Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

31
Mai 17

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não publicado na edição de hoje, 31 de maio, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Os falsos moralismos

Decorreu, no final da passada semana, a Cimeira da NATO que reuniu os principais países na Bélgica.

Entre os vários acontecimentos destaca-se o discurso do Presidente dos Estados Unidos que, entre outros temas e outras críticas, aborda a questão dos refugiados. Só que, à “boa maneira” de Donald Trump, a questão, fruto da recente vivência trágica dos acontecimentos em Manchester – Inglaterra, é analisada pelo pior prisma e de forma intelectualmente desonesta.

Continua-se, quando dá jeito em termos de retórica política e para desviar as atenções sobre responsabilidades não assumidas e/ou escondidas, a misturar a tragédia humanitária que envolve esta crise dos refugiados com o problema do terrorismo.

Não há nenhuma prova da relação entre o ciclo migratório dos refugiados, nomeadamente os do Médio Oriente, e os actos de terrorismo que se fazem sentir, principalmente, na Europa nos últimos anos. Os atentados terroristas foram planeados, organizados e praticados por cidadãos europeus de plena condição, independentemente das suas origens. E alguns destes actos nem ligação ao Estado Islâmico têm, basta recordar, por exemplo, o massacre na Noruega (22 de julho de 2011) ou alguns dos acontecimentos recentes nos próprios Estados Unidos.

Focando-nos nas palavras xenófobas de Donald Trump, que afirmou, a determinada altura do seu discurso, que era urgente e essencial dureza para com os refugiados que, segundo o próprio, não se sabem quem são, nem de onde vêm.

A verdade é que este exercício de responsabilizar quem sofre directa e pessoalmente os impactos da guerra e da permanente violação dos direitos humanos, de responsabilizar quem tenta, num último e derradeiro acto de desespero (mesmo que a morte seja encontrada nas águas do Mediterrâneo) fugir à morte na guerra ou às mãos das atrocidades das forças do Estado Islâmico, é, no mínimo, um deplorável e inaceitável discurso de populismo e falso moralismo. Ninguém se refugia por vontade própria, por escolha de vida, por uma opção migratória. Os refugiados (não confundir com processos de emigração) são-no por uma questão de sobrevivência, por uma imposição conjuntural face aos conflitos que outros riam e exploram nas suas localidades, regiões ou países.

E nestes cabem muitos dos que hipocritamente se desresponsabilizam pelas posições e opções geopolíticas e geoestratégicas que tomam.

Que moral tem Donald Trump para actuar ou exigir dureza para com os refugiados se ainda hoje morrem em sucessivos atentados milhares de pessoas no Iraque ou no Afeganistão (supostamente salvo pela intervenção americana)?

Que legitimidade tem Donald Trump para se apresentar como exemplo internacional ou como salvador do mundo se ainda na semana passada “prestou vassalagem” a um dos maiores mercados de armamento, a um dos principais centros do conservadorismo e radicalismo islâmico e a um dos países que mais desigualdades e violações dos fundamentais direitos humanos, como é a ocidentalizada Arábia Saudita?

Que moral tem a União Europeia, a NATO, a Rússia, a China, o Canadá ou os Estados Unidos para responsabilizarem terceiros pela forma como se auto-desculpabilizam pela situação na Síria, no Íemen, no Iraque, no Afeganistão, no Congo, no Sudão, na Nigéria, na república Centro África, na Somália, na Faixa de Gaza, entre outros?

Que moral tem a União Europeia para aclamar uma solução para a tragédia humanitária dos refugiados perante o condenável negócio que fez com a Turquia para tentar estancar um problema que, internamente, não soube e não quis resolver?

A questão do Terrorismo tem de ultrapassar as barreiras dos interesses económicos (petróleo e mercado internacional de armamento), tem de ultrapassar os interesses geoestratégicos das potências internacionais como se a vida dos povos e das nações fosse um mero jogo de xadrez, tem de ser solucionada, acima de tudo, através da diplomacia e da política e não da “força”.

A dureza que Donald Trump referia no seu discurso tem que ser, em primeira instância, para o assumir das responsabilidades de todos, pelo consenso nas actuações internacionais e pelo respeito primeiro pela dignidade humana e pelos direitos humanos.

O resto é a continuação da perigosidade dos populismos, dos extremismos e dos falsos moralismos.

publicado por mparaujo às 09:40

12
Mar 14

publicado na edição de hoje, 12 março, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
A Leste... nada de novo.
Na análise ao conflito na Ucrânia, com extensão actual à Crimeia, há quem queira retomar a história com as invasões da (na altura) Checoslováquia (a célebre, Primavera de Praga) ou do Afeganistão; e há quem relembre, mais recentemente, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, contrapondo-se, assim, posições pró e contra. Invasão é sempre invasão… facto.
A Rússia tem interesses geopolíticos, geoestratégicos na região. Os Estados Unidos, sob a capa das armas de destruição maciça fantasmas, tinham óbvios interesses geopolíticos, geoestratégicos e económicos no médio oriente, aquando da invasão do Iraque, muito para além da questão do combate ao terrorismo. Empate.
O que deixa uma maior incerteza e preocupação quanto ao futuro é que a União Europeia não vai ter coragem para o confronto, mesmo que político e diplomático, com a Rússia; os Estados Unidos (e a NATO), para além da demagogia geopolítica, não servem de exemplo em relação à violação do direito internacional e não se sujeitarão a retomar os tempos da guerra fria. A Ucrânia fica, assim, entregue às suas próprias mãos e aos seus destinos, agudizando o conflito político e social entre pró-europeus e pró-russos.
Na guerra diplomática da condenação da violação do direito internacional, Estados Unidos e União Europeia são céleres a condenar a Rússia pela “invasão” da Crimeia. Diz o ditado que “quem tem telhados de vidro não deve atirar pedras ao telhado do vizinho”. E são muitos os telhados de vidro, esquecendo-se a “natural” (mesmo que não justificável) posição geopolítica e geoestratégica da Rússia naquela zona, o passado histórico-político da URSS e os “motivos semelhantes” que sustentaram outras acções por parte da UE e dos Estados Unidos (sob a NATO). Mas há ainda outro facto. A Rússia, com a “justificação” dos acordos celebrados com a Ucrânia e com a “defesa” das suas bases militares no Mar Negro, entrou pela Crimeia a dentro. Para o “ocidente” tal significa uma clara violação do direito internacional e uma evidente invasão de um Estado independente e soberano. Até aqui, parece óbvio. Mas tal como a Rússia que pretende defender os seus interesses, a mesma “violação” da independência e soberania da Ucrânia não é colocada em causa quando Estados Unidos e União Europeia aliciam e chantageiam com os 11 mil milhões de euros prometidos ao país (e que tão urgentemente precisa), bem como a pressão de uma adesão apressada e forçada à União Europeia até 21 de março?
Neste conflito há uma hipocrisia e um jogo do “faz-de-conta” (ou um bluff diplomático) evidentes e no qual muito poucos acreditarão: as ameaças de sanções da União Europeia e dos Estados Unidos à Rússia. Aliás, a questão é tão mal disfarçada que as ameaças não passam disso mesmo… puras ameaças políticas, sem quaisquer consequências.
Dando de “barato” a Ucrânia ou parte dela (se a isso obrigados), a Rússia defenderá a todo o custo, na Crimea (e no Mar Negro), os seus interesses políticos (regionais) e, principalmente, militares. É óbvio que as movimentações de Putin neste conflito não são, apesar da ausência (para já) do uso da força ou da violência, inocentes e não se escondem apenas na defesa dos legítimos interesses geopolíticos e geoestratégicos na Crimeia (porque em relação à Ucrânia estão já quebrados os protocolos e acordos que existiam, deixando o país à beira de um colapso e abismo financeiro). Ao colocar as suas forças em alerta na defesa dos pontos estratégicos russos naquela Região Autónoma, a “pressão militar” resultou já nos seus frutos. E enquanto a Ucrânia vai perdendo a “guerra”, Putin vai ganhando batalha a batalha. O parlamento (conselho regional) da República Autónoma da Crimeia aprovou a reunificação da Crimeia com a Rússia estando agendado um referendo (quanta democracia…) para decisão popular. Recorde-se que o governo desta região autónoma da Ucrânia não reconheceu o novo governo interino ucraniano e manifestou-se, desde de sempre, ao lado do presidente deposto (Ianukovich). Tudo isto deverá fortalecer Putin, relembrando o que foi o papel da Crimeia na própria história do leste: derrota do império Otomano e a dependência do Império Russo, no século XVIII; a guerra de sucessão e expansionismo russo – Guerra da Crimea e o Tratado de Paris em 1856 - no século XIX; a sua relevância estratégica na Segunda Guerra Mundial, com a pesada derrota para os invasores alemães (o que não deixa de ser curioso face à pública posição alemã no actual conflito); a supremacia da URSS e a “razia étnica” dos Tártaros, durante liderança de Brejnev, sendo substituídos por cidadãos russos. Principalmente este último aspecto da história da Crimea traz um dado importante para o processo e para o anunciado referendo sobre a reunificação: 60% dos cerca de dois milhões de habitantes da Crimeia são russos. Se dúvidas houvesse…
Por fim, sendo certo que os “cenários de guerra” são, hoje, totalmente distintos (mesmo em relação à Guerra do Golfo) é bom recordar que, este ano de 2014, a história completa 100 anos após os acontecimentos que levaram à I Guerra Mundial (28 de julho de 1914). Por curiosidade…

publicado por mparaujo às 13:24

23
Out 11
Na última década, a procura justiceira por garantir uma determinada liberdade em vários pontos do planeta foi, essencialmente, marcada pelo envolvimento de parte da comunidade internacional e da ONU numa relação de forças com a Al Qaeda (Bin Laden) e Iraque (Sadam).
Para além disso, mantém-se historicamente a relação de forças e o conflito latente entre Israel e Palestina, sem resolução previsível.
Mais recentemente, esta cruzada pela libertação dos povos da tirania terminou com o caso Líbia e com a captura e morte de Muammar Kadhafi (embora seja de prever que, apesar dos acontecimento e do júbilo, muita instabilidade e conflitualidade ainda está para surgir na Líbia pós-Kadhafi).
O mais curioso neste processo de libertação da humanidade é a hipocrisia e os interesses escondidos, e a ingerência selectiva na história de alguns países, sempre com a bandeira justiceira hasteada com o símbolo da ONU, da NATO, por influência directa das últimas e actual Administrações Americanas.
Primeiro, o sentimento de vingança pelos atentados 11 de Setembro (compreensível mesmo que questionável, já que se sabe que violência gera violência), com a declaração de guerra ao inimigo público nº1 dos americanos (extensível aos espanhóis e ingleses, após os respectivos atentados da Al Qaeda).
Segundo, a falhada argumentação das armas de destruição "escondidas" em território iraquiano e a sustentação de que o regime de Sadam era a fonte e o apoio directo à Al Qaeda justificaram a invasão do território, a imposição de novas forças governativas.
Terceiro, a importância geoestratégica e geopolítica que Israel tem para os Estados Unidos na correlação de forças e presença na região é inquestionável. Daí o adiar permanente da resolução do conflito, que tem mais de político do que histórico, com a Palestina.
Quarto. Por último, após várias agitações sociais na região - a Primavera Árabe - que começaram na Tunísia no final de 2010 e início de 2011, e passaram por Marrocos, Egipto, Síria, entre outros, terminando, esta semana, na Líbia com a morte de Kadhafi. Não deixa de ser um facto relevante a determinação do povo em se libertar de décadas de opressão, perseguição, mortes, ausência de liberdade e democracia. Os povos sentiram espaço social, público e político, e aproveitaram a oportunidade para exprimirem o seus gritos do "Ipiranga".
Mas há, inquestionavelmente, uma clara hipocrisia na fundamentação de toda esta cruzada pela libertação dos "oprimidos". Ou por razões políticas, ou por razões geoestratégicas, ou, acima de tudo, por razões económicas, principalmente relacionadas com o petróleo.
Porque não actuam a ONU, a NATO ou os Estados Unidos, na Coreia do Norte ou em muitos recônditos da Ásia (como foi, por exemplo o caso da Indonésia vs Timor)? Porque, ao fim de tantos e tantos anos, África continua a ser esquecida, abandonada e ignorada?
No caso da Líbia, tal realidade é gritante. Kadahfi serviu, em pleno regime ditatorial e de terror, diversos interesses europeus (desde a França a Portugal) e internacionais. Independentemente da situação interna do país, todos os olhares internacionais se fechavam face aos interesses económicos. Quando esse ficaram postos em causa, o "amigo" controverso passou de cerca de 40 anos para, em seis meses, um dos ditadores mais cruéis da história da humanidade. Tal como o interesse na "democratização" do Iraque.
E mais hipócrita se torna esta ingerência nos processos sociais de alguns países que o "day after" se torna tão convulsivo como o processo de "libertação". Veja-se o caso da Tunísia que vai hoje a votos mas onde a desilusão impera, com a intenção de grande parte dos jovens que deram início à revolta popular nem sequer participarem no processo eleitoral face à crise económica, ao desemprego e ás dúvidas quanto ao futuro político do país.
Provavelmente, a "Primavera Árabe" necessitará ainda de um Verão ou Outono para se consolidar.
Espera-se que de forma mais pacífica e livre de interesses obscuros.
Nota final: independentemente do que tenha sido o "reinado" déspota de Muammar Kadhafi, o resultado final, a forma como lidaram com a captura do ditador mancha, e de sobremaneira, todo o esforço para libertar a Líbia. A execução sumária e bárbara do ex-líder líbio não é, em nada, diferente das execuções sumárias do regime. Não foi um acto de combate, de confronto, foi um acto desprezível e de pura vingança. A lei abominável do "olho por olho, dente por dente".
publicado por mparaujo às 01:02

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