Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

14
Jun 17

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Em abril deste ano Donald Trump afirmava publicamente ao "lobby" americano das armas e aos defensores do uso e porte de armas nos Estados Unidos que "tinham um verdadeiro amigo e defensor na Casa Branca". Foi com estas palavras que o Presidente dos Estados Unidos, o primeiro presidente em exercício a voltar a fazê-lo após a presença de Reagan (em 1983), se apresentou na convenção anual National Rifle Association.

Donald Trump é um claro e público defensor do direito ao porte de armas e, conforme promessa eleitoral, tudo fará para aligeirar as restrições à respectiva propriedade e utilização, contrariando assim (mais uma vez) medidas restritivas aplicadas durante a Administração Obama.

Não é por isso de estranhar a forma diferenciada como Donald Trump lida com atentados terroristas ou com outro tipo de atentados, nomeadamente no seu país.

Para os primeiros há uma pronta acusação, condenação (justas, diga-se), e um chorrilho de xenofobia e racismo adjacente, nomeadamente em relação aos refugiados.

Já no caso que hoje é notícia ("Atirador abre fogo contra congressistas republicanos em treino de basebol", ainda sem números concretos quanto à identidade, causa e vítimas) nem uma referência ao uso de armas, ao atirador, ao acto em si. Nada.

Nada... porque os "amigos" são para as ocasiões.

Apenas isto...

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publicado por mparaujo às 15:57

07
Abr 17

My name is Trump ... "Dangerous Trump".

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O ataque na Síria com recurso a armas químicas é condenável e desumano. Aliás, como é condenável e desumano qualquer acto que coloque em causa a vida humana.

Mas a resposta dos Estados Unidos, de forma unilateral, à margem da ONU e fora de um apoio no seio do Conselho de Segurança não torna a realidade menos preocupante. Antes pelo contrário... torna o mundo mais perigoso com um Presidente da Casa Branca demasiado narcisista, precipitado, irreflectido e imprudente.

Tornar a "América novamente Grande" através da força e das armas em vez do esforço político, não torna o mundo mais seguro, nem os cidadãos mais tranquilos. Aliás esta forma intempestiva de Donald Trump gerir o destino interno dos Estados Unidos e as suas relações externas revelam-nos um Presidente na cadeira da maior potência mundial demasiado prepotente, irrealista e inconsequente.

E no caso concreto da Síria de nada vale aos Estados Unidos a justificação do seu bombardeamento com base no ataque com armas químicas, ao que tudo indica por parte do governo de Bashar al-Assad, como se apenas esse acto fosse inaceitável ou apenas tal circunstância signifique o ultrapassar das tão referidas linhas vermelhas. Qualquer uso desmedido da força, nomeadamente colocando em causa a vida de inocentes, é criticável e condenável. Mas importa não esquecer a responsabilidade que os Estados Unidos e a União Europeia (nomeadamente a França) tiveram e têm no decurso da história da Síria, no seu declínio e actual situação, seja directamente, seja por omissão ou abandono.

Hoje (ontem) foi a Síria... amanhã, a pretexto de tudo ou qualquer coisa, mesmo que infundado ou falso (como no Iraque nos tempos de Bush) será outro o alvo, com uma reacção isolada e unilateral dos Estados Unidos. Donald Trump é demasiado intempestivo e nervoso, com uma enorme ânsia em colocar "o dedo no botão", sem olhar a qualquer pressuposto diplomático ou político e muito menos às consequências.

O actual presidente dos Estados Unidos não olhará a meios, nem perderá uma oportunidade para usar a relação externa para impor uma imagem interna que não tem conseguido fazer sobreviver politicamente. A sede e a cadeira do poder toldam as opções e as tomadas de decisões; basta recordar qual era a posição em 2013 do improvável candidato e actual presidente, precisamente me relação à Síria.

Estamos mais inseguros... o mundo está mais perigoso. Vivemos num barril de pólvora com o rastilho "à mão de semear". Ontem ficou-nos a prova.

(créditos da foto: Ford Williams/Courtesy U.S. Navy, no DN online)

publicado por mparaujo às 15:51

09
Nov 16

No dia em que surgia a boa notícia para o país com a recusa da União Europeia em abrir qualquer processo de suspensão de fundos comunitários a Portugal eis que a maioria dos portugueses desviava as suas atenções e adormecia focada no aparecimento do suspeito dos crimes em Aguiar da Beira, fugido às autoridades há cerca de um mês, e a sua entrega voluntária à Polícia Judiciária através dos seus advogados e sob as câmaras da RTP.

Sendo certo que o processo de escolha do sucessor de Barack Obama nas presidência dos Estados Unidos era um importante e marcante momento geopolítico, a longa e desgastante campanha eleitoral massificada e o aparecimento do fugitivo Pedro Dias relegavam as eleições norte-americanas para um círculo de interesses mais restrito na opinião pública.

Mas eis que o Mundo acorda num claro sobressalto e em estado de choque. Curiosamente... mais o mundo do que os próprios americanos.

Quando era mais que desejável e mais que expectável pela maioria dos que acompanharam toda esta campanha, quando era impensável outro desfecho que não a vitória dos democratas com Hillary Clinton, eis que os Estados Unidos da América dão uma verdadeira cambalhota e escolhem Donal Trump para 45º Presidente da Nação.

E mais do que a surpresa pela vitória é o estado de choque em que muitos ficaram (onde me incluo, clara e obviamente) com a expressão dos resultados, com a eleição, com o controlo da Câmara dos Representantes e do Senado. O mundo virou de pernas para o ar.

Tecer nesta altura qualquer comentário sobre o futuro dos Estados Unidos e da comunidade internacional com Donald Trump ao leme dos destinos da maior potência geopolítica e económica do mundo é fazer futurologia ou transpor em palavras um evidente sentimento de desilusão, decepção e receio. Pelo que foi a deplorável campanha eleitoral do agora eleito presidente, juntando as previsíveis pressões dos Evangélicos e de grupos extremistas, seria fácil prever problemas sérios com inclusão social, com imigração, com a equidade, com os direitos humanos, com o racismo e a xenofobia, com a economia e as realções internacionais. Mas a ver vamos...

Mas não há como evitar o recurso a uma das expressões mais emblemáticas relacionadas com os Estados Unidos: "God bless America", acrescentando já agora... "and the americans and the rest of the world".

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publicado por mparaujo às 09:43

11
Fev 15

publicado na edição de hoje, 11 fevereiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
À beira de um ataque de nervos

A Europa, mais concretamente a União Europeia e a Zona Euro, estão a ferro e fogo, à beira de um autêntico ataque de nervos. Em causa a pressão da Grécia em relação à sua dívida e ao programa de ajustamento a que tem estado sujeita. Mas não só… a par, e não menos importante, a Europa vê-se a braços a com o prolongar da crise na Ucrânia e com a posição de força da Rússia.
Em vésperas da reunião do Eurogrupo e do Conselho Europeu muito está em jogo, neste momento, na União Europeia. E não se pense que é apenas fogo-de-vista ou fumo sem fogo. Tudo é colocado em causa: os princípios magnos da constituição da União Europeia, os Tratados (concretamente o de Lisboa, por exemplo), a solidariedade (ou a falta dela) entre os Estados-membro, os fundamentos económico-financeiros dos processos de ajustamento (a austeridade), entre outros.

Os próximos dias e as próximas horas ditarão quem será o mais inflexível, quem será o mais moderado nas posições, quem cederá primeiro, quais os países que estarão ao lado da Grécia e quais os que estarão ao lado da Alemanha. No fundo, os próximos dias marcarão a queda ou a consolidação dos princípios financeiros que têm sustentado os programas de ajustamento aos países em desestruturação financeira.

Mas há mais. Há quem considere que as posições assumidas pelo governo grego não passam de meras conjunturas negociais e demagogia eleitoral. Já aqui o disse, há dias, que achava que as posições assumidas pelo Syriza, nas eleições, e assumidas como programa governativo pela nova coligação governamental grega, acabariam por, mais cedo ou mais tarde, ceder ou criar uma profunda ruptura. Espera-se o bom-senso político, de ambas os lados, para que a ruptura não surja porque uma saída grega da zona euro terá um efeito ainda não bem avaliado, mas que se afigurará negativo para a moeda e para a própria estabilidade da zona-euro.

Há ainda um outro dado importante nesta semana explosiva na Europa. E um dado que ultrapassa a sua configuração geoestratégica e bélica para contornos geopolíticos e financeiros: o conflito na Ucrânia e a relação tensa entre a Rússia e a Europa/Estados Unidos.
Mais do que a Grécia tomar as “dores de parto” da Rússia, todo este aproximar grego a Putin afigura-se como um cavalo de Tróia da Rússia na Europa. E poderá estar aqui a ponte política e a arma negocial russa no conflito ucraniano, apresentado-se Putin como a sustentação do “Plano B” grego caso falhem as negociações no Eurogrupo. Quando muitos dos países da ex-URSS se apressaram a solicitar a adesão à União Europeia e à Zona Euro, bem como a NATO, eis que a crise grega e as recentes eleições na Grécia invertem a tendência e aproximam países europeus da Rússia, aumentando a sua importância geoestratégica na Europa e na Ásia.
Daí a imediata preocupação da Alemanha em reunir com os Estados Unidos tentando mediar o conflito pela via diplomática (ao contrário dos Estados Unidos que preferiam a via militar com ajuda bélica ao governo da Ucrânia para combater os separatistas), bem como a imediata reacção da China face às posições financeiras assumidas pelo governo grego em relação a processos de privatização.

Não é só a nível económico-financeiro que se discute o futuro da Grécia e da União Europeia (e as respectivas instituições) nos próximos dias. Vai muito para além da dívida, da sua renegociação e do programa de ajustamento.
O futuro da União Europeia passa, essencialmente, pela forma como a Europa contornará ao conflito na Ucrânia e conseguirá fragilizar a relação, que se afigura intensa, entre a Grécia e a Rússia.

publicado por mparaujo às 11:34

21
Dez 14

Publicado na edição de hoje, 21 de dezembro, do Diário de Aveiro

Caderno de Notas
Dura lex, sed lex

A agenda tem sido marcada essencialmente pela presença diária, constante, nos títulos informativos dos chamados “casos da Justiça”: BES e (ainda) os submarinos.
Há uma primeira nota de enorme relevância no contexto internacional que importa destacar: o anunciado “desembargo” a Cuba, o início das relações diplomáticas e institucionais entre Havana e Washington, a abertura política de Cuba e o reconhecimento, por parte dos Estados Unidos, das opções políticas e sociais legítimas que qualquer Estado tem para os destinos do seu país. Todo este cenário importante no contexto geopolítico não é, no entanto, isento de algum “fingimento”. Cuba precisava como do “pão para a boca” do fim do embargo dada a sua extrema dificuldade financeira e social, para além de algum sentimento de abandono por parte da Rússia de Putin, agora a braços com uma crise financeira; por outro lado, sem haver nesta data, com o “afastamento” de Fidel, sustentação política para a continuação do embargo, Obama aproveitou o contexto para renovar e tentar renascer a sua imagem (sondagem) política demasiado desgastada.

Lavar a roupa suja familiar. O maior(?) banco português, aquele sobre quem recaía a epíteto de “o coração da economia e das empresas”, aquele que tinha na sua cadeira do poder “o dono disto tudo”, colapsou embrulhado num manto de ilegalidades e crimes graves. E eis que surgem, igualmente, as Comissões Parlamentares de Inquérito por onde têm “desfilado” os nomes importantes do processo e da família Espírito Santo. Mas quando se esperava o apuramento de uma relação política, dado o envolvimento do banco na economia nacional, incluindo o próprio Estado; que fossem clarificados os enredos financeiros, os processos e procedimentos ilegais cometidos, que levaram ao naufrágio do BES; quando se esperava o reconhecimento de responsabilidades e, no mínimo, algum arrependimento (Ricardo Salgado, em poucas horas, passou de “Dono Disto Tudo” para “ Vítima Disto Tudo”), eis que as audiências na Comissão têm resultado numa fotonovela siciliana, onde ninguém tem responsabilidade de nada, onde ninguém sabia de nada mas todos sabiam uns dos outros. Para lavarem “roupa suja familiar” usem uma lavandaria qualquer perto de casa, mas poupem o país que tem coisas mais sérias com que se preocupar, a começar pelo futuro do próprio Novo Banco, resultado da implosão do BES.

A batalha naval: submarino ao fundo. O Ministério Público decidiu arquivar o processo do caso da compra dos submarinos. Politicamente, o ministro Paulo Portas pode respirar de alívio. Isto porque se os autos indicam eventuais ilegalidades administrativas mas que não constituem a prática de crime (“podem, no limite, levar à nulidade contratual”), também é verdade que, nas 331 páginas do despacho de arquivamento, a falta de provas, a eventual prescrição de hipotéticos indícios criminais, sobrepuseram-se à referência de “excesso de mandato” (ultrapassadas competências e as deliberações do Conselho de Ministros) e a um processo mencionado como muito “opaco”. Por esclarecer ficaram os 30 milhões de euros que envolveram o nome BES no processo.

publicado por mparaujo às 20:29

17
Ago 14

publicado na edição de hoje, 17 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

E assim (também) vai o mundo

Nos dias de hoje não é possível a um país viver isoladamente. A expressão “orgulhosamente sós”, até há algumas décadas tão badalada em Portugal, hoje não tem qualquer cabimento, nem viabilidade. As várias organizações e instituições internacionais (para além da óbvia ONU) proporcionam e provem um conjunto de relações internacionais nos mais diversos níveis (comercial, político, militar, cultural) que fazem como que, hoje, haja cada vez menos fronteiras. Há, por isso, uma natural tendência para geopoliticamente nos posicionarmos em função de determinados interesses: economia, ideologia, cultura.

Os Estados Unidos alcançaram uma posição geopolítica e geoestratégica determinante no mundo resultante da sua participação/intervenção nas duas Grandes Guerras (nomeadamente a segunda). Primeiro a nível militar, depois política e economicamente. Se, hipoteticamente, houvesse uma invasão a Portugal, obviamente, o primeiro país que gostaria de ver entrar pelas fronteiras lusas seriam os Estados Unidos. Há ainda algumas razões do ponto de vista da democracia e da liberdade que me permitem criar uma afinidade com aquele país. Mas não há bela sem senão. Não posso é aceitar, aliás só posso criticar, que esta inquestionável característica e aptidão para potência mundial (ou “a” potência mundial) confira aos Estados Unidos o papel (que o não tem, nem pode ter) de “dono do mundo”. Mesmo após os acontecimentos de 11 de setembro de 2001. O que se esperaria vir a ser um aceitável combate ao terrorismo internacional tornou-se num ”cheque em branco” para a governação terrestre norte-americana mais pautada por interesses económico-políticos próprios do que pelo estabelecimento da paz ou dos valores da democracia. E a verdade é que o mundo tornou-se num permanente “barril de pólvora”. Deixando de lado a questão cronológica, importa lembrar acontecimentos recentes: Afeganistão, Sudão do Sul (20 mil mortos e um milhão de refugiados), República Centro Africana, Paquistão, Somália, Síria (100 mil mortos e 2 milhões de refugiados). Actualmente, o conflito na Faixa de Gaza (cerca de mil mortos), a Ucrânia (mais de 2 mil mortos) e o novo medir forças com a Rússia, de novo o Iraque com o conflito entre os curdos sírios e os ‘jihadistas’ islâmicos (cerca de 6 mil mortos e 1 milhão de refugiados apenas em três meses), e o Líbano (170 mil mortos). A verdade é que por onde os Estados Unidos têm potencializado, promovido, influenciado e espalhado o seu hardpower político-militar (já que “softpower político” é algo que os americanos parecem desconhecer) o ‘mundo’ não tem ficado nada seguro e muito menos melhor.

As intervenções meramente arbitrárias e condicionadas pelos interesses exclusivos dos norte-americanos, ou mesmo as da ONU/NATO ‘forçadas’ pela pressão dos Estados Unidos, não têm trazido melhores condições de vida a muitos países, maior liberdade e democracia, mais paz.

Numa semana em que lamentamos a morte do actor Robin Williams, dos portugueses Dóris Graça Dias (escritora e crítica literária) e Emídio Rangel (comunicação social), importa também lembrar os milhões de anónimos que morreram nos vários conflitos, muitos dos quais (se não a maioria) inocentemente.

E assim (também) vai o mundo…

publicado por mparaujo às 11:58

12
Ago 14

O trunfo é “espadas”.
Putin volta a marcar pontos no conflito da Ucrânia.
Depois das sanções decretadas pela União Europeia e pelos Estados Unidos, o Kremlin responde com o embargo às importações de produtos e bens alimentares e agrícolas do ocidente. Resta saber para que lado penderá a balança das sanções.
Mas Putin joga ainda uma cartada importante no jogo geopolítico e geoestratégico do conflito ucraniano: a ajuda humanitária. E a cartada é importante porque, seja qual for o desfecho desta acção, a Rússia poderá sair sempre a ganhar.
Sob a capa da Cruz Vermelha Internacional, caso a ajuda humanitária entre na Ucrânia, entrará sempre a “bandeira” russa e o que isso possa significar: ajuda e mais armamento nas mãos dos rebeldes, mas também uma melhor imagem política (salvação humanitária) para os ucranianos pró-russos e para todas as movimentações que promovam a integração da Ucrânia na Rússia. Além disso, a entrada da ajuda humanitária servirá também para a criação de um corredor de intervenção da ONU, colocando a Rússia numa posição internacional privilegiada e mais firme.
Mantendo-se a irredutibilidade ucraniana quanto à ajuda humanitária russa, no caso da impossibilidade da acção do Kremlin, a verdade é que Putin sairá na mesma a ganhar do ponto de vista político, já que aos olhos da opinião pública local e internacional, a Ucrânia será tida como força do bloqueio à ajuda aos seus próprios concidadãos.
Mais uma vez, Putin um passo à frente do resto do mundo na questão ucraniana.

publicado por mparaujo às 17:28

20
Jul 14

20 de julho de 1969 (há 45 anos).

“Um pequeno passo para o homem, um passo de gigante para a Humanidade”.

 (a preto e branco, como se viu em casa dos meus pais)

Os heróis

Neil Armstrong, Edwin 'Buzz' Aldrin e Michael Collins

publicado por mparaujo às 21:17

18
Mar 14

Primeiro round… primeira derrota da União Europeia.
Não foi nenhuma surpresa o resultado do referendo realizado no domingo na Crimeia. Cerca de 80% dos habitantes foram às urnas expressar, por significativa maioria (93%), a sua vontade de reunificação da antiga Região Autónoma da Ucrânia na Federação Russa. Apenas 7% dos votantes manifestaram-se a favor da continuidade da autonomia mas com ligação à Ucrânia.
Pelas mais variadíssimas razões, já expressas noutros textos, era mais do que espectável este desfecho e o resultado. A Rússia tinha todas as razões para restabelecer um “erro histórico”, como disse o principal rosto pela mudança política russa (o fim da URSS), o ex-presidente Gorbachov, e para preservar os seus interesses geoestratégicos na região, principalmente os militares e a posição privilegiada no Mar Negro.
Daí que seja inconcebível e injustificável a posição da União Europeia e dos Estados Unidos neste processo. A Crimeia já detinha uma posição de autonomia em relação à Ucrânia. Independentemente das pressões óbvias exercidas pelo Kremlin, a verdade é que foi o parlamento da Crimeia e os seus habitantes (para além dos 60% russófonos) que decidiram a reunificação à Rússia, por vontade expressa. Aliás, afigura-se lamentável todo este “circo” europeu e americano quando nenhuma das partes se preocupou com cumprimentos constitucionais no rebentamento de toda esta crise política naquele país. Aliás, quanto a referendos, vontades populares, decisões políticas de vários países e regiões, com pressão externa, influência diplomática ou militar, sanções económicas, “invasões” e desrespeito pelo direito internacional, está o inferno (história contemporânea) cheio, sem isenção para a Europa ou para os Estados Unidos (é só procurar nos compêndios mais recentes).
Mais… sendo certo que a primeira batalha está ganha pela Rússia, também é verdade que a “guerra” ainda está longe de ter terminado. O primeiro passo está dado com a Rússia a proteger os seus principais interesses. Mas há mais.
Os Estados Unidos tentam a todo o custo “cinturar” a Rússia através da NATO. Com bases na Turquia, Polónia, a Ucrânia afigurava-se como um ponto geográfico mais que estratégico para “intimidar” o Kremlin. Aliado ao facto de, excepção para Bielorrússia e Moldávia, toda a zona envolvente estar integrada na União Europeia, incluindo a “batalha integracionista” que a Turquia vem, à longa data, travando. Mas se deste ponto de vista geoestratégico é compreensível a posição americana, já a hipocrisia europeia deixa muito a desejar. Num momento em que se colocam em causa os princípios europeus que estiveram na génese da União Europeia (o seu futuro, a sua solidariedade entre Estados Membros, os seus fundamentos), numa altura em que a Islândia revê a sua posição de adesão, numa altura em que a UE não consegue cativar a Suíça nem a Noruega, numa altura em que ainda está por definir uma posição política em relação à zona dos Balcãs, numa altura em que crescem as diferenças sociais e económicas entre os Estados Membros, numa altura em que o futuro da zona euro é questionável, a União Europeia nada tem a ganhar com esta crise na Ucrânia. E é, por isso mesmo, criticável a forma como tem gerido e se tem posicionado neste processo, criando uma falsa ilusão ao povo ucraniano. O que a União Europeia está a preparar é mais uma derrota política ao dividir a Ucrânia, sendo certo que nessa divisão a melhor fatia (a zona sul do país, envolvente ao Mar Negro, mais industrializada e mais produtiva) é claramente pró-Russa.
Seria muito melhor que a União Europeia se preocupasse com os impactos e os “danos colaterais” que toda esta crise na Ucrânia possa provocar no seu seio: basta recordar os muito recentes manifestos independentistas da Catalunha e da Escócia. E não serão meras ameaças.

A este propósito importa recordar (e ler) o que o João Pedro Dias publicou na edição de ontem do Diário de Aveiro: "O Referendo Ilegal".

publicado por mparaujo às 17:01

12
Mar 14

publicado na edição de hoje, 12 março, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
A Leste... nada de novo.
Na análise ao conflito na Ucrânia, com extensão actual à Crimeia, há quem queira retomar a história com as invasões da (na altura) Checoslováquia (a célebre, Primavera de Praga) ou do Afeganistão; e há quem relembre, mais recentemente, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, contrapondo-se, assim, posições pró e contra. Invasão é sempre invasão… facto.
A Rússia tem interesses geopolíticos, geoestratégicos na região. Os Estados Unidos, sob a capa das armas de destruição maciça fantasmas, tinham óbvios interesses geopolíticos, geoestratégicos e económicos no médio oriente, aquando da invasão do Iraque, muito para além da questão do combate ao terrorismo. Empate.
O que deixa uma maior incerteza e preocupação quanto ao futuro é que a União Europeia não vai ter coragem para o confronto, mesmo que político e diplomático, com a Rússia; os Estados Unidos (e a NATO), para além da demagogia geopolítica, não servem de exemplo em relação à violação do direito internacional e não se sujeitarão a retomar os tempos da guerra fria. A Ucrânia fica, assim, entregue às suas próprias mãos e aos seus destinos, agudizando o conflito político e social entre pró-europeus e pró-russos.
Na guerra diplomática da condenação da violação do direito internacional, Estados Unidos e União Europeia são céleres a condenar a Rússia pela “invasão” da Crimeia. Diz o ditado que “quem tem telhados de vidro não deve atirar pedras ao telhado do vizinho”. E são muitos os telhados de vidro, esquecendo-se a “natural” (mesmo que não justificável) posição geopolítica e geoestratégica da Rússia naquela zona, o passado histórico-político da URSS e os “motivos semelhantes” que sustentaram outras acções por parte da UE e dos Estados Unidos (sob a NATO). Mas há ainda outro facto. A Rússia, com a “justificação” dos acordos celebrados com a Ucrânia e com a “defesa” das suas bases militares no Mar Negro, entrou pela Crimeia a dentro. Para o “ocidente” tal significa uma clara violação do direito internacional e uma evidente invasão de um Estado independente e soberano. Até aqui, parece óbvio. Mas tal como a Rússia que pretende defender os seus interesses, a mesma “violação” da independência e soberania da Ucrânia não é colocada em causa quando Estados Unidos e União Europeia aliciam e chantageiam com os 11 mil milhões de euros prometidos ao país (e que tão urgentemente precisa), bem como a pressão de uma adesão apressada e forçada à União Europeia até 21 de março?
Neste conflito há uma hipocrisia e um jogo do “faz-de-conta” (ou um bluff diplomático) evidentes e no qual muito poucos acreditarão: as ameaças de sanções da União Europeia e dos Estados Unidos à Rússia. Aliás, a questão é tão mal disfarçada que as ameaças não passam disso mesmo… puras ameaças políticas, sem quaisquer consequências.
Dando de “barato” a Ucrânia ou parte dela (se a isso obrigados), a Rússia defenderá a todo o custo, na Crimea (e no Mar Negro), os seus interesses políticos (regionais) e, principalmente, militares. É óbvio que as movimentações de Putin neste conflito não são, apesar da ausência (para já) do uso da força ou da violência, inocentes e não se escondem apenas na defesa dos legítimos interesses geopolíticos e geoestratégicos na Crimeia (porque em relação à Ucrânia estão já quebrados os protocolos e acordos que existiam, deixando o país à beira de um colapso e abismo financeiro). Ao colocar as suas forças em alerta na defesa dos pontos estratégicos russos naquela Região Autónoma, a “pressão militar” resultou já nos seus frutos. E enquanto a Ucrânia vai perdendo a “guerra”, Putin vai ganhando batalha a batalha. O parlamento (conselho regional) da República Autónoma da Crimeia aprovou a reunificação da Crimeia com a Rússia estando agendado um referendo (quanta democracia…) para decisão popular. Recorde-se que o governo desta região autónoma da Ucrânia não reconheceu o novo governo interino ucraniano e manifestou-se, desde de sempre, ao lado do presidente deposto (Ianukovich). Tudo isto deverá fortalecer Putin, relembrando o que foi o papel da Crimeia na própria história do leste: derrota do império Otomano e a dependência do Império Russo, no século XVIII; a guerra de sucessão e expansionismo russo – Guerra da Crimea e o Tratado de Paris em 1856 - no século XIX; a sua relevância estratégica na Segunda Guerra Mundial, com a pesada derrota para os invasores alemães (o que não deixa de ser curioso face à pública posição alemã no actual conflito); a supremacia da URSS e a “razia étnica” dos Tártaros, durante liderança de Brejnev, sendo substituídos por cidadãos russos. Principalmente este último aspecto da história da Crimea traz um dado importante para o processo e para o anunciado referendo sobre a reunificação: 60% dos cerca de dois milhões de habitantes da Crimeia são russos. Se dúvidas houvesse…
Por fim, sendo certo que os “cenários de guerra” são, hoje, totalmente distintos (mesmo em relação à Guerra do Golfo) é bom recordar que, este ano de 2014, a história completa 100 anos após os acontecimentos que levaram à I Guerra Mundial (28 de julho de 1914). Por curiosidade…

publicado por mparaujo às 13:24

07
Mar 14

No conflito e crise da Ucrânia há uma hipocrisia e um jogo do “faz-de-conta” (ou um bluff diplomático) perfeitamente evidente e no qual muito poucos acreditarão: as ameaças de sanções da União Europeia e dos Estados Unidos à Rússia. Aliás, a questão é tão mal disfarçada que as ameaças não passam disso mesmo… puras ameaças políticas, sem quaisquer consequências.
Dando de “barato” a Ucrânia ou parte dela (se a isso obrigados), a Rússia defende na Crimea (e no Mar Negro, zona estratégica na região norte dos Balcãs) os seus interesses políticos (regionais), económicos e, principalmente, militares. Os mesmos princípios, mesmo que camuflados, que serviram de fundamentação aos Estados Unidos, União Europeia, NATO, para intervenções militares em diversos locais.
Tirando esta troca de galhardetes diplomáticos, ninguém esperará que a NATO tenha qualquer intenção de correr sérios riscos de intervenção militar na região (em conflito com a Rússia), ou que a Rússia tenha qualquer receio das pressões políticas americanas ou europeias.
Além disso, a pressão da Europa apenas servirá como “alimento (e alento) político” para uma viragem pró-europeia dos destinos da Ucrânia, dando substância ao desejo da, agora, posição ucraniana de uma eventual entrada na UE.
Tal como referido no post anterior, “A Leste… nada de novo (3)” este sentimento samaritano da União Europeia não é, em si mesmo, isento de crítica. À custa de uma suposta libertação da tirania interna e da influência russa, a Ucrânia não se livrará de uma liberdade condicionada ao jugo da tirania económica e da “prisão” do mercado financeiro.
Mas é igualmente óbvio que as movimentações de Putin neste conflito não são, apesar da ausência (para já) do uso da força ou da violência, inocentes e não se escondem apenas na defesa dos legítimos interesses geopolíticos e geoestratégicos na Crimeia (porque em relação à Ucrânia estão já quebrados os protocolos e acordos que existiam, deixando o país à beira de um colapso e abismo financeiro).
Ao colocar as suas forças em alerta na defesa dos pontos estratégicos russos na Crimeia, a “pressão militar” resultou já nos seus frutos. E enquanto a Ucrânia vai perdendo a “guerra”, Putin vai ganhando batalha a batalha. O parlamento (conselho regional) da República Autónoma da Crimeia aprovou a reunificação da Crimeia com a Rússia estando agendado um referendo (quanta democracia…) para decisão popular. Recorde-se que o governo desta região autónoma da Ucrânia não reconheceu o novo governo interino ucraniano e manifestou-se, desde de sempre, ao lado do presidente deposto (Ianukovich). No entanto, tudo isto não deverá preocupar Putin, até pelo que foi a história da Crimeia na própria história do leste: derrota do império Otomano e a dependência do Império Russo, no século XVIII; a guerra de sucessão e expansionismo russo – Guerra da Crimea e o Tratado de Paris em 1856 - no século XIX; a sua relevância estratégica na Segunda Guerra Mundial, com a pesada derrota para os invasores alemães (o que não deixa de ser curioso face à pública posição alemã no actual conflito); a supremacia da URSS e a “razia étnica” dos Tártaros, durante liderança de Brejnev, sendo substituídos por cidadãos russos. Principalmente este último aspecto da história da Crimea traz um dado importante para o processo e para o anunciado referendo sobre a reunificação: 60% dos cerca de dois milhões de habitantes da Crimeia são russos. Se dúvidas houvesse…

publicado por mparaujo às 16:44

05
Mar 14

Na guerra diplomática da condenação da violação do direito internacional, Estados Unidos e União Europeia são céleres a condenar a Rússia pela “invasão” da Crimeia.
Diz o ditado que “quem tem telhados de vidro não deve atirar pedras ao telhado do vizinho”. E são muitos os telhados de vidro, esquecendo-se a “natural” (mesmo que não justificável) posição geopolítica e geoestratégica da Rússia naquela zona, o passado histórico-político da URSS e os motivos “semelhantes” que sustentaram outras acções por parte da UE e dos Estados Unidos (sob a NATO).
Mas há ainda outro facto. A Rússia, com a “justificação” dos acordos celebrados com a Ucrânia e com a “defesa” das suas bases militares no Mar Negro, entrou pela Crimeia a dentro. Para o “ocidente” tal significa uma clara violação do direito internacional e uma evidente invasão de um Estado independente e soberano.
Até aqui, parece óbvio.
Mas tal como a Rússia que pretende defender os seus interesses, a mesma “violação” da independência e soberania da Ucrânia não é colocada em causa quando Estados Unidos e União Europeia aliciam e chantageiam com os 3,3 mil milhões de euros que o país, urgentemente, precisa? A que troco? Simplesmente pela caridade e misericórdia?
E isto ainda vai acabar (muito) mal.

publicado por mparaujo às 15:45

A situação que se vive na Ucrânia, com extensão actual à Crimeia, ultrapassa as fronteiras da região.
Há quem retome a história com as invasões da (na altura) Checoslováquia (a célebre, Primavera de Praga) ou do Afeganistão.
Há quem relembre, mais recentemente, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos.
A Rússia tem interesses geopolíticos, geoestratégicos e económicos na região, muito para além da questão das bases militares.
Os Estados Unidos, sob a capa das armas de destruição maciça fantasmas, tinha óbvios interesses geopolíticos, geoestratégicos e económicos no médio oriente, aquando da invasão do Iraque, muito para além da questão do combate ao terrorismo.
Invasão é sempre invasão… facto.
O que deixa uma maior incerteza e preocupação quanto ao futuro é que a União Europeia não vai ter coragem para o confronto, mesmo que político e diplomático, com a Rússia; os Estados Unidos (e a NATO), para além da demagogia geopolítica, não servem de exemplo em relação à violação do direito internacional e não se sujeitarão a retomar os tempos da guerra fria.
A Ucrânia fica, assim, entregue às suas próprias mãos e aos seus destinos, agudizando o conflito político e social entre pró-europeus e pró-russos.
E isto ainda vai acabar (muito) mal.

publicado por mparaujo às 15:16

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