Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

01
Jun 17

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a propósito da reflexão de ontem, "Falsos Moralismos"...
ou melhor... infelizmente, nem de propósito.

Ainda há poucos meses (finais de março), Donald Trump, perigosamente armado em salvador do mundo, depois de bombardear a base militar síria em Shayrat, decidiu autorizar a que as suas altas patentes militares lançassem, na província de Nangarhar no Afeganistão, a chamada "mãe de todas as bombas" (a maior bomba não nuclear com 11 toneladas de TNT e até agora nunca usada) isto quando a Rússia e o Afeganistão preparavam a sua cimeira bilateral (só por "coincidência", claro).

Na altura foram inúmeros os elogios dos americanos a esta decisão da Administração Trump, bem como do presidente dos Estados Unidos às suas elites militares, enquanto a Europa, mais concretamente, a União Europeia assobiava para o lado repartida entre a dualidade da relação euro-americana (tendo igualmente em conta que esta era ainda uma acção que tinha a Rússia como alvo político) e o receio e a insegurança que Donald Trump, manifestamente, trás ao mundo.

Na altura muitos ficaram admirados pela referência usada de "andar um perigo à solta na Casa Branca".

Agora, no seguimento da última e recente cimeira NATO, já é a própria Europa que questiona e duvida da estabilidade e dos benefícios da sua relação com os Estados Unidos da América (e da própria a Inglaterra).

A verdade é que volvidos cerca de dois meses após o ataque americano a Nangarhar, do qual a propaganda política mediática da Administração Norte Americana se rejubilava publicamente, continuamos a assistir a um aumento da escalada terrorista, à guerra, à violência e à morte de centenas e centenas de inocentes.

Ontem, em pleno Ramadão, a zona das embaixadas e representações diplomáticas internacionais em Cabul, capital do Afeganistão, na zona conhecida como Wazir Akbar Khan, foi devastada por um forte atentado muito perto da Embaixada da Alemanha.

A explosão de um camião-cisterna teve ainda impactos nas Embaixadas da França, Turquia, Japão, Bulgária, Paquistão, entre outras.

Ainda sem ter sido reivindicado, este atentado provocou, segundo os últimos balanços oficiais, 90 mortos e cerca de 400 feridos, sendo já considerado um dos piores atentados dos últimos anos no Afeganistão.

Mas claro que a culpa há-de ser, exclusivamente, dos outros, dos "verdadeiros maus"... enquanto o comércio internacional de armamento vai revigorando forças (com alguns países mais que "beneficiados", como a Arábia Saudita), enquanto o terrorismo não encontrar uma solução política internacional e servir para populismo e extremismos, e enquanto Europa, Estados Unidos, Rússia e China se alimentarem dos interesses geopolíticos e geoestratégicos. A isto acrescentando ainda uma África completamente desprezada e abandonada.

publicado por mparaujo às 12:18

31
Mai 17

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não publicado na edição de hoje, 31 de maio, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Os falsos moralismos

Decorreu, no final da passada semana, a Cimeira da NATO que reuniu os principais países na Bélgica.

Entre os vários acontecimentos destaca-se o discurso do Presidente dos Estados Unidos que, entre outros temas e outras críticas, aborda a questão dos refugiados. Só que, à “boa maneira” de Donald Trump, a questão, fruto da recente vivência trágica dos acontecimentos em Manchester – Inglaterra, é analisada pelo pior prisma e de forma intelectualmente desonesta.

Continua-se, quando dá jeito em termos de retórica política e para desviar as atenções sobre responsabilidades não assumidas e/ou escondidas, a misturar a tragédia humanitária que envolve esta crise dos refugiados com o problema do terrorismo.

Não há nenhuma prova da relação entre o ciclo migratório dos refugiados, nomeadamente os do Médio Oriente, e os actos de terrorismo que se fazem sentir, principalmente, na Europa nos últimos anos. Os atentados terroristas foram planeados, organizados e praticados por cidadãos europeus de plena condição, independentemente das suas origens. E alguns destes actos nem ligação ao Estado Islâmico têm, basta recordar, por exemplo, o massacre na Noruega (22 de julho de 2011) ou alguns dos acontecimentos recentes nos próprios Estados Unidos.

Focando-nos nas palavras xenófobas de Donald Trump, que afirmou, a determinada altura do seu discurso, que era urgente e essencial dureza para com os refugiados que, segundo o próprio, não se sabem quem são, nem de onde vêm.

A verdade é que este exercício de responsabilizar quem sofre directa e pessoalmente os impactos da guerra e da permanente violação dos direitos humanos, de responsabilizar quem tenta, num último e derradeiro acto de desespero (mesmo que a morte seja encontrada nas águas do Mediterrâneo) fugir à morte na guerra ou às mãos das atrocidades das forças do Estado Islâmico, é, no mínimo, um deplorável e inaceitável discurso de populismo e falso moralismo. Ninguém se refugia por vontade própria, por escolha de vida, por uma opção migratória. Os refugiados (não confundir com processos de emigração) são-no por uma questão de sobrevivência, por uma imposição conjuntural face aos conflitos que outros riam e exploram nas suas localidades, regiões ou países.

E nestes cabem muitos dos que hipocritamente se desresponsabilizam pelas posições e opções geopolíticas e geoestratégicas que tomam.

Que moral tem Donald Trump para actuar ou exigir dureza para com os refugiados se ainda hoje morrem em sucessivos atentados milhares de pessoas no Iraque ou no Afeganistão (supostamente salvo pela intervenção americana)?

Que legitimidade tem Donald Trump para se apresentar como exemplo internacional ou como salvador do mundo se ainda na semana passada “prestou vassalagem” a um dos maiores mercados de armamento, a um dos principais centros do conservadorismo e radicalismo islâmico e a um dos países que mais desigualdades e violações dos fundamentais direitos humanos, como é a ocidentalizada Arábia Saudita?

Que moral tem a União Europeia, a NATO, a Rússia, a China, o Canadá ou os Estados Unidos para responsabilizarem terceiros pela forma como se auto-desculpabilizam pela situação na Síria, no Íemen, no Iraque, no Afeganistão, no Congo, no Sudão, na Nigéria, na república Centro África, na Somália, na Faixa de Gaza, entre outros?

Que moral tem a União Europeia para aclamar uma solução para a tragédia humanitária dos refugiados perante o condenável negócio que fez com a Turquia para tentar estancar um problema que, internamente, não soube e não quis resolver?

A questão do Terrorismo tem de ultrapassar as barreiras dos interesses económicos (petróleo e mercado internacional de armamento), tem de ultrapassar os interesses geoestratégicos das potências internacionais como se a vida dos povos e das nações fosse um mero jogo de xadrez, tem de ser solucionada, acima de tudo, através da diplomacia e da política e não da “força”.

A dureza que Donald Trump referia no seu discurso tem que ser, em primeira instância, para o assumir das responsabilidades de todos, pelo consenso nas actuações internacionais e pelo respeito primeiro pela dignidade humana e pelos direitos humanos.

O resto é a continuação da perigosidade dos populismos, dos extremismos e dos falsos moralismos.

publicado por mparaujo às 09:40

07
Abr 17

My name is Trump ... "Dangerous Trump".

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O ataque na Síria com recurso a armas químicas é condenável e desumano. Aliás, como é condenável e desumano qualquer acto que coloque em causa a vida humana.

Mas a resposta dos Estados Unidos, de forma unilateral, à margem da ONU e fora de um apoio no seio do Conselho de Segurança não torna a realidade menos preocupante. Antes pelo contrário... torna o mundo mais perigoso com um Presidente da Casa Branca demasiado narcisista, precipitado, irreflectido e imprudente.

Tornar a "América novamente Grande" através da força e das armas em vez do esforço político, não torna o mundo mais seguro, nem os cidadãos mais tranquilos. Aliás esta forma intempestiva de Donald Trump gerir o destino interno dos Estados Unidos e as suas relações externas revelam-nos um Presidente na cadeira da maior potência mundial demasiado prepotente, irrealista e inconsequente.

E no caso concreto da Síria de nada vale aos Estados Unidos a justificação do seu bombardeamento com base no ataque com armas químicas, ao que tudo indica por parte do governo de Bashar al-Assad, como se apenas esse acto fosse inaceitável ou apenas tal circunstância signifique o ultrapassar das tão referidas linhas vermelhas. Qualquer uso desmedido da força, nomeadamente colocando em causa a vida de inocentes, é criticável e condenável. Mas importa não esquecer a responsabilidade que os Estados Unidos e a União Europeia (nomeadamente a França) tiveram e têm no decurso da história da Síria, no seu declínio e actual situação, seja directamente, seja por omissão ou abandono.

Hoje (ontem) foi a Síria... amanhã, a pretexto de tudo ou qualquer coisa, mesmo que infundado ou falso (como no Iraque nos tempos de Bush) será outro o alvo, com uma reacção isolada e unilateral dos Estados Unidos. Donald Trump é demasiado intempestivo e nervoso, com uma enorme ânsia em colocar "o dedo no botão", sem olhar a qualquer pressuposto diplomático ou político e muito menos às consequências.

O actual presidente dos Estados Unidos não olhará a meios, nem perderá uma oportunidade para usar a relação externa para impor uma imagem interna que não tem conseguido fazer sobreviver politicamente. A sede e a cadeira do poder toldam as opções e as tomadas de decisões; basta recordar qual era a posição em 2013 do improvável candidato e actual presidente, precisamente me relação à Síria.

Estamos mais inseguros... o mundo está mais perigoso. Vivemos num barril de pólvora com o rastilho "à mão de semear". Ontem ficou-nos a prova.

(créditos da foto: Ford Williams/Courtesy U.S. Navy, no DN online)

publicado por mparaujo às 15:51

04
Abr 17

Desde o fim-de-semana que a agenda pública vive em torno da agressão de um jogador do Clube Futebol Canelas 2010 ao árbitro do encontro dos distritais de futebol da Associação de Futebol do Porto frente ao Rio Tinto, logo após os primeiros dois minutos iniciais do encontro.

Indignação e revolta por quem tem o futebol como alvo de toda a indiferença e descrença... indignação e revolta por quem gosta de futebol. Mais ainda... o acontecimento de domingo passado correu mundo, muito por força do elevado mediatismo que o futebol usufrui, chegando a merecer nota de destaque na comunicação social em Inglaterra (Daily Mail e Metro), Itália (Gazzeta TV), França (Le Parizien), à vizinha Espanha (As, A Marca e El País) e do outro lado do atlântico (Brasil - O Globo e México - Telemundo e Cancha). Será mais que perceptível o tipo de "mimos" com que o acontecimento foi relatado.

E a vida vai correndo e rindo, nesta anestesia mediática.

Para trás, fica o desespero daqueles que no seu dia-a-dia, na inocência dos seu hábitos quotidianos, perdem a vida pela bomba de um tresloucado extremista ou radical, pela fúria da natureza ou pela insensatez do poder.

2 de abril
Cidade de Mocoa, Colômbia.Cheias provocam deslizamento de terras
279 mortos, dos quais 144 são menores, mais de 400 feridos; 220 desaparecidos.

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(crédito da foto: EPA/Colombia Army)

3 de abril
Metro S. Petersburgo - Rússia. Atentado bombista.
14 mortos, 49 feridos.

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 (crédito da foto: AP)

4 de abril
Síria. Zona de Khan Cheikhoun, na província de Idleb. Acção militar da responsabilidade das forças governamentais.
Bombardeamento com armas químicas.
58 mortos, dos quais 11 menores.

siria.JPG(crédito da foto: EPA)

E importa ainda recordar que desde o início do ano, apenas num trimestre, registaram-se 333 ataques terroristas em todo o mundo. Em média foram quase 4 atentados por dia que resultaram num total de 2.043 vítimas mortais (fonte: Esri Story Maps e a PeaceTech Lab).

publicado por mparaujo às 21:43

22
Mar 17

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publicado na edição de hoje, 22 de março, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O lado real dos conflitos

A história universal está repleta de conflitualidades entre os povos, pelas mais diversas e distintas razões. A verdade é que desde os primórdios tempos da descoberta do fogo, entre nomadismos e sedentarismos, o homem, as comunidades ou os povos, viveram sempre em permanente confronto político-ideológico, religioso e cultural, económico, estratégico e territorial. E apesar de estarmos em pleno século XXI, com tudo o que isso representa em relação ao desenvolvimento das sociedades, da ciência, das comunidades, o mundo está longe de deixar de sentir essa permanente conflitualidade, seja ela do ponto de vista económico (supremacia dos países ricos em relação aos subdesenvolvidos e mais pobres), social e cultural (conflito religioso, ocidente-oriente) ou geopolítico (relação de poder e de força estratégica internacionais). Se o 11 de Setembro de 2001 fazia regressar o mundo aos tempos medievais das cruzadas e das guerras ocidente-oriente, nomeadamente entre os séculos XI e XIII (e não vale a pena disfarçar a realidade porque as responsabilidades são, ou devem ser, repartidas) volvidos 16 anos a conflitualidade bélica, económica, social e cultural, e política tem sido a marca do mundo pós atentados em solo americano.

E se estamos mais sensíveis e despertos para o mediatismo da guerra e dos atentados que a celeridade da informação nos apresenta regularmente, a verdade é que há um outro lado desta realidade que se tem mantido, infelizmente, demasiado oculta. Os jogos do poder político e económico têm um contributo demasiado significativo para a degradação das condições de vida ou da defesa dos direitos humanos mais elementares e fundamentais, para além de exponenciar a conflitualidade bélica entre povos e comunidades.

Há tempos, o Professor Adriano Moreira, em entrevista ao Sapo24, tinha uma expressão feliz que reflecte o “estado de alma” do que é hoje a realidade internacional (relação entre Estados) ou o sentimento demasiado alargado de muitas pessoas e comunidades: «Temos de substituir o 'eu' pelo 'nós'». É esta a actual urgência na alteração de relação entre todos, cidadãos, comunidades, Estados, realidades política, culturais e económicas.

Enquanto essa alteração do paradigma das sociedades de hoje não acontecer continuaremos a ter as mais inaceitáveis notícias sobre refugiados, a maior hipocrisia entre a Europa e a Turquia nomeadamente com as mais recentes trocas de acusações e bloqueios querendo fazer esquecer o deplorável acordo EU-Turquia para os refugiados, o prolongar dos conflitos armados em África e no Médio Oriente.

Continuaremos a ter uma elevada taxa de portugueses que vivem abaixo do limiar da pobreza (mais de dois milhões de portugueses). Além disso, segundo o relatório Confederação Europeia de Sindicatos e do Instituto Sindical Europeu, divulgado este mês em Bruxelas, hoje os salários são mais baixos que há oito anos (2008).
Continuaremos a ter, sem qualquer solução à vista, um Mediterrâneo a servir de cemitério a cerca de 4500 cidadãos por ano, dos quais cerca de 700 são crianças.
Continuaremos a ter 2,1 milhões de moçambicanos em risco de fome.
Continuaremos a ter, apesar do cessar-fogo assinado em Agosto de 2015, um milhão de crianças a precisarem de ajuda na Ucrânia.
Continuaremos a ter uma catástrofe no Iémen que afecta cerca de 19 milhões de pessoas (segundo dados da ACNUR-ONU).
Continuaremos a ter na Somália, a morte, a cada dois dias, de cerca de 100 pessoas devido à fome, três milhões de pessoas em risco de fome devido à seca e mais de 7000 mil deslocados devido ao conflito.
Continuaremos a ter… porque a forma como proliferam e crescem os extremismos e os fundamentalismos, a desintegração das comunidades internacionais e os totalitarismos, só potenciam, tal como espelha o mais recente relatório da Amnistia Internacional, a “retórica tóxica” dos políticos que ameaça os direitos humanos mais elementares.

Esta é a realidade escondida da permanente conflitualidade nas comunidades e entre os Estados que importa não deixar esquecida.

(créditos da foto: Getty Imagens em exame.com)

publicado por mparaujo às 11:14

18
Dez 16

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publicado na edição de hoje, 18 de dezembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O Inferno na terra

Tomemos como marco o mundo tido da “era moderna” pós II Guerra Mundial que é referência no actual sistema geopolítico e geoestratégico mundial, seja ao nível político, económico, científico e social.

O mundo ainda não refeito do impacto na Europa do conflito com a Alemanha de Hitler procurava dar os primeiros passos na sua organização geopolítica, como a criação da NATO, das Nações Unidas, dos primórdios da Comunidade Europeia, do Bloco de Leste. No entanto, as feridas mal saradas do conflito na Europa, que se estenderia ainda ao Pacífico com o confronto entre o Japão e os Estados Unidos, não foram suficientes para, mesmo em plena “Guerra Fria”, tornar o mundo mais seguro e politicamente mais estável. A década de 60 ficava marcada pela guerra no Vietnam e nas Coreias durante cerca de oito anos; nos finais deste período (1968) a Operação Danúbio fazia entrar na então Checoslováquia as tropas soviéticas e os aliados do Pacto de Varsóvia que, desde a Primavera de Praga, ocupariam aquele território até 1991. Nos anos 70 e durante cerca de dez anos (1979-1989) o mundo assistia à invasão do Afeganistão por parte das tropas da URSS de Brezhnev que só terminaria com Gorbachev a ordenar a retirada das tropas no que é considerado por alguns como o princípio do colapso da União Soviética. A década de 90 ficava marcada por dois grandes conflitos armados e por um outro (mais de guerrilha) que tocou bem de perto muitos portugueses: o massacre de Santa Cruz (Dili - novembro de 1991) e a correspondente libertação de Timor-Leste do domínio da Indonésia. O início desta década (agosto de 1990) ficou marcado pela Guerra do Golfo e a invasão do Kuwait por parte do Iraque (agosto de 1990 a fevereiro de 1991 naquele que é um marco temporal no que é hoje a nova configuração de conflito e relações internacionais e, curiosamente, a forma como a comunicação social passou a ter um outro papel na informação de cenários de guerra. Bem perto do Natal de 1991, após a importância que teve a difusão das imagens do jornalista inglês Max Stahl do massacre de cerca de 400 timorenses, os olhares voltaram-se para Timor-Leste tendo sido possível, até ao final da década de 90, com alguma diplomacia portuguesa à mistura, libertar aquele povo do domínio da Indonésia e torná-lo na mais jovem nação. Entretanto, o mundo regista um dos maiores e mais duradoiros conflitos da história da humanidade que já vem desde o início do século XX: o conflito Israel-Palestiniano. Também pelo meio fica a sempre esquecida e abandonada África em constante conflitualidade interna após os períodos colonizadores de Portugal, Holanda, França e Inglaterra; a relação instável entre a Índia e o Paquistão; a posição instável da Turquia entre duas realidades culturais (ocidente e oriente); e, ainda, as convulsões dos países da América do Sul (Colômbia, Chile, Argentina, Nicarágua, como exemplos).

Eis-nos chegados à nova realidade geopolítica e geoestratégica internacionais: 11 de setembro de 2001 e a consequente invasão do Iraque de Saddam Hussein em março de 2003. O mundo ficaria, por mais vozes que o contradigam, muito mais inseguro, muito mais conflituoso, muito mais perigoso, muito menos humano, humanizado e humanitário, e o mesmo mundo passaria a viver uma nova realidade de conflitualidade: o terrorismo e o extremismo religioso-político. Até hoje, o mundo assistiu à guerra no Iraque, à intervenção no Afeganistão; ao ressurgimento dos focos extremistas em África; à explosão do sentimento de liberdade nas Primaveras Árabes; aos atentados no coração da Europa (Espanha, Inglaterra, França, Bélgica, Alemanha); ao crescimento das ideologias radicais e extremistas de movimentos e partidos políticos quer na Europa, quer nos Estados Unidos; à inigualável e histórica crise dos refugiados. E como toda esta história da humanidade em “apenas” 71 anos (desde o final da II Guerra Mundial em 1945 até hoje) o Mundo nada aprendeu, nada corrigiu, os povos e os seus líderes em nada mudaram continuando a sobrepor os interesses de uns (poucos) e de algo (economia, poder, recursos) acima das pessoas, das comunidades, das vontades e liberdades de cada cidadão.

Eis-nos chegados a Aleppo, na Síria, em finais deste ano de 2016. A distância de mais de cinco mil quilómetros, mesmo que os impactos sejam mais que visíveis no Mundo e na Europa, faz-nos olhar para os milhares de mortos, refugiados e desalojados, para milhares de cidadãos em permanente sobressalto e pavor, enfrentado diariamente a morte pelas armas ou pela fome e/ou doença, enfrentando a destruição das suas vidas, com uma generalizada indiferença e alheamento. A Europa e os Estados Unidos não podem continuar a desresponsabilizar-se (e a responsabilizar terceiros) por algo que lhes diz, directamente, respeito. O mundo (nós) não pode ficar indiferente perante um dos maiores massacres que a história conheceu.

Aleppo deveria-nos fazer pensar se o Natal, se este Natal, faz qualquer sentido. Um Natal que na Síria (e não só… em Mossul, em África, no Iraque e em muitos outros sítios) é sinónimo de Inferno… na terra.

(créditos da foto: Abdalrhman Ismail / Reuters)

publicado por mparaujo às 16:36

21
Nov 16

São já 27 os anos que separam o dia 20 de novembro de 1989 do dia celebrado ontem (20 de novembro de 2016).

São já 27 os anos que distam do dia em que as Nações Unidas adoptaram a Convenção dos Direitos das Crianças (20 de novembro de 1989).

Hoje (ontem) é dia de lembrar o que nos relata a UNICEF.

  • seis milhões de crianças continuam a morrer anualmente de causas evitáveis.
  • 50 milhões de crianças foram obrigadas a abandonar as suas casas, das quais 28 milhões estão deslocadas por conflitos ou pela guerra.
  • 250 milhões de crianças vivem em países afectados por conflitos. (Síria, Iraque e norte da Nigéria, a título de exemplo).

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  • 385 milhões de crianças vivem na pobreza extrema.
  • Mais de 250 milhões de crianças em idade escolar não estão a aprender.
  • Perto de 300 milhões de crianças vivem em zonas com os níveis tóxicos de poluição do ar mais elevados (seis vezes superior aos valores definidos internacionalmente).

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 Mas também Portugal não foge à tragédia dos números.

  • 2,8 milhões de portugueses encontram-se em risco de pobreza, sendo que destes mais de 640 mil serão crianças e jovens.
  • uma em cada quatro crianças portuguesas vive na pobreza.

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Para além de todos este dados, permanece-me na memória, bem viva, o pequeno sírio Aylan Kurdi numa praia turca e os milhares de crianças que morreram no mar Mediterrâneo.

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Isto sem esquecer os milhões de crianças em todo o mundo e dos milhares em Portugal vítimas de abusos, violência, tráfico e escravatura.

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publicado por mparaujo às 14:11

04
Set 16

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Fez esta sexta-feira passada um ano que o mundo olhava para esta foto com um misto de estupefacção, raiva, emoção, inquietude... de dor. Mas simultaneamente com muitas interrogações, críticas, o apontar de responsabilidades ao fundamentalismo religioso e político, ao estado islâmico, à Síria, à União Europeia, aos Estados Unidos.

Mas acima de tudo a imagem do pequeno Aylan Kurdi marcou de forma "explosiva" o momento, apesar de tantas e tantas mortes que o Mediterrâneo tinha já registado.

Infelizmente, a memória é curta ou as pessoas tendem a transformar rapidamente as lágrimas e a revolta em passado.

A verdade é que desde janeiro deste ano até ao passado mês de agosto foram resgatados às águas do Mediterrâneo mais de 270 mil refugiados, estimando-se que tenham perdido a vida cerca de 3165 pessoas das quais 205 são crianças e bebés.

E se o polémico e condenável acordo entre a União Europeia e a Turquia, transformando a vida humana num negócio e reduzindo a condição humana a um mero valor monetário, parece ter reduzido a afluência de refugiados às costas gregas e italianas, também é verdade que criou outro tipo de realidades: o aumento do tráfico humano e de órgãos humanos, das violações e da prostituição infantil, das condições de vida sub-humanas nos campos de refugiados; e, por outro lado, o aumento de refugiados de outros pólos de migração, nomeadamente do norte de África (Eritreia, Somália, Nigéria, Gâmbia, entre outros).

E preocupante é também a incapacidade da ONU, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, da Rússia, dos Estados Unidos, entre outros, e principalmente da União Europeia para encontrar uma solução eficaz, humanitária, política, para este incontrolado e grave flagelo das dias de hoje. Segundo a organização Save the Children "desde o ano de 2015 terão chegado à Europa mais de 1,2 milhões de refugiados – a maior vaga de migração forçada desde a Segunda Guerra Mundial" (fonte: revista Visão).

A tudo isto acresce a preocupante afirmação do Presidente do Conselho Europeu, Donal Trusk, que afirmou, na presente cimeira dos G20, que «capacidade da UE para acolher refugiados está "próxima dos limites"» (fonte: Diário de Notícias - edição online de 4 de setembro).

Como diz a canção... o mundo gira, mas parece ter deixado de avançar.

publicado por mparaujo às 22:58

15
Nov 15

12234963_10207880615794185_5618338359793464142_n.jpublicado na edição de hoje, 15 de novembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
A propósito dos Refugiados

Na sexta-feira, a França, o mundo, Portugal, deitaram-se de luto, chocados, aterrorizados.

Sete atentados em Paris, cerca de 150 mortos, mais de 200 feridos e um objectivo claramente alcançado: sob a capa de uma adulterada consciência religiosa, os fins políticos do Estado Islâmico continuam a deixar um rasto de sangue, pânico, terror e sentimentos crescentes de xenofobia. Numa operação meticulosamente preparada, quer na forma, quer no tempo, quer nos alvos, o fundamentalismo islâmico alargou a sua tipologia de acção: para além de potenciais alvos militares ou de segurança, de alvos políticos, de alvos financeiro-económicos, dez meses depois do atentado contra a liberdade de expressão e de informação perpetrado contra o Charlie Hebdo, os fundamentais direitos, liberdades e garantias dos cidadãos são atingidos nas suas rotinas quotidianas, na vivência mais normal do seu dia-a-dia, como o desporto, a cultura, a socialização, uma simples ida a um restaurante. E tudo isto causa uma óbvia escala de terror e pânico nas pessoas e nas comunidades, para além dos reflexos na globalização da informação. Além disso, face à realidade trágica dos movimentos migratórios que a Europa assiste é lamentável, embora perceptível, o crescimento inqualificável do sentimento xenófobo que estas situações provocam, até pela clara ligação do Ocidente (nomeadamente a França) ao conflito na Síria e ao combate ao terrorismo islâmico (sim… um terrorista é um terrorista, seja europeu, americana, muçulmano ou ‘marciano’). Infelizmente, há quem aproveite estas acções para gerar o pânico em relação ao fluxo dos Refugiados para a Europa, mesmo sabendo-se que esta acção tem uma notória preparação no tempo.
E a propósito dos Refugiados…

A discussão já não é nova mas voltou a ter palco e luzes de ribalta, ecoando nas conversas de rua, café, trabalho e redes sociais. Para alguns (demasiados, por sinal) é inadmissível que Portugal (e porque não a sociedade) ajude Refugiados quando há tanta pobreza e tantos sem-abrigo no nosso país. Não é aceitável o tipo de comparação (entre carência e a morte/sobrevivência) e esta desculpa para a indiferença alicerçada na incapacidade da sociedade portuguesa e do nosso país em combater esse triste flagelo. Soa a claro xenofobismo. E embora este pensamento seja condenável em qualquer circunstância ou círculo, é ainda mais criticável quando muitas das contestações à ajuda aos Refugiados surgem na boca de tanto (pseudo) católico, daqueles de ver bater no peito dominicalmente; os que preferem as caridadezinhas à solidariedade. Tudo tomou proporções que necessariamente não devemos menosprezar, nem deixar indiferentes, com a anunciada chegada de Refugiados a Portugal. Não propriamente por Portugal ser país de acolhimento (embora muitos, infelizmente, até isso repudiem) mas pelo facto de estar assegurado aos Refugiados acesso assistência médica, escola e aprendizagem da língua portuguesa, entre outros. Primeiro há uma nota que importa destacar, por força de muita ignorância solidária: Portugal está a dar expressão prática a tratados e convenções (como por exemplo a de Genebra) internacionais aos quais está obrigado, por força da sua aceitação e subscrição, e que impõem o cumprimento de determinadas regras e acções para o acolhimento de Refugiados. Segundo, esta abjecta falta de solidariedade para com aqueles que, num mundo cada vez mais global e com menos fronteiras e limitações geográficas, sociais, culturais e políticas, é tão grave quanto tão facilmente esquecemos o que foi e é, ainda hoje, a nossa história de emigração. Infelizmente, só nos lembramos os que deixaram e deixam o país quando dá jeito para criticar governos. Terceiro, a ajuda, o apoio e o acolhimento de Refugiados não se sobrepõe à necessidade de acções sociais e políticas governativas que diminua a pobreza em Portugal. Aliás, muitas das instituições e entidades que, por exemplo, fazem parte da Plataforma de Apoio aos Refugiados - PAR, não deixaram de exercer a sua acção e responsabilidade sociais para com os portugueses carenciados. Por último, sem entrar em juízos de valor, a verdade é que muitas (muitas mesmo) das vozes que tanto se insurgem contra a ajuda aos Refugiados, argumentando e sustentando a sua crítica na falta de apoio aos portugueses (aos chamados "de cá"), são os mesmos que nunca saíram do sofá para ajudar ninguém, desviam a cara sempre que alguém precisa de ajuda sentado no meio de um passeio ou na rua ou nunca contribuíram em qualquer campanha ou acção de solidariedade. A actual dimensão da tragédia da maior crise de refugiados do pós-Guerra exige uma urgente e importante mudança de mentalidade e um olhar muito mais humano e solidário para o outro, mesmo que distante.

(créditos da foto/desenho: Daniel Catalão - RTP)

publicado por mparaujo às 10:49

09
Set 14

Entre os dias 13 a 15 de outubro terá lugar na Cidade do Cabo, África do Sul, a XIV edição da Conferência Mundial de Prémios Nobel da Paz.

Ao ler África do Sul lembrei-me de Nelson Mandela, Frederik de Klerk e Desmond Tutu, todos eles Nobel da Paz.

Sendo que o evento pretende promover a reflexão sobre o mundo com aqueles que o Comité Nobel norueguês, anualmente, decidiu atribuir um dos cinco prémios instituídos pelo sueco Alfred Nobel, desde 1901, o prémio Nobel da Paz, faria todo e qualquer sentido que estivessem presentes os galardoados ainda vivos.

Mas não é bem assim… o próprio país anfitrião, com três prémios Nobel da Paz na sua história, decidiu dar um “ar da sua graça” e não autorizar a entrada no país de Dalai Lama (também ele Prémio Nobel em 1989) só por capricho chinês, recusando, pela terceira visto, o visto necessário.

É certo que ao percorrermos a lista dos premiados há um ou outro nome que nos levantam uma série de interrogações. Mas se em algo tão simples e tão óbvio, a atribuição de um simples e mero visto para um Nobel da Paz, as nações e os seus governantes reagem desta forma, como é que se pode esperar a Paz para a Ucrânia, Iraque e Faixa de Gaza (como exemplos)?

publicado por mparaujo às 17:08

17
Ago 14

publicado na edição de hoje, 17 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

E assim (também) vai o mundo

Nos dias de hoje não é possível a um país viver isoladamente. A expressão “orgulhosamente sós”, até há algumas décadas tão badalada em Portugal, hoje não tem qualquer cabimento, nem viabilidade. As várias organizações e instituições internacionais (para além da óbvia ONU) proporcionam e provem um conjunto de relações internacionais nos mais diversos níveis (comercial, político, militar, cultural) que fazem como que, hoje, haja cada vez menos fronteiras. Há, por isso, uma natural tendência para geopoliticamente nos posicionarmos em função de determinados interesses: economia, ideologia, cultura.

Os Estados Unidos alcançaram uma posição geopolítica e geoestratégica determinante no mundo resultante da sua participação/intervenção nas duas Grandes Guerras (nomeadamente a segunda). Primeiro a nível militar, depois política e economicamente. Se, hipoteticamente, houvesse uma invasão a Portugal, obviamente, o primeiro país que gostaria de ver entrar pelas fronteiras lusas seriam os Estados Unidos. Há ainda algumas razões do ponto de vista da democracia e da liberdade que me permitem criar uma afinidade com aquele país. Mas não há bela sem senão. Não posso é aceitar, aliás só posso criticar, que esta inquestionável característica e aptidão para potência mundial (ou “a” potência mundial) confira aos Estados Unidos o papel (que o não tem, nem pode ter) de “dono do mundo”. Mesmo após os acontecimentos de 11 de setembro de 2001. O que se esperaria vir a ser um aceitável combate ao terrorismo internacional tornou-se num ”cheque em branco” para a governação terrestre norte-americana mais pautada por interesses económico-políticos próprios do que pelo estabelecimento da paz ou dos valores da democracia. E a verdade é que o mundo tornou-se num permanente “barril de pólvora”. Deixando de lado a questão cronológica, importa lembrar acontecimentos recentes: Afeganistão, Sudão do Sul (20 mil mortos e um milhão de refugiados), República Centro Africana, Paquistão, Somália, Síria (100 mil mortos e 2 milhões de refugiados). Actualmente, o conflito na Faixa de Gaza (cerca de mil mortos), a Ucrânia (mais de 2 mil mortos) e o novo medir forças com a Rússia, de novo o Iraque com o conflito entre os curdos sírios e os ‘jihadistas’ islâmicos (cerca de 6 mil mortos e 1 milhão de refugiados apenas em três meses), e o Líbano (170 mil mortos). A verdade é que por onde os Estados Unidos têm potencializado, promovido, influenciado e espalhado o seu hardpower político-militar (já que “softpower político” é algo que os americanos parecem desconhecer) o ‘mundo’ não tem ficado nada seguro e muito menos melhor.

As intervenções meramente arbitrárias e condicionadas pelos interesses exclusivos dos norte-americanos, ou mesmo as da ONU/NATO ‘forçadas’ pela pressão dos Estados Unidos, não têm trazido melhores condições de vida a muitos países, maior liberdade e democracia, mais paz.

Numa semana em que lamentamos a morte do actor Robin Williams, dos portugueses Dóris Graça Dias (escritora e crítica literária) e Emídio Rangel (comunicação social), importa também lembrar os milhões de anónimos que morreram nos vários conflitos, muitos dos quais (se não a maioria) inocentemente.

E assim (também) vai o mundo…

publicado por mparaujo às 11:58

03
Ago 14

publicado na edição de hoje, 3 Agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Virado do avesso

A agenda mediática tem um duplo impacto. O primeiro tem a faculdade de focar a opinião pública num assunto/tema relevante no momento. O segundo tem o revés de desviar a atenção sobre outras realidades. Recordando o ditado: foca a árvore e esquece a floresta.

O recente caso do BES tem essa vertente mediática. Sendo certo que o assunto é de relevante importância nacional, pelos seus impactos na instituição, no sistema bancário, na economia nacional e, esperemos que não, nas contas públicas (caso se assista a mais uma intervenção estatal na banca). O que é verdade, no meio de um turbilhão de novidades diárias, é que o caso BES tem criado uma anestesia geral, ou generalizada, ao ponto de muitas outras realidades passarem definitivamente ao lado, ou para segundo plano, da opinião pública: Carlos Moedas indicado para Comissário Europeu; a recente decisão do Tribunal Constitucional sobre a nova taxa sobre as reformas; os valores da taxa de desemprego; o verão que teima em não aparecer; a “pipa de massa” que virá da Europa; as primárias socialistas. Mas há mais… um mundo virado do avesso, em constante conflitualidade, numa “cruzada” desmedida contra a dignidade humana e o valor fundamental da vida. Muitos refugiam-se na desculpa dos danos colaterais, mas o facto é que muitos perderam a vida ou ficaram com ela desfeita.

Enquanto a Rússia, Estados Unidos e União Europeia vão esgotando e esgotando-se na via diplomática (embora com muito pouca diplomacia), o conflito na Ucrânia, em pouco mais de quatro meses, tirou a vida a mais de 1100 pessoas e feriu quase 3500.

Na Faixa de Gaza regressa o fantasma da “guerra dos seis dias”, de 1967. Uma região em permanente conflito, com mais ou menos incidência mas em constante ebulição, sustenta uma contenda religiosa, política, geoestratégica, aparentemente sem fim à vista. E os actuais dias não são melhores. Não consigo tomar partido por uma das partes dada a complexidade da realidade e da história entre sionistas/judeus e palestinianos, mas há verdade que não posso esconder: os recentes ataques israelitas às escolas onde a ONU assegurava a segurança a milhares de palestinianos, entre as quais inúmeras crianças, não são danos colaterais. É algo que não é justificável, não é aceitável. Um acto mórbido, inqualificável e merece ser condenável e criticado.

Ainda na região, passados três anos após a revolta de 2011, regressaram a Tripoli, capital libanesa, novos confrontos entre milícias rivais que já provocaram, em duas semanas, mais de duas centenas de mortes.

Obviamente que estes são os casos mais relevantes, sem esquecermos o que se passa em África, no Afeganistão ou no Iraque. Mas se a morte é, por si só, o espelho mais gritante do principal ataque à dignidade humana - à vida - a violação dos mais elementares direitos humanos não se fica só pela morte.

Continuam sem solução os significativos casos de violação de mulheres na Índia. O flagelo da mutilação genital feminina, socialmente defendida em muitas culturas, nomeadamente em África, com nove casos registados/conhecidos em Portugal e que levou à aprovação na Assembleia da República de legislação a criminalizar esta realidade, ressurgiu recentemente numa denúncia da ONU que revelava que o grupo jihadista denominado “Estado Islâmico” ordenou num recente fatwa (decreto islâmico) que todas as mulheres e crianças, da cidade de Mossul - Iraque, entre os 11 e os 46 anos, se submetam à mutilação genital feminina.

Organizações Não Governamentais (ONGs), a UNICEF e a ONU voltam a chamar a atenção para o flagelo da fome e da sobrevivência na Somália e no Sudão do Sul, pela instabilidade social e pela enorme seca, recordando as cerca de 250 mil vítimas da fome há três anos. Neste momento, cerca de 350 mil pessoas estão no limiar da sobrevivência diária.

Cinicamente, Portugal teve recentemente uma dualidade de critérios e convicções nesta matéria. Vergonhosamente aceitou a adesão da Gunié Equatorial à CPLP, por valores meramente economicistas (petróleo), já que a língua portuguesa nem sequer é falada no país, esquecendo as atrocidades cometidas no país, as constantes violações dos direitos humanos e a aplicação da pena de morte. Mas a par disso, passando despercebida à maioria dos portugueses Portugal assinou a Convenção de Instambul que entrou em vigor na sexta-feira, 1 de agosto, e que pretende promover uma justiça mais eficaz na erradicação da violência contra as mulheres. Não só no plano físico mas também, e importante, no plano psicológico.

Fossem tudo boas notícias e o mundo estaria menos do avesso.

publicado por mparaujo às 11:21

25
Jul 14

Ora cá está... aquilo que eu sinto (e me sinto) em relação ao conflito Israel-Palestina (Faixa de Gaza).
Independentemente de criticar toda e qualquer guerra e condenar toda e qualquer violação dos direitos mais elementares do ser humano, como é o caso da vida, não consigo tomar partido, nem atribuir isenção ou culpabilidades neste conflito a qualquer uma das partes directamente envolvidas, sendo certo que é óbvio, por mais posições que a ONU tome, que há ainda partes terceiras envolvidas indirectamente (quer numa, quer noutra das partes).
E a jornalista Fernanda Câncio explica tão bem o porquê na parte final do seu artigo de hoje no DN: "A guerra dos 100 anos".

"Como sair disto? Não sei, não sabemos. Mas de uma coisa podemos ter a certeza: se nem a esta distância e no Facebook e no Twitter é possível falar disto sem andar à pancada e ao palavrão, não vejo como é que lá, entre morteiros, katiuskas, kefiahs, solidéus e todo o sangue derramado nestes 67 anos, podemos esperar ou exigir a serenidade e a razão necessárias para acabar com a mortandade."

publicado por mparaujo às 10:11

19
Jul 14

A queda do avião das linhas aéreas da Malásia, na zona ucraniana de Donetsk, é uma tragédia irreparável e injustificável.

A tese/prova de que o avião terá sido abatido é de uma barbárie inqualificável.

Ponto. Sobre isto não me parece que haja qualquer outra justificação ou argumentação. Nada justifica a morte, inocente ou não.

A par desta triste e condenável realidade, já alguém (nomeadamente o João de Sousa) levantou uma questão que julgo bastante pertinente: no cálculo das probabilidades, a razão de um avião comercial, com cerca de 290 pessoas a bordo, sobrevoar uma zona de conflito bélico eminente/real. É óbvio que a dúvida e a questão levantadas não trarão qualquer justificação a tal acto condenável e, muito menos, qualquer sopro de vida às inocentes vítimas. Mas não deixa de ser uma questão pertinente e interessante.

À qual, pessoalmente, acrescentaria uma outra. Para lá de qualquer condenação dos responsáveis por esta barbárie, é inquestionável que a queda do avião se deveu a um acto bélico (abate com míssil) numa das duas actuais zonas de maior conflito geopolítico, a par com o conflito Israel/Palestina (Faixa de Gaza): a Ucrânia.

Quando surgiu o conflito interno em que opõe nacionalistas ucranianos e separatista pró-russos, eram diárias e constantes as posições públicas pró-Ucrânia e as ameaças à Rússia por parte da União Europeia, com a clássica figura de Angela Merkel à cabeça.

Com o despoletar de novas acusações entre o governo da Ucrânia e os separatistas, com novos contactos bilaterias entre USA e Rússia (Obama e Putin), com o condenável e trágico acontecimento a agravar o conflito interno, a União Europeia simplesmente calou-se. Já não critica, não condena, não ameaça.

Ahhhh esperem... já passaram as eleições. Pois...

publicado por mparaujo às 17:24

18
Jul 14

E assim vai o Mundo, incluindo Portugal... em julho de 2014.

Um avião comercial das linhas aéreas da Malásia, com cerca de 298 pessoas a bordo é abatido na região ucraniana de Donetsk. Ao caso, "civis" que nada tinham a ver com o conflito interno na Ucrânia.

Israel há cerca de uma semana que mantém ofensiva bélica sobre a Faixa de Gaza numa nova "cruzada" contra o Hamas.

Por cá continuamos entretidos com a novela BES esperando pelo final para sabermos o que acontecerá ao par publicitário Dona Inércia e CR7.

publicado por mparaujo às 17:32

27
Jan 14

Em 2005 a Organização das Nações Unidas instituiu o dia 27 de janeiro como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

A data tem uma relação directa com um dos acontecimentos mais marcantes da história contemporânea (II Guerra Mundial), nomeadamente com a chegada do exército da então URSS ao mais mortífero e “emblemático” campo de concentração: Auschwitz-Birkenau.

Este foi o maior centro de destruição humana que marcou a história da II GG: cerca de 1,3 milhões de pessoas foram mortas nas câmaras de gás e, posteriormente, incineradas, ou simplesmente fuziladas. Foram homens, mulheres, crianças. O maior atentado contra a dignidade humana não respeitou judeus, polacos, ciganos ou prisioneiros de guerra e de opositores ao regime Nazi, entre outros; não respeitou raças, etnias, credos e religiões ou orientações sexuais.

Pela memória…

publicado por mparaujo às 11:18

11
Set 10
11 de Setembro de 2001.
A América e o Mundo acordavam num pesadelo com os atentados no WorldTraceCenter, no Pentágono e a queda do terceiro avião na Pensilvânia.
Tudo poderia ter ficado circunscrito ao pesadelo do povo americano que nunca pensou sofrer tal ataque, no seu próprio território. Mas não... o Mundo não foi o mesmo depois de 11 de Setembro de 2010 (seja qual for a posição de cada um).
Entre promessas de queima de livros sagrados, bandeiras rasgadas e queimadas, apedrejamentos, ataques suicidas, ..., o 11/09 foi e ainda é uma "guerra religiosa e política".
Foi e é uma "guerra" entre o Islão e o Cristianismo. Foi e é uma "guerra" política entre o Oriente e o Ocidente.

Hoje em dia, o 11/09 é também motivo de divisão nos Estados Unidos: entre os que defendem ou criticam a construção de uma mesquita no "Ground Zero".
O que, por si só, confirma o que referi: uma questão político-religiosa.

E o problema pós-11/09 já não é (só) a segurança, dominados e dominadores, democratização (??) de estados... o problema que agora persiste tem maior relevância: chama-se tolerância e direito à diferença.
publicado por mparaujo às 18:32

25
Nov 07
A morte é sempre estúpida.
A guerra não o é menos.
O direito à vida é inalienável.
A vida é o direito mais importante e fundamental do Homem.
Por outro lado, é discutível se a nossa presença no Afeganistão, no Iraque, Balcãs ou em qualquer outro ponto do mundo é importante, imprescindível, relevante ou compensatória.
Além disso, é argumentável questionar-se a obrigatoriedade ou o voluntariado da presença dos militares nas campanhas externas.
Menos justificável é a razão porque se morre por uma causa que não é a nossa.
Nada justifica a perda da vida humana.
Nem o dever de cumprir a missão…
publicado por mparaujo às 19:43

08
Jul 07
Ontem à noite (07.07.2007), em Lisboa (Estádio da Luz), foram anunciadas as novas 7 Maravilhas do Mundo, eleitas por cerca de 100 milhões de pessoas.
A primeira a ser anunciada foi a A Grande Muralha da China.
As outras seis maravilhas terretres são o Taj Mahal (Índia) - o Cristo Redentor (Brasil) - Petra (Jordânia) - a cidade inca Machu Picchu (Perú) - o Coliseu de Roma (Itália) e a pirâmide de Chichén Itzá, localizada na península de Yucatán (México).

Sem votação ou direito a gastos logísticos no valor de 12 milhões de euros, mas infelizmente com direito a mediatismo, mantêm-se as outras sete antigas: Iraque - Afeganistão - Libano - Somália - Dafur - A fome nos continentes Africano e Sul Americano (salvo as mínimas excepções) - o Terrorismo e a Ameaça Nuclear.

publicado por mparaujo às 12:14

29
Mar 07
Publicado no Diário de Aveiro, na edição de hoje 29.03.07

Post-its e Retratos
A Bela e o senão!


Ainda há guerra no Iraque, no Afeganistão, em África. A violência regressou a Timor. Os Balcãs tentam construir uma sociedade pluralista e democrática. Longe está de ser resolvido o conflito Israel-Palestina. Os direitos humanos, nomeadamente o das crianças e os referentes à exclusão social das mulheres, são diariamente desrespeitados por esse mundo fora. A geopolítica “joga-se” no Médio Oriente e no Islamismo, bem como no “fervilhar” Sul-Americano. A macro-economia mundial centra-se no continente asiático, nomeadamente na Índia, na Coreia do Sul, em Taiwan e no Japão.
Politicamente, o mundo vive uni-polarizado em torno da influência (para o bem e para o mal) norte-americana e a União Europeia ao comemorar os seus 50 anos de existência ainda não encontrou uma realidade e estruturação clara e objectiva, da qual a Constituição Europeia é apenas uma pequena expressão de um projecto que caminha mais para o abismo do que para a sua concretização. Ainda na Europa, Espanha não resolve a velha questão da autonomia basca, enquanto na Irlanda católicos e protestantes (mesmo sem apertos de mão) caminham para um hipotético entendimento.
Nós por cá… tudo bem!
A nossa realidade económica continua má; o desemprego aumenta; continuamos a “apitar” douradamente; a Casa Pia continua processualmente inerte; a corrupção não abranda; o governo continua sem oposição política capaz e até com algum abrandamento na contestação social; à segunda abortámos em referendo catolicamente derrotado; a selecção regressou ás vitórias e o ensino universitário, pós Moderna, voltou a agitar as águas. A violência doméstica aumenta e a pequena Esmeralda ainda não tem família definida. E é claro, muitos outros etc e tal. Por outro lado, vamos conseguindo manter de forma viva, aplicada, sôfrega, participada e extremamente interactiva (!) uma das nossas mais peculiares características da nossa identidade nacional: a mediocridade cultural.
Num recente e interessante estudo realizado pela Universidade Fernando Pessoa (“A expressividade do sorriso: Estudo de caso em jornais diários portugueses”), o seu Laboratório de Expressão Facial da Emoção analisou cerca de 50 mil fotografias publicadas nos jornais diários, entre Janeiro e Dezembro de 2006. Este estudo demonstrou que a expressão facial de emoções negativas é mais frequente e intensa do que a de emoções positivas. Ou seja, as pessoas estão a sorrir cada vez menos, realidade associada à tristeza, ao contexto social negativo, ao terrorismo e às catástrofes que assolaram o mundo. Mas poderíamos acrescentar uma outra conclusão a este estudo, de forma mais comum e empírica, fruto da experiência do nosso dia-a-dia: a carteira ao fim do mês. Isto é: rir de quê?
Mas se esta é uma realidade social, política e cultural existente e sem perspectivas de melhorias próximas, há que combater o fenómeno, pelo menos, com a disponibilidade dos meios de comunicação de massas (nomeadamente a televisão) de, através de alguns conteúdos, criarem a oferta da opção do rir aos portugueses. Nem que de forma pontual. Mas pelo menos terem essa oferta nos seus serviços.
Mas a questão impõe-se: a qualquer e todo o custo!? Sem a noção do serviço que é prestado, ter efeitos “colaterais” graves? Há custa da mediocridade e da estupidez humana?
Num país em que o ensino se encontra num estado caótico, em que o nível cultural é baixíssimo e onde ainda há muito para ser realizado ao nível da valorização dos recursos humanos, a televisão, no caso concreto a TVI, deveria ter o especial cuidado de, como meio de comunicação e informação, ser instrumento contributivo para o desenvolvimento intelectual da nação. Mas como bom hábito luso, temos tudo ao contrário. Sobre o pretexto da diversão, do entretenimento, do “fazer” rir, pela negativa, curiosamente, cíclica/repetitiva a TVI coloca no ar mais uma verdadeira pérola da aberração comunicacional: “A Bela e o Mestre”.
Nem sequer vou discutir a questão irrelevante do chamado estereótipo da mulher bela e “burra” porque a realidade incumbe-se de demonstrar o contrário ou a ineficácia de tal “teoria”. Nem tão pouco discutir questões de QI’s ou de inteligência masculina em ambientes pré-estruturados e delineados. E muito menos se o que nos é apresentado é real ou ficção ou se o programa dá azo e fundamentação a protestos de associações feministas.
Enquanto se discute a necessidade urgente de formação de quadros e de recursos humanos para o desenvolvimento nacional; enquanto se discute o ensino no nosso país com o conflito ministério da educação-docentes em efervescência; a sustentabilidade do ensino universitário; a completa ausência de uma política nacional de investigação científica; o sistemático e despropositado encerramento de muitas escolas; enquanto o plano tecnológico é apenas um souvenir finlandês, deparamo-nos diariamente com a subjectividade da beleza feminina, com a questionável intelectualidade masculina, mas, acima de tudo, com a verdadeira estupidez cultural. Divertir os portugueses à custa de uma triste realidade como é a falta de cultura, de conhecimento, de bom-senso de formação, é tão somente tornar este país, já em si caótico, numa verdadeira comédia.
E mais grave… com os portugueses a assistirem a tal realidade, com uma desconcertante naturalidade.
Sem se ouvirem vozes do professorado, do ministério da educação, de entidades responsáveis pela regulação do nosso processo informativo.
Assim, vamos vendo e rindo… porque Camões não existe; as regiões autónomas são Lisboa e Porto; ninguém conhece Fidel Castro; tivemos uma política Maria de Lurdes Piriquito e afinal as invasões francesas não aconteceram porque afinal Napoleão era o nosso Bocage. Reescreve-se a história na TVI de forma estupidamente natural.
Ao menos se as pernas tivessem neurónios!!!
publicado por mparaujo às 22:54

21
Set 06
Hoje celebra-se o Dia Mundial da Paz.

Mas qual Paz?!
E em que mundo?!
publicado por mparaujo às 13:09
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15
Set 06
A data que mudou o mundo deve merecer momentos importantes de reflexão. Mesmo aqui, neste “paraíso” aveirense.
O 11 de Setembro de 2001, é um acontecimento que dificilmente se poderá esquecer, muito menos apagar da memória de milhares de pessoas e da história contemporânea.
Mas sempre pelos piores fundamentos.
Passados 5 anos, o que mudou então?!
Ficou o mundo mais seguro?!
A resposta óbvia e coerente é não! Claro que não!
Os acontecimentos de Manhattan - New York, Washington e Pennsylvania naquele fatídico dia chocaram a América e o Mundo. E a esta distância temporal, no regresso ao passado, as imagens ainda chocam e transportam uma perplexidade difícil de explicar.
A poderosa e inatacável América tornou-se vulnerável.
O Mundo tornou-se mais frágil e inseguro. Tornou-se um palco de conflitualidade, de violência, de guerra e de morte.
No pós 11 de Setembro, já tivemos 200 mortos no Bali (Outubro de 2002), 190 mortos em Madrid (Março de 2004), 70 mortos em Londres (Julho de 2005) e 200 mortos em Bombaim (Julho de 2006).
É a expressão real da máxima: violência gera violência; conflito gera conflito. Da irreflexão do ataque ao Afeganistão, até à incompreensível e infundada invasão do Iraque.
Não queiram entender nestas palavras qualquer movimentação anti-americana. Por princípio ideológico não o poderia fazer.
Mas é um facto que até ao dia 11/9 e mesmo após essa data, nas acções de segurança interna de vários países, o mundo sempre soube “capturar” terroristas sem recorrer ao confronto bélico.
Daí que necessidade de invadir um país como o Afeganistão, para capturar Usama bin Laden, pela responsabilização dos atentados de 11/9 foi um acto irreflectido. Passados 5 anos, Bin Laden continua algures entre o Paquistão e o Afeganistão. Passados 5 anos o sul do Afeganistão volta a “cair” nas mãos dos talibãs.
E nesta data, é importante e relevante a captura do líder da Al-Qaeda?! Não é.
Mesmo após algumas figuras da rede terem sido atingidas, mesmo que há cerca de dois anos não se saiba nada do seu líder, a Al-Qaeda já ultrapassou a sua essência. Hoje mais que uma associação, a Al-Qaeda transformou-se num conjunto de células espalhadas por todo o mundo, baseadas no seu princípio.
E hoje a sua importância, mormente o renascimento do “talibanismo” no Afeganistão, começa a ser repensada. Tão ou mais importante é o papel da Síria, do Irão, do Hezbollah no Líbano e os xiitas na Arábia Saudita.
A Al-Qaeda não criou o Jihadismo. Ela baseia-se na Jihad islâmica. E este fundamentalismo é “universal” no mundo islâmico e muçulmano.
E esta é que é a verdadeira questão.
O mundo, após os ataques às Torres Gémeas e ao Pentágono(!), tornou-se mais vulnerável, mais inseguro pelo aumento do terrorismo assente num aumento do ódio entre o mundo ocidental e o mundo islâmico.
A totalmente questionável e irreflectida invasão do Iraque, sem a descoberta das armas químicas, sem a prova da ligação de Saddam Hussein a Bin Laden ou de Bagdad (Iraque) aos atentados de 11/9 (aliás, recentemente reconhecido pelo senado americano), tornou o terrorismo mais forte. Criou um maior antagonismo entre os dois mundos, tão distintos. Aumentou o ódio entre islâmicos e muçulmanos e ocidentais. Aumentou o receio, a desconfiança política, reflexo das sucessivas acções e “mentiras” desta administração do presidente Bush. Aumentou os atropelos ás liberdades fundamentais e aos estados de direito, como o comprovam os voos da CIA e as prisões secretas americanas espalhadas na Europa.
Reconheço o direito de quem é atacado em se defender. Ninguém ficaria indiferente se atacassem a Torre Eifel, a nossa Torre de Belém, etc. Não reconheço que a sua defesa se faça na base do “olho por olho, dente por dente”, no uso e justificação de quaisquer meios para atingir um fim. Ao fazê-lo as circunstâncias e os papéis são iguais. Tornamo-nos, obviamente, terroristas.
O mundo passou a ser “governado” por um submundo cheio de secretismo, de interesses obscuros, sem respeito pela dignidade humana, pelos direitos fundamentais.
A realidade é que, nestes últimos 5 anos, o ocidente ficou refém do terrorismo que “ajudou” a aumentar e a espalhar, mesmo para dentro das suas fronteiras e da declaração de “guerra santa” do mundo islâmico.
A realidade é que o ocidente está refém de uma economia que se baseia essencialmente, se não exclusivamente, no petróleo, riqueza e matéria-prima do mundo árabe.
Por estes princípios, é difícil o combate desta dualidade Ocidente-Islamismo através da via do diálogo, da tentativa de democratização e socialização do mundo árabe.
As consequências e as opções tomadas após o do dia 11 de Setembro e 2001, das quais se destacam as invasões ao Afeganistão e Iraque, o conflito recente Israel-Libano, o desenvolvimento nuclear no Irão, começam a tomar proporções maiores que os ataques daquele dia.
A intolerância, o ódio, os preconceitos, o desrespeito pela condição humana, aumentaram.
O mundo tornou-se mais dividido, com maiores divergências políticas ou económicas, principalmente mais relevantes naqueles que eram, até há 5 anos atrás, os maiores aliados (Europa e Europa-Estados Unidos).
Hoje, volvidos apenas 5 anos, no mundo há mais terrorismo, há mais guerra, mais violência e mais mortes.
Hoje, a Humanidade morreu.
O mundo precisa de voltar a mudar.
(publicado na edição de 16.09.2006 no Diário de Aveiro)
publicado por mparaujo às 10:40

12
Set 06
O José Alberto Mostardinha, tem nos Estados Gerais um post intiulado A Paz é Possível.
Obviamente, ninguém, por mais fundamentalista que seja, gosta da guerra, por todas as razões inerentes e que se queiram delinear.
Por razões culturais e sociais, logicamente que, em teoria, a Paz é possível.
Mas sejamos realistas.
O mundo não é uma tela cor de rosa.
O mundo não é um conto de fadas, um um filme holyodesco.
O mundo é feito de homens, de interesses, de convicções antagónicas, do bem e do mal.
O mundo é feito de realidades...
Nesta questão, sou extremamente, se quiserem mesmo, fundamentalmente céptico.
A paz não é possivel.
Os homens são impossíveis.
Não pensam da mesma maneira, não têm as mesmas convicções, as mesmas filosofias de vida.
O mundo não tem os mesmo interesses.
Por isso a Paz, não é, nem nunca foi possivel.
A história passada e a mais remota que a memória da humanidade tem como registo, prova-o desde o início do Mundo.
A história presente prova-o.
A ilusão desvirtualiza a factualidade existencial.
publicado por mparaujo às 02:21

11
Set 06
O Dia em que o terrorismo mudou o Mundo.




Sem mais pelo respeito às vítimas.
publicado por mparaujo às 10:45

19
Ago 06
As guerras e os atentados são, por si só, merecedoras de qualquer crítica, de repúdio, seja qual fo o seu fundamento.
Nada justifica a morte.
No entanto elas existem, infelizmente, por esse mundo fora.
Médio Oriente, Afeganistão, Àfrica Austral, Àsia e particularmente o conflito Israel-Libano e Iraque.
As guerras trazem sempre vitimas.
Infelizmente um maior número de desprotegidos: homens, mulheres e crianças vítimas de uma situação qualquer que não criaram e da qual não têm qualquer responsabilidade.
Civis anónimos que as estatísticas ignoram como seres humanos, representando-as como meros casos colaterais.
E há também aqueles que são verdadeiros mártires.
Porque são cumpridores de tarefas humanitárias, em favor dos outros e das causas justas, em detrimento, na maioria dos casos, das vidas particulares e familiares.
Hoje é um exemplo, infelizmente, vivo apenas nas nossa memórias.
Depois do extraordinário processo desenvolvido na ajuda da constituição do mais recente e novo país do mundo: Timor, acabaria por perder a vida a tentar contrapor o efeito bélico da guerra no Iraque, com o esforço da diplomacia.
Há 3 anos atrás, o mundo e a ONU perdia um GRANDE HOMEM de GRANDES CAUSAS.
Dr. Sérgio Vieira de Mello.
publicado por mparaujo às 21:04

29
Jul 06
Enquanto ouvia o noticiário das 13:00 sobre a crise no Médio Oriente, lia, Aqui no Diário de Notícias, Aqui no Público e Aqui no Correio da Manhã, a recusa ao pedido da ONU num cessar fogo por 72:00 horas, para permitir alguma ajuda humanitária aos desalojados, às populações e às vitimas desta guerra.
Como já, por diversas vezes, afirmei, qualquer guerra é totalmente desprovida de significado e fundamentação.
Violência gera violência.
A Guerra gera a morte e não a solução.
E se há alturas que o mero acaso toma dimensões de irracionais coincidências, hoje o dia é fértil.
Veio-me logo à memória, a letra de um excelente tema musical da Mafalda Veiga, baseado no cancioneiro Espanhol "Madre anoche en las trincheras".

Balada de un Soldado

Madre, anoche en las trincheras
Entre el fuego y la metralla
Vi un enemigo correr
La noche estaba cerada,
La apunté con mi fusil
Y al tiempo que disparaba
Una luz iluminó
El rostro que yo mataba
Clavó su mirada en mi
Con sus ojos ya vacios
Madre, sabes quien maté?
Aquél soldado enemigo
Era mi amigo José
Compañero de la escuela
Con quien tanto yo jugué
De soldados y trincheras
Hoy el fuego era verdad
Y mi amigo ya se entierra
Madre, yo quiero morir
Estoy harto de esta guerra
Y si vuelvo a escribir
Talvez lo haga del cielo
Donde encontraré a José
Y jugaremos de nuevo
Madre, sabes quien maté?
Aquél soldado enemigo
Era mi amigo José
Compañero de la escuela
Con quien tanto yo jugué
De soldados y trincheras
Madre, sabes quien maté?
Aquél soldado enemigo
Era mi amigo José
publicado por mparaujo às 16:27
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26
Jul 06
Embora acompanhando com especial atenção todo o desenrolar da crise no Médio Oriente, acrescente-se que com bastante apreensão, ainda não consigo clarificar as ideias quanto a responsabilidades, porque para mim, nenhuma guerra tem fundamenação. Como já o tinha, aqui, transmitido.
No entanto, acho verdadeiramente interessante este post do Jorge Ferreira, no TomarPartido.
Ler Aqui.
publicado por mparaujo às 23:34
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19
Jul 06
Há alturas na vida em que os pensamentos se tornam obscurecidos pelo "clarear" duma forte trovoada. Ou ainda, pela incapacidade racional de entender um problema. No caso concreto... um grave problema, de consequências ainda muito indefinidas.
A guerra é, a todos os níveis, inqualificável e condenável. Premissa. Condição óbvia.
Ou não...
É que, soam algumas trovoadas cognitivas.
Será que alguém (fora da área do conflito) consegue vestir a pele de um povo forçado ao exílio, tornado apátrida?!
Será que alguém, por mais momentos de conflito armado que tenha vivido (nomeadamente ultramar), conseguirá imaginar o que terá provocado num povo o holocausto?!
E será que alguém consegue vestir a pele de um extremista religioso, ao ponto de sacrificar a sua vida por uma promessa "celestial" que, na quase totalidade dos casos, não entende de forma racional?!
E agora... será que, por mais condenável que seja, a guerra não se poderá tornar justificável?!
Porque criticamos umas e defendemos outras?!
É óbvio que o rapto de um soldado (apenas um) israelita não vale, po si só, toda esta escalada da guerra, que, se calhar e infelizmente, ainda agora começou.
É óbvio que este conflito não é só uma troca ofensiva militar entre Israel e o Líbano, com a Palestina e a Síria por entremeio.
É óbvio, mesmo que irracionalmente, este conflito tem as fronteiras muito mais ténues.
Será que não chegará até nós?!
Como diz a publicidade: "isto vai dar nega"!
publicado por mparaujo às 01:30

20
Abr 06
Entre um Iraque em constante pressão e a viver uma dramática guerra civil



e um nascente e preocupante Irão Nuclear


vão apenas (fronteiras meias) 60% de impopularidade estatística
(bem recente) e bem perigosa. Um claro "deja vu". Ou ainda... uma mera questão de tempo!
(por exemplo, ver noticia do expresso online)
publicado por mparaujo às 23:47

09
Abr 06
Aquando da publicação das caricaturas islâmicas nos jornais dinamarqueses (e depois pelo resto do mundo), muitos foram aqueles que apelidaram os que (como eu) se opuseram a tal feito, de "forças de bloqueio" de anti "liberdade de expressão".
Considerando a liberdade como um direito intocável e sem qualquer tipo de limitações, os que defende este espírito, obviamente só o fazem, em teoria e porque os factos não os atingem directamente ou são "vividos" bem longe do seu dia-a-dia.
Porque quando a realidade é outra as vozes hipocritamente se calam e não se ouvem.
Nada me move contra ou a favor da ETA.
Nada me move contra ou a favor do IRA.
Nada me move contra ou a favor da tensão Israel-Palestiniana.
Tudo me move quando os princípios pelos quais legitimamente todos têm o direito de defender, resulta em violência e morte. Aqui tudo perde sentido.
Agora, acho curioso que muitos dos que se colocaram a favor da dita "liberdade de expressão" totalmente ilimitada, como um bem supremo, hipocrita e silenciosamente condenem a existência de propaganda pro-ETA num centro comercial da cidade.
Estão todos com medo de publicamente falar, de criticar ou até de apoiar, porquê?!
Então onde está a tal Liberdade de Expressão?!
Caricaturalmente....
publicado por mparaujo às 22:06

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