Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

28
Mar 16

ataque paquistao - 27-03-2016.jpg

Faz todo o sentido "chorar" por Bruxelas, como fez sentido "chorar" por Paris, por Madrid, por Londres ou pelos Estados Unidos a 11 de Setembro de 2001.

O que me parece não fazer qualquer sentido é a hipocrisia dos fundamentos quando bradamos aos sete ventos pelos direitos humanos, contra o terrorismo, pela inclusão, pelo direito à diferença, contra os radicalismos e extremismos, e apelamos a uma solução humanitária para os refugiados... mas permanecemos totalmente indiferentes quando a mesma realidade ultrapassa os nosso limites geográficos, políticos, culturais e sociais.

Ontem, domingo (precisamente Domingo de Páscoa... a observação não é descabida), morreram pelo menos 70 pessoas (mais do dobro que em Bruxelas, na passada semana) e registaram-se mais de 300 feridos num ataque em Lahore, Paquistão, reivindicado por um grupo Talibã. Um indivíduo fez-se explodir em pleno parque onde, maioritariamente, crianças e mulheres (cristãs) celebravam a Páscoa.

Importa destacar até onde chega a hipocrisia humana...

1. Morreram cerca de 72 vítimas inocentes e mais de 300 ficaram feridas.

2. O Paquistão também é neste planeta Terra.

3. O atentado foi reivindicado por um grupo extremista e fundamentalista: talibã.

4. Os princípios do ataque são os mesmos: radicalismo ideológico e fanatismo religioso.

5. Após Bruxelas, o daesh já veio afirmar que os ataques efectuados na capital belga eram apenas "um aperitivo".
Também após reivindicarem o atentado de ontem, no Paquistão, o porta-voz do grupo terrorista Jamaat-ul-Ahrar (facção paquistanesa talibã "sediada" na região de Punjab) veio a público ameaçar a comunidade cristão no Paquistão com mais ataques.

6. Tal como na Guerra do Iraque, o regime de Sadam, deposto, não foi eliminado registando-se o ressurgimento dos sunitas às suas batalhas ideológicas e religiosas, também a Guerra no Afeganistão, eliminando mais tarde Osama Bin Ladden, não extingui o radicalismo ideológico e o fanatismo religioso do regime talibã.

7. Em todas as circunstâncias há a tentativa de apagamento de memória colectiva quanto às responsabilidades políticas, militares, económicas e sociais, da ONU, da Nato, dos Estados Unidos, da Europa e demais aliados.

 

publicado por mparaujo às 15:30

27
Mar 16

ng6283903.jpgpublicado na edição de hoje, 27 de março, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
“Je Suis… Brussels”

É um facto... é condenável e provoca um enorme sentimento de revolta e indignação o que se passou, esta semana, em Bruxelas, na capital belga e em pleno coração da União Europeia.

O terrorismo tem de ser combatido; a intolerância, a não aceitação do outro, a falta de liberdade e de democracia, têm de ser combatidos de forma voraz e eficaz. Não podemos viver com esta noção de medo, de insegurança, da desconfiança permanente por quem caminha ao nosso lado, com a crescente onda de exclusão e de radicalismos ou extremismos que surgem nestes momentos trágicos e que têm surgido em torno da questão dos refugiados (que normalmente é sempre "mal" colada a estes episódios). Nada disto tem a ver com a trágica crise humanitária dos refugiados… bem pelo contrário. Fogem da mesma tragédia que a Bélgica sentiu por minutos e que muitos, desde adultos a crianças, vivem há anos e permanentemente.

Mas também temos que ser coerentes e racionais nestas alturas. Indignamo-nos, revoltamo-nos, somos todos "Charlie" e "Je Suis...", rezamos por Paris, como rezámos por Madrid, Londres e agora também por Bruxelas ("Pray for Brussels"). Mas somos, ao mesmo tempo, hipócritas. Tocam-nos, legitimamente, os atentados em "nossa casa", no seio da “nossa” Europa, no coração das instituições europeias. Temos esse direito? Claro que temos... o direito e a obrigação "moral e solidária". E é verdade que está em causa a defesa do princípio da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade (pelo menos), a que se junta uma inacreditável irresponsabilidade política dos países europeus e da União Europeia quer na sua defesa, quer no combate ao terrorismo, quer na forma exploratória com que sempre lidou com países como a Síria, o norte e o centro de África ou o Médio Oriente, quer na forma como não consegue lidar com a tragédia humanitária dos refugiados. Acresce ainda a responsabilidade dos Estados Unidos e do que foi a crise no Iraque e a “histórica” cimeira das Lajes onde Bush impôs o ataque a Sadam com as repercussões que hoje sentimos com a revolta sunita.

Há hipocrisia e incoerência quando privilegiamos uma Europa e uma sociedade exclusivamente economicistas e financeiras, para depois virmos "chorar" pela Liberdade, pela Democracia, pelos Valores Sociais (a justiça social, a igualdade, a inclusão, etc.).

Mas é também sermos hipócritas e incoerentes quando bradamos aos céus e a todos os ventos por estes atentados, reclamamos a justiça pelas vítimas inocentes, mas, simultaneamente, desviamos o olhar, sentimos indiferença, apatia, Nigéria, Quénia, Mali, Tunísia, Costa do Marfim, Centro de África, Afeganistão, Iraque... e principalmente quando não conseguimos defender, nem proteger, a Síria ou negociamos imoralmente com a Turquia deixando-a a "ferro e fogo", sem vertermos uma única palavra ou lágrima de revolta.

Pedimos bandeiras para fotos de perfil, luzes que espelhem as cores da Bélgica na Torre Eiffel ou na Torre de Belém, mas importa questionar: onde esteve projectada a bandeira da Rússia quando abaterem o avião russo no deserto ou a bandeira da Turquia sempre que lá há um (constante) atentado ou a da Tunísia a lembrar o último atentado no resort em 2015 ou na Costa do Marfim também num resort, no início deste mês, etc., etc., etc.?

Pela coerência, pela verdade, pelo respeito por todos, Je Suis... Madrid, Londres, Charlie, Paris, Bruxelas, Turquia, Nigéria, Quénia, Síria, Costa do Marfim, Tunísia, Iraque, ... onde existam vítimas da intolerância, da falta de liberdade, dos radicalismos e extremismos (sejam eles políticos ou religiosos... ou ambas as coisas).

"Je Suis..." pela LIBERDADE, IGUALDADE, pela VIDA, pelos DIREITOS UNIVERSAIS.

Hoje, como "ontem" noutras circunstâncias, "Je Suis... Bruxels", sem hipocrisia. Mas também por uma Europa (e União Europeia) inclusiva, capaz de receber e acolher, sem xenofobias, capaz de incluir sem guetos, sem marginalização, dar liberdade com responsabilidade. Porque o problema deste terrorismo fanático e religioso tem contornos conhecidos e tem de ser combatido para além fronteiras, bem na sua génese, com a assunção de responsabilidade: da Europa, da ONU, da Arábia Saudita, do Médio Oriente, do próprio Islamismo, dos Estados Unidos. As vítimas inocentes merecem esse respeito, merecem essa honra.

publicado por mparaujo às 21:52

22
Mar 16

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É um facto... é condenável e provoca um enorme sentimento de revolta e indignação o que se passou hoje em Bruxelas, na capital belga e em pleno coração da União Europeia.

O terrorismo tem de ser combatido; a intolerância, a não aceitação do outro, a falta de liberdade e de democracia, têm de ser combatidos de forma voraz e eficaz. Não podemos começar a viver com esta noção de medo, de insegurança, da desconfiança permanente por quem caminha ao nosso lado, com a crescente onda de exclusão e de radicalismos ou extremismos que surgem nestes momentos trágicos e que têm surgido em torno da questão dos refugiados (que normalmente é sempre "mal" colada a estes episódios).

Mas também temos que ser coerentes e racionais nestas alturas. Indignamo-nos, revoltamo-nos, somos todos "Charlie" e "Je Suis...", rezamos por Paris, como rezámos por Madrid, Londres e agora também por Bruxelas ("Pray for Brussels"). Mas somos, ao mesmo tempo, hipócritas. Tocam-nos, legitimamente, os atentados em "nossa casa", no seio da Europa, no coração das instituições europeias. Temos esse direito? Claro que temos... o direito e a obrigação "moral e solidária". E é verdade que está em causa a defesa do princípio da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade (pelo menos), a que se junta uma inacreditável irresponsabilidade política dos países europeus e da União Europeia quer na sua defesa, quer no combate ao terrorismo, quer na forma exploratória com que sempre lidou com países como a Síria, o norte e o centro de África ou o Médio Oriente, quer na forma como não consegue lidar com a tragédia humanitária dos refugiados.

Há hipocrisia e incoerência quando privilegiamos uma Europa e uma sociedade exclusivamente economicistas e financeiras, para depois virmos "chorar" pela Liberdade, pela Democracia, pelos Valores Sociais (a justiça social, a igualdade, a inclusão, etc.).

Mas é também sermos hipócritas e incoerentes quando bradamos aos céus e a todos os ventos por estes atentados, reclamamos a justiça pelas vítimas inocentes, mas, simultaneamente, desviamos o olhar, sentimos indiferença, apatia, Nigéria, Quénia, Mali, Tunísia, Costa do Marfim, Centro de África, Afeganistão, Iraque... e principalmente quando não conseguimos defender, nem proteger, a Síria ou negociamos imoralmente com a Turquia deixando-a a "ferro e fogo", sem vertermos uma única palavra ou lágrima de revolta.

Pedimos bandeiras para fotos de perfil, luzes que espelhem as cores da Bélgica na Torre Eiffel ou na Torre de Belém, mas importa questionar: onde esteve projectada a bandeira da Rússia quando abaterem o avião russo no deserto ou a bandeira da Turquia sempre que lá há um (constante) atentado ou a da Tunísia a lembrar o último atentado no resort em 2015 ou na Costa do Marfim também num resort, no início deste mês, etc., etc., etc.?

Pela coerência, pela verdade, pelo respeito por todos, Je Suis... Madrid, Londres, Charlie, Paris, Bruxelas, Turquia, Nigéria, Quénia, Síria, Costa do Marfim, Tunísia, Iraque, ... onde hajam vítimas da intolerância, da falta de liberdade, dos radicalismos e extremismos (sejam eles políticos ou religiosos... ou ambas as coisas).

"Je Suis..." pela LIBERDADE, IGUALDADE, pela VIDA, pelos DIREITOS UNIVERSAIS.

Hoje, como "ontem" noutras circunstâncias, "Je Suis... Bruxels", sem hipocrisia.

publicado por mparaujo às 13:53

18
Nov 15

Neste momentos (e noutros) de reacção às tragédias há sempre a tendência para se questionar as opções de solidariedade de cada um, normalmente colocando em causa as convicções, as opções por uma determinada causa em detrimento de outra(s).

Não faço juízos de valor e muito menos considerações sobre quem opta pelo quê ou por que causa (muito menos me indigna quem cobre a foto de perfil - eu fi-lo - com a bandeira ou condenaria quem não o fez).

Compreendo perfeitamente que os atentados em Paris, pela sua barbárie, pela proximidade cultural, social e política, pelo sentido europeu, pela larga comunidade portuguesa aí residente, ou, simplesmente, porque sim, tenham um impacto junto dos portugueses mais forte do que outras realidades. Embora, importa lembrar o sentimento solidário de outras realidades como Timor, Haiti, as intempéries na região da Oceânia/Ásia ou a catástrofe nuclear no Japão, a título de exemplos.

Mas, do ponto de vista pessoal, conforme já demonstrado publicamente, importa não deixar esquecer o recente duplo atentado em Beirute (Líbano), nas vésperas dos acontecimentos na capital francesa, que provocou a morte de 40 cidadãos e cerca de 200 feridos.

E mais uma vez o regresso à Nigéria e mais uma chacina perpetrada pelo Boko Haram, matando 32 pessoas e ferindo cerca de 80. E aproveitar para relembrar as 17 mil vítimas nos últimos seis anos, sem esquecer, obviamente, o milhão de crianças raptadas e desaparecidas.

Sim... também pela Nigéria vale a pena "mudar".

Franca e Nigeria - EU.jpg

publicado por mparaujo às 16:28

#not in my name.jpgpublicado na edição de hoje, 18 de novembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Não vale a pena esconder… “cheira a medo”

O Presidente e o Primeiro-ministro franceses já o declararam, no seguimento dos acontecimentos da passada sexta-feira, em Paris: a França (e não só) está em guerra. Será difícil prever quando terminará ou de que maneira terminará esta guerra. Também não é difícil afirmarmos que ela já se desenrola desde as consequências acções no após “11 de Setembro”. E só a afirmação, a declaração de guerra em si mesma assusta, inquieta, insegura qualquer comunidade ou cidadão. Não tenhamos dúvidas… há medo no ar. Ou, para os mais afastados dos acontecimentos de Paris, há, pelo menos, alguma apreensão, algum desconforto, alguma inquietação. Não há, genericamente, é indiferença, seja pela solidariedade, seja pela crítica.

Por maior que seja o regresso à normalidade na capital francesa os próximos tempos serão de um desassossego latente, seja em França e na Europa, seja, por exemplo, nos Estados Unidos. A instabilidade política, social e militar na Síria e no Médio Oriente, em toda a região Árabe, agravada pelo reforço das intervenções militares na região síria controlada pelo autoproclamado Estado Islâmico (a mais recente pela França, na resposta imediata, e pela Inglaterra), deixa o resto do mundo, nomeadamente a Europa e os Estados Unidos, num permanente nervoso miudinho. A globalização do mundo, em todas as suas vertentes (social, económica, política, cultural, religiosa) já não se compadece com sentimentos de “orgulhosamente sós”. Isso já não existe. A Europa, os Estados Unidos e a NATO, têm responsabilidades acrescidas neste combate ao terrorismo extremista e radical, com pseudo-fundamentos religiosos mas que é mais de índole política, por todas as alterações geopolíticas ocorridas no pós Iraque, Afeganistão, Primavera Árabe e pelo abandono de grande parte de África. Têm responsabilidades, têm que assumir posições claras, tomar medidas conjuntas e eficazes, estratégias comuns, mesmo que envolvam países que, à partida, estão afastados do processo, como a Rússia ou a China. Este processo tem, necessariamente, de ser, à escala política e militar, também ele global e estrategicamente conciliado. Até porque o “tempo” destes islamitas radicais não é o mesmo “tempo”, não tem a mesma dimensão”, que o “tempo ocidental”. Se há algo que o estado islâmico tem é tempo e paciência.

Mas a responsabilidade não é só política e institucional (Estados, Organizações). Cabe a todos. Cabe aos cidadãos pela capacidade na demonstração de serenidade e coragem, pelo não embarque (infelizmente já sentido) em concepções xenófobas e comparações desmedidas. Por exemplo, no que toca aos refugiados. É que estes milhares que batem às portas da Europa, num total desespero e com a esperança de vida, são as primeiras vítimas do Estado Islâmico, é desta barbárie que fogem, mesmo com o risco de encontrarem a morte no Mediterrâneo. E importa separar as águas. Os radicais islamitas não precisam de se infiltrarem nos refugiados. Recrutam nos cidadãos europeus, recrutam na sua região, sempre espalharam e alimentaram as suas células sem precisarem do fluxo dos refugiados. E mais ainda… é importante desmistificar. A União Europeia tem, às suas portas, menos de um milhão de refugiados (28 Estados-membros, perto de 4,4 milhões de km2 de extensão e uma população de cerca de 508 milhões de habitantes). Só o Líbano (10,5 mil km2 de extensão e uma população de cerca de 4 milhões de habitantes) já recebeu cerca de milhão e meio de refugiados sírios.

Por último, a responsabilidade também cabe aos muçulmanos e aos islamistas. A resposta de demarcação dos atentados de Paris dada por muitos simples cidadãos muçulmanos é um passo, é uma resposta clara de crítica, de desejo de integração e, obviamente, de “sobrevivência social”. Mas falta mais. Falta aos próprios Imãs, aos responsáveis pelas comunidades (religiosas ou não), não só dizerem ‘Basta!’, mas criticarem e acusarem este extremismo que desvirtua o Islão, bem como, publicamente e dentro das comunidades, desconstruírem este radicalismo e desvio religioso. Para que o medo não vença.

publicado por mparaujo às 10:08

17
Nov 15

Rezar por Paris.jpgEnquanto preparava o texto para a edição de amanhã, 18 de novembro, do Diário de Aveiro: «Não vale a pena esconder… “cheira a medo”», saíam algumas linhas, como estas...

(...) Por maior que seja o regresso à normalidade na capital francesa os próximos tempos serão de um desassossego latente, seja em França e na Europa, seja, por exemplo, nos Estados Unidos.
(...) A Europa, os Estados Unidos e a NATO, têm responsabilidades acrescidas neste combate ao terrorismo extremista e radical, com pseudo-fundamentos religiosos mas que é mais de índole política, por todas as alterações geopolíticas ocorridas no pós Iraque, Afeganistão, Primavera Árabe e pelo abandono de grande parte de África.
(...) Mas a responsabilidade não é só política e institucional (Estados, Organizações). Cabe a todos. Cabe aos cidadãos pela capacidade na demonstração de serenidade e coragem, pelo não embarque (infelizmente já sentido) em concepções xenófobas e comparações desmedidas. Por exemplo, no que toca aos refugiados. É que estes milhares que batem às portas da Europa, num total desespero e com a esperança de vida, são as primeiras vítimas do Estado Islâmico, é desta barbárie que fogem, mesmo com o risco de encontrarem a morte no Mediterrâneo. E importa separar as águas.
(...) Por último, a responsabilidade também cabe aos muçulmanos e aos islamitas. A resposta de demarcação dos atentados de Paris dada por muitos simples cidadãos muçulmanos é um passo, é uma resposta clara de crítica, de desejo de integração e, obviamente, de “sobrevivência social”. Mas falta mais. Falta aos próprios Imãs, aos responsáveis pelas comunidades (religiosas ou não), não só dizerem ‘Basta!’, mas criticarem e acusarem este extremismo que desvirtua o Islão, bem como, publicamente e dentro das comunidades, desconstruírem este radicalismo e desvio religioso.

Ao mesmo tempo deparava-me com estas quatro referências informativas de inquestionável interesse e pertinência.

Primeiro, uma excelente reportagem da Fernanda Câncio, enviada especial do Diário de Notícias a Paris. Uma abordagem directa a alguns muçulmanos e às suas visões sobre os acontecimentos (muito bom mesmo o final da peça): "Estamos todos na merda, os muçulmanos".

Coincidência ou não, o "The Huffington Post" publicava um artigo sobre as mães dos jahidistas ("Mothers of ISIS") ao mesmo tempo que hoje, no Jornal da Uma, na RTP, deparava-me com um extracto de uma entrevista de António Esteves Martins (com Pedro Escoto) com a mãe de um jahidista português ("Jihadista português falou à mãe para saber notícias após os atentados").

Por último, o jornal Sol publica, com direito a tradução, uma carta aberta (publicada pelo autor nas redes sociais) do cidadão francês Antoine Leiris que perdeu a mulher (mãe de um bebé com 17 meses) nos ataques de sexta-feira passada ("Viúvo escreve carta emocionada aos terroristas que lhe mataram a mulher").

Leituras, entre outras, dos acontecimentos e dos seus reflexos.

(créditos da foto: EPA/Ian Langsdon)

publicado por mparaujo às 16:24

15
Nov 15

12234963_10207880615794185_5618338359793464142_n.jpublicado na edição de hoje, 15 de novembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
A propósito dos Refugiados

Na sexta-feira, a França, o mundo, Portugal, deitaram-se de luto, chocados, aterrorizados.

Sete atentados em Paris, cerca de 150 mortos, mais de 200 feridos e um objectivo claramente alcançado: sob a capa de uma adulterada consciência religiosa, os fins políticos do Estado Islâmico continuam a deixar um rasto de sangue, pânico, terror e sentimentos crescentes de xenofobia. Numa operação meticulosamente preparada, quer na forma, quer no tempo, quer nos alvos, o fundamentalismo islâmico alargou a sua tipologia de acção: para além de potenciais alvos militares ou de segurança, de alvos políticos, de alvos financeiro-económicos, dez meses depois do atentado contra a liberdade de expressão e de informação perpetrado contra o Charlie Hebdo, os fundamentais direitos, liberdades e garantias dos cidadãos são atingidos nas suas rotinas quotidianas, na vivência mais normal do seu dia-a-dia, como o desporto, a cultura, a socialização, uma simples ida a um restaurante. E tudo isto causa uma óbvia escala de terror e pânico nas pessoas e nas comunidades, para além dos reflexos na globalização da informação. Além disso, face à realidade trágica dos movimentos migratórios que a Europa assiste é lamentável, embora perceptível, o crescimento inqualificável do sentimento xenófobo que estas situações provocam, até pela clara ligação do Ocidente (nomeadamente a França) ao conflito na Síria e ao combate ao terrorismo islâmico (sim… um terrorista é um terrorista, seja europeu, americana, muçulmano ou ‘marciano’). Infelizmente, há quem aproveite estas acções para gerar o pânico em relação ao fluxo dos Refugiados para a Europa, mesmo sabendo-se que esta acção tem uma notória preparação no tempo.
E a propósito dos Refugiados…

A discussão já não é nova mas voltou a ter palco e luzes de ribalta, ecoando nas conversas de rua, café, trabalho e redes sociais. Para alguns (demasiados, por sinal) é inadmissível que Portugal (e porque não a sociedade) ajude Refugiados quando há tanta pobreza e tantos sem-abrigo no nosso país. Não é aceitável o tipo de comparação (entre carência e a morte/sobrevivência) e esta desculpa para a indiferença alicerçada na incapacidade da sociedade portuguesa e do nosso país em combater esse triste flagelo. Soa a claro xenofobismo. E embora este pensamento seja condenável em qualquer circunstância ou círculo, é ainda mais criticável quando muitas das contestações à ajuda aos Refugiados surgem na boca de tanto (pseudo) católico, daqueles de ver bater no peito dominicalmente; os que preferem as caridadezinhas à solidariedade. Tudo tomou proporções que necessariamente não devemos menosprezar, nem deixar indiferentes, com a anunciada chegada de Refugiados a Portugal. Não propriamente por Portugal ser país de acolhimento (embora muitos, infelizmente, até isso repudiem) mas pelo facto de estar assegurado aos Refugiados acesso assistência médica, escola e aprendizagem da língua portuguesa, entre outros. Primeiro há uma nota que importa destacar, por força de muita ignorância solidária: Portugal está a dar expressão prática a tratados e convenções (como por exemplo a de Genebra) internacionais aos quais está obrigado, por força da sua aceitação e subscrição, e que impõem o cumprimento de determinadas regras e acções para o acolhimento de Refugiados. Segundo, esta abjecta falta de solidariedade para com aqueles que, num mundo cada vez mais global e com menos fronteiras e limitações geográficas, sociais, culturais e políticas, é tão grave quanto tão facilmente esquecemos o que foi e é, ainda hoje, a nossa história de emigração. Infelizmente, só nos lembramos os que deixaram e deixam o país quando dá jeito para criticar governos. Terceiro, a ajuda, o apoio e o acolhimento de Refugiados não se sobrepõe à necessidade de acções sociais e políticas governativas que diminua a pobreza em Portugal. Aliás, muitas das instituições e entidades que, por exemplo, fazem parte da Plataforma de Apoio aos Refugiados - PAR, não deixaram de exercer a sua acção e responsabilidade sociais para com os portugueses carenciados. Por último, sem entrar em juízos de valor, a verdade é que muitas (muitas mesmo) das vozes que tanto se insurgem contra a ajuda aos Refugiados, argumentando e sustentando a sua crítica na falta de apoio aos portugueses (aos chamados "de cá"), são os mesmos que nunca saíram do sofá para ajudar ninguém, desviam a cara sempre que alguém precisa de ajuda sentado no meio de um passeio ou na rua ou nunca contribuíram em qualquer campanha ou acção de solidariedade. A actual dimensão da tragédia da maior crise de refugiados do pós-Guerra exige uma urgente e importante mudança de mentalidade e um olhar muito mais humano e solidário para o outro, mesmo que distante.

(créditos da foto/desenho: Daniel Catalão - RTP)

publicado por mparaujo às 10:49

28
Mai 15

A propósito do expressivo resultado do referendo realizado no passado fim-de-semana, na Irlanda, sobre a alteração à constituição irlandesa que permita (ou legitime) o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ainda há, infelizmente, com demasiado peso na cúpula e estrutura eclesiástica, quem, na Igreja Católica, teime em desvirtuar um dos princípios e fundamentos do cristianismo: um Cristo inclusivo, de todos e para todos, sem excepção… porque o “acreditar” é uma questão de opção pessoal e de vida, não é uma imposição ou normativo. Aliás, há quem seja capaz de citar cânones ou as escrituras, de cor e salteado, de trás para a frente, mas esqueça facilmente de coisas tão simples e fundamentais como dos primeiros conceitos que aprendemos (em casa e na catequese): “amar (respeitar) o próximo como a ti mesmo”.

Independentemente das posições “sim” ou “não”, pró e contra, a verdade é que o resultado surpreendeu. Surpreendeu pela expressão mais de 62% de “YES”. Surpreendeu pela imagem que a Irlanda sempre transportou de um dos países massivamente católico extremamente conservador. Surpreendeu porque não havia noção e percepção de que os inúmeros casos polémicos que envolviam a Igreja (pedofilia, abandono de recém-nascidos às portas das instituições religiosas, etc.) também (repita-se, também) poderão ter influenciado o resultado e poderão indiciar uma queda do conservadorismo católico irlandês. Nota complementar… não deixa de ser curiosa, ainda no ano passado, a posição do Arcebispo de Dublin ao afirmar publicamente que os católicos irlandeses deveriam assumir, em consciência, a sua opção de voto, sem constrangimentos.

Infelizmente, ainda há demasiadas barreiras e muros significativamente altos para transpor nesta Igreja que teima em não querer viver os dias de hoje.

Não foi preciso esperar muito para que os iluminados da Cúria viessem a terreno “excomungar” os resultados do referendo.

Foi desta forma que o secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, se referiu ao referendo realizado na semana passada, na Irlanda: “Não se pode falar apenas numa derrota dos princípios cristãos. É uma derrota para a Humanidade” (fonte: TSF). Felizmente, quem ganhou foi a humanidade, foram as legítimas opções de vida de cada um, foram os fundamentais princípios cristãos, aqueles princípios que estão muito para além da “igreja dos homens”; os que estão na essência da “igreja de Cristo”. Aliás, posição oposta e de um enorme sentido de responsabilidade teve, mais uma vez, o Arcebispo de Dublin ao afirmar: “a Igreja deve ter em conta esta realidade, mas para mim deve reforçar a nossa missão de evangelizar. A família tem de continuar a estar no centro de tudo, devemos defendê-la e promovê-la” (fonte: TSF).

Isto sim… deveria servir de exemplo e de reflexão para a Igreja, como o deveria ser muitos outros (maus) exemplos de actos, convicções e posições públicas: apesar do esforço e do combate iniciado pelo Papa Francisco, a forma inaceitável e condenável como a Igreja trata os (comprovados) casos de pedofilia e abusos sexuais; apesar do esforço e dos vários discursos do Papa Francisco sobre o papel das mulheres, há uns “iluminados” que continuam na era das cavernas, das trevas ou do medievalismo bacoco, como a afirmação pública. Desta feita, o bispo de Alcalá de Henares (província de Madrid, Espanha), Juan Antonio Reig Pla, que afirmava, em janeiro último: “é necessário retirar o direito ao voto às mulheres porque ultimamente pensam por si mesmas”. Ou ainda, “a igualdade entre homem e mulher não é uma luta de direitos mas sim de ideologia que tem levado a um processo de destruição da pessoa”, sem esquecer as críticas ao facto das mulheres reivindicarem igualdade de oportunidades na sociedade e no trabalho/profissão. O ditado dizia “de Espanha nem bom vento, nem bom casamento”. Eu acho o ditado errado. Não me preocupam os ventos, nem os casamentos (sejam eles quais forem). O que me preocupa é que “de Espanha… nem bons conselhos”, até porque fundamentalismos destes, do outro lado da fronteira, sabe-se bem qual a origem.

O Papa Francisco tem pautado o seu pontificado por uma Igreja mais próxima das pessoas, mais aberta, menos materialista, menos problemática e complexa. Aliás, exemplo disso foram, inclusive, as criticas a ele dirigidas pela sua flexibilidade de princípios aquando do último sínodo da família. O Papa Francisco tem, aqui, nesta área e neste universo, dois bons exemplos para confirmar junto dos católicos (e não só) o que tem sido a imagem da “sua “ (visão pessoal) Igreja.

publicado por mparaujo às 11:42

04
Abr 15

Há uma estranha relação entre a coerência crítica e os acontecimentos trágicos e condenáveis que, infelizmente, vão preenchendo o nosso dia-a-dia.

Somos, como "fui", Charlie...
Ficamos perplexos e revoltados com "onzes de setembro" (USA, Espanha, Inglaterra) ou atentados em maratonas nos Estados Unidos...
Bebemos páginas e páginas de texto, imagem atrás de imagem, notícia após notícia, quando um louco arrasta consigo centena e meia de inocentes, fazendo despenhar um avião em França...Etc., etc., etc. ...

O que é que há aqui de comum, para além da legitimidade da indignação face aos factos e acontecimentos? Em causa estão países que integram o chamado "mundo ocidental". Mesmo que assobiemos para o ar no que respeita a atentados contra as liberdades e garantias dos cidadãos ou no que respeita à pena de morte, vividos nesses países a "superioridade ocidental" é um argumento de peso na avaliação crítica dos acontecimentos.

Há dois dias um ataque dos fundamentalistas islâmicos a uma universidade no Quénia fez 147 vítimas mortais e provocou ferimentos em quase uma centena, por razões religiosas e contra o direito universal à educação. Sema mais nada... só porque sim.
Tivesse o caso ocorrido nos Estados Unidos ou na Europa e teríamos páginas e páginas de jornais, horas e horas de televisão, comentários após comentários de peritos em geopolítica, segurança, religião, e seriam escassos os espaços nas redes sociais.
Mas não... não foi num "ocidente qualquer". Foi nessa desterrada e deportada África (como é, em alguns casos, na ásia, américa do sul ou médio oriente) onde tudo e mais alguma coisa pode acontecer porque é o destino, por causa dos seus governos e governantes, porque ali nem o fim do mundo é... é o inferno.

E para além desta nossa incoerência e hipocrisia (preocupa-nos muitas vezes mais a caridadezinha para descargo de consciência) acresce, sem qualquer pudor, um claro sentimento racista.

Foi em África? pois... coitaditos, é a vida.

massacre na universidade do quenia.jpg

publicado por mparaujo às 12:03

18
Jan 15

publicado na edição de hoje, 18 de janeiro, do Diário de Aveiro

Debaixo dos Arcos
Limites há… mas escusa de ser ao murro.

Não é um “tropeção”, mesmo que com dificuldade em digerir e em concordar, que me farão recuar na opinião que até agora mantenho do Papa Francisco. A forma como tem lidado com a Cúria e o interior do Vaticano, a forma como tem colocado à discussão alguns tabus e temas polémicos para a Igreja conservadora, a forma como tem lidado com a realidade política e social actual (lembremos as posições sobre a economia, sobre a pobreza, sobre o emprego, ou ainda o seu recente discurso no Parlamento Europeu) à luz de uma clara Doutrina Social da Igreja; serão mais que suficientes para me fazerem ultrapassar as suas mais recentes posições e declarações sobre os últimos acontecimentos em França. Mas também não deixa de ser verdade que as afirmações do Papa Francisco não são tão inocentes como muitos querem fazer crer. Nem mesmo a afirmação que Francisco fez sobre o atentado ao Charlie Hebdo (“matar em nome de Deus é uma aberração"), reforçada pelo sublinhado “"não se pode ofender, fazer guerra e matar em nome da própria religião, ou seja, em nome de Deus”, disfarça o mal-estar que a sequência discursiva tida provocou. A mim, por exemplo, deixou alguma perplexidade. E são duas as expressões do Papa Francisco, e que espero que sejam mais “expressões” que “convicções”, com as quais não posso concordar, nem deixar de criticar. A primeira tem a ver com a afirmação de que a “liberdade de expressão tem limites”. Isso é mais que óbvio e há nas sociedades livres, democráticas, e nos Estados de Direito, mecanismos regulamentares e jurídicos que determinam as respectivas consequências. Mas o que não é aceitável é que seja o Papa (ou o islamismo) a definir esse limite ao determinar que “não podemos provocar, não podemos insultar a fé dos outros, não podemos ridicularizá-la”. Podemos, Francisco. É um direito que assiste a quem não acredita; a quem também se possa sentir ofendido nas suas convicções pelas posições da Igreja (ou de outra religião); a quem acha que, como ateu (por exemplo), existe uma excessiva ligação entre a Religião e o Estado; e, por último (que não em último) pela liberdade de convicções e de crenças (mesmo na ausência destas). A Igreja deve ser espaço para acolher (quem assim o quiser, livremente), não deve nunca impor-se, nem pode impor as suas regras. E tal como se pode criticar a política, nada deve impedir a crítica à religião. Podemos não concordar, recorrer a mecanismos de regulação e judiciais, mas não podemos silenciar e censurar.
A segunda tem a ver com o facto do Papa Francisco ter usado a expressão “se um amigo meu chamar nomes à minha mãe, leva um murro” para justificar a resposta à “ofensa”. Não vale a pena usarmos falsas demagogias ou retóricas, nem colhe a justificação de um momento “mais descontraído” do Papa com os jornalistas. Porque as palavras têm uma força e um impacto próprios, alheadas às responsabilidades de quem as profere. Um murro não é o mesmo que um acto mortal? Não, não é. Mas a violência não pode ser a resposta, nem a solução, tal como não o é a morte. Se alguém chamasse nomes à minha mãe eu “dava a outra face”? Não, não dava (só por estupidez, claro). Mas esse tipo de comportamentos são, quer do ponto de vista social, quer jurídico, reprováveis, condenáveis e criticáveis. Para mais vindo de alguém com a responsabilidade de difundir uma religião de paz e amor. O que seria das nossas sociedades e comunidades se cada um, em função das suas convicções, dos seus estados de alma, dos seus sentimentos de ofensa, desatasse a fazer justiça pelas próprias mãos, a impor as suas “regras”, certezas e crenças? Com estas afirmações o Papa Francisco justificou, pelo menos (já que condenou o acto em si), a acção/reacção dos extremistas e dos terroristas contra o jornal Charlie Hebdo, justificando todo e qualquer acção mortal ou acto de violência (lembremos o caso de Badawi condenado a 1000 chicotadas por criticar o islão) só porque alguém ofendeu alguém, ofendeu a sua religião, esquecendo que matar não é solução, silenciar a vida não é um direito de ninguém nem de nenhuma crença. Alguém devia ter lembrado Francisco que o que sempre esteve em causa, nos acontecimentos em França, para além da liberdade de imprensa, foi a intolerância, a não aceitação da diferença, da liberdade crítica, limitando estes direitos através da morte ou da violência. O “puseram-se a jeito” não determina a justificação e o fim. Dois milhões de pessoas perceberam isso no fim-de-semana passado, e muitas delas, como eu, nem gostam do jornal.

Nem tudo deve ser corrido ao murro e ao pontapé… nem à “bala”.

publicado por mparaujo às 16:28

17
Jan 15

Sou 'Charlie'...

Sou 'Raif Badawi'... (blogger e jornalista da Arábia Saudita condenado a 10 anos de prisão e 1000 chicotadas por criticar o islão)

E também SOU pelas crianças da Nigéria, vítimas às mãos do Boko Haram.

a favor das criancas massacradas na nigeria_cortad

E sublinho, em tudo, este excelente texto do Henrique Monteiro, no Expresso on-line de quarta-feira, 14 janeiro, "As meninas de Boko Haram", do qual destaco: «Nós somos todos Charlie – e bem – mas temos de ser todos aquelas 200 raparigas raptadas e usadas como bombas por uma organização que literalmente quer dizer “a educação não-islâmica é um pecado”, ou no seu nome em árabe, “Jama'atu Ahlis Sunna Lidda'awati wal-Jihad”, pessoas dedicadas aos ensinamentos do Profeta para propagação e jihad.» Ou ainda «Perante o horror não temos resposta. Porque nos recusamos ao “olho por olho, dente por dente” e porque na nossa civilização, que inclui cristãos, muçulmanos, judeus, agnósticos, ateus, budistas, hindus e quem mais quiser entrar – como na manifestação de Paris – não há penas nem leis que cheguem para tamanho mal.»

publicado por mparaujo às 22:41

14
Jan 15

publicado na edição de hoje, 14 de janeiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Ontem fomos ‘Charlie’. E hoje?

A resposta ao atentado da semana passada (precisamente há oito dias), em Paris, na redacção do jornal Charlie Hedbo, e que vitimou 12 pessoas, das quais oito eram jornalistas, foi, em França, na Europa e em muitos locais do mundo, massiva e pronta. A resposta através da mensagem e das afirmações públicas “Je suis Charlie” correu televisões, jornais, redes sociais, câmaras fotográficas por todo o mundo. A mediatização dos acontecimentos, a solidariedade e a condenação dos actos tomou, rapidamente, proporções, à partida, não imagináveis. O que foi tido, inicialmente, como um ataque à liberdade de informação rapidamente tomou contornos de um atentado à liberdade de expressão e ao próprio sistema democrático, para mais num país onde em 1789 surgiu a revolução pela Liberdade, Igualdade e Fraternidade. No entanto (viva a democracia e a liberdade de expressão) várias foram as vozes que se manifestaram indiferentes e críticas do movimento que se gerou. Alguns questionaram o porquê de só perante o atentado se erguerem vozes a favor da liberdade de informação e de expressão. Sendo um facto que existe, no dia-a-dia da comunicação social, constantes e relevantes atropelos à liberdade de informação, há, no entanto, uma desproporcionalidade dos factos e de contexto perante o assassínio bárbaro dos cartoonistas e jornalistas (sem esquecer, obviamente, as outras quatro vítimas). Nada justifica o silenciamento através da morte. Há em França, tal como cá e noutros pontos do globo, mecanismos próprios (judiciais/jurídicos, reguladores, o próprio direito à ‘contra-crítica’ pública) que permitem combater eventuais excessos à liberdade de expressão e de informação. Seguramente, a morte não é um deles. A crítica, a diferença de convicções e opiniões (e de crenças), a pluralidade, são pilares fundamentais do sistema democrático e de um Estado de Direito. Criticar é um dos fundamentos da liberdade; existem mecanismos próprios quem permitem a defesa de quem se sente ofendido. A morte não é um deles.

Uma parte dos que se manifestaram a favor da liberdade nunca ouviu falar do jornal Charlie Hedbo (nem da sua história); outros, como eu, nem eram adeptos das críticas e caricaturas que proliferaram, durante anos, naquelas páginas. Mas a defesa da liberdade exige transpor barreiras e divergências… exige união e convicção (naturalmente, mesmo com medos e receios). O radicalismo, o fundamentalismo, o extremismo, que produzem actos como estes não podem ficar impunes, nem vencer.

Mas os acontecimentos da semana passada levantam sérios desafios às comunidades, aos países, às instituições internacionais (como a UE), até porque, a par da ‘arma do fanatismo religioso’ há a inquestionável vertente política dos acontecimentos.

A defesa da liberdade e da tolerância, do multiculturalismo, não pode (nem deve) ser pontual e circunstancial. A liberdade e a tolerância, tantas vezes gritadas nestes últimos dias ou lidas na expressão “Je suis Charlie”), não podem cair no outro lado dos extremismos e radicalismos: a xenofobia, o racismo, a islamofobia, a incapacidade de acolher a diferença. Sendo certo que também não basta ao islamismo, ao dito moderado (caso seja correcto falarmos de vários ‘islamismos’), condenar, também e publicamente, os actos e os atentados, porque o facto é que as forças extremistas radicam no seu seio. A posição de ‘Pôncio Pilatos’ em nada favorece o combate a este tipo de terrorismo e em nada favorece a defesa da existência legítima do islamismo. Além disso, para muitos daqueles que se afirmaram como “Charlie” importa desafiar a sê-lo sempre, em qualquer circunstância, seja à sua “porta” ou mais “longe”, seja em que contexto for. Por exemplo, seria interessante constatar se muitos católicos “Je suis Charlie” também o são face às inúmeras caricaturas com que o jornal parisiense “brindou” o Vaticano e a Igreja Católica.

Por outro lado, o poder e as suas instituições (os Estados) devem evitar cair na tentação duma reacção desmedida que possa conduzir à limitação de liberdades, direitos e garantias, sob a capa da (necessária e urgente) Segurança.

Por fim, nós que fomos “Charlie” neste dias, temos o desafio de o ser ontem, hoje e sempre; quando a liberdade e a democracia estão em risco ou são silenciadas; quando se abate friamente alguém que pensa diferente e, por direito, nos critica; e também, quando se raptam e escravizam jovens e adolescentes em África; quando se mata e se desrespeita a dignidade através do abuso sexual na India; quando morrem milhares de pessoas num atentado bombista no Paquistão; quando jornalistas são executados e mortos no exercício das suas funções (só em 2014 foram mais de 40); quando são mortos, às mãos dos fundamentalistas, milhares de pessoas no Iraque; etc., etc.

Sim… “Je suis Charlie”. Ontem e hoje. Pela Liberdade e pelo direito à Vida.

 

publicado por mparaujo às 10:54

07
Jan 15

A propósito do texto anterior solidário com o massacre na redacção do jornal Charlie Hedbo, "A morte nunca há-de ser solução..." encontrei nas redes sociais três enormes expressões solidárias com o Charlie, entre um número interminável de textos, imagens, post's, comentários, ...

Importa, por isso, por imperativo de consciência e de condenação da barbárie de hoje, em Paris, partilhar e difundir.

No Twitter (via Alexandra Tavares-Teles)

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No Facebbok (via Helder Robalo)

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E este SOBERBO texto do Expresso, um dos primeiros jornais portugueses a assumir, editorialmente, a sua solidariedade para com o jornal francês: "Nós somos o Charlie Hebdo".

expresso charlie hedbo.jpg

E por fim, pese a escassez das escolhas (entre milhares possíveis), esta reacção da redacção do jornal belga LaLibre.

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publicado por mparaujo às 16:59

Por alguma razão a vida é o direito mais fundamental e inalienável.

A morte nunca foi, é ou há-de ser solução (Massacre na sede do semanário "Charlie Hebdo", em Paris)

O ultrapassar as barreiras que limitam a liberdade de expressão e opinião, se caso for, combate-se com os mecanismos judiciais existentes (e até são muitos, em muitos lugares do mundo - infelizmente não em todos). Radicalismos e extremismos, venham de onde vierem, não deverão nunca ser a solução, nem podem ser aceitáveis.

Pela minha condição de defensor da vida, das liberdades, da tolerância nas convicções e opções individuais, da culturalidade, no respeito pelas diferenças (mesmo sendo católico e apesar das inúmeras caricaturas à Igreja)...

SOLIDARIAMENTE (solidarité)

solidariedade semanario charlie.jpg

publicado por mparaujo às 14:22

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