Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

11
Jun 17

1.gif

publicado na edição de hoje, 11 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

A realidade que nos trama

Não vale a pena renegar o óbvio. Os dados são o que são e confirmam os factos. Portugal baixou significativamente o défice das contas públicas, para muitos inesperadamente, fixando o valor em 2,1%, tendo sido revisto em baixa pelo INE para os 2% (recordemos que esse valor em 2010 situava-se acima dos 11% e o Governo aponta para que o défice de 2017 ronde os 1,6%); o ano de 2016 encerrou com a taxa de desemprego a situar-se, apesar de ainda alta (a terceira mais elevada dos países da OCDE), nos 10,2% no último trimestre de 2016, resultando num valor global na ordem dos 11,1%, sendo que os dados correntes apontam para uma diminuição deste valor fixando-o nos 10%; a taxa emprego registou, no arranque deste ano de 2017, a nona posição entre os países da União Europeia, sendo que o ano de 2016 terminou com os dados a revelarem que Portugal tinha cerca de 71,1% da sua população, entre os 20 e os 64 anos, empregada. Houve um desagravamento da carga fiscal directa (as receitas IRS diminuíram quase 4%) e o aumento do salário mínimo nacional provocou melhoramentos nos rendimentos.
Da mesma forma há uma outra reflexão política que é importante destacar. A austeridade mantém-se por força dos impostos indirectos, por exemplo; as pensões e reformas e a massa salarial média são ainda significativamente baixos; há um significativo desinvestimento público em inúmeras áreas; há sectores da responsabilidade do Estado com impactos negativos muito significativos no seu desempenho fruto das políticas que levaram à redução acentuada do défice, como são os casos claros da saúde e da educação, aos quais acresce a preocupante sustentabilidade da responsabilidade Social do Estado; o crescimento económico ficou muito aquém das projecções e desejos do Governo, tendo o crescimento do PIB ficado, em 2016, nos 1,2% e com o Banco de Portugal a projectar esse valor para o final deste ano na ordem dos 1,4%. Além disso, os efeitos esperados do aumento do consumo interno e da balança exportações-importações estão longe de empurrar a economia do país para valores que sustentem o desenvolvimento e a consolidação das contas nacionais. Há ainda o dado mais preocupante da realidade político-económica nacional: o valor astronómico e que tem vindo a aumentar da dívida pública. Apesar dos indicadores acima referidos, Portugal registou, no final do primeiro trimestre deste ano, uma dívida pública na ordem dos 247,5 mil milhões de euros, valor que eleva acima dos 131% do PIB essa mesma dívida, lembrando ainda o peso dos encargos com os juros que Portugal tem que cumprir.
Estes são alguns aspectos da realidade política do país que importa reflectir no fim-de-semana em que comemoramos o Dia de Portugal e das Comunidades. E era importante que essa reflexão fosse partidariamente desinteressada, séria e coerente principalmente por parte dos partidos que compõe o Governo e suportam a maioria parlamentar. Isto porque, infelizmente, há uma outra realidade que é demasiadamente gritante para ser abafada e esquecida e que urge avaliar e sobre a qual importa agir: longe das politiquices, longe das folhas de excel da economia e das finanças, está a realidade nua e crua do dia-a-dia dos portugueses.
E este dia-a-dia, apesar dos números (e bastava que fosse tão somente uma pessoa), tem rostos, tem vidas, tem desesperos, angústias, combates permanentes pela sobrevivência. De tão simples, directos e crus, os números (que traduzem pessoas) tornam-se naturalmente dolorosos, cruéis e condenáveis. Deixemos, por isso, a parte ilusória para vivermos a realidade concreta do dia-a-dia de milhares de portugueses: em 2016, um em cada quatro portugueses (25,1%) cerca de dois milhões e seiscentos mil encontravam-se no limiar da pobreza e da exclusão social. Destes 500 mil são crianças e outros tantos (mais meio milhão) são idosos. Ou seja, um milhão está nas faixas etárias mais vulneráveis da sociedade. Além disso, os dados das instituições privadas e públicas que lidam com a vertente social indicam que cerca de 300 mil portugueses, hoje, em pleno 2017, não conseguem fazer uma refeição de carne ou peixe de dois em dois dias (dia sim, dia não).
Importa, por isso, avisar S. Bento, Assembleia da República, Belém, o Largo do Rato, a Rua da Palma, a Soeiro Pereira Gomes, a São Caetano e o Largo do Caldas (ou Adelino Amaro da Costa), que o país está muito para além da ilusão do défice ou do inferno da dívida. Está no dia-a-dia dos portugueses.

publicado por mparaujo às 12:57

23
Dez 15

pobreza - eclesia.jpgpublicado na edição de hoje, 23 de dezembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Um Natal bem pobre

Chegados a dezembro e ao período natalício, paralelamente à azáfama consumista do Natal, existe nesta época um significativo aumento de causas solidários e de apelos para o envolvimento dos cidadãos com as mesmas. Infelizmente, há, por inúmeras razões, um aproveitamento desonesto e imoral por parte de terceiros e de causas fictícias. Por outro lado, o chamado “espírito natalício” proporciona um significativo aumento das campanhas e das solicitações de apoios, em alguns casos com pouca eficácia já que o excesso provoca algum afastamento e repulsa e alguma banalização. Além disso, apesar da necessidade, é discutível e questionável o aproveitamento comercial de algumas marcas/empresas na promoção e realização de campanhas natalícias, sob a capa da “caridade” ou da solidariedade que mais não fazem do que disfarçar campanhas de marketing e aumento de vendas.

No entanto, numa amálgama de missões e objectivos nobres, solidariedade efectiva, interesses comerciais ou campanhas fraudulentas, há uma realidade factual: os portugueses estão mais pobres e há muitos que precisam, definitivamente, de ajuda.

A necessidade do cumprimento do Programa de Ajustamento, a implementação de medidas de austeridade, a dificuldade que o país foi sentindo na recuperação económica, a dificuldade em concretizar políticas sociais, trouxe fortes impactos para os cidadãos e as famílias. O país saiu do assistencialismo externo, de forma mais ou menos limpa (ainda há muito para explicar), há cerca de um ano. Mas ficaram muitas marcas destes últimos quatro anos… os portugueses ficaram mais pobres. A título de exemplo, não é por acaso que PSD e CDS apresentaram uma proposta de lei que criminalizasse o abandono dos idosos, dando a entender uma eventual percepção da realidade, embora a medida seja incoerente dado que, por exemplo, o crescente abandono de idosos nos hospitais resulta, obviamente, da incapacidade de subsistência das famílias e não por “capricho”. Mas esta é uma pequena (mesmo que grave) circunstância da realidade. Ela é muito mais profunda e grave.

Percorremos o ano de 2015 com cerca de 27% (mais de 1/4) da população portuguesa em risco de pobreza ou exclusão social, sendo que cerca de 11% dos portugueses se encontram em situação de privação material severa (dados provisórios do INE). Em suma, mais de 2,8 milhões de portugueses são atingidos pela pobreza. E nem mesmo a forte emigração dos últimos dois e três anos fez abrandar estes valores (apenas uma ligeira diminuição na ordem dos 10 mil cidadãos, entre 2013 e 2014). Nos últimos cinco anos, os dados provisórios do INE mostram que o risco de pobreza e de exclusão social, em Portugal, aumentou de 24,9% para 27,5% (mais 2,6%).

Num relatório divulgado pela OCDE, no final do primeiro semestre deste ano, referenciava Portugal como o nono país mais pobre e desigual entre os 34 que compõem a lista da OCDE. Em termos numéricos os 10% dos portugueses mais ricos concentravam em si 25,9% da riqueza nacional, enquanto os 10% mais pobres detinha apenas 2,6%.

Em Portugal, a desigualdade de rendimentos agravou-se, o risco de pobreza e de exclusão social aumentou (com incidência nas crianças, mulheres e idosos) mesmo em relação a cidadãos empregados, quem é pobre ficou mais longe de conseguir sair da pobreza. Acresce ainda um aumento no número de inscritos nos centros de emprego no mês passado (cerca de 65 mil).

É certo que muitas dúvidas assolam grande parte dos portugueses no que respeita às inúmeras, excessivas, campanhas solidárias e peditórios em cada esquina das cidades deste país. O excesso vem provocando incertezas quanto à nobreza das acções, bem como a banalização das mesmas.

Mas a realidade é também outra: este é um Natal bem pobre em Portugal e para 2,8 milhões de vizinhos de cada um de nós. Quem sabe… mesmo à nossa frente.

publicado por mparaujo às 09:44

05
Dez 13

Publicado na edição de hoje, 5 de dezembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Caridade ou Solidariedade?

É inquestionável que em Portugal (para não irmos mais longe), face à conjuntura em que vivemos, é demasiado elevado o número de portugueses e famílias com dificuldades de sobrevivência, com problemas de liquidez dos seus orçamentos pessoais e domésticos, com fome, sem emprego, ‘feridas’ na sua dignidade humana. Isto não tem a ver com partidarismos, política ou com compêndios económico-financeiros, apesar da evidente consequência dos seus impactos. É a realidade do dia-a-dia, o que o país real sente e vive, o que as comunidades observam nas suas ruas, em cada esquina ou vão de escada. E também o que espelham as preocupantes estatísticas: o elevado número de desempregados, o fenómeno da emigração, os cerca de 300 mil portugueses que não conseguem alimentar-se, os cerca de 2 milhões de pobres (com rendimentos inferiores a 360 euros mensais) segundo os dados do INE. Esta é a realidade nua e crua. Como resolver este flagelo? Entre estudos, conceitos e convicções ideológicas, há uma responsabilidade que cabe ao Estado e à sociedade. Ao Estado, na medida em que é responsável pelo garante do bem-estar dos seus cidadãos, pela gestão do bem público e pelas políticas que implementa (ou se abstém de implementar). À sociedade, porque é na relação social, no respeito pelos direitos dos outros, que se podem minimizar os impactos de um mundo onde o ter tem, cada vez mais, importância do que o ser.

A dificuldade na avaliação desta realidade prende-se essencialmente com o ‘conflito’ entre as questões da falta de medidas estruturais na sociedade que combatam a pobreza e a exclusão, e o assistencialismo ou a caridade/solidariedade.

Se é verdade que existem inúmeras falhas em alguns processos de solidariedade, quer a nível individual, quer através das inúmeras instituições e entidades; se é ainda verdade que tenho bastante relutância, para não dizer toda, em defender as posições pessoais da presidente da Banco Alimentar contra a Fome; não deixa de ser igualmente verdade que sem o papel e a acção de várias instituições, como, por exemplo, o Banco Alimentar contra a Fome manter-se-ia, infelizmente, a questão: o que seria de milhares de portugueses e de famílias sem o recurso à solidariedade social dos cidadãos e destas entidades? Ou ainda… que alternativas, imediatas e concretas haveria para conter a eventual “explosão de violência” a nível social e político, e que o Papa Francisco alerta na sua recente Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”, concretamente na abordagem à doutrina social da Igreja. Doutrina que muitos sectores político-partidários vêm “reforçar” porque interessa ao combate político, mesmo esquecendo que essa é uma realidade da Igreja desde os tempos do Papa Leão XIII (“Rerum Novarum”) nos remotos anos de 1890/91, reforçada (mesmo que inconsistente e erradamente aplicada, na prática) nos documentos conciliares do Vaticano II.

Em plena crise social e económica, os portugueses doaram cerca de 2,8 toneladas de alimentos ao Banco Alimentar. Rapidamente, quer em plena campanha, quer ao serem conhecidos os resultados, várias vozes soltaram brados porque quem beneficiaria com a campanha seriam as grandes superfícies (esses monstros do comércio) e o próprio Estado com o aumento da receita de IVA. Mesmo que esta seja a realidade dos factos, não é no seu todo. Excluindo a manifesta solidariedade dos portugueses para com cerca de meio milhar de cidadãos pobres (e novos pobres), excluídos e marginalizados, muitas das 2.300 instituições que serão apoiadas, não beneficiariam de uma ajuda, de um apoio, de uma solidariedade e fraternidade (em alguns casos, caridade mas não simples caridadezinha) que minimize o sofrimento do dia-a-dia, a frustração da exclusão e da pobreza.

Seria bem pior convivermos com esta triste realidade da pobreza e exclusão sociais, ao mesmo tempo que nada fosse feito para evitar o que seria o escândalo humanitário da destruição, no lixo, do excedente alimentar da rede comercial, porque, cada vez mais, a fome ganha (demasiado) rostos. Não resolve estruturalmente o problema da pobreza ou da exclusão, mas combate o desespero de milhares de portugueses que vivem e sentem esse flagelo no seu dia-a-dia. Às entidades e ao Estado caberá fazerem muito mais do que têm feito.

E aos que sentiram a vontade de serem solidários, resta dizer: Obrigado.

publicado por mparaujo às 09:19

08
Mar 13

Hoje celebra-se o Dia Internacional da Mulher, “adoptado” pela ONU, em 1977, para lembrar as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres (embora a primeira celebração remonte a 28 de fevereiro de 1909 nos Estados Unidos).

Em causa estava a luta das mulheres por melhores condições de vida e trabalho, bem como pelo direito de voto, dois anos depois marcada pela tragédia do incêndio numa fábrica de têxteis Triangle Shirtwaist, em Nova Iorque, onde faleceram 146 trabalhadores (a maioria costureiras).

Na grande maioria, para não dizer na totalidade, das celebrações do “Dia de…” está implícita a necessidade de um “alerta”, de protesto, de chamar a atenção, das pessoas, das instituições, dos países, para situações de inferioridade, de injustiça, de fragilidade, de falta de igualdade ou de exclusão social.

Com todo o respeito que tenho pelas mulheres, e concretamente por aquelas que ainda têm necessidade de lutar e gritar bem alto neste dia (aumento da violência doméstica, exploração sexual, falta de igualdade social e de direitos, falta de igualdade profissional e salarial, mutilação genital, etc…), este é, claramente, um dos dias mais “estúpidos” do ano e das comemorações dos “Dia Internacional de…”.

Tão simplesmente por isto: NADA JUSTIFICA OU SUSTENTA A DIFERENCIAÇÃO ENTRE GÉNEROS (mulher ou homem).

Apenas isto… e mais grave, quando ao fim de mais de um século ainda há quem ache que este dia, infelizmente ainda de muitas lutas para muitas mulheres, se deva transformar num lamechas dia do género “São Valentim”, cheio de coraçõeszinhos, poemas de "ir às lágrimas", todo cor-de-rosa ou florido. HAJA RESPEITO.

Um beijo grande a todas as mulheres.

publicado por mparaujo às 11:21

pesquisar neste blog
 
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


mais sobre mim
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Junho 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

12
13
15
16

19
20
22
23
24

25
26
27
28
29
30


Visitas aos Arcos
Siga-me
links