Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

18
Set 15

A Fernanda Câncio tem um excelente artigo feminista (sem qualquer sentido pejorativo, antes pelo contrário), hoje, no Diário de Notícias.

Assertivo, pertinente e com uma interrogativa na conclusão mais que lógica.

Uma mulher não chora, mas devia...

Primeiro, porque chorar tem tanto de digno como rir.

Segundo, nem que seja por raiva e indignação.

fernanda cancio - dn opiniao.jpg

(clicar na imagem para aceder ao artigo)

 

publicado por mparaujo às 16:30

13
Set 15

Prós-e-Contras.jpgAmanhã regressa ao écran da RTP1 o programa "Prós e Contra", moderado e conduzido pela jornalista Fátima Campos Ferreira.

E regressa da pior forma, demonstrando que vamos ter mais uma "temporada" de momentos hilariantes e que irão, com certeza, alimentar muito humor nas redes sociais e na opinião pública.

Para segunda-feira a equipa coordenadora do programa escolheu o tem da Justiça para assinalar o regresso após o período de férias. Em "palco" vão estar magistrados, a Bastonária da Ordem dos Advogados, um sociólogo e jornalistas (alguns) como Miguel Sousa Tavares e Octávio Ribeiro (escolhas questionáveis, obviamente).

O tema em si é, por infinitas razões, sempre pertinente. Para a sociedade a questão da Justiça traz sempre um conjunto de interrogações e críticas, sendo que para um normal funcionamento de um Estado de Direito (e não do Direito) a Justiça é um dos pilares basilares. Haveria, por isso, inúmeros exercícios que podiam ser feitos na abordagem à problemática: os recursos da Justiça, o acesso à Justiça, a equidade na e da Justiça, o segredo de justiça, os vários códigos processuais e a sua estruturação, os procedimentos de investigação, a separação de poderes.

Pelo contrário, pegar na afirmação polémica, que já fez correr bastante "tinta", de Paulo Rangel na Universidade de Verão do PSD ("Teríamos um ex-primeiro ministro preso se o PS fosse governo?") e fazer dela o mote e o slogan do programa é, independentemente de estarem presentes ou não políticos no debate, politizar o tema da Justiça. Algo perfeitamente dispensável e recusável. E muito menos colhe o argumento usado pela jornalista Fátima Campos Ferreira quando afirma que "os cidadãos merecem saber, em fase eleitoral, se há interferência da política na justiça". Não.... os cidadãos, em fase eleitoral, precisam de saber quais as propostas políticas para melhorar a Justiça e o Direito em Portugal. Saber se há interferências políticas, ou não, na justiça é algo que preocupa os portugueses em qualquer momento. Usá-lo em plena campanha, seja pelos partidos, seja por quem for, é, claramente, politizar a discussão, mais ainda quando o contexto da afirmação proferida por Paulo Rangel era notoriamente político-partidário e tinha um alvo perfeitamente definido: José Sócrates. Aliás, importa ainda recordar o contexto em que a frase foi proferida pelo social-democrata e a argumentação política que a sustentou: "Não é mérito deste governo, mas foi durante este governo que pela primeira vez houve um ataque sério à corrupção" e "Uma coisa é certa: o ar democrático em Portugal hoje é mais respirável", acrescentou, na altura, Paulo Rangel.

No fundo, o programa de amanhã servirá para a milésima "aparição" do ex Primeiro-ministro na campanha e no confronto político-partidário, sendo cada vez mais o centro eleitoral apesar de ter estado sujeito a sufrágio em 2011.

publicado por mparaujo às 21:01

27
Jun 15

bloco ecografia.jpgA Fernanda Câncio tem um (ou mais um, conforme os gostos) excelente artigo publicado ontem, no Diário de Notícias, sobre um conjunto de medidas legislativas que irão a debate na Assembleia da República, no dia 3 de julho, relacionados com a actual lei da interrupção voluntária da gravidez (vulgo, "lei do aborto") - "Mintos nada urbanos".

O que tem sido tornado mais relevante e titulado neste processo é a intenção do Governo em obrigar ao pagamento de taxa moderadora no caso do recurso hospitalar à interrupção da gravidez. Isto, por si só, nada tem de clamoroso, nem seria o suficiente para voltarmos a ter os surrealismos e os fanatismo das "Isildas" Pegado deste país. A interrupção da gravidez (aborto) é um acto médico e como tal deve estar sujeito aos normais, legais e habituais procedimentos e regras de qualquer acto hospitalar, seja por vontade própria ou não, existindo ainda a possibilidade do recurso à isenção, dentro do actual quadro legal. Importa não esquecer que qualquer consulta de saúde sexual é já isenta de taxa moderadora.

Isto seria simples, demasiado até, se fosse a realidade... mas a verdade é que há muito mais por trás da taxa moderadora e para além da taxa moderadora. Por exemplo, como refere o artigo da f., a observação, por parte da mulher, da ecografia e a sua assinatura (tipo, confirmação do "crime"), ao jeito dos maços de tabaco "o tabaco matar"; o não haver direito a qualquer tipo de subsídio (por exemplo, em caso de "baixa médica"); a presença imprescindível de um médico "objector de consciência" (anti-aborto) nas consultas (colocando em causa toda a deontologia e ética de qualquer outro médico); a obrigatoriedade da auscultação do "progenitor" (seria surreal no caso de abuso sexual); ou a opção de uma menor de 16 anos poder levar a gravidez até ao fim (ai a pressão do fundamentalismo religioso espanhol).

O que está aqui em causa não são meros pormenores processuais ou simples procedimentos legais. O que está em causa, para Isilda Pegado e as cerca de 37999 assinaturas subscritores da iniciativa "direito a nascer", é o alimentar da obsessão, do fanatismo, do querer a condenação "à força" e imposta do acto praticado, mesmo que a lei tenha já as suas barreiras e limites. É o querer tentar conseguir levar "avante" o que não conseguiram confrontados com a vontade livremente expressa dos cidadãos no referendo que levou à actual legislação sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez. É querer por subterfúgios legais o que não conseguiram pela argumentação.

E é, acima de tudo, o querer falsear a realidade e mentir sobre os factos. Quando foi legalizada a Interrupção Voluntária da Gravidez, Isilda Pegado e os seus "seguidores" bradaram a todos os ventos que o que estaria em causa era a "liberalização da morte" e que iria disparar o número de abortos dada a permissão do acto como quem vai ao supermercado ou o café do bairro. Percebe-se que custa muito o assumir a realidade, os factos/dados e o erro de abordagem: segundo os dados da Direcção-geral de Saúde, 2014 registou o número mais baixo de abortos, desde 2007 (data da entrada em vigor da actual legislação) - 16.589, menos 1692 que no ano de 2013. Ao todo, em sete anos (desde 2007) registaram-se cerca de 133 mil interrupções da gravidez (o que dá uma média de 19 mil actos clínicos, muito abaixo dos 40 mil anuais previstos pela Isilda Pegado). Importa ainda referir que apenas cerca de 20% deste valor se refere a "reincidências" , as tais leviandades para o movimento "direito a nascer" (entre 70 a 80% dos casos referem-se a mulheres que interromperam, pela primeira vez, a sua gravidez).

Por último, o que é mais repugnante não é esta obsessão de Isilda Pegado (já estamos mais que vacinados), mas sim o aproveitamento político e eleitoralista do do tema por parte do PSD e do CDS, não pela problemática em si, pela questão da consciência moral e da ética, mas sim pela ânsia do amealhar dos votos para outubro. Lamentavelmente... não é "bandeira eleitoral" que deva ser usada.

Isto é, dada a impossibilidade de crime e prisão das mulheres e dos médicos, um verdadeiro "crime psicológico". Pena que PSD e CDS embarquem na causa...

 

publicado por mparaujo às 11:26

29
Mai 15

f cancio - dn 29 de maio.jpgO artigo/crónica da Fernanda Câncio, publicado na edição de hoje do Diário de Notícias, merece uma reflexão mais cuidada e atenta.

A Fernanda já escreveu artigos muito mais interessantes (e soberbos), outros nem por isso. Já escreveu artigos (a maior parte) com os quais eu concordo (em grau, género e número), alguns dos quais foram “referência” para artigos meus no Diário de Aveiro, e já escreveu outros (poucos mas alguns) com os quais só me apetecia gritar com ela (o que era infrutífero porque ela não me liga nenhuma). Assim... o texto de hoje é diferente em quê e porquê? Por várias razões, intrínsecas e extrínsecas (assim mesmo, com léxico “rococó” porque o momento o exige).

É certo que a Fernanda Câncio já foi, por várias vezes, motivo de “A ler os outros…”. Por uma razão de declaração de interesses importa dizer que tenho a Fernanda Câncio (e ela sabe-o) como um referência profissional e em outros âmbitos (curisoamente, menos o político-partidário). Não é segredo nenhum; como não o é, felizmente, que o mundo me vai dando outras e boas referências, nos mais distintos âmbitos e universos. Mal de nós quando nos julgamos superiores a tudo e a todos e não cuidamos de ter as “nossas referências de vida”.

Lamechices à parte…

  1. O texto, de hoje, da Fernanda Câncio, tem a particularidade de dar uma “lição de moral política”, com toda a legitimidade e autoridade, para aqueles que acham que fazer política é apenas enveredar pelo carneirismo cego ou apenas a motivação do “deitar abaixo e criticar por criticar”. A consciência e liberdade políticas, a coerência e a racionalidade, o equilíbrio e a justiça, fazem-se e possuem-se tendo a capacidade para saber reconhecer os aspectos positivos e negativos da actuação política alheia, independentemente do lado da “barricada”. O reconhecimento do mérito alheio não é sinal de fraqueza, anste pelo contrário... é sinal de personalidade, de coerência, de dignidade. Se a ministra das Finanças tem razão, qual o constrangimento ou o demérito políticos em reconhecê-lo? Tomara que isso servisse para muito partido e político reflectirem. Principalmente, nesta fase de pré-campanha eleitoral, onde se usa (e abusa) a questão das reformas apenas como arma do confronto político, na maior parte dos casos, sem consistência nenhuma, sem factualidade e com inúmeras contradições e indefinições.
  2. Mas não só… para aqueles que, por inveja, por complexo de inferioridade, por desdém, gostam, tantas e tantas vezes, de criticar o profissionalismo da Fernanda Câncio (embora isso seja para o lado que ela dorme melhor) têm aqui a prova, a mais que confirmação, de que o rigor, a verdade, a transparência, mesmo acima da isenção, são a marca jornalística da Fernanda, por mais vorazes (ou assertivas) que sejam as suas palavras. Falem agora de “tendenciosa”, de “esquerdalha” e outros adjectivos (uiiii, havia tantos) já tantas vezes proferidos... Esta é a prova que, no jornalismo, é possível ser-se rigoroso, verdadeiro, claro, objectivo, sem ter a necessidade de se recorrer ao "chavão" da isenção e imparcialidade. Antes pelo contrário.
  3. O artigo/crónica em si tem ainda outra particularidade. E nisso a Fernanda foi exemplar. Num “artigo de opinião” ou “crónica” (importa referir que ambos são géneros jornalísticos) onde o factor opinativo, pessoal, crítico, é predominante, é interessante conseguir descortinar a inúmera informação divulgada pelos factos, números e questões que a Fernanda levantou e posicionou antes do seu remate final. Afinal, para os incrédulos e "velhos do restelo", é possível opinar e informar/noticiar ao mesmo tempo. Embrulhem.

Aprendam que ela ainda dura, embora não seja para sempre (como tudo nesta vida).

publicado por mparaujo às 14:46

15
Mai 15

dar sangue.jpgA propósito do meu artigo publicado na edição de quarta-feira última no Diário de Aveiro ("do preconceito ao moralismo"), fica o registo de três notas que me merecem especial atenção e merecem devido destaque:

1. O comentário da Cláudia Rocha que deixou informação relevante (devidamente agradecido):

«Números de 2012: "Em 2012, foram recebidas notificações correspondentes a um total de 1551 novos casos de infeção VIH, dos quais 776 referiam diagnóstico nesse ano. Destes últimos, 41,1% residiam no distrito de Lisboa, a maioria registou-se em homens (70,7%), a idade mediana ao diagnóstico foi de 41,0 anos, 28,4% referiam ter nascido fora do país e 31,8% estavam em estádio de SIDA. A via sexual foi o modo de infeção indicado na maioria dos casos, com 63,1% a referirem transmissão heterossexual e 24,1% transmissão associada ao sexo entre homens. Em 10,0% dos novos casos a infeção está relacionada com consumo de drogas."»

2. O excelente artigo da Fernanda Câncio publicado no Diário de Notícias, na passada sexta-feira: "Sangue homo é melhor".

3. Deixando de parte qualquer identificação ideológica, bem longe disse, a verdade é que este texto do dirigente bloquista, José Soeiro, tem uma abordagem significativamente interessante sobre o assunto: "É o estúpido, ciência!".

publicado por mparaujo às 14:22

02
Dez 14

ceu guerra no xx congresso ps.jpgAinda a propósito do XX Congresso do PS, após a primeira análise que aqui foi feita “O Não à direita. O Talvez à esquerda... E longe de Évora”.

Se por um lado António Costa se preocupou em manter fora do secretariado nacional qualquer oposição, deixando para a Comissão Nacional os 30% da facção Seguro, foi inesperada a forma como o actual líder socialista escolheu os seus pares mais próximos para a direcção do partido. Muitas caras novas, deixou de fora os históricos, deixou de fora rostos marcadamente de facção (fossem de António José Seguro ou de José Sócrates), apostou em gente da sua confiança e numa ou outra promessa política socialista, como o mediático deputado João Galamba. Por outro lado, de forma politicamente inteligente, António Costa afastou do Congresso todo o peso do caso judicial que envolve o ex primeiro-ministro socialista José Sócrates, quer nas ausências a quaisquer referências à sua prisão ou a qualquer política governativa dos seus dois mandatos legislativos bem recentes. Algo, aliás, que os próprios congressistas e socialistas convidados entenderam e aceitaram cumprir na “perfeição”, deixando a exclusividade do espírito do Congresso ao confronto político com o Governo.

Aqui chegado, António Costa virou baterias, armas e bagagens, contra o Governo, Pedro Passos Coelho, PSD e CDS. As críticas, sob a forma de “casos de vida”, envolveram a maioria das medidas e acções governativas nos últimos três anos, sem uma referência significativa à Troika ou adiando para a primavera de 2015 as sua propostas programáticas para o futuro de Portugal. Apesar da sensação de vazio e de vacatura do discurso é, goste-se ou não, uma estratégia política que o final de 2015 revelará eficaz ou não. Até lá fica a interrogação se o declaradamente explícito Não a um entendimento à direita e uma Talvez abertura à esquerda (com quem o PS tem fortes divergências quanto à dívida, a algum Estado social e empresarial, à União Europeia, à NATO, sem esquecer a rasteira que a esquerda lhe pregou em 2011, já para não me remeter a longínquos conflitos na era PREC) se manterão para além dos resultados eleitorais de 2015.

Mas nesta narrativa crítica à actuação do Governo surgiu ainda um momento inesperado no Congresso e que é de difícil compreensão (para não dizer, aceitação) por parecer demasiadamente populista, eleitoralista, que, a eventualidade da emoção discursiva (e de improviso), por si só, poderá não justificar.
É certo que são conhecidos os movimentos femininos (muito para além do feminismo) que lutam e trabalham pela igualdade de género e em defesa das mulheres; são conhecidas as lutas que o PS trava, através de militantes e deputados seus, por essas causas (como exemplos); é certo que a “esquerda” tem, por natura, uma forma marcadamente mais pública e activa na defesa dos direitos, igualdades e dignidade humanos. Mas… estas realidades não são, não podem, nem devem ser, “propriedade política” de alguns, de uma parte apenas. Mais… muito menos devem ser confundidas com as circunstâncias discursivas ou narrativas dos momentos. António Costa não deveria ter tido o direito de se “apropriar politicamente” (já que de acto político se tratava o discurso de encerramento do Congresso do PS) de uma causa, de uma luta, de um sofrimento, que não é exclusivo do PS mas sim de todos e, principalmente, do respeito que vítimas e familiares merecem: a violência doméstica e as suas vítimas, mortais (ao caso concreto, as 34 mulheres vítimas mortais em casos de violência doméstica). Ficou mal na “fotografia” o líder socialista.

Permito-me, mesmo com a ousadia da “libertinagem” de usurpação de “palavras alheias”, reproduzir aqui um comentário da Fernanda Câncio, no Jugular, a propósito do tema: «muito comovente ouvir recitar, por céu guerra no congresso do ps, o nome das mulheres assassinadas este ano. mas estou tão cansada de momentos simbólicos sem consequência, de ramos de flores e poemas marejados de lágrimas q só sublinham a indiferença e a continuação do costume do resto do tempo. (…) olho para a prática legislativa e vejo o ps a defender q o assédio sexual, q é a evidência quotidiana da violência e da menorização das mulheres, da certificação d q o espaço público é masculino e q as mulheres nele se devem aventurar sempre a medo e sob ameaça (...), 'ñ tem dignidade penal'. as mulheres são mortas, e tantas, porque vivemos num país q as desconsidera quotidianamente, (…).a morte não tem remédio. é na vida que temos de reparar, e agir. porque só isso pode evitar a morte, real e simbólica, das mulheres».

publicado por mparaujo às 17:07

25
Jul 14

Ora cá está... aquilo que eu sinto (e me sinto) em relação ao conflito Israel-Palestina (Faixa de Gaza).
Independentemente de criticar toda e qualquer guerra e condenar toda e qualquer violação dos direitos mais elementares do ser humano, como é o caso da vida, não consigo tomar partido, nem atribuir isenção ou culpabilidades neste conflito a qualquer uma das partes directamente envolvidas, sendo certo que é óbvio, por mais posições que a ONU tome, que há ainda partes terceiras envolvidas indirectamente (quer numa, quer noutra das partes).
E a jornalista Fernanda Câncio explica tão bem o porquê na parte final do seu artigo de hoje no DN: "A guerra dos 100 anos".

"Como sair disto? Não sei, não sabemos. Mas de uma coisa podemos ter a certeza: se nem a esta distância e no Facebook e no Twitter é possível falar disto sem andar à pancada e ao palavrão, não vejo como é que lá, entre morteiros, katiuskas, kefiahs, solidéus e todo o sangue derramado nestes 67 anos, podemos esperar ou exigir a serenidade e a razão necessárias para acabar com a mortandade."

publicado por mparaujo às 10:11

27
Abr 14

publicado na edição de hoje, 27 de abril, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

40 anos “depois do adeus”

Por voltas das 23 horas da noite de 24 de abril de 1974 entoava, através da rádio Emissores Associados de Lisboa, uma das músicas vencedora de um festival da canção: E depois do Adeus, de Paulo de Carvalho. Poucos minutos depois da meia-noite, a Rádio Renascença transmitia uma das músicas proibidas pela censura: Grândola Vila Morena, do aveirense Zeca Afonso. Estava lançado o Golpe de Estado que derrubaria os 48 anos de regime ditatorial imposto por Salazar e prolongado por Marcelo Caetano. E naquela madrugada/manhã, junto com os militares, o Povo (todo) saiu à rua para gritar Liberdade. Em 1974, naquele dia, como hábito, levantei-me para, juntamente com a minha irmã, irmos para a escola (sim… não era um sábado, era uma quinta-feira; não estávamos de férias, era abril; não havia futebol na rádio, havia aulas). As notícias, algo confusas e por confirmar, faziam acordar Aveiro com algum naturalidade (apesar da ansiedade crescente) que seria “posta em causa” com o desencadear sucessivo da informação ao longo do dia. Para muitos da minha geração (64-66), o impacto dos acontecimentos e do período conturbado vivido nos anos imediatos só com o evoluir da história ia criando raízes e construindo uma realidade. Aquilo que vivi nesses períodos, com marcas pessoais, com significados e realidades distintas, foi o suficiente para determinar a minha vivência de abril e destes 40 anos volvidos: 74 marca a conquista da Liberdade, 75 estabelece a Democracia (consolidada a 25 de abril de 76 com a Constituição da República Portuguesa). Estas realidades são uma conquista de todos e para todos. E ao fim destes 40 anos há algo que os portugueses ainda não conquistaram: o valor universal (e não “propriedade” de alguns) do 25 de Abril.

A jornalista Fernanda Câncio descreve-o de forma interessante no seu artigo de opinião, no Diário de Notícias, da edição de sexta-feira, 25 de abril: “No fim da estrada” (algo que gostaria de ter escrito a “duas mãos” ou co-assinado).

É um facto que o país atravessa significativas dificuldades, os portugueses são chamados a sacrifícios e a esforços intensos, com situações de pobreza, de desemprego, de desvalorização do valor do trabalho. No entanto, importa recordar, no que têm sido os “altos e baixos” desta construção diária e permanente do país, o que foram os dois processos idênticos de ajuda externa (1977 e 1983). Mas o que se afigura como irrealista e absurdo é comparar (e querer recuar) os dias de hoje com o país pré-25 abril: pobre (metade das habitações não tinha água canalizada, cerca de 40% não tinha instalação sanitária, e cerca de 30% não tinha electricidade), sem escolaridade (33% de analfabetismo), sem acesso universal à saúde e ao ensino (nomeadamente o superior), sem formação (apesar do ridículo da afirmação de Durão barroso sobre o ensino no Estado Novo), com elevada taxa de mortalidade infantil, etc. Mas para além disso, sem liberdade (de expressão, opinião e informação), sem democracia (sem participação livre, com o voto condicionado e limitado), sem pluralidade (é, perfeitamente, despropositado dizer-se que antigamente a política e os políticos eram melhores que hoje). E em relação a estes valores de Abril (as portas que Abril abriu) não faz, hoje, qualquer sentido colocar em causa. Até pela contradição entre afirmar-se que a “democracia e a liberdade faliram” e a própria realidade, quando é a mesma democracia e mesma liberdade que nos permitem manifestarmo-nos (já na próxima semana celebra-se mais um 1º de Maio), criticarmos, descermos a Av. da Liberdade, concentrarmo-nos no Largo do Carmo, elegermos e sermos eleitos (já no próximo mês há eleições livres e democráticas), exercermos o direito cívico de participar na construção da sociedade.

A democracia não é, obviamente, um modelo perfeito e isento de falhas. Mas é, garantidamente, o menos mau de todos os modelos político-sociais. Percorremos 40 anos… parece-me um caminho demasiado longo para que se queira recordar um passado (para além da memória e da história colectivas) e voltar para trás. Se bem que, ao contrário do título do artigo da Fernanda Câncio (“No fim da estrada”), acho que ainda há caminho para percorrer para combater a imaturidade política de muitos portugueses, da indiferença nos momentos de decisão e de participação, no comodismo e conformismo instalados. E este desígnio de Abril ainda falta cumprir.

publicado por mparaujo às 12:05

21
Jan 14

Para quem acha que a Fernanda Câncio só pensa e escreve sobre política (ou politiquices, para muitos) e sempre com um sentido de "vingança" e "ressabismo" (verdadeira injustiça e apenas dor de cotovelo de muitos - mesmo que não concorde com tudo o que escreve) está na altura de reverem esse preconceito idiota.

Aqui está uma excelente reflexão, à guisa de "sermão", sobre fidelidades e infidelidades...
Revejo-me 100% neste espectacular texto (o que normalmente acontece, com as devidas excepções): "sermão impossível mesmo"

publicado por mparaujo às 15:05

17
Jan 14

Em Maio de 2013 a Assembleia da República aprovou, na generalidade e por maioria dos votos (tangencialmente, mas por maioria) a Proposta de Lei da Co-adopção por casais do mesmo sexo. Na altura houve, naturalmente, lugar à discussão, à troca de opiniões e convicções. Na altura de votar não houve, por parte das direcções dos partidos e das respectivas bancadas parlamentares, o recurso à disciplina de voto. A proposta baixou a um grupo de trabalho parlamentar que, ao longo destes meses, tem vindo a desenvolver um conjunto de desenvolvimentos e a recolher um conjunto de informações que permitam à Assembleia da República todos os dados necessários para que a votação na generalidade corresponda a um exercício legislativo eficaz.

Mas, tal como este Inverno vai produzindo algumas surpresas, também a política portuguesa, ou melhor, também a politiquice portuguesa vai produzindo as suas surrealidades.

Ponto de ordem: é bom que, de uma vez por todas, independentemente do que os processos legislativos possam evoluir ou não, o que está em causa é a co-adopção e NÃO a adopção.

Primeira declaração de interesses: sou católico/apostólico/romano; sou social-democrata e sou, totalmente, a favor da co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo.

Segunda declaração de interesses: hoje, tive vergonha do parlamento que elegi (bancada do PSD).

Terceira declaração de interesses: o meu total aplauso para a posição do CDS e, em particular, para a Deputada social-democrata (e até hoje vice-presidente da bancada parlamentar do PSD) Teresa Leal Coelho. O meu desprezo para quantos alinharam no "carneirismo político" e não votaram em consciência (basta olhar as declarações de voto contrárias ao sentido de voto expresso).

Num artigo publicado no jornal Público, ontem, a deputada socialista Isabel Moreira apontava três razões para recusar a proposta da JSD em referendar a co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo.

Em teoria, e para não cair na mesma tentação do PSD de falta de coerência e de sentido de responsabilidade política e cívica, nada me levaria a me opor à realização de um referendo sobre a matéria. Aliás, como aconteceu, por exemplo, em relação à despenalização do aborto. Mas o que está aqui em causa não é a defesa, simplesmente e por convicção, de uma fundamentação por princípios do referendo.

O que está em causa é o vergonhoso aproveitamento político da proposta da JSD para meros ganhos eleitoralistas por parte do PSD. E curiosamente, quando até se poderia esperar  do CDS (pela sua natura ideológica e dos princípios que o sustentam) uma maior pressão para a aprovação do referendo, eis que o partido de Paulo Portas rompe o estado de graça da coligação (reforçado no último congresso, em Oliveira do Bairro) e assume uma postura política de algum crédito ético, com a abstenção e a liberdade de voto dos seus deputados.

Muitos questionam-se sobre o que terá ganho Passos Coelho com esta cedência à sua “Jota” e que contrapartidas daí advêm. Acho que nem uma coisa, nem outra. Primeiro, porque Passos Coelho mais não fez que o sujo jogo político do aproveitamento de um momento perfeitamente abominável dos deputados “jotas” da Assembleia da República. Segundo, porque das estruturas da juventude, dos vários partidos, não se espera uma rotura com o aparelho partidário em momentos cruciais como os eleitorais. Portanto, não seria por aí que o PSD teria algo a temer.

O que esteve em causa, nesta aprovação do referendo à co-adopção por casais do mesmo sexo (aprovado por maioria, com 103 votos a favor, 92 contra e 26 abstenções) foi mais uma machada na ética política, na responsabilidade parlamentar e no pudor partidário.

E os factos são simples (aliás bem explanados pelo texto da Isabel Moreira e pelo artigo de hoje da Fernanda Câncio, no Diário de Notícias)

1. Onde esteve a JSD e o PSD, em Maio de 2013, quando na aprovação na generalidade da proposta de lei para a co-adopção? É que, em nenhum momento do debate e da discussão pública do tema foi colocada a mera hipótese de se pensar num referendo.

2. Após a aprovação na generalidade a proposta de lei baixou a um grupo de trabalho da Assembleia da República. A constituição do grupo não foi colocada em causa pelo PSD, nem pela JSD.

3. O Grupo de Trabalho da Assembleia da República, responsável pela especificidade da proposta de lei, trabalha há oito meses, com trabalho efectuado, com audições de especialistas (de várias vertentes e com várias posições). Nunca durante este processo se ouviu a palavra Referendo.

4. O que resulta então? Com o aproximar de um processo eleitoral (Europeias), com o aproximar do fim do resgate financeiro ao país e sem se saber, concretamente, como será o futuro, Pedro Passos Coelho encontrou neste inqualificável devaneio político e social da JSD uma forma de: primeiro, empurrar “à la longue” o que considera um problema de “votos”, transferindo para a próxima legislatura (que até pode – e deve – não ser sua) a responsabilidade política e social; segundo, desviar das atenções dos portugueses problemas que lhes tocam mais directamente no seu dia-a-dia (cortes salariais, reformas e pensões, aumentos dos preços, impostos e um “cinzento” pós-troika).

5. Tudo não passou de uma baixa estratégia política, que até o CDS percebeu (atempadamente) e criticou, e que deu origem (que se aplaude) à apresentação de demissão do cargo de vice-presidente da bancada parlamentar social-democrata por parte da Deputada Teresa Leal Coelho, para desviar a atenção dos portugueses sobre o Governo.

Lamentavelmente com uma baixeza política revoltante e que espelha muito bem o carácter político-partidário deste PSD.

E como na crise pagam sempre os mesmos portugueses, infelizmente, aqui, quem paga esta “diarreia” política, são os mais fracos: as crianças.

publicado por mparaujo às 15:00

01
Nov 13

A ler o artigo de hoje, 1 de novembro, da Fernanda Câncio no Diário de Notícias ("Carrilho trágico")...
Deixando, e muitíssimo bem, a fofoquice, os aspectos da vida privada e da devassa da vida alheia, a banalidade e a miséria de "espírito" que assola protagonista, jornalista e leitores, fica o registo de mais um excelente artigo sob a perspectiva jornalística e profissional. Algo que Ferreira Fernandes també tinha aflorado (noutra perspectiva) em "Perguntas abertas a Manuel Maria Carrilho".

Excelente recado às redacções e editores, e excelente case study para cursos/cadeiras de Jornalismo. Por exemplo: "ética e deontologia / direito da comunicação" - "teorias da comunicação" ou "comunicação e sociedade"... etc.


Tudo o resto não interessa e cheira mal...

publicado por mparaujo às 16:14

15
Ago 13

Declarações de interesse que se impõem antes de tudo:

1. Apesar da formação académica na área (comunicação), por razões de oportunidade e opções (à data) de vida, não exerço a actividade profissional de jornalista (embora colaborador regular do Diário de Aveiro e ter passado vários anos na rádio), mas sim a relacionada com a assessoria de imprensa e comunicação, no sector autárquico. No entanto, tal facto não me impede, por direito e democracia, de reflectir sobre uma das coisas (felizmente há mais) que mais me apaixona na vida: o jornalismo.

2. Sempre que estiver em causa a dignidade da profissão, a ética e a deontologia, a defesa dos profissionais, eu estarei na primeira fila. Neste caso, relacionado com a Fernanda Câncio e uma publicação diária (que não considero “jornal” – jornalismo não se define pelo volume de eventuais vendas), envolvendo uma foto de Judite de Sousa, a minha posição não podia ser outra senão a de estar ao lado da Fernanda Câncio. Não porque ela precise de qualquer “advogado de defesa”, a experiência pessoal e profissional acumuladas e o “gosto” que sempre desenvolveu pela polémica são mais que suficientes para saber resolver, sozinha, as situações e as dificuldades que enfrenta… mas por uma questão de respeito, consideração e admiração. Em algumas coisas da vida e do mundo divergimos, respeitando as opiniões. Mas em relação ao jornalismo, à sua concepção e conceito, à defesa da sua integridade e ética, como a Fernanda bem sabe, estamos 99,9% de acordo.

3. Numa breve troca de impressões com a mui respeitável Estrela Serrano e este seu texto “Jornalismo mesquinho e pacóvio”, compreendendo a sua posição no combate a este tipo de situações (como ela referiu “água mole em pedra dura…”), defendo, há muito, que não há bom ou mau jornalismo. Ou há jornalismo ou não há jornalismo. Podemos discutir erros e falhas do jornalismo, mas para mim o que está em causa é uma atitude premeditada, rebuscada, difamatória, provocatória e que atenta à dignidade da jornalista Fernanda Câncio. E só por isso me atrevo a escrever, como o fiz em outras situações. Apenas por isso, já que de jornalismo a situação não tem nada, aliás como não tem a publicação em causa.

Passemos aos factos… e às interrogações?

- Que relação há entre a vida pessoal (ainda por cima no passado) de Fernanda Câncio e a foto da Judite de Sousa na praia?

- Que legitimidade tem a publicação para identificar a jornalista não pelo seu nome ou, até, profissão, mas por um facto da sua vida privada e íntima?

- Que direito tem a publicação de recolher e publicar sem autorização uma mera opinião pessoal (e não profissional, ou mesmo que o fosse) expressa num contexto reservado, embora visível (grupo fechado do facebook "Jornalistas")? Algo, aliás, que não é caso único naquela publicação, se recordarmos, por exemplo, o que aconteceu também com a jornalista Joana Latino.

- Que interesse jornalístico tem a opinião pessoal, legítima num estado democrático e de direito, de uma cidadã (ao caso) comentar uma foto que não lhe agrada, ainda por cima quando, em causa, estava a “defesa” de uma colega/camarada de profissão?

– Se a Fernanda Câncio tivesse elogiado o bikini ou a condição física da Judite de Sousa teria sido igualmente capa da publicação?

– Para além do ódio que a publicação nutre por tudo o que envolva o nome de José Sócrates (não sou socialista, votei contra a sua reeleição em 2011, embora o arrependimento seja enorme: “mal por mal…”); para além do conhecido desprezo, mesmo que não seja a única, que a jornalista do Diário de Notícias sustenta pela publicação em causa; há algum interesse jornalístico naquela chamada de  primeira página para além de uma mera perseguição, calúnia ou difamação?

As respostas são simples: nenhuma; nenhuma; nenhum; nenhum; não; e não. Não há nada que mereça qualquer observação do ponto de vista jornalístico porque, simplesmente, não há jornalismo.

O que merece é a indignação e o repúdio públicos. Não basta vender muito para haver jornalismo.

E é pena que, nestas situações, não haja uma intervenção consistente do Sindicato dos Jornalistas e, mais concretamente, da Comissão da Carteira que não se esquece de cobrar bem pelas emissões ou renovações do “cartãozinho” sempre que necessário. Como há muito defendo, venha uma “Ordem do Jornalismo” e depressa.

E assim vai o jornalismo: cantando e rindo…

publicado por mparaujo às 12:58

07
Abr 13

Publicado na edição de hoje, 7 de abril, do Diário de Aveiro.

Entre a Proa e a Ré

A narrativa da falha anímica

A demissão de um ministro só me parece concebível quando estão em causa duas vertentes: um consequente avolumar de erros políticos de governação ministerial ou um conflito entre a estratégia do governo e a actuação do ministro; ou alguma acção passível de processo criminal. Curiosamente, o país, na quinta-feira, foi “abalado” (entre “urras” e “comoções”) pela surpresa do pedido de demissão do ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas. E surpresa por dois motivos distintos. Primeiro, porque Miguel Relvas era o rosto e o pilar políticos deste Governo. Foi o responsável pela ascensão ao poder partidário e governativo de Pedro Passos Coelho, pela forma como desenhou toda a estratégia para o confronto interno com o peso dos históricos do PSD que permitiu a Passos Coelho ganhar a liderança do partido e, também, pela forma como planeou, durante dois anos, o combate eleitoral entre a sua “criação” e José Sócrates, nas legislativas de 2011. Temos pois, como resultado imediato, um governo que se vê privado do seu alicerce político, reduzindo um espaço que fica apenas preenchido pelo líder do elo mais fraco da coligação, o CDS/Paulo Portas (com toda a instabilidade que isso possa gerar), deixando ainda Passos Coelho sem o seu braço-direito, a sua muleta, o seu mentor. Por outro lado, o actual governo fica refém da vertente técnica (tecnocrata) da sua gestão, e logo nas mãos de um independente: Vítor Gaspar. Mas o mais curioso é que o segundo aspecto traz-nos a verdadeira surpresa da decisão. É que Miguel Relvas não se demite por erros de governação, por razões políticas ou até mesmo por questões criminais (embora o motivo não tenha sido, nem por ele, nem pelo governo, verdadeiramente clarificado: apenas uma insustentável referência à “falta de condições anímicas”). Não está em causa o grave atentado ao direito da personalidade cometido contra a ex-jornalista do Público, Maria José Oliveira; não está em causa o caso do cancelamento e censura do programa da Antena 1, “Este Tempo” do jornalista Pedro Rosa Mendes, aquando da realização do Prós & Contras em directo de Angola; não está em causa o processo das escutas e do SIED envolvendo Silva Carvalho; não está em causa o deplorável processo de privatização da RTP; não está em causa um suspeito envolvimento no processo de saneamento do ex-director de informação da RTP, Nuno Santos; não está em causa toda a polémica e ataque ao Poder Local com a reforma administrativa territorial autárquica (agregação das freguesias); não está em causa a não clarificação da lei que limita os mandatos autárquicos e todas as trapalhadas que daí têm resultado; não está em causa a nova lei das autarquias e das comunidades intermunicipais; não está em causa, sequer, o facto do ex-ministro não saber cantar a “Grândola”. Apesar de não explicado, é implícito que Miguel Relvas “cai” da cadeira do poder porque corre o risco de deixar de ser “dr.”, no seguimento da polémica com a sua suposta licenciatura (curiosamente, um conjunto de factos ocorridos ainda antes de ser ministro e que lhe imputam responsabilidade ética ao próprio, mas eventuais consequências criminais à Universidade Lusófona). Miguel Relvas sai do governo porque um “não-assunto”, como à data denominou Passos Coelho, passou a ser “assunto de Estado”. Miguel Relvas sai do Governo com um impacto político por razões não políticas e que nada têm a ver com os apontados (e resumidos) casos de má governação. Miguel Relvas sai do governo porque o país (ou grande parte da sua sociedade) ainda vive embrenhado num medieval, fedorento e balofo complexo de superioridade de posição social sustentada num canudo académico (muito longe da “descomplexidade social” de várias sociedades europeias, como são exemplo a Sra. Merkel ou o Sr. Hollande). Infelizmente, Miguel Relvas não sai do governo porque “animicamente” nunca deveria ter entrado ou pelos seus inúmeros e graves erros de estratégia e governação política.

Por isso, não posso deixar de sublinhar (e subscrever) o excelente e soberbo parágrafo com que a Fernanda Câncio termina a sua crónica de sexta-feira, no Diário de Notícias: “Sai como entrou e esteve: sem dimensão nem sentido de Estado, respirando impunidade e descaramento. (…). Antes não saísse de todo: era mais honesto”. O Governo perdeu o tino…

publicado por mparaujo às 12:23

05
Mar 13

 

Uma das maiores e principais (e piores) consequências das medidas que têm sido implementadas para a recuperação financeira e económica do país, fruto do memorando de entendimento de ajuda externa (BCE - UE - FMI) e também como resultado da concepção política do Governo, é, acima de qualquer outra circunstância, o elevado valor da taxa de desemprego. Taxa esta que, não expressando a realidade (apenas valores contabilizados nos centros de emprego), ronda já os 17,6%.

Esta preocupante realidade comporta em si outras consequências: deterioração social, insegurança, instabilidade familiar, quebra no consumo e consequentemente rotura da economia interna, aumento dos encargos com as prestações sociais do estado, diminuição das contribuições fiscais do trabalhador e das entidades empregadoras.

Mas acima de tudo a pior consequência da falta de emprego é a sensação que gera no desempregado de uma grande frustração, de incapacidade, de inutilidade, de desespero, de exclusão social. Ao ponto dos resultados poderem ser vários, já que a escassez de oferta é, mês após mês, cada vez maior, face ao número de empresas que encerram portas: surgem as depressões, os suicídios, o desespero.

E é este "desespero" que leva, em muitos casos, a actos irreflectidos, impensáveis em condições normais, e que a Fernanda Câncio retrata num extenso mas irrepreensível trabalho de investigação publicado na edição de ontem (4 de março) do Diário de Notícias, sob o título: "O incrível e maravilhoso mercado do desemprego".

A ler, a reler... e a não perder.

Vale mesmo a pena. Porque o jornalismo (e nomeadamente o de investigação) não tem apenas como "missão" informar, noticiar. Também deve "formar", quer pelo conhecimento, quer pelo sentido crítico.

Clicar na imagem para aceder à digitalização do texto.

(actualização)
O trabalho de investigação da Fernanda Câncio e publicado no DN do dia 4 de março também pode ser lido na versão online do Dinheiro Vivo: "Empresas lucram com falsas ofertas de emprego para desempregados".
publicado por mparaujo às 21:13

03
Mar 13

A propósito das manifestações que decorreram em muitas cidades do país, umas com mais outras com menos gentes, umas com mais expressão que em Setembro de 2012, outras de igual forma ou, eventualmente, menos massa humana...

A propósito do anterior post: "Eu estive lá..."...

A Fernanda Câncio tem uma imagem textual soberba sobre a manifestação de " de Março, em Lisboa.

Para ler aqui... E depois do silêncio publicado na edição de hoje do Diário de Notícias.

(crédtio da foto: Paulo Spranger/Global Imagens)

publicado por mparaujo às 17:19

23
Fev 13

Artigo da Fernanda Câncio publicado na edição de ontem do Diário de Notícias: "Não ser Relvas".

E se dúvidas houvesse quanto às qualidades, capacidades e profissionalismo da Fernanda Câncio elas dissipam-se aqui.

Posso até nem concordar com tudo o que defende e escreve (mesmo que a discordância seja rara). Mas este texto está simplesmente... SOBERBO.
E a propósito do que sairá na edição de amanhã, 24 fevereiro, no Diário de Aveiro, sob o título: "Saber Ouvir..."

publicado por mparaujo às 16:37

20
Fev 13

Publicado na edição de hoje, 20 de fevereiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

A demagogia de Seguro em torno da Europa

O país vive uma realidade económica e social preocupante, com uma resposta política insuficiente por parte de um Governo (mais experimentalista do que ideologicamente social-democrata ou até mesmo liberal) que governa em função de um conjunto de previsões e face à fiabilidade, ou não, das mesmas. A economia não cresce (uma contracção, em 2012, de 3,2%, valor acima do expectável), as exportações diminuíram, as insolvências aumentam, o desemprego “contabilizado” situa-se nos 17%, são reduzidas (ou cortadas) as prestações sociais e deduções fiscais, é diminuído o valor do trabalho. Para além disso, por razões de cumprimento com as obrigações constantes no memorando de entendimento para a consolidação das contas públicas, o Governo está apostado em proceder a uma reformulação das funções do Estado, algo que tem estado a preocupar os cidadãos e diversos sectores da sociedade. Algo que deveria preocupar, igualmente, o maior partido da oposição, o PS, até pela experiência num passado muito recente de medidas de reforma do Estado, como, por exemplo, na educação e na saúde. Em vez de discursos abstractos e em nada consistentes, teria sido mais prestável ao país a participação do Partido Socialista na comissão parlamentar para a Reforma do Estado como contraditório e com apresentação de propostas concretas quanto ao futuro do país. Infelizmente, a opção política assemelhou-se à posição tomada, e depois arrependida, do Bloco de Esquerda em relação às reuniões com a Troika. Assim como não se compreende que António José Seguro, com tanto assunto, problema, dificuldade no país, resolva usar, como “estratégia de combate político” com o Governo, a Europa. Ao fazer da Europa a sua bandeira política actual, Seguro arrisca-se a fragilizar a sua confiança e imagem junto dos portugueses que, na sua maioria, desvalorizam a relação com a União Europeia, desde os tempos da nossa adesão, em 1986, à CEE e à zona Euro, em 1999. O líder socialista escreveu à tríade UE, BCE e FMI revelando a sua preocupação pelo estado do país e a solicitar que, nesta sétima avaliação prevista para muito em breve, a Troika se fizesse representar ao nível do poder político. Só que toda esta estratégia de se mostrar junto da Europa como o “salvador da pátria” não passa de demagogia e de um verdadeiro tiro no pé. Vejamos… Todas as decisões da comissão técnica da Troika têm, como é óbvio, a fundamentação política das suas instituições. Nada é feito ou proposto sem o aval político de quem governa a Europa, o Banco Central Europeu ou o Fundo Monetário Internacional. Depois, olhando para o que tem sido a governação do país, o que tem tido algum resultado é precisamente a relação de Portugal com as instâncias internacionais, com os mercados (lembremos o sucesso da última emissão da dívida pública), para além de que Portugal tem tido, a par das avaliações da Troika, reuniões políticas no seio da comunidade europeia. Além disso, os portugueses já há muito perceberam que o país não tem, por força da sua condição de “resgatado” e de membro europeu “fortemente subsidiado”, qualquer peso político na União Europeia, estando sempre dependente da vontade dos países contributivos, nomeadamente a Alemanha. Aliás, António José Seguro viu-se “obrigado” a resfriar o seu júbilo em relação a François Hollande quando, mal ‘virou costas’ após o primeiro encontro, o presidente francês foi co-responsável por posições e políticas europeias assumidas com Angela Merkel e que Seguro tanto critica. Aliás, políticas europeias que já no tempo da governação de José Sócrates condicionavam toda a nossa política interna (lembremos os sucessivos PEC e as reuniões entre o então Primeiro-ministro com a Chanceler e a União Europeia). E se muitos socialistas saíram do último Conselho Nacional, em Coimbra, acima de tudo, congratulados pelo “aparente” reconhecimento do passado da governação do PS, têm aqui a prova de que tudo não passou de “sol de pouca dura”. É que com esta posição do líder socialista em relação à Troika, quando o mesmo sempre reuniu com a missão internacional em cada avaliação, António José Seguro terá que ter a coerência e a coragem político para rasgar o compromisso assumido pelo PS. Algo que se dúvida.

Por fim, percebe-se, com esta oposição do líder do PS, a dificuldade que o partido tem em descolar nas sondagens, em convencer os portugueses, apesar do desgaste e das políticas de governação da coligação, já que não existe uma coerência e consistência discursiva e uma política alternativa concreta para o país. Daí que seja de extrema pertinência o título do artigo da jornalista sénior do Diário de Notícias, Fernanda Câncio, da edição da passada sexta-feira: “Portugal quando?”, bem como a sua conclusão “nem esta direcção [PS] se sente segura, nem é estranho que o País não o esteja de um partido com tal voz”.

publicado por mparaujo às 07:23

31
Jan 13

Já há muito tempo que não me lembro de olhar para as notícias do dia e assistir a tanto disparate. Se não fosse dia 31 de janeiro, diria que era Carnaval (se é que ainda existe). Mas reconheça-se que o dia de hoje foi pródigo.

1. RTP

Continuo defensor do serviço público de televisão, continuo defensor da RTP (mesmo que sujeita a redefinições), continuo perfeitamente solidário com os profissionais da RTP, com os conhecidos que tenho na RTP e com alguns Amigos que tenho na RTP. No entanto, até pelos (alguns) anos que estive ligado ao sindicalismo, mesmo que local, não basta o exercício do direito à indignação, à defesa dos interesses dos trabalhadores, à luta por determinados objectivos. Há que o fazer, essencialmente, com ponderação e com sentido de responsabilidade. Principalmente com o sentido de se ser parte da solução e nunca do problema. Daí que tenha muitas dúvidas que o caminho escolhido pela comissão de trabalhadores da RTP seja o mais correcto e eficaz.

2. Ver o "cisco" no olho dos outros.

Ou como se diz na gíria: "pimenta no rabinho dos outros é refresco". E tudo começa com esta afirmação de Carlos Zorrinho, líder parlamentar da bancada socialista: «Governo revela sinais de que está "esfrangalhado" e "esgotado".» A afirmação, por si só, até seria compreensível face ao que têm sido as várias trapalhadas deste Governo. Mas proferir tal afirmação em plena crise interna do PS que, afinal, ainda está muito longe de parecer resolvida (mesmo depois da noite quente de ontem, no Largo do Rato). E quando Carlos Zorrinho afirma que as negociações que ocorreram entre António José Seguro e António Costa não incidiram sobre cargos ou pessoas mas sim sobre ideias e propostas, mesmo que para o secretário-geral do PS não tenha havido um vencedor e um vencido, a verdade é que, pela pressão exercida por António Costa para a clarificação estratégica do partido só demonstra que, após o dia 10 de fevereiro, no PS vai haver mesmo um vencedor e um vencido, com uma futura escolha, nem que seja em congresso, de cargos e pessoas.

3. À terceira ainda não foi de vez.

Por causa de um Secretário de Estado (Paulo Júlio) 'pagam' mais seis. É desta forma que Passos Coelho, após ano e meio de governação, volta a remodelar o governo, pela terceira vez (média de uma remodelação a cada semestre). A questão não está apenas na remodelação em si mesma, até porque na sua origem está um acto aceitável e justificável de apresentação de demissão (diga-se, apesar de tudo, com alguma dignidade e ética política). A questão é a justificação e argumentação para mais uma mini-remodelação e apenas ao nível dos Secretários de Estado. Este parece ser o resultado óbvio e prático da opção de Passos Coelho pelos mega ministérios na estrutura governativa.

4. O 'dito' pelo 'não dito'

Muitas críticas surgiram, a vários níveis, pelo CDS no que respeita à candidatura, a outras autarquias, de presidentes de câmara que, por força legal (continuo a achar que a legislação nada tem de dúbio ou pouco claro), atingiram o máximo de mandatos permitidos e não se poderiam candidatar nos actuais municípios onde exercem as funções de Presidente de Câmara. As críticas atingiram o seu "expoente" máximo quando os centristas se insurgiram contra a candidatura de Luis Filipe Menezes à autarquia do Porto, afastando o seu apoio. Mas na política o que 'hoje é verdade amanhã é mentira' e o que é mais comum é a prática de "engolir sapos". E o CDS acaba por dar o dito pelo não dito, apenas por mero interesse partidário. Ao contrario do que aocntece em relação à "capital nortenha", o CDS decidiu apoir a candidatura de Fernando Seara (nas mesmíssimas condições que Menezes) à autarquia da capital portuguesa. Haja coerência... 

5. O regresso do "TV Rural" (e não é na RTP Memória)

A maioria parlamentar está disposta a apresentar, na Assembleia da República, uma proposta para fazer "renascer" o mítico programa do Eng. Sousa Veloso - "TV Rural", com o objectivo de promover o sector agrícola e das pescas. Nada mais hilariante...
O Governo tem mais do que inúmeros meios para promover o desenvolvimento da agricultura e das pescas no país (isto se ainda for possível recuperar o que quer que seja em dois sectores que Cavaco Silva arruinou completamente). Por outro lado, esta proposta é uma evidente e clara intromissão na gestão de conteúdos e de programas da RTP, a todos os níveis, incluindo os constitucionais, condenável. Aproveita-se a "embalagem" e sugere-se a inclusão do programa no "Canal Parlamento". Além disso, qualquer dia temos Pedro Passos Coelho, na televisão pública, a retomar o "Conversas em Família" (de Marcello Caetano), qui ça, aproveitando as mensagens do "cidadão Pedro" no faceboock.

6. De que vale contestar o óbvio?

E o óbvio é o desastre e o inqualificável relatório do FMI. Desde o primeiro momento que foi conhecido que são várias as vozes que denunciam as mais evidentes lacunas, os mais óbvios e graves erros, que o referido documento contém. Apesar do governo, mesmo que o relatório não seja a bíblia para Passos Coelho, afirmar, como o fez o Secretário de Estado, Carlos Moedas, que o documento era excelente e muito bom. Com base no mesmo, foi lançada, pelo Governo, a discussão em torno da temática da "Refundação do Estado" (aliás recordando o triste e polémico episódio da conferência "pública" para se ouvir a sociedade civil - alguma dela - sobre o assunto). Mas a questão ainda mais relevante (para além da qualidade do documento/relatório) é o uso da informação e das reformas anunciadas, supostamente, pelo FMI, com base em dados que não são fiáveis ou que são imprecisos, que servem de ponto de partida para a discussão sobre as funções do Estado. E torna-se incompreensível que haja quem, para além do Governo, sustente esta triste realidade.

Aliás, o que a jornalista Fernanda Câncio revelou, mais uma vez, na edição de hoje do Diário de Notícias com este interessante texto. (via Shyznogud)

7. A cereja em cima do bolo

O últimos são os primeiros e esta referência merece o destaque dos destaques. Já conhecíamos a expressão do "patrão" do BPI, Fernando Ulrich, "ai aguenta, aguenta". Na altura (e após esse momento) gerou acesa polémica por ser entendida como uma ofensa aos sacrifícios dos portugueses no seu contributo (quase exclusivo) no combate à crise que o país ainda atravessa. Mas Fernando Ulrich, pelos vistos, não ficou satisfeito com o "protagonismo metafórico" atingido. E voltou "à carga". Só que desta vez de forma mais ultrajante para todos os portugueses e para o próprio país. Ulrich justificou a expressão utilizada com uma ofensa à desgraça humana, ao infortúnio e, ainda pela segunda vez, aos sacrifícios dos portugueses, muitos deles alimentando o sucesso do lucro bancário que o BPI alcançou no final de 2012. E a justificação, pasme-se, foi dada: "Se os sem-abrigo aguentam porque é que nós não aguentamos?". Se isto não fosse demasiadamente grave e inqualificável, merecia a medalha da expressão humorística do ano. Era interessante ver Fernando Ulrich a passar um mês na qualidade de sem-abrigo numa das cidades deste país... sempre queria ver se ele "aguentava".

publicado por mparaujo às 20:09

17
Jan 13

Ainda a propósito da tal conferência pública/privada promovida pelo Governo e organizada pela advogada Sofia Galvão, "Pensar o futuro – um Estado para a sociedade" e no seguimento do que expus no post "Informar é diferente de fazer um discurso".

São diversas as opiniões/argumentos para justificar a concordância ou a discordância em relação à posição assumida por alguns jornalistas de abandonarem a conferência pelas razões que estão descritas no referido texto. Aliás, já referi ter posição diferente em relação à Fernanda Câncio (apenas nesse ponto), como também é diferente da posição assumida por Estrela Serrano, mesmo que a tenha tão elogiado (merecidamente) no início do post. E, de forma muito clara, com todo e o devido respeito e consideração, não tenho qualquer constrangimento em poder achar que a razão não me assiste.

O que não posso deixar de referenciar e manifestar o meu desacordo é com o texto de Henrique Monteiro no seu blogue do Expresso, com o título "A manada de jornalistas e a sociedade civil secreta".

Primeiro, parece-me totalmente inapropriado (pelo menos isso) que no título qualifique jornalistas como "manadas". Até porque nem se percebe a sua ligação com o conteúdo do texto.

Segundo, apesar da sua posição ser idêntica à da Fernanda Câncio e à de Estrela Serrano, a argumentação usada nos pontos 2 e 3 do seu post merece um comentário.

Diz Henrique Monteiro que "2) Os organizadores de qualquer conferência têm o direito de impor as regras de divulgação que entenderem. Incluindo a de não quererem jornalistas por perto. O dever de informar não pode ser extensível a qualquer ato da sociedade. Isso nem faz sentido".

Ora, em teoria é um facto. Mas no que respeita ao caso em apreço, a verdade é que os jornalistas foram "usados" para a publicitação de um evento público (e não privado ou restrito). A verdade é que a Comunicação Social foi convidada a estar presente para exercer a sua função: informar/noticiar. Não foram colocadas quaisquer restrições prévias ao exercicío das funções jornalísticas. Estas foram reveladas já no decurso do evento. O dever de informar é "devido" a actos para os quais os jornalistas são, livremente, convidados e em actos públicos que pretendem, inclusive, envolver a sociedade civil.

Mas a minha maior discordância refere-se ao ponto 3 do texto: "O dever dos jornalistas é informar os seus leitores, ouvintes e espetadores, mesmo em condições mais adversas. (...) Esta ideia de que os jornalistas não têm deveres para com os seus leitores está a matar o jornalismo, transformando-nos (a nós profissionais) numa espécie de 'vacas sagradas' que decidem em manada abandonar locais em sinais de protesto. (...) O compromisso principal de um jornalista, para lá de todos os direitos que possa ter, é com o seu público."

É um facto que não podia estar mais de acordo com o que escreve Henrique Monteiro mas pelas razões, completamente, opostas.

O dever do jornalista é informar e há que honrar o principal compromisso profissional que é para com o leitor. Mas foi mesmo isso que se passou com o abandono da conferência por parte de um grupo de jornalistas da Antena 1, Lusa, Público e TSF, foi o respeito pelo leitor (da mesma forma com aqueles que permaneceram). Porque o que ficou em causa foi precisamente o rigor, a verdade da informação, completamente condicionada ao que a organização pretendia que fosse divulgado: apenas os propósitos do evento (na abertura) e a opinião do Governo (no encerramento). Todas as restantes partes, tudo o que fosse dito como voz contrária às convicções do Governo, estava condicionado. Fazer disso notícia e informar o público dessa forma seria, isso sim, um atropelo à deontologia, aos estatutos, à lei, que garante ao cidadão o pleno exercício do direito a SER INFORMADO (com rigor, verdade e transparência).

E por todas as outras razões relacionadas com a função (direitos e deveres), continuo a entender que a posição assumida por aquele grupo (e não "manada") de jornalistas foi a mais correcta, independentemente de, lamentando, aceitar a decisão dos que resolveram permanecer.

publicado por mparaujo às 00:01

15
Jan 13

Na passada sexta-feira (11 de janeiro) Estrela Serrano tem um excelente texto publicado no blogue "Vai e Vem" sob o título "Eis em que se transformou a comunicação política em Portugal: informação relevante é conhecida através de fugas para os jornais". Neste texto, a docente, investigadora e ex-vogal da ERC, refere, de forma exemplar, dois recentes casos que retratam a forma como a Informação (Comunicação Social) é vista pela Presidência da República e pelo Governo: O documento do Presidente da República enviado ao Tribunal Constitucional e que justifica/fundamenta o seu pedido de fiscalização sucessiva do OE2013 e o pseudo-relatório do FMI que ninguém conhecia e que, um dia após a sua divulgação, acaba publicado no portal do Governo.

Hoje, ficámos a saber que o Governo solicitou à advogada, militante do PSD e ex-secretária de Estado, Sofia Galvão, a realização de um ciclo de conferências sobre o tema "Pensar o futuro – um Estado para a sociedade". Mas a reflexão sobre a "refundação do Estado" começou mal. Muito mal mesmo. Eu diria até de forma vergonhosa para a iniciativa, para o Governo, para a democracia e para a liberdade de informação.

Uma acção pública, largamente publicitada, que pretende envolver a sociedade civil sobre uma temática da maior importãncia e relevo para o país, à qual são chamados o jornalistas, só tem que ter um final: a sua divulgação, o exercício legitimo do direito de informar e do direito (dos cidadãos) a ser informado. Daí que seja de aplaudir (e de pé) a atitude dos profissionais da Antena 1, da Lusa, do Público e da TSF (embora só se conheça a posição oficial, comunicado, da Antena 1) que após terem sido informados pela organizadora do evento, Sofia Galvão, em pleno decurso do debate, da alteração das regras ("Não haverá registos de imagem e som. A permanência dos jornalistas na sala é permitida mas não haverá nada do que seja dito sem a expressa autorização dos citados", anunciou esta manhã Sofia Galvão na sua intervenção inicial. Só a abertura e encerramento da conferência – que serão feitas pelo primeiro-ministro, ao final da tarde de amanhã – serão totalmente abertas à comunicação social.) decidiram abandonar a conferência/debate.

Não se promove uma discussão pública para depois a manter fechada ou circunscrita a uma "sociedade civil" restringida a meia dúzia de iluminados. Não se envolve a sociedade civil para depois esconder da opinião pública tudo aquilo que não interessa (que não é favorável) ao governo. Não se chama a Comunicação Social para depois a silenciar ou a condicionar o seu legítimo direito ao normal e óbvio exercício da sua função que é, tão somente, informar (e não de mero assistente ou veículo de informação pré-selecionada como seria a cobertura apenas da abertura e encerramento/conclusões do evento). Tal como refere, de forma muito clara, a Fernanda Câncio em "a conferência onde aquilo que se diz não se escreve". Só não concordo com um ponto (um único, apenas) que a Fernanda Câncio refere: que os jornalistas deveriam ter ficado.

À parte de todas as questões e atropelos legais, por parte da organização (Sofia Galvão), à Constituição, à Lei da Imprensa, da Rádio e da Televisão, ao Estatuto dos Jornalistas ou ao seu código deontológico, e que me vou, aqui, escusar de nomear, o que eu acho é que TODOS os jornalistas deveriam ter saído. TODOS. Por uma questão de respeito, valorização e dignificação da profissão, do seu Código e do seu Estatuto. Mas TODOS (o que, infelizmente, tal como em muitas outras situações, raramente acontece. Ou por falta de solidariedade ou por falta de concertação. Ou porque...). E depois sim, com essa atitude colectiva, condenar publicamente o acto de censura e de limitação do direito de informar a que foram sujeitos.
E este inqualificável episódio faz-me lembrar outra realidade também comum e perante a qual os jornalistas têm sido muito displicentes: as conferências de imprensa sem direito a perguntas. Ir lá para quê? Gastar recursos (financeiros, técnicos e humanos) para quê? Bastava, e seria mais barato, célere e fácil, o envio de comunicados para as redacções.

A TODOS os que corajosa e dignamente tomaram esta posição, a minha total solidariedade, o meu respeito e o meu sincero aplauso.


Nota da direcção de informação da Antena1

"A Direcção de Informação da Antena1 não recebeu previamente, por parte da organização, qualquer informação sobre as condições de registo de declarações dos participantes na conferência Pensar o Futuro.
Não concordando com as regras impostas, uma vez que como o próprio nome indica se tratava de uma conferência, e por essas regras colocarem em causa o estatuto dos jornalistas e o princípio da liberdade de imprensa, a Antena1 decidiu não acompanhar o evento nos momentos em que não é permitida a divulgação do seu conteúdo."

publicado por mparaujo às 22:02

11
Jan 13

Esta semana não houve na agenda política tema mais quente e controverso que a divulgação, pelo Jornal de Negócios (na edição online de quarta-feira, 9 de janeiro) de um relatório, “supostamente”, produzido pelo FMI: “Rethinking the State – Selected expenditure reform options” (Repensar o Estado – escolha de opções de contenção de despesa”).

Apesar de alguns textos publicados na imprensa e alguns debates televisivos que fui vendo, com toda a franqueza, aguardava, com alguma expectativa, pelo texto de opinião da Fernanda Câncio (“No fundo do fundo”) na sua coluna semanal no Diário de Notícias, principalmente pelo que, ao longo destes dias, fui acompanhando, sublinhando com concordância, na discussão do assunto nas redes sociais.

O texto da Fernanda Câncio, condicionado pela óbvia limitação de espaço, termina a focar (desmontar) a questão da área da educação/ensino, sendo no início do artigo estejam referenciadas diversas grosseiras imprecisões do documento em causa. Mas há uma questão, que surge em torno deste relatório, que vai muito para além das supostas reformas/medidas, e que importa relevar e que tão bem a jornalista sénior do DN explorou durante esta semana: a questão política ou o seu embuste político (até porque, tecnicamente, os fundamentos do documento são muito fracos e imprecisos). E essa é também a minha visão fulcral deste suposto relatório.

Muitas vezes se questionou o tema dos 4 mil milhões de euros que deram origem à recente preocupação deste Governo na “refundação do Estado” (obviamente ideológica e que nada tem a ver com a social-democracia de um verdadeiro PSD): porquê, ou qual o origem, destes 4 mil milhões de euros?

Numa fase em que as políticas de austeridade implementadas pelo Governo, na resolução do descontrolo das contas públicas, se têm demonstrado, não só ineficazes, como catastróficas, politicamente, Pedro Passos Coelho e, nomeadamente o tríplice Gaspar – Relvas – Borges, sentem a necessidade de encontrar um suporte de legitimidade (um “sacudir a responsabilidade”) para fundamentarem a sua “refundação do Estado” e que encontram no peso político externo que tem a Troika (FMI, ao caso) face ao processo de resgate financeiro do país. E está aqui justificado o gasto dos 4 mil milhões de euros: o custo de um relatório.

Mas a verdade é que o Governo não estaria à espera que o documento fosse tão fácil e precipitadamente divulgado e não soube esconder, nem justificar, a sua mediocridade técnica (o que se estranha que uma instituição como o FMI se preste a um “servicinho” tão básico como este).

E as coisas são demasiadamente óbvias, que nem a trapalhada e inqualificável conferência de Imprensa do Secretário de Estado Carlos Moedas (que apelidou de muito bom o relatório, qui ça, muito do punho do próprio) conseguiu disfarçar.

São dados desactualizados, contraditórios (como refere a Fernanda Câncio, por exemplo, na educação – contradições entre dados/gráficos do PISA e o texto) e que são reflexo muito concreto de contextos e princípio nacionais que se duvidam que a Troika/FMI saiba o seu significado e realidade (tal como aconteceu com a questão da reforma da reorganização territorial autárquica, com o processo da agregação das freguesias) e de políticas que o Governo já implementou (caso das horas extras dos médicos no SNS, por exemplo) ou que já há algum tempo estão na discussão pública, como a redução do número de funcionários públicos e similares ou a sustentabilidade da segurança Social. Este documento é um fraco trabalho académico prático de uma cadeira de economia, gestão ou finanças públicas (nem sei que nota teria).

É que teria sido mais ético, moralmente aceitável mesmo que política e socialmente criticável, que o Governo tivesse tido a coragem de assumir que estas seriam as suas propostas (e algumas são aceitáveis, face à conjuntura) para um debate sobre as funções de um Estado Social de um país em crise ou em colapso financeiro (já para não dizer, ideologicamente o seu programa de governação eleitoralista, ao contrário das mentiras proferidas na campanha última) e para justificar os questionáveis 4 mil milhões de euros, ainda por explicar cabalmente.

Por último, ou o FMI é uma instituição de “bitaites” ou, de facto e de uma vez por todas, este Governo quer-nos fazer passar por estúpidos (com todas as letrinhas). O FMI já algum tempo que se penitenciou pelos erros do multiplicador, já há algum tempo que vem afirmando que só austeridade não é compatível com o crescimento económico, já há algum tempo que afirma (nomeadamente a Sra. Lagarde) que chega de austeridade na recuperação portuguesa, já há algum tempo que a UE avisa para o perigo de colapso social em Portugal, e ainda hoje é notícia que Portugal (sem quaisquer agravamentos ao programa de entendimento/resgate) vai beneficiar de um aumento de verba no valor de 3 mil milhões de euros (que grande subsídio de Natal para o Governo).

Faz algum sentido este relatório? Só na política deste (des)Governo.

publicado por mparaujo às 13:49

28
Dez 12

O “caso” Artur Batista da Silva, o dito “burlão” da ONU, marca a agenda deste final de ano, principalmente pelo impacto que teve na comunicação social e na opinião pública (com alguma estupefacção à mistura, até pelo recurso ficcionado à ONU).

No excelente artigo de Fernanda Câncio na edição de hoje (28.12.2012) do Diário de Notícias, sob o título “Artur e os outros burlões”, a jornalista sénior aborda o caso, de forma bem interessante, do ponto de vista político.

Sem qualquer veleidade ou presunção, correndo todos os riscos e mais alguns (mesmo o de burlão, que está na moda) acrescentaria uma nota final ao texto da Fernanda Câncio, do ponto de vista da comunicação social (seja a rádio, os jornais ou a televisão).

A verdade é que esta questão das fontes sempre foi, ainda o é e dificilmente deixará de ser um total e complexo risco. Por mais que se averigue, investigue, “vasculhe”, nunca se terá a total certeza, em muitos casos, da veracidade, da integridade e da credibilidade de uma fonte. E mais… por mais que a experiência, os livros, as regras, o código ou a deontologia, refira a importância da “certeza” de uma fonte jornalística, há factos e acontecimentos que encobrem e distorcem a realidade. Por isso é que há os “bons” burlões e aqueles que mais facilmente serão desmascarados. Com isto, não pretendo dizer que não houve por parte do Expresso e do seu director-adjunto Nicolau Santos alguma ânsia de dar voz a quem contrarie a política de austeridade deste governo. Mas isso, tal como refere e muito bem a Fernanda Câncio, é o que todo o debate político e a opinião pública têm feito desde as eleições de 2011. E não foi pelo que o cidadão Artur Batista Silva referiu no programa da SIC (expresso da meia-noite) que se descobriu toda a falsidade. Aliás, os que bradaram e se insurgiram a todos os níveis contra o semanário e o seu director-adjunto, foram os mesmos que, na altura, mesmo não concordando com o que o “burlão” dizia, de nada desconfiaram. Nem os que assistiram (e eventualmente aplaudiram) a sua palestra/debate recente no International Club de Portugal sobre a crise europeia. Depois de descoberto o “gato escondido com o rabo de fora” é fácil bramir argumentos e opiniões.

E os mesmos que se regozijam com o erro (mesmo que tenha sido a partir do mesmo que se descobriu toda a farsa) são aqueles que não têm qualquer pudor, nem qualquer veleidade, em dizer “Dr. Relvas”, em vez de “Sr. Relvas”.

Por fim, mesmo depois de publicamente, e de forma corajosa e profissional, Nicolau Santos ter assumido o erro (algo raro em muitas profissões), é incompreensível a forma como muitos se atiraram de “unhas e dentes” à imagem do jornalismo. Como se estes casos não fossem o risco de uma profissão, como se os mesmos não são, também, o dia-a-dia da economia/finanças, dos negócios, da ciência, da investigação, do ensino, da saúde (quantos casos são conhecidos de pseudo-médicos, com direito a vinheta e tudo, e sem habilitações para tal), na justiça, etc.

E o mais grave de tudo, infelizmente, foi a verificação da falta de solidariedade, cada vez mais visível, entre camaradas profissionais. Quem não tem telhados de vidro…

publicado por mparaujo às 15:43

08
Jun 12

A "ouver"...

Primeiro relembrar o comentário da Fernanda Câncio no 25ª hora da madrugada de quarta-feira - 6 de Junho. E a preparar complemento pessoal. Muito bem na primeira abordagem, apesar de eu achar que a questão dos resultados da sondagem, em relção ao PS, não está numa eventual "colagem" ao governo, mas sim na falta de propostas alternativas e de uma agenda própria e eficaz. Na segunda parte faltou alguma clareza face ao diálogo surgido com o João Maia Abreu.

 

(clicar na imagem para aceder ao vídeo)

 

A ler...
Segundo, a ler com muita atenção a conclusão da Estrela Serrano em relação à notícia do Correio da Manhã e replicada pelo jornal i (o que não deixa de ser curioso) sobre D. Januário, bispo das forças armadas... De facto, é interessante que só depois das declarações do representante da Irgeja junto dos militares, dirigidas ao primeiro-ministro, é que alguma imprensa se preocupa com os rendimentos monetários de D. Januário...
Cheira mal...
E isto não tem a ver com crenças... mas, concordando com a Estrela Serrano, tenho uma fé que isto é "bem" encomendado.
Aliás... as cinco questões (Quem? Diz o quê? Através de que canal? A quem? Com que efeito?) do modelo da teoria da comunicação preconizado por Lasswell parecem óbvias e fáceis de responder ou concretizar.

 

publicado por mparaujo às 22:00

24
Mai 12

No seguimento do post "Palavra contra Palavra" não podia estar mais de acordo com a visão sobre este processo por parte da jornalista/comentadora Fernanda Câncio, no programa 25ª hora na madrugada do dia 23 de maio, na TVI24.

 (clicar para aceder ao vídeo)

Interessante é verificar as recentes posições quer do jornal Público (agora com consenso nas posições, depois de notórias divergências iniciais - conselho de redacção - jornalista - editora de política e directores), quer por parte do Ministro-adjunto. É que ambos acusam o outro com as respectivas versões, mas nenhum avançou com qualquer processo judicial por crime (grave) penal: difamação ou devassa da vida privada. Muito esquisito...

 

Alguma "avalanche" de informação sobre o caso (em actualização)

Duas versões contraditórias: Palavra contra Palavra (fonte RTP)

Versão do Jornal Público

"Directora do PÚBLICO reitera na ERC que Relvas pressionou o jornal" (público)

"Público reafirma na ERC as pressões de Miguel Relvas" (rtp)

"Miguel Relvas garante que nunca pressionou jornalistas do Público para travar notícias sobre o caso das secretas" (rtp)

"Público: Diretora do jornal reitera pressão de Miguel Relvas" (tsf)

"Relvas «disse que ia revelar dados privados»" (tvi24)

"Directora do Público reitera pressão de Miguel Relvas" (i)

Versão do Ministro Relvas / Governo

"Relvas nega ameaças a jornalista e diz na ERC que se sentiu pressionado" (público)

"Público reafirma na ERC as pressões de Miguel Relvas" (rtp)

"Relvas nega ter exercido pressões sobre jornalistas" (rtp)

"Relvas sentiu-se pressionado por urgência de perguntas do Público" (tsf)

"Miguel Relvas nega ameaças ao «Público»" (tvi24)

"Não houve da minha parte qualquer pressão" (tvi24)

"Relvas: "Fui eu que me senti pressionado"" (negócios)

Posição da ERC

"ERC deve decidir em duas semanas, mas pode fazer mais perguntas por escrito" (público)

publicado por mparaujo às 23:56

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