Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

01
Fev 17

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publicado na edição de hoje, 1 de fevereiro, no Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Os telhados de vidro contra Trump

Já o referi (escrevi) por diversas vezes que a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos é o maior erro da história da democracia nos dois últimos séculos. E não é por desrespeito pela infeliz decisão dos norte-americanos ou por pretender negar a importância do voto livre na essência da democracia. É precisamente a mesma democracia que me legitima a liberdade de expressão e de opinião sobre a decisão democrática dos eleitores norte-americanos.

Afigura-se um mandato na Casa Branca de alguém que de política, interna e externa, percebe muito pouco e faz da função de governação, curiosamente da maior potência mundial, uma brincadeira de jogos infantis ou alguém que acha que a Sala Oval serve os mesmos princípios que o gabinete onde gere (ou geria) os seus negócios (ainda está por saber se bem e de que forma). Mais ainda, alguém que se rodeia de pessoas que fazem da administração norte-americana o espelho dos bastidores e passerelles cor-de-rosa das esferas empresarial e financeira ou da chamada alta sociedade económica ou do ilusório “glamour” das capas de revista “Jet-X”. Governar os Estado Unidos e o que representam para e no Mundo não é o mesmo que gerir uma cadeia de hóteis, campos de golfe ou casinos.

Esta primeira semana da administração de Donald Trump foi mais que suficiente para exemplificar o que será o preocupante futuro dos Estados Unidos e do Mundo e foi também mais que suficiente para nos apercebermos do perfil do 45º Presidente dos Estados Unidos da América: autoritário e totalitário (veja-se o recente caso com a demissão da Procuradora-geral, Sally Yates, em que Trump encarna em si o poder político e jurídico/constitucional); sem respeito pela condição humana e sem preocupações sociais; sem respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos; com uma agenda e estratégia internacionais desastrosas, débeis e condenáveis. E mesmo para quem se apelida de guru empresarial é, no mínimo, questionável a sua visão da economia que não sobrevive, em modo algum, sem uma visão e estratégia global num mundo com cada vez mais menos fronteiras (seja pelas importações, pelas exportações ou pelo simples mercado).

Pior que tudo é a imagem e a percepção de um presidente que isolará os Estados Unidos do mundo, que diminuirá a importância geoestratégica e geopolítica dos americanos no panorama internacional (com benefícios óbvios para a política e os interesses de Putin), que deixará a Europa desamparada e sozinha, que dividirá internamente a América e rapidamente destruirá os princípios fundadores da terra do “Tio Sam”.

Mas as críticas internacionais, concretamente as europeias, a Trump são de uma enorme incoerência e falsidade. Rapidamente se levantaram vozes a condenar veemente a decisão de Trump em relação ao muro na fronteira com o México e à decisão sobre expulsão e impedimento de entrada de refugiados e imigrantes.

É, no mínimo, curioso que líderes e políticos de países da União Europeia e a própria União Europeia se insurjam, neste ponto (repito, neste ponto), contra Trump quando a Europa não soube minimamente tratar, com dignidade, respeito pelos direitos humanos, com estratégia política concertada, de forma solidária e consistente, o problema dos milhares de refugiados que surgiam nas costas mediterrâneas gregas e italianas ou que rompiam nas fronteiras terrestres do leste europeu (pela Turquia, Moldávia, Bielorrússia ou Ucrânia). Isto sem esquecermos as posições unilaterais de muitos países europeus que nunca mostraram solidariedade com os graves problemas que italianos e gregos viveram durante décadas a fio até que o flagelo entrou pelas suas fronteiras a dentro. Basta lembrar a vergonha que foi e é Calais, os camiões na Áustria ou os actuais campos de refugiados. Mais ainda, importa recordar às incoerentes vozes críticas o vergonhoso acordo entre a União Europeia e a Turquia para “vender o problema” e pagar aos turcos para resolverem algo que a UE foi incapaz de solucionar, transformando a vida humana, a vida humana mais fragilizada e mais necessitada, em mercadoria e moeda de troca.

Por fim, importa também lembrar que era importante a Europa olhar para os seus próprios muros e para as suas inexistentes políticas de migração e de acolhimento a refugiados, recordando como exemplo, os recentes “muros” na Bulgária e na Hungria e as respectivas posições políticas dos seus líderes.

É importante que a Europa olhe ara os seus “telhados de vidro” e arrume primeiro a sua casa, sem que isso desculpe, em nada e de qualquer forma, a triste administração de Donald Trump. Em nada mesmo. Basta lembrar uma das últimas afirmações de Trump: “a tortura funciona”.

(créditos da foto: agência Reuters - tvi)

publicado por mparaujo às 09:58

18
Dez 16

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publicado na edição de hoje, 18 de dezembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O Inferno na terra

Tomemos como marco o mundo tido da “era moderna” pós II Guerra Mundial que é referência no actual sistema geopolítico e geoestratégico mundial, seja ao nível político, económico, científico e social.

O mundo ainda não refeito do impacto na Europa do conflito com a Alemanha de Hitler procurava dar os primeiros passos na sua organização geopolítica, como a criação da NATO, das Nações Unidas, dos primórdios da Comunidade Europeia, do Bloco de Leste. No entanto, as feridas mal saradas do conflito na Europa, que se estenderia ainda ao Pacífico com o confronto entre o Japão e os Estados Unidos, não foram suficientes para, mesmo em plena “Guerra Fria”, tornar o mundo mais seguro e politicamente mais estável. A década de 60 ficava marcada pela guerra no Vietnam e nas Coreias durante cerca de oito anos; nos finais deste período (1968) a Operação Danúbio fazia entrar na então Checoslováquia as tropas soviéticas e os aliados do Pacto de Varsóvia que, desde a Primavera de Praga, ocupariam aquele território até 1991. Nos anos 70 e durante cerca de dez anos (1979-1989) o mundo assistia à invasão do Afeganistão por parte das tropas da URSS de Brezhnev que só terminaria com Gorbachev a ordenar a retirada das tropas no que é considerado por alguns como o princípio do colapso da União Soviética. A década de 90 ficava marcada por dois grandes conflitos armados e por um outro (mais de guerrilha) que tocou bem de perto muitos portugueses: o massacre de Santa Cruz (Dili - novembro de 1991) e a correspondente libertação de Timor-Leste do domínio da Indonésia. O início desta década (agosto de 1990) ficou marcado pela Guerra do Golfo e a invasão do Kuwait por parte do Iraque (agosto de 1990 a fevereiro de 1991 naquele que é um marco temporal no que é hoje a nova configuração de conflito e relações internacionais e, curiosamente, a forma como a comunicação social passou a ter um outro papel na informação de cenários de guerra. Bem perto do Natal de 1991, após a importância que teve a difusão das imagens do jornalista inglês Max Stahl do massacre de cerca de 400 timorenses, os olhares voltaram-se para Timor-Leste tendo sido possível, até ao final da década de 90, com alguma diplomacia portuguesa à mistura, libertar aquele povo do domínio da Indonésia e torná-lo na mais jovem nação. Entretanto, o mundo regista um dos maiores e mais duradoiros conflitos da história da humanidade que já vem desde o início do século XX: o conflito Israel-Palestiniano. Também pelo meio fica a sempre esquecida e abandonada África em constante conflitualidade interna após os períodos colonizadores de Portugal, Holanda, França e Inglaterra; a relação instável entre a Índia e o Paquistão; a posição instável da Turquia entre duas realidades culturais (ocidente e oriente); e, ainda, as convulsões dos países da América do Sul (Colômbia, Chile, Argentina, Nicarágua, como exemplos).

Eis-nos chegados à nova realidade geopolítica e geoestratégica internacionais: 11 de setembro de 2001 e a consequente invasão do Iraque de Saddam Hussein em março de 2003. O mundo ficaria, por mais vozes que o contradigam, muito mais inseguro, muito mais conflituoso, muito mais perigoso, muito menos humano, humanizado e humanitário, e o mesmo mundo passaria a viver uma nova realidade de conflitualidade: o terrorismo e o extremismo religioso-político. Até hoje, o mundo assistiu à guerra no Iraque, à intervenção no Afeganistão; ao ressurgimento dos focos extremistas em África; à explosão do sentimento de liberdade nas Primaveras Árabes; aos atentados no coração da Europa (Espanha, Inglaterra, França, Bélgica, Alemanha); ao crescimento das ideologias radicais e extremistas de movimentos e partidos políticos quer na Europa, quer nos Estados Unidos; à inigualável e histórica crise dos refugiados. E como toda esta história da humanidade em “apenas” 71 anos (desde o final da II Guerra Mundial em 1945 até hoje) o Mundo nada aprendeu, nada corrigiu, os povos e os seus líderes em nada mudaram continuando a sobrepor os interesses de uns (poucos) e de algo (economia, poder, recursos) acima das pessoas, das comunidades, das vontades e liberdades de cada cidadão.

Eis-nos chegados a Aleppo, na Síria, em finais deste ano de 2016. A distância de mais de cinco mil quilómetros, mesmo que os impactos sejam mais que visíveis no Mundo e na Europa, faz-nos olhar para os milhares de mortos, refugiados e desalojados, para milhares de cidadãos em permanente sobressalto e pavor, enfrentado diariamente a morte pelas armas ou pela fome e/ou doença, enfrentando a destruição das suas vidas, com uma generalizada indiferença e alheamento. A Europa e os Estados Unidos não podem continuar a desresponsabilizar-se (e a responsabilizar terceiros) por algo que lhes diz, directamente, respeito. O mundo (nós) não pode ficar indiferente perante um dos maiores massacres que a história conheceu.

Aleppo deveria-nos fazer pensar se o Natal, se este Natal, faz qualquer sentido. Um Natal que na Síria (e não só… em Mossul, em África, no Iraque e em muitos outros sítios) é sinónimo de Inferno… na terra.

(créditos da foto: Abdalrhman Ismail / Reuters)

publicado por mparaujo às 16:36

03
Ago 16

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publicado na edição de hoje, 3 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Em pé de guerra

A recente notícia dos quatro argelinos que invadiram a pista do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, deixou muitos portugueses entre a perplexidade e o sobressalto, para mais com a divulgação que, semana antes, o mesmo tinha ocorrido com um grupo de marroquinos. A perturbação e o desassossego deram, rapidamente, origem a algum histerismo colectivo e informativo com o fantasma “terrorismo”. O que já não é novidade, nomeadamente por essa Europa fora. Por mais que seja usado o chavão de que a vida continua e há que mostrar serenidade ao enfrentarmos a realidade, não tenhamos dúvidas: há medo instalado na sociedade, principalmente em países muito particulares como a França, a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Inglaterra, a Suécia ou a Noruega. Podemos continuar a andar na rua mas cada vez mais olhamos para o lado, para trás, para o “vizinho” com o qual nos cruzamos. Isto para referirmos especificamente a Europa, pela proximidade e pela afectividade, porque o olhar podia (e deve) ser mais distante: Estados Unidos, América do Sul, Iraque, Síria, Líbano, Afeganistão, Turquia, Mali, Somália, Sudão, Nigéria, entre outros. Pela lista, apesar de resumida, percebe-se que o Mundo está em guerra consigo mesmo, como afirmou recentemente o Papa Francisco. A todo este contexto importa lembrar, não deixar cair no esquecimento, e acrescentar a continuidade de vidas que, semanalmente, se perdem para sempre no Mar Mediterrâneo (números da Organização Mundial das Migrações revelam, só este ano e até à data, cerca de 3200 mortos neste mar cada vez mais transformado em cemitério do desespero).

A história revela-nos marcos importantes que determinaram mudanças relevantes nas sociedades e no desenho geopolítico mundial. Recordemos, a mero título exemplificativo, o fim da “Guerra-Fria”, a queda do Muro de Berlim e a unificação alemã, o fim da cortina de ferro e a desagregação da unificação no leste europeu. Além disso, os trágicos e impensáveis acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, com a consequente guerra no Afeganistão (Outubro de 2001) e, mais especificamente, com a Guerra do Iraque e o derrube de Sadam Hussain (Março de 2003), tornaram o Mundo menos seguro e mais conflituoso, como o demonstraram, por exemplo, os consequentes episódios de Madrid (11 de Março de 2004) e Londres (7 de Julho de 2005). Com a morte de Bin Laden, o (re)surgimento do jihadismo islamita com raízes sunitas (em claro confronto com a corrente xiita), o denominado Estado Islâmico tem manchado o valor da liberdade, da igualdade, da fraternidade e, principalmente, o inegável direito à vida, seja na Europa, seja em pleno coração africano, directamente ou através da sua influência. Na Europa, após os trágicos e deploráveis acontecimentos no Charlie Hebdo, há pouco mais de ano e meio (7 de janeiro de 2015) cobririam a França e a Europa de um rasto de atentados terroristas sob a suposta conversão do mundo ao islamismo radical e à implantação do grande califado (a junção da política - estado - com a religião é, neste caso, incontestável). O mais recente caso, na Europa, de terrorismo sob a capa do jihadismo ocorreu em França, na igreja de Saint-Etiénne-du-Rouvray, com o sacerdote Jacques Hamel a ser degolado. Mas o medo, a agitação e o constante sobressalto com que vivem, no dia-a-dia, milhares de europeus não pode ser apenas visto como sinónimo de islamismo radical ou tudo com a marca do Estado Islâmico. A verdade é que a Europa, em particular, vive momentos inconfundíveis duma clara “crise existencial”, de degradação dos seus valores políticos e sociais e que estiveram na sua génese, de incapacidade política para enfrentar os recentes desafios (seja na origem - Síria, p.ex., seja no seu interior) sociais e humanitários com que se depara diariamente, como por exemplo questões de integração social e cultural e a questão dos refugiados. A Europa em particular e o mundo, em geral, vivem demasiadamente preocupados com questões económico-financeiras, descurando as vertentes políticas, sociais e culturais. O medo e alguma histeria islamofóbica instalou-se na sociedade a propósito de tudo e de quase nada, mesmo que nem tudo seja Estado Islâmico ou islamismo radical. Reconheça-se o crescimento da xenofobia e do racismo, da perda dos valores e dos direitos humanos em muitos estados a caminho dos totalitarismos (Hungria, Turquia, etc.) do radicalismo da extrema-direita (como sucedeu há cinco anos na Noruega, como sucedeu recentemente na Alemanha, num centro comercial em Munique, e com o crescimento dos movimentos radicais) ou até mesmo, por efeito sistémico, um aumento significativo de psicopatias como aconteceu em Nice.

A Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o inegável direito universal à vida, têm de voltar a ter um papel e um valor intrínsecos, fundamentais e inabaláveis, na sociedade e na gestão política das governações, sob pena do mundo entrar num espiral de violência e medo incontroláveis, e permanecer em permanente “estado de guerra” até ao caos total.

(créditos da foto: Christopher Furlong / Getty Images)

publicado por mparaujo às 10:39

foto em pe de guerra.jpg

publicado na edição de hoje, 3 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Em pé de guerra

A recente notícia dos quatro argelinos que invadiram a pista do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, deixou muitos portugueses entre a perplexidade e o sobressalto, para mais com a divulgação que, semana antes, o mesmo tinha ocorrido com um grupo de marroquinos. A perturbação e o desassossego deram, rapidamente, origem a algum histerismo colectivo e informativo com o fantasma “terrorismo”. O que já não é novidade, nomeadamente por essa Europa fora. Por mais que seja usado o chavão de que a vida continua e há que mostrar serenidade ao enfrentarmos a realidade, não tenhamos dúvidas: há medo instalado na sociedade, principalmente em países muito particulares como a França, a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Inglaterra, a Suécia ou a Noruega. Podemos continuar a andar na rua mas cada vez mais olhamos para o lado, para trás, para o “vizinho” com o qual nos cruzamos. Isto para referirmos especificamente a Europa, pela proximidade e pela afectividade, porque o olhar podia (e deve) ser mais distante: Estados Unidos, América do Sul, Iraque, Síria, Líbano, Afeganistão, Turquia, Mali, Somália, Sudão, Nigéria, entre outros. Pela lista, apesar de resumida, percebe-se que o Mundo está em guerra consigo mesmo, como afirmou recentemente o Papa Francisco. A todo este contexto importa lembrar, não deixar cair no esquecimento, e acrescentar a continuidade de vidas que, semanalmente, se perdem para sempre no Mar Mediterrâneo (números da Organização Mundial das Migrações revelam, só este ano e até à data, cerca de 3200 mortos neste mar cada vez mais transformado em cemitério do desespero).

A história revela-nos marcos importantes que determinaram mudanças relevantes nas sociedades e no desenho geopolítico mundial. Recordemos, a mero título exemplificativo, o fim da “Guerra-Fria”, a queda do Muro de Berlim e a unificação alemã, o fim da cortina de ferro e a desagregação da unificação no leste europeu. Além disso, os trágicos e impensáveis acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, com a consequente guerra no Afeganistão (Outubro de 2001) e, mais especificamente, com a Guerra do Iraque e o derrube de Sadam Hussain (Março de 2003), tornaram o Mundo menos seguro e mais conflituoso, como o demonstraram, por exemplo, os consequentes episódios de Madrid (11 de Março de 2004) e Londres (7 de Julho de 2005). Com a morte de Bin Laden, o (re)surgimento do jihadismo islamita com raízes sunitas (em claro confronto com a corrente xiita), o denominado Estado Islâmico tem manchado o valor da liberdade, da igualdade, da fraternidade e, principalmente, o inegável direito à vida, seja na Europa, seja em pleno coração africano, directamente ou através da sua influência. Na Europa, após os trágicos e deploráveis acontecimentos no Charlie Hebdo, há pouco mais de ano e meio (7 de janeiro de 2015) cobririam a França e a Europa de um rasto de atentados terroristas sob a suposta conversão do mundo ao islamismo radical e à implantação do grande califado (a junção da política - estado - com a religião é, neste caso, incontestável). O mais recente caso, na Europa, de terrorismo sob a capa do jihadismo ocorreu em França, na igreja de Saint-Etiénne-du-Rouvray, com o sacerdote Jacques Hamel a ser degolado. Mas o medo, a agitação e o constante sobressalto com que vivem, no dia-a-dia, milhares de europeus não pode ser apenas visto como sinónimo de islamismo radical ou tudo com a marca do Estado Islâmico. A verdade é que a Europa, em particular, vive momentos inconfundíveis duma clara “crise existencial”, de degradação dos seus valores políticos e sociais e que estiveram na sua génese, de incapacidade política para enfrentar os recentes desafios (seja na origem - Síria, p.ex., seja no seu interior) sociais e humanitários com que se depara diariamente, como por exemplo questões de integração social e cultural e a questão dos refugiados. A Europa em particular e o mundo, em geral, vivem demasiadamente preocupados com questões económico-financeiras, descurando as vertentes políticas, sociais e culturais. O medo e alguma histeria islamofóbica instalou-se na sociedade a propósito de tudo e de quase nada, mesmo que nem tudo seja Estado Islâmico ou islamismo radical. Reconheça-se o crescimento da xenofobia e do racismo, da perda dos valores e dos direitos humanos em muitos estados a caminho dos totalitarismos (Hungria, Turquia, etc.) do radicalismo da extrema-direita (como sucedeu há cinco anos na Noruega, como sucedeu recentemente na Alemanha, num centro comercial em Munique, e com o crescimento dos movimentos radicais) ou até mesmo, por efeito sistémico, um aumento significativo de psicopatias como aconteceu em Nice.

A Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o inegável direito universal à vida, têm de voltar a ter um papel e um valor intrínsecos, fundamentais e inabaláveis, na sociedade e na gestão política das governações, sob pena do mundo entrar num espiral de violência e medo incontroláveis, e permanecer em permanente “estado de guerra” até ao caos total.

(créditos da foto: Christopher Furlong / Getty Images)

publicado por mparaujo às 10:08

18
Mai 16

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publicado na edição de hoje, 18 de maio, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Da indiferença crescente

O Observatório da Discriminação, através de um relatório publicado recentemente coincidindo com as comemorações, ontem, 17 de Maio, que analisa, avalia e divulga os dados referentes a 2015, refere que aumentou em cerca de 300% o número de denúncias de crimes motivados pelo ódio em função da orientação sexual e da identidade de género, em relação a 2014. Há um dado interessante no referido relatório que regista um aumento do número de denúncias o que reflecte uma maior consciencialização das realidades e, simultaneamente, uma maior confiança nas autoridades e no papel do sistema judicial. Mas a dúvida que fica é se estes dados, significativamente interessantes e reveladores de uma atitude mais crítica e acusatória para quem atenta contra a dignidade, a igualdade e os direitos humanos, reflectem igualmente uma mudança de atitude e de mentalidade, uma alteração positiva da mentalidade da sociedade e das comunidades.

Recordo aqui parte do que foi escrito no texto da passada semana sobre o Dia da Europa e o “estado de alma” da União Europeia (“Um sonho definhado”) e a forma inconsistente e falhada como a Europa tem tratado a questão dos refugiados. Isto, obviamente, a propósito da defesa dos direitos mais elementares e universais de cada cidadão, de cada pessoa.

Recentemente, a autarquia aveirense promoveu, entre as escolas com 3º ciclo do município, uma sessão da Assembleia Jovem Municipal. Não pretendendo fazer nenhum juízo de valor quanto ás propostas/moções que foram debatidas, houve uma relacionada com a questão da tragédia humana em torno dos refugiados que chegam, diariamente, às portas da Europa e que revelou interessante quanto à sua fundamentação e à sua discussão. E mais interessante porque também reveladora do interesse que os jovens depositam sobre esta realidade. A questão é perceber de que forma é que a maioria dos jovens olha para este problema, com que mentalidade, com que conceitos ou preconceitos. Aos fundamentos (previamente estudados pelo grupo de alunos proponentes da temática) apresentados (e bem apresentados, diga-se) acresce: após os movimentos sociais e políticos surgidos na Tunísia no final de 2010 e que rapidamente se prolongaram até à Líbia, ao Egipto, ao Bahrain, a guerra civil e a crise política e social na Síria (da qual, para a maioria dos cidadãos, a crise dos refugiados é o espelho mais visível) completou, no passado mês de Março, cinco anos. Nestes cinco anos provocou a morte a mais de 470 mil pessoas (segundo um texto do Expresso, com a assinatura da jornalista Helena Bento, tal significa mais da população da Islândia, por exemplo, e quase toda a população do Luxemburgo) cerca de 1,9 milhões de feridos e 4 milhões de refugiados (apenas 700 mil chegaram à Europa) segundo os dados da CNUR referentes a 2015. A tudo isto acresce um país completamente desbastado e destruído.

Mas se a frieza dos números é preocupante e reveladora, não menos inquietante é a forma como a Europa, a União Europeia e as suas instituições, os Estados-membros, não conseguem lidar, liderar e encontrar soluções para esta trágica crise humanitária. A incapacidade de assumir a responsabilidade, ou parte dela, pela crise que é vivida na região e pelo alastrar do Estado Islâmico, a forma como tem lidado com os refugiados como se fossem mercadoria, leiloados por quotas como se a realidade social e económica dos Estados-membros fosse igual aos olhos dos refugiados (a maioria com habilitações superiores e recursos financeiros), “comercializados económica e politicamente” com a Turquia, curiosamente o “fantasma” permanente do alargamento da União Europeia.

Mas não menos inquietante são os mitos que se criam na mentalidade de muitos dos cidadãos e na forma como olham para esta realidade: o receio (ou a desculpa) da entrada de extremistas radicais na União Europeia através do fluxo migratório dos refugiados (estes trocam o medo da guerra pela incerteza da travessia do Mediterrâneo, enquanto os primeiros são já cidadãos europeus de várias gerações e têm os seus próprios circuitos de mobilidade e de acção); a comparação (incomparável) entre os cidadãos nacionais que precisam de ajuda (face à pobreza, ao desemprego, etc) e os apoios que são dirigidos (repartidos) aos refugiados, numa preocupante criação de escalas de prioridades na solidariedade e no apoio humanitário (a maioria dos que aponta críticas aos apoios aos refugiados são os mesmo que nunca saíram do sofá para ajudar o “vizinho”); e, por último, o crescimento dos sentimentos de nacionalismo primário e extremista que leva à xenofobia, à homofobia, ao desrespeito pela igualdade e pelos direitos de todos.

Algo que, curiosa e preocupantemente, também cresce nos mais jovens.

publicado por mparaujo às 11:13

10
Dez 15

Dia Internacional dos direitos humanos.jpgHoje celebra-se o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Há 65 anos, precisamente a 10 de dezembro de 1948, no período do pós-Guerra, foi proclamada a Carta Universal dos Direitos Humanos, sustentada no atrocidades do conflito da II Guerra Mundial, mas também no direito natural que fundamentou, por exemplo, a Magna Carta (1215), a declaração de Independência dos Estados Unidos (1776), a Revolução Francesa (declaração dos direitos do homem e do cidadão em 1789), a criação da ONU em  junho de 1945.

Volvidos estes 65 anos e muitos milhares da história da humanidade, não deverá haver tantos acordos, declarações, compromissos, tão violados e rasgados como a Declaração Universal do Direitos dos Homens.

Hoje, 10 de dezembro de 2015, com óbvia naturalidade os olhares e a opinião pública voltam-se para a tragédia e a crise dos refugiados na Europa. Facto inquestionável e mais que evidente.

No entanto importa não esquecer que há "mais vida" para além dos refugiados (infelizmente).

Há a falta da liberdade de expressão e de opinião que resulta em prisões, perseguições e morte.
Há a pobreza, a falta de cuidados de saúde, de educação, de justiça, por exemplo no continente africano (mais gritante e mais esquecido).
Há a perseguição pela crença/religião, orientação sexual ou raça, em tanto do dia-a-dia de milhares e milhares de pessoas.
Há os crimes de abuso sexual e tráfico humano, dos quais, por exemplo, podemos destacar a pedofilia e mutilação genital feminina.
Mas há ainda as coisas "simples(?)" como a violência doméstica, a homofobia, a xenofobia, a desigualdade de género, que caminham lado-a-lado com a vida no dia-a-dia das nossas comunidades.

Teresa Pina - AI Portugal.jpgPor último, importa ainda aproveitar a efeméride para recordar o trabalho que foi realizado por Teresa Pina (ex-jornalista da SIC e ex-assessora) que deixou, ontem, a direcção executiva da Amnistia Internacional - Secção Portuguesa.

Nestes últimos quatro anos, sem querer promover juízos de valor, nem juízos qualitativos, sobre as diversas direcções executivas da AI - Portugal, nestes 34 anos de existência, a verdade é que o país voltou a ouvir falar da AI (infelizmente pelas razões óbvias da sua missão). Fica, aproveitando o dia, o merecido registo.

publicado por mparaujo às 11:29

25
Nov 15

Apesar do ano de 2015 (que ainda não terminou) registar um decréscimo no número de mortes (menos 14 que em 2014) que resultaram de violência contra as mulheres (não só a doméstica, entenda-se), 27 mulheres assassinadas são sempre números que envergonham em pleno século XXI ( 2,5 mortes/mês). Bastava uma para a indignação... simplesmente.

A par destes números avançados pelo Observatório de Mulheres Assassinadas (OMA) acresce ainda 33 vítimas de tentativa de homicídio.

Para além das tipologias mais "visíveis", como a violência física, a violação, a escravidão, a mutilação genital, entre outros, importa lembrar também as tipologias "silenciosas": injúria, difamação, o isolamento, a coação sexual, a violência psicológica e a intimidação, o domínio económico, por exemplo.

dia internacional de luta contra a violencia da mu

publicado por mparaujo às 11:39

13
Nov 15

refugiados.jpgA discussão já não é nova mas voltou a ter palco e luzes de ribalta, ecoando nas conversas de rua, café, trabalho e redes sociais.

Para alguns (demasiados, por sinal) é inadmissível que Portugal (e porque não a sociedade) ajude Refugiados quando há tanta pobreza e tantos sem-abrigo no nosso país. Sendo essa, por diversas vezes, uma realidade presente aos olhos de muitos de nós ou espelhada nos números das estatísticas, a última observação é óbvia: de facto há pobreza a mais em Portugal. Mas...

O que não é aceitável é o tipo de comparação (entre carência e a morte/sobrevivência) e esta desculpa para a indiferença alicerçada na incapacidade da sociedade portuguesa e do nosso país em combater esse triste flagelo. Soa a calro xenofobismo. E embora este pensamento seja condenável em qualquer circunstância ou círculo, é ainda mais criticável quando muitas das contestações à ajuda aos Refugiados surgem na boca de tanto (pseudo) católico, daqueles de ver bater no peito dominicalmente; os que preferem as caridadezinhas à solidariedade.

Tudo tomou proporções que necessariamente não devemos menosprezar, nem deixar indiferentes, com a anunciada chegada de Refugiados a Portugal. Não propriamente por Portugal ser país de acolhimento (embora muitos, infelizmente, até isso repudiem) mas pelo facto de estar assegurado aos Refugiados acesso assistência médica, escola e aprendizagem da língua portuguesa, entre outros.

Primeiro há uma nota que importa destacar, por força de muita ignorância solidária: Portugal está a dar expressão prática a tratados e convenções (como por exemplo a de Genebra) internacionais aos quais está obrigado, por força da sua aceitação e subscrição, e que impõem o cumprimento de determinadas regras e acções para o acolhimento de Refugiados.

Segundo, esta abjecta falta de solidariedade para com aqueles que, num mundo cada vez mais global e com menos fronteiras e limitações geográficas, sociais, culturais e políticas, é tão grave quanto tão facilmente esquecemos o que foi e é, ainda hoje, a nossa história de emigração. Infelizmente, só nos lembramos os que deixaram e deixam o país quando dá jeito para criticar governos.

Terceiro, a ajuda, o apoio e o acolhimento de Refugiados não se sobrepõe à necessidade de acções sociais e políticas governativas que diminua a pobreza em Portugal. Aliás, muitas das instituições e entidades que, por exemplo, fazem parte da Plataforma de Apoio aos Refugiados - PAR, não deixaram de exercer a sua acção e responsabilidade sociais para com os portugueses carenciados.

Por último, sem entrar em juízos de valor, a verdade é que muitas (muitas mesmo) das vozes que tanto se insurgem contra a ajuda aos Refugiados, argumentando e sustentando a sua crítica na falta de apoio aos portugueses (aos chamados "de cá"), são os mesmos que nunca saíram do sofá para ajudar ninguém, desviam a cara sempre que alguém precisa de ajuda sentado no meio de um passeio ou na rua ou nunca contribuíram em qualquer campanha ou acção de solidariedade.

A actual dimensão da tragédia da maior crise de refugiados do pós Guerra exige uma urgente e importante mudança de mentalidade e um olhar muito mais humano e solidário para o outro, mesmo que distante.

Vemos, ouvimos e lemos... não podemos ignorar!

A solidariedade não tem fronteiras, nem concorre entre si. É livre, liberta e é humanitária.

Sejam benvindos.

publicado por mparaujo às 14:56

18
Set 15

simbolo ue farpado.jpgou se quisermos... uma Europa sem vergonha.

Continua notória, agravada dia após dia, a incapacidade para a Europa conseguir lidar com o problema dos refugiados, seja às suas portas (ou no seu seio), seja na origem (onde reside a prioridade de acção).

Uma incapacidade política, social, e de sentido de unidade entre os seus Estados-membros.

E mais grave ainda... uma inqualificável falta de memória histórica, por exemplo, no pós Grande Guerra ou no caso da própria história húngara, sem esquecer, mais recentemente no tempo, o conflito nos balcãs.

Os muros e os arames farpados não são qualquer solução, antes um agravamento do problema.
Tal como a indiferença social e humanitária, a ausência de respeito pela dignidade humana, a inoperância política europeia.

À falta de uma política humanitária europeia conjunta e solidária, cria-se mais um arame farpado, ergue-se mais um muro, por mais retórica que se use na argumentação.

VERGONHA!

Vale o que vale... e na prática bem sei que vale zero. Mas após esta inenarrável posição da União Europeia terminou a minha participação como eleitor em eleições europeias. BASTA! Esta Europa não faz qualquer sentido... deixou de ter qualquer credibilidade.

 

publicado por mparaujo às 16:48

06
Set 15

aylan.jpgpublicado na edição de hoje, 6 de setembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O poder da imagem

Ditam os cânones que uma imagem vale mais que mil palavras. Não tenho a certeza de tal rigor matemático mas afigura-se como certo que perante determinada imagem fica-se sem qualquer palavra e assola-nos um turbilhão de emoções e reacções, essas sim manifestamente incalculáveis. Daí que na comunicação social haja sempre uma acrescida dificuldade na decisão editorial de publicar ou não determinadas fotografias. Há razões do foro do direito à reserva da privacidade, da segurança, do pudor, da sensibilidade, do interesse público, entre outros. Ao contrário do que à primeira vista poderia parecer a divulgação de uma imagem carece, em determinadas circunstâncias, de maior cuidado do que a divulgação de uma notícia.

Esta semana a comunicação social, nacional e internacional, viu-se a braços com este dilema editorial: a divulgação da imagem do pequeno sírio Aylan que deu à costa numa praia da Turquia, já cadáver, vítima de afogamento no Mediterrâneo. A opção generalizada foi a da sua publicação.

A imagem choca inquestionavelmente. Choca-nos por ser uma criança indefesa, vítima do desespero dos seus pais em encontrarem a esperança de viver condignamente na Europa; choca-nos pela crueldade de ver o pequeno Aylan morto, sozinho naquela praia, ao mesmo tempo que a imagem transmite uma serenidade assustadora; choca-nos por expressar o clímax da inaptidão da Europa e da comunidade internacional em encontrar uma solução para esta tragédia humana dos refugiados que, dia após dia, batem às portas do velho continente. Fogem da morte com o sonho e a esperança de encontrarem a vida na Europa, preferindo os riscos de poderem morrer no Mediterrâneo à quase certeza de morrerem na sua terra natal.

Mas a opção editorial de muitos órgãos de comunicação social (que rapidamente tomou proporções virais nas redes sociais) de publicarem a imagem do pequeno Aylan prostrado numa praia turca não implicava apenas a questão do choque e do alertar para a realidade trágica dos refugiados. A imagem em si transporta muito mais que o choque emocional que provocou. É, em si mesma, um manancial de informação com muito mais impacto que as inumeráveis notícias já publicadas sobre os refugiados. Tal como poderiam ser (e deveriam ser) as publicações das imagens do interior dos camiões abandonados na Áustria ou das execuções bárbaras de tantas crianças pelo proclamado estado islâmico.

A imagem “horrorosamente bela”, como lhe chamou a Estrela Serrano, chocou, criou um reboliço de sentimentos e reacções (infelizmente algumas mais extremistas e fundamentalistas), deu nova dimensão à tragédia que se vive na Europa e para a qual, quer aqui, que na origem, tarda a ser encontrada uma solução e uma intervenção. Entretanto cresce a dimensão da tragédia humanitária, a incapacidade da Europa se unir em torno de uma solução política e social conjunta… e infelizmente cresce o sentimento “anti-refugiados”, os obstáculos à sua aceitação a integração, os extremismos e fundamentalismos, com os revoltantes argumentos do “também temos os ‘nossos’ refugiados nas nossa ruas, nas nossas cantinas sociais, nas nossas sopas dos pobres, nos nossos caixotes do lixo. Infelizmente, só nos lembramos disso quando necessitamos de usar esta realidade, apesar dela estar sempre à frente dos nosso olhos, na nossa vizinhança, para argumentar a favor da indiferença, da xenofobia, da insensibilidade social. Uma ajuda não impede a outra, as dimensões e contextos são, naturalmente, diferentes.

Vemos, Ouvimos e Lemos… não podemos Ignorar. Apesar de ser óbvio que não será possível acolher, nem salvar, toda a gente, a Europa e a comunidade internacional (entenda-se “ocidente”) não pode continuar a esconder o peso político e social das realidades que provocou ou ajudou a criar no Oriente, nomeadamente sob a capa da ONU, da NATO e sob o “comando” dos Estados Unidos.

Descansa em paz, pequeno Aylan. Perdoa-nos.

publicado por mparaujo às 14:51

01
Set 15

A leitura e a partilha dos textos vem a propósito do artigo do Debaixo dos Arcos da edição de domingo passado do Diário de Aveiro: "Uma Europa sem rumo".

Felizmente, cada dia que passa há uma maior consciencialização para o drama dos refugiados e migrantes que todos os dias chegam às portas desta Europa. Para além das posições politicamente corajosas de Angela Merkel, contra tanto cepticismo dos seus pares europeus, e tanto extremismo e radicalismo de posições da sociedade, encontramos textos que, pelo menos, têm o condão de manter viva a memória e a consciência colectiva.

joao miguel tavares.jpgJoão Miguel Tavares (na edição do Público de hoje, dia 1 de setembro) - "Que fizeste ao teu irmão?" foca a gravidade da indiferença da sociedade (e dos políticos) perante a tragédia humanitária, acrescentando uma memória histórica dos anos da II Grande Guerra lembrando, e muito bem, Schindler e Aristides Sousa Mendes.

rui tavares.jpgRui Tavares, também no Público um dia antes, "Mundo Cívico", centra-se na responsabilidade social, cívica e humanitária de cada um de nós, das instituições e dos Estados. Sendo certo que nunca será possível salvarmos todo o Mundo e toda a gente, é sempre possível, por mais pequeno que seja o gesto e a medida, salvar um pouco do Mundo e algumas pessoas. Neste caso, uma mãe e uma criança que sejam.

Obrigado aos dois.

publicado por mparaujo às 15:13

30
Ago 15

eu_DA_debaixo-dos-arcos.jpgpublicado na edição de hoje, 30 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Uma Europa sem rumo

Continua o drama incontrolável dos refugiados e migrantes e que são, pelas razões mais trágicas, notícia constante no dia-a-dia europeu. Do Mediterrâneo transformado em cemitério para aqueles que não conseguiram chegar às costas da Grécia, Malta e Itália, a tragédia passou para o interior da Europa atingindo França, Inglaterra e o norte europeu, aumentando também o número de migrantes que tenta entrar no velho continente por via terrestre. Basta lembrar a situação de Calais ou, recentemente, as cerca de 100 vítimas encontradas no interior de um camião abandonada numa berma de uma auto-estrada austríaca. Já para não falar no permanente atravessamento do Mar Mediterrâneo em direcção à Grécia, Itália e Malta.

Toda esta problemática social e humanitária de dimensões inquestionáveis vem colocar a nu a enorme fragilidade do actual estado de sobrevivência União Europeia. A crise financeira e os resgates internacionais a alguns países da UE vieram questionar a solidariedade entre os Estados-membros. O surgimento de um número significativo de partidos eurocépticos, o crescente sentido de independência e abandono do projecto europeu, a tentativa de "elitizar" (a seis países, como recentemente sugeriu Hollande) a Europa só vem demonstrar a fragilidade política da União Europeia. A incapacidade de encontrar e projectar medidas e políticas, quer na origem, quer no acolhimento, que minimizem e estabilizem este drama humanitário, revela uma Europa sem capacidade de intervenção, sem sentido de unidade e entreajuda. Durante muito tempo (demasiado tempo) o centro europeu olhou com inquietante indiferença para a tragédia quase que diária na costa grega e italiana, até que o drama chegou ao coração da França, às portas de Inglaterra, ao centro do norte europeu. E aí, já as “virgens ofendidas” levantaram as suas vozes, já o problema deixou de ser periférico, já havia a necessidade da Europa distribuir recursos e implementar medidas, apenas porque não era a Grécia, a Itália, o sul de Espanha, mas a toda poderosa Inglaterra, França ou o Norte Europeu.

É esta a Europa falida no seu projecto: uma União Europeia dos subsídios e fundos, das regulamentações, dos burocratas e dos mercados financeiros. Uma Europa de um projecto político, social e económico comum e único e que há muito (mesmo antes do drama dos refugiados) se afundou no Mediterrâneo, ficou presa nos arames farpados ou nos muros de betão, ou se perdeu numa berma de uma auto-estrada.

Uma Europa sem qualquer capacidade de se impor internacionalmente, de encontrar e ser parte de soluções, de implementar políticas coerentes e de assumir as suas responsabilidades. Por mais muros que se ergam e por mais arames farpados que se coloquem nas fronteiras, por mais força militarizadas que se disponibilizem, por mais vigias e controlos que se façam no Mediterrâneo, por mais que se acene com o “fantasma” anti-Schengen, vamos continuar a assistir, dia após dia, a centenas de pessoas desesperadas à procura de um sonho e de uma esperança, da própria vida (algo que não encontram ou perderam no centro de África, no Magreb, na costa africana do mediterrâneo, no Médio Oriente), a tentarem entrar na Europa e à espera que a Europa os acolha. Uma Europa que ainda não percebeu que as situações que levam ao desespero de milhares de crianças, jovens, adultos, idosos, pelas suas condições de vida abaixo do limiar da sobrevivência, onde tudo o que está para além do Mediterrâneo (mesmo a morte na sua travessia) é sempre melhor do que o que se lhes deparar no seu dia-a-dia, é da sua responsabilidade pela forma exploratória com que olham para aqueles países, pela instabilidade social e política que a Europa criou ou ajudou a criar, pela miséria a que aquelas povos foram votados. E este assumir de responsabilidades cabe, também, à União Europeia, não serve é fazer-se apenas de vítima (que o não é).

publicado por mparaujo às 12:04

29
Ago 15

Migrantes 01.jpgDepois das férias (algumas) o regresso.

Antecipando o artigo da edição de amanhã do Diário de Aveiro("Uma Europa sem rumo"): a tragédia humanitária dos migrantes/refugiados.

Segundo a ACNUR (agência da ONU para os Refugiados) cerca de 300 mil migrantes chegaram à Europa, este ano, quando ainda faltam quatro meses para o fim de 2015, tendo-se registado cerca de 2500 mortes na travessia do mediterrâneo, também só neste ano.

Semana após semana (para não ser tão extremista num dia após dia) há novos dados, novas notícias, mais tragédias.

Definitivamente a Europa demonstra, na incapacidade de lidar com este drama (na origem e no centro europeu), a sua fragilidade, a sua fragmentação e desmoronamento. Pior, a Europa começa a dar sinais de estar refém de extremismos e radicalismos que a condicionam na sua liberdade, fraternidade e igualdade.

A União Europeia ficou reduzida a meros fundos e subsídios, a uma burocracia regulamentar e à pressão dos mercados financeiros. Sem solidariedade, sem política, sem resposta social, sem unidade em torno de um projecto comum (que esteve na sua génese e que definhou perante a crise financeira).

No entanto, a bem da verdade e por uma merecida justiça, importa destacar.

É tão fácil, publicamente ou não, criticar e acusar Angela Merkel pela posição economicista que a Alemanha impõe à Europa. Pena é que não haja a mesma frontalidade pública para aplaudir a coragem política que a chanceller alemã tomou ao colocar a Alemanha na vanguarda da defesa dos direitos humanos e no apoio humanitário aos refugiados e migrantes, mesmo contra forte pressão da extrema-direita da Alemanha. ("Merkel vaiada à chegada ao centro de refugiados atacado por neonazis", in Diário de Notícias de 26 de agosto de 2015).

«O Governo de Angela Merkel suspendeu para os sírios a regra da convenção de Dublin que permite expulsar imigrantes ilegais. A Síria tem sido palco dos mais sangrentos atentados do auto-designado "Estado islâmico". A Alemanha é o único país que suspendeu a regra da convenção de Dublin e que não está a forçar refugiados sírios a regressar ao país de entrada no território da União Europeia.» fonte: Jornal de Negócios de 26 de agosto de 2015.

Mais ainda... Portugal dá igualmente uma imagem muito positiva na ajuda e solidariedade humanitária perante este enorme pesadelo humano.

No princípio do mês de agosto, o Governo aprovou um plano estratégico humanitário que prevê o acolhimento de cerca de 1500 refugiados envolvendo os os ministérios dos Negócios Estrangeiros, Defesa Nacional, Administração Interna, Saúde e Segurança Social. Mas é também a própria sociedade portuguesa que dá mostras de um inquestionável sentido solidário. Segundo a presidente do Conselho Português para os Refugiados, Teresa Tito de Morais, tem vindo a aumentar (são já cerca de três dezenas) o número de empresas e cidadãos disponíveis para acolherem migrantes e refugiados.

(créditos da foto: Alkis Konstantinidis/REUTERS)

publicado por mparaujo às 22:58

09
Ago 15

arame farpado.jpgpublicado na edição de hoje, 9 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Nem muros, nem arames farpados

O sentido, o significado e os princípios fundadores de uma Europa que viu, no pós-guerra, há cerca de 70 anos, uma janela de oportunidade para se afirmar nos destinos do mundo, no plano geopolítico e geoestratégico, têm, cada vez mais, os dias contados. Resultado, entre outros factores, da necessária ajuda americana na II Grande Guerra não foi capaz de se tornar auto-suficiente no plano militar e da defesa, bastando recordar a ineficácia de uma resposta isolada no conflito dos Balcãs e a actual incapacidade de resposta no conflito na Ucrânia, com vantagem russa. Apesar de ter conseguido furar a cortina de ferro, fazer cair o muro e unificar as duas alemanhas e ter provocado a queda do Pacto de Varsóvia e da União Soviética, não é menos verdade que não conseguiu, entre as diversidades, encontrar a união e solidariedade, tão presente na sua fundação, entre os seus Estados, nem soube, até à data, apesar da convivência no seio da NATO, encontrar uma resposta para permanente entrave à Turquia. Do ponto de vista económico e financeiro os últimos anos têm demonstrado uma fragilidade e uma conflitualidade internas nas respostas à crise, criando um fosso entre os países periféricos e os do norte, entre os mais ricos e os menos ricos, que tem trazido uma instabilidade política e social preocupante e que tem fracturado a União Europeia. Por outro lado, ao fim de todos estes os anos, após a sua fundação, o euro não se tornou a moeda de referência nos mercados internacionais e a excessiva abertura e permissividade ao mercado asiático tem criado algumas dificuldades à economia europeia. A par disto… Nesta semana registaram-se os 70 anos da tragédia de Hiroshima (a 7 de agosto) e, hoje, precisamente, a 9 de agosto a tragédia de Nagasaki. No balanço imediato, no lançamento da primeira bomba, a “Little Boy” a bordo do bombardeiro “Enola Gay”, estimou-se um número de vítimas na ordem das 80 mil mortes, valor que disparou (mesmo sem nunca se apurar a realidade estatística), por força dos ferimentos e da radiação, para cerca de 140 mil. Dois dias depois, com o balanço trágico de Nagasaki, após o lançamento da “Fat Man”, sobre a cidade que albergava a maior base da Marinha Imperial Japonesa, o balanço final cifrou-se em mais de 250 mil mortos. Ironicamente, a par com o desembarque na Normandia, este seria o contributo para o fim do conflito da II Guerra Mundial. Mas o mundo não ficou melhor… vivemos, no pós-guerra, um período de aparente estabilidade, numa paz podre, que ia mantendo a conflitualidade, embora mais regionalizada, na América do Sul e Central, em África, na própria Europa, na faixa de Gaza, e, no pós-11 de setembro, no Médio Oriente e na orla africana do Mediterrâneo, provocando, para além de todo resultado óbvio da conflitualidade bélica, uma instabilidade política e uma destruição social e económica de dimensão inquantificável. E, neste ponto, de novo a fragilidade e a fraqueza europeia: a explosão da tragédia da migração. A Europa, para além da responsabilidade política, económica e militar, que deve assumir pelas posições tomadas na origem e no foco do problema, e para além da falta de solidariedade com os Estados-membro da faixa mediterrânea (Itália, Grécia, Malta, …), encara a tragédia humanitária da pior forma, agora que o problema também bateu às portas dos “donos da Europa” França e Inglaterra (a par da Alemanha), e da Hungria. É inadmissível, dentro dos princípios europeus, que se encarem as mortes (cada vez de maiores dimensões, ainda na passada quinta-feira mais de 200 mortes) no Mar Mediterrâneo, transformado em enorme cemitério (mais de 2000 mil mortes este ano), e o desespero às portas de Calais, com muros, com arame farpado, com cães, com indiferença, com extremismos. A Europa tem responsabilidades acrescidas neste alimentar de um sonho, de uma esperança, de quem prefere arriscar tudo (até a vida) do que ter a certeza da morte na sua própria terra e casa. A título meramente exemplificativo, a Europa transpôs, ou ajudou a transpor, o inferno para a terra em países da África Subsaariana, do Magreb, do Médio Oriente, do Corno Africano, etc., como a Argélia, Síria, Egipto, Líbia, Iraque, Somália, Afeganistão, Eritreia, Etiópia ou o Sudão.

Transformar as realidades política, social e económica, destas PESSOAS, em vidas muito abaixo das trágicas condições das favelas ou dos piores bairros de lata; deixá-las num limiar de sobrevivência que as faça olhar para a Europa, do outro lado do mar, como um oásis e a ÚNICA esperança de superar a morte imediata, sem uma resposta eficaz na origem, com a indiferença à legitimidade de reclamar a Declaração Universal de 1948; é assinar a sentença de morte para tantos cidadãos e a declaração de incompetência e impotência da Europa. Sob a capa de um falso humanismo e moralismo, de uma podre bandeira da democracia, de um ausente sentido de responsabilidade política, económica, social e humanitária, a Europa bateu no fundo, com novos muros, arame farpado e cortinas-de-ferro.

publicado por mparaujo às 09:57

07
Mai 15

homofobia.JPGTendemos com demasiada facilidade a desvalorizar o ridículo e a menosprezar convicções extremistas. Mas a verdade é que, cada vez mais, vão surgindo e vingando na sociedade (e na política) posições extremistas e fundamentalistas, que, essencialmente, atentam à dignidade humana e ao inquestionável direito à diferença. Mais ainda, vão ganhando demasiados adeptos. E isto deveria preocupar.

A título de mero exemplo…

Há poucos dias, em março, foi noticiada a proposta de lei – “Lei da Supressão Sodomita”, apresentada pelo advogado McLaughlin, no Estado da Califórnia, que pretendia implementar sete medidas contra a homossexualidade, entre as quais a execução com um tiro na cabeça. Para as luzes da ribalta, muito por culpa da confrontação política entre o deputado social-democrata Duarte Marques e o ex-líder do BE Francisco Louçã, saltou o nome Pedro Cosme Vieira (dispenso-me a qualquer referência cibernética porque o lixo não merece publicidade). Do anonimato para o viral, ficaram as expressões deste professor universitário do Porto referentes à migração e às tragédias no Mediterrâneo, aos doentes infectados com HIV: “barcos com petralhada”, “afundar os barcos e matar toda a gente” ou “o abate sanitário de todos os infectados (HIV)”. E isto, aqui mesmo, em Portugal em pleno sec.XXI.

Mas não só em Portugal. Em plena campanha eleitoral britânica (as eleições ocorrem hoje) o líder do partido eurocéptico UKIP, Nigel Farage (nas últimas europeias foi a terceira maior força política, em votos) defende a limitação e a expulsão de imigrantes (redução para 90%) e responsabiliza a imigração pelos casos de HIV no Reino Unido (60% dos 7 mil infectados em Inglaterra), dando viva voz à crescente xenofobia e homofobia. Recorde-se ainda a “ameaça” feita à União Europeia, mesmo que demagógica, do ministro da Defesa grego quando afirmou abrir as fronteiras e as portas gregas aos fundamentalistas islâmicos para entrarem na Europa.

E, recentemente, de regresso aos Estado Unidos, surge, de novo, o fundamentalismo religioso (tal como no caso da Lei da Supressão Sodomita) como argumentação para a exclusão social, para a xenofobia e para a homofobia. Uma norte-americana, Sylvia Ann Driskell (segundo a própria, “representante de Deus”) apresentou, formalmente, queixa num Tribunal do Estado do Nebrasca contra todos os homossexuais, imagine-se, do planeta. Tudo isto com a ridícula fundamentação do “pecado, da religião e da moral”.

Independentemente da minha opção e orientação sexual não tenho qualquer direito, moral ou superioridade para julgar quem, por opção e convicção próprias, tem outros rumos e orientações de vida (de regresso à tolerância e liberdade do caso “Charlie”). Mais, como cidadão, defendo por convicção liberal de costumes e princípios, a liberdade de cada um em escolher a sua orientação sexual, sem que isso me dê qualquer direito de julgar ou marginalizar. Por outro lado, como católico (para além da náusea pelo uso e abuso da religião e do nome de deus ou cristo) não conheço nenhum Deus que me ordene matar, marginalizar, inferiorizar, limitar nas liberdades e convicções de cada um. Conheço sim um Deus a quem apenas cabe julgar, e que dá a cada um de nós a liberdade e a independência para fazermos as nossas opções, convicções e princípios de vida.

Mas se há quem se ria e ridicularize estes exemplos de intolerância, de extremismos, de fundamentalismos ou radicalismos, não deixa de ser preocupante o seu crescimento, a sua frequência, a visibilidade pública e o espaço mediático que ocupam, mais ainda o “silêncio falacioso e traiçoeiro” de muitos que, ao lerem estas realidades, interior e silenciosamente, batem palmas e rejubilam de gozo, engrossando fileiras.

publicado por mparaujo às 16:04

22
Abr 15

Mediterraneo tragedia 03.jpgpublicado na edição de hoje, 22 de abril, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O Mediterrâneo já não é um mar

Embora a realidade não seja recente, já há alguns anos que instituições internacionais dos direitos humanos, das migrações e refugiados, bem como, por exemplo, o Papa Francisco, têm feito eco de inúmeros factos, a verdade é que, de repente, o Mediterrâneo passou de mar a cemitério, face aos trágicos acontecimentos, de uma dimensão preocupante, ocorridos neste fim-de-semana e início da semana: mais de mil mortes no mar e milhares de pessoas a chegarem à costa da Europa (Itália, Grécia, Chipre, Malta ou Espanha) ou a serem resgatadas no oceano.

Variadas vezes, demasiadas até, a Europa sentiu-se sobressaltada por uma tragédia humana inconcebível em pleno século XXI. Em todas as vezes se ouviu a Europa a dizer “nunca mais”. Face à dimensão que esta catastrófica realidade tomou é altura da Europa dizer “BASTA”.

Inúmeras vezes se ouve a pergunta “quanto vale uma vida humana”? Uma que seja. Não tem, nem pode, ter preço. A vida e a sua dignidade. E esta realidade inqualificável tem de ter a responsabilidade de todos. Não apenas da Europa dado os acontecimentos terem lugar no mar Mediterrâneo e como destino uma vida de esperança e sonho num qualquer país europeu. A responsabilidade tem de ser repartida por todos: Europa, ONU, NATO, UNICEF, … O problema é extremamente complexo, mas não pode ser adiado e encapotado infinitamente, à espera que o tempo resolva, porque o tempo não resolve, apenas o agudiza. O mundo não pode olhar apenas para onde residem os focos geoestratégicos, geopolíticos ou geoeconómicos (com o petróleo). O mundo não pode continuar a fazer de conta que África, quase toda ela, não aparece no mapa. O mundo não pode ser “Charlie” em defesa do que apenas é (valores) europeu ou preocupar-se com 11’s de setembros ou de marços e, simultaneamente, assobiar para o ar com o que se passa no Quénia, na Nigéria ou, como é o caso, da Líbia ou do Iémen, sem esquecer a Somália, no Mali, no Sudão ou no Chade.

A responsabilidade da vivência num contexto de miséria, guerra ou de exploração humana (onde se inclui a escravatura, o tráfico, a violação dos mais elementares direitos à dignidade e à vida) tem de ser assumida por todos e não o sacudir a água do capote apenas para o lado islâmico, para o fundamentalismo religioso ou para o recém-chamado Estado Islâmico. Porque há muito para além das mortes no Mediterrâneo ou dos campos de refugiados onde os que sobrevivem ficam demasiado tempo em condições mínimas de sobrevivência. Há aquelas vidas que terminam às mãos das redes de tráfico humano e que não chegam sequer a ver o mar. Há aqueles que depois de um sonho falhado regressam (são deportados) em condições piores (porque tudo venderam e perderam na esperança de uma vida melhor) ao ponto de origem, eventualmente desejando terem ficado no Mediterrâneo.

À Europa cabe a responsabilidade de um maior controlo do seu Mar, de melhores e mais eficazes políticas de migração e de apoio aos refugiados.

À ONU cabe a responsabilidade de criar e implementar condições de estabilidade social, política e económica em África, ao caso, no Norte de África, porque muitas desta realidade resulta de impactos de irresponsabilidade políticas e económicas cometidas por Estados membros.

A nós cidadãos, apesar da nossa impotência, em defesa dos valores da vida humana, cabe-nos a indignação e o respeito, porque nenhuma vida, seja qual for e em que circunstâncias for, tem um preço. Hoje eles, amanhã… quem sabe?

publicado por mparaujo às 09:48

25
Nov 14

Violência-doméstica 25-11-2014.jpg

O dia de hoje, para além da particularidade do 39º aniversário do 25 de novembro de 75, é marcado pela campanha "Basta que me batas uma vez" do Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres. Apesar da violência não se manifestar apenas na agressão física, como é óbvio. E são múltiplas, infelizmente, as vertentes ou o rostos da violência.


(campanha APAV - "Basta que me batas uma vez")

Sobre o tema, importa recordar e elogiar esta peça publicada no Diário de Notícias no dia 17 de novembro, da autoria da Fernanda Câncio. O título não poderia ser mais sugestivo e elucidativo: "Que é feito da luta das mulheres?". E desenganem-se os ou as que acham que este é um processo exclusivamente das mulheres. Triste será a sociedade enquanto mergulhar nesta dialéctica do género.

A verdade, retomando a interrogação da Fernanda Câncio, é que a luta esmoreceu, como esmoreceram muitas lutas que ficaram por concluir e que vão transformando a sociedade e o mundo actual em reais conflitualidades, exclusões, injustiças e limitações aos mais elementares direitos humanos.

Nesta caso, em particular, os exemplos são, infelizmente, muitos; e as posições, convicções e actuações, mesmo aquelas simples do dia-a-dia, da mentalidade de cada um, do respeito pela dignidade do outro(a), cada vez mais enfraquecidas e alheadas da realidade.

Só a mero título de exemplo:
"Uma em cada três mulheres é vítima de abusos físicos em todo o mundo".
"Portugal foi o país onde mais se agravou a diferença salarial entre mulheres e homens".
"Em seis meses foram assassinadas 24 mulheres e a grande maioria por violência doméstica".
"Boas todos os dias".
"Estatísticas da APAV - Relatório Anual de 2013".

Deixar que esta luta seja da exclusiva responsabilidade feminina é do mais deplorável primarismo.

 

publicado por mparaujo às 15:59

03
Ago 14

publicado na edição de hoje, 3 Agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Virado do avesso

A agenda mediática tem um duplo impacto. O primeiro tem a faculdade de focar a opinião pública num assunto/tema relevante no momento. O segundo tem o revés de desviar a atenção sobre outras realidades. Recordando o ditado: foca a árvore e esquece a floresta.

O recente caso do BES tem essa vertente mediática. Sendo certo que o assunto é de relevante importância nacional, pelos seus impactos na instituição, no sistema bancário, na economia nacional e, esperemos que não, nas contas públicas (caso se assista a mais uma intervenção estatal na banca). O que é verdade, no meio de um turbilhão de novidades diárias, é que o caso BES tem criado uma anestesia geral, ou generalizada, ao ponto de muitas outras realidades passarem definitivamente ao lado, ou para segundo plano, da opinião pública: Carlos Moedas indicado para Comissário Europeu; a recente decisão do Tribunal Constitucional sobre a nova taxa sobre as reformas; os valores da taxa de desemprego; o verão que teima em não aparecer; a “pipa de massa” que virá da Europa; as primárias socialistas. Mas há mais… um mundo virado do avesso, em constante conflitualidade, numa “cruzada” desmedida contra a dignidade humana e o valor fundamental da vida. Muitos refugiam-se na desculpa dos danos colaterais, mas o facto é que muitos perderam a vida ou ficaram com ela desfeita.

Enquanto a Rússia, Estados Unidos e União Europeia vão esgotando e esgotando-se na via diplomática (embora com muito pouca diplomacia), o conflito na Ucrânia, em pouco mais de quatro meses, tirou a vida a mais de 1100 pessoas e feriu quase 3500.

Na Faixa de Gaza regressa o fantasma da “guerra dos seis dias”, de 1967. Uma região em permanente conflito, com mais ou menos incidência mas em constante ebulição, sustenta uma contenda religiosa, política, geoestratégica, aparentemente sem fim à vista. E os actuais dias não são melhores. Não consigo tomar partido por uma das partes dada a complexidade da realidade e da história entre sionistas/judeus e palestinianos, mas há verdade que não posso esconder: os recentes ataques israelitas às escolas onde a ONU assegurava a segurança a milhares de palestinianos, entre as quais inúmeras crianças, não são danos colaterais. É algo que não é justificável, não é aceitável. Um acto mórbido, inqualificável e merece ser condenável e criticado.

Ainda na região, passados três anos após a revolta de 2011, regressaram a Tripoli, capital libanesa, novos confrontos entre milícias rivais que já provocaram, em duas semanas, mais de duas centenas de mortes.

Obviamente que estes são os casos mais relevantes, sem esquecermos o que se passa em África, no Afeganistão ou no Iraque. Mas se a morte é, por si só, o espelho mais gritante do principal ataque à dignidade humana - à vida - a violação dos mais elementares direitos humanos não se fica só pela morte.

Continuam sem solução os significativos casos de violação de mulheres na Índia. O flagelo da mutilação genital feminina, socialmente defendida em muitas culturas, nomeadamente em África, com nove casos registados/conhecidos em Portugal e que levou à aprovação na Assembleia da República de legislação a criminalizar esta realidade, ressurgiu recentemente numa denúncia da ONU que revelava que o grupo jihadista denominado “Estado Islâmico” ordenou num recente fatwa (decreto islâmico) que todas as mulheres e crianças, da cidade de Mossul - Iraque, entre os 11 e os 46 anos, se submetam à mutilação genital feminina.

Organizações Não Governamentais (ONGs), a UNICEF e a ONU voltam a chamar a atenção para o flagelo da fome e da sobrevivência na Somália e no Sudão do Sul, pela instabilidade social e pela enorme seca, recordando as cerca de 250 mil vítimas da fome há três anos. Neste momento, cerca de 350 mil pessoas estão no limiar da sobrevivência diária.

Cinicamente, Portugal teve recentemente uma dualidade de critérios e convicções nesta matéria. Vergonhosamente aceitou a adesão da Gunié Equatorial à CPLP, por valores meramente economicistas (petróleo), já que a língua portuguesa nem sequer é falada no país, esquecendo as atrocidades cometidas no país, as constantes violações dos direitos humanos e a aplicação da pena de morte. Mas a par disso, passando despercebida à maioria dos portugueses Portugal assinou a Convenção de Instambul que entrou em vigor na sexta-feira, 1 de agosto, e que pretende promover uma justiça mais eficaz na erradicação da violência contra as mulheres. Não só no plano físico mas também, e importante, no plano psicológico.

Fossem tudo boas notícias e o mundo estaria menos do avesso.

publicado por mparaujo às 11:21

23
Jan 14
http://www.cartacapital.com.br/wp-content/uploads/2012/12/%C3%ADndia1.jpg

Venham os argumentos culturais, históricos, sociais, religiosos…

Venha a complexidade do ser humano, o machismo, o feminismo…

Venham os horrores da guerra, das contestações sociais violentas, das repressões policiais…

Venham as tragédias da natureza, o “azar” dos acidentes, os desaparecimentos, os raptos…

Venha tudo...

Por mais que queiram, nada me conseguirá vergar perante aquele que é o maior crime de todos: o desprezo pela dignidade humana.

Com uma referência rápida, num espaço de pouco mais de um ano, é de “arrepiar” o que se passa na Índia em pleno século XXI.

Tudo começou(?) aqui: “Violação de rapariga gera violentos protestos na Índia” (23.12.2012)

Morre estudante indiana vítima de violação coletiva” (28.12.2012)

Novo caso de violação colectiva na Índia” (13.01.2013)

Polícia e médicos "humilham" crianças indianas que denunciam abusos” (07.02.2013)

Turista suíça violada na Índia diante do marido” (17.03.2013)

Detidos dois suspeitos de violar menina de cinco anos na Índia” (22.04.2013)

Freira raptada e violada durante uma semana na Índia” (16.07.2013)

Novo caso de violação colectiva na Índia. Vítima é fotojornalista” (24.08.2013)

Cinco polícias detidos na Índia por violação de jovem de 17 anos” (20.12.2013)

Turista dinamarquesa violada por oito homens na Índia” (15.01.2014)

Mas se tudo isto não fosse suficiente eis que se chegou ao topo da revolta.

Conselho de aldeia indiana ordena violação colectiva de uma mulher” (23.01.2014).

Por mais que os responsáveis indianos tentem alterar o rumo dos acontecimentos (“Índia aprova lei mais dura contra violações”) tudo parece ser insuficiente. Mesmo para uma ONU, tantas vezes preocupada com a democracia de algumas nações, com as supostas aramas químicas ou de destruição maciça, com o negócio do petróleo e com os jogos geopolíticos, só isto não chega e sabe a muito pouco, muito mesmo: “ONU quer debate sobre penas após violação na Índia”.

Tudo isto é Nojento! Asqueroso! Revoltante! Infame!

Enquanto que por cá vamos discutindo o protocolo da saia da assessora do Presidente da República.

publicado por mparaujo às 16:42

25
Nov 13

ainda pelas liberdades...

Hoje (também) é Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres.

Como a maior parte das datas/efemérides não deixa de ter um valor simbólico. A questão prende-se com a dimensão desse simbolismo.
É uma clara chamada de atenção pelo forma como são "atropelados" os mais elemenatres direitos humanos, ao caso contra as Mulheres.

Entretanto, no Twitter, falava-se sobre isto (com raiva, mágoa e revolta)

"Mutilação genital feminina existe em Portugal, mas desconhece-se dimensão" - Jornal de Notícias de 14 de Outubro de 2011.

"Mutilação genital permanece inalterada em muitos países" - Jornal de Notícias (julho de 2013)

Outros destaques...

"Este ano 33 mulheres foram assassinadas em Portugal" (jornal Público)

"A violência de género" (primeira parte do editorial do Diário de Notícias)

"16 dias a lutar contra a violência contra as mulheres" - Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora executiva da ONU para as mulheres (Diário de Notícias)

"É preciso mais sensibilização para a violência de género" (Diário de Notícias) - Teresa Morais, secretária de Estado da igualdade

publicado por mparaujo às 16:30

12
Fev 13

Reconheça-se que ontem, 11 de fevereiro, foi um dia importante para a Liberdade de Expressão e para o exercício do direito de cidadania, nomeadamente o direito que assiste a um cidadão de denunciar factos que levam ao indício de crimes principalmente contra os direitos humanos.

Este é o princípio que norteou a investigação de Rafael Marques e que deu origem a um excelente livro "Diamantes de Sangue", publicado pela editora Tinta-da-China.

O livro não vale apenas pela polémica gerada em torno da investigação, mas pelo que resulta na denúncia dos atropelos aos direitos humanos.

Mas o dia de ontem determinou um marco importante.

O Jornalista e Autor do livro, Rafael Marques, tinha sido processado por difamação, por vários generais angolanos.

Mais tarde, a própria editora, mais propriamente a sua responsável Bárbara Bulhosa, foram também constituídas arguidas no processo judicial em causa.

Por fim, o Ministério Público decidiu arquivar a queixa por entender que "a publicação do livro se enquadra no legítimo exercício de um direito fundamental, a liberdade de informação e de expressão, constitucionalmente protegido, que no caso concreto se sobrepõe a outros direitos".

Mais uma razão para terminar, com mais afinco, a leitura deste "Diamantes de Sangue".

publicado por mparaujo às 14:59

25
Nov 11
Contra todo o tipo de violência... e também contra esta:
25 de Novembro - Dia Internacional da Luta contra a Violência à Mulher

publicado por mparaujo às 14:53

08
Out 11
Depois do polémico e questionável (criticado por muitos sectores) Nobel da Paz de 2009 atribuído a Barack Obama (após a sua eleição como presidente dos estado Unidos da América), o Instituto Nobel norueguês decidiu retomar as justas causas da luta e da promoção da Paz, dos direitos e da dignidade humana, como valores fundamentais que sustentam a atribuição do galardão do Nobel da Paz (algo que já tinha acontecido no ano anterior com o mérito atribuído a Liu Xiaobo, da China).

Para Nobel da Paz de 2011, o Instituto Nobel da Noruega decidiu nomear três mulheres africanas pela suas lutas em nome dos direitos das mulheres e da democracia: Ellen Johnson Sirleaf e Leymah Gbowee, da Libéria, e Tawakul Karman, do Iémen.

O Instituto justifica, oficialmente, a sua escolha com o facto de "não podemos alcançar a democracia e a paz duradoura no mundo a menos que as mulheres tenham as mesmas oportunidades do que os homens".

Ellen Johnson Sirleaf, 72 anos, líder do Partido da Unidade, foi a primeira mulher eleita chefe de estado de um país africano, em 2005. Desde Janeiro de 2006 é o 24º Presidente da Libéria.
A sua acção à frente dos desígnios do país tem contribuído para a paz na Libéria, para a promoção do desenvolvimento económico e para o reforço da posição e do papel social e político das mulheres.






Leymah Gbowee, 39 anos, é activista africana que esteve na génese a na criação de um movimento de paz que colocou fim à Segunda Guerra Civil da Libéria em 2003 e que viria a conduzir à eleição de Ellen Johnson-Sirleaf como a primeira mulher presidente de um país africano. Formou-se como terapeuta durante a guerra civil e trabalhou com crianças que foram meninos-soldados do exército de Charles Taylor, então presidente da libéria. Foi esta sua intensa experiência e acção que a levou a ter a noção de que a haver alguma mudança na sociedade e na política liberianas essa mudança passaria pelo papel e acção das mães.


Tawakul Karman, 32 anos, é política, jornalista e activista dos direitos humanos no Iémen. Membro do movimento da Al-Islah, lidera um grupo por ela fundado: "Mulheres Jornalistas Sem Correntes". Foi presa devido a queixas de seu marido. Saiu em liberdade condicional em Janeiro de 2011. Participou do "dia da fúria", na já denominada "Primavera Árabe", a 29 de Janeiro deste ano. Em Março de 2011 foi novamente presa.A sua acção centra-se na luta pelos direitos das mulheres e pela democracia e paz no Iémen.




De referir que, em 110 anos de história, o prémio Nobel da paz apenas por 12 vezes foi atribuído a mulheres.
publicado por mparaujo às 23:54

15
Mai 09
Bem podia ser um jogo de quebra-cabeças de uma revista qualquer.
Ou então, poderíamos denominar "O regresso ao Passado".
E se alguém pensava que promessas não cumpridas era apanágio da política portuguesa, está bem enganado.
TRISTEMENTE...
Afinal, pouco ou nada mudou.
Apenas o cão, que agora é de raça lusa!
publicado por mparaujo às 22:18

10
Dez 08
Proclamação na ONU da Declaração Universal dos Direitos Humanos - 10.12.1948 (A/RES/217).
Artigo 1º
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
60 anos de perfeita indiferença e desrespeito pela dignidade humana.

publicado por mparaujo às 02:00

18
Out 08
da pobreza, ou de outra qualquer forma de falta de dignidade humana e de falta de respeito pelos direitos e valores humanos.
Porque o fosso se torna cada vez mais abismal entre alguns (ricos) e imensos (pobres).
Porque há quem viva sem nada ou com menos de 1 € por dia (no Mundo e por cá).
Porque, face a esta realidade, sinto-me com sorte.
Porque não posso ficar indiferente
Ontem, também eu me "LEVANTEI-ME CONTRA".
Pela causa, pela solidariedade, pela consciência, por quem não o pode fazer, por quem - teimosa e orgulhosamente - não o quis fazer, POR QUEM PRECISA.

Pena que seja só por uns minutos...
publicado por mparaujo às 11:49

14
Jul 08
Ou melhor ainda... (in)coerências.
A triste ideologia, a quanto obrigas.
O PCP defendeu hoje a interdição do espaço aéreo português à passagem de tráfego aéreo proveniente de Guantamano. Por uma questão de principio, em defesa dos direitos humanos e do direito que cada cidadão deveria ter a um julgamento justo e imparcial.
Só que não tem como convicção de base os princípios humanistas poderia estar em desacordo.
Mas, onde fica a coerência?!
Ataca-se Guantamano por uma razão ideológica (o ódio americano) e defende-se, estupidamente, a actividade das FARC?!
Haja coerência... mesmo contra a ideologia! Por uma questão de valores.
publicado por mparaujo às 21:30

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