Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

13
Set 17

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publicado na edição de hoje, 13 de setembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Ponto Final. A última “epístola”

Meu caro Bispo… já não lerá esta e também já não escreverei mais. Dos “monólogos” com D. António Marcelino às “Epístolas” que trocámos, a vida (ou o fim da mesma) colocou um definitivo ponto final.

Em função das circunstâncias, das realidades e dos contextos, uma década pode parecer muito tempo, uma eternidade ou tempo nenhum. Particularmente, os últimos onze anos foram marcados por encontros e desencontros que, nas mais distintas realidades e nos mais diversos contextos, a vida foi pautando a seu bel-prazer. Neste espaço temporal, Aveiro assistiu à transferência de “testemunho episcopal” do D. António Marcelino para si (2006); enlutámo-nos com o falecimento de D. António Marcelino, responsável pela diocese de Aveiro durante quase 20 anos (2013); volvidos apenas oito anos de episcopado Aveiro perdê-lo a si para a diocese do Porto… e, há dois dias (meros quatro anos volvidos), o céu abatia-se sobre nós com o anúncio do seu falecimento.

A nossa primeira conversa, recordo-a como se fosse hoje, foi transparente e directa por uma questão de respeito, de transparência de posições e de aproximação recíproca. Não foi fácil, durante os primeiros anos da função episcopal em Aveiro ocupar um vazio deixado por D. António Marcelino, nomeadamente enquanto foi Bispo Emérito e enquanto foi vivo, sendo que este “ocupar” não tem, claramente, o significado de “substituir”. No entanto, paulatinamente, fui-me consciencializando que não faz sentido, como lhe disse algumas vezes, a expressão de que “ninguém é insubstituível”. Não é verdade. Há pessoas que marcam as nossas vidas, que são referência, que não são supridas ou revogáveis.

A sua simplicidade, a sua integridade, a disponibilidade para estar presente e ouvir, a sua particular visão da doutrina social da Igreja que tanto nos aproximou, o seu olhar sobre a sociedade e o seu profundo sentido de bondade, a sua concepção de uma Igreja presente e humanizada, a distinta capacidade apostólica e o dignificante sentido pastoral, a sua inquestionável sabedoria e o seu invejável saber (fruto da filosofia, da sociologia que o formaram e da vocação jurídica relegada para segundo plano por força de outro chamamento), foram complementando a aproximação crescente (e rápida) entre si e este crente teimosamente distante e preguiçosamente nada praticamente, quase sempre crítico. Recordo-me do nosso último contacto presencial e da sua sempre pronta e certeira palavra como se fosse hoje: “o Papa Francisco tem mesmo algo de especial porque desde que foi eleito tenho recebido poucas críticas tuas”. Não falta aqui nenhuma vírgula, nem nenhum acento. Foi o princípio de mais alguns minutos de deambulações pela doutrina social da Igreja, pela sociedade, pela política, pela Igreja… e ficou-me o coração cheio.

Coração agora triste, vazio, amargurado. Vai ficar sempre presente a sensação de que faltou o cumprimento, o abraço, aquela palavra, aquela frase, aquela ideia, a crítica e aquele texto. Vai faltar… aliás, já falta. Porque muito ficou por dizer, tanto ficou por ouvir.

Já não escreverei mais ao “meu” Bispo… já não tenho os “meus” bispos. Os “meus” Bispos que mais do que serem de Aveiro, do Porto, de Lisboa, são de uma Igreja à qual vão fazer, já fazem, inquestionável falta e que deixam irremediavelmente muito, mas mesmo muito, mais pobre. Os “meus” dois Bispos a quem a sociedade prestará sempre a devida homenagem e lembrará com saudade uma Fé de incontestável espiritualidade mas de inegável sentido humano.

O ciclo (a)normal da vida encerrou os “Monólogos “ e as “Epístolas”, mas não fechará, como não fechou até então, a permanente saudade, memória e presença, de quem me encheu a vida.

Despeço-me, obrigatoriamente, com um até sempre e com um inesquecível: “In Manus Tuas”. Ponto Final.

publicado por mparaujo às 11:29

11
Set 17

20150305_bispo_porto_0037.jpg

Não foi fácil ou à primeira vista a empatia, muito por culpa de anos e anos de relação próxima com o seu antecessor.

Aos poucos, a proximidade familiar, a simplicidade e, simultaneamente, a forma como foi expressando a sua percepção do que é e deve ser a Igreja foi-nos juntando e aproximando.

Muitas foram, em distintas circunstâncias, as vezes que nos cruzámos, que nos sentámos à mesa, que estivemos lado-a-lado... sempre pronto a ouvir-me mais até do que a falar. O que dizia, mesmo que pouco, era IMENSO.

Muitas foram as vezes que foi recebendo as minhas mensagens mesmo após a sua saída de Aveiro para o Porto. A distância não foi, nem seria, motivo para deixar de lhe escrever... tantas e tantas vezes (quase sempre) crítico de uma Igreja que teimosamente não me acolhe, cada vez acolhe menos, apesar da minha posição de crente, das minhas referências (que são, actualmente, a sua e a do Papa Francisco).

Nunca tive uma única rejeição, um único «não tens qualquer razão», nunca me disse "não". Soube sempre escutar, dizer o que sabia (e era muito), saber aconselhar.

Hoje, já deixei de ter remetente físico para as minhas "epístolas de um crente ao seu Bispo". Ficarão sempre connosco.

Deixei de ter remetente físico mas não esquecerei nunca a simplicidade de um homem culto, amigo e presente.

Estará e será sempre PRESENTE.

ATÉ SEMPRE, D. António Francisco. Morreu o "meu bispo".

 

publicado por mparaujo às 11:06

28
Fev 16

Je Suis.jpgA polémica em torno do cartaz do Bloco de Esquerda sobre a adopção por casais do mesmo sexo e que envolve a figura de Jesus trouxe, nos inúmeros comentários e criticas (pós e contra), o regresso da questão da liberdade de expressão e o caso do ataque ao jornal  Charlie Hebdo há pouco mais de um ano (7 de janeiro de 2015).

Já não bastava a infantilidade da mensagem do infeliz cartaz para vir a despropósito a acusação e a retórica de que somos "Charlie" apenas quando nos convém ou quando não nos toca directamente. Não, não somos... pelo menos não sou.

Como refere o título do post anterior (sobre a polémica) "Não está em causa a liberdade de expressão". E mesmo que se queira usar a demagogia deste argumento, a verdade é que a liberdade de expressão, o seu legitimo exercício, mesmo o direito à ofensa, não implica que quem se sinta atingido não se ofenda e não tenha direito ao recurso ao contraditório.

E sim... continuo "Je suis"... porque mesmo não gostando do Charlie Hebdo reconheço o direito à liberdade de expressão, mesmo que ela me ofenda. A grande diferença é que reconheço o meu direito a sentir-me ofendido e a criticar. A grande diferença é o recurso ao estado de Direito, às leis, à crítica. A grande diferença é que enquanto "Charlie" não me cabe o direito de matar como retaliação à ofensa e à liberdade de expressão.

Não... o cartaz do BE não me ofendeu pelo recurso à figura de Jesus, nem beliscou minimamente a minha fé.

O cartaz do BE ofende (e, como tal, é motivo de legítima critica) pela infantilidade, pelo inconsistência do argumento, pela ironia totalmente falhada, pelo desrespeito pela causa ganha, por todos os que lutaram por ela, pelos próprios crentes (como eu) que aplaudiram a adopção por casais do mesmo sexo porque não é uma questão dogmática, religiosa... é uma questão de princípio de igualdade de direitos, seja de quem adopta, seja de quem é adoptado.

Sim... até por causa do cartaz do BE eu continuo "Charlie", sempre.

publicado por mparaujo às 15:06

26
Fev 16

Limitar o exercício à liberdade de expressão e opinião é uma clara e óbvia afronta à democracia, a uma sociedade desenvolvida e estruturada, a um Estado de Direito.

Assim, não é por aí que o recente cartaz do Bloco de esquerda se torna, eventualmente, polémico.

BE - Jesus tinha 2 pais.jpg

A questão circunscreve-se à recente aprovação na Assembleia da República, após veto (incompreensível e injustificado) de Cavaco Silva), da adopção por casais do mesmo sexo. Legislação que, importa referir, aplaudo e subscrevo (custe o que custar a inúmeras "isildas pegados" deste país). Isto não é uma questão dogmática, religiosa... é uma questão de princípio de igualdade de direitos, seja de quem adopta, seja de quem é adoptado.

E é neste sentido que o cartaz do BE se torna polémico e, simultaneamente, desprovido de qualquer razoabilidade.

Vejamos.

Não está em causa que Jesus tenha dois "pais". Aliás sendo José casado com Maria e sendo Jesus filho de Deus (e, pela trilogia, ele mesmo Deus) é uma observação perfeitamente inocente. O problema é quando a mesma reflexão é associada à homossexualidade. E aí é que o pretenso impacto político e social ou os pressupostos da flahada ironia deixam totalmente de existir. A referência aos dois pais de Jesus nada tem a ver com homossexualidade (até proque os dois não são casal). Ou, por exemplo, uma criança que viva numa nova família, fruto de um processo de divórcio, não deixa de ter dois pais (um biológico e outro afectivo - novo casamento) e não há qualquer questão de homossexualidade.

A outra parte da polémica do cartaz é a afronta e o desrespeito pelos crentes, mesmo não sendo bloquistas, que apoiam e apoiaram a adopção por casais do mesmo sexo.

A liberdade de expressão não deve ser limitada (quanto muito regulada pelo confronto de direitos)... mas a estupidez deve ser mais ponderada e limitada.

Mais valia pegarem no excelente outro cartaz sobre o tema e legendá-lo: "aguentaaaa Isilda" ou com um "E agora, Cavaco?". Era mais frontal e mais intelectualmente honesto.

Aqui sim, está um cartaz com impacto...

BE - Adopcao gay.jpg

publicado por mparaujo às 12:03

26
Fev 14

publicado na edição de hoje, 26 fevereiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Em jeito de despedida

Caro D. António Francisco

Há algum tempo que não lhe escrevia. Nem de propósito… para uma despedida. Não sei, não acredito, apesar das circunstâncias futuras, que esta seja a última epístola. Não o será, certamente. Mas esta sexta carta tem um sabor “amargo”. Ou, se quiser, D. António, um misto de desgosto e de satisfação.

Em todos nós, seja em que área for, a vida reserva-nos sempre “alguém” que nos marca, que é para nós referência. Sabe-o bem que, por múltiplas razões e circunstâncias, o D. António Marcelino foi (e ainda o é também) o “meu” Bispo. Nunca o escondi. Nunca lho escondi.

A verdade, caro D. António Francisco, é que há também sempre alguém que, mesmo em circunstâncias diversas, surge na vida que nos rodeia com uma capacidade (dom) ímpar: saber ser referência, tornar-se numa nova referência e marcar-nos igualmente, sem que muitas vezes saibamos porquê, como ou quando. A pouco e pouco, sem a pretensão de substituir ninguém mas sim de complementar alguém, o D. António Francisco foi-se tornando, igualmente, o Bispo de um aveirense crente (rara e preguiçosamente praticante, mas sempre crente mesmo que crítico).

Tal como o D. António Marcelino dizia, “a vida também se lê” (e este “ler” tem o sentido pleno da abrangência) … mas a vida tem o dom de ser generosa e madrasta. Generosa, ao permitir que alguém com uma humildade contagiante, com uma visão da doutrina social da Igreja muito particular, com uma capacidade apostólica distinta, um dignificante sentido pastoral. Madrasta, porque não há justiça quando, ao fim de cerca de 7 anos de episcopado os aveirense se veem privados do “pastor” que tanto acarinharam e tão bem souberam receber. Não colhe a expressão banal de que “ninguém é insubstituível”. Não colhe e não é verdadeira. Há, na vida, pessoas insubstituíveis. Poderão não o ser na função, mas serão, claramente, no desempenho e na missão. Se assim não fosse (e que me perdoe o Episcopado Nacional) a Nunciatura Apostólica teria optado por um outro bispo qualquer para substituir o 75º Bispo da Diocese do Porto, D. Manuel Clemente. Mas não… tiveram de vir a Aveiro buscá-lo a si, D. António Francisco. E não terá sido por acaso e, neste caso, nem acredito (passe a blasfémia) que tenha sido “obra e graça do Espírito Santo”. Foi porque são indiscutíveis as suas capacidades pastorais para enfrentar os desafios de uma diocese com uma dimensão social, política, cultural e religiosa como a do Porto. Isso, por mais que nos custe a nós, aveirenses, é indiscutível e inquestionável. Se quiser… dogmático. O que não deixa de ser, obviamente, injusto. Sinceramente, não é algum eventual sentido de “traição” ou de “desrespeito” que alguns dos crentes aveirenses possam sentir por este seu sim à decisão da Nunciatura que me aflige. Sei que isso nunca esteve presente. No fundo, as “mudanças de casa” são, na vida pastoral do clero, o mais normal. O que me preocupa é que raramente a história se repete e renova os mesmos efeitos. E como eu acredito que há “insubstituíveis”, receio profundamente que o futuro crie um vazio na igreja aveirense. Perder, num período tão recente, dois Bispos não será fácil para a Diocese de Aveiro superar esta “travessia do deserto”. Ficaram em nós, a título de exemplo, as suas marcas pastorais da Missão Jubilar, a celebração dos 75 anos da restauração da Diocese. Ficaram entre nós as suas marcas sociais com os mais desfavorecidos e excluídos, a relação com a juventude e a vida académica, o sentido da oração. Os aveirenses, D. António, viveram muitas horas consigo e saberão, apesar da mágoa, Viver (também) esta Hora! Dificilmente esqueceremos as suas palavras: “a Igreja deve ser lugar de esperança para o mundo e porta aberta aos que procuram Deus”. A Todos… independentemente da sua condição, da sua vivência, do quanto e como acreditam em Cristo e da forma como O vivem. Congratulo-me, caro D. António Francisco, por levar para o Porto o mesmo lema episcopal que trouxe e viveu em Aveiro: In Manus Tuas. Significa que os aveirenses souberam dignificar a sua missão episcopal recebendo-o de mãos abertas e, ao mesmo tempo, depositando-nos nas suas mãos apostólicas. A Diocese do Porto ganhou muito… mas não nos queiram convencer do contrário porque nós perdemos quase tudo. Só não perdeu um “crente” que continuará a olhar (mesmo que mais longe) para o Seu Bispo.

Porque a vida também se lê…

publicado por mparaujo às 09:36

15
Out 13

Publicado na edição de hoje, 15 de outubro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Último monólogo

Na fé e na vida, D. António Marcelino, por razões diversas, foi marcando uma considerável parte do meu percurso de vida. Sucedendo a D. Manuel de Almeida Trindade (de quem resta apenas a imagem de infância), D. António Marcelino foi Bispo a quando da minha passagem pelo seminário, pelo grupo de jovens da Sé, pelos cinco anos no Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil, pelos três anos no Movimento Católico de Estudantes. Mas também pela relação familiar e pela presença constante, até bem tarde, no dia-a-dia (por mais espaço que fosse no tempo). A verdade é que D. António Marcelino, mesmo sem me aperceber, esteve sempre presente.

Sem qualquer demérito ou desconsideração por D. Manuel Almeida Trindade ou por D. António Francisco, a verdade é que, pelas razões referidas, pela marca que deixou, pela referência que foi, D. António Marcelino foi (é) o “meu” Bispo. Como, por diversas vezes, pública, a minha ligação com o bispo emérito foi sempre muito forte, com inegável estima, respeito e consideração. Nos bons e maus momentos, nos altos e baixos da vida.

Nem sempre estivemos de acordo, como por exemplo, em relação à “visão” da Igreja no que respeita à vida ou à família, em relação a Bento XVI. Mas, felizmente, foram mais os momentos e as visões comuns: ao papel, ainda por concluir, do Concílio Vaticano II; o mesmo sentimento em relação à missão da Igreja, à sua doutrina social e ao seu papel evangelizador; à sua intervenção política no mundo e nas instituições; à felicidade pela eleição do Papa Francisco. Mas também, sempre olhámos para o mesmo horizonte em relação ao peso da Cúria, à complexidade e meandros da estrutura da Igreja; à rigidez e inflexibilidade do direito canónico (ou da sua aplicação prática), embora aqui reconheça-se uma feliz alteração de convicções após o seu pedido de resignação episcopal. Muitas destas realidades foram publicamente partilhadas (sei que lidas) nos “Monólogos com o meu Bispo – na fé e na vida”.

Muito haveria ainda por partilharmos, mas, acima de tudo, muito (demasiado) ficou por aprender e apreender com a vivência, o crer e o saber do “meu” Bispo. Fica o sentimento do desapontamento do “monólogo” não escrito (seria o décimo segundo) em relação ao seu último texto publicado (18 de setembro), claramente em jeito de despedida, de quem sente o aproximar do juízo final e de partir, de um verdadeiro testemunho pessoal e de/da Fé (“Este amor chama-se Diocese de Aveiro – Ler a realidade social e a própria vida”). Foi neste princípio, nesta concepção da realidade social e da vida, que foi cimentada a minha relação afectiva com D. António Marcelino.

Agora partiu. Os elogios públicos são imensos e mais que merecidos, proferidos por quem “de direito”. Seria de todo abusivo da minha parte estar a sobrepor-me aos mesmos.

Pessoalmente, a Igreja (não apenas a de Aveiro) ficou mais pobre e o céu mais rico. Ninguém é insubstituível mas há, de entre todos, quem nos faça mais falta, por quem a memória e a recordação não terão sossego.

D. António Marcelino tinha como lema na sua nomeação episcopal: “Darei o que é meu e dar-me-ei a mim mesmo pela vossa salvação”. A verdade é que, de facto, deu durante uma vida inteira, concretamente a Diocese de Aveiro e os aveirenses que com ele privaram são disso testemunho. Mas também é verdade que D. António Marcelino recebeu muito da Igreja que “pastorou” e com isso foi igualmente enriquecendo a sua vida.

Para mim, de modo muito pessoal, fica a imagem do “meu” Bispo em cada gesto seu, palavra ou silêncio, espelhados na sua expressão: “a vida também se lê”… já que a morte apenas deixa saudades e vazio. E na “minha casa” morará sempre o meu Bispo.

publicado por mparaujo às 09:34

01
Abr 10
Publicado na edição de hoje, 1 de Abril, do Diário de Aveiro.

Cheira a Maresia!
Renovar! Ressuscitar!

Não é fácil abordar, de forma racional, um tema como o da pedofilia.
Primeiro como pai, depois como ser humano e por fim por não conseguir entender as razões de tal acto e os verdadeiros e reais impactos nas vítimas.
Como católico acrescem as dificuldades e tornam-se, verdadeiramente, incompreensíveis todos estes escândalos que, por mais que seja tentado clarificar, abalam a Igreja transformando esta triste e complexa realidade na mais grave crise de que a memória regista no último século.
E não basta “assobiar para o lado” esperando que a indiferença e o tempo apaguem os factos. O tempo não apagou durante largos anos até aos dias de hoje… apenas escondeu.
Não basta “esconder a cabeça na areia” porque não se tratam de casos esporádicos, nem passados… são realidade grave, preocupante e actual.
Não basta reagir pela negativa e “à defesa” (ou contrapondo com a imagem de vitimização) … o problema não é externo (ou não só externo), está patente e latente no seio da própria Igreja.
E muito menos basta pedir “perdão”, criticar, acusar… é preciso ser-se exemplo: condenar e solucionar!
Aliás, parece-me subsistir neste ponto a explicação para esta crise. Faz lembrar uma garrafa de espumante que, após forte agitação, é retirada a rolha: a pressão e o gás fazem o resto. A pressão, o abafar, o não actuar com coerência, vigor e clareza fez soltar a rolha ao primeiro caso despontado.
E é urgente que a Igreja reflicta, actue e se renove… porque, apesar de muitos os casos (Irlanda, América, América Central, Alemanha) a parte não pode afectar e representar o todo. Mas também não pode servir de desculpa para uma inércia inaceitável, principalmente o questionável argumento de que a pedofilia é transversal a toda a sociedade (famílias, instituições, etc.). Porque é precisamente por essa transversalidade que importa servir de exemplo, ser coerente, agir internamente, enfrentar com vigor e rigor para permitir a legitimidade de acusar e criticar todos os abusos cruéis na sociedade.
A inércia no combate destas realidades que enfraquecem uma Igreja que também é feita de Homens, só serviu para acumular factualidades e debilidades. O medo da abertura à sociedade e à opinião pública é que foi esvaziando a Igreja e afastando os crentes da sua vivência necessária.
Não se trata de “lavar roupa suja em público”, como referem várias vozes episcopais. Trata-se de resolver uma grave crise de forma clara, transparente e exemplar. Em vez de se criarem anti-corpos, promoverem-se sinais de unidade edificantes.
É importante agir e repensar o actual distanciamento que a Igreja vive em relação à sociedade e aos “tempos de hoje” que em nada favorece a consolidação e o crescimento da própria Igreja. Seja através do debate em torno do celibato imposto ou voluntário, do papel das mulheres na sua estrutura, da importância dos leigos, da relação com a política, com a educação, com a família e com a sexualidade, entre outros.
Pedir perdão sem mudar e sem agir, nem serve de consolo às crianças e vítimas de tão abomináveis crimes, ao longo de tempos e tempos.
Poderá nascer, destas cinzas, uma excelente oportunidade para que a Igreja se repense, se renove e ressuscite… tal como acontecerá Domingo para aqueles que celebram a Páscoa da Ressurreição de Cristo.
publicado por mparaujo às 14:41

23
Mar 09
Publicado na Edição de sexta-feira - 20.03.09 - do "O Aveiro".

Bloco de Notas.
Santa Trapalhada.


Esta não pretende ser uma crónica a favor ou contra o aborto.
Este é apenas um artigo que reflecte, na qualidade de católico, a preocupação pelo distanciamento da Igreja às coisas dos homens, da vida e da sociedade.
No fundo, o afastamento da Igreja do Mundo de hoje.
Durante a semana passada, a temática centrou-se nas declarações (extemporâneas) do Arcebispo de Olinda e Recife (Brasil) que, numa primeira reacção excomungou a mãe e toda a equipa médica (mais tarde, ninguém seria alvo de qualquer pena canónica) que optaram pela interrupção de uma gravidez de 15 semanas numa criança de nove anos de idade.
Primeiros os factos…
Uma criança de nove anos de idade, era, por diversas vezes, violada pelo padrasto desde há três anos até à semana passada, quando a menina deu entrada num hospital queixando-se de dores de barriga. Diagnóstico: gravidez de 15 semanas, gémeos. A mãe nada sabia.
Segundo a equipa médica, a criança, com apenas 33 quilos de peso e 1,36 m de altura, de constituição física muito frágil, resultado de um ambiente de clara pobreza e condições degradantes de vida, corria sérios e declarados perigos de vida com o avançar da gravidez, bem como a probabilidade da gravidez ter um "final feliz".A lei brasileira contempla a interrupção da gravidez, em dois casos concretos: violação e risco de vida. A menina incluía-se nas duas vertentes.
Ao ter conhecimento da interrupção da gravidez (autorizada pela mãe, depois da orientação médica), o Arcebispo brasileiro "decretou" (superando as competências do Conselho Brasileiro da Igreja Católica) que "todas as pessoas que aprovaram, autorizaram ou participaram no acto, com excepção da criança, estavam excomungados da Igreja". Mesmo que tão grave pena seja, ainda hoje, algo que a maioria dos católicos não percebe e não consegue entender as suas consequências.
Depois a análise…
É de exaltar a defesa do princípio da Vida, por parte da Igreja. Revela preocupação pelo ser humano, pela sua dignidade e pelo seu valor. Assim deveria ser para todos nós.
Mas qual das vidas?! E a dignidade e qualidade do futuro de uma criança de nove anos que sofreu todas estas fatalidades?!
O que será mais grave?! A possibilidade de interromper o futuro de uma menina de nove anos (o perigo de vida iminente no prolongar da gravidez) ou a interrupção de uma gestação que o mais provável seria a sua não concretização ou uma complexidade imprevisível no seu fim?! De que vida, falamos nós?!
Porque não se "apressou" o Bispo a condenar o padrasto, por tão macabro e abominável acto?!
É que é nestas incoerências e inconsistências que a Igreja se afasta, cada vez mais, dos homens. Porque se afasta das suas vidas, das suas emoções, das suas necessidades.
Como disse o Arcebispo, D. José Cardos Sobrinho, numa das entrevistas à Comunicação Social, "a lei dos Homens não pode estar acima da Lei de Deus". Acho que nem os Homens isso pretendem. O problema é quando a "lei de Deus" se afasta de tal maneira dos Homens e das suas vidas, que deixa de fazer qualquer sentido e deixa de ter razão existencial. Porque a Igreja sem os Homens e sem servir os Homens, esvazia o sentido da sua missão.
Daqueles Homens que Cristo sempre acolheu: os doentes, os moribundos, os mais desprotegidos, os ladrões, as prostitutas, … Ah! e as CRIANÇAS.
E em relação às crianças, a Igreja tem muitos telhados de vidro.
publicado por mparaujo às 13:38

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