Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

18
Jan 17

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publicado na edição de hoje, 18 de janeiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

De novo… a cidadania e as cidades

O assunto foi abordado pelo Primeiro-ministro, em finais de 2016, aquando da realização, na Póvoa do Varzim do XX Congresso da Juventude Socialista. No discurso proferido aos jovens socialistas congressistas António Costa afirmou que «não há futuro para as nossas cidades se o centro dessas cidades não for reocupado pela vossa geração que é a geração que tem de ter oportunidade para viver no centro da cidade que é onde podemos construir o futuro para todos nós». Com esta afirmação surgem de novo as temáticas da degradação social (económica e demográfica, por exemplo) e urbana (edificado, reabilitação) dos centros das cidades e, ainda, questões ligadas às responsabilidades de cidadania e do Poder Local.

Já por diversas vezes foi mote nestas páginas a defesa do princípio de que, mais do que qualquer outra vertente ou válido conceito, a recuperação dos centros das cidades, das chamadas zonas históricas (no seu sentido lato), só faz sentido, só terá impacto e sucesso, se as pessoas voltarem a viver (e a conviver) nesses espaços urbanos. São os casos concretos aveirenses da Rua Direita e suas envolventes, da zona do Alboi, do bairro da Beira Mar e, obviamente, da cada vez mais desertificada Avenida.

Podemos falar do “estado de alma” do chamado comércio tradicional que proliferou durante muitas décadas nestas zonas dos centros urbanos, umas mais típicas, outras mais históricas; podemos acrescentar a esta anterior vertente a maior ou menor quantidade de oferta de serviços (públicos ou privados) e as suas interferências nestes espaços; podemos falar sobre os impactos, positivos ou negativos, do crescimento (em muitos casos excessivos) do turismo local que tem sido relevante para a estagnação de muito do edificado mas que traz alguns problemas à descaracterização social destes centros; podemos, também, abordar a problemática (porque é, de facto, um problema) da reabilitação urbana e do espaço público; podemos, por último, avaliar os impactos que medidas e projectos de socialização, mais ou menos esporádicos e pontuais, possam ter na revitalização dos centros urbanos; mas a verdade é que sem as pessoas, principalmente, sem as pessoas voltarem a habitar e a dar vida, diária e permanente, a estas zonas emblemáticas das identidades das cidades, tudo não passará de exercícios pontuais, esporádicos, ou de medidas de cosmética.

Deste modo, a questão da requalificação urbana tem mais significado e relevância, numa responsabilidade partilhada entre o Poder Local (aplicação de medidas e políticas como os planos urbanos inseridos nos PEDUs e/ou ARUs, no caso concreto de Aveiro os recém aprovados PEDUCA e ARU) e a responsabilidade de cada cidadão, nomeadamente os proprietários de imóveis, investidores e comerciantes. Não basta, a estes últimos exigir que as cidades sejam devolvidas às pessoas se não houver corresponsabilização no seu cuidado, na sua gestão, no seu desenvolvimento.

Será, neste sentido de responsabilidade cívica e de pleno exercício de cidadania, sem que os cidadãos estejam constante e permanentemente à espera ou dependentes dos poderes locais e centrais, que se aguarda por uma iniciativa inédita em Aveiro e que será realizada a 4 de Fevereiro: o Aveiro Soup, sob o lema “Mudara a cidade, Sopa a Sopa”. Este recente exercício pleno de cidadania (que teve a sua origem há seis anos nos Estados Unidos, em Detroit) tem como objectivo a apresentação, num jantar simples e informal, de quatro projectos com impacto na cidade e na sua comunidade (previamente escolhidos por um colectivo de personalidades ligadas às áreas científicas, empresariais, sociais e culturais) que serão avaliados pelos presentes e destes seleccionado/votado um que será implementado.

Apesar de desconhecer por completo os quatro projectos a serem apresentados, este poderia ser um excelente e interessante momento para que possam surgir propostas sólidas para se revitalizar os vários centros urbanos da cidade de Aveiro. Que seja uma boa “sopa” de ideias e de cidadania.

publicado por mparaujo às 10:48

29
Jun 16

Projeto-Vivo-Bairro-Aveiro.jpg

publicado na edição de hoje, 29 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Faltam pessoas

Há, a nível nacional, nomeadamente nos principais, tradicionais e históricos centros urbanos das grandes cidades e das cidades médias portuguesas, uma patologia grave e comum: a sua descaracterização, a sua desertificação, o seu abandono, a sua degradação. E esta patologia, ou patologias, tem a sua sustentação no decréscimo ou abandono das actividades económicas e comercias, das tradições, da história, da vida comunitária e social. Esta é uma realidade que se acentuou na última década, é generalizada a vários pontos do país, já por diversas vezes referenciada, seja na comunicação social, seja por diversas entidades. Não é recente, nem novidade, a referência ao centro histórico e tradicional do Porto, aos bairros típicos de Lisboa, à “baixa” de Coimbra, etc. Aveiro não foge à (infeliz) regra. Basta recordar as diversas referências, neste aspecto, à Avenida Dr. Lourenço Peixinho, a algumas zonas do bairro da Beira Mar ou à tão repetida Rua Direita e zonas envolventes (Praça Marquês do Pombal, Bairro do Alboi - apesar da requalificação - Rua Belém do Pará e Gustavo Ferreira Pinto Basto).

Ao longo dos tempos, por diversas razões, estes centros foram perdendo a sua vitalidade, a sua identidade, a sua referência urbana ou a sua actividade comercial, deteriorando-se o património, o espaço público e acentuando a desertificação. Mudaram-se serviços, alterou-se a sua identidade e referência comercial, perderam-se as pessoas. E é essencialmente neste aspecto eu se torna mais notória a degradação dos centros urbanos: a ausência das pessoas. Seja pelo abandono dos espaços habitacionais, seja pela falta de pontos de referência (serviços, comércio, cultura). No caso da Rua Direita e da Avenida é evidente a degradação comercial, patrimonial e a desertificação: fecharam serviços (muitos), fechou comércio que, apesar de tradicional, era referência, as pessoas deixaram de habitar estes locais. Apesar da realidade é de louvar e registar a resistência e a motivação que leva os poucos moradores e comerciantes desta zona a não baixarem os braços, a lutarem contra o “destino”, contra a corrente, a promoverem o espaço público, as tradições e o sentido de comunidade e bairro, entretanto perdidos no tempo. Iniciativas como as que são proporcionadas pelo projecto Vivó Bairro, sustentadas na vontade dos cidadãos e alicerçadas em sólidas e importantes parcerias (Câmara Municipal de Aveiro, Universidade de Aveiro, etc.) são importante para a vitalidade dos centros urbanos, apara a mobilização das comunidades e dos bairros. Mas ainda mais… são importantes contributos para que se pense, se planeia, se estruture o território urbano. E neste aspecto é importante que os projectos que se desenvolvam ou as acções que se promovam tenham na sua estruturação uma condição fundamental: a construção de um território (bairro) ou de uma comunidade não se faz sem pessoas, sem que haja quem habite espaços, sem que haja quem procure o espaço público, sem que haja um foco gerador de movimentos e fluxos. Mesmo que tal implique alterações nas identidades e características destes centros e bairros.

Em Lisboa, a título de exemplo, tem havido publicamente alguma crítica à forma como se tem requalificado alguns bairros tradicionais e típicos da capital. Acusam os críticos que os bairros têm sofrido um acréscimo e um fluxo de pessoas sem raízes, visitantes ou turistas, que provocam uma rotação populacional que descaracteriza aquelas zonas. Mas a verdade é que a recuperação do património imobiliário em espaços de alojamento turístico local teve três aspectos que importa destacar: a recuperação e reabilitação urbana; o combate à desertificação; o combate à degradação dos imóveis que no caso de arrendamento não se afigurava possível. No fundo, o repensar uma nova identidade para aquelas zonas tradicionais de Lisboa permitiu dar uma nova vida aos bairros e às comunidades.

O que é importante é que as pessoas voltem a habitar os centros urbanos, preencham e vivam aqueles espaços públicos, permitindo, dessa forma, a revitalização das tradições, do comércio e da vivência comunitária, preservando o património e combatendo a desertificação e a degradação urbanas.

Que vivam os bairros.

publicado por mparaujo às 10:41

29
Mar 13

A questão está na forma e não no conteúdo.

A propósito de mais um projecto ou iniciativa para a reabilitação das "baixas comerciais" nos centros urbanos.

A autarquia de S. João da Madeira lançou o projecto "Comércio com criatividade: Ruas Vivas" (fonte: 'O Regional').

O projecto, no seu conteúdo e na sua sustentação, não traz nada de novo ou não tem qualquer tipo de inovação.

Dinamização do comércio tradicional (horários, aposta nas tecnologias, campanhas/publicidade), animação cultural no espaço público e aposta na formação dos comerciantes, nomeadamente na área do marketing ou do vitrinismo.

Não significa, obviamente, que não possa ter sucesso. Não é isso...

É apenas para destacar que, ao lermos a notícia, ressalta um outro aspecto, esse sim consideravelmente relevante, e que tem a ver com a forma que estrutura o projecto. Forma que permite uma maior garantia de eventual sucesso.

É que o projecto é definido como um projecto comum, de vontades partilhadas,  de "mãos dadas": Câmara Municipal, Associação Comercial e Ecos Urbanos (associativismo e cidadania). Este é um aspecto mais que fundamental para a implementação de projectos de intervenção pública. Em vez de andarem dispersos e desmultiplicados os recursos, as ideias e as vontades.

Exemplos... e boas práticas.

publicado por mparaujo às 19:35

16
Jan 13

Têm sido recorrentes, nestes dias mais recentes, as referências ao centro urbano da cidade, nomeadamente à Rua Direita (Rua dos Combatentes da Grande Guerra e Rua de Coimbra), e zona envolvente (Rua Príncipe Perfeito, Rua Belém do Pará e Rua Gustavo Ferreira Pinto Basto).

Todas as localidades, seja qual for a sua dimensão e importância, têm uma centralidade própria, projectada nas mais diversas e distintas tipologias: zonas histórias, zonas culturais, zonas comerciais, zonas sociais (religiosas, por exemplo). Aveiro não foge à regra. Ao tempo, a zona muralhada da Av. 5 de Outubro (actual Sé e Museu de Aveiro), o antigo Cojo (hoje Fórum Aveiro), a Praça Marquês de Pombal, a Praça da República, o Alboi e o bairro da Beira Mar (Largo do Rossio e Praça Melo Freitas), delimitaram, nas mais diversas e individuais características e importância, duas zonas relevantes e marcantes na história da cidade. Mais tarde, quando por volta de 1921, Lourenço Peixinho “rasga” a Avenida Central (a partir de 1952 com o nome de Avenida Dr. Lourenço Peixinho) desde a Ponte de Praça até à Estação de Caminhos-de-Ferro, a cidade ganha uma nova e forte centralidade, concorrente do espaço até então projectado, no tempo, pela nobreza, aristocracia, Igreja e política, agora, já sem a muralha e sem a Freguesia de S. Miguel (com clara perda de parte da sua história), essencialmente confinado à Praça Marquês de Pombal (Governo Civil, Convento das Carmelitas e Palácio da Justiça), Rua Direita (comércio), Museu e Praça da República (Paços do Concelho, Misericórdia, Liceu Homem Cristo e Teatro Aveirense). Embora nascido na ainda freguesia da Vera Cruz sempre vivi e cresci na, também ainda, freguesia da Glória, precisamente muito perto da Rua Direita, até ter casado e ter-me fixado na Vera Cruz. Daí que tenha acompanhado, durante cerca de 40 anos, todo o definhar daquele espaço que foi, a par e concorrencialmente com a Avenida Dr. Lourenço Peixinho, o centro urbano da cidade. Recordo perfeitamente a circulação automóvel em toda aquela zona, os serviços lá existentes, o comércio que florescia, etc. Já por diversas e variadas vezes aludi aqui que é preocupante o estado actual e o futuro da Rua Direita. E a solução, aparentemente óbvia e lógica, afigura-se difícil de atingir e de uma complexidade que inquieta porque apenas permite concluir que a Rua Direita vai mesmo “morrer”, mais ano, menos dia. A tal solução é só uma: devolver as pessoas à Rua Direita. Só que os meios para atingir tal realidade é que parecem não serem exequíveis, nem passíveis de se implementarem. Porque há aqui um paradoxo muito forte e relevante: é que foram as próprias pessoas que abandonaram a Rua Direita (tal como na Avenida). Deixaram de habitar a Rua Direita, deixaram “comercializar na Rua Direita, “obrigaram” a outras centralidades no que respeita aos serviços, nomeadamente os públicos (como a autarquia, finanças, etc.) e aquela centralidade vai, a pouco e pouco, deixando de ter o impacto de outros tempos na cidade, com preocupantes questões ao nível social e urbanístico. E de forma abalada e com profunda tristeza não consigo encontrar meios capazes de chegar à solução que revitalize aquela zona: as pessoas. Não é com o regresso da circulação automóvel, não será apenas com reabilitação urbana ou projectos de urbanismo, os serviços públicos não têm, pelas exigências dos dias de hoje, condições para o regresso àquele espaço (não há condições físicas para o regresso das finanças, da autarquia, ou a transferência da “loja do cidadão”, entre outros), não é através de um comércio que deixou de ser atractivo ou concorrencial, não é com acções culturais esporádicas (lembro a realização da feira mensal criativa, que tem enorme sucesso), que as pessoas regressam à Rua Direita. Também é certo que as cidades, como as sociedades, são dinâmicas: constroem os seus percursos na evolução ou alteração da história e da sua urbanidade. Seriam inúmeros os exemplos que retratam esta realidade: as muralhas, as quatro freguesias urbanas, o primeiro espaço da junta de freguesia da glória na casa mais antiga da cidade (junto aos Paços do Concelho), o aqueduto ou arcada do Cojo, em alvenaria, cujos vestígios estão hoje completamente “engolidos” pela construção urbana na Rua de Viana do Castelo, a Fonte dos Amores, a produção cerâmica e os barreiros, as salinas, a Feira das Cebolas (que alcunhou os ‘ceboleiros’) ou a grandeza da Festa da Sra. das Febres (muito antes do S. Gonçalinho), etc., etc. O que a memória nos conseguir recordar.

Infelizmente, por maior que seja a mágoa, a realidade é mais forte… a menos que haja algum milagre urbano que salve a Rua Direita (assim como a Avenida) de mais uma dinâmica urbana.

publicado por mparaujo às 07:39

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