Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

03
Abr 13

Não me parece democraticamente legítimo condicionar qualquer partido parlamentar ao direito que lhe assiste de apresentar moções, sejam elas de confiança ou de censura. Obviamente, que o instrumento regimentar (ou Constitucional – alínea e) do artigo 163º) tem um peso político relevante (independentemente de poder ter impacto directo na queda ou não dos governos, mesmo que chumbadas à partida) e não deve ser usado de forma leviana e abusiva, sob pena de desvirtuar e banalizar este “argumento” de combate político.

E este é que se tornou o principal “inimigo público” da Moção de Censura que António José Seguro apresentou, hoje (3 de março) contra o Governo de Pedro Passos Coelho. Falhou no objectivo (já que o impacto, por força do número de votos seria o esperado: chumbado, com 131 votos contra – PSD e CDS - e 97 a favor – PS, CDU e BE). É que Moção de Censura não foi eficaz no combate político, não fragilizou o Governo (aliás, na duvidosa estratégia de tentar “dividir para reinar”, tentado questionar e interpelar o papel do CDS na coligação, apenas a tornou, mesmo que aparentemente, mais consolidada), não mobilizou a esquerda (apenas no voto). Fez ricochete, virou-se o feitiço contra o feiticeiro. E a verdade está na resposta de Passos Coelho e que apenas mereceu a gargalhada de Seguro: “A Maioria está bem mais unida que o PS”.

Foram tantas as armadilhas, tanta a incapacidade argumentativa, tanta a demagogia sem apresentação de alternativas que mostrem a diferença dum projecto político que garanta algum sucesso eleitoral (imagine-se o que seria o país a cair em eleições nestas circunstâncias) e credibilidade externa, que o PS e, concretamente, António José Seguro, saíram claramente a perder a dobrar: moção chumbada e imagem política fragilizada.

Antes de analisar, brevemente, um ou outro aspecto em particular, há, inexplicavelmente (a não ser por uma questão de “trauma político”) uma aversão de António José Seguro ao passado recente da governação de José Sócrates. E seria por aqui que o líder socialista deveria ter fundamentado a sua moção. Porque politicamente é sustentável do ponto de vista argumentativo e factual. Se é verdade que foram cometidos erros na governação do período socrático (alguns mais graves que outros, para além dos aspectos positivos que o próprio Governo PSD-CDS ainda recentemente aproveitou), também não deixa de ser menos verdade os erros, demasiados, que este Governo tem cometido. Tudo isto com um transparente agravamento: o que motivou o chumbo do PEC IV, a condução do país para o inevitável recurso à Troika, as falsas (como agora se pode perfeita e historicamente demonstrar e comparar) promessas eleitorais alternativas para o país que apenas tiveram o objectivo do derrube do anterior governo para, com desmedida e encapotada ambição, ocupar a “cadeira do poder” custasse o que custasse. Tudo tinha sido mais fácil para Seguro, se não andasse tão obcecado pelo mediatismo, por forçar ser oposição apenas por ser, demagogicamente, apenas para tentar esbater a “sombra” do regresso de Sócrates à esfera e intervenção públicas. Exemplo disso é o caso hilariante, tal como ridículo, da carta à Troika (que afinal tinha ido, mas não foi, existia, mas que acabou por aparecer hoje, sem se saber se foi enviada). Ou ainda o total desnorte com o aumento das reformas mais baixas e das PPP.

Ao enveredar por este caminho, tal como em muitos pontos altos públicos, António José Seguro, com a habitual demagogia e vazio de propostas concretas, reais, compatíveis coma situação do país, concretizáveis, banalizou e perdeu uma oportunidade (mais uma) de se demarcar de tudo. Nem a capacidade de contestar a surpresa discursiva do ministro das Finanças, Vítor Gaspar quando, ao contrário do que tem sido a posição do Governo em não falar do governo de Sócrates, a menos que a isso José Seguro exija, se debruçou sobre o resultado da “década perdida” da governação anterior. Vítor Gaspar recordou que o PS esteve no Governo em grande parte dos últimos 15 anos e que, neste período, Portugal foi dos países que menos cresceu. "Não é possível negar que a estratégia do Partido Socialista falhou". Nem uma contestação.

(ver aqui, via TSF, os principais momento do debate de hoje)

publicado por mparaujo às 23:16

A Moção de Censura ao Governo, apresentada pelo PS (texto integral), ao menos por uma questão de coerência política e discursiva poderia ter servido para um total ruptura: do passado recente da governação socialista, do memorando (como o próprio afirmou, não foi por ele assinado), do governo. Mas faltou-lhe coragem… a mesma ausência de coragem para assumir que tudo podia ter sido diferente se não tivessem ocorrido as eleições de 2011 que, afinal e na prática, serviram para desiludir muitos eleitores, decepcionar os cidadãos e, conforme provam a realidade dos números, afundar ainda mais o país. Como diz o ditado “mal por mal, mais-valia não se ter mexido”. Mas também o que esperar de uma Moção de Censura ao Governo, com um país assolado de problemas e que se resume a quatro páginas? (já vi textos na Assembleia Municipal de Aveiro maiores e mais consistentes).

Só que foram tantos os erros no debate de hoje.

1. A estratégia de tentar destabilizar e criar algum mau estar, com a moção, no Governo, a partir do CDS. Logo o CDS que dificilmente sairá do Governo porque tal significa abdicar do poder (que nem o conquistou directamente por sufrágio) e sujeitar-se a mais uma travessia do deserto político nacional. Alvo totalmente errado.

2. Segundo Carlos Zorrinho, a “moção de censura contra o governo é um acto patriótico”. Tal como a abstenção em relação ao OE2012 era uma abstenção violenta. O patriotismo vê-se e demonstra-se em alternativas, em apresentar soluções para o problema… os portugueses já não conseguem sobreviver de demagogia (não alimenta o estômago, nem avia medicamentos nas farmácias). E aqui, surge a primeira armadilha política pela voz do líder da bancada social-democrata, Luís Montenegro: "Censuro, logo existe. Censuro, logo sou oposição, Censuro, logo acalmo as minhas hostes. Censuro, logo isso é bom para mim enquanto líder do PS".

3. Não basta dizer que tudo falhou, que é a austeridade pura e dura, que as previsões foram todas ao lado (algumas até para o dobro). Isso qualquer dos comuns dos mortais portugueses sente na pele e no bolso todos os dias. Era preciso demonstrar que o caminho que estava a ser anteriormente seguido (obviamente com as devidas e constantes readaptações, tal como em cada revisão da troika), afinal, era menos penoso, podia ter tido mais sucesso, sacrificava menos os portugueses e, acima de tudo, de tudo mesmo, não recorria a promessas eleitorais que, na prática, resultaram em políticas, reformas e medidas totalmente opostas ao discurso de passos Coelho em 2011, quer face ao Governo do PS, quer em plena campanha eleitoral.

4. Outro e preocupante erro estratégico do PS é não ter conseguido rebater o argumento do Governo (usado por Passos Coelho e por Portas) de que a moção, em caso de aprovação, significaria um segundo resgate externo a Portugal. Algo que o próprio governo PSD-CDS não garante, nem tem provas, de que não acabará por acontecer face ao rumo que o país leva. A menos que, finalmente, Portugal saia da zona euro. Alternativa, infelizmente, que o PS não sublinha. Ou ainda, o tal erro que revela um incompreensível “trauma político” pelo passado foi o não assumir que o PEC IV tinha a aprovação das instituições da União Europeia e que não teve consequência por força do seu chumbo e pela “birrinha institucional” de Cavaco Silva.

5. O discurso vazio, inócuo, do mais tempo, da renegociação do memorando, de outras condições, é pura demagogia. Seguro sabe bem que a sua posição perante os credores externos (troika e mercados) só teria qualquer peso se apresentasse soluções, medidas alternativas concretas. Atirar uns bitaites e no fim afirmar que honrará os compromissos, é o mesmo que perder qualquer credibilidade. O certo é que o PS ainda não encontrou capacidade de pressionar a Troika para outro tipo de condições de resgate que garantam, a quem nos emprestou o dinheiro (goste-se ou não), um conjunto de garantias de sucesso para a consolidação da dívida e das contas públicas. Por outro lado, Seguro sabe que está a dar um tiro no pé ao exigir uma renegociação profunda das condições quando não tem qualquer suporte, nem apoio, por parte da Troika.

6. Quando Seguro foi comparado com Hollande na ânsia da conquista do poder, a que poderia ser comparado Passos Coelho depois de tudo o que mentiu aos portugueses e depois de tudo o que fez, com a conivência de Cavaco Silva, para derrubar José Sócrates? Pelos visto, nada…

7. António José Seguro assumir publicamente (o tal patriotismo) a responsabilidade política de liderar um novo Governo no país, acaba por, apesar da legitimidade do “sonho”, de colocar a “cereja em cima do bolo” no desastre que foi esta Moção de Censura: o PS não tem alternativa política para se apresentar a sufrágio, os portugueses não querem, com essa realidade eleições, o país não aguenta, nesta fase, eleições. Isso é radicalismo à esquerda.

publicado por mparaujo às 23:06

27
Mar 13

Publicado na edição de hoje, 27 de março, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Três ‘balelas’ políticas

1. Dois partidos políticos que compõem uma coligação não têm forçosamente de estar em plena comunhão de ideias. Mas o que não pode existir é uma diferenciação nos objectivos que provoquem rumos diferentes. Por outro lado, é óbvio que a partilha do poder pressupõe cumplicidade e co-responsabilidade nos actos, nas medidas e nas políticas. De outro modo é hipocrisia e parasitismo políticos. Assim, não se percebem as críticas de várias vozes do CDS que vêm a público ‘exigir’ a remodelação do governo, curiosamente a Miguel Relvas ou a Álvaro Pereira. Das duas, três. O CDS não tem força, nem peso político dentro da coligação, cuja sustentação política assente no papel e desempenho de Miguel Relvas (aliás, o alicerce político da ascensão de Passos Coelho a líder do partido e a primeiro-ministro) que se torna uma clara barreira a Paulo Portas. O CDS encontra em Álvaro Santos Pereira o elo mais fraco desta governação e pretende colocar na economia um ministro centrista. Mas o que o CDS ainda não percebeu (ou não quer perceber para não perder o palco do poder, que só atinge a reboque de outrem) é que uma remodelação no actual governo só tem um único desfecho: a sua queda. Isto porque a remodelação governamental só faz sentido se saírem os ministros Vítor Gaspar ou Miguel Relvas. O que significa, no plano político, reconhecer que tudo falhou. O que, por essa via, implica a demissão do Primeiro-ministro, responsável político por toda a acção do Governo. E Portas é conivente com este alarido centrista em praça pública.

2. Como referi (ver “Debaixo dos Arcos”, blogue) sobre o regresso de José Sócrates à esfera pública, à pergunta “Quem tem medo do regresso de Sócrates?” a resposta é óbvia: o próprio Partido Socialista, nomeadamente António José Seguro, pelo incómodo que causa a assunção do passado político e governativo recente. Daí se perceber esta bipolaridade demagógica do actual líder socialista. Enquanto internamente endurece o discurso crítico ao governo, acusa Passos Coelho de implementação de políticas e medidas de austeridade que colocaram o país num buraco sem fundo e se apresenta como um acérrimo crítico do comportamento da Europa e das suas instituições, é capaz, simultaneamente, de escrever à Troika (segundo o Jornal de Negócios na edição de segunda-feira) assumindo, com a moção de censura que apresentará depois da Ressurreição de Cristo, o claro objectivo de derrubar o Governo, assumir o poder e manter os compromissos assumidos pelo Estado Português. E isto é que não se percebe de todo. Sendo-se tão crítico das políticas que a própria Troika impõe, desejando criar um evidente distanciamento em relação ao memorando assinado, como é que pretende, ao mesmo tempo, honrar compromissos que não se aceitam? É por estas que este PS de José Seguro não descola como alternativa. Mal por mal…

3. Ao fim de sete avaliações, de uma recessão enorme e de uma incapacidade de alavancar a economia, de um aumento colossal da carga fiscal, de cortes salariais, de uma espiral de crescimento da taxa de desemprego, do aumento do custo de vida, de cortes nas funções sociais do Estado, de metas de défice falhadas, entre outros, tudo por força da aplicação do plano de resgate financeiro assinado no memorando com a Troika, vem agora, o seu chefe de missão, Abebe Selassie, desapontar-se com Portugal, que parece ter deixado de ser o “bom aluno” tão apregoado. Segundo Selassie, o desemprego aumentou mais que o previsto, já foram necessárias duas revisões das metas dos défices, os preços de energia e comunicações não baixaram, a recessão aumentou, a economia não encontra crédito… todas as previsões falharam com base na “ideologia financeira” da Troika (sublinhada pelo experimentalismo académico de Vítor Gaspar). Deste modo a pergunta impõe-se: Portugal foi mau aluno ou o “professor” é que não sabe ensinar (ou o que ensina é errado)? Não basta apontar o dedo a Santos Pereira… é importante que a Troika se olhe ao espelho.

publicado por mparaujo às 06:28

05
Out 12

Há inúmeras razões e factos que levam a um preocupante aumento do descrédito da política e dos partidos. Esta realidade não é recente, mas, neste último ano, tem tomado proporções bastante significativas. Ao ponto de se questionar a própria democracia.

E as celebrações do (último feriado) 5 de Outubro de 2012 só servem para agudizar esta realidade. Numa data em que se relembra a Implantação da República, em 1910, com o povo a sair às ruas de Lisboa (pelo menos) é, no mínimo, criticável, que as cerimónias tenham decorrido à porta fechada. Quem não tem “estofo”, “coragem”, sentido de Estado, quem tem medo, para enfrentar as críticas e o povo, mais vale deixar a “cadeira” para quem tenha outra capacidade de governação.

Mas os mais recentes acontecimentos revelam-nos outras facetas que sustentam este desacreditar na política, nas suas instituições e na sua representatividade.

Ontem, na Assembleia da República, foi dia de censurar o Governo, através da apresentação de duas moções. Uma do PCP e outra do BE.

Quer na quarta-feira, quer ontem, ao trocar alguns pontos de vista com alguns amigos e algumas personalidades, expressei a minha opinião criticando o PS por não ter apresentado, também, uma moção de censura ao governo. A minha opinião sustentava-se no reforço das críticas expressas em relação à acção e à política do governo (ainda no seguimento do anúncio feito por António José Seguro em relação a uma eventual implantação das alterações à TSU); numa maior sustentação do voto contra em relação ao Orçamento do Estado para 2013; no reforço de uma liderança na oposição; e, para minimizar ou evitar, o envolvimento do PS nas críticas da esquerda ao governo e à direita, conforme veio a verificar-se no discurso do PCP, acusando o PS de ser também da direita e de ter responsabilidade pelo actual estado do país e das políticas que estão em curso.

Foram rebatendo os meus argumentos, essencialmente, com o facto do PS ter o seu próprio ritmo política, a sua agenda, não ir a reboque de populismos. Não concordei, e acho que, à luz dos acontecimentos de hoje, tinha razão. O PS não se afirmou como líder da oposição (apesar de ser o maior partido), acabou por ser vitima dos “danos colaterais” e, politicamente, não poder votar contra a moção do PCP, mas curiosamente, para quem tem agenda própria, não embarca em populismos, nem vai a reboque de ninguém, marcar presença e posições públicas (e sujeitar-se às vaias e apupos, como foi o caso da deputada Ana Gomes) no Congresso Democrático das Alternativas, realizado hoje, é, no mínimo, estranho e incoerente.

(créditos da foto: Daniel Rocha - Público online)

publicado por mparaujo às 23:40

03
Out 12

Quando o governo tem, no parlamento, uma maioria que o sustenta (alimenta), o resultado de uma moção de censura é, do ponto de vista prático, nulo.

O mesmo não se pode dizer do ponto de vista político e de instrumento de crítica e censura à acção governativa (num aspecto particular ou de forma generalizada).

Muitas vezes (se não quase sempre) este momento culmina posições críticas que se assumem publicamente contra a acção do governo e desmarcam, publicamente, os partidos com assento parlamentar das políticas governativas.

Daí que se perceba (tal como se percebeu em 2011, goste-se ou não) as posições do BE e do PCP, para amanhã, face ao agravar das condições de vida dos cidadãos e ao afundamento do país, que só o Governo não vê (para além de Passos Coelho ter, simultaneamente, conseguido afundar a direita e o PPD/PSD). Apesar de não estar propriamente próximo destes dois partidos (antes pelo contrário) acho que é totalmente legítimo e aceitável a tomada de posição dos partidos mais à esquerda no parlamento nacional.

O que eu acho uma total perda de oportunidade é a posição do PS que já deu a conhecer o seu sentido de voto: abstenção.

Para quem tanto critica as políticas do governo, o desvio e a deturpação do memorando de entendimento com a Troika, o caminho seguido para a saída da crise, não me parece lógico para o maior partido da oposição não ser líder neste processo. Mais ainda, quando me parece uma total falta de coerência esta abstenção com o anúncio do chumbo ao próximo Orçamento do Estado para 2013.

Uma eventual apresentação de uma moção de censura não inviabiliza ou colide com o sentido de voto no Orçamento de Estado. Antes pelo contrário, só reforça a posição e a fundamentação. Para além disso, acho que já basta estas indefinições e indecisões do PS que o encobrem no papel da oposição, deixando o “palco” todo para o PCP e BE. O que para a opinião pública não o descola totalmente da realidade política gerada pelo Governo.

Aliás, só consigo ver vantagens para o PS se houvesse, neste caso concreto, a capacidade para liderar uma posição conjunta à esquerda. Apenas para a situação e realidade concreta.

Porque em relação aos acontecimentos de hoje (declarações do ministro das Finanças para analisar aqui, amanhã) o PS, de facto, já há muito que vem marcando uma posição que podia muito bem ser a bandeira de uma moção de censura.

O país, a oposição, até a própria maioria e governo, precisavam de um Seguro mais forte, consistente e combativo… Portugal só tinha a ganhar.

publicado por mparaujo às 22:36

27
Jun 12

Publicado na edição de hoje, 27 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Já chega…
A apresentação, por parte do PCP, da moção de censura ao governo, na passada segunda-feira, estava, como foi referido na edição de domingo passado, condenada ao chumbo parlamentar, por força da maioria que suporta o executivo. Mas a referida moção de censura, apesar de chumbada, não deixou de ter consequências políticas. Não propriamente as que se esperam de uma moção (solidificar uma liderança ou maioria, ou fazer cair o governo, como aconteceu com o executivo minoritário de Cavaco Silva e de José Sócrates, embora com resultados distintos) mas pelo debate que se gerou e pelas posições parlamentares assumidas.
O “nim” do Partido Socialista tem duas leituras claras: a primeira a não colagem mais à esquerda e um certo “sabor a vingança” pelo facto do PCP (agora promotor da moção de censura) ter sido o mesmo que votou ao lado da direita para o derrube do governo de José Sócrates; a segunda, por mais que o PS queira disfarçá-lo e, em termos discursivos, se queira afastar do processo, a verdade é que os socialistas têm um passado ainda muito recente de grande responsabilidade pelo actual momento e pela crise que o país vive, para além do compromisso assumido com o memorando de entendimento com a Troika. E são vãs (para além de politicamente descabidas) as tentativas de querer fazer passar a mensagem do “fantasma” da austeridade para além do memorando, quando toda a gente sabe, porque é público, que o referido memorando apresenta metas e objectivos e que os mesmos são regularmente avaliados. O PS não se pode, por mais que tente, alhear de o ter, de facto, assinado.
Do ponto de vista de quem apresentou a moção de censura, é óbvio que para o PCP apenas estava em causa a oportunidade mediática de apresentação do seu discurso ideológico, tentando capitalizar a contestação de rua e as recentes sondagens que aumentaram o sentido de voto até perto dos nove por cento. No entanto, desde o período mais próximo pós-revolução de Abril, o PCP tem sido muito inconsequente na capitalização nas urnas das suas propostas para o país.
Mas há um dado bastante relevante neste processo de discussão da moção de censura, que foi o próprio governo e a consequência prática para o país. E há uma consequência, ou, pelo menos, um balanço a fazer: o Governo não garante que as medidas até agora impostas tenham o sucesso que sempre foi anunciado. Portugal corre o risco de não cumprir a meta do défice dos 4,5%, sendo aliás previsível que tal valor se situe perto dos 5,5%. E este é que é o resultado preocupante da moção de censura. É que ficou claro que o Governo deixou de ter a certeza das políticas que aplicou, deixou de ter a imagem de verdade e de credibilidade, perdeu no que respeita a competência.
A esperança depositada há um ano, por muitos portugueses, numa alternativa governativa que fizesse com que Portugal saísse da crise, no devido tempo, ficou-se por um acordo de concertação social por cumprir, num aumento desmedido do desemprego, no decréscimo da qualidade de vida de muitos portugueses (do seu poder de compra, da sua subsistência diária/mensal), de aumento de impostos, aumentos dos preços, de um retrocesso no desenvolvimento económico, num confronto, mesmo que legítimo, com o poder local, numa falha de projecção das receitas fiscais face à despesa com as reformas, os subsídios de desemprego, a diminuição do consumo, o encerramento diário de empresas, …
No fundo, todo este primeiro ano se resume à aplicação de políticas que beneficiassem as receitas, com menor incidência na vertente da despesa e na estruturação da dívida pública, sem medidas consistentes e abrangentes de retoma da economia, do emprego, da qualidade de vida, sem um combate eficaz a muitos interesses instalados.
O primeiro-ministro iria ainda mais longe neste debate: à pergunta directa se irão, ainda este ano, surgir mais medidas de austeridade, Pedro Passos Coelho afirmou, perentoriamente, que se forem precisas assim o fará.
A questão é que os portugueses já não aguentam mais. E já começam a duvidar das certezas do governo quanto à retoma do desenvolvimento do país, quanto à retoma do seu poder de compra, quanto ao abandono das medidas de austeridade. Porque as incertezas são muito mais que os aspectos positivos anunciados e que em nada favorecem o dia-a-dia dos portugueses. Os cidadãos não sobrevivem apenas com a imagem junto dos mercados externos, com a emigração, com uma balança de exportações que sobrevive face à diminuição do consumo interno. De conversa demagógica e irrealista, face aquilo que são os valores e os dados reais do país, já os portugueses tinham ficado fartos há dois, três anos atrás. Já chega…
Vir com demagogias e palavras de esperança que não se concretizam não chega… não resolve. Basta de sofrerem sempre os mesmos.
E a “procissão ainda agora vai no adro”…

publicado por mparaujo às 06:58

20
Jun 12

Publicado na edição de hoje, 20 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Censurar.
No final da semana passada, no debate quinzenal na Assembleia da República, o PCP anunciou a intenção de apresentar, no parlamento, uma moção de censura ao Governo de Passos Coelho.
Primeiro ponto. Uma moção de censura é um instrumento político (e partidário) que assiste a qualquer bancada/grupo parlamentar, tal como define a Constituição da República Portuguesa no ponto 2, alínea i) do artigo 180º (Grupos Parlamentares).
Mas, como será óbvio, só esta argumentação e fundamentação legal não é, por si só, suficiente para apresentar uma moção de censura a um governo.
Mais… a apresentação de uma moção de censura ao governo, havendo uma maioria parlamentar que o sustenta, é uma posição que, antecipadamente, está condenada ao fracasso.
Então o que poderá ter levado o PCP a efectuar este anúncio?
Claramente uma questão política e de marcação de agenda. Para além disso, é notória a vontade e o objectivo de marcar um espaço próprio na oposição parlamentar e na sociedade, que rentabilize as posições tomadas pela contestação nas ruas e pelas recentes sondagens que dão uma subida até cerca nove por cento de intenções de voto.
Mas há também um outro dado que parece ser bastante relevante.
O Partido Socialista foi a última “vítima” de uma moção de censura que culminou num processo eleitoral e na derrota nas urnas. Duas das críticas apontadas pelos socialistas à moção de censura, apresentada pelo BE, foram, por um lado, a apelidada “ânsia” da conquista do poder pelos partidos da direita (nomeadamente o PSD), por outro a colagem dos partidos da esquerda à vontade da direita.
Sendo que não haverá derrube governamental (nem dissolução parlamentar) é nesta questão que a moção de censura do PCP ganha maior projecção e volume político. A moção apresentada contra Passos Coelho vira-se, essencialmente, para o PS e para António José Seguro. Este ainda pode argumentar que há um ano atrás também a esquerda se aliou à direita para derrubar o governo de José Sócrates, mas a verdade é que as realidades são outras.
E não vai ser fácil ao líder socialista tomar uma posição confortável.
Para quem rasgaria o memorando, para quem nunca o assinou ou assinaria desta forma, para quem sempre criticou as medidas aplicadas pelo governo (acusando-o de ir muito para além do acordado), para quem defende outra posição na europa, para quem entende que o país não está gerar desenvolvimento, nem a criar oportunidades de crescimento económico… não pode argumentar com tão débil fundamentação direccionada à estabilidade política nacional. Isso são tretas. Até porque a estabilidade governativa não está em causa.
A realidade é que António José Seguro está, claramente, no meio da ponte e não tem a certeza de qual a melhor posição, nem a coragem política para a tomar (internamente e face à oposição ao governo).
O não à moção de censura é uma colagem ao governo, a abstenção é desaparecer do mapa político, o sim é assumir definitivamente uma ruptura com o compromisso assinado pelo governo anterior e pelo próprio PS.
Mesmo sem qualquer consequência governativa, do ponto de vista político a moção de censura do PCP é bem “jogada”.

publicado por mparaujo às 07:06

15
Fev 11

Está, como já estaria logo à “nascença”, condenada ao insucesso a moção de censura do BE, anunciada para 10 de Março. Isto, independentemente da posição do PCP, pelo facto do CDS e do PSD terem já manifestado a sua intenção de voto, caso se concretize a apresentação da moção de censura ao governo: abstenção.
Nada seria mais lógico pela forma politicamente irresponsável como o Bloco de Esquerda apresentou a sua intenção.
Sem argumentos e fundamento válidos, fora de tempo, a despropósito, depois de Louçã quatro dias antes ter acusado o PCP por este ter anunciado um hipotética moção. Pior “a emenda que o soneto” seria a tentativa de “amolecer” o impacto negativo da decisão de Francisco Loução, com Fazenda a dizer que a moção era contra o Governo e contra a direita. A tal “maldita” direita que tanto era precisa para aprovar a moção. Ou seja, o Bloco de Esquerda “votou” contra a sua própria moção, ao aniquilá-la à nascença.
A única coisa que o Bloco de Esquerda conseguiu foi permitir ao Governo e a José Sócrates saírem por cima desta embrulhada, fazendo mais um número de vítima e de “Madalena arrependida”, e sacudir a água do capote da responsabilidade de tornar o país num caos ingovernável.

A argumentação do PSD afigura-se responsável e coerente, embora a expressão utilizada não seja a mais perfeita (“Este ainda é o tempo para o PS governar”). O que se afigura mais lógico é que esta ainda não será a altura para o PS sair. Porque esse tempo irá chegar pelas circunstâncias e por demérito próprio. Não fazia qualquer sentido que o PSD fosse assumir, nesta data, o derrube do Governo quando ainda estamos longe do balanço da execução orçamental.

E todo este “alarido” só serviu para desviar as atenções, mais uma vez, do essencial e dar tempo a José Sócrates de respirar: Portugal é dos países europeus onde há maior taxa de desemprego, onde o PIB menos cresceu, onde a economia estagnou.
Portugal vendeu dívida pública a longo prazo a uma taxa de 7,6% enquanto a vizinha Espanha vendeu a 5,25%. Portugal desespera por uma decisão da União Europeia (que na melhor das hipóteses será decidida em finais de Março) sem encontrar respostas próprias. Os portugueses já recorrem ao crédito para pagar medicamentos. E ainda somos enganados com uma operação fantasma do Instituto da segurança Social ao eliminar 100 postos de chefia que, afinal, se vem a verificar estarem vazios.
publicado por mparaujo às 23:10

11
Fev 11

O Bloco de Esquerda, pela voz do seu coordenador Francisco Louçã, referiu na sessão de ontem da Assembleia da República que, no próximo dia 10 de Março (no dia imediato ao da tomada de posse do Presidente da República), o seu partido apresentará uma Moção de Censura ao governo socialista. Resumidamente porque José Sócrates não aceitou o repto lançado pelo líder bloquista de apresentar, no parlamento, uma Moção de Confiança.
Um enorme tiro no pé. Ou melhor… nos dois pés, simultaneamente.
Principalmente porque foi de um desespero político desastroso, de total inocência política, perfeitamente fora de timing e de força contextual.

(fonte fotográfica: DN)
Além disso, Francisco Louçã cai, em menos de uma semana, em total incoerência. Quando o Partido Comunista coloca uma eventual apresentação de uma moção (sem a confirmar em pleno), Louçã clama a todos os ventos que a moção é despropositada e inconsequente. Borrifando-se completamente para o que afirmou publicamente em relação à proposta do PCP, vem agora contrariar-se e publicitar a sua Moção.
Segundo erro… uma Moção não se publicita, apresenta-se no momento certo, discute-se com forte argumentação e projecta-se o futuro (consequências). Publicitar, com um mês de antecedência, o que se vai fazer é deitar por terra qualquer factor surpresa, permitir aos outros partidos a construção de uma eficaz oposição, e é correr, desnecessariamente, o risco das condições que fundamentaram a publicitação da moção se alterarem.

Por outro lado, e mais relevante, a forma como Louçã anuncia a moção só tem duas consequências óbvias: ou o PSD deixa passar a moção, provocando eleições antecipadas, o que lançaria sobre o Bloco de Esquerda o fantasma histórico do que aconteceu ao PRD em 1987; ou, pelas afirmações de Luís Fazenda após o anuncio de Louçã (como que a tentar minimizar os estragos evidentes) onde é afirmado que a moção é contra o governo e contra a direita, a moção é rejeitada (hipótese mais provável) o que só vem reforçar a posição do governo e de José Sócrates, e o papel de oposição, nomeadamente, do PSD.

Portanto, Francisco Louçã jogou politicamente muito mal, tal como o fez nas presidenciais. Ficou refém da sua própria posição (do próprio veneno). Mas pelos vistos não apreendeu nada… E tão amigos que eles eram há um mês atrás!!!!
publicado por mparaujo às 21:54

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