Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

28
Dez 16

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publicado na edição de hoje, 28 de dezembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Sem deixar saudades…

Há que respeitar as tradições… e a tradição impõe que em cada final de ano, em cada fim de ciclo, se faça um balanço. Até porque a vida é (ou deve ser) feita de balanços porque eles ajudam viver o presente e a projectar o futuro. Este é, clara e objectivamente, pessoal, embora transmissível. O ano de 2016 não deixa saudades, apesar de um ou outro aspecto positivo.

Olhemos primeiro para além fronteiras. É indubitável que a crise humanitária dos refugiados (segundo a ACNUR são cerca de 65 milhões em todo o mundo), a guerra e os atentados são a principal “marca” deste ano, com evidente repercussão na Europa. A incapacidade da União Europeia lidar com este flagelo, do qual tem claras responsabilidades, fragilizou a sua existência e abalou os seus pilares fundamentais. Cresceu a divisão e o eurocepticismo que tiveram como ponto alto o Brexit que deixará marcas na unidade europeia; cresceram os fundamentalismos, nacionalismos e extremismos, com notórios reflexos sociais e políticos nos Países Baixos, na Alemanha, em França, na República Checa, na Hungria e na Roménia, por exemplo; cresceu a incerteza quanto ao futuro da União Europeia. Por outro lado, a guerra na Síria, nomeadamente em Aleppo, não é mais que o espelho de um Mundo que há décadas se tornou instável, conflituoso e inseguro. Basta recordar, o Iraque, o Afeganistão, a Turquia (Mossul, por exemplo), o Paquistão, a Síria, a Nigéria, a Somália, a África Central, Burkina Faso, entre outros. A Europa vive em permanente sobressalto, por mais que o dia-a-dia dos cidadãos não se altere e se mantenham as rotinas, tendo a Alemanha (Berlim) “fechado” um ano marcado por atentados extremistas em França, na Bélgica ou na Suíça. É inevitável falarmos de 2016 deixando de fora a política. As surreais, inéditas e depreciativas eleições americanas colocaram na Casa Branca o questionável e criticável Donald Trump que não trará, para muitos, grandes esperanças num mundo melhor. Também a Espanha conheceu uma crise política sem precedentes com a dificuldade criada pelo PSOE na formação de um governo minoritário do PP de Mariano Rajoy, sem esquecermos a grave crise política brasileira ainda sem impactos previsíveis. Duas notas finais neste além fronteiras para o número de jornalistas mortos em 2016 (74) em serviço e ao serviço da informação e da liberdade de expressão; liberdade de expressão que recorda ainda o caso dos activistas angolanos dos quais Luaty Beirão é um dos principais rostos na defesa da liberdade.

Entre portas, por cá, a agenda política marcou este ano que agora termina. Por força do “diabo”, de um previsível e mais que anunciado fim curto o Governo PS, com o apoio do BE e do PCP, manteve a geringonça lubrificada e em funcionamento, não sendo expectável que a mesma termina antes do prazo da legislatura, sendo inclusive conjecturável um forte impacto governativo nos resultados das próximas eleições autárquicas de 2017; isto apesar de uma outra face da austeridade que cobrou aos portugueses mais 516 milhões de euros em impostos que em 2015, do estado do sistema da saúde e de uma ilusória educação e ensino degradados, conflituosos (escola pública vs privada) e em auto-negação face aos resultados estatísticos conhecidos (PISA e Ranking Escolar), sem esquecermos a gestão política falhada no processo da CGD e da instabilidade bancária nacional, com o caso BES à cabeça. Por outro lado, a oposição, nomeadamente o PSD, demorou demasiado tempo a sair do “luto governativo”, a digerir uma vitória eleitoral transformada "parlamentarmente" em derrota mas, acima de tudo, demorou (e ainda demora) a posicionar-se como alternativa e a defender um caminho duro percorrido com alguns sucessos em vez de se manter como a voz da tragédia e o permanente anúncio do apocalipse governativo. Como peso da balança, o ano político de 2016 tem a marca inquestionável da mudança de inquilino no Palácio de Belém com a eleição do carismático e surpreendente Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República. Ficam duas notas significativamente positivas: os sucessos europeus e mundiais desportivos alcançados em 2016, dos quais o título inédito de Campeão Europeu de Futebol, em França, é o apogeu e, independentemente dos gostos e simpatias, das afinidades ou repulsas, a surpreendente eleição de António Guterres para o cargo de Secretário-Geral da ONU é uma referência importante na história política e geopolítica de Portugal.

Por último o ano de 2016 deixa um rasto de tristeza e profundo pesar: por cá o país perdia nomes como Almeida Santos, Barbosa de Melo, Lobo Antunes, Jaime Fernandes, Moniz Pereira e Nicolau Breyner. Mas a lista não termina sem a referência, como exemplo, a Umberto Eco, Shimon Peres, Prince ou Leonard Cohen.

Que o ano de 2017 seja bem melhor que este que agora nos prestamos a fechar.

publicado por mparaujo às 10:28

18
Dez 16

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publicado na edição de hoje, 18 de dezembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O Inferno na terra

Tomemos como marco o mundo tido da “era moderna” pós II Guerra Mundial que é referência no actual sistema geopolítico e geoestratégico mundial, seja ao nível político, económico, científico e social.

O mundo ainda não refeito do impacto na Europa do conflito com a Alemanha de Hitler procurava dar os primeiros passos na sua organização geopolítica, como a criação da NATO, das Nações Unidas, dos primórdios da Comunidade Europeia, do Bloco de Leste. No entanto, as feridas mal saradas do conflito na Europa, que se estenderia ainda ao Pacífico com o confronto entre o Japão e os Estados Unidos, não foram suficientes para, mesmo em plena “Guerra Fria”, tornar o mundo mais seguro e politicamente mais estável. A década de 60 ficava marcada pela guerra no Vietnam e nas Coreias durante cerca de oito anos; nos finais deste período (1968) a Operação Danúbio fazia entrar na então Checoslováquia as tropas soviéticas e os aliados do Pacto de Varsóvia que, desde a Primavera de Praga, ocupariam aquele território até 1991. Nos anos 70 e durante cerca de dez anos (1979-1989) o mundo assistia à invasão do Afeganistão por parte das tropas da URSS de Brezhnev que só terminaria com Gorbachev a ordenar a retirada das tropas no que é considerado por alguns como o princípio do colapso da União Soviética. A década de 90 ficava marcada por dois grandes conflitos armados e por um outro (mais de guerrilha) que tocou bem de perto muitos portugueses: o massacre de Santa Cruz (Dili - novembro de 1991) e a correspondente libertação de Timor-Leste do domínio da Indonésia. O início desta década (agosto de 1990) ficou marcado pela Guerra do Golfo e a invasão do Kuwait por parte do Iraque (agosto de 1990 a fevereiro de 1991 naquele que é um marco temporal no que é hoje a nova configuração de conflito e relações internacionais e, curiosamente, a forma como a comunicação social passou a ter um outro papel na informação de cenários de guerra. Bem perto do Natal de 1991, após a importância que teve a difusão das imagens do jornalista inglês Max Stahl do massacre de cerca de 400 timorenses, os olhares voltaram-se para Timor-Leste tendo sido possível, até ao final da década de 90, com alguma diplomacia portuguesa à mistura, libertar aquele povo do domínio da Indonésia e torná-lo na mais jovem nação. Entretanto, o mundo regista um dos maiores e mais duradoiros conflitos da história da humanidade que já vem desde o início do século XX: o conflito Israel-Palestiniano. Também pelo meio fica a sempre esquecida e abandonada África em constante conflitualidade interna após os períodos colonizadores de Portugal, Holanda, França e Inglaterra; a relação instável entre a Índia e o Paquistão; a posição instável da Turquia entre duas realidades culturais (ocidente e oriente); e, ainda, as convulsões dos países da América do Sul (Colômbia, Chile, Argentina, Nicarágua, como exemplos).

Eis-nos chegados à nova realidade geopolítica e geoestratégica internacionais: 11 de setembro de 2001 e a consequente invasão do Iraque de Saddam Hussein em março de 2003. O mundo ficaria, por mais vozes que o contradigam, muito mais inseguro, muito mais conflituoso, muito mais perigoso, muito menos humano, humanizado e humanitário, e o mesmo mundo passaria a viver uma nova realidade de conflitualidade: o terrorismo e o extremismo religioso-político. Até hoje, o mundo assistiu à guerra no Iraque, à intervenção no Afeganistão; ao ressurgimento dos focos extremistas em África; à explosão do sentimento de liberdade nas Primaveras Árabes; aos atentados no coração da Europa (Espanha, Inglaterra, França, Bélgica, Alemanha); ao crescimento das ideologias radicais e extremistas de movimentos e partidos políticos quer na Europa, quer nos Estados Unidos; à inigualável e histórica crise dos refugiados. E como toda esta história da humanidade em “apenas” 71 anos (desde o final da II Guerra Mundial em 1945 até hoje) o Mundo nada aprendeu, nada corrigiu, os povos e os seus líderes em nada mudaram continuando a sobrepor os interesses de uns (poucos) e de algo (economia, poder, recursos) acima das pessoas, das comunidades, das vontades e liberdades de cada cidadão.

Eis-nos chegados a Aleppo, na Síria, em finais deste ano de 2016. A distância de mais de cinco mil quilómetros, mesmo que os impactos sejam mais que visíveis no Mundo e na Europa, faz-nos olhar para os milhares de mortos, refugiados e desalojados, para milhares de cidadãos em permanente sobressalto e pavor, enfrentado diariamente a morte pelas armas ou pela fome e/ou doença, enfrentando a destruição das suas vidas, com uma generalizada indiferença e alheamento. A Europa e os Estados Unidos não podem continuar a desresponsabilizar-se (e a responsabilizar terceiros) por algo que lhes diz, directamente, respeito. O mundo (nós) não pode ficar indiferente perante um dos maiores massacres que a história conheceu.

Aleppo deveria-nos fazer pensar se o Natal, se este Natal, faz qualquer sentido. Um Natal que na Síria (e não só… em Mossul, em África, no Iraque e em muitos outros sítios) é sinónimo de Inferno… na terra.

(créditos da foto: Abdalrhman Ismail / Reuters)

publicado por mparaujo às 16:36

20
Nov 16

0ebef0822ca1436a3c96afc010c05b1ba6504256.jpgPublicado na edição de hoje, 20 de novembro de 2016, no Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Os danos colaterais

As recentes eleições presidenciais norte-americanas, com a surpreendente (para a maioria) vitória de Donald Trump terão um impacto interno e externo (danos colaterais) que levanta algumas inquietações e receios, seja do ponto de vista político, seja ao nível social e económico.

É mais que óbvio que o resultado das eleições é, independentemente do gosto ou não pelo escrutínio final, o espelho do que é a democracia na sua plenitude. Não sendo, de todo, um sistema perfeito é, de facto, o melhor sistema político-social e que mais plenamente satisfaz e responde aos processos de socialização das comunidades e dos seus cidadãos.

Felizmente, esta democracia que “obriga” à aceitação destes resultados eleitorais é a mesma democracia que legitima o direito à crítica, à contestação e à objecção. E não é para menos…

O processo eleitoral norte-americano, que surpreendeu pela derrota da candidata democrata Hillary Clinton e pela vitória do controverso e polémico republicano Donald Trump, tem contornos significativamente complexos nas suas análises causas-efeitos e na caracterização da tipologia de voto, consideravelmente distinto da eleição do ex-presidente Barack Obama (eleito pelo Partido Democrata). Afigura-se demasiado simplicista reduzir as causas da surpresa eleitoral (derrota de Hillary Clinto) à comunicação social ou às sondagens. Trump não é, de todo e em nada, alheio ao terreno dos “mass media” (se bem que não se espera um relação, em nada, pacífica com a imprensa) e os erros agora verificados das projecções e das sondagens poderão ter influenciado os cerca de 90 milhões de norte-americanos que optaram por não exercer o seu direito de voto. Mas há ainda muitos outros factores por explicar racionalmente como o elevado número de mulheres que votaram Donal Trump, apesar de toda a misoginia que envolveu polémicas afirmações e conversas machistas, e mesmo o número de hispanos e muçulmanos (apesar de em menor número em relação aos votos expresso em Hillary) que, apesar de todas as afirmações e convicções xenófobas e racistas, deram um considerável número de votos ao magnata agora eleito presidente. Há ainda todo o eleitorado não-urbano ou fora dos meios urbanos (sendo que, no caso americano, a dimensão de “urbano” não é de todo comparável, por exemplo, à de Portugal ou da maioria dos países europeus) que massivamente votou Donald Trump como forma de protesto e de crítica ao sistema político e financeiro corrompido, de insatisfação quanto ao emprego, à economia, à saúde e à igualdade e oportunidades. Mesmo que para tal se tenham esquecido que Trump vem precisamente desse meio corrompido da alta finança, dos negócios que controlam as comunidades e as sociedades, que ditam as leis políticas, dos casos de fuga aos impostos e corrupção (pelo menos são três os que estão em processo judicial) e que Donald Trump não tenha qualquer experiência política, nem qualquer linha programática relevante no que respeita às questões sociais, sendo que muitos dos americanos que votaram como forma de protesto contra o sistema (e, quem sabe, contra a administração de Barack Obama que governou o país nos últimos anos) ignoraram a origem elitista do agora presidente eleito e a sua manifesta falta de sentido e justiça social. Por outro lado, são já visíveis e conhecidas as posições quanto à imigração, à deportação de milhares de cidadãos e crianças, à xenofobia, ao crescimento e surgimento de movimentos racistas, ao descontrolo do uso de armas, entre outros, sendo expectável, infelizmente, a degradação dos mais elementares direitos humanos, seja por medidas políticas, seja no âmbito de legislação.

Mas não é apenas internamente que esta eleição deixa um rasto de insegurança e frustração. Externamente, nomeadamente na Europa (aguardando-se o que serão as relações com a Rússia, o Médio Oriente e a zona asiática), quando muitos assobiaram para o lado quanto à tipologia de voto no recente Brexit, soam já os alarmes quanto ao crescimento do extremismo e radicalismo de direita, por exemplo em França, na Áustria, na Húngria ou até mesmo em Portugal (recordemos a posição do PNR) e quanto ao efeito sistémico destas eleições americanas em futuras eleições europeias. Já para não falarmos de que o Mundo estará mais fragilizado, mais permeável, mais inseguro, quanto à conflitualidade internacional com as posições assumidas por Donald Trump em relação à NATO, à ONU e às convenções internacionais.

A verdade é que os Estados Unidos e o Mundo estão assustados… governar a maior potência mundial não é o mesmo que gerir um, mesmo que mais bem sucedido, casino ou hotel de luxo.

publicado por mparaujo às 12:52

29
Dez 14

mundo.jpgO início do ano de 2014 foi assinalado pelo retomar do “braço-de-ferro” entre a Rússia e a União Europeia e os Estados Unidos. Desde a queda do Muro de Berlim, num ano em que se comemorou o 25º aniversário sobre esse marco histórico, que o chamado Bloco de Leste (Pacto de Varsóvia, URSS, Cortina de Ferro) sofria um colapso total, sentido essencialmente na adesão de ex países do Bloco de Leste à União Europeia e à Nato, algo que a Rússia ainda não conseguiu “digerir”. Algo que se deverá agravar com o retomar das relações entre Havana e Washington. Com a crise na Ucrânia, a tensão em Donetsk e a anexação da Crimeia, regressou a memória da “guerra fria”, agora sob a capa de uma “paz fria”.

Mas se este retomar do conflito geopolítico provocado pela Rússia de Putin demorou cerca de 25 anos, as consequências dos ataques a 11 de setembro de 2001 ao “coração económico, militar e político” norte-americano tornaram o mundo num autêntico barril de pólvora político-ideológico-religioso. Quando alguns esperavam que o radicalismo e o extremismo acalmassem com a morte de Bin Laden e o fim da Al Qaeda, o mundo acordou para uma nova realidade no conflito ideológico-religioso extremista: o surgimento do Estado Islâmico, persistente nos conflitos que tem gerado, nomeadamente, no Iraque (a insurreição sunita), mas também espalhados por vários pontos do mundo, sendo estimado um número de cerca de 2000 execuções por parte dos radicais islâmicos.

A conflitualidade bélica foi ainda nota dominante de novo com os confrontos na Faixa de Gaza entre Israel e a Palestina provocando inúmeras mortes e deixando um rasto de destruição, principalmente na zona palestiniana.

E se o mundo é abalado por um inúmero de vítimas, a maioria inocentemente, provocado pelos conflitos bélicos, 2014 registou ainda um outro flagelo: o surto de Ébola que assolou a África central: quase 7700 mortes, cerca de 20 mil casos confirmados, regiões completamente isoladas, transformaram este flagelo numa página bem negra deste ano que agora termina.
Mas 2014 teve outros acontecimentos e características que o marcaram como um ano significativamente convulsivo.

Do ponto de vista político o continente africano foi (e é), nestas últimas 52 semanas, um autêntico “barril de pólvora” social e da luta pelo poder. Há mais de um ano que a República Centro Africana é um país devastado por uma interminável vaga de violência inter-religiosa, e que já levou à apresentação de demissão do Presidente e do Primeiro-ministro (Michel Djotodia e Nicolas Tiangaye, respectivamente). Enquanto Moçambique, depois de alguns períodos de conflitualidade entre o Governo de Maputo e a Renamo, foi a votos com a contestação dos resultados por parte do principal opositor à Frelimo, continua a instabilidade política e social na República Democrática do Congo e em Burkina Faso. Por outro lado, processos eleitorais livres e democráticos trouxeram estabilidade e esperança a outras nações africanas, como por exemplo a S. Tomé e Príncipe e à Guiné-Bissau (readmitida na União Africana, após 2 anos de suspensão, retomadas as relações com a União Europeia e os apoios monetários internacionais). Importa, no entanto, não esquecer toda a polémica e controvérsia que se gerou em torno da inqualificável adesão da Guiné Equatorial à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), mesmo conhecendo-se o seu historial ditatorial e repressivo e não existindo qualquer manifestação do uso da língua portuguesa.

Mas as crises e as circunstâncias políticas marcaram igualmente a Europa. O crescimento do sentimento de aspiração à independência sustentou a realização do referendo na Escócia que abalou o sistema político britânico e, em Espanha, idêntica pretensão da Catalunha forçou o Governo de Rajoy a usar a força constitucional para barrar as pretensões dos catalães. Por outro lado, ainda em Espanha, no meio de um enorme abalo real por força do desgaste que o processo judicial instaurado à Infanta Cristina e ao seu marido tem gerado, o Rei Juan Carlos renunciou ao trono, sucedendo-lhe o seu filho Filipe, proclamado Filipe VI, Rei de Espanha. Além disso, França e Itália viveram também alguma turbulência política com alterações forçadas na governação: François Hollande viu-se na “obrigação política” de substituir Jean-Marc Ayrault por Manuel Valls no lugar de primeiro-ministro; em Itália, sucederam-se processos conturbados de formação de governos.
O principal destaque na política europeia vai para as eleições para o Parlamento Europeu que ficaram marcadas pelo aumento dos grupos extremistas e anti-europeístas. O luxemburguês Jean-Claude Juncker é eleito para a presidência da Comissão Europeia pelo Parlamento Europeu (sob alguma contestação devido a acusações sobre eventuais fraudes fiscais no Luxemburgo enquanto foi primeiro-ministro), ao recolher no hemiciclo de Estrasburgo 422 votos a favor, 250 contra e 47 abstenções. Mas a aprovação da sua "Comissão " não foi pacífica, iniciando o mandato apenas no início de novembro.

Do outro lado do Atlântico, o Brasil, após o desaire futebolístico do Mundial, foi a votos e reelegeu Dilma Rousseff num processo eleitoral marcado pela surpresa do candidato que forçou a realização de uma segunda volta e que foi derrotado por uma margem significativamente pequena de votos, Aécio Neves, não deixando grande margem governativa à actual presidente brasileira.

Por fim, a surpresa do ano recai sobre a retoma das relações diplomáticas entre Havana e Washington, com mediação do Vaticano, e a perspectiva do fim do embargo a Cuba que dura há cerca de 50 anos, sem qualquer justificação ou impactos na actualidade.

publicado por mparaujo às 00:05

27
Nov 14

Cavaco Silva - jornal i.jpgO Presidente da República, em visita oficial aos Emirados Árabes Unidos, entre questões directamente relacionadas com o objectivo da viagem, acedeu a comentar o caso da detenção de José Sócrates. Ou melhor... já que Cavaco Silva sempre nos habituou a nada dizer: a comentar o impacto que a detenção do ex Primeiro-ministro possa ter para a preservação da imagem internacional de Portugal .

O Presidente da República afirmou, aos jornalistas que a imagem de Portugal no exterior não está a ser afectada (fonte: jornal i) tendo em conta os mais recentes casos judiciais como o BES, os Vistos Gold e José Sócrates.

Ora, tendo em consideração a distância, fusos horários (independentemente da globalização da informação), cultura, etc., que separa Portugal (e a Europa) dos Emirados Árabes Unidos, não fora a infeliz imagem que temos do actual Presidente da República e até poderíamos dar-lhe o benefício da dúvida em relação ao caso mais recente.

Não fora... pois. Não fora isso e o artigo publicado, ontem, no jornal francês "Liberátion", conotado com a esquerda gaulesa. Sob o título "Sócrates, la chute d'un opportuniste sans idéologie" (Sócrates, a queda de um oportunista sem ideologia), o jornal não só ataca a imagem do ex Primeiro-ministro como faz claras referências a politização do caso: "corresponde a um novo degrau de imoralidade na vida pública" (fonte: Expresso online).

Capa Liberation - 26-11-2014 - caso socrates.jpg

Sendo certo, como diz Cavaco Silva, que casos políticos e financeiros que "caem" na justiça há em todos países (infelizmente com acentuada predominância nos países da Europa do Sul: Itália, França, Espanha e Portugal), é, no mínimo, merecedor de significativa preocupação a exposição de Portugal aos olhos internacionais por todos estes casos (aos quais poderíamos acrescentar um outro número bem elevado). Basta recordar o que foi a referência ao caso na imprensa estrangeira.

Mas, como sempre, o Presidente da República é um fervoroso crente...

publicado por mparaujo às 16:07

03
Ago 14

publicado na edição de hoje, 3 Agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Virado do avesso

A agenda mediática tem um duplo impacto. O primeiro tem a faculdade de focar a opinião pública num assunto/tema relevante no momento. O segundo tem o revés de desviar a atenção sobre outras realidades. Recordando o ditado: foca a árvore e esquece a floresta.

O recente caso do BES tem essa vertente mediática. Sendo certo que o assunto é de relevante importância nacional, pelos seus impactos na instituição, no sistema bancário, na economia nacional e, esperemos que não, nas contas públicas (caso se assista a mais uma intervenção estatal na banca). O que é verdade, no meio de um turbilhão de novidades diárias, é que o caso BES tem criado uma anestesia geral, ou generalizada, ao ponto de muitas outras realidades passarem definitivamente ao lado, ou para segundo plano, da opinião pública: Carlos Moedas indicado para Comissário Europeu; a recente decisão do Tribunal Constitucional sobre a nova taxa sobre as reformas; os valores da taxa de desemprego; o verão que teima em não aparecer; a “pipa de massa” que virá da Europa; as primárias socialistas. Mas há mais… um mundo virado do avesso, em constante conflitualidade, numa “cruzada” desmedida contra a dignidade humana e o valor fundamental da vida. Muitos refugiam-se na desculpa dos danos colaterais, mas o facto é que muitos perderam a vida ou ficaram com ela desfeita.

Enquanto a Rússia, Estados Unidos e União Europeia vão esgotando e esgotando-se na via diplomática (embora com muito pouca diplomacia), o conflito na Ucrânia, em pouco mais de quatro meses, tirou a vida a mais de 1100 pessoas e feriu quase 3500.

Na Faixa de Gaza regressa o fantasma da “guerra dos seis dias”, de 1967. Uma região em permanente conflito, com mais ou menos incidência mas em constante ebulição, sustenta uma contenda religiosa, política, geoestratégica, aparentemente sem fim à vista. E os actuais dias não são melhores. Não consigo tomar partido por uma das partes dada a complexidade da realidade e da história entre sionistas/judeus e palestinianos, mas há verdade que não posso esconder: os recentes ataques israelitas às escolas onde a ONU assegurava a segurança a milhares de palestinianos, entre as quais inúmeras crianças, não são danos colaterais. É algo que não é justificável, não é aceitável. Um acto mórbido, inqualificável e merece ser condenável e criticado.

Ainda na região, passados três anos após a revolta de 2011, regressaram a Tripoli, capital libanesa, novos confrontos entre milícias rivais que já provocaram, em duas semanas, mais de duas centenas de mortes.

Obviamente que estes são os casos mais relevantes, sem esquecermos o que se passa em África, no Afeganistão ou no Iraque. Mas se a morte é, por si só, o espelho mais gritante do principal ataque à dignidade humana - à vida - a violação dos mais elementares direitos humanos não se fica só pela morte.

Continuam sem solução os significativos casos de violação de mulheres na Índia. O flagelo da mutilação genital feminina, socialmente defendida em muitas culturas, nomeadamente em África, com nove casos registados/conhecidos em Portugal e que levou à aprovação na Assembleia da República de legislação a criminalizar esta realidade, ressurgiu recentemente numa denúncia da ONU que revelava que o grupo jihadista denominado “Estado Islâmico” ordenou num recente fatwa (decreto islâmico) que todas as mulheres e crianças, da cidade de Mossul - Iraque, entre os 11 e os 46 anos, se submetam à mutilação genital feminina.

Organizações Não Governamentais (ONGs), a UNICEF e a ONU voltam a chamar a atenção para o flagelo da fome e da sobrevivência na Somália e no Sudão do Sul, pela instabilidade social e pela enorme seca, recordando as cerca de 250 mil vítimas da fome há três anos. Neste momento, cerca de 350 mil pessoas estão no limiar da sobrevivência diária.

Cinicamente, Portugal teve recentemente uma dualidade de critérios e convicções nesta matéria. Vergonhosamente aceitou a adesão da Gunié Equatorial à CPLP, por valores meramente economicistas (petróleo), já que a língua portuguesa nem sequer é falada no país, esquecendo as atrocidades cometidas no país, as constantes violações dos direitos humanos e a aplicação da pena de morte. Mas a par disso, passando despercebida à maioria dos portugueses Portugal assinou a Convenção de Instambul que entrou em vigor na sexta-feira, 1 de agosto, e que pretende promover uma justiça mais eficaz na erradicação da violência contra as mulheres. Não só no plano físico mas também, e importante, no plano psicológico.

Fossem tudo boas notícias e o mundo estaria menos do avesso.

publicado por mparaujo às 11:21

19
Jul 14

A queda do avião das linhas aéreas da Malásia, na zona ucraniana de Donetsk, é uma tragédia irreparável e injustificável.

A tese/prova de que o avião terá sido abatido é de uma barbárie inqualificável.

Ponto. Sobre isto não me parece que haja qualquer outra justificação ou argumentação. Nada justifica a morte, inocente ou não.

A par desta triste e condenável realidade, já alguém (nomeadamente o João de Sousa) levantou uma questão que julgo bastante pertinente: no cálculo das probabilidades, a razão de um avião comercial, com cerca de 290 pessoas a bordo, sobrevoar uma zona de conflito bélico eminente/real. É óbvio que a dúvida e a questão levantadas não trarão qualquer justificação a tal acto condenável e, muito menos, qualquer sopro de vida às inocentes vítimas. Mas não deixa de ser uma questão pertinente e interessante.

À qual, pessoalmente, acrescentaria uma outra. Para lá de qualquer condenação dos responsáveis por esta barbárie, é inquestionável que a queda do avião se deveu a um acto bélico (abate com míssil) numa das duas actuais zonas de maior conflito geopolítico, a par com o conflito Israel/Palestina (Faixa de Gaza): a Ucrânia.

Quando surgiu o conflito interno em que opõe nacionalistas ucranianos e separatista pró-russos, eram diárias e constantes as posições públicas pró-Ucrânia e as ameaças à Rússia por parte da União Europeia, com a clássica figura de Angela Merkel à cabeça.

Com o despoletar de novas acusações entre o governo da Ucrânia e os separatistas, com novos contactos bilaterias entre USA e Rússia (Obama e Putin), com o condenável e trágico acontecimento a agravar o conflito interno, a União Europeia simplesmente calou-se. Já não critica, não condena, não ameaça.

Ahhhh esperem... já passaram as eleições. Pois...

publicado por mparaujo às 17:24

18
Jul 14

E assim vai o Mundo, incluindo Portugal... em julho de 2014.

Um avião comercial das linhas aéreas da Malásia, com cerca de 298 pessoas a bordo é abatido na região ucraniana de Donetsk. Ao caso, "civis" que nada tinham a ver com o conflito interno na Ucrânia.

Israel há cerca de uma semana que mantém ofensiva bélica sobre a Faixa de Gaza numa nova "cruzada" contra o Hamas.

Por cá continuamos entretidos com a novela BES esperando pelo final para sabermos o que acontecerá ao par publicitário Dona Inércia e CR7.

publicado por mparaujo às 17:32

05
Set 11

É indiscutível que o Mundo mudou depois do dia 11 de Setembro de 2001.
É indiscutível que essa mudança ainda está por classificar se positiva ou negativa.
Mas o Mundo não foi mais o mesmo... e não apenas do ponto de vista da segurança internacional e da relação entre as nações. A mudança também se fez sentir ao nível social, económico, tecnológico e científico.

  
O facto é que já passaram dez anos.
O Jornal Público inicia, com a sua edição de hoje, um conjunto de reportagens sobre o fatídico "9/11".
publicado por mparaujo às 22:00

09
Nov 09
Lembro-me perfeitamente... tinha 23 anos, ainda estava embrenhado activamente na política.
1949 marcava uma nova era geopolítica (europeia e internacional), com o fim da segunda grande guerra.
Em 1961, Berlim, a Alemanha, a Europa, o Mundo, via, estupefacto, a construção de um muro e de uma cortina de ferro que, mais que envergonhar, fracturava as nações, criava mitos, ideologias opostas, conceitos distintos.
Durante muitas décadas, o Mundo e a Europa viveu suspenso numa guerra fria (ideológica, política, económica, militar, cultural e científica).
Mas o mundo foi acordando para novas realidades...
A aspiração legítima dos povos de sentir a liberdade, a independência, a oportunidade, a união, foi abalando sistemas e "muros".
9 de Novembro de 1989 foi um marco histórico na vida de milhares e milhares de berlinenses e alemães. Mas 9.11.89 foi também um marco histórico para a Europa e o Mundo.
O arame farpado da cortina de ferro foi sendo recolhido na Hungria.
Os militares e tanques soviéticos deixavam Praga, Afeganistão e outros países.
Em Berlim oriental abriam-se as portas e o MURO veio abaixo, sem sangue, sem armas, só com a vontade do povo e o seu sentimento de liberdade e união.
Por outro lado, Gorbachov alterava o curso da história económica e política da ex-URSS.
Se para muitos europeístas, o centro político e estratégico está confinado à França, eu entendo que a Alemanha (e Berlim) pelo seu passado histórico (duas guerras mundiais) e o epicentro de uma viragem política mundial (a queda do muro de Berlim) é, mais do que a vertente económica, inigualável do ponto de vista geopolítico.
As Berlinenses e aos Alemães, obrigado e Parabéns.
publicado por mparaujo às 21:33

27
Dez 07
O assassinato, hoje, da ex-primeira-ministra paquistanesa e líder de um dos partidos da oposição (o PPP - Partido do Povo Paquistanês ), voltou a provocar a explosão da revolta, da instabilidade e o retrocesso da democracia, numa zona geográfica já por si só em "pulverosa".
Benazir Bhutto faleceu devido a um tiro no pescoço. Pouco depois o seu atacante suicidavasse, detonando explosivos que trazia consigo. Pelo menos outras 16 pessoas morreram.
Este "ataque" ocorreu pouco mais de 2 meses após um outro, quando, a 18 de Outubro, uma manifestação do partido de Bhutto celebrava o regresso da sua líder (após 8 anos de exílio) - dois suicidas mataram 139 pessoas.
Benazir Bhutto, regressava de um comício do seu partido relacionado com a campanha para as eleições legislativas e provinciais marcadas para 8 de Janeiro de 2008. A a ex-primeira-ministra, opunha-se contra o Presidente Pervez Musharraf, em defesa da democracia, mas sobretudo contra os fundamentalistas muçulmanos. “Eliminar a ameaça islamista” ero o seu principal lema, nesta campanha eleitoral.
Benazir Bhutto foi a primeira mulher da era moderna a liderar um país muçulmano. Tinha apenas 35 anos.
Foi duas vezes primeira-ministra da República Islâmica do Paquistão, de 1988 a 1990 e de 1993 a 1996.
Assim vai o Mundo e a vitória dos "anti-democracia" e do terrorismo.
publicado por mparaujo às 17:16

17
Jun 07
No dia em que se celebra o Dia Mundial da Desertificação e da Seca, com o lema «Desertificação e Alterações Climáticas: um desafio global» e segundo a Agência Espacial Europeia, Portugal é um dos três países mais desertificados da Europa, juntamente com a Itália e a Turquia.
A análise é feita com base em imagens do sistema de satélite europeu e insere-se num projecto que está a ser desenvolvido em conjunto com a Convenção das Nações Unidas para a Luta contra a Desertificação (UNCCD).
Segundo o estudo, o nível de desertificação nos três países - Portugal, Itália e Turquia - é dos mais elevados da Europa.
As projecções dos estudos e das análises, até à data, realizadas pela AEE, estimam que a desertificação - processo de degradação da terra provocado, por exemplo, pela actividade humana, põe em risco a saúde e o bem-estar de mais de 1.200 milhões de pessoas em mais de 100 países.
publicado por mparaujo às 12:26

Esta é a demonstração real da máxima "mais vale tarde que nunca".
E assim foi... Mississipi em Chamas (um dos melhores filmes já produzidos na abordagem da questão racial, de 1988 e realizado por Alan Parker, com Gene Hackman no principal papel) foi a julgamento.
James Seale, ex-polícia e membro do Ku Klux Klan, foi condenado pelo rapto e morte de dois jovens negros em 1964, em plena crise dos direitos cívicos nos Estados norte-americanos do Sul. Para as famílias das vítimas, a justiça foi feita ainda que tarde.
Para a justiça portuguesa e especialmente para os suterfúgios que permitem "esconder" a verdade, desculpar os responsáveis e prescerver a culpabilidade, fica o exemplo.
Mais vale tarde que nunca...
publicado por mparaujo às 10:36

06
Jun 07
A reunião do G8 na Alemanha está envolta na polémica e no confronto USA-Rússia, a propósito do sector Defesa e da instalação do escudo "anti-mísseis na Europa.
Esta reacção do Presidente Putin a este contexto de defesa, tem como suporte o "complexo" da perda da influência no pós guerra-fria e no desmembramento da antiga URSS, pelo facto de os instrumentos de defesa serem instalados em países de Leste, nomeadamente Polónia e República Checa, outrora aliados da Federação Russa.
Por outro lado, a crescente influência (derivada dos processos de solicitação e de adesão dos países de Leste) da NATO até às fronteiras Russas cria alguma sensação de instabilidade e receio.
É difícil determinar se este recente conflito culminará no retorno ao passado do confronto político e estratégico do período pós II Guerra Mundial (até porque as realidades políticas e geográficas são diferentes). Mas é certo que culminará numa nova guerra-fria, já que é ilusório pensarmos que a Rússia adormeceu militarmente e estrategicamente. Se tal aconteceu, durante a década de 90, pelas alterações geopolíticas resultantes da queda do muro de Berlim e do desmembramento da URSS, não deixa de ser notória a influência, as novas alianças geoestratégicas e as recentes movimentações militares que a Rússia tem desenvolvido na zona mais a Leste da Europa e na Ásia, nomeadamente com a China.
Avizinham-se por isso, tempos controvados e inquietantes.
Depois não digam que não avisei.
Como se isso tivesse algum peso, mas enfim... está dito, está dito.
publicado por mparaujo às 13:41
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29
Mar 07
Publicado no Diário de Aveiro, na edição de hoje 29.03.07

Post-its e Retratos
A Bela e o senão!


Ainda há guerra no Iraque, no Afeganistão, em África. A violência regressou a Timor. Os Balcãs tentam construir uma sociedade pluralista e democrática. Longe está de ser resolvido o conflito Israel-Palestina. Os direitos humanos, nomeadamente o das crianças e os referentes à exclusão social das mulheres, são diariamente desrespeitados por esse mundo fora. A geopolítica “joga-se” no Médio Oriente e no Islamismo, bem como no “fervilhar” Sul-Americano. A macro-economia mundial centra-se no continente asiático, nomeadamente na Índia, na Coreia do Sul, em Taiwan e no Japão.
Politicamente, o mundo vive uni-polarizado em torno da influência (para o bem e para o mal) norte-americana e a União Europeia ao comemorar os seus 50 anos de existência ainda não encontrou uma realidade e estruturação clara e objectiva, da qual a Constituição Europeia é apenas uma pequena expressão de um projecto que caminha mais para o abismo do que para a sua concretização. Ainda na Europa, Espanha não resolve a velha questão da autonomia basca, enquanto na Irlanda católicos e protestantes (mesmo sem apertos de mão) caminham para um hipotético entendimento.
Nós por cá… tudo bem!
A nossa realidade económica continua má; o desemprego aumenta; continuamos a “apitar” douradamente; a Casa Pia continua processualmente inerte; a corrupção não abranda; o governo continua sem oposição política capaz e até com algum abrandamento na contestação social; à segunda abortámos em referendo catolicamente derrotado; a selecção regressou ás vitórias e o ensino universitário, pós Moderna, voltou a agitar as águas. A violência doméstica aumenta e a pequena Esmeralda ainda não tem família definida. E é claro, muitos outros etc e tal. Por outro lado, vamos conseguindo manter de forma viva, aplicada, sôfrega, participada e extremamente interactiva (!) uma das nossas mais peculiares características da nossa identidade nacional: a mediocridade cultural.
Num recente e interessante estudo realizado pela Universidade Fernando Pessoa (“A expressividade do sorriso: Estudo de caso em jornais diários portugueses”), o seu Laboratório de Expressão Facial da Emoção analisou cerca de 50 mil fotografias publicadas nos jornais diários, entre Janeiro e Dezembro de 2006. Este estudo demonstrou que a expressão facial de emoções negativas é mais frequente e intensa do que a de emoções positivas. Ou seja, as pessoas estão a sorrir cada vez menos, realidade associada à tristeza, ao contexto social negativo, ao terrorismo e às catástrofes que assolaram o mundo. Mas poderíamos acrescentar uma outra conclusão a este estudo, de forma mais comum e empírica, fruto da experiência do nosso dia-a-dia: a carteira ao fim do mês. Isto é: rir de quê?
Mas se esta é uma realidade social, política e cultural existente e sem perspectivas de melhorias próximas, há que combater o fenómeno, pelo menos, com a disponibilidade dos meios de comunicação de massas (nomeadamente a televisão) de, através de alguns conteúdos, criarem a oferta da opção do rir aos portugueses. Nem que de forma pontual. Mas pelo menos terem essa oferta nos seus serviços.
Mas a questão impõe-se: a qualquer e todo o custo!? Sem a noção do serviço que é prestado, ter efeitos “colaterais” graves? Há custa da mediocridade e da estupidez humana?
Num país em que o ensino se encontra num estado caótico, em que o nível cultural é baixíssimo e onde ainda há muito para ser realizado ao nível da valorização dos recursos humanos, a televisão, no caso concreto a TVI, deveria ter o especial cuidado de, como meio de comunicação e informação, ser instrumento contributivo para o desenvolvimento intelectual da nação. Mas como bom hábito luso, temos tudo ao contrário. Sobre o pretexto da diversão, do entretenimento, do “fazer” rir, pela negativa, curiosamente, cíclica/repetitiva a TVI coloca no ar mais uma verdadeira pérola da aberração comunicacional: “A Bela e o Mestre”.
Nem sequer vou discutir a questão irrelevante do chamado estereótipo da mulher bela e “burra” porque a realidade incumbe-se de demonstrar o contrário ou a ineficácia de tal “teoria”. Nem tão pouco discutir questões de QI’s ou de inteligência masculina em ambientes pré-estruturados e delineados. E muito menos se o que nos é apresentado é real ou ficção ou se o programa dá azo e fundamentação a protestos de associações feministas.
Enquanto se discute a necessidade urgente de formação de quadros e de recursos humanos para o desenvolvimento nacional; enquanto se discute o ensino no nosso país com o conflito ministério da educação-docentes em efervescência; a sustentabilidade do ensino universitário; a completa ausência de uma política nacional de investigação científica; o sistemático e despropositado encerramento de muitas escolas; enquanto o plano tecnológico é apenas um souvenir finlandês, deparamo-nos diariamente com a subjectividade da beleza feminina, com a questionável intelectualidade masculina, mas, acima de tudo, com a verdadeira estupidez cultural. Divertir os portugueses à custa de uma triste realidade como é a falta de cultura, de conhecimento, de bom-senso de formação, é tão somente tornar este país, já em si caótico, numa verdadeira comédia.
E mais grave… com os portugueses a assistirem a tal realidade, com uma desconcertante naturalidade.
Sem se ouvirem vozes do professorado, do ministério da educação, de entidades responsáveis pela regulação do nosso processo informativo.
Assim, vamos vendo e rindo… porque Camões não existe; as regiões autónomas são Lisboa e Porto; ninguém conhece Fidel Castro; tivemos uma política Maria de Lurdes Piriquito e afinal as invasões francesas não aconteceram porque afinal Napoleão era o nosso Bocage. Reescreve-se a história na TVI de forma estupidamente natural.
Ao menos se as pernas tivessem neurónios!!!
publicado por mparaujo às 22:54

15
Mar 07
Publicado no Diário de Aveiro na edição de hoje (15.03.07).

Post-its e Retratos
Acção preventiva. Lembrar 11.03.2004.

Ninguém está livre de, amanhã, sem qualquer tipo de aviso, de repente apenas ter a noção de ouvir “PUM”. Algo que explode, rebenta e atinge as nossas vidas. Num ápice tudo se esvanece.
O Mundo tornou-se mais frágil e inseguro. Tornou-se um palco de conflitualidade, de violência, de guerra e de morte.
E esta é que é a verdadeira questão.
Há três anos, no dia 11 de Março de 2004, Madrid mergulhava num pesadelo. Não que a realidade dos atentados fosse algo estranho para aquela cidade. Mas pela dimensão, pela expressão internacional e pelo contexto e objectividade, Espanha sentia-se ferida.
Mas só Espanha?!
Por razões históricas, é conhecida a nossa relação “amor-ódio” com o país vizinho.
Pelas mesmas razões, é óbvia a nossa proximidade geográfica e um conjunto de opções político-estratégicas comuns. Exemplo: a cimeira das Lajes e a intervenção no Iraque.
É portanto preocupante este aumento da escalada de violência no Mundo.
Por várias razões e motivos, sejam de ordem ideológica, cultural ou política, podemos escolher vários (à nossa medida e gosto) responsáveis por esta triste realidade.
No entanto, há sempre um nome como referência: Estados Unidos.
Para o bem e para o mal, são os escolhidos.
Os americanos não são, sejamos objectivos e racionais, um poço de virtudes. A começar pelo que escrevi na semana passada sobre os direitos humanos.
No entanto, é reconhecida a sua capacidade, como única superpotência actual, de intervenção em situações de reconhecida insuficiência e inoperante diplomacia, em situações de clara injustiça humana.
Isenta de interesses?! Claro que não. Mas isso também seria uma verdadeira utopia.
Mesmo no nosso dia-a-dia, nas nossas vidas particulares, as nossas acções e reacções centram-se num óbvio dar e receber. É esta a necessidade comunicacional e emotiva entre o ser humano. É esta uma realidade subjacente aos povos e ás suas acções. Não como premeditações objectivas, mas como consequências naturais.
Mas é um facto que o Mundo, após o 11 de Setembro, o conflito no Afeganistão e a invasão do Iraque, se tornou mais instável, conflituoso e perigoso, a fazer esquecer o confronto mais diário e mediático das últimas décadas: o conflito Israel/Palestina.
Nos últimos anos, têm-se discutido ao nível das instâncias e na política internacionais a objectividade, legitimidade e legalidade da chamada acção preventiva.
Isto significa a permissão e possibilidade de um determinado estado, ou alianças entre estados, intervirem belicamente sobre um terceiro, se objectiva e factualmente estiver em eminência acções de conflito ou de insegurança internacional.
Por si só, esta realidade mostraria uma escalada da violência no mundo.
Mas também não deixa de ser verdade que, embora com o recurso ao conflito armado, se possa minimizar os efeitos devassos e devastadores da vida humana.
A complexidade deste paradigma resulta na certeza ou não da objectividade da acção preventiva.
Mas enquanto esta nova visão das relações internacionais se discute, a realidade da violência e do conflito tem um novo rosto e uma nova concepção, para as quais as nações não estão conscientes ou verdadeiramente preparadas.
É objectiva e relativamente clara uma percepção de uma ameaça ou conflito confinado a uma fronteira, um estado ou uma nação.
Quando esta realidade ultrapassa um espaço geograficamente definido, quando não se conhecem os propósitos políticos da ameaça, é muito difícil, para não afirmar, quase que impossível o seu combate eficaz. E é esta a realidade do terrorismo.
Ultrapassou fronteiras. Este enraizado no carácter emotivo, ideológico ou religioso das pessoas.
Não tem rosto. Não tem “morada”. Mas vive… para que outros morram.
Por mera convicção. Por falta de respeito pela vida.
publicado por mparaujo às 19:01

11
Mar 07
Há 3 anos Madrid chorava e a Europa tremia.
Mesmo aqui ao lado.
4 Combóios - 10 bombas - 191 mortos - 2000 feridos.

O Mundo não é mais o mesmo.

Atocha (Madrid) mostrava a barbárie, o terror e o medo.
publicado por mparaujo às 18:38

09
Mar 07
Publicado na edição de hoje (9.03.07) do Diário de Aveiro.
Post-its e Retratos
Os senhores do mundo…


É uma das temáticas académicas deste início do segundo semestre a questão da globalização.
O extremar de posicionamentos face a esta realidade retira a capacidade de análise racional sobre a problemática. Não se tem que ser a favor ou contra a globalização, já que esta não é fruto da actualidade e muito menos, conforme se quer mistificar, resultado de uma americanização do mundo.
A globalização é um fenómeno que é histórico e longínquo, dinâmico e mutável ao longo dos tempos. Para além de ser um fenómeno perfeitamente transversal na sociedade, completamente abrangente. Não se reduz apenas à vertente económica ou comercial. A globalização é social, política, histórica e cultural.
Ela surgiu quando nasceram as primeiras intercomunicabilidades entre pessoas e povos, gerando interacções. E estas mudaram e condicionaram as pessoas, as sociedades, os povos e as nações.
Para não recuar demasiado no tempo, pode-se afirmar que a globalização nasceu com o início da época dos descobrimentos e com as interacções daí resultantes, tenham sido elas do ponto de vista social, cultural, político ou económico.
Portanto, convém desmistificar esta problemática de que a globalização corresponde, mais ou menos, a esta recente invasão do Tio Sam.
No entanto, também não deixa de ser uma realidade que a presença americana no mundo tem condicionado, para o bem e para o mal, as relações entre os povos, a todos os níveis.
Esta nova unipolaridade da hegemonia americana conduz a uma visão muito restrita da política internacional. Ao ponto de esta hegemonia resultar num evidente complexo de superioridade que transforma o americano no “senhor do mundo”.
Esta visão é de tal forma marcante que as suas acções chegam ao ponto de serem desencadeadas à margem ou paralelamente ás instituições e normas internacionais. Temos sempre presente o caso Iraque.
Mas a ingerência norte-americana nas soberanias nacionais não se fica por aqui.
Foi notícia esta semana o relatório que o Departamento de Estado dos EUA produziu sobre violações dos direitos humanos em vários países, nomeadamente Portugal.
Neste campo particular (e eventualmente noutros) a necessidade que os EUA têm de se imiscuírem nas soberanias dos outros povos, começa a ter contornos pueris.
Em primeiro lugar porque não existiu qualquer determinação internacional para legitimar tal relatório.
Segundo, é interessante verificar alguns aspectos desse mesmo relatório, incluindo os pontos referentes ao nosso país, já que muitos espelham a própria realidade norte-americana.
Que legitimidade, autoridade ou isenção têm os EUA para virem criticar países que, por força de uma cultura social ainda muito enraizada em princípios ancestrais, fazem da morte um regra de justiça, quando, em pleno século XXI há estados Norte-Americanos que ainda não aboliram a pena de morte?!
Onde está a condenação americana à violação dos direitos dos homens no processo do enforcamento de Sadam Hussein?!
Como pode um relatório por em causa acções das forças polícias de outros países, quando são mais que sobejamente conhecidos os abusos de autoridade cometidos pela polícia americana?!
Desde quando é que os EUA são o poço de virtudes na questão dos direitos raciais e étnicos, na exploração sexual, na pedofilia e nos crimes e violência domésticos, para porem em causa as realidades dos outros países?!
Desde quando é que os EUA têm já controlada a problemática da clandestinidade e da sua relação com a exploração da mão-de-obra?!
Ontem comemorou-se o Dia Internacional da Mulher. Um dos aspectos focados no caso português, respeita ao aumento do número de casos de violência doméstica. Se por um lado, é uma triste realidade social que urge combater, também não deixa de ser verdade que o aumento numérico dos casos resulta numa maior predisposição para a acusação e no aumento estatístico na identificação de casos.
E mesmo aqui, não é exemplo a realidade americana.
Os EUA não têm, por si só, que publicamente teorizar sobre as realidades dos outros países.
Esta é uma forma de esconder a sua triste realidade social e cultural no que respeita à violação dos direitos humanos.
Seria bom que o governo Norte Americano olhasse primeiro para o seu espelho e “arrumasse” a sua própria casa.
Para este papel fiscalizador já existe a isenção, a credibilidade e a legitimidade de instituições como os organismos não-governamentais como a Amnistia Internacional, assim como o Conselho da Europa e as Nações Unidas.
publicado por mparaujo às 13:45

01
Mar 07
Hoje no noticiário das 20:00 horas.
Mãe belga "mata" os seus cinco filhos e tenta, em seguida, o seu suicídio.
Por mais irracionalidade que se queira incutir ao acto, só num perfeito estado de desespero e emotividade descontrolada é que se pode encontrar alguma justificação para que uma mãe consiga cometer tal acto bárbaro.
A vida, em momentos, pode tornar-se desesperante.
publicado por mparaujo às 21:26

30
Dez 06
As minhas previsões estavam certas. Não que isso me traga qualquer rasgo de felicidade. Bem pelo contrário. Infelizmente só acerto no que não é racional e benéfico. (por isso é que para a semana à jackpot no euromilhões).
A reacção óbvia ao enforcamento de Saddam Hussein - Aqui.
A estupidez habitual no discurso de quem pensa que é dono do mundo e das pessoas, mais a sua real aliança - "A execução do antigo ditador iraquiano é "uma etapa importante" no caminho para a democracia no Iraque, afirmou o presidente norte-americano George W. Bushqui".
E a hipocrisia europeia da condenação do acto, mas com o habitual lavar de mãos historicamente herdado de Pilatos - Aqui.
publicado por mparaujo às 13:07

Por uma questão de princípio (valores), pela defesa da vida, por razões sociais, culturais e por razoabilidade civilizacional: pena de morte… NUNCA!
Como diz a Carta dos Direitos Fundamentais: "ninguém pode ser condenado à pena de morte, nem executado".
Ninguém. Nem mesmo por razões que a emotividade e o irracional desconhece.
Ao fim de um julgamento, que contemplou situações mais próximas do dantesco, do polémico e do anárquico, do que propriamente do conceito de justiça e do judicial, Saddam Hussein foi esta madrugada enforcado (publico on-line). Condenar o que foram os 24 anos de ditadura e as atrocidades étnicas, religiosas e políticas cometidas pelo regime de Saddam é relativamente fácil e óbvio.
Por outro lado, para quem defende a dignidade humana e o valor da vida, é racionalmente espontânea a oposição consciente à pena de morte. O princípio defendido que punir um crime com outro crime corresponde à lei do “olho por olho, dente por dente”. Nada justifica um crime com outro crime.
Aliás, até que ponto o cumprimento da sentença já algum tempo proferida, não irá desencadear uma onda de revolta na minoria sunita, transformando Saddam Hussein num verdadeiro mártir?!
Onde está a coerência da Europa (bastião da defesa da abolição total da pena de morte) que publicamente condenou, as atrocidades do regime de Saddam e que, apesar disso, se opôs igualmente (salvo as excepções conhecidas - Inglaterra, Espanha e Portugal) à intervenção norte-americana?!
Que relevância ou pressão diplomática junto da Administração Bush tem a posição Europeia na condenação da sentença, no sentido de exigir a face inegociável de um princípio como o da defesa da dignidade humana e da vida?!
Uma Europa que, num verdadeiro instinto de avestruz, traduzido pela subserviência aos Estados Unidos, diz-se revoltada, mas amorfa na defesa da sua Carta Europeia dos Direitos Fundamentais.
Hoje, não deixa de ser verdadeiramente importante reflectir-se o que foram estes últimos anos de Iraque, após a “captura” de Saddam: um incalculável (porque contraditório) número de mortes, atentados diários, insegurança e instabilidade (medo), crise social e económica instalada. A democracia tão apregoada, continua uma miragem na aridez dos desertos iraquianos. A isto tudo, acresce os conhecidos e polémicos casos de abuso das forças militares estrangeiras, nomeadamente as americanas e britânicas, que em nada se inferiorizam aos acontecimentos do então regime iraquiano.
A razão e a legitimidade assiste a quem souber fazer e pautar-se pela diferença. E não pelos mesmos meios que nunca justificam os fins.
Assim termina um 2006 que em nada augura um melhor 2007.
publicado por mparaujo às 12:12

10
Dez 06

O Mundo ficou mais livre e mais justo.
Se é que alguma vez justiça.
Morreu o ditador chileno Augusto Pinochet.

E morreram muitas outras vidas, em defesa da liberdade e da democracia. É dessas a memória hoje.
publicado por mparaujo às 23:48

03
Dez 06
Fidel Castro não apareceu publicamente na comemoração do seu 80º aniversário.
O seu irmão Raúl Castro, prepara-se para retomar as relações com os USA.

Finalmente vamos ter uma Cuba Libre!
publicado por mparaujo às 23:27

09
Nov 06
Há 17 anos, a 9 de Novembro de 1989, o impensável acontecer aos olhos do mundo.
Um dos maiores símbolos da Guerra Fria, da intolerância entre os povos, da divisão do mundo entre o Leste e o Ocidente, da anti-democracia, era derrubado.
Principalmente na Europa, o desenho geopolítico ganhava outra forma e o velho continente redesenhava-se.
Hoje, volvidos 17 anos, o Muro de Berlin caiu, mas o mundo continua a construir novos muros, do ponto de vista físico, político, social, económico e religioso.
É mais fácil separar que unir.
publicado por mparaujo às 22:17

08
Nov 06
O Partido Democrata conquista o Senado Americano, com relativa vantagem em relação aos Republicanos de George W. Bush.
Uma das razões para tal resultado, prende-se com o cansaço da sociedade norte-americana e a necessidade de mudança, principalmente ao nível da política externa, já que no essencial a visão social e económica dos dois partidos são muito semelhantes.
Foi portanto, a realidade da Guerra do Iraque e a forma como os Estados Unidos lidaram com o pós 11 de Setembro que marcaram estas eleições, de uma forma demonstrativa do "apertar o cerco" a Bush.
E em política estas realidades fazem normalmente "vítimas".
Fazem-no durante as campanhas e no pós votações.
Em campanha, quando Kerry, "brincou" com a realidade da guerra do iraque e beliscou a estrutura militar, quase que deitando por terra os trunfos dos democratas, foi imediatamente retirado.
Após a divulgação dos resultados, aquele que foi, publicamente, o rosto da sustentação cega da guerra do Iraque - nomeadamente com a questão do fantasma das armas escondidas, teria que ser a próxima "vítima": Donald Rumsfeld apresentou a sua demissão do cargo de secretário da defesa americana.
Tem agora tempo para procurar e provar a sua teoria das armas de destruição maciça.
Se preferir, no terreno!
publicado por mparaujo às 22:21

02
Out 06
As eleições presidenciais brasileiras que ontem se realizaram defraudaram a espectativa do PT numa reeleição do actual presidente Lula à primeira volta.
As mesmas eleições criaram uma espectativa e uma esperança para milhares de brasileiros desiludidos com a inércia, com a fraude, com a corrupção de um governo que nada trouxe de benéfico ao Brasil. De um presidente que enganou as suas próprias bases e origens.
Prova disso, foi a total ausência do debate político com Lula da Silva. Pela necessidade de fugir à verdade e à realidade. Pela necessidade de não ter dejustificar o injustificável. Pelo simples facto de nada ter para dizer.
A escolha entre Lula da Silva e Geraldo Alckmin, do PSDB (cerca de 42% dos resultados expressos) está marcada para daqui a quatro semanas, no dia 29 de Outubro.
Até lá, a conquista de um eleitorado indeciso, de desiludidos, ou uma margem que garanta a eleição - o ganhar os votos preciosos, vai concerteza trazer muita água ao moínho.
Até lá a esperança renasce e motiva a mudança.
publicado por mparaujo às 20:34

21
Set 06
Hoje celebra-se o Dia Mundial da Paz.

Mas qual Paz?!
E em que mundo?!
publicado por mparaujo às 13:09
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15
Set 06
A data que mudou o mundo deve merecer momentos importantes de reflexão. Mesmo aqui, neste “paraíso” aveirense.
O 11 de Setembro de 2001, é um acontecimento que dificilmente se poderá esquecer, muito menos apagar da memória de milhares de pessoas e da história contemporânea.
Mas sempre pelos piores fundamentos.
Passados 5 anos, o que mudou então?!
Ficou o mundo mais seguro?!
A resposta óbvia e coerente é não! Claro que não!
Os acontecimentos de Manhattan - New York, Washington e Pennsylvania naquele fatídico dia chocaram a América e o Mundo. E a esta distância temporal, no regresso ao passado, as imagens ainda chocam e transportam uma perplexidade difícil de explicar.
A poderosa e inatacável América tornou-se vulnerável.
O Mundo tornou-se mais frágil e inseguro. Tornou-se um palco de conflitualidade, de violência, de guerra e de morte.
No pós 11 de Setembro, já tivemos 200 mortos no Bali (Outubro de 2002), 190 mortos em Madrid (Março de 2004), 70 mortos em Londres (Julho de 2005) e 200 mortos em Bombaim (Julho de 2006).
É a expressão real da máxima: violência gera violência; conflito gera conflito. Da irreflexão do ataque ao Afeganistão, até à incompreensível e infundada invasão do Iraque.
Não queiram entender nestas palavras qualquer movimentação anti-americana. Por princípio ideológico não o poderia fazer.
Mas é um facto que até ao dia 11/9 e mesmo após essa data, nas acções de segurança interna de vários países, o mundo sempre soube “capturar” terroristas sem recorrer ao confronto bélico.
Daí que necessidade de invadir um país como o Afeganistão, para capturar Usama bin Laden, pela responsabilização dos atentados de 11/9 foi um acto irreflectido. Passados 5 anos, Bin Laden continua algures entre o Paquistão e o Afeganistão. Passados 5 anos o sul do Afeganistão volta a “cair” nas mãos dos talibãs.
E nesta data, é importante e relevante a captura do líder da Al-Qaeda?! Não é.
Mesmo após algumas figuras da rede terem sido atingidas, mesmo que há cerca de dois anos não se saiba nada do seu líder, a Al-Qaeda já ultrapassou a sua essência. Hoje mais que uma associação, a Al-Qaeda transformou-se num conjunto de células espalhadas por todo o mundo, baseadas no seu princípio.
E hoje a sua importância, mormente o renascimento do “talibanismo” no Afeganistão, começa a ser repensada. Tão ou mais importante é o papel da Síria, do Irão, do Hezbollah no Líbano e os xiitas na Arábia Saudita.
A Al-Qaeda não criou o Jihadismo. Ela baseia-se na Jihad islâmica. E este fundamentalismo é “universal” no mundo islâmico e muçulmano.
E esta é que é a verdadeira questão.
O mundo, após os ataques às Torres Gémeas e ao Pentágono(!), tornou-se mais vulnerável, mais inseguro pelo aumento do terrorismo assente num aumento do ódio entre o mundo ocidental e o mundo islâmico.
A totalmente questionável e irreflectida invasão do Iraque, sem a descoberta das armas químicas, sem a prova da ligação de Saddam Hussein a Bin Laden ou de Bagdad (Iraque) aos atentados de 11/9 (aliás, recentemente reconhecido pelo senado americano), tornou o terrorismo mais forte. Criou um maior antagonismo entre os dois mundos, tão distintos. Aumentou o ódio entre islâmicos e muçulmanos e ocidentais. Aumentou o receio, a desconfiança política, reflexo das sucessivas acções e “mentiras” desta administração do presidente Bush. Aumentou os atropelos ás liberdades fundamentais e aos estados de direito, como o comprovam os voos da CIA e as prisões secretas americanas espalhadas na Europa.
Reconheço o direito de quem é atacado em se defender. Ninguém ficaria indiferente se atacassem a Torre Eifel, a nossa Torre de Belém, etc. Não reconheço que a sua defesa se faça na base do “olho por olho, dente por dente”, no uso e justificação de quaisquer meios para atingir um fim. Ao fazê-lo as circunstâncias e os papéis são iguais. Tornamo-nos, obviamente, terroristas.
O mundo passou a ser “governado” por um submundo cheio de secretismo, de interesses obscuros, sem respeito pela dignidade humana, pelos direitos fundamentais.
A realidade é que, nestes últimos 5 anos, o ocidente ficou refém do terrorismo que “ajudou” a aumentar e a espalhar, mesmo para dentro das suas fronteiras e da declaração de “guerra santa” do mundo islâmico.
A realidade é que o ocidente está refém de uma economia que se baseia essencialmente, se não exclusivamente, no petróleo, riqueza e matéria-prima do mundo árabe.
Por estes princípios, é difícil o combate desta dualidade Ocidente-Islamismo através da via do diálogo, da tentativa de democratização e socialização do mundo árabe.
As consequências e as opções tomadas após o do dia 11 de Setembro e 2001, das quais se destacam as invasões ao Afeganistão e Iraque, o conflito recente Israel-Libano, o desenvolvimento nuclear no Irão, começam a tomar proporções maiores que os ataques daquele dia.
A intolerância, o ódio, os preconceitos, o desrespeito pela condição humana, aumentaram.
O mundo tornou-se mais dividido, com maiores divergências políticas ou económicas, principalmente mais relevantes naqueles que eram, até há 5 anos atrás, os maiores aliados (Europa e Europa-Estados Unidos).
Hoje, volvidos apenas 5 anos, no mundo há mais terrorismo, há mais guerra, mais violência e mais mortes.
Hoje, a Humanidade morreu.
O mundo precisa de voltar a mudar.
(publicado na edição de 16.09.2006 no Diário de Aveiro)
publicado por mparaujo às 10:40

12
Set 06
O José Alberto Mostardinha, tem nos Estados Gerais um post intiulado A Paz é Possível.
Obviamente, ninguém, por mais fundamentalista que seja, gosta da guerra, por todas as razões inerentes e que se queiram delinear.
Por razões culturais e sociais, logicamente que, em teoria, a Paz é possível.
Mas sejamos realistas.
O mundo não é uma tela cor de rosa.
O mundo não é um conto de fadas, um um filme holyodesco.
O mundo é feito de homens, de interesses, de convicções antagónicas, do bem e do mal.
O mundo é feito de realidades...
Nesta questão, sou extremamente, se quiserem mesmo, fundamentalmente céptico.
A paz não é possivel.
Os homens são impossíveis.
Não pensam da mesma maneira, não têm as mesmas convicções, as mesmas filosofias de vida.
O mundo não tem os mesmo interesses.
Por isso a Paz, não é, nem nunca foi possivel.
A história passada e a mais remota que a memória da humanidade tem como registo, prova-o desde o início do Mundo.
A história presente prova-o.
A ilusão desvirtualiza a factualidade existencial.
publicado por mparaujo às 02:21

11
Set 06
O Dia em que o terrorismo mudou o Mundo.




Sem mais pelo respeito às vítimas.
publicado por mparaujo às 10:45

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