Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

05
Jun 17

O Mundo centrou todos os olhares para Londres, no passado sábado. Cerca de 15 dias antes Manchester vivi o terror do flagelo cobarde do terrorismo. Volvidas duas semanas é a capital londrina a (re)viver momentos de terror.

É certo que o mediatismo da recente viagem de Trump a Bruxelas (Cimeira da NATO), é certo que a proximidade cultural e social e a afinidade europeia com Inglaterra fazem-nos ter uma especial atenção e solidariedade para com as suas gentes e as suas comunidades.

Mas esta é, igualmente, a triste realidade cinzenta e obscura da forma como encaramos e olhamos para o terrorismo, nomeadamente aquele que está ligado, directa ou indirectamente, ao radicalismo e extremismo islâmico.

Esquecemo-nos (ou desviamos o olhar cobardemente) do Oeste da Europa (Afeganistão há poucas semanas, por exemplo), de África (milhares e milhares de refugiados, de fome e de morte diárias) ou da Ásia.

No mesmo dia que Londres, no passado sábado, um homem, supostamente extremista islâmico (o estado islâmico reivindicou o atentado, o atacante gritou vários slogans islâmicos, o Governo Filipino tem estado a combater vários extremistas islâmicos na região de Marawi, não há a certeza da ligação entre o acto e um atentado terrorista do daesh) entrou armado no complexo turístico Resorts World Manila, nas Filipinas, incendiando o local e provocando 38 vítimas mortais e mais de 70 feridos. Aqui, não houve concertos de solidariedade... apesar de haver quem não esqueça.

filipinas-696x466.jpg

(créditos da foto: Dondi Tawatao/Reuters)

publicado por mparaujo às 15:45

04
Abr 17

Desde o fim-de-semana que a agenda pública vive em torno da agressão de um jogador do Clube Futebol Canelas 2010 ao árbitro do encontro dos distritais de futebol da Associação de Futebol do Porto frente ao Rio Tinto, logo após os primeiros dois minutos iniciais do encontro.

Indignação e revolta por quem tem o futebol como alvo de toda a indiferença e descrença... indignação e revolta por quem gosta de futebol. Mais ainda... o acontecimento de domingo passado correu mundo, muito por força do elevado mediatismo que o futebol usufrui, chegando a merecer nota de destaque na comunicação social em Inglaterra (Daily Mail e Metro), Itália (Gazzeta TV), França (Le Parizien), à vizinha Espanha (As, A Marca e El País) e do outro lado do atlântico (Brasil - O Globo e México - Telemundo e Cancha). Será mais que perceptível o tipo de "mimos" com que o acontecimento foi relatado.

E a vida vai correndo e rindo, nesta anestesia mediática.

Para trás, fica o desespero daqueles que no seu dia-a-dia, na inocência dos seu hábitos quotidianos, perdem a vida pela bomba de um tresloucado extremista ou radical, pela fúria da natureza ou pela insensatez do poder.

2 de abril
Cidade de Mocoa, Colômbia.Cheias provocam deslizamento de terras
279 mortos, dos quais 144 são menores, mais de 400 feridos; 220 desaparecidos.

colombia.jpg

(crédito da foto: EPA/Colombia Army)

3 de abril
Metro S. Petersburgo - Rússia. Atentado bombista.
14 mortos, 49 feridos.

russia.jpg

 (crédito da foto: AP)

4 de abril
Síria. Zona de Khan Cheikhoun, na província de Idleb. Acção militar da responsabilidade das forças governamentais.
Bombardeamento com armas químicas.
58 mortos, dos quais 11 menores.

siria.JPG(crédito da foto: EPA)

E importa ainda recordar que desde o início do ano, apenas num trimestre, registaram-se 333 ataques terroristas em todo o mundo. Em média foram quase 4 atentados por dia que resultaram num total de 2.043 vítimas mortais (fonte: Esri Story Maps e a PeaceTech Lab).

publicado por mparaujo às 21:43

23
Nov 16

destak.jpgpublicado na edição de hoje, 23 de novembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Efeito sistémico na Europa

A Europa viverá ainda no final deste ano e particularmente em 2017 uma pressão eleitoral significativa, massiva, com resultados imprevisíveis mas que reservam, desde já, alguma inquietação e desassossego quanto ao futuro da União Europeia tal como o conhecemos entretanto. O calendário eleitoral europeu é, de facto, relevante: arrancou, neste fim-de-semana passado, a primeira volta das primárias à direita para as presidenciais (com Sarkozy a sofrer uma pesada derrota e a deixar a corrida, numa segunda volta, para os candidatos François Fillion e Alain Jupé); no final deste ano terão lugar as presidenciais austríacas, seguindo-se as presidenciais e as legislativas na Alemanha (com a recandidatura anunciada de Angela Merkel, no caso das legislativas), as presidenciais em França, as legislativas também na Holanda e na Bulgária. Entretanto subsiste a incerteza política na Itália quanto à eventual realização de um referendo sobre a União Europeia.

Neste último caso, tal como aconteceu em Inglaterra onde ninguém esperava uma votação que resultasse numa vitória do Brexit, a incerteza quanto a um desfecho nesse eventual referendo em oposição à União Europeia não será, de todo descartável, face à problemática da imigração, dos refugiados, da economia e da segurança.

Nos outros casos, afigura-se perfeitamente aceitável reflectir sobre um possível efeito sistémico do recente resultado eleitoral norte-americano, quer pela nomeação do novo presidente, quer pela tipologia dos votos expressos dos norte-americanos, análise que ainda fará correr muita tinta pela sua complexidade que vai para além de uma mera visão simplicista dos erros das sondagens ou da posição assumida pela comunicação social americana.

Tal como referi aqui no passado domingo (“Os danos colaterais”) a surpreendente (para a maioria dos observadores, para a maioria dos analistas, para uma grande parte dos cidadãos europeus – eu incluído – e para uma grande parte dos próprios americanos – os que votaram Hillary e os 90 milhões que se abstiveram) vitória de Donald Trump não ficará circunscrita apenas às terras do “Tio Sam”.

As eleições alemãs, por exemplo, à semelhança do que já aconteceu nas regionais que foram, entretanto, ocorrendo vai fazer crescer uma extrema-direita nacionalista e antieuropeísta, relegando para segundo plano o trabalho e o mérito que devemos reconhecer às sucessivas governações internas de Merkel.

Os casos dos processos eleitorais Austríacos e Holandeses deverão ter um panorama de extremismo e radicalismo muito mais acentuado que na Alemanha face às questões de migração, dos refugiados e da segurança (terrorismo) que sustentarão um populismo eleitoralista extremamente significativo com notório crescimento de aceitação nestas comunidades.

E o caso mais relevante é, claramente, o de França. Um país a braços com os actos de terrorismo conhecidos e em constante sobressalto, com uma emaranhada multiculturalidade em permanente tensão e de complexa gestão por parte do governo e da presidência, fará com que direita e centro-direita, com que socialista e esquerda, redobrem os seus esforços para combater e contrariar Marie Le Pen e o seu partido, já hoje é apontados como os principais protagonistas das eleições presidenciais do próximo ano.

Gostava de ser tão optimista como a reflexão de ontem, aqui no Diário de Aveiro, do meu amigo João Pedro Dias (“Um domingo europeu. À direita") mas sinceramente não consigo (até porque ele é especialista em Assuntos Europeus e eu não). Receio por resultados que reflictam um efeito sistémico das eleições norte-americanas, um desencanto social, político e económico, uma contestação popular aos sistemas ou espelhem perigosos e radicais extremismos populistas, perante os quais a União Europeia terá muitas dificuldades em contrariar e sobreviver.

Receio que o forte ano eleitoral europeu termine, no pior sentido, com esta angústia e toda esta débil União Europeia… de vez.

publicado por mparaujo às 09:57

03
Ago 16

foto em pe de guerra.jpg

publicado na edição de hoje, 3 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Em pé de guerra

A recente notícia dos quatro argelinos que invadiram a pista do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, deixou muitos portugueses entre a perplexidade e o sobressalto, para mais com a divulgação que, semana antes, o mesmo tinha ocorrido com um grupo de marroquinos. A perturbação e o desassossego deram, rapidamente, origem a algum histerismo colectivo e informativo com o fantasma “terrorismo”. O que já não é novidade, nomeadamente por essa Europa fora. Por mais que seja usado o chavão de que a vida continua e há que mostrar serenidade ao enfrentarmos a realidade, não tenhamos dúvidas: há medo instalado na sociedade, principalmente em países muito particulares como a França, a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Inglaterra, a Suécia ou a Noruega. Podemos continuar a andar na rua mas cada vez mais olhamos para o lado, para trás, para o “vizinho” com o qual nos cruzamos. Isto para referirmos especificamente a Europa, pela proximidade e pela afectividade, porque o olhar podia (e deve) ser mais distante: Estados Unidos, América do Sul, Iraque, Síria, Líbano, Afeganistão, Turquia, Mali, Somália, Sudão, Nigéria, entre outros. Pela lista, apesar de resumida, percebe-se que o Mundo está em guerra consigo mesmo, como afirmou recentemente o Papa Francisco. A todo este contexto importa lembrar, não deixar cair no esquecimento, e acrescentar a continuidade de vidas que, semanalmente, se perdem para sempre no Mar Mediterrâneo (números da Organização Mundial das Migrações revelam, só este ano e até à data, cerca de 3200 mortos neste mar cada vez mais transformado em cemitério do desespero).

A história revela-nos marcos importantes que determinaram mudanças relevantes nas sociedades e no desenho geopolítico mundial. Recordemos, a mero título exemplificativo, o fim da “Guerra-Fria”, a queda do Muro de Berlim e a unificação alemã, o fim da cortina de ferro e a desagregação da unificação no leste europeu. Além disso, os trágicos e impensáveis acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, com a consequente guerra no Afeganistão (Outubro de 2001) e, mais especificamente, com a Guerra do Iraque e o derrube de Sadam Hussain (Março de 2003), tornaram o Mundo menos seguro e mais conflituoso, como o demonstraram, por exemplo, os consequentes episódios de Madrid (11 de Março de 2004) e Londres (7 de Julho de 2005). Com a morte de Bin Laden, o (re)surgimento do jihadismo islamita com raízes sunitas (em claro confronto com a corrente xiita), o denominado Estado Islâmico tem manchado o valor da liberdade, da igualdade, da fraternidade e, principalmente, o inegável direito à vida, seja na Europa, seja em pleno coração africano, directamente ou através da sua influência. Na Europa, após os trágicos e deploráveis acontecimentos no Charlie Hebdo, há pouco mais de ano e meio (7 de janeiro de 2015) cobririam a França e a Europa de um rasto de atentados terroristas sob a suposta conversão do mundo ao islamismo radical e à implantação do grande califado (a junção da política - estado - com a religião é, neste caso, incontestável). O mais recente caso, na Europa, de terrorismo sob a capa do jihadismo ocorreu em França, na igreja de Saint-Etiénne-du-Rouvray, com o sacerdote Jacques Hamel a ser degolado. Mas o medo, a agitação e o constante sobressalto com que vivem, no dia-a-dia, milhares de europeus não pode ser apenas visto como sinónimo de islamismo radical ou tudo com a marca do Estado Islâmico. A verdade é que a Europa, em particular, vive momentos inconfundíveis duma clara “crise existencial”, de degradação dos seus valores políticos e sociais e que estiveram na sua génese, de incapacidade política para enfrentar os recentes desafios (seja na origem - Síria, p.ex., seja no seu interior) sociais e humanitários com que se depara diariamente, como por exemplo questões de integração social e cultural e a questão dos refugiados. A Europa em particular e o mundo, em geral, vivem demasiadamente preocupados com questões económico-financeiras, descurando as vertentes políticas, sociais e culturais. O medo e alguma histeria islamofóbica instalou-se na sociedade a propósito de tudo e de quase nada, mesmo que nem tudo seja Estado Islâmico ou islamismo radical. Reconheça-se o crescimento da xenofobia e do racismo, da perda dos valores e dos direitos humanos em muitos estados a caminho dos totalitarismos (Hungria, Turquia, etc.) do radicalismo da extrema-direita (como sucedeu há cinco anos na Noruega, como sucedeu recentemente na Alemanha, num centro comercial em Munique, e com o crescimento dos movimentos radicais) ou até mesmo, por efeito sistémico, um aumento significativo de psicopatias como aconteceu em Nice.

A Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o inegável direito universal à vida, têm de voltar a ter um papel e um valor intrínsecos, fundamentais e inabaláveis, na sociedade e na gestão política das governações, sob pena do mundo entrar num espiral de violência e medo incontroláveis, e permanecer em permanente “estado de guerra” até ao caos total.

(créditos da foto: Christopher Furlong / Getty Images)

publicado por mparaujo às 10:39

foto em pe de guerra.jpg

publicado na edição de hoje, 3 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Em pé de guerra

A recente notícia dos quatro argelinos que invadiram a pista do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, deixou muitos portugueses entre a perplexidade e o sobressalto, para mais com a divulgação que, semana antes, o mesmo tinha ocorrido com um grupo de marroquinos. A perturbação e o desassossego deram, rapidamente, origem a algum histerismo colectivo e informativo com o fantasma “terrorismo”. O que já não é novidade, nomeadamente por essa Europa fora. Por mais que seja usado o chavão de que a vida continua e há que mostrar serenidade ao enfrentarmos a realidade, não tenhamos dúvidas: há medo instalado na sociedade, principalmente em países muito particulares como a França, a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Inglaterra, a Suécia ou a Noruega. Podemos continuar a andar na rua mas cada vez mais olhamos para o lado, para trás, para o “vizinho” com o qual nos cruzamos. Isto para referirmos especificamente a Europa, pela proximidade e pela afectividade, porque o olhar podia (e deve) ser mais distante: Estados Unidos, América do Sul, Iraque, Síria, Líbano, Afeganistão, Turquia, Mali, Somália, Sudão, Nigéria, entre outros. Pela lista, apesar de resumida, percebe-se que o Mundo está em guerra consigo mesmo, como afirmou recentemente o Papa Francisco. A todo este contexto importa lembrar, não deixar cair no esquecimento, e acrescentar a continuidade de vidas que, semanalmente, se perdem para sempre no Mar Mediterrâneo (números da Organização Mundial das Migrações revelam, só este ano e até à data, cerca de 3200 mortos neste mar cada vez mais transformado em cemitério do desespero).

A história revela-nos marcos importantes que determinaram mudanças relevantes nas sociedades e no desenho geopolítico mundial. Recordemos, a mero título exemplificativo, o fim da “Guerra-Fria”, a queda do Muro de Berlim e a unificação alemã, o fim da cortina de ferro e a desagregação da unificação no leste europeu. Além disso, os trágicos e impensáveis acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, com a consequente guerra no Afeganistão (Outubro de 2001) e, mais especificamente, com a Guerra do Iraque e o derrube de Sadam Hussain (Março de 2003), tornaram o Mundo menos seguro e mais conflituoso, como o demonstraram, por exemplo, os consequentes episódios de Madrid (11 de Março de 2004) e Londres (7 de Julho de 2005). Com a morte de Bin Laden, o (re)surgimento do jihadismo islamita com raízes sunitas (em claro confronto com a corrente xiita), o denominado Estado Islâmico tem manchado o valor da liberdade, da igualdade, da fraternidade e, principalmente, o inegável direito à vida, seja na Europa, seja em pleno coração africano, directamente ou através da sua influência. Na Europa, após os trágicos e deploráveis acontecimentos no Charlie Hebdo, há pouco mais de ano e meio (7 de janeiro de 2015) cobririam a França e a Europa de um rasto de atentados terroristas sob a suposta conversão do mundo ao islamismo radical e à implantação do grande califado (a junção da política - estado - com a religião é, neste caso, incontestável). O mais recente caso, na Europa, de terrorismo sob a capa do jihadismo ocorreu em França, na igreja de Saint-Etiénne-du-Rouvray, com o sacerdote Jacques Hamel a ser degolado. Mas o medo, a agitação e o constante sobressalto com que vivem, no dia-a-dia, milhares de europeus não pode ser apenas visto como sinónimo de islamismo radical ou tudo com a marca do Estado Islâmico. A verdade é que a Europa, em particular, vive momentos inconfundíveis duma clara “crise existencial”, de degradação dos seus valores políticos e sociais e que estiveram na sua génese, de incapacidade política para enfrentar os recentes desafios (seja na origem - Síria, p.ex., seja no seu interior) sociais e humanitários com que se depara diariamente, como por exemplo questões de integração social e cultural e a questão dos refugiados. A Europa em particular e o mundo, em geral, vivem demasiadamente preocupados com questões económico-financeiras, descurando as vertentes políticas, sociais e culturais. O medo e alguma histeria islamofóbica instalou-se na sociedade a propósito de tudo e de quase nada, mesmo que nem tudo seja Estado Islâmico ou islamismo radical. Reconheça-se o crescimento da xenofobia e do racismo, da perda dos valores e dos direitos humanos em muitos estados a caminho dos totalitarismos (Hungria, Turquia, etc.) do radicalismo da extrema-direita (como sucedeu há cinco anos na Noruega, como sucedeu recentemente na Alemanha, num centro comercial em Munique, e com o crescimento dos movimentos radicais) ou até mesmo, por efeito sistémico, um aumento significativo de psicopatias como aconteceu em Nice.

A Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o inegável direito universal à vida, têm de voltar a ter um papel e um valor intrínsecos, fundamentais e inabaláveis, na sociedade e na gestão política das governações, sob pena do mundo entrar num espiral de violência e medo incontroláveis, e permanecer em permanente “estado de guerra” até ao caos total.

(créditos da foto: Christopher Furlong / Getty Images)

publicado por mparaujo às 10:08

27
Mar 16

ng6283903.jpgpublicado na edição de hoje, 27 de março, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
“Je Suis… Brussels”

É um facto... é condenável e provoca um enorme sentimento de revolta e indignação o que se passou, esta semana, em Bruxelas, na capital belga e em pleno coração da União Europeia.

O terrorismo tem de ser combatido; a intolerância, a não aceitação do outro, a falta de liberdade e de democracia, têm de ser combatidos de forma voraz e eficaz. Não podemos viver com esta noção de medo, de insegurança, da desconfiança permanente por quem caminha ao nosso lado, com a crescente onda de exclusão e de radicalismos ou extremismos que surgem nestes momentos trágicos e que têm surgido em torno da questão dos refugiados (que normalmente é sempre "mal" colada a estes episódios). Nada disto tem a ver com a trágica crise humanitária dos refugiados… bem pelo contrário. Fogem da mesma tragédia que a Bélgica sentiu por minutos e que muitos, desde adultos a crianças, vivem há anos e permanentemente.

Mas também temos que ser coerentes e racionais nestas alturas. Indignamo-nos, revoltamo-nos, somos todos "Charlie" e "Je Suis...", rezamos por Paris, como rezámos por Madrid, Londres e agora também por Bruxelas ("Pray for Brussels"). Mas somos, ao mesmo tempo, hipócritas. Tocam-nos, legitimamente, os atentados em "nossa casa", no seio da “nossa” Europa, no coração das instituições europeias. Temos esse direito? Claro que temos... o direito e a obrigação "moral e solidária". E é verdade que está em causa a defesa do princípio da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade (pelo menos), a que se junta uma inacreditável irresponsabilidade política dos países europeus e da União Europeia quer na sua defesa, quer no combate ao terrorismo, quer na forma exploratória com que sempre lidou com países como a Síria, o norte e o centro de África ou o Médio Oriente, quer na forma como não consegue lidar com a tragédia humanitária dos refugiados. Acresce ainda a responsabilidade dos Estados Unidos e do que foi a crise no Iraque e a “histórica” cimeira das Lajes onde Bush impôs o ataque a Sadam com as repercussões que hoje sentimos com a revolta sunita.

Há hipocrisia e incoerência quando privilegiamos uma Europa e uma sociedade exclusivamente economicistas e financeiras, para depois virmos "chorar" pela Liberdade, pela Democracia, pelos Valores Sociais (a justiça social, a igualdade, a inclusão, etc.).

Mas é também sermos hipócritas e incoerentes quando bradamos aos céus e a todos os ventos por estes atentados, reclamamos a justiça pelas vítimas inocentes, mas, simultaneamente, desviamos o olhar, sentimos indiferença, apatia, Nigéria, Quénia, Mali, Tunísia, Costa do Marfim, Centro de África, Afeganistão, Iraque... e principalmente quando não conseguimos defender, nem proteger, a Síria ou negociamos imoralmente com a Turquia deixando-a a "ferro e fogo", sem vertermos uma única palavra ou lágrima de revolta.

Pedimos bandeiras para fotos de perfil, luzes que espelhem as cores da Bélgica na Torre Eiffel ou na Torre de Belém, mas importa questionar: onde esteve projectada a bandeira da Rússia quando abaterem o avião russo no deserto ou a bandeira da Turquia sempre que lá há um (constante) atentado ou a da Tunísia a lembrar o último atentado no resort em 2015 ou na Costa do Marfim também num resort, no início deste mês, etc., etc., etc.?

Pela coerência, pela verdade, pelo respeito por todos, Je Suis... Madrid, Londres, Charlie, Paris, Bruxelas, Turquia, Nigéria, Quénia, Síria, Costa do Marfim, Tunísia, Iraque, ... onde existam vítimas da intolerância, da falta de liberdade, dos radicalismos e extremismos (sejam eles políticos ou religiosos... ou ambas as coisas).

"Je Suis..." pela LIBERDADE, IGUALDADE, pela VIDA, pelos DIREITOS UNIVERSAIS.

Hoje, como "ontem" noutras circunstâncias, "Je Suis... Bruxels", sem hipocrisia. Mas também por uma Europa (e União Europeia) inclusiva, capaz de receber e acolher, sem xenofobias, capaz de incluir sem guetos, sem marginalização, dar liberdade com responsabilidade. Porque o problema deste terrorismo fanático e religioso tem contornos conhecidos e tem de ser combatido para além fronteiras, bem na sua génese, com a assunção de responsabilidade: da Europa, da ONU, da Arábia Saudita, do Médio Oriente, do próprio Islamismo, dos Estados Unidos. As vítimas inocentes merecem esse respeito, merecem essa honra.

publicado por mparaujo às 21:52

20
Dez 15

Nobel da Paz Uniao Europeia.jpgpublicado na edição de hoje, 20 de dezembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
A galardoada Europa, Nobel da Paz

As recentes eleições regionais em França, disputadas a duas voltas, deixaram marcas e instalaram algum pânico político e social, por mais que se queira valorizar os resultados finais com a vitória do partido republicano de Nicolas Sarkozy e da derrota de Marie Le Pen. Mas a verdade é que os resultados significativamente positivos da Frente Nacional na primeira volta obrigaram a direita e os socialistas a um jogo de rins político e a muita retórica para evitar o que seria o início do extremismo partidário e ideológico em França. No entanto, apesar de Marie Le Pen não ter ganho em nenhum dos círculos eleitorais, importa referir que a extrema-direita aumentou, neste processo eleitoral, o número de votos e de eleitos. Mas este avançar dos extremos partidários e ideológicos na Europa não é exclusivo da extrema-direita francesa. A realidade mais recente verificou-se na Grécia com uma inimaginável coligação entre esquerda radical e extrema-direita, bem como o crescente número de partidos radicais e eurocépticos que surgiram das últimas eleições europeias, criando obstáculos democráticos e promovendo radicalismo, nacionalismos ou fundamentalismos seccionistas. No entanto, este extremar ideológico não cria apenas um vazio programático no centro político, de que Portugal é recentemente exemplo e o qual a Espanha quer evitar com uma eventual aproximação entre PP e PSOE, mas projecta-se, muito para além da política, nas vivências sociais da Europa, de cada Estado-membro, das comunidades. Do ponto de vista político, a crise financeira global do pós-2008 projectou as primeiras posições extremistas e radicais, abalou a identidade europeia e os seus princípios fundadores, fez nascer os eurocépticos e as cisões. A trágica crise dos refugiados que tem batido às portas da Europa e que tem assolado a estabilidade internacional fez explodir, para além da vertente política, uma realidade ideológica e fundamentalista com claros impactos na sociedade. A Europa, abalada na sua estruturação, nas suas relações internas, nos impactos que crise provocou na solidariedade, na justiça e na equidade entre os Estados-membros, e a instabilidade e o impacto económico-social que a austeridade gerou nalgumas comunidades, não conseguiu, nem está a conseguir, lidar com esta tragédia humana, quer internamente, quer na solução ou resolução do problema na origem (ou origens), tendo nas mão umas das maiores tragédias do pós-Guerra, fazendo recordar o êxodo húngaro de 1956 ou o conflito na ex-Jugoslávia e nos Balcãs entre 1991-1999, por exemplo. Curiosamente perante uma Europa que ainda há bem pouquíssimo tempo (2012) foi galardoada com o Nobel da Paz.

A desorientação política da União Europeia, a falta de posições concertadas entre os Estados, o surgimento do radicalismo e do fundamentalismo, a queda dos valores da solidariedade e da tolerância, têm sido razões mais que suficientes para se justificar esta incapacidade de encontrar uma solução cabal e capaz. Por outro lado, tudo isto tem levado a posições surreais só justificáveis pela total ausência de estratégia social e política. A mais recente foi avançada ainda esta semana pela imprensa que dava nota que a Dinamarca se prepara para iniciar o novo ano de 2016 com a aprovação de uma lei que permite confiscar jóias e dinheiro (valor acima dos 300 euros) a quem solicitar asilo, nomeadamente aos refugiados.

É gritante esta incapacidade de distinguir um imigrante de um refugiado. É gritante e preocupante esta incapacidade para lidar com a tragédia, com quem simplesmente foge da morte, de quem é obrigado a desafiar a vida para se salvar da morte certa.

Para quem não sabe o que lhe reserva o dia de amanhã, quanto mais o futuro, para quem procura na Europa a salvação apesar das dificuldades económicas e sociais que a Europa vive (por exemplo, o desemprego), por que razão se há-de confiscar alguma esperança que ainda lhes resta?

Para nota final, a propósito da chegada dos primeiros refugiados a Portugal, algumas reportagens davam conta da preocupação de muitas famílias quanto ao futuro após os dez meses de apoio que lhes foi concedido, nomeadamente na mais que conhecida e sentida falta de emprego no nosso país. Confiscar alguma da hipotética capacidade de sobrevivência faz algum sentido? Confiscar o que é a propriedade e o sonho de qualquer cidadão é moralmente legítimo?

No entanto continuamos a viver numa Europa galardoada com a Paz.

publicado por mparaujo às 11:10

07
Jan 15

Por alguma razão a vida é o direito mais fundamental e inalienável.

A morte nunca foi, é ou há-de ser solução (Massacre na sede do semanário "Charlie Hebdo", em Paris)

O ultrapassar as barreiras que limitam a liberdade de expressão e opinião, se caso for, combate-se com os mecanismos judiciais existentes (e até são muitos, em muitos lugares do mundo - infelizmente não em todos). Radicalismos e extremismos, venham de onde vierem, não deverão nunca ser a solução, nem podem ser aceitáveis.

Pela minha condição de defensor da vida, das liberdades, da tolerância nas convicções e opções individuais, da culturalidade, no respeito pelas diferenças (mesmo sendo católico e apesar das inúmeras caricaturas à Igreja)...

SOLIDARIAMENTE (solidarité)

solidariedade semanario charlie.jpg

publicado por mparaujo às 14:22

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