Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

20
Jul 16

Mundo ao Contrario.jpgpublicado na edição de hoje, 20 de julho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Virado do avesso

As recentes semanas têm sido, passe a expressão, de “loucos”. E não me refiro propriamente aos inúmeros e impensáveis sucessos desportivos que têm sido conquistados nos diferentes campeonatos europeus e mundiais nas mais diversas e distintas modalidades. Não deixa de ser um momento particularmente importante mas há outras realidades para além do desporto. E realidades que merecem especial atenção porque deixam antever alguma preocupação quanto ao futuro do país, da Europa e do mundo.

  1. A forma como a Europa não tem sabido lidar com a questão do terrorismo foi por demais evidente no trágico acontecimento de Nice, na passada quinta-feira. O medo e o sobressalto permanentes (mesmo que escondido) com que a França encara o seu dia-a-dia estiveram demasiado presentes nas reacções precipitadas, imponderadas e impetuosas com que as entidades responsáveis francesas e o Presidente François Hollande avaliaram a barbárie cometida. A França, face aos inúmeros atentados que tem sofrido (aos quais se acresce os da vizinha Bélgica) e á forma como tem agido perante o problema global e latente, não soube ter o discernimento e a sensatez necessários para uma eficaz e consciente avaliação dos factos. Teria sido preferível do que retomar discursos e intenções que reforçam e redobram sentimentos de ódio e de xenofobia que, apesar do modo e do que as investigações ainda possam revelar, até à data, se revelam perfeitamente escusados.
  2. Mas já que de terrorismo se fala, importa um olhar sobre a Turquia e a forma como a Europa (lembremos todo o histórico processo de integração na UE permanentemente recusado e o mais criticável recente acordo no processo dos refugiados) ou a comunidade Internacional (lembremos que a Turquia é membro pleno da NATO com um dos maiores exércitos, e a presença de bases militares americanas em território turco, para além dos hipócritas acordos no combate ao terrorismo) se tem relacionado com esta “porta” entre o Ocidente e o Oriente em permanente “combustão”. Os acontecimentos de sexta-feira, que cada vez mais comportam contornos de manipulação e de premeditação governamental, têm um claro e perigoso resultado: o aumento da popularidade de Erdogan, a clara purga da oposição, o reforço dos poderes totalitários do presidente turco, o declínio dos pilares de um Estado democrático e de direito, a diminuição dos fundamentais direitos humanos, e o perigoso aumento do peso geopolítico e geoestratégico da Turquia naquela região, seja do ponto de vista económico e social, seja do ponto de vista militar e no combate ao terrorismo, sendo que nesta caso é mais que conhecido o jogo duplo do governo de Ancara.
  3. Olhemos ainda para a União Europeia e o seu perfeito estado de deriva política e social, a sua degradação e fragmentação. Se há cerca de um mês seria expectável que o Brexit pudesse, por diversas formas e contextos, ser reversível, após a mudança do “inquilino” do número 10 da Downing Street, em Westminster (Londres) já tudo parece inevitável. De facto, com a saída de David Cameron da liderança do Governo britânico e a entrada de Theresa May, tudo parece ficar mais clarificado. A nova primeira-ministra britânica foi uma clara apoiante do Brexit e na remodelação do executivo inglês não teve qualquer constrangimento ao colocar nas principais pastas governamentais, como os Negócios Estrangeiros e da Economia, dois fortes opositores de Cameron e principais impulsionadores, no Partido Conservador, do Brexit: o rosto mediático do Brexit, o polémico Boris Johnson e Philip Hammond, respectivamente. Mas não deixa de ser revelador da vontade do Reino Unido em abandonar a UE com a criação do ministério do Brexit, que tutelará as negociações com a União Europeia, tendo como responsável mais um apoiante do Brexit David Davis. Mas se todo este processo se torna agora mais evidente e claro mas ao mesmo tempo esperado, a nova governação britânica deixa muito a desejar e a temer. Com tão pouco tempo de governação já houve oportunidades de sobra para a polémica. Por exemplo, quando se teme tanto ao olharmos para a Turquia, não assusta menos ouvirmos a nova primeira-ministra do Reino Unido a afirmar, clara e directamente, em plena Câmara dos Comuns que não hesitaria em usar armas nucleares, sem olhar a inocentes, incluindo crianças, com o objectivo de mostrar a força bélica aos “inimigos britânicos“.

Se é verdade que o Mundo sofre com a ausência ou degradação de valores políticos não deixa de ser menos verdade que o Mundo sofre ainda mais com a maioria dos políticos que governam o mundo.

publicado por mparaujo às 10:04

18
Jul 16

card_camiao_franca_nice_atentado_reuters_eric_gail

Trágico. Bárbaro. Criminoso. Inqualificável. Sem perdão.

Estas são algumas das palavras que sempre acompanharam a minha reflexão sobre os acontecimentos de Nice, na passada semana, na quinta-feira, 14 de julho (comemorações nacionais francesas da Tomada da Bastilha) à noite.

Volvidos estes dias o balanço é aterrador: 84 mortos (14 ainda por identificar), 202 feridos dos quais 40 em estado grave.

O que deveria ter sido, por si só, um acto suficientemente bárbaro para merecer todo o nosso repúdio e solidariedade para com as vítimas e o povo francês, rapidamente teve um outro efeito: o da polémica em torno das motivações que levaram Mohammed Lahouaiej Bouhlel, de 39 anos, a avançar com um camião sobre uma multidão durante cerca de dois quilómetros, até ser imobilizado e abatido.

O mundo, nomeadamente a Europa e muito particularmente a França, vivem momentos de enorme tensão, de um inquestionável e natural estado de nervosismo e medo, pânico, mesmo que não se torne permanentemente visível e expresso. Mas a verdade é que esses sentimentos existem, a par de um reprovável crescimento de sentimentos de exclusão, homofóbico, xenófobos e racistas.

Mal foi conhecida a tragédia rapidamente toda a análise, a maioria das pessoas e todas as atenções se viraram para a Síria e para o islamismo radical.

As reacções dos cidadãos, dos especialistas comentadores (por exemplo, portugueses em vários comentários nas estações de televisão e nos jornais) e até do próprio Presidente francês François Hollande que publicamente anunciou o prolongamento, por mais três meses, do estado de emergência que dura desde 2015 sem deixar de anunciar a "necessidade(?)" de bombardear a Síria.

Apesar do modo e da forma, apesar de uma agência de notícias vinculada ao sis ter, no sábado passado, referido que Mohammed Bouhlel era "soldado jihadista" (o que é um anúncio verdadeiramente estranho fieto 48 horas depois dos acontecimentos), o Governo francês vem, publicamente, assumir não ter encontrado ligações do crime ocorrido na passada quinta-feira, nem do seu autor, com redes islâmicas terroristas.

Mesmo na tragédia e no horror há a necessidade de, a determinado nível, se manter a serenidade necessária para a melhor e mais eficaz percepção da verdade.

publicado por mparaujo às 11:20

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