Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

17
Mar 15

octavio ribeiro - correio da manha.jpgOntem foi assunto do dia, de todo o dia, as reacções do advogado de José Sócrates, João Araújo, em relação à imprensa, nomeadamente à forma como tratou a jornalista do Correio da Manhã e CMTV, Tânia Laranjo, no seguimento da decisão do Supremo Tribunal de Justiça em rejeitar o quinto pedido de Habeas Corpus para o ex Primeiro-ministro José Sócrates.

Primeira nota. É inadmissível e inqualificável os termos e a forma com que o advogado João Araújo se dirigiu à jornalista Tânia Laranjo que apenas se encontrava no exercício das suas funções profissionais. É conhecida a relação tempestuosa de João Araújo com o Correio da Manhã e a CMTV, baseada na conflitualidade há muito existente entre José Sócrates e aquele órgão de comunicação social. Independentemente do lado no qual esteja a razão, nada justifica o comportamento do advogado. Nada justifica e não pode deixar de ser criticado, goste-se ou não do CM e da CMTV… e eu, já por mais do que uma vez tornado público, não gosto. Mas, tal como nos acontecimentos em França, continuo “Charlie”.

Apesar da conflitualidade das relações advogado/imprensa desde a primeira hora do processo, nada justificando os acontecimentos de ontem, a verdade é que a própria imprensa alimentou esta relação e deu palco a estes acontecimentos, mais por interesse próprio (da imprensa) do que jornalístico (público).

Segunda nota. É muito interessante e curioso verificar as reacções do universo da advocacia nacional. Uns mantêm-se indiferentes, outros assobiam para o lado, e há quem, publicamente, se insurja e se indigne com tais comportamentos por parte do colega de profissão João Araújo. E a pergunta impõe-se: destes, quantos tomaram alguma posição junto da Ordem? Quantos afrontaram o sistema que alimentam e criaram? Quantos confrontam o corporativismo que reina?

Terceira e última nota. É perfeitamente legítima a posição da jornalista Tânia Laranjo em defender as suas competências, a sua dignidade profissional e pessoal. Qualquer um se sentiria ofendido e impulsionado a reagir judicialmente face à gravidade dos acontecimentos. O que aconteceu, independentemente das razões subjacentes, foi muito mau. Péssimo. Quanto a isto não há muito mais a dizer.

Mas o que “espanta” é a reacção pronta do director do CM, Octávio Ribeiro, saltando logo para a ribalta e para a praça pública em defesa da sua jornalista e contra o advogado. Considerando uma situação (realidade) normal isto seria algo expectável em qualquer órgão de comunicação social. Só que há muitas diferenças de realidades. Primeiro, um outro qualquer órgão de comunicação social teria optado por muito mais recato, não preenchendo e enchendo linhas e linhas de texto e minutos e minutos de imagens em defesa de causa própria. Segundo, finalmente, tendo em conta as reacções de Octávio Ribeiro (não confundir com a posição da jornalista Tânia Laranjo), parece que o Correio da Manhã provou do próprio veneno. É que a moralidade não é bonita apenas nos outros ou dos outros para connosco. E, finalmente, o CM descobriu o papel dos tribunais, da ofensa à dignidade e à honra, à privacidade, da preservação da inocência, da verdade e da veracidade dos factos. Finalmente…

publicado por mparaujo às 10:45

24
Mai 13

Nunca percebi porque é que algo (o palhaço, seja o rico ou o pobre) que sempre fez parte do imaginário, pelo menos, infantil, e que representa o ponto alto das artes circenses tem, só pelo simples facto de fazer rir e simbolizar brincadeira, tem um sentido tão pejorativo e ofensivo fora do seu “real” contexto. Mas a verdade é que chamar “palhaço” a alguém, pelos vistos, ofende.

Com a capa e a entrevista de Miguel Sousa Tavares, publicadas na edição de hoje do Jornal de Negócios, foi instalado o Estado de Sítio, o caos, no país. Houve aplausos, houve críticas, houve indiferenças, mas também houve um pedido do Presidente da República à Procuradoria-geral da República para averiguação dos factos e da ofensa, resultando na abertura de um inquérito por parte do Ministério Público tendo em vista uma eventual acusação contra Miguel Sousa Tavares. Não vou aflorar os pormenores jurídicos da questão (estão mais que claros no artigo 328º do Código Penal). Apenas uma legítima dúvida, face às explicações posteriores de Miguel Sousa Tavares: se não tivesse sido aberto o inquérito por parte do Ministério Público, o jornalista/comentador e escritor teria vindo, na mesma e publicamente, retratar-se? É que esta consequente atitude só tem dois adjectivos: ou uma total irresponsabilidade ou uma clara cobardia (até porque numa entrevista escrita tudo é muto mais pensado, ponderado e reflectido, para além de passível de correcção antes de publicar). 

Não defendo ninguém (e aqui cabe-me a modéstia pessoal de excesso de coerência) que ofenda ou difame quem quer que seja (apesar de etimologias e conceitos diferentes, na prática resulta no ataque ao bom nome, honra e dignidade de qualquer cidadão). Portanto, um acto desta natureza tem que ter, por quem o pratica, as devidas consequências e responsabilidades. A liberdade de expressão e de opinião existe, bem como as responsabilidades dos actos quando colidem com outros direitos, liberdades e garantias. Deste modo, fazer deste acontecimento bandeira e combate político-partidário só resulta, de facto, no exagero das convicções e das análises. E mais grave ainda, nas incoerências que sustentam as argumentações.

É, por isso, inqualificável e de uma falta de ética e pudor que uma ala mais conservadora da sociedade se indigne com o facto, que resulta num óbvia ofensa a quem exerce (ou deveria exercer) o cargo maior na hierarquia do Estado/Nação, quando não se ouviu uma única palavra (que mais não seja pela representação de um Estado laico) a criticar Cavaco Silva quando usou a expressão “por influência de Nossa Senhora de Fátima” em relação ao encerramento do processo da sétima avaliação da Troika. Como sempre ouvi o meu avô dizer: “muitas graças a Deus e poucas graças sobre Deus”.

É, por isso, inqualificável e de uma falta de ética e pudor que o PSD queira, sobre isto, tirar qualquer louvor ou dividendo políticos. O mesmo PSD que nunca criticou a forma como Alberto João Jardim apelidou tanto adversário político (até o desprezo pelo cargo de Presidente da República, chamando-o de Sr. Silva) ou tantos jornalistas de “bastardos” e “filhos de não sei das quantas”; o mesmo PSD que não se indignou quando um professor, no exercício das suas funções directivas e públicas numa Direcção Regional de Educação, apesar da privacidade, ofendeu a honra e a dignidade do então Primeiro-ministro José Sócrates; o mesmo PSD que nada fez quando um deputado seu, em plena sessão da Assembleia da República, injuriou um deputado socialista.

Das duas, três: ou há moralidade ou comem todos… de palhaçadas estão, de facto, os portugueses e o país fartos.

publicado por mparaujo às 23:02

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