Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

01
Fev 17

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publicado na edição de hoje, 1 de fevereiro, no Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Os telhados de vidro contra Trump

Já o referi (escrevi) por diversas vezes que a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos é o maior erro da história da democracia nos dois últimos séculos. E não é por desrespeito pela infeliz decisão dos norte-americanos ou por pretender negar a importância do voto livre na essência da democracia. É precisamente a mesma democracia que me legitima a liberdade de expressão e de opinião sobre a decisão democrática dos eleitores norte-americanos.

Afigura-se um mandato na Casa Branca de alguém que de política, interna e externa, percebe muito pouco e faz da função de governação, curiosamente da maior potência mundial, uma brincadeira de jogos infantis ou alguém que acha que a Sala Oval serve os mesmos princípios que o gabinete onde gere (ou geria) os seus negócios (ainda está por saber se bem e de que forma). Mais ainda, alguém que se rodeia de pessoas que fazem da administração norte-americana o espelho dos bastidores e passerelles cor-de-rosa das esferas empresarial e financeira ou da chamada alta sociedade económica ou do ilusório “glamour” das capas de revista “Jet-X”. Governar os Estado Unidos e o que representam para e no Mundo não é o mesmo que gerir uma cadeia de hóteis, campos de golfe ou casinos.

Esta primeira semana da administração de Donald Trump foi mais que suficiente para exemplificar o que será o preocupante futuro dos Estados Unidos e do Mundo e foi também mais que suficiente para nos apercebermos do perfil do 45º Presidente dos Estados Unidos da América: autoritário e totalitário (veja-se o recente caso com a demissão da Procuradora-geral, Sally Yates, em que Trump encarna em si o poder político e jurídico/constitucional); sem respeito pela condição humana e sem preocupações sociais; sem respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos; com uma agenda e estratégia internacionais desastrosas, débeis e condenáveis. E mesmo para quem se apelida de guru empresarial é, no mínimo, questionável a sua visão da economia que não sobrevive, em modo algum, sem uma visão e estratégia global num mundo com cada vez mais menos fronteiras (seja pelas importações, pelas exportações ou pelo simples mercado).

Pior que tudo é a imagem e a percepção de um presidente que isolará os Estados Unidos do mundo, que diminuirá a importância geoestratégica e geopolítica dos americanos no panorama internacional (com benefícios óbvios para a política e os interesses de Putin), que deixará a Europa desamparada e sozinha, que dividirá internamente a América e rapidamente destruirá os princípios fundadores da terra do “Tio Sam”.

Mas as críticas internacionais, concretamente as europeias, a Trump são de uma enorme incoerência e falsidade. Rapidamente se levantaram vozes a condenar veemente a decisão de Trump em relação ao muro na fronteira com o México e à decisão sobre expulsão e impedimento de entrada de refugiados e imigrantes.

É, no mínimo, curioso que líderes e políticos de países da União Europeia e a própria União Europeia se insurjam, neste ponto (repito, neste ponto), contra Trump quando a Europa não soube minimamente tratar, com dignidade, respeito pelos direitos humanos, com estratégia política concertada, de forma solidária e consistente, o problema dos milhares de refugiados que surgiam nas costas mediterrâneas gregas e italianas ou que rompiam nas fronteiras terrestres do leste europeu (pela Turquia, Moldávia, Bielorrússia ou Ucrânia). Isto sem esquecermos as posições unilaterais de muitos países europeus que nunca mostraram solidariedade com os graves problemas que italianos e gregos viveram durante décadas a fio até que o flagelo entrou pelas suas fronteiras a dentro. Basta lembrar a vergonha que foi e é Calais, os camiões na Áustria ou os actuais campos de refugiados. Mais ainda, importa recordar às incoerentes vozes críticas o vergonhoso acordo entre a União Europeia e a Turquia para “vender o problema” e pagar aos turcos para resolverem algo que a UE foi incapaz de solucionar, transformando a vida humana, a vida humana mais fragilizada e mais necessitada, em mercadoria e moeda de troca.

Por fim, importa também lembrar que era importante a Europa olhar para os seus próprios muros e para as suas inexistentes políticas de migração e de acolhimento a refugiados, recordando como exemplo, os recentes “muros” na Bulgária e na Hungria e as respectivas posições políticas dos seus líderes.

É importante que a Europa olhe ara os seus “telhados de vidro” e arrume primeiro a sua casa, sem que isso desculpe, em nada e de qualquer forma, a triste administração de Donald Trump. Em nada mesmo. Basta lembrar uma das últimas afirmações de Trump: “a tortura funciona”.

(créditos da foto: agência Reuters - tvi)

publicado por mparaujo às 09:58

21
Dez 16

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publicado na edição de hoje, 21 de dezembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Não sabe a Natal…

O calendário não deixa dúvidas, seja para crentes ou para não crentes, seja na esfera religiosa ou na esfera pagã ou laica, seja junto a um presépio ou junto a uma árvore de Natal, seja a contemplar o Menino ou à espera que alguém desça pela chaminé, a verdade é que estamos no Natal. A questão é: mas que Natal?

Por força da condição humana esta época é, por si só, um período de maior sensibilidade social, de maior atenção humanitária e humanista, de uma maior proximidade com aqueles que têm mais dificuldades na vida, seja porque razão for. Embora, seja óbvio, que tais realidades nos deveriam preocupar durante todo o ano. Aliás, não raramente ouvimos como desculpa e como justificação para restringir a proximidade ou alargar distâncias em relação às realidades negativas da vida humana (pobreza, o desemprego, a fome, a morte, o terror e o medo) as vozes críticas acusando quem olha mais global esquecendo os que estão e moram ao lado, mesmo que essas vozes críticas nem se preocupem por uns ou por outros.

Vivências em cenários de guerra, de permanente fuga à morte pelas armas, de fome, de pobreza, de isolamento, da necessidade de acolhimento e refúgio, não têm fronteiros e são da responsabilidade universal. É uma questão óbvia e natural da defesa dos valores dos direitos universais, da defesa do direito inalienável e primário da vida.

São inúmeras, nalguns casos excessivas e questionáveis (porque, não raramente, fraudulentas), as campanhas de solidariedade e humanitárias que proliferam neste período do ano. Surgem no âmbito dos cuidados da saúde, dos apoios sociais, nos contributos para entidades que prestam serviços primários às comunidades, para causas culturais, para a solidariedade com uma comunidade ou com os vizinhos. Raramente, salvo as devidas excepções (também elas raras), apesar do espírito natalício, tenha ele carácter religioso ou não, surgem campanhas consistentes que contribuam para a paz. E este alheamento dos cidadãos, das comunidades e, nomeadamente, dos governos das nações e das instituições internacionais, face ao que é, hoje, a realidade da convivência e sobrevivência internacional é, deveras, preocupante e inquietante. A forma como as pessoas são incapazes de aceitar o outro, de aceitar as diferenças e conviver com elas, respeitar diferentes convicções e opções de vida; a forma como os países sobrepõem interesses questionáveis ao respeito pelo direito universal e internacional à existência de cada povo e nação; a forma como as comunidades excluem em vez de incluir, ostracizam em vez de valorizar e envolverem ou acolherem; tem tornado estas três últimas décadas um verdadeiro genocídio universal, tem transformado a vidas das comunidades e dos cidadãos insegura, turbulenta, infernal, desumana.

Quando no declínio da chamada “guerra fria” o mundo assistia, nos finais de 1989, à impensável queda do Muro de Berlim, ao fim da “cortina de ferro” e da União Soviética e do pacto de Varsóvia, muitos foram os que acreditavam num mundo melhor, mais igual, mais justo, mais fraterno. Puro engano… as nações estão mais agressivas, menos cooperantes, mais dominadoras, e os povos/cidadãos menos tolerantes, mais indiferentes, menos solidários.

Os acontecimentos do início desta semana que dizimaram milhares de pessoas, feriram outras tantas e exilaram ainda mais em Aleppo (Síria), em Berlim, na Turquia, na Suíça, na sempre esquecida e abandonada África ou no Médio Oriente, mais não são que o reflexo de 30 anos (pelo menos) de uma comunidade internacional em constante êxodo, em permanente conflito por imposição de verdades e convicções absolutas que não existem, o reflexo de 30 anos da degradação dos valores e direitos humanos fundamentais e universais. Não bastam, face aos acontecimentos, as mensagens de solidariedade entre algumas nações, quando a União Europeia vê os princípios e valores da sua fundação e estruturação a regredirem permanentemente; quando a comunidade internacional não consegue lidar com as diferenças entre os povos, não consegue aceitar princípios básicos de convivência ou de justiça internacional, não consegue unir esforços no combate a realidades de terror e de carnificina como a que diariamente assistimos, tendo a Síria como exemplo entre outros tantos.

Não faz sentido desembrulhar aquela prenda especial, carregar sacos no centros comerciais, beijar o “menino na Missa do Galo, quando milhares de pessoas vivem em campos de refugiados, vivem debaixo das pontes, fogem por entre as ruínas das suas cidades e tentam escapar por entre as balas e as bombas, sem que disso tenham qualquer responsabilidade.

E 2016 tem sido um forte espelho desta triste realidade… em pleno Natal.

publicado por mparaujo às 10:01

18
Dez 16

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publicado na edição de hoje, 18 de dezembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O Inferno na terra

Tomemos como marco o mundo tido da “era moderna” pós II Guerra Mundial que é referência no actual sistema geopolítico e geoestratégico mundial, seja ao nível político, económico, científico e social.

O mundo ainda não refeito do impacto na Europa do conflito com a Alemanha de Hitler procurava dar os primeiros passos na sua organização geopolítica, como a criação da NATO, das Nações Unidas, dos primórdios da Comunidade Europeia, do Bloco de Leste. No entanto, as feridas mal saradas do conflito na Europa, que se estenderia ainda ao Pacífico com o confronto entre o Japão e os Estados Unidos, não foram suficientes para, mesmo em plena “Guerra Fria”, tornar o mundo mais seguro e politicamente mais estável. A década de 60 ficava marcada pela guerra no Vietnam e nas Coreias durante cerca de oito anos; nos finais deste período (1968) a Operação Danúbio fazia entrar na então Checoslováquia as tropas soviéticas e os aliados do Pacto de Varsóvia que, desde a Primavera de Praga, ocupariam aquele território até 1991. Nos anos 70 e durante cerca de dez anos (1979-1989) o mundo assistia à invasão do Afeganistão por parte das tropas da URSS de Brezhnev que só terminaria com Gorbachev a ordenar a retirada das tropas no que é considerado por alguns como o princípio do colapso da União Soviética. A década de 90 ficava marcada por dois grandes conflitos armados e por um outro (mais de guerrilha) que tocou bem de perto muitos portugueses: o massacre de Santa Cruz (Dili - novembro de 1991) e a correspondente libertação de Timor-Leste do domínio da Indonésia. O início desta década (agosto de 1990) ficou marcado pela Guerra do Golfo e a invasão do Kuwait por parte do Iraque (agosto de 1990 a fevereiro de 1991 naquele que é um marco temporal no que é hoje a nova configuração de conflito e relações internacionais e, curiosamente, a forma como a comunicação social passou a ter um outro papel na informação de cenários de guerra. Bem perto do Natal de 1991, após a importância que teve a difusão das imagens do jornalista inglês Max Stahl do massacre de cerca de 400 timorenses, os olhares voltaram-se para Timor-Leste tendo sido possível, até ao final da década de 90, com alguma diplomacia portuguesa à mistura, libertar aquele povo do domínio da Indonésia e torná-lo na mais jovem nação. Entretanto, o mundo regista um dos maiores e mais duradoiros conflitos da história da humanidade que já vem desde o início do século XX: o conflito Israel-Palestiniano. Também pelo meio fica a sempre esquecida e abandonada África em constante conflitualidade interna após os períodos colonizadores de Portugal, Holanda, França e Inglaterra; a relação instável entre a Índia e o Paquistão; a posição instável da Turquia entre duas realidades culturais (ocidente e oriente); e, ainda, as convulsões dos países da América do Sul (Colômbia, Chile, Argentina, Nicarágua, como exemplos).

Eis-nos chegados à nova realidade geopolítica e geoestratégica internacionais: 11 de setembro de 2001 e a consequente invasão do Iraque de Saddam Hussein em março de 2003. O mundo ficaria, por mais vozes que o contradigam, muito mais inseguro, muito mais conflituoso, muito mais perigoso, muito menos humano, humanizado e humanitário, e o mesmo mundo passaria a viver uma nova realidade de conflitualidade: o terrorismo e o extremismo religioso-político. Até hoje, o mundo assistiu à guerra no Iraque, à intervenção no Afeganistão; ao ressurgimento dos focos extremistas em África; à explosão do sentimento de liberdade nas Primaveras Árabes; aos atentados no coração da Europa (Espanha, Inglaterra, França, Bélgica, Alemanha); ao crescimento das ideologias radicais e extremistas de movimentos e partidos políticos quer na Europa, quer nos Estados Unidos; à inigualável e histórica crise dos refugiados. E como toda esta história da humanidade em “apenas” 71 anos (desde o final da II Guerra Mundial em 1945 até hoje) o Mundo nada aprendeu, nada corrigiu, os povos e os seus líderes em nada mudaram continuando a sobrepor os interesses de uns (poucos) e de algo (economia, poder, recursos) acima das pessoas, das comunidades, das vontades e liberdades de cada cidadão.

Eis-nos chegados a Aleppo, na Síria, em finais deste ano de 2016. A distância de mais de cinco mil quilómetros, mesmo que os impactos sejam mais que visíveis no Mundo e na Europa, faz-nos olhar para os milhares de mortos, refugiados e desalojados, para milhares de cidadãos em permanente sobressalto e pavor, enfrentado diariamente a morte pelas armas ou pela fome e/ou doença, enfrentando a destruição das suas vidas, com uma generalizada indiferença e alheamento. A Europa e os Estados Unidos não podem continuar a desresponsabilizar-se (e a responsabilizar terceiros) por algo que lhes diz, directamente, respeito. O mundo (nós) não pode ficar indiferente perante um dos maiores massacres que a história conheceu.

Aleppo deveria-nos fazer pensar se o Natal, se este Natal, faz qualquer sentido. Um Natal que na Síria (e não só… em Mossul, em África, no Iraque e em muitos outros sítios) é sinónimo de Inferno… na terra.

(créditos da foto: Abdalrhman Ismail / Reuters)

publicado por mparaujo às 16:36

21
Nov 16

São já 27 os anos que separam o dia 20 de novembro de 1989 do dia celebrado ontem (20 de novembro de 2016).

São já 27 os anos que distam do dia em que as Nações Unidas adoptaram a Convenção dos Direitos das Crianças (20 de novembro de 1989).

Hoje (ontem) é dia de lembrar o que nos relata a UNICEF.

  • seis milhões de crianças continuam a morrer anualmente de causas evitáveis.
  • 50 milhões de crianças foram obrigadas a abandonar as suas casas, das quais 28 milhões estão deslocadas por conflitos ou pela guerra.
  • 250 milhões de crianças vivem em países afectados por conflitos. (Síria, Iraque e norte da Nigéria, a título de exemplo).

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  • 385 milhões de crianças vivem na pobreza extrema.
  • Mais de 250 milhões de crianças em idade escolar não estão a aprender.
  • Perto de 300 milhões de crianças vivem em zonas com os níveis tóxicos de poluição do ar mais elevados (seis vezes superior aos valores definidos internacionalmente).

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 Mas também Portugal não foge à tragédia dos números.

  • 2,8 milhões de portugueses encontram-se em risco de pobreza, sendo que destes mais de 640 mil serão crianças e jovens.
  • uma em cada quatro crianças portuguesas vive na pobreza.

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Para além de todos este dados, permanece-me na memória, bem viva, o pequeno sírio Aylan Kurdi numa praia turca e os milhares de crianças que morreram no mar Mediterrâneo.

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Isto sem esquecer os milhões de crianças em todo o mundo e dos milhares em Portugal vítimas de abusos, violência, tráfico e escravatura.

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publicado por mparaujo às 14:11

04
Set 16

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Fez esta sexta-feira passada um ano que o mundo olhava para esta foto com um misto de estupefacção, raiva, emoção, inquietude... de dor. Mas simultaneamente com muitas interrogações, críticas, o apontar de responsabilidades ao fundamentalismo religioso e político, ao estado islâmico, à Síria, à União Europeia, aos Estados Unidos.

Mas acima de tudo a imagem do pequeno Aylan Kurdi marcou de forma "explosiva" o momento, apesar de tantas e tantas mortes que o Mediterrâneo tinha já registado.

Infelizmente, a memória é curta ou as pessoas tendem a transformar rapidamente as lágrimas e a revolta em passado.

A verdade é que desde janeiro deste ano até ao passado mês de agosto foram resgatados às águas do Mediterrâneo mais de 270 mil refugiados, estimando-se que tenham perdido a vida cerca de 3165 pessoas das quais 205 são crianças e bebés.

E se o polémico e condenável acordo entre a União Europeia e a Turquia, transformando a vida humana num negócio e reduzindo a condição humana a um mero valor monetário, parece ter reduzido a afluência de refugiados às costas gregas e italianas, também é verdade que criou outro tipo de realidades: o aumento do tráfico humano e de órgãos humanos, das violações e da prostituição infantil, das condições de vida sub-humanas nos campos de refugiados; e, por outro lado, o aumento de refugiados de outros pólos de migração, nomeadamente do norte de África (Eritreia, Somália, Nigéria, Gâmbia, entre outros).

E preocupante é também a incapacidade da ONU, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, da Rússia, dos Estados Unidos, entre outros, e principalmente da União Europeia para encontrar uma solução eficaz, humanitária, política, para este incontrolado e grave flagelo das dias de hoje. Segundo a organização Save the Children "desde o ano de 2015 terão chegado à Europa mais de 1,2 milhões de refugiados – a maior vaga de migração forçada desde a Segunda Guerra Mundial" (fonte: revista Visão).

A tudo isto acresce a preocupante afirmação do Presidente do Conselho Europeu, Donal Trusk, que afirmou, na presente cimeira dos G20, que «capacidade da UE para acolher refugiados está "próxima dos limites"» (fonte: Diário de Notícias - edição online de 4 de setembro).

Como diz a canção... o mundo gira, mas parece ter deixado de avançar.

publicado por mparaujo às 22:58

03
Ago 16

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publicado na edição de hoje, 3 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Em pé de guerra

A recente notícia dos quatro argelinos que invadiram a pista do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, deixou muitos portugueses entre a perplexidade e o sobressalto, para mais com a divulgação que, semana antes, o mesmo tinha ocorrido com um grupo de marroquinos. A perturbação e o desassossego deram, rapidamente, origem a algum histerismo colectivo e informativo com o fantasma “terrorismo”. O que já não é novidade, nomeadamente por essa Europa fora. Por mais que seja usado o chavão de que a vida continua e há que mostrar serenidade ao enfrentarmos a realidade, não tenhamos dúvidas: há medo instalado na sociedade, principalmente em países muito particulares como a França, a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Inglaterra, a Suécia ou a Noruega. Podemos continuar a andar na rua mas cada vez mais olhamos para o lado, para trás, para o “vizinho” com o qual nos cruzamos. Isto para referirmos especificamente a Europa, pela proximidade e pela afectividade, porque o olhar podia (e deve) ser mais distante: Estados Unidos, América do Sul, Iraque, Síria, Líbano, Afeganistão, Turquia, Mali, Somália, Sudão, Nigéria, entre outros. Pela lista, apesar de resumida, percebe-se que o Mundo está em guerra consigo mesmo, como afirmou recentemente o Papa Francisco. A todo este contexto importa lembrar, não deixar cair no esquecimento, e acrescentar a continuidade de vidas que, semanalmente, se perdem para sempre no Mar Mediterrâneo (números da Organização Mundial das Migrações revelam, só este ano e até à data, cerca de 3200 mortos neste mar cada vez mais transformado em cemitério do desespero).

A história revela-nos marcos importantes que determinaram mudanças relevantes nas sociedades e no desenho geopolítico mundial. Recordemos, a mero título exemplificativo, o fim da “Guerra-Fria”, a queda do Muro de Berlim e a unificação alemã, o fim da cortina de ferro e a desagregação da unificação no leste europeu. Além disso, os trágicos e impensáveis acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, com a consequente guerra no Afeganistão (Outubro de 2001) e, mais especificamente, com a Guerra do Iraque e o derrube de Sadam Hussain (Março de 2003), tornaram o Mundo menos seguro e mais conflituoso, como o demonstraram, por exemplo, os consequentes episódios de Madrid (11 de Março de 2004) e Londres (7 de Julho de 2005). Com a morte de Bin Laden, o (re)surgimento do jihadismo islamita com raízes sunitas (em claro confronto com a corrente xiita), o denominado Estado Islâmico tem manchado o valor da liberdade, da igualdade, da fraternidade e, principalmente, o inegável direito à vida, seja na Europa, seja em pleno coração africano, directamente ou através da sua influência. Na Europa, após os trágicos e deploráveis acontecimentos no Charlie Hebdo, há pouco mais de ano e meio (7 de janeiro de 2015) cobririam a França e a Europa de um rasto de atentados terroristas sob a suposta conversão do mundo ao islamismo radical e à implantação do grande califado (a junção da política - estado - com a religião é, neste caso, incontestável). O mais recente caso, na Europa, de terrorismo sob a capa do jihadismo ocorreu em França, na igreja de Saint-Etiénne-du-Rouvray, com o sacerdote Jacques Hamel a ser degolado. Mas o medo, a agitação e o constante sobressalto com que vivem, no dia-a-dia, milhares de europeus não pode ser apenas visto como sinónimo de islamismo radical ou tudo com a marca do Estado Islâmico. A verdade é que a Europa, em particular, vive momentos inconfundíveis duma clara “crise existencial”, de degradação dos seus valores políticos e sociais e que estiveram na sua génese, de incapacidade política para enfrentar os recentes desafios (seja na origem - Síria, p.ex., seja no seu interior) sociais e humanitários com que se depara diariamente, como por exemplo questões de integração social e cultural e a questão dos refugiados. A Europa em particular e o mundo, em geral, vivem demasiadamente preocupados com questões económico-financeiras, descurando as vertentes políticas, sociais e culturais. O medo e alguma histeria islamofóbica instalou-se na sociedade a propósito de tudo e de quase nada, mesmo que nem tudo seja Estado Islâmico ou islamismo radical. Reconheça-se o crescimento da xenofobia e do racismo, da perda dos valores e dos direitos humanos em muitos estados a caminho dos totalitarismos (Hungria, Turquia, etc.) do radicalismo da extrema-direita (como sucedeu há cinco anos na Noruega, como sucedeu recentemente na Alemanha, num centro comercial em Munique, e com o crescimento dos movimentos radicais) ou até mesmo, por efeito sistémico, um aumento significativo de psicopatias como aconteceu em Nice.

A Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o inegável direito universal à vida, têm de voltar a ter um papel e um valor intrínsecos, fundamentais e inabaláveis, na sociedade e na gestão política das governações, sob pena do mundo entrar num espiral de violência e medo incontroláveis, e permanecer em permanente “estado de guerra” até ao caos total.

(créditos da foto: Christopher Furlong / Getty Images)

publicado por mparaujo às 10:39

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publicado na edição de hoje, 3 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Em pé de guerra

A recente notícia dos quatro argelinos que invadiram a pista do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, deixou muitos portugueses entre a perplexidade e o sobressalto, para mais com a divulgação que, semana antes, o mesmo tinha ocorrido com um grupo de marroquinos. A perturbação e o desassossego deram, rapidamente, origem a algum histerismo colectivo e informativo com o fantasma “terrorismo”. O que já não é novidade, nomeadamente por essa Europa fora. Por mais que seja usado o chavão de que a vida continua e há que mostrar serenidade ao enfrentarmos a realidade, não tenhamos dúvidas: há medo instalado na sociedade, principalmente em países muito particulares como a França, a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Inglaterra, a Suécia ou a Noruega. Podemos continuar a andar na rua mas cada vez mais olhamos para o lado, para trás, para o “vizinho” com o qual nos cruzamos. Isto para referirmos especificamente a Europa, pela proximidade e pela afectividade, porque o olhar podia (e deve) ser mais distante: Estados Unidos, América do Sul, Iraque, Síria, Líbano, Afeganistão, Turquia, Mali, Somália, Sudão, Nigéria, entre outros. Pela lista, apesar de resumida, percebe-se que o Mundo está em guerra consigo mesmo, como afirmou recentemente o Papa Francisco. A todo este contexto importa lembrar, não deixar cair no esquecimento, e acrescentar a continuidade de vidas que, semanalmente, se perdem para sempre no Mar Mediterrâneo (números da Organização Mundial das Migrações revelam, só este ano e até à data, cerca de 3200 mortos neste mar cada vez mais transformado em cemitério do desespero).

A história revela-nos marcos importantes que determinaram mudanças relevantes nas sociedades e no desenho geopolítico mundial. Recordemos, a mero título exemplificativo, o fim da “Guerra-Fria”, a queda do Muro de Berlim e a unificação alemã, o fim da cortina de ferro e a desagregação da unificação no leste europeu. Além disso, os trágicos e impensáveis acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, com a consequente guerra no Afeganistão (Outubro de 2001) e, mais especificamente, com a Guerra do Iraque e o derrube de Sadam Hussain (Março de 2003), tornaram o Mundo menos seguro e mais conflituoso, como o demonstraram, por exemplo, os consequentes episódios de Madrid (11 de Março de 2004) e Londres (7 de Julho de 2005). Com a morte de Bin Laden, o (re)surgimento do jihadismo islamita com raízes sunitas (em claro confronto com a corrente xiita), o denominado Estado Islâmico tem manchado o valor da liberdade, da igualdade, da fraternidade e, principalmente, o inegável direito à vida, seja na Europa, seja em pleno coração africano, directamente ou através da sua influência. Na Europa, após os trágicos e deploráveis acontecimentos no Charlie Hebdo, há pouco mais de ano e meio (7 de janeiro de 2015) cobririam a França e a Europa de um rasto de atentados terroristas sob a suposta conversão do mundo ao islamismo radical e à implantação do grande califado (a junção da política - estado - com a religião é, neste caso, incontestável). O mais recente caso, na Europa, de terrorismo sob a capa do jihadismo ocorreu em França, na igreja de Saint-Etiénne-du-Rouvray, com o sacerdote Jacques Hamel a ser degolado. Mas o medo, a agitação e o constante sobressalto com que vivem, no dia-a-dia, milhares de europeus não pode ser apenas visto como sinónimo de islamismo radical ou tudo com a marca do Estado Islâmico. A verdade é que a Europa, em particular, vive momentos inconfundíveis duma clara “crise existencial”, de degradação dos seus valores políticos e sociais e que estiveram na sua génese, de incapacidade política para enfrentar os recentes desafios (seja na origem - Síria, p.ex., seja no seu interior) sociais e humanitários com que se depara diariamente, como por exemplo questões de integração social e cultural e a questão dos refugiados. A Europa em particular e o mundo, em geral, vivem demasiadamente preocupados com questões económico-financeiras, descurando as vertentes políticas, sociais e culturais. O medo e alguma histeria islamofóbica instalou-se na sociedade a propósito de tudo e de quase nada, mesmo que nem tudo seja Estado Islâmico ou islamismo radical. Reconheça-se o crescimento da xenofobia e do racismo, da perda dos valores e dos direitos humanos em muitos estados a caminho dos totalitarismos (Hungria, Turquia, etc.) do radicalismo da extrema-direita (como sucedeu há cinco anos na Noruega, como sucedeu recentemente na Alemanha, num centro comercial em Munique, e com o crescimento dos movimentos radicais) ou até mesmo, por efeito sistémico, um aumento significativo de psicopatias como aconteceu em Nice.

A Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o inegável direito universal à vida, têm de voltar a ter um papel e um valor intrínsecos, fundamentais e inabaláveis, na sociedade e na gestão política das governações, sob pena do mundo entrar num espiral de violência e medo incontroláveis, e permanecer em permanente “estado de guerra” até ao caos total.

(créditos da foto: Christopher Furlong / Getty Images)

publicado por mparaujo às 10:08

14
Jan 16

refugiados__sirios_alemanha.jpgpublicado originalmente na segunda-feira (11 de janeiro) no PTJornal - Bisturi e republicado no Diário de Aveiro, ontem, 13 de janeiro.

(Re)Erguer novos muros

A Europa nunca conseguiu ultrapassar os traumas existenciais do pós-guerra: a divisão geopolítica (leste, centro-norte, ilha e sul); a diferença de identidades (mais ricos e mais industrializados, menos ricos e menos produtivos); os interesses particulares (políticos, culturais ou económicos); as ideologias e os radicalismos; o permanente confronto entre a União Soviética (e agora Rússia) e o resto da Europa. E os muros, uns reais e físicos, outros abstractos, foram uma constante nesta Europa até à queda do muro de Berlim, em novembro de 1989 (mais precisamente a 3 de novembro) e todo o seu impacto geopolítico na região centro e leste.

Numa base clara de protecção financeira e de desenvolvimento regional (BENELUX) e, um pouco mais tarde, marcadamente económica (CECA) foi implementada a Comunidade Económica Europeia (Tratado de Roma - 1957 e Tratado de Bruxelas ou ‘Tratado da Fusão’ - 1965) também ela, conforme os seus princípios, de cariz económico e comercial (quer do ponto de vista interno, quer nas relações comerciais externas). Chegámos a Maastricht, em 1992… Há, há vários e longos anos, um manifesto confronto ideológico entre a política e a economia na disputa da supremacia pela prevalência sobre as dinâmicas das comunidades e da sociedade. Até hoje, nenhuma venceu e ambas perderam.

No caso da Europa (ou da União Europeia, se quisermos) apesar da preponderância económica sobre todo e qualquer valor, o resultado apresenta-se, nos dias de hoje, como a destruição do que foram as últimas três décadas (desde Maastricht, passando por Lisboa – 2009, até hoje) do sonho europeu, de uma comunidade forte financeiramente (interna e externa), desenvolvida economicamente, solidária entre si (incluindo a questão da segurança) e estruturalmente consistente do ponto de vista político e social.

O que hoje se nos depara, dia após dia, desde a crise de 2008 por força do impacto do caso Lehman Brothers, é uma União Europeia desfragmentada, à beira do colapso interno, sem fundamentação anímica que resolva dois graves problemas que abalam os seus antigos pilares ou, por força do Tratado de Lisboa, as suas competências: a sua actual fragilidade económica e financeira e que coloca em causa os alicerces da própria Moeda Única e a Zona Euro; a sua instabilidade política com o surgimento de um crescente eurocepticismo e dos radicalismos ideológicos; e a sua incapacidade para a inclusão e para a coesão social, numa notória dificuldade para promover os princípios da sua história política e social como a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Do fracasso económico são espelho o esmagamento económico da Europa provocado pelos interesses particulares da Alemanha, com evidentes impactos em países do centro e, particularmente, do sul. Do ponto de vista financeiro, a debilidade de todo o sistema bancário e os resgates financeiros da Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda, para além do conhecido caso da Finlândia, criaram uma fragilidade preocupante na confiança na Zona Euro e na Moeda Única. Depois da crise dos Balcãs (resolvida pela intervenção externa - ONU e NATO, e que levou a repensar e a trazer para a agenda comunitária a política de Segurança Interna); depois de tantos processos de adesão mas sem conseguir resolver, há décadas, o “calcanhar de Aquiles” que é o processo da Turquia; depois do falhanço completo no confronto geopolítico e geoestratégico com a Rússia no conflito da Ucrânia; depois da inconsistência e incoerência das intervenções no Médio Oriente e as responsabilidades humanitárias nessa zona e no norte e centro de África; eis que a Europa sucumbe ao terrorismo e à incapacidade política e social na resolução ou no tratamento da tragédia humanitária dos Refugiados, com os impactos e danos que provoca nos fundamentalismos emergentes, nos processos de exclusão, xenofobia e racismo, na desfragmentação e instabilidade sociais, na construção de novos muros e o erguer de muitos “arames farpados”. Aliás, foi assim que se iniciou o ano de 2016: mais mortes no Mediterrâneo, o continuar da vaga de Refugiados, a continuação do conflito Sírio e do crescimento da pressão do Estado Islâmico, os acontecimentos em Colónia (Alemanha).

Há uma certeza… esta Europa não é solução, nem tem solução. Refaça-se ou faça-se reset, sob pena de muitos e novos “muros” começarem a ser erguidos.

publicado por mparaujo às 11:36

04
Jan 16

palavra do ano 2015 - refugiado.pngHá uma certeza em relação à problemática dos Refugiados e à tragédia humanitária que é esta triste actual realidade: ninguém, seja qual for o critério, fundamento ou análise, consegue ficar indiferente.

Por isso não é de estranhar que a escolha da palavra do ano de 2015 tenha sido "REFUGIADO". Esta foi a realidade mais marcante no ano passado e que mais impacto teve nas sensibilidades de todos, nas vivências comunitárias  e nas políticas (ou nas suas ausências) de muitos países da Europa.

A iniciativa tem o "carimbo" da Porto Editora e iniciou-se no ano de 2009. Nesse ano a palavra escolhida pelos portugueses foi "Esmiuçar". Nos anos seguintes as escolham recaíram sobre as palavras "Vuvuzela" (2010), "Austeridade" (2011 - crise portuguesa), "Entroikado" (2012 - chegada da Troika), "Bombeiro" (2013) e "Corrupção" (2014).

A escolha de "Refugiado" como palavra do ano obteve 31% dos votos dos portugueses que participaram na iniciativa, tendo deixado a segunda palavra mais votada - "Terrorismo" a uma distância considerável (17% das preferências).

Curiosamente as três primeiras palavras retratam aspectos relacionados, complementares ou paralelos, da mesma realidade: Refugiado; Terrorismo; e Acolhimento.

Mas há coincidências "curiosas". Na mesma altura em que surgiam as notícias da escolha da palavra do ano de 2015, a comunicação social difundia mais um "lado negro" da guerra e de quem dela foge para encontrar uma esperança de vida, muitas vezes não alcançada: no sábado (2 de janeiro), nas primeiras horas de um novo ano, que na gíria tanta vezes se associa "nova ano a vida nova", o Mediterrâneo fazia a sua primeira vítima mortal nas já tão constantes tentativas de entrada na Europa por parte dos barcos com migrantes ilegais e Refugiados. Não é, para já, conhecida a identidade. Apenas que tinha 2 anos e viaja com a mãe da Turquia para a Grécia à procura de uma vida melhor.

publicado por mparaujo às 16:00

20
Dez 15

Nobel da Paz Uniao Europeia.jpgpublicado na edição de hoje, 20 de dezembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
A galardoada Europa, Nobel da Paz

As recentes eleições regionais em França, disputadas a duas voltas, deixaram marcas e instalaram algum pânico político e social, por mais que se queira valorizar os resultados finais com a vitória do partido republicano de Nicolas Sarkozy e da derrota de Marie Le Pen. Mas a verdade é que os resultados significativamente positivos da Frente Nacional na primeira volta obrigaram a direita e os socialistas a um jogo de rins político e a muita retórica para evitar o que seria o início do extremismo partidário e ideológico em França. No entanto, apesar de Marie Le Pen não ter ganho em nenhum dos círculos eleitorais, importa referir que a extrema-direita aumentou, neste processo eleitoral, o número de votos e de eleitos. Mas este avançar dos extremos partidários e ideológicos na Europa não é exclusivo da extrema-direita francesa. A realidade mais recente verificou-se na Grécia com uma inimaginável coligação entre esquerda radical e extrema-direita, bem como o crescente número de partidos radicais e eurocépticos que surgiram das últimas eleições europeias, criando obstáculos democráticos e promovendo radicalismo, nacionalismos ou fundamentalismos seccionistas. No entanto, este extremar ideológico não cria apenas um vazio programático no centro político, de que Portugal é recentemente exemplo e o qual a Espanha quer evitar com uma eventual aproximação entre PP e PSOE, mas projecta-se, muito para além da política, nas vivências sociais da Europa, de cada Estado-membro, das comunidades. Do ponto de vista político, a crise financeira global do pós-2008 projectou as primeiras posições extremistas e radicais, abalou a identidade europeia e os seus princípios fundadores, fez nascer os eurocépticos e as cisões. A trágica crise dos refugiados que tem batido às portas da Europa e que tem assolado a estabilidade internacional fez explodir, para além da vertente política, uma realidade ideológica e fundamentalista com claros impactos na sociedade. A Europa, abalada na sua estruturação, nas suas relações internas, nos impactos que crise provocou na solidariedade, na justiça e na equidade entre os Estados-membros, e a instabilidade e o impacto económico-social que a austeridade gerou nalgumas comunidades, não conseguiu, nem está a conseguir, lidar com esta tragédia humana, quer internamente, quer na solução ou resolução do problema na origem (ou origens), tendo nas mão umas das maiores tragédias do pós-Guerra, fazendo recordar o êxodo húngaro de 1956 ou o conflito na ex-Jugoslávia e nos Balcãs entre 1991-1999, por exemplo. Curiosamente perante uma Europa que ainda há bem pouquíssimo tempo (2012) foi galardoada com o Nobel da Paz.

A desorientação política da União Europeia, a falta de posições concertadas entre os Estados, o surgimento do radicalismo e do fundamentalismo, a queda dos valores da solidariedade e da tolerância, têm sido razões mais que suficientes para se justificar esta incapacidade de encontrar uma solução cabal e capaz. Por outro lado, tudo isto tem levado a posições surreais só justificáveis pela total ausência de estratégia social e política. A mais recente foi avançada ainda esta semana pela imprensa que dava nota que a Dinamarca se prepara para iniciar o novo ano de 2016 com a aprovação de uma lei que permite confiscar jóias e dinheiro (valor acima dos 300 euros) a quem solicitar asilo, nomeadamente aos refugiados.

É gritante esta incapacidade de distinguir um imigrante de um refugiado. É gritante e preocupante esta incapacidade para lidar com a tragédia, com quem simplesmente foge da morte, de quem é obrigado a desafiar a vida para se salvar da morte certa.

Para quem não sabe o que lhe reserva o dia de amanhã, quanto mais o futuro, para quem procura na Europa a salvação apesar das dificuldades económicas e sociais que a Europa vive (por exemplo, o desemprego), por que razão se há-de confiscar alguma esperança que ainda lhes resta?

Para nota final, a propósito da chegada dos primeiros refugiados a Portugal, algumas reportagens davam conta da preocupação de muitas famílias quanto ao futuro após os dez meses de apoio que lhes foi concedido, nomeadamente na mais que conhecida e sentida falta de emprego no nosso país. Confiscar alguma da hipotética capacidade de sobrevivência faz algum sentido? Confiscar o que é a propriedade e o sonho de qualquer cidadão é moralmente legítimo?

No entanto continuamos a viver numa Europa galardoada com a Paz.

publicado por mparaujo às 11:10

18
Nov 15

#not in my name.jpgpublicado na edição de hoje, 18 de novembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Não vale a pena esconder… “cheira a medo”

O Presidente e o Primeiro-ministro franceses já o declararam, no seguimento dos acontecimentos da passada sexta-feira, em Paris: a França (e não só) está em guerra. Será difícil prever quando terminará ou de que maneira terminará esta guerra. Também não é difícil afirmarmos que ela já se desenrola desde as consequências acções no após “11 de Setembro”. E só a afirmação, a declaração de guerra em si mesma assusta, inquieta, insegura qualquer comunidade ou cidadão. Não tenhamos dúvidas… há medo no ar. Ou, para os mais afastados dos acontecimentos de Paris, há, pelo menos, alguma apreensão, algum desconforto, alguma inquietação. Não há, genericamente, é indiferença, seja pela solidariedade, seja pela crítica.

Por maior que seja o regresso à normalidade na capital francesa os próximos tempos serão de um desassossego latente, seja em França e na Europa, seja, por exemplo, nos Estados Unidos. A instabilidade política, social e militar na Síria e no Médio Oriente, em toda a região Árabe, agravada pelo reforço das intervenções militares na região síria controlada pelo autoproclamado Estado Islâmico (a mais recente pela França, na resposta imediata, e pela Inglaterra), deixa o resto do mundo, nomeadamente a Europa e os Estados Unidos, num permanente nervoso miudinho. A globalização do mundo, em todas as suas vertentes (social, económica, política, cultural, religiosa) já não se compadece com sentimentos de “orgulhosamente sós”. Isso já não existe. A Europa, os Estados Unidos e a NATO, têm responsabilidades acrescidas neste combate ao terrorismo extremista e radical, com pseudo-fundamentos religiosos mas que é mais de índole política, por todas as alterações geopolíticas ocorridas no pós Iraque, Afeganistão, Primavera Árabe e pelo abandono de grande parte de África. Têm responsabilidades, têm que assumir posições claras, tomar medidas conjuntas e eficazes, estratégias comuns, mesmo que envolvam países que, à partida, estão afastados do processo, como a Rússia ou a China. Este processo tem, necessariamente, de ser, à escala política e militar, também ele global e estrategicamente conciliado. Até porque o “tempo” destes islamitas radicais não é o mesmo “tempo”, não tem a mesma dimensão”, que o “tempo ocidental”. Se há algo que o estado islâmico tem é tempo e paciência.

Mas a responsabilidade não é só política e institucional (Estados, Organizações). Cabe a todos. Cabe aos cidadãos pela capacidade na demonstração de serenidade e coragem, pelo não embarque (infelizmente já sentido) em concepções xenófobas e comparações desmedidas. Por exemplo, no que toca aos refugiados. É que estes milhares que batem às portas da Europa, num total desespero e com a esperança de vida, são as primeiras vítimas do Estado Islâmico, é desta barbárie que fogem, mesmo com o risco de encontrarem a morte no Mediterrâneo. E importa separar as águas. Os radicais islamitas não precisam de se infiltrarem nos refugiados. Recrutam nos cidadãos europeus, recrutam na sua região, sempre espalharam e alimentaram as suas células sem precisarem do fluxo dos refugiados. E mais ainda… é importante desmistificar. A União Europeia tem, às suas portas, menos de um milhão de refugiados (28 Estados-membros, perto de 4,4 milhões de km2 de extensão e uma população de cerca de 508 milhões de habitantes). Só o Líbano (10,5 mil km2 de extensão e uma população de cerca de 4 milhões de habitantes) já recebeu cerca de milhão e meio de refugiados sírios.

Por último, a responsabilidade também cabe aos muçulmanos e aos islamistas. A resposta de demarcação dos atentados de Paris dada por muitos simples cidadãos muçulmanos é um passo, é uma resposta clara de crítica, de desejo de integração e, obviamente, de “sobrevivência social”. Mas falta mais. Falta aos próprios Imãs, aos responsáveis pelas comunidades (religiosas ou não), não só dizerem ‘Basta!’, mas criticarem e acusarem este extremismo que desvirtua o Islão, bem como, publicamente e dentro das comunidades, desconstruírem este radicalismo e desvio religioso. Para que o medo não vença.

publicado por mparaujo às 10:08

15
Nov 15

12234963_10207880615794185_5618338359793464142_n.jpublicado na edição de hoje, 15 de novembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
A propósito dos Refugiados

Na sexta-feira, a França, o mundo, Portugal, deitaram-se de luto, chocados, aterrorizados.

Sete atentados em Paris, cerca de 150 mortos, mais de 200 feridos e um objectivo claramente alcançado: sob a capa de uma adulterada consciência religiosa, os fins políticos do Estado Islâmico continuam a deixar um rasto de sangue, pânico, terror e sentimentos crescentes de xenofobia. Numa operação meticulosamente preparada, quer na forma, quer no tempo, quer nos alvos, o fundamentalismo islâmico alargou a sua tipologia de acção: para além de potenciais alvos militares ou de segurança, de alvos políticos, de alvos financeiro-económicos, dez meses depois do atentado contra a liberdade de expressão e de informação perpetrado contra o Charlie Hebdo, os fundamentais direitos, liberdades e garantias dos cidadãos são atingidos nas suas rotinas quotidianas, na vivência mais normal do seu dia-a-dia, como o desporto, a cultura, a socialização, uma simples ida a um restaurante. E tudo isto causa uma óbvia escala de terror e pânico nas pessoas e nas comunidades, para além dos reflexos na globalização da informação. Além disso, face à realidade trágica dos movimentos migratórios que a Europa assiste é lamentável, embora perceptível, o crescimento inqualificável do sentimento xenófobo que estas situações provocam, até pela clara ligação do Ocidente (nomeadamente a França) ao conflito na Síria e ao combate ao terrorismo islâmico (sim… um terrorista é um terrorista, seja europeu, americana, muçulmano ou ‘marciano’). Infelizmente, há quem aproveite estas acções para gerar o pânico em relação ao fluxo dos Refugiados para a Europa, mesmo sabendo-se que esta acção tem uma notória preparação no tempo.
E a propósito dos Refugiados…

A discussão já não é nova mas voltou a ter palco e luzes de ribalta, ecoando nas conversas de rua, café, trabalho e redes sociais. Para alguns (demasiados, por sinal) é inadmissível que Portugal (e porque não a sociedade) ajude Refugiados quando há tanta pobreza e tantos sem-abrigo no nosso país. Não é aceitável o tipo de comparação (entre carência e a morte/sobrevivência) e esta desculpa para a indiferença alicerçada na incapacidade da sociedade portuguesa e do nosso país em combater esse triste flagelo. Soa a claro xenofobismo. E embora este pensamento seja condenável em qualquer circunstância ou círculo, é ainda mais criticável quando muitas das contestações à ajuda aos Refugiados surgem na boca de tanto (pseudo) católico, daqueles de ver bater no peito dominicalmente; os que preferem as caridadezinhas à solidariedade. Tudo tomou proporções que necessariamente não devemos menosprezar, nem deixar indiferentes, com a anunciada chegada de Refugiados a Portugal. Não propriamente por Portugal ser país de acolhimento (embora muitos, infelizmente, até isso repudiem) mas pelo facto de estar assegurado aos Refugiados acesso assistência médica, escola e aprendizagem da língua portuguesa, entre outros. Primeiro há uma nota que importa destacar, por força de muita ignorância solidária: Portugal está a dar expressão prática a tratados e convenções (como por exemplo a de Genebra) internacionais aos quais está obrigado, por força da sua aceitação e subscrição, e que impõem o cumprimento de determinadas regras e acções para o acolhimento de Refugiados. Segundo, esta abjecta falta de solidariedade para com aqueles que, num mundo cada vez mais global e com menos fronteiras e limitações geográficas, sociais, culturais e políticas, é tão grave quanto tão facilmente esquecemos o que foi e é, ainda hoje, a nossa história de emigração. Infelizmente, só nos lembramos os que deixaram e deixam o país quando dá jeito para criticar governos. Terceiro, a ajuda, o apoio e o acolhimento de Refugiados não se sobrepõe à necessidade de acções sociais e políticas governativas que diminua a pobreza em Portugal. Aliás, muitas das instituições e entidades que, por exemplo, fazem parte da Plataforma de Apoio aos Refugiados - PAR, não deixaram de exercer a sua acção e responsabilidade sociais para com os portugueses carenciados. Por último, sem entrar em juízos de valor, a verdade é que muitas (muitas mesmo) das vozes que tanto se insurgem contra a ajuda aos Refugiados, argumentando e sustentando a sua crítica na falta de apoio aos portugueses (aos chamados "de cá"), são os mesmos que nunca saíram do sofá para ajudar ninguém, desviam a cara sempre que alguém precisa de ajuda sentado no meio de um passeio ou na rua ou nunca contribuíram em qualquer campanha ou acção de solidariedade. A actual dimensão da tragédia da maior crise de refugiados do pós-Guerra exige uma urgente e importante mudança de mentalidade e um olhar muito mais humano e solidário para o outro, mesmo que distante.

(créditos da foto/desenho: Daniel Catalão - RTP)

publicado por mparaujo às 10:49

13
Nov 15

refugiados.jpgA discussão já não é nova mas voltou a ter palco e luzes de ribalta, ecoando nas conversas de rua, café, trabalho e redes sociais.

Para alguns (demasiados, por sinal) é inadmissível que Portugal (e porque não a sociedade) ajude Refugiados quando há tanta pobreza e tantos sem-abrigo no nosso país. Sendo essa, por diversas vezes, uma realidade presente aos olhos de muitos de nós ou espelhada nos números das estatísticas, a última observação é óbvia: de facto há pobreza a mais em Portugal. Mas...

O que não é aceitável é o tipo de comparação (entre carência e a morte/sobrevivência) e esta desculpa para a indiferença alicerçada na incapacidade da sociedade portuguesa e do nosso país em combater esse triste flagelo. Soa a calro xenofobismo. E embora este pensamento seja condenável em qualquer circunstância ou círculo, é ainda mais criticável quando muitas das contestações à ajuda aos Refugiados surgem na boca de tanto (pseudo) católico, daqueles de ver bater no peito dominicalmente; os que preferem as caridadezinhas à solidariedade.

Tudo tomou proporções que necessariamente não devemos menosprezar, nem deixar indiferentes, com a anunciada chegada de Refugiados a Portugal. Não propriamente por Portugal ser país de acolhimento (embora muitos, infelizmente, até isso repudiem) mas pelo facto de estar assegurado aos Refugiados acesso assistência médica, escola e aprendizagem da língua portuguesa, entre outros.

Primeiro há uma nota que importa destacar, por força de muita ignorância solidária: Portugal está a dar expressão prática a tratados e convenções (como por exemplo a de Genebra) internacionais aos quais está obrigado, por força da sua aceitação e subscrição, e que impõem o cumprimento de determinadas regras e acções para o acolhimento de Refugiados.

Segundo, esta abjecta falta de solidariedade para com aqueles que, num mundo cada vez mais global e com menos fronteiras e limitações geográficas, sociais, culturais e políticas, é tão grave quanto tão facilmente esquecemos o que foi e é, ainda hoje, a nossa história de emigração. Infelizmente, só nos lembramos os que deixaram e deixam o país quando dá jeito para criticar governos.

Terceiro, a ajuda, o apoio e o acolhimento de Refugiados não se sobrepõe à necessidade de acções sociais e políticas governativas que diminua a pobreza em Portugal. Aliás, muitas das instituições e entidades que, por exemplo, fazem parte da Plataforma de Apoio aos Refugiados - PAR, não deixaram de exercer a sua acção e responsabilidade sociais para com os portugueses carenciados.

Por último, sem entrar em juízos de valor, a verdade é que muitas (muitas mesmo) das vozes que tanto se insurgem contra a ajuda aos Refugiados, argumentando e sustentando a sua crítica na falta de apoio aos portugueses (aos chamados "de cá"), são os mesmos que nunca saíram do sofá para ajudar ninguém, desviam a cara sempre que alguém precisa de ajuda sentado no meio de um passeio ou na rua ou nunca contribuíram em qualquer campanha ou acção de solidariedade.

A actual dimensão da tragédia da maior crise de refugiados do pós Guerra exige uma urgente e importante mudança de mentalidade e um olhar muito mais humano e solidário para o outro, mesmo que distante.

Vemos, ouvimos e lemos... não podemos ignorar!

A solidariedade não tem fronteiras, nem concorre entre si. É livre, liberta e é humanitária.

Sejam benvindos.

publicado por mparaujo às 14:56

23
Set 15

eu_DA_debaixo-dos-arcos.jpgpublicado na edição de hoje, 23 de setembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Ser o dono da solidariedade

Excluindo uma ténue e frustrada tentativa de colar a situação trágica dos refugiados à campanha eleitoral, a verdade é que os partidos souberam, até à data, não politizar, nem partidarizar, o sofrimento humano de milhares de pessoas que procuram o seu sonho, que fogem da morte à porta de casa, mesmo que, pelo desespero, tenham que enfrentar a morte. Apesar disso, há ainda, volvidos quarenta anos após o 25 de Abril, quem entenda que a solidariedade pertence à esquerda, tal como a cultura (a esquerda é elitista, a direita é pimba), a liberdade e a democracia (o trauma do 25 de novembro). Só que a solidariedade não tem dono, não é pertença de ninguém; é um dever cívico, social, humanitário que cabe a todos, e do qual ninguém deve e pode retirar proveito, louros ou aplausos.

Por isso, é estranho que o BE de Aveiro tenha levado, na passada sexta-feira, o tema à Assembleia Municipal de Aveiro para o confronto político-partidário, colando (voluntariamente ou não, não é isso que está em causa, nem vou fazer juízos de valor nesse sentido) a tragédia dos Refugiados ao momento eleitoral que atravessamos, seja pelo questionar político da Câmara Municipal, seja pelo confronto partidário e ideológico, principalmente com os partidos à direita. Não faz sentido.

Este é um grave problema humanitário, social e geopolítico que importa debater, consciencializar e não deixar morrer. E, como já o disse aqui várias vezes, a Europa tem responsabilidades, não apenas na forma desconcertada, criticável e condenável como tem gerido o fluxo de entrada e acesso dos refugiados aos países do “velho continente”, mas também pela forma, directa ou indirecta, com mais ou menos participação activa, como olha e sempre olhou para o Médio Oriente, para o Norte e Centro de África. A responsabilidade é única? Não… é imensamente repartida, seja pelos países árabes vizinhos, seja pela ONU, pela NATO, pelos Estados Unidos, pela Rússia e pela China. Mas a Europa tem responsabilidades. Teria sido um exercício político diferente se o BE Aveiro tivesse abordado a questão por esse prisma, e, para tal, não precisava da Assembleia Municipal de Aveiro para palco. Tem a campanha, os seus próprios meios, a rua (enquanto contacto com o povo).

É que a responsabilidade política, social, humanitária e cívica, não se confina apenas às quotas de acolhimento de refugiados, pelo cumprimento, mais ou menos, escrupuloso dos tratados internacionais (por exemplo, os resultantes da Convenção de Genebra de 12 de agosto de 1949). Há um grave problema na origem, há um grave problema no destino, que urge e importa resolver, por todos (estados, instituições internacionais, sociedade civil, cidadãos), sem esquecer, no caso português e europeu, o que nos ensinou a história: (mesmo sem guerra) os fluxos de emigração nacionais nas décadas de 50 e 60; o regresso de milhares de refugiados e retornados da guerra colonial no pós 1974; o fluxo de judeus que fugiram da Alemanha, Polónia, Áustria, recordando aqui o papel de Aristides de Sousa Mendes, por exemplo; a fuga em massa de refugiados húngaros na crise política daquele país em 1956. E é importante recordar a história, mais não seja porque este problema não é de agora, nem é dos dias de hoje: reza a história dos factos que o primeiro fluxo de refugiados deu à costa europeia em 1992, na “tradicional” Lampedusa, e no início da década de 2000 já Malta era “invadida” por inúmeros refugiados, sem esquecer Ceuta e Melilla que tanta dor de cabeça dão a Espanha.

Não faz sentido partidarizar uma questão que, embora também política, tem a preocupação de muitos (infelizmente não de todos): Estado, Instituições Sociais (basta ver o recente exemplo da criação da Plataforma de Apoio aos Refugiados), Igreja, Autarquias (individualmente ou em associação), Freguesias e Cidadãos (os portugueses angariaram/deram 50 toneladas de bens para ajuda dos refugiados). Ao poder político cabe encontrar respostas e soluções políticas e sociais. A todos cabe a responsabilidade da solidariedade. Importa é não deixar “morrer”.

publicado por mparaujo às 09:43

18
Set 15

simbolo ue farpado.jpgou se quisermos... uma Europa sem vergonha.

Continua notória, agravada dia após dia, a incapacidade para a Europa conseguir lidar com o problema dos refugiados, seja às suas portas (ou no seu seio), seja na origem (onde reside a prioridade de acção).

Uma incapacidade política, social, e de sentido de unidade entre os seus Estados-membros.

E mais grave ainda... uma inqualificável falta de memória histórica, por exemplo, no pós Grande Guerra ou no caso da própria história húngara, sem esquecer, mais recentemente no tempo, o conflito nos balcãs.

Os muros e os arames farpados não são qualquer solução, antes um agravamento do problema.
Tal como a indiferença social e humanitária, a ausência de respeito pela dignidade humana, a inoperância política europeia.

À falta de uma política humanitária europeia conjunta e solidária, cria-se mais um arame farpado, ergue-se mais um muro, por mais retórica que se use na argumentação.

VERGONHA!

Vale o que vale... e na prática bem sei que vale zero. Mas após esta inenarrável posição da União Europeia terminou a minha participação como eleitor em eleições europeias. BASTA! Esta Europa não faz qualquer sentido... deixou de ter qualquer credibilidade.

 

publicado por mparaujo às 16:48

06
Set 15

aylan.jpgpublicado na edição de hoje, 6 de setembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O poder da imagem

Ditam os cânones que uma imagem vale mais que mil palavras. Não tenho a certeza de tal rigor matemático mas afigura-se como certo que perante determinada imagem fica-se sem qualquer palavra e assola-nos um turbilhão de emoções e reacções, essas sim manifestamente incalculáveis. Daí que na comunicação social haja sempre uma acrescida dificuldade na decisão editorial de publicar ou não determinadas fotografias. Há razões do foro do direito à reserva da privacidade, da segurança, do pudor, da sensibilidade, do interesse público, entre outros. Ao contrário do que à primeira vista poderia parecer a divulgação de uma imagem carece, em determinadas circunstâncias, de maior cuidado do que a divulgação de uma notícia.

Esta semana a comunicação social, nacional e internacional, viu-se a braços com este dilema editorial: a divulgação da imagem do pequeno sírio Aylan que deu à costa numa praia da Turquia, já cadáver, vítima de afogamento no Mediterrâneo. A opção generalizada foi a da sua publicação.

A imagem choca inquestionavelmente. Choca-nos por ser uma criança indefesa, vítima do desespero dos seus pais em encontrarem a esperança de viver condignamente na Europa; choca-nos pela crueldade de ver o pequeno Aylan morto, sozinho naquela praia, ao mesmo tempo que a imagem transmite uma serenidade assustadora; choca-nos por expressar o clímax da inaptidão da Europa e da comunidade internacional em encontrar uma solução para esta tragédia humana dos refugiados que, dia após dia, batem às portas do velho continente. Fogem da morte com o sonho e a esperança de encontrarem a vida na Europa, preferindo os riscos de poderem morrer no Mediterrâneo à quase certeza de morrerem na sua terra natal.

Mas a opção editorial de muitos órgãos de comunicação social (que rapidamente tomou proporções virais nas redes sociais) de publicarem a imagem do pequeno Aylan prostrado numa praia turca não implicava apenas a questão do choque e do alertar para a realidade trágica dos refugiados. A imagem em si transporta muito mais que o choque emocional que provocou. É, em si mesma, um manancial de informação com muito mais impacto que as inumeráveis notícias já publicadas sobre os refugiados. Tal como poderiam ser (e deveriam ser) as publicações das imagens do interior dos camiões abandonados na Áustria ou das execuções bárbaras de tantas crianças pelo proclamado estado islâmico.

A imagem “horrorosamente bela”, como lhe chamou a Estrela Serrano, chocou, criou um reboliço de sentimentos e reacções (infelizmente algumas mais extremistas e fundamentalistas), deu nova dimensão à tragédia que se vive na Europa e para a qual, quer aqui, que na origem, tarda a ser encontrada uma solução e uma intervenção. Entretanto cresce a dimensão da tragédia humanitária, a incapacidade da Europa se unir em torno de uma solução política e social conjunta… e infelizmente cresce o sentimento “anti-refugiados”, os obstáculos à sua aceitação a integração, os extremismos e fundamentalismos, com os revoltantes argumentos do “também temos os ‘nossos’ refugiados nas nossa ruas, nas nossas cantinas sociais, nas nossas sopas dos pobres, nos nossos caixotes do lixo. Infelizmente, só nos lembramos disso quando necessitamos de usar esta realidade, apesar dela estar sempre à frente dos nosso olhos, na nossa vizinhança, para argumentar a favor da indiferença, da xenofobia, da insensibilidade social. Uma ajuda não impede a outra, as dimensões e contextos são, naturalmente, diferentes.

Vemos, Ouvimos e Lemos… não podemos Ignorar. Apesar de ser óbvio que não será possível acolher, nem salvar, toda a gente, a Europa e a comunidade internacional (entenda-se “ocidente”) não pode continuar a esconder o peso político e social das realidades que provocou ou ajudou a criar no Oriente, nomeadamente sob a capa da ONU, da NATO e sob o “comando” dos Estados Unidos.

Descansa em paz, pequeno Aylan. Perdoa-nos.

publicado por mparaujo às 14:51

01
Set 15

A leitura e a partilha dos textos vem a propósito do artigo do Debaixo dos Arcos da edição de domingo passado do Diário de Aveiro: "Uma Europa sem rumo".

Felizmente, cada dia que passa há uma maior consciencialização para o drama dos refugiados e migrantes que todos os dias chegam às portas desta Europa. Para além das posições politicamente corajosas de Angela Merkel, contra tanto cepticismo dos seus pares europeus, e tanto extremismo e radicalismo de posições da sociedade, encontramos textos que, pelo menos, têm o condão de manter viva a memória e a consciência colectiva.

joao miguel tavares.jpgJoão Miguel Tavares (na edição do Público de hoje, dia 1 de setembro) - "Que fizeste ao teu irmão?" foca a gravidade da indiferença da sociedade (e dos políticos) perante a tragédia humanitária, acrescentando uma memória histórica dos anos da II Grande Guerra lembrando, e muito bem, Schindler e Aristides Sousa Mendes.

rui tavares.jpgRui Tavares, também no Público um dia antes, "Mundo Cívico", centra-se na responsabilidade social, cívica e humanitária de cada um de nós, das instituições e dos Estados. Sendo certo que nunca será possível salvarmos todo o Mundo e toda a gente, é sempre possível, por mais pequeno que seja o gesto e a medida, salvar um pouco do Mundo e algumas pessoas. Neste caso, uma mãe e uma criança que sejam.

Obrigado aos dois.

publicado por mparaujo às 15:13

30
Ago 15

paulo baldaia.pngA propósito do post de ontem "Gente como nós... desesperadamente" e do artigo de hoje do Diário de Aveiro "Uma Europa sem rumo" encontrei este excelente texto que vale a pena ler.

Paulo Baldaia, no Diário de Notícias ("Gente como nós, com filhos nos braços"), faz bem em lembrar a memória de uma Europa que, no pós Guerra, viveu, internamente, semelhante drama, sem esquecer que o arame farpado não é solução. Aludindo ainda a uma excelente peça da Bárbara Baldaia, na TSF, com o mesmo título.

publicado por mparaujo às 22:22

eu_DA_debaixo-dos-arcos.jpgpublicado na edição de hoje, 30 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Uma Europa sem rumo

Continua o drama incontrolável dos refugiados e migrantes e que são, pelas razões mais trágicas, notícia constante no dia-a-dia europeu. Do Mediterrâneo transformado em cemitério para aqueles que não conseguiram chegar às costas da Grécia, Malta e Itália, a tragédia passou para o interior da Europa atingindo França, Inglaterra e o norte europeu, aumentando também o número de migrantes que tenta entrar no velho continente por via terrestre. Basta lembrar a situação de Calais ou, recentemente, as cerca de 100 vítimas encontradas no interior de um camião abandonada numa berma de uma auto-estrada austríaca. Já para não falar no permanente atravessamento do Mar Mediterrâneo em direcção à Grécia, Itália e Malta.

Toda esta problemática social e humanitária de dimensões inquestionáveis vem colocar a nu a enorme fragilidade do actual estado de sobrevivência União Europeia. A crise financeira e os resgates internacionais a alguns países da UE vieram questionar a solidariedade entre os Estados-membros. O surgimento de um número significativo de partidos eurocépticos, o crescente sentido de independência e abandono do projecto europeu, a tentativa de "elitizar" (a seis países, como recentemente sugeriu Hollande) a Europa só vem demonstrar a fragilidade política da União Europeia. A incapacidade de encontrar e projectar medidas e políticas, quer na origem, quer no acolhimento, que minimizem e estabilizem este drama humanitário, revela uma Europa sem capacidade de intervenção, sem sentido de unidade e entreajuda. Durante muito tempo (demasiado tempo) o centro europeu olhou com inquietante indiferença para a tragédia quase que diária na costa grega e italiana, até que o drama chegou ao coração da França, às portas de Inglaterra, ao centro do norte europeu. E aí, já as “virgens ofendidas” levantaram as suas vozes, já o problema deixou de ser periférico, já havia a necessidade da Europa distribuir recursos e implementar medidas, apenas porque não era a Grécia, a Itália, o sul de Espanha, mas a toda poderosa Inglaterra, França ou o Norte Europeu.

É esta a Europa falida no seu projecto: uma União Europeia dos subsídios e fundos, das regulamentações, dos burocratas e dos mercados financeiros. Uma Europa de um projecto político, social e económico comum e único e que há muito (mesmo antes do drama dos refugiados) se afundou no Mediterrâneo, ficou presa nos arames farpados ou nos muros de betão, ou se perdeu numa berma de uma auto-estrada.

Uma Europa sem qualquer capacidade de se impor internacionalmente, de encontrar e ser parte de soluções, de implementar políticas coerentes e de assumir as suas responsabilidades. Por mais muros que se ergam e por mais arames farpados que se coloquem nas fronteiras, por mais força militarizadas que se disponibilizem, por mais vigias e controlos que se façam no Mediterrâneo, por mais que se acene com o “fantasma” anti-Schengen, vamos continuar a assistir, dia após dia, a centenas de pessoas desesperadas à procura de um sonho e de uma esperança, da própria vida (algo que não encontram ou perderam no centro de África, no Magreb, na costa africana do mediterrâneo, no Médio Oriente), a tentarem entrar na Europa e à espera que a Europa os acolha. Uma Europa que ainda não percebeu que as situações que levam ao desespero de milhares de crianças, jovens, adultos, idosos, pelas suas condições de vida abaixo do limiar da sobrevivência, onde tudo o que está para além do Mediterrâneo (mesmo a morte na sua travessia) é sempre melhor do que o que se lhes deparar no seu dia-a-dia, é da sua responsabilidade pela forma exploratória com que olham para aqueles países, pela instabilidade social e política que a Europa criou ou ajudou a criar, pela miséria a que aquelas povos foram votados. E este assumir de responsabilidades cabe, também, à União Europeia, não serve é fazer-se apenas de vítima (que o não é).

publicado por mparaujo às 12:04

29
Ago 15

Migrantes 01.jpgDepois das férias (algumas) o regresso.

Antecipando o artigo da edição de amanhã do Diário de Aveiro("Uma Europa sem rumo"): a tragédia humanitária dos migrantes/refugiados.

Segundo a ACNUR (agência da ONU para os Refugiados) cerca de 300 mil migrantes chegaram à Europa, este ano, quando ainda faltam quatro meses para o fim de 2015, tendo-se registado cerca de 2500 mortes na travessia do mediterrâneo, também só neste ano.

Semana após semana (para não ser tão extremista num dia após dia) há novos dados, novas notícias, mais tragédias.

Definitivamente a Europa demonstra, na incapacidade de lidar com este drama (na origem e no centro europeu), a sua fragilidade, a sua fragmentação e desmoronamento. Pior, a Europa começa a dar sinais de estar refém de extremismos e radicalismos que a condicionam na sua liberdade, fraternidade e igualdade.

A União Europeia ficou reduzida a meros fundos e subsídios, a uma burocracia regulamentar e à pressão dos mercados financeiros. Sem solidariedade, sem política, sem resposta social, sem unidade em torno de um projecto comum (que esteve na sua génese e que definhou perante a crise financeira).

No entanto, a bem da verdade e por uma merecida justiça, importa destacar.

É tão fácil, publicamente ou não, criticar e acusar Angela Merkel pela posição economicista que a Alemanha impõe à Europa. Pena é que não haja a mesma frontalidade pública para aplaudir a coragem política que a chanceller alemã tomou ao colocar a Alemanha na vanguarda da defesa dos direitos humanos e no apoio humanitário aos refugiados e migrantes, mesmo contra forte pressão da extrema-direita da Alemanha. ("Merkel vaiada à chegada ao centro de refugiados atacado por neonazis", in Diário de Notícias de 26 de agosto de 2015).

«O Governo de Angela Merkel suspendeu para os sírios a regra da convenção de Dublin que permite expulsar imigrantes ilegais. A Síria tem sido palco dos mais sangrentos atentados do auto-designado "Estado islâmico". A Alemanha é o único país que suspendeu a regra da convenção de Dublin e que não está a forçar refugiados sírios a regressar ao país de entrada no território da União Europeia.» fonte: Jornal de Negócios de 26 de agosto de 2015.

Mais ainda... Portugal dá igualmente uma imagem muito positiva na ajuda e solidariedade humanitária perante este enorme pesadelo humano.

No princípio do mês de agosto, o Governo aprovou um plano estratégico humanitário que prevê o acolhimento de cerca de 1500 refugiados envolvendo os os ministérios dos Negócios Estrangeiros, Defesa Nacional, Administração Interna, Saúde e Segurança Social. Mas é também a própria sociedade portuguesa que dá mostras de um inquestionável sentido solidário. Segundo a presidente do Conselho Português para os Refugiados, Teresa Tito de Morais, tem vindo a aumentar (são já cerca de três dezenas) o número de empresas e cidadãos disponíveis para acolherem migrantes e refugiados.

(créditos da foto: Alkis Konstantinidis/REUTERS)

publicado por mparaujo às 22:58

22
Abr 15

Mediterraneo tragedia 03.jpgpublicado na edição de hoje, 22 de abril, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O Mediterrâneo já não é um mar

Embora a realidade não seja recente, já há alguns anos que instituições internacionais dos direitos humanos, das migrações e refugiados, bem como, por exemplo, o Papa Francisco, têm feito eco de inúmeros factos, a verdade é que, de repente, o Mediterrâneo passou de mar a cemitério, face aos trágicos acontecimentos, de uma dimensão preocupante, ocorridos neste fim-de-semana e início da semana: mais de mil mortes no mar e milhares de pessoas a chegarem à costa da Europa (Itália, Grécia, Chipre, Malta ou Espanha) ou a serem resgatadas no oceano.

Variadas vezes, demasiadas até, a Europa sentiu-se sobressaltada por uma tragédia humana inconcebível em pleno século XXI. Em todas as vezes se ouviu a Europa a dizer “nunca mais”. Face à dimensão que esta catastrófica realidade tomou é altura da Europa dizer “BASTA”.

Inúmeras vezes se ouve a pergunta “quanto vale uma vida humana”? Uma que seja. Não tem, nem pode, ter preço. A vida e a sua dignidade. E esta realidade inqualificável tem de ter a responsabilidade de todos. Não apenas da Europa dado os acontecimentos terem lugar no mar Mediterrâneo e como destino uma vida de esperança e sonho num qualquer país europeu. A responsabilidade tem de ser repartida por todos: Europa, ONU, NATO, UNICEF, … O problema é extremamente complexo, mas não pode ser adiado e encapotado infinitamente, à espera que o tempo resolva, porque o tempo não resolve, apenas o agudiza. O mundo não pode olhar apenas para onde residem os focos geoestratégicos, geopolíticos ou geoeconómicos (com o petróleo). O mundo não pode continuar a fazer de conta que África, quase toda ela, não aparece no mapa. O mundo não pode ser “Charlie” em defesa do que apenas é (valores) europeu ou preocupar-se com 11’s de setembros ou de marços e, simultaneamente, assobiar para o ar com o que se passa no Quénia, na Nigéria ou, como é o caso, da Líbia ou do Iémen, sem esquecer a Somália, no Mali, no Sudão ou no Chade.

A responsabilidade da vivência num contexto de miséria, guerra ou de exploração humana (onde se inclui a escravatura, o tráfico, a violação dos mais elementares direitos à dignidade e à vida) tem de ser assumida por todos e não o sacudir a água do capote apenas para o lado islâmico, para o fundamentalismo religioso ou para o recém-chamado Estado Islâmico. Porque há muito para além das mortes no Mediterrâneo ou dos campos de refugiados onde os que sobrevivem ficam demasiado tempo em condições mínimas de sobrevivência. Há aquelas vidas que terminam às mãos das redes de tráfico humano e que não chegam sequer a ver o mar. Há aqueles que depois de um sonho falhado regressam (são deportados) em condições piores (porque tudo venderam e perderam na esperança de uma vida melhor) ao ponto de origem, eventualmente desejando terem ficado no Mediterrâneo.

À Europa cabe a responsabilidade de um maior controlo do seu Mar, de melhores e mais eficazes políticas de migração e de apoio aos refugiados.

À ONU cabe a responsabilidade de criar e implementar condições de estabilidade social, política e económica em África, ao caso, no Norte de África, porque muitas desta realidade resulta de impactos de irresponsabilidade políticas e económicas cometidas por Estados membros.

A nós cidadãos, apesar da nossa impotência, em defesa dos valores da vida humana, cabe-nos a indignação e o respeito, porque nenhuma vida, seja qual for e em que circunstâncias for, tem um preço. Hoje eles, amanhã… quem sabe?

publicado por mparaujo às 09:48

20
Abr 15

tragedia mediterraneo.jpg

Desde o início deste ano que as instituições internacionais ligadas à migração e aos refugiados estimam em cerca de 20 mil as pessoas que tentaram entrar na Europa vindas do Norte de África, nomeadamente da Líbia e do Iémen.
Desde 2004 são estimadas em cerca de 5000 mil as pessoas que perderam a vida no mar Mediterrâneo.

O sonho de uma vida melhor e mais digna, a fuga à fome, à miséria e à guerra, levam ao desespero da única esperança: a porta da Europa, via Lampedusa (Itália), Rhodes (Grécia) ou Malta.

Mas a porta da esperança rapidamente se transforma na porta do inferno e o sonho vinha tragédia.

O Mediterrâneo está a transformar-se num autêntico cemitério de vidas e de sonhos. Enche de lágrimas.

Demasiadas vezes a Europa disse "nunca mais"... demasiadas vezes e rapidamente a Europa se esqueceu das suas promessas e opções, até novas tragédias.

Demasiadas vezes a Europa e a ONU têm lavado as mãos de uma responsabilidade que também é sua, porque a instabilidade no Médio Oriente e no Norte de África mediterrâneo não cabe só ao fundamentalismo islâmico, ao chamado "estado islâmico". E não apenas a responsabilidade da Europa ser "dona" do Mediterrâneo.

Isto não é uma questão geopolítica, geoestratégica ou religiosa... isto é uma questão de dignidade humana que é da responsabilidade de todos.

Do "nunca mais" é altura para dizer "basta", não pode haver mais desculpas.

publicado por mparaujo às 14:33

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