Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

14
Mai 17

images.jpg

publicado na edição de hoje, 14 de maio, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Os suspiros eleitorais europeus

O final do ano passado e o presente ano na Europa têm a marca de processos eleitorais importantes e relevantes para os Estados e para a União Europeia: o ano passado terminou com as eleições presidenciais austríacas e o ano em curso abriu com as legislativas holandesas. Até ao final do ano há ainda espaço para que os cidadãos franceses (legislativas em junho), alemães, italianos e checos exercem o seu direito de voto.

Por estes motivos a União Europeia permanece em constante sobressalto político já que estes processos eleitorais trazem sempre, independentemente dos seus resultados finais, impactos para o futuro da Europa.

Se a comunidade europeia suspirou de alívio no final de 2016 com a derrota do candidato presidencial da extrema-direita, Norbert Hofer (com cerca de 47% dos votos, face aos 53% do vencedor das presidenciais, o ecologista Alexander Van der Bellen); se a derrota da extrema-direita holandesa de Geert Wilders nas legislativas de março deste ano foi novo respirar fundo na Europa; se as recentes presidenciais francesas deixaram Marine Le Pen do lado de fora do Palais de l'Élysée; a verdade é que se afigura incompreensível o comportamento do Parlamento Europeu e da Comissão Europeia perante a realidade e o que alguns processos e resultados eleitorais transmitiram.

Numa semana em que, a 9 de maio, se celebrou o Dia da Europa, sem qualquer visibilidade pública, sem que os cidadãos se tenham apercebido da efeméride, sem que o momento fosse aproveitado para espaços de reflexão e projecção do futuro, é lamentável que a declaração de Robert Schuman, a 9 de maio de 1950 (criadora da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço e precursora da Comunidade Europeia), seja apenas vivida do ponto de vista económico, esquecendo (ou querendo esquecer) a importância política que a iniciativa de juntar Benelux, França, Alemanha e Itália, revestia na altura que vivia as marcas profundas do fim da II Guerra Mundial (quatro anos antes). Porque é incompreensível que não sejam retiradas fortes ilações dos resultados das eleições que não um simples suspirar de alívio político face aos resultados que mantêm o extremismo partidário e ideológico, bem como o eurocepticismo e o anti-europeísmo, fora do poder. Só que a Europa que suspira de alívio é a mesma que se afasta cada vez mais dos seus cidadãos, assobia para o lado perante os resultados eleitorais ou que se recusa a olhar para a União que fundou e criou na sua vertente política e social para apenas a ver como um mero mercado e espaço de transacções financeiras.

Só que esta visão mercantilista e puramente economicista tem-se revelado desastrosa no presente e para o futuro da Europa e destruidora dos pilares fundamentais da União Europeia, como a liberdade, a igualdade e a solidariedade (fraternidade).

Disfarçar, mal, os impactos do Brexit e a dificuldade que o processo de negociação acarreta; achar que 47% de votos na Áustria; achar que a passagem à segunda volta eleitoral e os 33% dos votos alcançados por Marine Le Pen nas presidenciais (1 em cada 3 franceses que votaram escolheu a extrema-direita, mais de 11 milhões de eleitores); achar que a perda de quatro lugares e de dois pontos percentuais em relação às eleições de 2010 disfarçam o facto do partido da extrema-direita do holandês Geert Wilders ter subido ao segundo lugar das preferências dos holandeses; achar que é apenas demagogia e populismo que a extrema-direita alemã, Alternativa para a Alemanha (AfD), assuma a vontade pública de vencer as eleições legislativas de setembro deste ano; ver os crescentes impactos do extremismo e radicalismo presentes na Polónia, na Hungria ou na Bulgária) e achar que a democracia não está em risco; é o claro espelho de uma União Europeia que perdeu o rumo, não sabe que caminho tomar, não consegue definir o seu futuro, perdeu o sentido da solidariedade e da importância da vertente social, subjuga a importância da política ao peso da economia.

Serve muito pouco de esperança os constantes suspiros de alívio a cada processo eleitoral e assobiar para o ar perante os resultados ou quando, a seguir, nada se faz para repensar a União Europeia e redefinir o seu futuro. Há-de chegar o dia que o suspiro possa ser substituído pelo incrédulo e desespero.

publicado por mparaujo às 22:29

23
Abr 17

franca presidenciasi 2017.jpg

publicado na edição de hoje, 23 de abril, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Allons enfants de la Patrie

À semelhança do que aconteceu no ano passado com o referendo no Reino Unido que resultou no Brexit, apesar das eleições já ocorridas (presidenciais austríacas e legislativas holandesas), as presidenciais deste domingo em França são o ponto alto eleitoral da União Europeia neste ano de 2017. Mas até do que as presidenciais na Alemanha que também terão lugar em este ano, em Setembro de 2017.

Por mais evidentes que sejam os impactos da economia e do sector financeiro nas políticas governamentais, nas relações entre Estados-membros (a tal União Europeia a várias velocidades, a divisão entre as economias mais fortes e mais produtivas e aqueles que gastam tudo em mulheres e copos e depois ainda vão pedir ajuda) e nas relações Internacionais, a União Europeia vive, acima de tudo, uma grave crise de identidade, uma clara crise política, e vive uma desfiguração do que foram parte dos alicerces da sua fundação e evolução: o sentido de unidade, de solidariedade, de convergência, de preocupação política e social.

O que assistimos hoje, na União Europeia, é o cimentar de um dos seus aspectos mais cinzentos e nebulosos (a cegueira do tecnocratismo e dos burocratas) e a preocupação e visão minimalista do que foi a sua fundação: a relação economicista (do “ferro e do aço”) entre os Estados-membros, apesar dos quase 72 anos decorridos sobre o armistício.

Independentemente das nuvens que pairam sobre a inconsistência da economia mundial, independentemente de estarem mais aliviados os danos colaterais provocados pela crise financeira de 2007/2008, o problema real da União Europeia não está na sua economia mas sim nos seus pilares político e social. Foi isto que os ingleses expressaram no referendo de 2016, é isto que leva ao crescimento sistemático e cíclico (em cada processo eleitoral) dos extremismos e radicalismos ideológicos europeus e é muito isto que está em causa nas eleições de hoje no país do “galo”. Mais ainda… apesar das eleições austríacas e holandeses terem mantido afastado do poder a extrema-direita a verdade é que, apesar do não reconhecimento público, não conseguiram estancar a sucessiva subida eleitoral e um aumento da influência política e ideológica que exercem junto das comunidades. Importa recordar que ainda no início do ano, a Europa viu juntar, na Alemanha, numa “contra-cimeira” europeia os principais rostos do extremismos e do populismo europeu presentes no grupo Europa das Nações e da Liberdade do Parlamento Europeu: Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional francesa (hoje a votos); Frauke Petry, líder do Alternativa para a Alemanha (AfD); o holandês Geert Wilders, do Partido para a Liberdade; o italiano Matteo Salvini, da Liga do Norte; e o austríaco Harald Vilimsky, entre outros.

É isto que está em suspenso no acto eleitoral de hoje em França.

A forma como a Europa e os Estados-membros da União Europeia não souberam cuidar do Estado Social Europeu e, principalmente, a forma como não conseguiram (ou não quiseram) lidar com a questão dos refugiados, deixa uma enorme porta aberta para a presença inevitável da questão do terrorismo e da emigração nestas eleições e para o que serão os impactos óbvios do Brexit no Reino Unido e da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.

Muito pouco se discutiu e se reflectirá questões de natureza económica, laboral, da educação, da saúde, dos investimentos públicos, do desenvolvimento, em França; nunca o medo e o terrorismo, nunca o Euro e a União Europeia foram tão marcadamente bandeiras eleitorais.

Num país que tem, por natureza e pela história, uma clara presença política na União Europeia, a França vota hoje sobre a indiferença e a dignidade humana, sobre o direito à integração ou à exclusão, sobre a igualdade, a fraternidade e a liberdade ou sobre o racismo, a homofobia e a xenofobia. A França, hoje, vota sobre o futuro da própria Europa, sobre o crescimento ou não do extremismo e do radicalismo (seja à direita, mais presente, seja à esquerda, mais diluído mas igualmente condenável), sobre o regresso ou a aniquilação definitiva (como aconteceu em Portugal após 2015) da balança política das sociedades actuais: o pragmatismo e o paradigma político do centro ideológico e partidário. Vamos ver o que consegue Macron em relação a Marie Le Pen, ou até mesmo em relação a Fillon (conservador, direita moderada) ou a Jean-Luc Mélenchon (esquerda), já que o socialista Benoît Hamon se encontra longe de uma segunda volta.

A Europa suspende a respiração e vai controlando, como pode, uma óbvia e clara ansiedade política à espera de voltar a poder suspirar politicamente de alívio.

(créditos da foto: Eric Gaillard/Reuters)

publicado por mparaujo às 15:40

13
Mar 17

636249190229933492w.jpg

Ainda estão bem frescos na memória de muitos os contornos polémicos e cinzentos que estiveram na base do recente eventual golpe de Estado na Turquia a 15 de julho de 2016. Mais ainda, não foram ainda esquecidas as várias purgas políticas e sociais que ocorreram nos dias e meses consequentes. Ainda mais... é hoje bem patente a forma como o regime de Erdogan se tem mantido no poder e tem alterado a sua estratégia geopolítica, muito por força da crise na Síria e no Iraque e pela maior proximidade à Rússia de Putin.

Não há como esconder a realidade política e social que a Turquia vive nos dias de hoje, nem deixar de condenar e criticar Erdogan e a actual conjuntura política turca.

Mas o que não dá também para esconder é a contínua hipocrisia política da União Europeia e da maioria dos seus Estados-membros em relação a este país que faz a fronteira entre o Ocidente e o Oriente.

Primeiro, pelo arrastamento e indefinição do processo de adesão, ou não, à Comunidade Europeia.

Depois, e no seguimento dos mais recentes confrontos diplomáticos, políticos e sociais, entre a Turquia, a Alemanha e agora a Holanda, em plena semana eleitoral nos Países Baixos. O confronto diplomático, os bloqueios e as trocas de acusações políticas são o mais recente espelho de uma Europa sem rumo e sem deriva, sem futuro e objectivo. A mesma Europa que ataca veemente Erdogan e o universo político e social turcos é a mesmíssima Europa que, sem saber lidar, sem ter uma estratégia comum e solidária, sem respeito pelos direitos humanos, pagou, mercantilizou, à Turquia para resolver o problema, com o qual não soube, nunca soube e dificilmente saberá, lidar dos Refugiados.

É a total perda da coerência.

publicado por mparaujo às 10:13

08
Jan 17

images.jpg

publicado na edição de hoje, 8 de janeiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Luzidio 2017…

Está cumprida a primeira semana do novo ano e estes primeiros oito dias comportaram em si alguns factos e factores que são o espelho do que se poderá esperar deste novo 2017. E em tão poucos dias já muito aconteceu.

A nível externo, este novo ano vai estar carregado de momentos significativamente decisivos e com fortes impactos na geopolítica europeia e internacional. Será o ponto zero do mandato de Donald Trump à frente dos destinos norte-americanos, com toda a incerteza e inquietação que tal realidade contém, seja a nível interno, seja na relação da Casa Branca com os diferentes e exigentes contextos internacionais, como, por exemplo, o mundo árabe e o médio oriente (Israel é já disso um exemplo), com a Rússia e o preocupante “braço-dado” com Putin, com a China e com a Europa, aos quais podemos acrescentar a relação dos Estados Unidos com a América Latina. Pelo meio ficará a relação presumivelmente tensa e conflituosa com a NATO e a ONU. Mas se a governação da maior potência internacional deixa o mundo em suspense e preocupado, também a União Europeia não fugirá a esta expectativa de um ano de 2017 marcante. Primeiro pelo processo de gestão política e jurídico-constitucional do Brexit e dos seus impactos definitivos em Inglaterra e na União Europeia, sendo que o mesmo está longe de estar concluído e de ser definitivo. Segundo, a Europa terá importantes momentos eleitorais que podem marcar o destino de vários países e da própria União Europeia, tal a sua fragilidade e fragmentação, sendo uma incógnita os impactos que terão nos respectivos resultados a questão humanitária dos refugiados, as últimas eleições norte-americanas ou o processo Brexit. São exemplo do “inferno eleitoral” europeu as presidenciais e legislativas na Alemanha (Merkel vai de novo a votos), as presidenciais em França, as legislativas na Holanda e na Bulgária, e, não menosprezando, a fragilidade política em Itália. Terceiro, é notoriamente claro que todos estes processos eleitorais, com mais ou menos peso, terão impactos muito significativos no actual “estado de alma” europeu.

A nível interno, tal como afirmou há dias Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, quando referiu que “2017 será o ano de todos os perigos”, este novo ano será, de facto, extremamente relevante essencialmente por duas razões (deixando uma terceira para a próxima quarta-feira). A primeira porque será ano de eleições, ao caso, as autárquicas que, por mais que haja quem tente minimizar os impactos políticos nacionais dos resultados que daí possam surgir, terá danos colaterais importantes no futuro político de alguns partidos e na conjuntura política futura do país. Para o PSD é um momento de extrema importância para a actual liderança de Pedro Passos Coelho e para auferir do estado de força do seu eleitorado eleitoral. Mas não será nada fácil. A forma como o PSD tem gerido o seu estatuto de oposição política não tem tido quaisquer resultados relevantes na opinião pública e no confronto com o Governo. Por outro lado, a antecipação da candidatura de Assunção Cristas em Lisboa e a incapacidade de gerir o “obstáculo” Rui Moreira no Porto deixam antever extremas dificuldades nas duas principais autarquias do país. Além disso, ou como se isso não fosse já por si só suficiente, surgirão (tal como em 2013 bastando recordar as inúmeras candidaturas independentes) focos locais de instabilidade e polémica que levarão a inevitáveis conflitos internos, como é disso exemplo a triste forma como em Aveiro está a ser gerida a recandidatura de Ribau Esteves ou o inédito apoio do PSD ao “expulso” António Capucho na sua corrida eleitoral à Assembleia Municipal de Sintra e o apoio à recandidatura de Marco Almeida à Câmara de Sintra depois de toda a polémica de 2013.

Para o PS este será um importante momento para avaliar o estado de governação do país e a forma como os portugueses têm olhado para este primeiro ano de mandato no Governo. Será mais que natural a transposição para o âmbito local de toda a actual conjuntura política nacional.

Por fim, as eleições autárquicas de 2017 têm ainda uma elevada importância para o Partido Comunista Português que sempre se afirmou, em determinadas zonas do país, como um partido com características e adn autárquico significativo. Tal como em relação ao Bloco de Esquerda, que desde a sua existência, apenas geriu uma autarquia (com resultados políticos desastrosos) os dois partidos da esquerda portuguesa têm nestas eleições autárquicas um especial e importante momento para avaliar e analisar até que ponto o fenómeno “Geringonça” tem contribuído para a valorização do seu papel nas políticas nacionais ou se, pelo contrário, acabam por ser minimizados pelo crescimento público do Partido Socialista e do Governo.

A ver vamos o que nos reserva, neste âmbito, 2017.

publicado por mparaujo às 16:06

09
Nov 16

cgd.jpegpublicado na edição de hoje, 9 de novembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O imbróglio político

É certo que o Orçamento do Estado para 2017 é o ponto alto da agenda política nacional pela importância óbvia que encarna na vida do país e dos cidadãos. Mas não deixa de ter um significativo e não menos relevante impacto político (para além do financeiro) tudo o que se tem passado em torno da Caixa Geral de Depósitos (CGD).

Há duas vertentes ou dimensões do mesmo problema que importa destacar.

Primeiro, do ponto de vista financeiro e do sistema bancário, a importante questão em torno da recapitalização do banco público. Face aos constrangimentos recentemente tornados públicos nas finanças e nos balanços anuais da Caixa Geral de Depósitos surge o primeiro desafio do Governo: superar os défices encontrados através de uma eventual recapitalização sem prejudicar as finanças públicas ou com o menor impacto possível nas contas do Estado (o que não se afigura fácil) e, por outro lado, conseguir combater a pressão da União Europeia, contraposta pela pressão interna dos aliados da governação (BE e PCP), de privatizar o único “activo” do Estado no sistema bancário nacional.

Segundo, do ponto de vista político, a gestão deste processo tem tido tudo (e de tudo) a contribuir para o descrédito da imagem do Governo, num processo que, diga-se, o BE também tem responsabilidade mesmo que indirecta, por mais que o Bloco esteja agora (e só agora) com um sentido crítico apurado.

Desde que a governação de António Costa lidera os destinos da Nação o dossier Caixa Geral de Depósitos ainda não conheceu nenhum desenvolvimento que não despoletasse em polémica.

Após ter sido conhecida a situação financeira do banco público ainda hoje não é, com rigor e transparência, conhecido o real e concreto valor do buraco nas contas da CGD. Desde o prejuízo (este sim, consensual e factual) apurado em 2015 na ordem dos 74,2 milhões de euros muitos outros milhões foram avançados e, irreflectidamente, atirados para a praça pública: desde um buraco de 1,5 milhões até à eventual recapitalização (injecção para a solidez financeira) avançada pelo ministro das Finanças no valor de 5 mil milhões de euros, nada é claro nem transparente.

Foi, depois, toda a polémica em torno da constituição ou não de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para a avaliação do processo e dos valores tornados públicos, com eventual apuramento de responsabilidades políticas e não só. Mesmo perante a realidade e o que era tornado público a pressão política e ideológica falava mais alto e só, através do procedimento potestativo da responsabilidade do PSD e do CDS, foi possível, em Julho deste ano, criar a Comissão Parlamentar de Inquérito à Caixa Geral de Depósitos.

Mas os imbróglios no dossier não se ficariam por aqui. Pelo meio assistiu-se à confusão criada pelo Governo no que respeitou à nomeação do Conselho de Administração da CGD, com o excessivo número de membros administradores (executivos ou não) e o chumbo de alguns desses membros entretanto com os seus nomes tornados públicos. Destaque ainda para a alteração legislativa, com a anuência (mesmo que por omissão) do Bloco de Esquerda, na alteração do diploma legal (decreto lei) que define o Estatuto de Gestor Público e que tem estado na origem da actual polémica em torno do dever de apresentação ou não das declarações de rendimentos e patrimoniais dos Administradores do banco público. E é neste capítulo, ao qual se junta a também polémica, ainda bem acesa e presente, das remunerações atribuídas aos gestores da CGD, que António Costa tem tido, claramente, as maiores dificuldades de gerir, com eficiência e eficácia, todo este processo. Está em causa a concepção e visão de gestão pública (serviço público), do papel do gestor público, da diferenciação entre público e privado, do que é um “bem” público e particular, da equidade de princípios e regras na Administração Pública e no Estado (em geral). Está em causa a precipitação e irreflectida gestão política deste processo, com o Governo socialista, nomeadamente António Costa e Mário Centeno, a darem um tiro no pé ao colocaram-se politicamente reféns de um conselho de administração público, ao criarem e implementarem leis à medida que consignam em graves atropelos à transparência e rigor que se exige ao Estado na gestão das coisas e causas públicas, bem como em contraposição às leis em vigor. E mais que tudo está também em causa a exigência política necessária à concepção da gestão pública. O Estado precisa (e merecem os cidadãos) dos melhores gestores do bem comum… o que não pode, nem deve, significar correr todo e qualquer risco em desvirtuar e deturpar a essência do que é, passe a redundância, gerir e servir o serviço público.

publicado por mparaujo às 14:59

05
Jul 16

untitled.bmp

Nem sempre é fácil, podemos até dizer que é algo quase impossível, mas às vezes os impossíveis acontecem.

Neste caso muito particular, convenhamos, há que concordar com o sempre polémico e imprevisível Jean-Claude Juncker quando o Presidente da Comissão Europeia se refere a Nigel Farage e a Boris Johnson, acrescentando eu David Cameron.

Em relação aos acontecimentos do pos-Brexit e concretamente depois dos anúncios das respectivas demissões Junker teve duas afirmações importantes: os “Heróis de ontem são hoje tristes heróis” e que “os patriotas não se demitem quando as coisas se tornam difíceis”.

A verdade é tripartida por responsabilidades semelhantes e pelas infelizes posições políticas assumidas por parte de David Cameron, Boris Johnson e Nigel Farage.

O ex-Primeiro Ministro deu um verdadeiro tiro no pé ao lançar o referendo como arma política para a sua própria sobrevivência e a do seu governo, sem que as consequências fossem previstas e avaliadas. O resultado não podia ser mais desastroso. A demissão foi a saída mais óbvia e inquestionável.

Quanto a Boris Johnson, o ex "mayor" de Londres e vice-presidente do Partido Conservador (o que suporta o Governo Inglês e vice de David Cameron) deu uma verdadeira punhalada política nas costas do seu Primeiro-ministro de do Presidente dos Conservadores ao fazer publicamente de forma muito activa campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia. Conhecidos os resultados e face a todos os problemas e impactos daí inerentes Boris fecha a porta, apresenta a sua demissão, quando o natural e o ético seria assumir as suas posições e compromissos e candidatar-se ao ligar de David Cameron.

No caso do inconstante e imprevisível político e líder do partido eurocéptico UKIP, Nigel Farage volta a repetir o "circo" dos anúncios de demissão e abandono, recuos e regressos, que já lhe são por demais conhecidos. Desta vez, não é novidade e não foge à regra a irresponsabilidade política de Farage.
Trouxe os fósforos, a gasolina e o rastilho... pegou fogo e a seguir abandona de mansinho, sem sequer se preocupar com as consequências dos seus actos e, muito menos, em chamar os bombeiros. O circo pegou fogo, a festa está feita, quem vier atrás que feche a porta.

São estes os políticos que actualmente são a imagem de muitos outros que circulam e pululam por essa Europa fora, sem esquecer os corredores de Bruxelas.

Junker, desta vez, tem razão: já não há heróis na política e muito menos políticos heróis.

publicado por mparaujo às 15:15

26
Jun 16

uk sai da UE.jpgpublicado na edição de hoje, 26 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
A EU em estado de choque

Na quinta-feira, 51,9% dos votantes do Reino Unido (Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte) decidiram-se, em referendo, pela saída do Reino Unido da União Europeia.

As perguntas que rapidamente surgiram, as de maior projecção, foram: Quem ganhou e quem perdeu? Qual o futuro do Reino Unido e da Europa?

Antes das respostas uma relevante nota prévia: este resultado, ou melhor, o impacto que este resultado possa ter no Reino Unido ou na Europa tem um rosto e um responsável: David Cameron. Não fora a tentação política do populismo fácil, a falta de capacidade e coragem política para enfrentar a crítica e a contestação, e o Reino Unido jamais passaria por uma situação desta natureza. A afronta de Cameron aos seus opositores e a via mais simplista e fácil de responder à crítica vão ficar na história política de Inglaterra e vão julgar a história política do agora ex Primeiro-ministro britânico.

À parte disto a resposta à primeira pergunta afigura-se simples de dar, mas provavelmente difícil de explicar.

De uma forma muito pragmática e sintética, apesar de todos os festejos de quem votou “Out” (BRexit) e após estes momentos de euforia e choque, parece óbvio que todos perderam ou perderão e que ninguém ganhou. Não ganhou uma sociedade britânica que cavou um enorme fosso geracional, hipotecando a vontade dos eleitores mais jovens de permanecerem no seio da União Europeia. Segundo os dados divulgados para uma média de idades na ordem dos 21 anos (com mais 69 anos de esperança de vida) cerca de 69% votaram pela permanência na UE. Por outro lado, para um a faixa etária com uma média de idade de cerca de 73 anos (com mais 16 anos de esperança de vida) a decisão de saída da União Europeia foi expressa por cerca de 58% dos votantes. Além disso, a forma como a Irlanda do Norte e a Escócia se manifestaram (55,7% e 62%, respectivamente) a favor da permanência na União Europeia deixa antever alguma conflitualidade política e uma brecha significativa na coesão britânica. De tal forma que o próprio futuro do Reino Unido afigura-se instável e incerto quando à sua integridade geopolítica, mas também são ainda desconhecidos (por mais prognósticos que se queiram apontar) os impactos ao nível económico que esta decisão possa provocar na economia e sistema financeiro do Reino Unido.

E quanto à Europa? Aqui não há muitas dúvidas. Foi aberta a Caixa de Pandora. Os danos colaterais vão ser significativos com a desintegração da União Europeia no horizonte, com a pressão política interna para referendos similares em países como Holanda, Bélgica, Dinamarca e até Suécia. E a culpa é da própria Europa.

A União Europeia perdeu já há algum tempo a sua génese, a sua identidade e a sua coesão. Subjugada há muito pela vertente e pelo pilar económico-financeiro, excessivamente dependente do poder germânico e de um sistema tecnocrata demasiado pesado e irrealista (aliás, sistema que nem é eleito), a União Europeia descorou o seu fundamento da solidariedade e não soube ou não foi capaz de lidar com a vertente política e social no seu todo.

Porque não haja qualquer dúvida. A saída do Reino Unido da União Europeia nada tem a ver com mercados, sistema financeiro ou questões ideológicas como referiu o líder da CGTP, Arménio Carlos, quando se referiu ao “grande capital e ao capitalismo”. Antes pelo contrário, bem pelo contrário.

A decisão teve uma clara influência da descaracterização política da Europa, da falta de solidariedade entre os Estados-membros, da falta de capacidade de resolução dos graves problemas sociais que atingiram a União Europeia, nomeadamente a questão das emigrações e dos refugiados.

E infelizmente não deveremos ficar por aqui.

publicado por mparaujo às 20:38

11
Mai 16

Dia da Europa 2016.jpg

publicado na edição de hoje, 11 de maio, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Um sonho definhado

Há dois dias, na passada segunda-feira, a Europa celebrou o seu dia… o Dia da Europa (9 de Maio). Data sem impacto nos cidadãos europeus, uma efeméride que passou despercebida à maioria das comunidades, o que é um significativo sintoma revelador do actual estado da Europa, o que ela significa para os cidadãos europeus, a forma como é encarado o seu futuro.

A data, que em 2013 o Conselho Europeu acordou que deveria ser feriado europeu, tida como um dos símbolos da Europa (juntamente com o a bandeira, o hino, a divisa “unidade na diversidade” e a moeda) tem, passe a redundância, um simbolismo relevante. Pretende recordar a origem da União Europeia (desde a sua génese após a II Guerra Mundial e a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço) mais concretamente a chamada “declaração de Schuman”. A 9 de Maio de 1950, o então ministro francês Robert Schuman (provavelmente inspirado pela sua tripla nacionalidade: alemã, luxemburguesa e francesa) proferia um conjunto de pressupostos e princípios (que levariam mais tarde ao surgimento da CECA) que pretendiam assegurar uma relação pacífica e solidária entre as nações europeias, nomeadamente colocar um fim à conflitualidade histórica entre a França e a Alemanha, precaver a Europa de novo confronto bélico e acompanhar o surgimento da hegemonia geopolítica e geoestratégica da (então) URSS e Estados Unidos da América, no pós Guerra.

Com os objectivos bem delineados e claros o problema da sustentação da génese de uma Europa unida é, tal como na origem, actual. A incapacidade dos Estados-membros, dos políticos e da pesadíssima tecnocracia das instituições europeias de combaterem ou reverterem a supremacia económica face ao pilar político e social que foi (e é) o sonho de muitos europeístas convictos e fundadores da comunidade europeia. E foi assim durante todo o processo de construção da Europa. Só que enquanto a economia se desenvolveu e prosperou ou enquanto os fundos comunitários foram a “tábua” de salvação de muitos países (quer a sul, quer, mais recentemente, após os últimos processos de alargamento) o pilar político e o pilar social europeus foram disfarçando algum bem-estar e um ilusório sucesso unificador da Europa. Mas a factura acabaria por chegar. Primeiro, o preço (mais uma vez económico e financeiro) a pagar pela reunificação das duas alemanhas sustentado no projecto da moeda única e da Zona Euro (uma Europa económica dentro de uma Europa política). Apesar dum círculo mais pequeno, menor que os 28 actuais países (apenas 19), apesar da falta de unanimidade na adesão ao projecto económico-financeiro europeu, a Zona Euro, a estrutura financeira da Europa e a sua moeda (mais ou menos) única, conseguem sobrepor-se aos projectos políticos e sociais da Europa, ditando as suas leis, a sua soberania e o seu domínio sobre todos os destinos da União Europeia, mesmo, em variados contextos, sobre as soberanias e autonomias nacionais.

A crise financeira de 2008 só veio demonstrar o erro da sobreposição dominante da economia sobre a vertente política e a vertente social da construção/consolidação do projecto europeu, com impactos significativos na fragilidade da solidariedade entre os Estados-membros, na demarcação e divisão entre o norte europeu e o sul e periferia da Europa, numa desarticulação e inadaptação na gestão das diversidades europeias.

Curiosamente, o que foi o primeiro pilar (mesmo que não o principal objectivo) da génese da União Europeia, o contexto económico, acabou por ser este o principal responsável pela queda do sonho europeu. Com a crise financeira, com a fragilidade da moeda e da economia, surgiram as crises políticas, sociais e programáticas/ideológicas, das quais são reflexos importantes a recusa de alguns países de integrarem a União Europeia (Islândia, Noruega, Suíça ou Liechtenstein, por exemplo), a crise na Ucrânia e o confronto com a Rússia, a instabilidade da Grécia, a incerteza quanto ao desfecho do referendo em Inglaterra (recordando a pressão que foi sentida com o referendo na Escócia), o surgimento dos radicalismos e extremismos ideológicos (à direita e à esquerda) partidários, a incapacidade da aplicação do princípio da solidariedade e fraternidade entre os Estados-membros, a histórica sombra da Turquia e, nos últimos anos, a total incapacidade de lidar com a tragédia diária dos refugiados. A tudo isto acresce uma Europa com escassa capacidade de afirmação estratégica e política no Mundo, reflexo da sua incapacidade interna (por exemplo, na área da segurança).

Há quem ainda encontre réstias de esperança na consolidação do projecto europeu. Eu só encontro uma Europa numa agonia constante e num crescente definhar. Acabou o sonho, há que reinventar o sonho.

publicado por mparaujo às 09:57

pesquisar neste blog
 
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


mais sobre mim
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Setembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
14

18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


Visitas aos Arcos
Siga-me
links