas freguesias da cidade. Uma cidade que é diariamente atravessada a pé, de uma ponta a outra (Estação-Universidade) por centenas de estudantes universitários, uma cidade de pequena dimensão e extensão, que já esteve divida em quatro freguesias e que não deixou de ter a sua identidade consolidada quando reduzida à Glória e à Vera Cruz. Aliás, sempre questionei as críticas proferidas quanto à questão cultural, histórica e da identidade para defesa da “não” agregação. As identidades só se perdem se os aveirenses perderem o sentido de Bairro, de comunidade, de vizinhança, patentes na Beira Mar, em Sá, nas Barrocas, na Forca, em Vilar, no Alboi, na Gulbenkian, no Liceu, em Santiago, na Avenida. Esse sentimento de pertença ao bairro, o bairrismo, quando destruídos ou esquecidos é que fazem perder a identidade de uma comunidade. Para além disso, a Ria não pode continuar a ser duas margens distintas, a ser factor de divisão/separação, mas sim identidade comum, património de todos e para todos.

Mas é evidente que esta nova realidade traz outros desafios ou amplia alguns existentes. Nas freguesias urbanas existe sempre um “obstáculo” à gestão autárquica resultante da sobreposição geográfica de competências entre a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal. No entanto, há áreas que são vitais e que importa estar devidamente atento: pela experiência e pelo trabalho desenvolvido nos mandatos anteriores, pelo Executivo, na Glória, à cabeça da lista surge a Acção Social (desde a infância à idade sénior) pelas respostas tão necessárias e urgentes, nos dias de hoje, face à conjuntura do país. Surge ainda a Educação, acrescido pelo aumento do parque escolar no âmbito da gestão ou participação autárquica: três liceus (conselhos de escola); cinco escolas do 1º ciclo (vilar, santiago, glória, vera cruz e barrocas) e uma do 2º e 3º ciclos (João Afonso). Mas há ainda questões ligadas ao planeamento urbano e gestão dos espaços públicos que importa destacar: o trânsito e o estacionamento; a desertificação da Rua Direita; a Avenida; a reabilitação urbana do edificado na Beira Mar e no Alboi; a promoção do Parque da Sustentabilidade (goste-se ou não, está criado); o eventual desenvolvimento ou desenho de um novo Parque da Cidade (sem qualquer constrangimento político, retomando o projecto do mandato de Alberto Souto para a zona entre o Pingo Doce, Pavilhão do Galitos e EN 109); a reabilitação da antiga lota e zona envolvente, entre outros.

Mas importa referir que as cidades existem “de” e “para” as pessoas. Há, por isso, que saber encontrar e diversificar os espaços públicos e os acontecimentos culturais, a promoção dos espaços verdes e de lazer existentes, sem esquecer a ausência e escassez notória de parques infantis. Cabe ainda uma referência às relações institucionais, ampliadas pelo aumento da quantidade e da diversidade das Instituições públicas ou privadas, culturais, sociais ou desportivas, que passam a figurar na gestão desta nova área geográfica.

A Cidade, agora consolidada numa única Freguesia, e os seus fregueses podem esperar da presidência da “sua” Assembleia de Freguesia um permanente sentido crítico, uma constante disponibilidade para a intervenção e, essencialmente, um empenho na defesa dos interesses dos aveirenses e das comunidades que integram esta cidade que, na diversidade, se tornou uma só.

Independentemente das convicções político-partidárias de cada um, a preocupação principal desta Assembleia de Freguesia deve ser direcionada para os aveirenses e para cidade, com elevado sentido de responsabilidade e de serviço público. Deste modo, que o respeito, a consideração e amizade uns pelos outros possam permitir o sucesso do cumprimento cabal das competências e funções para as quais fomos, democrática e livremente, eleitos.

(*) Intervenção como presidente eleito da Assembleia de Freguesia da Glória e Vera Cruz, na sessão de instalação e tomada de posse do dia 18 de Outubro de 2013.

publicado por mparaujo às 12:48

20
Nov 11
Publicado na edição de hoje, 20.11.11, do Diário de Aveiro.

Entre a Proa e a Ré
Isto não é reformar… é enganar.

A Junta de Freguesia da Glória (Aveiro) solicitou uma Assembleia de Freguesia extraordinária, que se realizou na passada quinta-feira, para discutir o Documento Verde da Reforma da Administração Local. Para além disso, o executivo da Junta de Freguesia apresentou à Assembleia uma proposta de Moção a criticar a fusão ou agregação da Freguesia da Glória (aprovada por unanimidade e, diga-se, aclamação).
Apresento excertos da minha intervenção sobre a proposta do Governo para a Reforma do Poder Local, embora tendo votado a favor da moção, os princípios e os fundamentos diferem, nalguns pontos, dos da proposta apresentada.

«A convocação desta Assembleia Extraordinária parece-me ter como fundamento uma preocupação legítima do Executivo da Junta de Freguesia face à perspectiva de extinção, agregação ou fusão de Freguesias, e, no caso, concreto, a Freguesia da Glória.
De facto, o Documento Verde da Reforma da Administração Local é claro quanto a um dos objectivos: eixo 2 – Organização do Território. Os objectivos descritos são a promoção da redução do actual número de freguesias (4259 no total), dando origem à criação de novas freguesias, com maior dimensão e escala (a agregação de 2493).
No caso concreto, Aveiro é município de nível 2 e conta com 14 freguesias. Destas, 9 não cumprem os critérios e terão de ser agregadas, 5 mantêm-se como freguesia actual. A saber: a manter estão Cacia, Eixo, Requeixo, S.Bernardo e Sta.Joana; a agregar serão as freguesias de Aradas, Eirol, Esgueira, Nariz, Oliveirinha, S. Jacinto, Vera Cruz, Nossa Senhora de Fátima e a Glória. No caso da Freguesia da Glória, os critérios estão abaixo dos limites indicados na matriz: menos de 3 km’s e, pelo censos de 2011, a freguesia conta com 9053 fregueses, algo abaixo dos 15 mil exigidos para uma freguesia urbana dentro da área da sede municipal e para um município de nível 2.
Se me perguntarem directamente, e centrando exclusivamente a questão nas freguesias, se sou a favor da sua fusão e agregação, eu teria, em consciência, de dizer que sim. E as razões são, para mim, simples. Em qualquer circunstância, independentemente de conjunturas económicas, das pressões externas, o país tem, de facto, freguesias a mais. Temos o caso mais paradigmático deste processo… Concelho de Barcelos com 89 freguesias (menos 3 freguesias do que Lisboa, Porto e Gaia juntos, que perfazem 92). E nenhuma cumpre os critérios. Serão todas para agregar!
O que me leva, por princípio – reforço: por princípio - a concordar com a necessidade de UMA reforma do poder local é, de facto, a questão da escala, o redimensionamento dos recursos e dos investimentos públicos. Não é na despesa de cerca de 1% do Orçamento de Estado e desses, por exemplo na nossa freguesia, os 7% dos encargos com as comparticipações pagas aos autarcas.
É óbvio que isto são “peanuts”… meras gotículas! Em 4259 Juntas de Freguesia registam-se 189 presidentes a tempo inteiro e 240 presidentes a meio tempo. O que está em causa é a proliferação de investimentos que foram feitos ao longo de vários anos, sem dimensão, escala, sustentabilidade, que significaram encargos na sua concretização e que perduram no tempo pela necessidade de manutenção. Pode-se dizer que é um problema de planeamento. Pode ser, até é… mas também foi, e continuará a ser, uma questão política, de satisfação da vontade dos cidadãos, mesmo que essa seja desmedida e inconsistente.
Mais uma vez, por uma questão de princípios e conceitos, ver-me-ia obrigado, em consciência, a afirmar a minha anuência a esta reforma. No entanto, infelizmente, não há bela sem senão… Não há, neste caso, um “mas”, mas uma quantidade “colossal” de “mas”…
Excluindo o eixo 4 da Reforma da Administração Local, que sustenta novos processos eleitorais e de representatividade, que só favorecem a democracia local e o cidadão, este Documento Verde da Reforma da Administração Local não vale o papel em que for impresso. Porque há uma diferença abismal entre os conceitos e a sua concretização.
Ao contrário do que é descrito na introdução, sumário, objectivos e especificidades relacionadas com o Eixo 2 – Organização do Território, directamente relacionado com o processo das Freguesias, o documento perde uma oportunidade histórica de, após uma década de frustradas tentativas, realizar uma verdadeira reforma do poder local e aplicar, na prática, os pressupostos já há muito definidos para a Regionalização. Não faz qualquer sentido, nem tem qualquer impacto, que a acção recaia, exclusivamente, sobre o elo mais fraco na cadeia: as freguesias, com repercussões mínimas nas contas e investimentos públicos.
É que tudo o que referi em relação à redimensão, escala, racionalização dos investimentos, cabe em primeira instância às autarquias, em responsabilidade política, planeamento e gestão. Porque, tal como no caso das freguesias, também há municípios a mais no país, provocando duplicação de investimentos e recursos, dificuldades na sustentabilidade de meios, despesismo, má gestão pública. E, sendo mais rigoroso, há NUTSIII (as áreas metropolitanas e as comunidades intermunicipais) a mais (são 28) e algumas sem razão de existência, apenas para garante de especificidades que hoje podemos questionar. Já para não falar na ineficácia de gestão administrativa pública que são as CCDR’s e afins…
Aqui, sim, fazia sentido aplicar os conceitos e princípios da racionalização e boa gestão dos dinheiros e coisas públicas, garantido, em cada escala, as devidas dimensões e sustentabilidades, que são descritas no documento.
E o mais preocupante é que o documento, na sua génese, foi todo preparado não para as freguesias, mas sim para os municípios. Apenas por falta de coragem política e por pressão da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) tal não se verificou. Sabe-se pelo desenrolar dos acontecimentos e comprova-se pela elaboração do documento e no seus anexos.
Posto isto, é com um forte sentido de frustração que olho para esta reforma da administração local como uma oportunidade perdida para uma real reforma e oportunidade de implementação de uma eficaz regionalização.
Este documento está ferido de objectividade e foi, claramente, adulterado por força da pressão que a ANMP fez junto do governo. Tal como descrito no Sumário Executivo esta reforma torna-se urgente e necessária por força dos compromissos assumidos no âmbito do memorando de entendimento com a ajuda externa – Troika. E sabe-se que o que estaria acordado seria no âmbito da reforma ao nível da municipalidade. Até porque o conceito de freguesia é quase exclusivo de Portugal e encontra pouco paralelismo na realidade internacional. Os Municípios são “ayuntamentos” em Espanha, condados em Inglaterra e na Suécia, municípios em França, províncias administrativas na Alemanha, não são freguesias.
Só que a ANMP foi mais forte, mais bairrista, mais “lobysta”, mais sectarista que a Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE) que, no meu entender, tem prestado um mau serviço às freguesias já que não soube ou não quis pressionar o governo para uma reforma mais global e abrangente. Diga-se, de passagem, que com uma eventual alteração do quadro legal muitos presidentes de junta poderão voltar a candidatar-se, assim como será muito mais aliciante ser presidente de junta de uma agregação de duas ou mais freguesias, seja do ponto de vista político, seja do ponto de vista financeiro. Repare-se no caso de Aveiro e veja-se a relação de forças entre um presidente da câmara de 72 mil habitantes e um presidente de junta que, de repente, se vê na “cadeira do poder” de uma freguesia com 20 ou 25 mil habitantes (1/3 do total só a seu cargo), com a perspectiva de alterações no quadro legislativo que lhe atribuam maiores e melhores competências e outra sustentabilidade financeira. Disse.»
Uma boa semana…
publicado por mparaujo às 15:03

18
Nov 11
Realizou-se ontem, 17.11.2011, uma sessão estraordinária da Assembleia de Freguesia (Freguesia da Glória - Aveiro), para discussão do Documento Verde da Reforma da Administração Local, proposto pelo Governo.

Esta foi a minha intervenção (de fundo) para a discussão e anélise do referido documento.

Esta foi a declaração de voto proferida aquando da aprovação (por unanimidade) da moção proposta pelo executivo da Junta de Freguesia.

Declaração de Voto.
«Votei favoravelmente a moção apresentada pelo Executivo da Junta de Freguesia da Glória, não por ser contra um processo de reforma do poder local que implique a reorganização do mapa administrativo local, onde cabem também as freguesias - antes pelo contrário - mas pelo facto de entender que a Reforma da Administração Local proposta pelo governo no Documento Verde não é abrangente, está desajustada, é inconsistente e coloca o “ónus” da responsabilidade dos encargos do Orçamento de Estado com a Administração Local quase que exclusivamente nas Freguesias, quando são estas o elo mais fraco e mais frágil da “cadeia”. Falta a responsabilização dos municípios, das comunidades intermunicipais, da própria regionalização.
Por outro lado, é clara a falta de verdade e transparência num processo que se reconhece, à partida, já definido e “fechado”, onde permanece uma preocupante falta de informação e de propostas concretas.»
Miguel Pedro Araújo
publicado por mparaujo às 10:30

Realizou-se ontem, 17.11.2011, uma sessão estraordinária da Assembleia de Freguesia (Freguesia da Glória - Aveiro), para discussão do Documento Verde da Reforma da Administração Local, proposto pelo Governo.

Esta foi a minha intervenção (de fundo) para a discussão e anélise do referido documento.

Esta foi a declaração de voto proferido aquando da aprovação (por unanimidade) da moção proposta pelo executivo da Junta de Freguesia.

Declaração de Voto.
«Votei favoravelmente a moção apresentada pelo Executivo da Junta de Freguesia da Glória, não por ser contra um processo de reforma do poder local que implique a reorganização do mapa administrativo local, onde cabem também as freguesias - antes pelo contrário - mas pelo facto de entender que a Reforma da Administração Local proposta pelo governo no Documento Verde não é abrangente, está desajustada, é inconsistente e coloca o “ónus” da responsabilidade dos encargos do Orçamento de Estado com a Administração Local quase que exclusivamente nas Freguesias, quando são estas o elo mais fraco e mais frágil da “cadeia”. Falta a responsabilização dos municípios, das comunidades intermunicipais, da própria regionalização.
Por outro lado, é clara a falta de verdade e transparência num processo que se reconhece, à partida, já definido e “fechado”, onde permanece uma preocupante falta de informação e de propostas concretas.»
Miguel Pedro Araújo

publicado por mparaujo às 10:18

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