Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

21
Out 16

Apesar dos acontecimentos ainda serem recentes (pouco mais de mês e meio) o flagelo dos incêndios deste ano, o esforço inquestionável e inegável dos bombeiros portugueses, as tragédias vividas por comunidades e famílias, pelo decorrer do tempo e dos tempos, por novos episódios do quotidiano e da agenda política e da sociedade, todas as realidades vividas e sentidas em Agosto deste ano (essencialmente) foram caindo no esquecimento colectivo, foram perdendo relevância.

Foram várias as campanhas solidárias implementadas na altura como forma de reconhecimento público do empenho e dedicação dos bombeiros, para além das posições políticas assumidas por vários quadrantes partidários. Mas também na altura não deixei de alertar para a necessidade de uma maior coerência e responsabilidade de todos quanto às necessidades permanentes (e não apenas sazonais) dos bombeiros.

É sempre muito complexa e diversificada as motivações das campanhas solidárias e as receptividades e os impactos que provoca na sociedade e, em particular, nos cidadãos.

Para uns há as prioridades, a urgência social, a factualidade da realidade, o sentimento de ajuda.
Para outros, a crítica pelo aproveitamento comercial e económico da fragilidade alheia, pela falta de apoio estruturado na sociedade, pela recusa da caridadezinha, pelos aproveitamentos sociais e políticos.

Mas a verdade é que, tendo em conta tudo isso, ainda são as campanhas solidárias (nas suas mais distintas vertentes) a melhor forma, para já encontrada, da expressão da solidariedade, da ajuda e do reconhecimento.

Deparei-me recentemente com algo que me merece um nota de regozijo, de aplauso e de referência pública.

O sector das grandes superfícies comerciais, por exemplo os hipermercados, são, por norma, um alvo fácil de crítica quanto a políticas e campanhas solidárias face à suspeita quanto a eventuais benefícios/ganhos financeiros e face à nobreza das intenções. No entanto, há que reconhecer publicamente a parceria que foi estabelecida entre o Jumbo e os Bombeiros Portugueses numa campanha solidária integralmente destinada às corporações.

Um saco, reutilizável, que pode ser adquirido no momento do pagamento das compras cujo valor (1 euro) é total e integralmente entregue aos Bombeiros, sem "comissões", sistemas intermédios e intermediários. Ou seja... sem "meias verdades", revertendo apenas para os bombeiros.

Parabéns ao Jumbo e aos Bombeiros. Eu não me esqueci...

saco bombeiros.JPG

publicado por mparaujo às 11:42

14
Ago 16

eu_DA_debaixo-dos-arcos.jpgpublicado na edição de hoje, 14 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O fogo das hipocrisias

Só por excepcionalidade temática é que este espaço repete, de forma consecutiva, uma mesma abordagem. Mas numa semana em que o país, muito particularmente a região de Aveiro, vive momentos particularmente preocupantes no que respeita aos incêndios (Águeda, Mealhada, Anadia, Albergaria-a-Velha, Sever do Vouga, Estarreja e Arouca) era inevitável não regressar ao tema, por forma a complementar o que foi referido na edição da passada quarta-feira. Numa constatação factual de que agosto transformou este verão num dos piores cenários dos últimos anos (felizmente com menos vítimas mas como enormes danos ambientais, patrimoniais, e uma dimensão considerável da área ardida e dos recursos utilizados no terreno), importam algumas notas sobre incoerências e irresponsabilidades políticas e cívicas.

1. da incoerência. Nem sempre assim foi noutros anos, mas este cenário dantesco que temo vivido revelou um reconhecimento, uma gratidão, uma onda solidária, para com os BOMBEIROS (sim… em maiúsculas) inquestionável. São de facto uns verdadeiros heróis, com um espírito de serviço e de missão públicos verdadeiramente ímpar. Mas esta onda de reconhecimento público quase que total levanta uma questão: os BOMBEIROS também existem no inverno, nas cheias, num incêndio urbano (habitação), num acidente rodoviário, no simples transporte de doentes. É que eles existem e trabalham todo o ano. E quantos hoje solidariamente doam água, leite e barras energéticas se lembram dos Bombeiros no resto do ano? Quantos são os que não viram a cara ou fecham os vidros dos carros nos habituais e recorrentes peditórios nos cruzamentos ou nos semáforos? Os Bombeiros existem TODO o ano.

2. da irresponsabilidade política. Já não bastava a ciclicidade do flagelo dos incêndios sempre que chega cada verão para a tudo isto somarmos o mediatismo e aproveitamento político que gravita à volta da realidade. Faz bem a oposição (PSD e CSD) em manterem o silêncio crítico já que esta triste realidade não é nova, repetiu-se em cada ciclo legislativo sem que nada mudasse. Mas também faz bem em apontar a responsabilidade ao Governo de António Costa que, ainda há cerca de um mês, referia que estava tudo planeado, preparado e controlado. Nem o Presidente da República deixou de apontar o dedo a tamanha irresponsabilidade política e governativa porque afinal nada mudou. E é pura demagogia e marketing político vir com anúncios governativos de mudança de paradigma na gestão desta realidade porque todos os anos os discursos são os mesmos e todos os anos os resultados iguais: são inúmeros os estudos feitos, os relatórios produzidos, as propostas laboradas, a legislação produzida e existente. Infelizmente o combate (por diversas razões) sempre se sobrepôs à prevenção, às políticas certas de florestação e ordenamento, ao ambiente, à moldura jurídica (que não se esgota tão somente na moldura penal de condenação de eventuais acções criminosas) e legislativa, à fiscalização, à conservação. É pura retórica impetuosa, no “calor” do momento vivido, falar-se numa plataforma interministerial quando ao(s) Governo(s) se exige, permanentemente, uma corresponsabilidade ministerial na gestão do país, principalmente em temas como este que alargam o leque de responsabilidades: ambiente, agricultura e floresta, administração interna, defesa, justiça, entre outros.
Mas há ainda uma nota a realçar. É inaceitável e inqualificável a hipocrisia política do Bloco de Esquerda nesta realidade. O aproveitamento político deplorável não pode deixar de ser referenciado. Basta recuarmos até aos últimos quatro anos para nos lembrarmos do rasgar das vestes e dos pedidos de “cabeça” de governantes sempre que o país chegava a este ciclo. Hoje, quando a realidade em nada difere das anteriores, não há uma crítica, uma acusação, ao Governo, assistindo-se a um lamentável piadético discurso político de solidariedade. Por mais que o BE se esforce é, hoje e neste verão, mais do que claro que é um partido DO governo (e não apenas parlamentar), já não dá para esconder mais, é demasiada incoerência e hipocrisia políticas movidos pela ânsia e sede do poder. Ser ou estar no Governo exige responsabilidade, não é fácil. Outros tempos…

3. da irresponsabilidade da sociedade. Apesar do considerável número de casos conhecidos em que a ignição de um incêndio ocorre por acção criminosa, a maioria dos fogos surge por negligência humana (e um valor muito residual por acção da própria natureza). São vários os dados oficiais que o comprovam. Percebendo-se a revolta e a dor de muita gente, principalmente quando se perdem vidas e bens, não é o, tão desejado por alguns, aumento da moldura penal (de 12 para 25 anos) que irá reduzir o número de actos criminosos. Poderá ser aceitável os 16 anos máximos, mas mais do que isso iria provocar um desequilíbrio na harmonia penal existente face a outros crimes. Não é pelo facto de haver, por exemplo, prisão perpétua (ou os 25 anos de prisão) que diminuem os homicídios. O que é necessária é uma mudança radical nos nossos comportamentos (cigarros no chão, o lixo nas matas após os “piqueniques”, etc.), hábitos e tradições: limpeza do património florestal, cumprimento legal, a ausência de comportamentos de risco como os foguetes nas festas (tão tradicionais e enraizadas nesta época do ano) ou as velas acesas nas “alminhas” à beira das estradas e junto à florestação.

Não basta lamentarmo-nos verão após verão… a responsabilidade é diária, permanente, e cabe a todos.

publicado por mparaujo às 07:59

10
Ago 16

Preâmbulo/Adenda ao artigo (actualização)
Qualquer situação que extravase a realidade e cause pânico, perdas pessoais ou públicas, vítimas, merece o respeito e o lamento público e colectivo. Um incêndio é e será sempre um incêndio. Uma casa atingida, um bem patrimonial, o ganha pão de qualquer família que fique em risco ou destruído merece a nossa atenção. Arouca, Aveiro (Águeda e Sever do Vouga), zona do Porto, norte do país (Arcos de Valdevez/Gerês), Viana do Castelo, são disso espelho. Mas há dimensões e impactos que assustam, que inquietam, que preocupam, seja por razões pessoais, por afinidades ou simplesmente por solidariedade: a Madeira (Funchal) merece todo o meu respeito, solidariedade, pelo cenário dantesco que se vive naquela ilha. Mais ainda, conhecido que é o facto de tudo apontar para uma acção premeditada e criminosa. Seis anos após a tragédia das enxurradas na ilha... ABRAÇO SOLIDÁRIO À MADEIRA.

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publicado na edição de hoje, 10 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
É fogo que arde e se vê

Aveiro, na segunda-feira acordou com cinza espalhada, um cheiro a queimado e um ar abafado, um céu sem sol e em tom acastanhado. Uma cidade que é conhecida pela sua característica ventosa e por ser, em pleno verão, uma das cidades mais “frescas” do país, acordava (8:30 horas) nesse dia com uns significativos 30º de temperatura. As razões eram conhecidas e revisitadas na memória colectiva: desde o fim-de-semana, de forma mais acentuada e expressiva, a zona de Aveiro e a Região (Arouca, Estarreja e Águeda, como exemplos) era fustigada por incêndios de dimensão e extensão relevantes (só em Águeda e Estarreja perto de 1000 incansáveis bombeiros combatem, com inquestionável e louvável empenho, as chamas).

O mês de Julho, apesar de registar mais ocorrências que no mesmo período de 2015, registava simultaneamente menos área ardida (um número que pode reflectir o excessivo valor registado em 2015) e também eventos de menor dimensão e expressão. Daí não ser de estranhar a baixa expressão de referências na comunicação social ou a ausência do tema do debate e confronto político, algo que é, por norma e neste período do ano, um expediente recorrentemente usado para atacar o Governo. Corria, pelos factos e pelos dados, tudo bem ao país, aos cidadãos, às comunidades e, claro, ao Governo. Mas eis que, de repente, tudo muda. Apesar de, até à data, apenas se registar (e lamentar) uma vítima mortal (cidadão de 57 anos, no sábado passado, em Valongo) em todas as ocorrências desde que teve início o denominado Período Especial de Combate aos Incêndios (1 de Julho a 30 de Setembro), a verdade é que este arranque do mês de Agosto tem alterado, substancialmente, os factos e a realidade: três planos de emergência accionados (Porto, Arcos de Valdevez, Funchal), uma explosão no número de ocorrências com dimensão e expressão significativos, um considerável e claro aumento da área ardida e da perda de florestação, um esforço dos recursos técnicos e humanos ao ponto do envolvimento das forças militares (Exército) em algumas zonas, a destruição (ou deterioração) de propriedades e património particulares e públicos.

Podíamos recuperar aqui textos de edições deste espaço do ano passado, de há dois, três, quatro, cinco ou mais anos. Infelizmente, mais do que as temperaturas, as praias, as águas do mar mais ou menos quentes, a história do verão português é cíclica e demasiadamente repetitiva no que respeita aos incêndios florestais e ao incansável e inquestionável esforço dos bombeiros portugueses. Isto sem querermos menosprezar histórias irrepreensivelmente louváveis como a que ocorreu, junto da A1 em Estarreja no passado domingo (um casal distribuiu perto de uma tonelada de água às pessoas que ficaram retidas na autoestrada). Mas infelizmente, a história dos factos repete-se, os dramas revivem-se, as perdas (para já materiais) surgem.

Apesar do silêncio político em torno da realidade (e do Primeiro-ministro continuar a “banhos”), da oposição se manter emudecida pelo peso da responsabilidade governativa anterior (mesmo que, nesses períodos fosse politicamente atacada com alguma veemência por quem, hoje, é governo ou coligação); apesar das altas temperaturas que se fazem sentir; apesar da irresponsabilidade cívica dos cidadãos e dos casos criminosos que se conhecem (como a recente detenção de quatro suspeitos na Madeira) este triste e deplorável ciclo na história de cada verão português tem também muito (demasiado) de responsabilidade política que não é de agora, deste ano, nem apenas dos imediatos anteriores, mas sim, infelizmente, de políticas falhadas ao longo da história da democracia portuguesa: falta de políticas na florestação; falta de medidas na prevenção e na responsabilização de particulares e do próprio Estado (o país desconhece a real propriedade florestal nacional, seja particular ou pública); falta clara de políticas de prevenção.

Ano após ano o pais vive estes flagelos, com maior ou menor intensidade mediática em função da proximidade geográfica, do sentir bem perto a realidade, da dimensão dos factos ou das tragédias. O resto é o cíclico entregar na coragem de alguns milhares de homens e mulheres que se entregam, por mera opção voluntária, à defesa do que é “alheio”, individual ou de todos. O resto é o esperar que os ventos acalmem e que o tempo arrefeça. O resto é o desperdício de recursos financeiros, ano após ano, sem qualquer efeito preventivo ou que garante uma menorizarão dos impactos. Em jeito de conclusão e a título de exemplo: o Orçamento do estado para 2016 previu uma verba na ordem dos 84 milhões de euros para o combate aos incêndios. No mesmo plano orçamental do Estado eram consignados cerca de 8 milhões de euros (10% do valor do investimento no combate) à prevenção. Não basta responsabilizarmos os comportamentos negligentes e criminosos dos cidadãos. O verão, cada verão, é o maior flagelo ambiental para Portugal que tem, nos incêndios, a sua maior expressão. Agosto de 2016 não fugirá à regra, infelizmente.

publicado por mparaujo às 09:47

16
Ago 15

bombeiros cansados.jpgpublicado na edição de hoje, 16 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
É Verão… isso é que importa.

Somos, definitivamente, um país, um povo, uma sociedade, das mais díspares convicções, das posições mais contraditórias, das mais surreais relações com as realidades.

Passamos horas, dias, a fio a discutir cartazes eleitorais, nem tanto pela questão da sua semiótica, pelo impacto da mensagem política, mas pela sobrevalorização ridícula dos rostos que lá surgem. E andamos nisto há dias, nas mesas dos cafés, nas redes e sociais e, pasme-se, na imprensa/comunicação social. De repente deixaram de existir propostas programáticas ou promessas eleitorais. O país parou a olhar para outdoors. Mas parou mesmo, sendo previsível que tal paragem (alheamento, distracção, apatia, indiferença, marasmo) se agrave com o arranque, já este fim-de-semana, de mais uma temporada futebolística, com toda a capacidade que o mundo da bola tem de provocar a alienação colectiva.

A recuperação económica anunciada, o desemprego/emprego, a balança comercial (importações/exportações), a pobreza, o custo de vida, a saúde, a justiça, a educação, o Estado Social, tudo isto, com o calor do Verão (com mais ou menos sol, com mais ou menos chuva), deixou de fazer parte da vida e da realidade dos portugueses. Nada resiste às férias, a não ser a falta de senso dum fait divers vácuo em plena campanha pré-eleitoral, às portas da rentrée política. Vivemos mesmo o sabor de uma inquestionável silly season. O país foi a banhos.

Ainda há poucos dias, neste mesmo espaço, sob o título “andamos distraídos”, aludi à estratégia política do encobrimento dos números dos incêndios em pleno ano eleitoral: um aumento significativo, no primeiro semestre deste ano, em relação à média da última década, sendo que as últimas semanas têm contribuído, em muito e em demasia, para o agravamento da situação (por exemplo, em Vila Nova de Cerdeira, em Terras de Bouro ou na Serra da Estrela, entre muitos outros infelizmente). O tema tem tido uma expressão reduzida e insignificante na agenda pública, por um lado porque, felizmente, não têm ocorrido episódios trágicos como há dois anos, por exemplo, mas essencialmente por questões eleitoralistas. Mas até nisto se nota o espírito balnear e veraneante dos portugueses.

Uma inqualificável realidade que destrói património colectivo, a natureza e o ambiente, alguma da pouca economia que nos resta, coloca em risco (quando não os consome) a vidas das pessoas e os seus bens, quando tragicamente leva a vida aos heróicos bombeiros, tem impactos na realidade do nosso dia-a-dia de formas tão absurdamente distintas: sobressai a indiferença em relação à quantidade de área que desaparece da nossa floresta e da nossa natureza, cresce a atenção quando surge a tragédia humana ou patrimonial. Numa relação solidária que existe, a nível internacional (nomeadamente europeu), entre as forças de protecção civil, os nossos bombeiros são aplaudidos em plena via pública quando atravessam as fronteiras e se juntam ao desespero dos seus congéneres espanhóis, como foi disso exemplo recente na Extremadura espanhola, na Sierra de Gata, para onde se deslocaram cerca de 100 operacionais e 30 viaturas; em contrapartida os Bombeiros de Braga, Ponte de Lima, Póvoa do Lanhos e Viera do Minho, ainda há poucos dias se queixavam do abandono, da indiferença e da falta de apoio por parte da população, nomeadamente na vertente alimentar. O reconhecimento e o agradecimento público, que, voluntaria e espontaneamente, surgiam no seio das comunidades que se viam protegidas pela intervenção das corporações, esvaneceu. Acresce ainda a desvalorização política e governativa para esta realidade quando diminuem os apoios à Protecção Civil, aos Bombeiros, ao combate, ou quando a Assembleia da República aprovou, em junho, A lei que define os objectivos e prioridades da política criminal até 2017 onde o incêndio florestal deixa de ser prioridade na investigação criminal.

Por último, o burlesco e o grotesco da nossa identidade nacional. A indignação assolou os banhistas da praia fluvial em Caldas de Sangemil, Tondela, que se viram privados do seu banhinho nas belas águas do Rio Dão só porque um helicóptero que combatia o incêndio no Parque Nacional da Serra da Estrela resolveu ter o desplante de abastecer, em dois dias seguidos, naquela praia, sem qualquer aviso prévio (provavelmente em carta registada com aviso de recepção). O descaramento do helicóptero… que se lixem as nossas matas. É Verão… isso é que importa.

(créditos da foto: Maria João Gala / Global Imagens)

publicado por mparaujo às 11:46

12
Jul 15

eu_DA_debaixo-dos-arcos.jpgpublicado na edição de hoje, 12 de julho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Andamos “distraídos”

É um facto que a situação política, económica e social que envolve a Grécia é significativamente preocupante para todos, não apenas gregos mas para os europeus, nomeadamente os da Zona Euro e os países recentemente intervencionados, como Portugal e Irlanda. O futuro não é apenas jogado na Grécia mas também na Europa. Desde há muito anos que não se via uma preocupação tão grande e generosa dos portugueses para com a União Europeia, obviamente por força do reconhecimento que os impactos serão transfronteiriços. Mas este olhar tão atento sobre a Grécia e a Europa é, igualmente, fruto da massificação do tema na comunicação social ao ponto de existirem tão poucos assuntos a prender a atenção e as expectativas. Nem mesmo o mediatismo do futebol, os casos da justiça, a política nacional (também ela toda direccionada à Grécia).

Mas a verdade é que há mais vida para além… da Grécia. Por mais importante que a questão seja.

É, por isso, curioso que em pleno verão, em plena época de incêndios, de repente, nos tenhamos esquecido do tema e dos bombeiros. Ou que infelizmente apenas nos lembremos deles pelas realidades mais trágicas. Mas é indiscutível que os bombeiros estão no terreno e que os incêndios têm proliferado e, novamente, assolado o país, queimando floresta e destruindo edificado, propriedades e bens. Felizmente, não vitimou bombeiros (mesmo que ferindo alguns), mas a destruição é significativa.

Antes de entrarmos propriamente no verão (na fase pré Bravo), o ano de 2015, até final de maio, registava cinco vezes mais fogos que no ano anterior, segundo dados da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC). Segundo a ANPC no ano de 2014 contabilizaram-se 846 fogos, número que disparou, em 2015, para cerca de 5000, só neste período. Com base neste dados provisórios e com a realidade que se vive, já em plena fase Bravo (1 de junho a 30 de setembro), perspectiva-se que o ano de 2015 será o pior da última década.

Só no período compreendido entre 15 de maio e 30 de junho registaram-se no país 3355 ocorrências e que representam um acréscimo na ordem dos 30% da área ardida (cerca de 17,5 hectares), em relação aos últimos 10 anos, apenas superados ligeiramente por valores referentes aos anos de 2005 e 2009. Importa recordar que no ano passado o total da área ardida foi de 19.867 hectares, o segundo valor mais baixo dos últimos 35 anos, e registaram-se 7.186 fogos, sendo este o valor mais baixo dos últimos 25 anos.

Só pelos valores em si mesmos não seria difícil prever uma subida dos números, mas não tão acentuada, fazendo recuar a tragédia para anos e períodos demasiadamente preocupantes. Por outro lado, as condições meteorológicas até agora verificadas são um verdadeiro pesadelo para os bombeiros: mais calor, temperaturas demasiado altas, vento e baixa precipitação e humidade. Acresce ainda que, pela diminuta quantidade de área ardida no ano passado, o rejuvenescimento da vegetação e a quantidade de matéria combustível presente nas florestas facilita a combustão e a propagação dos fogos.

Mesmo que não tenha havido, mais uma vez felizmente, vítimas mortais a registar, não se percebe porque é que, perante a realidade e os números apontados nos vários relatórios, o tema tem estado afastado das primeiras páginas dos jornais e das televisões.

Ou melhor… não é difícil de adivinhar porquê. Não morreu ninguém, não morreu nenhum bombeiro, é bem verdade. Mas não esqueçamos que estamos em ano eleitoral. Sim… os incêndios também votam.

publicado por mparaujo às 12:27

20
Ago 14

publicado na edição de hoje, 20 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Um Verão esquisito… até nisto.

Não tem sido um Verão de pasmar, de encher o olho, de bronzear, de muitas idas às praias… imaginem que até no sul do país as águas mornas/quentes de outros verões desapareceram este ano. Com mais ou menos graus, o calor deste verão tem sido esquisito, excepções à parte que apenas confirmam a regra. Aliás, excepções que não o seriam se tivéssemos tido, até à data, um Verão “normal”.

Para além das temperaturas inconstantes, da incerteza quanto ao “brilhar” (ou não) do sol, a incapacidade de planear e programar, atempadamente, as férias ou as simples idas à praia, já para não falar da confusão que roda em torno da problemática do vestuário e calçado, há ainda um outro dado que torna este Verão fora do rotineiro e normal dos últimos anos. Neste caso, ainda bem. Tem havido menos incêndios, menos casos de acidentes envolvendo bombeiros nos combates às chamas. Ao menos valha-nos isso neste Verão.

Não quero com isto dizer que, apesar de tudo, tem sido um ano calmo. Aliás, ainda recentemente, os distritos da Guarda e, particularmente, de Viseu, têm dado provas da necessidade de estado de alerta permanente por parte dos Bombeiros e Protecção Civil. Mas a verdade é que o número total de incêndios e de área ardida tem sido, significativamente, mais baixo que nos dois/três anos anteriores.

Do ponto de vista político e estrutural é sabido que existiu um acréscimo de investimento e de planeamento por parte do Governo, da Autoridade Nacional da Protecção Civil (ANPC), das Corporações de Bombeiros e das suas Instituições Associativas, mesmo que isso signifique ainda muito caminho a percorrer e muito trabalho ainda por desenvolver. Face às dificuldades vividas no sector, é certo que por muito que se faça saberá (justificadamente) sempre a pouco. Mas houve este esforço, é importante reconhece-lo, tal como o fez publicamente, por exemplo, o ainda líder do Partido Socialista, António José Seguro, quando da visita que realizou à sede da ANPC. Também é claro que uma maior fiscalização e regulamentação legislativa sobre a manutenção e protecção florestal tem contribuído para um menor número de incêndios. Mesmo assim, restará sempre a dúvida, apesar dos recursos, investimentos e fiscalização: se o Verão tivesse sido “normalmente” quente teríamos o mesmo cenário e as mesmas circunstâncias?

Por último, que não em último. Infelizmente, pelas piores e, normalmente, trágicas razões, os bombeiros são, ou têm sido, nos últimos anos os principais protagonistas do cenário dos incêndios de Verão. Os elevados números de casos de morte e de ferimentos graves ocorridos, por exemplo, no ano passado, passaram a ser capa de jornal, abertura de noticiário ou títulos de notícias. Mas este ano, felizmente pela ausência de trágicas realidades, os bombeiros praticamente desapareceram das principais notícias sobre os, também felizmente, menos incêndios que têm ocorrido. É uma boa notícia? Se atendermos ao facto de não ter havido perdas humanas e ferimentos graves nas corporações dos bombeiros, sim… é uma excelente notícia. Mas repita-se… é uma boa notícia? Excluindo a realidade da primeira resposta… Não. E não porque os bombeiros continuam a ser os principais protagonistas da triste e vergonhosa realidade dos incêndios de Verão. Porque se é verdade que houve mais investimento, planeamento, aumento de recursos e maior fiscalização, é pena que não se refira que os Bombeiros Portugueses estão mais bem preparados, mais eficientes, continuam dedicados e destemidos na protecção dos bens e das pessoas, do próprio devastar ambiental nacional. E por isto, os bombeiros mereciam continuar a ser notícia e a serem os protagonistas de mais um Verão. Nem só de lágrimas e tragédia se faz a história e se vive o dia-a-dia.

Pessoalmente continuarei a dizer: “Muito Obrigado”. Por irem e voltarem sempre…

publicado por mparaujo às 10:46

12
Fev 14
http://www.tvi24.iol.pt/multimedia/oratvi/multimedia/imagem/id/13226237/550

Sob a “batuta” (e experiência) da jornalista Ana Paula Magalhães, o programa “Discurso Direto” (TVI24 – 15:00 horas), da segunda-feira passada, 10 de fevereiro, abordou um dos temas quentes da agenda nacional: as condições climatéricas, as tempestades, a costa marítima, o cancelamento do derbie, a protecção civil.

Não sendo propriamente um “fã” de programas de “antena aberta”, a verdade é que o facto de estar, nesse dia, em casa, com gripe, permitiu-me, entre os inúmeros e desgastantes zappings, parar na emissão da tarde da TVI24.

Primeira nota de destaque para o convidado da emissão: o comandante adjunto de operações nacionais, Marco Martins. Claro, esclarecedor, fluente no discurso, rigoroso nas informações prestadas. Exemplo disso (e apenas como mero exemplo), a forma como diferenciou o que são os avisos do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e os alertas da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC), a quem se destinam (os primeiros às populações e os segundos às entidades regionais e locais).

Entre questões de ordem técnica e operacional que a Paula Magalhães foi reforçando a cada intervenção telefónica (e a estas escuso-me comentar porque – enfim – há de tudo), houve dois aspectos que me merecem especial atenção.

Um tem a ver com a questão colocada sobre a informação, a divulgação, a formação e a sensibilização, de forma sistemática junto das comunidades sobre o papel da ANPC, metodologias de prevenção e de acção em situações de risco, por parte dos cidadãos. Por exemplo, junto da comunidade escolar (à semelhança do que se processa, por exemplo, com a educação ambiental), das freguesias, etc. É certo que foi referido por Marco Martins que a ANPC tem, na sua página oficial (embora esta merecesse melhor design e interactividade digital) diversa informação. É verdade, basta uma pesquisa rápida para descobrir alguma informação. Mas teria um maior impacto uma maior sistematização na vertente pedagógica junto das comunidades, com especial relevância para os contributos que os CDOS (Comando Distritais de Operações de Socorro) que estão mais próximos das comunidades e das suas realidades.

O outro aspecto tem a ver com uma falha, que considero grave, na discussão gerada. Ou melhor, a ausência de uma referência que se impunha no programa (pelo menos por parte de quem nele participou). Cada vez mais se nota na sociedade e nas pessoas um esquecimento preocupante para com uma das maiores virtudes da vida: a Gratidão. A mesma que (felizmente) serviu de alguma contestação no verão passado, em memória dos bombeiros que faleceram no combate aos incêndios, deveria ter sido também lembrada na passada segunda-feira. Enquanto a maioria dos portugueses, com mais ou menos apreensão, com mais ou menos conforto, se foi refugiando em casa à espera que a tempestade acalmasse, muitos foram os profissionais da Protecção Civil (ANPC, CDOS, Bombeiros, Protecção Civil Municipais) que estiveram presentes, no terreno, em alerta constante, segurando pessoas e bens.

A maioria é paga para isso (nem sei se muito ou pouco), fazem-no por razões profissionais (nem sei se por vocação ou por mera formação). Mas a verdade é que na “hora de santa bárbara trovejar” há sempre aqueles que “dão o peito às balas”, entre lareiras, mantinhas, chás e escalda-pés de muitos outros.

Tal como no Verão de 2013, também no Inverno de 2014(?) a eles: OBRIGADO.

publicado por mparaujo às 15:59

11
Dez 13

Publicado na edição de hoje, 11.12.13, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Há tributos e tributos…

Morreu Nelson Mandela. Não me vou alongar em relação a esta enorme perda de uma dos maiores vultos da história do sec.XX. Era para o ter feito no domingo, mas por força de toda a discussão surgida no “Debaixo dos Arcos” (e afins) pareceu-me repetitiva e desnecessária. É óbvio que morreu um “santo”. Sim, deixemo-nos de preconceitos e constrangimentos (mesmo os da fé). Um santo… porque, por mais que percorra o tempo e a história, não há memória de algum santo que não tenha cometido erros, não tenha “pecado”, não tenha “mudado” de vida. E mais, poucos foram aqueles (os santos) que tiveram tão imensa dignidade e dimensão humanas em saber perdoar, como o fez Nelson Mandela. E daqui, de facto, resultou todo o peso político, social e humano de Madiba. Esta perspectiva surge porque ontem, no mítico Estádio do Soweto, onde Nelson Mandela fez a sua última aparição pública, em 2010, quando a África do Sul recebeu o Campeonato Mundial de Futebol, foi realizado o Tributo de Despedida a Nelson Mandela. Cerca de 70 países representados, 95 mil pessoas presentes e milhares e milhares de espectadores no país e no mundo. Portugal também esteve presente, representado por Cavaco Silva. Não vou, porque a polémica já foi demasiadamente esplanada, comentar os votos “sim” e “não” da resolução da Nações Unidas, em 1987.

Mas, com as devidas desculpas e as devidas proporções e contextualizações, é sobre tributos que importa reflectir neste texto. Infelizmente, mesmo que de forma inequivocamente merecida, só os grandes vultos (e normalmente após morte) é que são merecedores de tal respeito. Os comuns dos mortais, os anónimos (mesmo que com rosto e alma), aqueles que, em muitos casos, deram a sua vida (física) pelo bem comum, a vida e a sociedade tornam-se “madrastas”. E Portugal é “perito” nesta triste realidade. Este ano, que agora termina, faleceram oito bombeiros no combate aos incêndios que, ano após ano, flagelam o país. Foram mulheres e homens que de forma desprendida, voluntária e com um inquestionável serviço de defesa do bem comum, perderam tudo, deixaram tudo, para que “tudo” dos outros (cidadão, comunidades e país) fosse salvo. Nem sempre o conseguiram. Oito foram sempre e um dia não voltaram. Tributo maior mereceriam, no mínimo, dos mínimos mesmo, o respeito pelo Estado e pela sociedade. Para além das modestas (também elas envoltas em polémica com a Presidência da República) e inevitáveis condolências às famílias e corporações, nada mais foi feito. Ou melhor… mais valia nada mais ter sido feito porque o que se avizinha é, também no mínimo dos mínimos, revoltante e chocante. Precisamente “nos dias” do anúncio da morte de Nelson Mandela, são conhecidas informações preliminares de um relatório encomendado pelo Ministério da Administração Interna sobre os falecimentos de bombeiros no combate aos incêndios deste ano. Os primeiros resultados orientam a conclusão para negligência, violação de regras de segurança, erros de estratégia de combate.

Claro que sim… o país, o Estado, as entidades e comunidades locais, os proprietários dos terrenos, sacodem a responsabilidade e a irresponsabilidade. Os “incompetentes” dos bombeiros, mesmo com a formação que têm, mesmo com a experiência de muitos, mesmo com a estruturas de comando distritais operacionais a gerir os cenários de “guerra ao fogo”, é que gostam de colocar a vida em risco, deixar de viver e deixarem as suas famílias com um lugar vazio em casa. Mais valia terem deixado arder. Aí seriam os “maus da fita” mas ao menos viveriam.

A falta de políticas de ordenamento florestal, a ausência de estratégia governativa para a prevenção e o combate aos incêndios, a inexistência de fiscalização e punição a quem não cumpre a lei, a “suavidade judicial” para com aqueles que destroem o bem comum e privado, é, afinal, o triste e repugnante tributo que é prestado por este, cada vez mais, triste país em que vivemos. Pessoalmente, nem por sombras me comparando, mas tomando o exemplo de Nelson Mandela, resta-me, como cidadão, pedir perdão aos Bombeiros (todos) por esta indescritível falta de respeito que o país tem para com os “soldados da paz”.

publicado por mparaujo às 09:22

02
Set 13

Publicado na edição de hoje, 2 de setembro, do Diário de Aveiro

Debaixo dos Arcos

Dose dupla…

1. Cinco! Uma mão cheia de demasiado vazio.

Em memória... António Ferreira, de Miranda do Douro; Pedro Rodrigues, da Covilhã; Bernardo Figueiredo, do Estoril; Ana Rita Pereira, de Alcabideche; Cátia Dias, de Carregal do Sal. Não sabiam se voltavam... mas foram sempre.

Cinco mortos é o registo trágico e injustificado do número de bombeiros que faleceram no combate aos incêndios, este ano. A todos os que, de forma desinteressada e desprendida, combatem a acção criminal, a incúria e o desleixo de muitos, e principalmente pelo respeito e pela dignidade dos que perderam a vida em troca de "nada" (porque a vida não tem valor e muito menos vale um punhado de eucaliptos ou pinheiros) já foi aqui prestada a devida homenagem: «“Vida por Vida”… levado à ‘letra’» e «Das duas, uma…». Mas não poderia deixar passar em claro toda a polémica que se revestiu a posição do Presidente da República, à data. De forma muito resumida, as críticas à posição assumida pelo Presidente da República resultam do facto de Cavaco Silva ter transformado uma questão de Estado numa posição privada e pessoal e ter tido uma postura totalmente contraditória no caso do falecimento do Dr. António Borges. Não que estivesse em causa esta última situação, mas sim a forma como foi tratada a "ausência" de posição pública em relação ao falecimento, à data, de quatro bombeiros no combate aos incêndios que flagelam o país. E as reacções não se fizeram surgir. Face à inexistência de uma mensagem pública e face à justificação apresentada a página oficial no facebook da Presidência da República (no 'post' da mensagem sobre António Borges) foi "invadida" por quase 10 mil comentários e cerca de 700 partilhas. Entre outros comentários, a mensagem "viral" principal foi: "Os meus sentidos pêsames aos familiares dos heróicos bombeiros falecidos". E como dizem o dito e a sabedoria populares: "água mole em pedra dura, tanto dá até que fura". Foi pena ter havido tanto alarido, tanta contestação, tanta revolta, não só dos cidadãos como das próprias corporações e associações dos bombeiros, para que, ao registar-se mais um falecimento de uma bombeira de Carregal do Sal (Cátia Dias) no combate às chamas no Caramulo, Cavaco Silva tomasse, finalmente, uma posição PÚBLICA sobre os bombeiros que perderam a vida no combate aos incêndios. Já são, infelizmente, cinco. E UM seria já demasiado.

2. Cinco! Uma mão cheia de chumbos.

Em dois anos de governação, o Governo viu chumbadas medidas legislativas por cinco vezes. É certo que não é novidade alguma na democracia portuguesa o facto dos governos verem algumas das suas acções chumbadas pelo Tribunal Constitucional. Não é novidade, nem o será, certamente, no futuro. A relevância, neste caso, é o número (cinco vezes em dois anos) de chumbos, mas, essencialmente, o facto das medidas declaradas inconstitucionais serem, politicamente, relevantes para a acção do Governo, o que se traduz numa clara dificuldade deste Executivo em adaptar (e respeitar) a sua acção às leis fundamentais que regem o nosso Estado de Direito e Democrático. Aliás, o Acórdão do Tribunal Constitucional, que chumbou, por unanimidade, o diploma legal que previa a requalificação dos funcionários da função pública é claro nesta análise: não é boa a administração dum Estado de Direito Democrático que governe em violação das leis e dos direitos e interesses dos cidadãos. Assim como não é bom para um "curriculum governativo" os cinco chumbos constitucionais com relevo na vida e na governação do país. Em abril de 2012 o Governo viu chumbada a lei sobre o "enriquecimento ilícito". Três meses volvidos e o Tribunal Constitucional chumbaria a medida que previa o corte dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos e reformados. Apesar desta posição do Tribunal Constitucional o Governo fez "orelhas moucas" e viu de novo, com impactos políticos e económicos agravados, ser chumbada, em 2013, a medida que impunha cortes dos subsídios aos funcionários públicos e pensionistas, e os cortes no subsídio de desemprego e de doença. Não foi preciso esperar muito tempo para que, pela quarta vez, o Tribunal Constitucional colocasse "travão" nas políticas do Governo. Desta vez, a chamada "Lei Relvas" foi declarada inconstitucional; a lei que fundamentava as Comunidades Intermunicipais e Metropolitanas. Tal como afirmou o constitucionalista Vital Moreira, ou é incompetência governativa ou o Executivo de Passos Coelho faz de propósito para encontra um "bode expiatório" ou uma "força de bloqueio" para justificar a sua inoperância governativa. E a verdade é que, contra todas as pressões políticas, o Tribunal Constitucional é, neste momento, o principal "partido de oposição" do Governo. Não por vontade do Tribunal, mas por clara culpa própria do Governo.

publicado por mparaujo às 14:57

30
Ago 13

Em memória...
António Ferreira,
de Miranda do Douro

Pedro Rodrigues, da Covilhã

Bernardo Figueiredo, do Estoril

Ana Rita Pereira, de Alcabideche

Cátia Dias, de Carregal do Sal

(não sabiam se voltavam... mas iam sempre.)

Cinco mortos, até ontem, era o registo trágico e injustificado do número de bombeiros que faleceram no combate aos incêndios neste ano. Esperando, muito sinceramente, que o número não aumente, apesar da existência de alguns feridos em estado considerado muito grave.

Sobre a devida homenagem a todos os que, de forma desinteressada e desprendida, combatem a acção criminal, a incúria e o desleixo, de muitos, e principalmente pelo respeito e pela dignidade dos que perderam a vida em troca de "nada" (porque a vida não tem valor e muito menos vale um punhado de eucaliptos ou pinheiros) já foi aqui prestada: “Vida por Vida”… levado à ‘letra’ ; Sem papas na língua... (Vida por Vida) ; Das duas, uma… ; Mortes sem rosto?

Mas a propósito deste "Mortes sem rosto?" não poderia deixar passar em claro toda a polémica que se revestiu a posição do Presidente da República, à data. Essencialmente, de forma muito reduzida, as críticas, perfeitamente legítimas, à posição assumida pelo Presidente da República resultam do facto de Cavaco Silva ter transformado uma questão de Estado numa posição privada e pessoal e ter tido uma postura totalmente contraditória no caso do falecimento do Dr. António Borges. Não que estivesse em causa esta última situação, mas sim a forma como foi tratada a "ausência" de posição pública m relação ao falecimento, à data, de quatro bombeiros no combate aos incêndios que flagelam o país (principalmente a Norte o no Centro).

E as reacções não se fizeram surgir. Face à ausência de uma mensagem pública e face à justificação apresentada (o que provocou ainda uma maior revolta), a página oficial no facebook da Presidência da República foi "invadida" por quase 10 mil comentários (no 'post' da mensagem sobre António Borges) e cerca de 700 partilhas. Entre outros comentários, a mensagem "viral" principal foi: "Os meus sentidos pêsames aos familiares dos heróicos bombeiros falecidos".

E como dizem o dito e a sabedoria populares: "água mole em pedra dura, tanto dá até que fura".

Foi preciso tanto alarido, tanta contestação, tanta revolta não só dos cidadãos como das próprias corporações e associações dos bombeiros para que, ao registar-se mais um falecimento de uma bombeira de Carregal do Sal (Cátia Dias), no combate às chamas no Caramulo (apara além do registo de alguns feridos muito graves) Cavaco Silva tomasse, finalmente, uma posiçãoPÚBLICAsobre os bombeiros que perderam a vida no combate aos incêndios. Já são, infelizmente, cinco. E UM seria já demasiado.

Mensagem do Presidente da República

publicado por mparaujo às 11:24

26
Ago 13

O falecimento de qualquer pessoa, independentemente das circunstâncias ou do que marcou a sua vida, merece-me duas reacções: respeito e de pesar, sendo alguém (mesmo que não conhecido pessoalmente ou próximo) que, em vida, me mereceu consideração, apreço e deferência; ou indiferença (mas não regozijo ou censura) se caso de alguém que condenei, critiquei ou em nada se aproxima dos meus princípios e valores.

E são inúmeros os casos que sustentam esta dualidade de reacção em relação à morte de alguém.

Vem a propósito o falecimento do Dr. António Borges, economista, ex secretário-geral do PSD, ex director do FMI e consultor político do Governo de Passos Coelho.

Em relação a António Borges nunca nutri qualquer simpatia pela sua acção pública, aliás extremamente carregada de controvérsia e contradição. Não tenho, em relação ao seu falecimento, qualquer reacção de condenação, regozijo ou lamento (a não ser a perda da vida, que essa me merece todo o respeito).

Têm sido diversas (para o bem e para o mal) e muitas as reacções e análises nas redes sociais ao falecimento de António Borges. Quer em relação à sua pessoa, quer em relação à tomada de posição pública do PSD, do Governo e do Presidente da República.

Não tenho que criticar essas reacções do partido do qual António Borges foi secretário-geral (no tempo de Manuela Ferreira Leite), nem do Governo do qual foi consultor (em muitos casos com mais peso que qualquer ministro) ou do Presidente da República. Para além da afinidade política acresce a perda de uma vida humana.
Mas lamento profundamente que em relação a essa vida humana o Governo e, nomeadamente, o Presidente da República (que deveria ser presidente de todos os portugueses) não tenham tomado uma única posição de respeito pelo falecimento, este ano, de três bombeiros no combate aos incêndios, das inúmeras crianças que faleceram nessa chacina que tem sido a guerra na Síria ou em relação às mortes nas cheias na China ou nas manifestações no Egipto.

O respeito pela vida não é apenas em relação àqueles que nos são mais próximos. A vida, como o bem mais precioso e o direito inalienável de qualquer ser humano deve merecer o respeito (seja de que forma for) sempre e em qualquer circunstância.

E há circunstâncias mais que óbvias: os indefesos e os que dão a vida pelas causas dos outros.

Lamenta-se o silêncio…

publicado por mparaujo às 10:42

25
Ago 13

Publicado na edição de hoje, 25 de agosto, do Diário de Aveiro.

Cagaréus e Ceboleiros

Das duas, uma…

Na passada semana, neste mesmo espaço, em “Vida por Vida… levado à letra” foi referência o papel inexcedível e heroico com que os Bombeiros combatem esse flagelo do verão, os incêndios. Em alguns casos (mesmo que poucos, mas uma vida é sempre uma vida) sendo vítimas dessa abnegada dedicação e voluntarismo.

Não podia deixar de regressar à temática, mesmo correndo o risco de me repetir, por quatro razões. A primeira pela actualidade do tema face ao crescente número de incêndios e do volume de área ardida em Portugal (juntando a Ilha da Madeira). Segundo porque, infelizmente, volta a ser notícia o trágico falecimento de um bombeiro, neste caso de uma bombeira da corporação de Bombeiros de Alcabideche, que perdeu a vida em pleno combate a um incêndio na Serra do Caramulo e que feriu nove bombeiros da mesma corporação. Tal como o jornalista da SIC, Hernâni Carvalho referiu aquando do falecimento do Bombeiro da Covilhã, subscrevendo as suas palavras, nem na morte o país tem a devida e obrigatória consideração e o respeito pelos Bombeiros, pelo seu trabalho, pelo seu papel (heróico mas subestimado) na sociedade. Em milhares de horas de acção, após dias e dias de serviço à comunidade (seja a que nível for) há o registo de 41 bombeiros feridos e três que perderam a vida apenas pela dedicação aos outros. Estatisticamente, serão números reduzidos. Mas bastava um que fosse que Portugal teria, no mínimo, a obrigação de “chorar” e honrar os seus heróis. Em terceiro lugar, foi com alguma perplexidade que ouvi na Renascença as declarações do responsável da Associação de Bombeiros Profissionais que afirmou existir falhas de coordenação e estratégia no combate aos incêndios, de falta de formação e preparação dos Bombeiros e chefias (algo que o presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Soares, já tinha, há semanas, refutado, afirmando que os bombeiros portugueses são considerados dos melhores operacionais do mundo). Além disso, para alguém que aufere um vencimento pelo exercício de uma actividade profissional, contra o exercício da mesma acção por quem o faz de forma desinteressada e dedicada, a “lei do deixa arder”, não trocando a vida de um bombeiro por um “punhado” de eucaliptos ou de pinheiros do Estado ou de particulares, é uma expressão, mesmo estando em causa o valor da vida, que deveria ser mais cuidada e ponderada. Apesar de se saber da incúria e da irresponsabilidade do Estado e de muitos particulares no cuidado e preservação das matas, mas isso não justifica a posição assumida.

Por último, de novo o regresso a Aveiro. Depois das notícias que vieram a público sobre a situação de insustentabilidade que se vive nos Bombeiros Novos, surge a notícia do reforço do apoio da Câmara Municipal de Aveiro às duas corporações de bombeiros da cidade. Para além do reforço financeiro, há o registo do protocolo que volta a ceder aos Bombeiros Velhos o edifício que, durante 24 anos, serviu de sede à Junta de Freguesia da Glória e a cedência de um terreno, em Esgueira, para que os Bombeiros Novos edifiquem o seu novo quartel. Face à realidade, é evidente que uma notícia desta natureza deixa os bombeiros e os aveirenses satisfeitos. Não poderia ser de outra forma face a um apoio desta natureza e que ultrapassará os 1,5 milhões de euros. Mas, tal como já há tempos referi e sublinhei na última crónica “Cagaréus e Ceboleiros”, e fazendo eco de algumas vozes públicas, a verdade é que tal satisfação não trará, de todo, serenidade a muitos aveirenses.

Apesar da polémica e de algum desalento pela união das duas freguesias da cidade, a verdade é que Aveiro não tem dimensão populacional, estrutural e geográfica para precisar de duas freguesias. Tal como também referiu o Bispo Emérito de Aveiro, D. António Marcelino, a própria Igreja deveria repensar o seu mapa administrativo das paróquias e equacionar a fusão de algumas delas, nomeadamente as da cidade. A cidade não deve perder o sentido mais puro de “bairro”, enquanto identidade social e cultural (ou histórica) das suas gentes. Mas não pode permitir que esse bairrismo se projecte em divisões, em “costas voltadas”, em ciúmes socias ou culturais.

Hoje, a cidade de Aveiro, em particular, tem de reflectir sobre o redimensionamento de muitas das suas instituições em diversos sectores e áreas. É o caso das duas corporações de bombeiros. Uma eventual fusão daria aos bombeiros (e à segurança dos cidadãos aveirenses) uma melhor estrutura, solidez, dimensão, escala e melhor rentabilidade de recursos, melhorando com isso o excelente e dignificante serviço (a maioria das vezes impagável) que prestam aos cidadãos e à comunidade.

Questionar a actual existência de duas corporações de bombeiros não é desprestigiar todos os que directa ou indirectamente a elas estão ligados, nem renegar a história e o papel que foram tendo ao longo da sua existência. É antes de mais, valorizar a sua importância, dignificando o seu valor social e humanitário, promovendo a sua sustentabilidade e a continuidade do seu serviço público inquestionável.

O contrário, face às novas realidades sociais e económicas que vivemos (e que muito dificilmente verão “melhores dias”, num futuro próximo), poderá ditar constrangimentos futuros que colocarão em causa a sobrevivência, não apenas dos Bombeiros Novos, mas, eventualmente, das duas instituições ou até dos apoios que a autarquia aveirense deva, por obrigação social, dispensar.

Se a Câmara Municipal de Aveiro encontrou forma (e bem) de financiar as duas corporações em 1,5 milhões de euros, imagine-se o que seria esse valor ao serviço de apenas uma corporação de bombeiros e o impacto que esse investimento teria na sua estruturação, sustentabilidade e serviço a prestar.

Como aveirense “Cagaréu e Ceboleiro”.

publicado por mparaujo às 12:59

19
Ago 13

A propósito do post anterior...

Não costumo, desde há algum tempo, acompanhar o percurso profissional de Hernâni Carvalho. Principalmente pelo facto de estar a trabalhar quando aparece na SIC e também porque não sou espectador do tipo de programas das manhãs e tardes nas TV's generalistas.

No entanto, mesmo não concordando com tudo o que diz, reconheco-lhe uma capacidade jornalística de investigação, nomeadamente criminal e judicial, excepcional.

Esta declaração do jornalista sobre o falecimento de um Bombeiro da Corporação da Covilhã é qualquer coisa de "curto e grosso", como diz a sabedoria popular. Sem papas na língua (como é seu apanágio).

publicado por mparaujo às 22:21

18
Ago 13

Publicado na edição de hoje, 18 de agosto, do Diário de Aveiro (sem a foto cujos créditos corresponde ao site da Rádio Renascença).

Cagaréus e Ceboleiros

“Vida por Vida”… levado à ‘letra’

“Vida por Vida” é o conhecido lema dos bombeiros portugueses.

O Verão é uma época do ano que deveria ser lúdica, cheia de prazer e gozo, resultado de uma merecido descanso após um ano laboral. Mas com ele não vem apenas o sol, a praia, o mar (ou os rios e albufeiras) e o calor… este, principalmente, traz um verdadeiro flagelo: os incêndios.

Infelizmente é um processo cíclico que marca, de forma dramática, o país e esta época do ano.

Este flagelo dos incêndios, que proliferam de norte a sul, deixa o país à beira de um ataque de nervos. É um problema repetido verão após verão, desleixado ao nível governamental e local: planos municipais de prevenção, maioritariamente, inexistentes; falhas na prevenção; falhas nos recursos a disponibilizar aos bombeiros (corte no financiamento de cerca de 30%) e protecção civil; e, muitas vezes esquecido, falhas na elaboração e aplicação de um plano de (re)florestação nacional consistente e estável.

Sem um combate permanente e uma acção constante planeada, anualmente, o país perde (“arde”) a nível económico, ambiental e social. Mas mais importante que as perdas do país é o desespero vivido por muitas famílias e comunidades que vêem os seus bens, total ou parcialmente, destruídos.

Para além das questões ambientais, económicas e sociais, os fogos servem igualmente para um desfile de opiniões, críticas, acusações. Curiosamente, seja qual for o sector da sociedade civil (autárquico, político, cidadãos, governo) os Bombeiros são, em alguns casos, o alvo preferencial das criticas: ou porque demoraram a surgir para o combate ao incêndio; ou porque são ineficazes e falta-lhes estratégia; ou porque são adjectivados de ‘amadores’, mal preparados e mal formados (esquecendo-se que são considerados dos melhores bombeiros do mundo); ou porque são descuidados, precipitados e negligentes.

Depressa as pessoas se esquecem de que, na hora da aflição, é a eles que recorremos em primeiro lugar (muitas vezes, e são várias as histórias conhecidas, por tudo e por nada). Depressa as pessoas se esquecem de quem perde a vida pelos outros, pelos bens dos outros, só pelo serviço comunitário, pelo espírito de missão e voluntariado, de forma desinteressada… são os bombeiros. E, infelizmente, são já muitos os que partiram (segundo os dados dos Bombeiros de Portugal, desde 1980 e até à sexta-feira passada – incêndio na Covilhã/Peso, faleceram 104 bombeiros no combate a incêndios). A média estatística poderia trazer valores (pouco mais de três mortes por ano; este ano registam-se, à data, duas mortes) que correriam o risco de parecerem irrelevantes, não fosse o caso de se tratarem de vidas humanas. Nem uma que fosse, seria, por si só, algo que se lamentaria, como se lamenta que todos estes 104 bombeiros tenham perdido a vida, só porque por vontade própria e por vocação pessoal decidiram dedicar o seu esforço e a sua vida aos outros. A gratidão é dos gestos mais nobres na relação humana. Não seria mais que uma evidente obrigação uma maior atenção (reconhecimento social e apoio financeiro) do Governo, das Autarquias, das comunidades e dos cidadãos para com as corporações de bombeiros e pelos seus voluntários. Pessoalmente, só posso dizer: Obrigado.

O mais recente trágico falecimento de um bombeiro na Covilhã (do qual o relato dos acontecimentos explicado, por exemplo, pelo presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Soares, quer na RTP, quer no Diário de Notícias de sexta-feira, é, no mínimo, “arrepiante”) faz trazer à memória, não só os factos acima descritos, como, de novo, as notícias relacionadas com a situação insustentável dos Bombeiros Novos de Aveiro, agravadas neste mês (depois das últimas dificuldades sentidas em Abril passado).

Hoje, as comunidades e Aveiro, em particular, têm de reflectir sobre o redimensionamento de muitas das suas instituições em diversos sectores e áreas. É o caso de algumas vozes tornadas públicas (por exemplo, na Assembleia Municipal), às quais me junto, que defendem a fusão das duas corporações de bombeiros, dando-lhes uma melhor estrutura, solidez, dimensão, escala e melhor rentabilidade de recursos, melhorando com isso o excelente e dignificante serviço (a maioria das vezes impagável) que prestam aos cidadãos e à comunidade.

Questionar a actual existência de duas corporações de bombeiros não é desprestigiar todos os que directa ou indirectamente a elas estão ligados, nem renegar a história e o papel que foram tendo ao longo da sua existência. É antes de mais, valorizar a sua importância, dignificando o seu valor social e humanitário, promovendo a sua sustentabilidade e a continuidade do seu serviço público inquestionável.

O contrário, face às novas realidades sociais e económicas que vivemos (e que muito dificilmente verão “melhores dias”, num futuro próximo), poderá ditar constrangimentos futuros que colocarão em causa a sobrevivência, não apenas dos Bombeiros Novos, mas, eventualmente, das duas instituições.

Como aveirense “Cagaréu e Ceboleiro”.

publicado por mparaujo às 13:39

11
Jan 12
Publicado na edição de hoje, 11.01.2012, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Mudam-se os tempos…

Escreveu Luiz Vaz de Camões: “Mudam-se os tempos, Mudam-se as vontades (…) Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades.”
Não podia haver poema (ou conceito poético) mais realista e actual em relação à cidade de Aveiro do que esta mudança de tempos, vontades e da história.
É precisamente a história que marca alguns dos acontecimentos mais recentes em Aveiro… ou melhor, que os influencia e que os determina.
Na agenda política, social e cultural de Aveiro, está em discussão o futuro da Linha do Vouga, regeneração urbana que pode alterar a urbanidade existente (Alboi, Baixa Sto. António, Parque da Cidade, Canal Central), o futuro do poder local (as freguesias e as suas eventuais fusões), até mesmo o futuro da administração religiosa (as paróquias) ou a fusão de instituições e entidades. Mas a história, enquanto processo construtor da sociedade e das comunidades, também marcou a identidade aveirense: hoje falta o sal, o moliço, o barro, as cerâmicas, a feira das cebolas, a euforia de outrora das festas tradicionais como a Sra. das Febres, o Sr. das Barrocas, Santos Mártires, a Finte dos Amores, as escadinhas de Vilar, os barrancos, as fábricas, o Bairro do Vouga, entre muitos outros exemplos de que a tal história de Aveiro é imensamente rica (sem precisarmos de sair da cidade).
Aveiro foi construindo a sua história ao longo dos tempos, dos anos, adaptando-se ao evoluir dos acontecimentos da sociedade, e com gente, muita gente, naturais ou outros que à beira Ria se fixaram, para além dos que por aqui passaram (com mais ou menos pressa). Gentes que marcaram também a história do país (Homem Cristo, José Estevão, Mário Sacramento, Alberto Souto, …) outros que marcaram a história aveirense (Mumadona Dias, João de Aveiro, Santa Joana Princesa, Manuel Firmino, Lourenço Peixinho, …) para além de tantos e tanos aveirenses anónimos que foram construindo a história dos bairros, das ruas, da cidade.
E a cidade foi crescendo, alargando as suas culturas, diversidades, especificidades, abrindo as portas a mais gente. Gente nova que foi revitalizando novos espaços, novas urbanidades, dando vida à cidade e a um dos seus actuais alicerces: a universidade.
Por isso, ao contrário do que muitos julgam ser imposição ou um constrangimento da história, a verdade é que a cidade tem, de uma vez por todas, que assumir uma nova história: deixar os bairrismos seculares de lado e pensar num todo, de forma abrangente, mesmo que na diversidade e multiculturalidade. A cidade tem muita gente que se fixou em Aveiro vinda de fora porque gosta desta comunidade. E isso traz novas identidades e realidades urbanas.
Tem de regenerar os seus espaços urbanos mais degradados, restituindo-lhes a “vida” (as pessoas); tem de repensar o seu associativismo questionando-se a consistência e a existência de tantos grupos culturais, sociais ou desportivos; tem de reflectir, de forma sustentada, a valorização da existência de uma só freguesia e, tal como D. António Marcelino já o ventilou, uma só paróquia na cidade; tem de reflectir sobre o redimensionamento de muitas das suas instituições, como é o caso, recentemente colocada na agenda pública, da fusão das duas corporações de bombeiros, dando-lhes uma melhor estrutura, solidez, dimensão, escala e melhor rentabilidade de recursos, melhorando com isso o excelente e dignificante serviço (a maioria das vezes impagável) que prestam aos cidadãos e à comunidade.
Daí que questionar a actual existência de duas corporações de bombeiros não é desprestigiar todos os que directa ou indirectamente a elas estão ligados, nem renegar a história e o papel que foram tendo ao longo da sua existência. É antes de mais, valorizar a sua importância, dignificando o seu valor social e humanitário, promovendo a sua sustentabilidade e a continuidade do seu serviço público inquestionável. O contrário, face às novas realidades sociais e económicas, poderá ditar constrangimentos futuros que colocarão em causa a sobrevivência das duas instituições.
Se Aveiro não abrir os seus horizontes, não deixar a sua história prosseguir marcando os seus próprios “tempos”, vai ficar “amarrada” a bairrismos, a identidades que já não correspondem à realidade vivencial das novas comunidades e bairros… e, de uma vez por todas, a “Ria” tem de deixar de ser, definitivamente, uma barreira para passar a ser a identidade e o símbolo que une a cidade e as suas gentes.
Os tempos são outros… mudaram-se as vontades e as qualidades. Aveiro também precisa de mudar.
publicado por mparaujo às 09:27

17
Ago 10
O país continua a "fumo e fogo", enquanto vai a banhos e se prepara para o arranque da temporada politica.
Nem mesmo o início do campeonato parece fazer esquecer ou arrefecer um país que vai vendo desbastado o seu património natural e ambiental.
Perde a economia, o ambiente, as comunidades e... infelizmente perdem-se bens e vidas. E uma vida é sempre uma Vida!

A Federação dos Bombeiros do Distrito de Aveiro recebe Crachá de Ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses (fonte: Rádio Terra Nova)

Entretanto, uma visão interessante de quem acompanhou por perto o exterminar do "pulmão" do Minho e do Norte de Portugal: "Terra Queimada", na Bloguicia de Victor Pinto (TVI).

(actualização)
Distrito de Aveiro é o segundo mais afectado pelos incêndios (fonte: Notícias de Aveiro)
publicado por mparaujo às 19:47

14
Ago 10
Para além das questões ambientais, económicas e sociais, os fogos (cíclicos em cada ano civil e com maior relevância na época de verão) servem igualmente para um desfile de opiniões, críticas, acusações, principalmente nos órgãos de comunicação social.
Curiosamente, seja de que sector for (autárquico, das populações, do governo) os Bombeiros são, normalmente, o alvo preferencial das criticas.

Depressa as pessoas se esquecem de que, na hora da aflição, é a eles que recorremos em primeiro lugar (muitas vezes, e são várias as histórias que conheço, por tudo e por nada).
Depressa as pessoas se esquecem de quem perde a vida pelos outros, pelos bens dos outros, só pela causa e pelo voluntariado, são os bombeiros: e, infelizmente, são já muitos os que partiram.

Por outro lado, é pena que as pessoas se esqueçam facilmente dos planos municipais de prevenção que não existem na maioria dos casos; de um Ministério da Administração Interna que não promove nem dota suficientemente de meios para que o combate e, principalmente, a prevenção sejam mais eficazes; de um Ministério da Justiça que se preocupou em não contemplar devidamente no código penal os crimes de fogo posto (por dolo ou por negligência); um Governo que teimosamente tenta “camuflar” a realidade dos factos (fonte: Público); e um Ministério da Agricultura que, ano após ano, sai sempre incólume deste processo mas que não tem nenhum plano nacional de reflorestação ou de ordenamento florestal, ou ainda de fiscalização da nossa mancha verde.
E sobre este último caso, foi com surpresa que o ridículo chegou à fala de um ministro que a maioria das pessoas nem conhece: a expropriação dos terrenos a favor do Estado. Quando o próprio estado tem dificuldades de sobra para tratar do que é seu e da sua responsabilidade.
Enfim… calor e fumo a mais!
publicado por mparaujo às 14:48

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