Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

17
Fev 16

Cecilia Carmo.JPG

Ninguém é insubstituível... embora a máxima, em relação à vida, seja, no mínimo, questionável.

Mas no que respeita à sociedade (ao trabalho, à escola, ao círculo de amigos ou de acção) isso será verdade. Uns surgem, outros deixam espaços vazios, mas com mais ou menos esforço há sempre forma de substituir mesmo correndo-se o risco de não serem obtidos os mesmos resultados.

Por outro lado, a vida (toda ela... profissional ou pessoal) é feita exclusivamente de opções. A cada passo, a cada dia, a cada hora, temos que as tomar, umas vezes com maior ponderação, outra com mais emotividade, umas acertadas, outras nem por isso. Mas cada momento que vivemos é consequência de opções que tomamos.

Para além disso, nunca tendo sido adepto de idolatrias e ídolos (tirando a adolescência própria da forragem das paredes e armários com poster musicais) porque acho que são demasiado frágeis e com "pés de barro", entendo que a nível pessoal, social ou profissional (ou ainda o somatório de tudo isto) a vida é demasiada vazia sem as nossas referências. Ninguém consegue viver de forma blindada e isolada. Isso não é vive, é vegetar.

Elencar aqui o rol das minhas referências (passadas e actuais) seria, felizmente para mim, fastidioso e sem qualquer relevância pública.

Mas hoje, por razões pessoais e profissionais, não posso deixar de o fazer, de forma particular.

Podem encontrar todos os substitutos e mais alguns mas a verdade é que a RTP e a Comunicação Social ficaram mais "cinzentos", mais vazios, com o anúncio da saída de "cena", do enquadramento, do plano, dos bastidores, da jornalista Cecília Carmo.

O argumento de "já eram 30 anos" tem o valor que tem. Principalmente se considerarmos que "os 30 anos" deixaram uma marca significativa e uma imagem indiscutível.

Opções pessoais não se discutem, não se comentam. São o que são.

Por isso, com muita pena... felicidades Cecília Carmo.

publicado por mparaujo às 14:42

10
Out 15

jose rodrigues dos santos e o caso quintanilha.jpgNão nutro qualquer empatia por José Rodrigues dos Santos, nem como escritor e muito menos como profissional da comunicação social. Não lhe reconheço talento, nem profissionalismo. Apenas o mediatismo, tantas vezes fútil, que a própria televisão cultiva também no campo da informação. O que não me impediu por uma ou outra vez de lhe reconhecer algum mérito (lembro-me, por exemplo, da polémica com o espaço de comentário de José Sócrates).

Não é agora o caso.

Já não é a primeira vez, e muito dificilmente será a última, que José Rodrigues dos Santos, tem a veleidade de se achar "engraçadinho" frente aos écrans de televisão (nem sei se o caso dos sem-abrigo na Grécia terá sido o mais recente).

Surge agora a polémica com o "erro homofóbico" do pivot da RTP ao referir-se ao Prof. Alexandre Quintanilha como "o" ou "a" deputado eleito mais velho para a próxima legislatura. E pior do que a forma como o jornalista apresentou a peça no telejornal de quinta-feira, foram as desculpas e as justificações mais que esfarrapadas e inconsistentes.

Seria, por si só, extremamente grave a postura de José Rodrigues dos Santos na referência feita ao deputado eleito pelo partido socialista. Mas há mais...

A atitude condenável de José Rodrigues dos Santos tem outros impactos. À custa de um mediatismo e vedetismo dispensáveis e dúbios, a atitude do jornalismo denegriu a profissão, a ética profissional, e colocou em causa o esforço e a dedicação de tantos profissionais que dão tanto à causa (jornalismo) e à casa (RTP). Uns com mérito reconhecido publicamente, outros, infelizmente muitos, sem que o seu trabalho seja devida e merecidamente confirmado.

Infelizmente há quem se brilho e sem brio, brilhe à custa do brio dos outros.

publicado por mparaujo às 22:19

13
Set 15

Prós-e-Contras.jpgAmanhã regressa ao écran da RTP1 o programa "Prós e Contra", moderado e conduzido pela jornalista Fátima Campos Ferreira.

E regressa da pior forma, demonstrando que vamos ter mais uma "temporada" de momentos hilariantes e que irão, com certeza, alimentar muito humor nas redes sociais e na opinião pública.

Para segunda-feira a equipa coordenadora do programa escolheu o tem da Justiça para assinalar o regresso após o período de férias. Em "palco" vão estar magistrados, a Bastonária da Ordem dos Advogados, um sociólogo e jornalistas (alguns) como Miguel Sousa Tavares e Octávio Ribeiro (escolhas questionáveis, obviamente).

O tema em si é, por infinitas razões, sempre pertinente. Para a sociedade a questão da Justiça traz sempre um conjunto de interrogações e críticas, sendo que para um normal funcionamento de um Estado de Direito (e não do Direito) a Justiça é um dos pilares basilares. Haveria, por isso, inúmeros exercícios que podiam ser feitos na abordagem à problemática: os recursos da Justiça, o acesso à Justiça, a equidade na e da Justiça, o segredo de justiça, os vários códigos processuais e a sua estruturação, os procedimentos de investigação, a separação de poderes.

Pelo contrário, pegar na afirmação polémica, que já fez correr bastante "tinta", de Paulo Rangel na Universidade de Verão do PSD ("Teríamos um ex-primeiro ministro preso se o PS fosse governo?") e fazer dela o mote e o slogan do programa é, independentemente de estarem presentes ou não políticos no debate, politizar o tema da Justiça. Algo perfeitamente dispensável e recusável. E muito menos colhe o argumento usado pela jornalista Fátima Campos Ferreira quando afirma que "os cidadãos merecem saber, em fase eleitoral, se há interferência da política na justiça". Não.... os cidadãos, em fase eleitoral, precisam de saber quais as propostas políticas para melhorar a Justiça e o Direito em Portugal. Saber se há interferências políticas, ou não, na justiça é algo que preocupa os portugueses em qualquer momento. Usá-lo em plena campanha, seja pelos partidos, seja por quem for, é, claramente, politizar a discussão, mais ainda quando o contexto da afirmação proferida por Paulo Rangel era notoriamente político-partidário e tinha um alvo perfeitamente definido: José Sócrates. Aliás, importa ainda recordar o contexto em que a frase foi proferida pelo social-democrata e a argumentação política que a sustentou: "Não é mérito deste governo, mas foi durante este governo que pela primeira vez houve um ataque sério à corrupção" e "Uma coisa é certa: o ar democrático em Portugal hoje é mais respirável", acrescentou, na altura, Paulo Rangel.

No fundo, o programa de amanhã servirá para a milésima "aparição" do ex Primeiro-ministro na campanha e no confronto político-partidário, sendo cada vez mais o centro eleitoral apesar de ter estado sujeito a sufrágio em 2011.

publicado por mparaujo às 21:01

14
Abr 15

"RTP acaba com políticos comentadores"

Interessante... mesmo que não me pareça errado o comentário político feito por políticos, prefiro, de longe, o comentário/análise político produzido por um jornalista ou, até, por um cidadão.

E acima de tudo prefiro pluralidade e contraditório, algo que teimosamente desapareceu das televisões.

comentarios politicos na rtp.jpg

publicado por mparaujo às 15:03

07
Dez 14

Antes da análise político-partidária a semana ficou marcada pelo braço de ferro entre a Administração da RTP e o Conselho Geral Independente, este com claro o apoio, mesmo que discreto e recatado, do Governo. Tudo por causa do anunciado concurso para a aquisição dos direitos da Liga dos Campeões para os próximos três anos. Ou melhor… a polémica em torno da Liga dos Campeões serviu de desculpa para o braço de ferro que já tinha “estalado” com o chumbo do Conselho Geral ao plano estratégico da Administração para a televisão pública. A compra dos direitos televisivos da Liga dos Campeões é um mero tabuleiro de jogo nesta medição de forças. Embora possa parecer, à primeira vista, que existe uma intromissão do Conselho Geral Independente na gestão editorial da RTP (algo que foi prontamente e por unanimidade criticado pelo regulador – ERC) a verdade é que as críticas à administração não assentam na relevância ou não da aquisição dos direitos da Liga dos Campeões, mas sim na relação e forças estratégicas e de gestão da empresa. Só que o Conselho Geral Independente ao usar como arma esta vertente editorial (que não é da sua competência) e propondo à Assembleia Geral a destituição da Administração da RTP (algo que deverá ser aceite pelo único accionista da empresa, o Governo) abriu uma caixa de Pandora: a um ano das eleições legislativas, sendo substituído a Administração da RTP recairá sobre o Governo o ónus de uma aparente pressão política sobre aquele órgão de comunicação social.
As (in)definições políticas.
1. Primeira referência para o Bloco de Esquerda. Depois de todo o impasse e “embrulhada estatutária” resultante do empate verificado na IX Convenção do BE, volvida uma semana a Mesa Nacional elegeu a Comissão Política e a Comissão Permanente, para além da nomeação de Catarina Martins como porta-voz do BE. Depois da liderança bicéfala, o Bloco volta a inovar na política portuguesa. Ficam, no entanto, muitos “destroços políticos” por limpar, algumas divergências e uma notória perda de unidade, aliás expressa pelo próprio Francisco Louçã nas críticas que lançou à postura de Pedro Filipe Soares. Com tudo isto, o Bloco de Esquerda arrisca-se a perder palco e afirmação na esquerda portuguesa (algo que poderá ser aproveitado pela recente plataforma ‘Tempo de Avançar’ que reúne o Livre, Fórum Manifesto, Renovação Comunista e independentes, ou pelo recente partido de Marinho e Pinto – PDR) e ficar longe de uma eventual aproximação ao PS.
2. O XX Congresso do PS, do ponto de vista mediático, ficou marcado pela posição expressa por António Costa num Não entendimento à direita e num piscar o olho à esquerda. Afigura-se como óbvio que o PS pretende, em primeiro lugar, a conquista da maioria e que este “piscar de olho” à esquerda (mesmo aos mais recentes movimentos, ainda sem maturidade política para alcançarem expressão nas urnas) serviu apenas para marcar uma posição de distanciamento em relação ao actual Governo, na expectativa de afirmação de alternativa governativa e de afirmação do PS como “a” esquerda portuguesa. São muitas as divergências programáticas e ideológicas em relação aos outros partidos da esquerda portuguesa. Basta ter na memória a vitória da moção de censura ao governo de José Sócrates em 2011. Por outro lado, não será fácil a António Costa manter esta posição (basta ver as mais recentes sondagens que apontam para uma queda na intenção de voto e a não “descolagem” em relação ao PSD). E não será fácil porque o “caso José Sócrates” teima em pairar sobre o PS (e estará no consciente dos eleitores nas eleições de 2015, por mais que as estruturas do PS e do PSD se inibam de fazer disso bandeira política; acertadamente, diga-se) mas porque pairam também sobre António Costa as vozes que discordam deste Não a entendimentos com a direita: é o caso do, agora afastado, Francisco Assis (e mais seguidores) ou da recente entrevista ao Expresso, por parte de Mário Soares, que afirmou que a construção europeia se fez com socialistas e democratas cristãos.
3. E esta afirmação de Mário Soares não passou despercebida ao CDS. Paulo Portas e o seu partido vieram logo a “terreiro” aproveitar para lançar alguma instabilidade na coligação (reforma do Estado que Paulo Portas nunca mais apresentou, reforma fiscal e a irrelevância dos feriados nacionais agora tornada bandeira partidária). A tudo isto não será alheio o recente livro do ex-ministro da Economia Álvaro Santos Pereira com duras críticas e acusações a Paulo Portas. Portanto, nada espantará que o CDS queira ir sozinho a eleições, aguardando para ver para que lado cai a balança eleitoral e, depois, lançar a escada a nova coligação governamental, seja com o PSD, seja com o PS. Mas nunca sem perde de vista a “cadeira do poder”.

publicado por mparaujo às 23:16

27
Nov 14

Sousa Veloso - TV Rural.jpg

Faz parte das memórias... de muitas e muitas memórias. Sejam as da televisão, sejam as de infância e juventude, sejam as relacionadas com razões profissionais (mesmo que familiares).

Não tenho registo de um programa ter durado tanto tempo numa televisão como o TV Rural. Com uma regularidade irrepreensível, dominicalmente, o Eng. Sousa Veloso foi companhia de muitas casas durante cerca de 30 anos (desde 1959).

Resistindo às mudanças fortes das realidades e transformações sociais e políticas (antigo regime, revolução, prec, pós 25 de novembro) acabaria por deixar, no início da década de noventa, um enorme legado sobre tudo o que envolve a agricultura.

familia prudencio - tv rural.png

O TV Rural tinha particularidades significativas: a agricultura, percorrida de lés-a-lés, muitas vezes pelos lugares mais recônditos, era "apresentada" na sua vertente técnica, legislativa, associativa, social e também de forma pedagógica. Era produzido, realizado e apresentado para todos, fossem ou não do sector primário. Quem não se recorda da "Família Prudêncio"?

Aos 88 anos, aquele que foi a imagem exclusiva do Tv Rural faleceu: R.I.P. Eng. Sousa Veloso.

publicado por mparaujo às 10:15

20
Nov 14

RTP predio.jpgSegundo o Jornal de Negócios apurou, neste trabalho da jornalista Ana Luísa Marques e do jornalista Diogo Cavaleiro, a RTP terá conseguido um acordo com a UEFA para o exclusivo da transmissão dos jogos da Liga dos Campeões para as próximas três épocas. Muitos estariam agora a esfregar as mãos mas, em consciência, a "festa" acaba rápido. É que a estação pública de televisão, com recurso a receitas do Estado e dos contribuintes, "ameaçada" inúmeras vezes nestes três/quatro últimos anos com processos de reestruturação, despedimentos e privatização, vai desembolsar cerca de 18 milhões de euros.
Pagar cerca de 6 milhões por época (18 milhões/3 épocas), por uma dúzia (mais coisa menos coisa - 16) de jogos é um absurdo, um exagero, uma má estratégica de gestão concorrencial (ao que a notícia apura este valor é 40% superior à oferta da TVI, actual detentora dos mesmos direitos).

Se a RTP está assim tão cheia de dinheiro, mais vale investir esse valor na sua estruturação e nos seus profissionais.
Ou então, se é assim tão importante o desporto, que invista esses 18 milhões noutras modalidades e nos jogos da Liga Portuguesa... ainda sobraria muito dinheiro.
Péssimo negócio e péssima gestão que o retorno publicitário dificilmente cobrirá.
Mais uma machadada na imagem de serviço público que a administração da RTP teima, em alguns momentos, querer deitar completamente por terra.

Que regresse a Troika, novamente... estamos de novo sozinhos é um tal regabofe de despesismo.

publicado por mparaujo às 11:37

18
Nov 14

reduzida Foto Fátima Araújo (cores)_JPG.jpgA jornalista da RTP, Fátima Araújo, vai promover três apresentações consecutivas do seu recente livro "Por acaso...".

Dia 21 de novembro, pelas 21.00 horas, na FNAC do GaiaShopping, em Vila Nova de Gaia.

Dia 22 de novembro, pelas 18.00 horas, na Biblioteca Municipal de S. João da Madeira.

E o regresso, de novo à FNAC, desta vez em Santa Catarina, Porto, no dia 23 de novembro, pelas 17.00 horas.

Três oportunidades para não perder um excelente momento para tomar consciência da temática do impacto da Paralisia Cerebral no indivíduo e na sociedade.

Tal como no Livro "Por acaso...", as apresentações que a jornalista e autora tem vindo a fazer desta sua excelente obra são espaços públicos de consciencialização (não fosse ela jornalista), do exercício pleno de cidadania, de um agitar a sociedade (e cada um de nós) para a consciencialização da realidade da Paralisia Cerebral e a forma como a sociedade (e todos nós) acolhe, ou não, as pessoas com deficiência.

Num país repleto de preconceitos em relação às pessoas com deficiência, Fátima Araújo, com este seu trabalho, pretende desmistificar a forma como nos relacionamos com esta realidade e com as pessoas com deficiência.

O livro "Por acaso..." resulta de um trabalho jornalístico, vertido em livro, dando-lhe uma outra dimensão e impacto que o espaço e tempo jornalístico muitas vezes não tem, relatando a experiência pessoal e a experiência de vida de cinco jovens com paralisia cerebral que não baixaram os braços, não viram costas à vida, não se deixam condicionar pela sua realidade.

Mas há mais...
se qualquer um de nós está à espera de assistir a uma enfadonha e tradicional apresentação de um livro, desengane-se.
se qualquer um de nós está à espera de ouvir falar de uma realidade, bem presente na sociedade, de forma ficcionada, como em tantas obras que hoje, infelizmente, se publicam “a torto e a direito”, desengane-se.
se qualquer um de nós está à espera de ficar indiferente a este “Por acaso…” e à forma como a Fátima Araújo nos expõe o livro, incomode-se, inquiete-se, desassossegue-se.
Nada é ‘Por Acaso’.

01 - Fnac - convite.jpg

02 - S_J_Madeira - convite.jpg

publicado por mparaujo às 09:46

19
Abr 14

A RTP, infelizmente, não pára de surpreender com a polémica em torno do programa com José Sócrates.

Por mais que me queira restringir à questão jornalística, tal como o fiz em "José vs José... mais que mera polémica.", a verdade é que depois da confrontação entre as posições do provedor do espectador da RTP e do Director de Informação da televisão pública os factos são, também, claramente de natureza política.

Em total consonância com a posição que aqui expressei, no programa "Voz do Cidadão", transmitido hoje na RTP1, o provedor do telespectador, Jaime Fernandes, defendeu que o espaço de comentário político e de opinião de José Sócrates deveria retomar o modelo inicial, sem contraditório, sem o formato de entrevista.

Por mais relevante que seja a opinião dos provedores (tv, rádio, jornais) é um facto que a mesma não tem contornos legais ou jurídicos que forcem as direcções dos diversos órgãos de comunicação social a acatá-la. Seria, por isso, perfeitamente compreensível e inquestionável que a direcção de informação da RTP tivesse uma opinião contrária à do Provedor do Espectador e, como tal, uma decisão oposta.

Mas há contornos estranhos neste processo. É que os argumentos que José Manuel Portugal referiu para sustentar a sua opinião de manter a alteração introduzida recentemente no formato do programa são, no mínimo, questionáveis, criticáveis. Curiosamente, não por razões jornalísticas aquelas que,  partida, mais interessariam, como o facto de se transformar um espaço de comentário e opinião, numa entrevista semanal, regular, constante (periódica), ao ex-Primeiro ministro e não ao cidadão (com experiência política e de governação) José Sócrates. Aliás, como acontece, por contraste, com Morais Sarmento.

A afirmação mais surpreendete do director de informação foi "Até às eleições europeias, sim, fica tudo igual". Mas José Manuel Portugal acrescentaria ainda que "Tenho que me sentar com o engenheiro José Sócrates e com Dr. Morais Sarmento para definirmos em conjunto o que vai acontecer, mas para já fica tudo igual". O responsável pela informação da RTP entende que os dois programas de comentário (reforço o "de comentário"), do ex-primeiro-ministro do PS e do ex-ministro do PSD, fazem "sentido em conjunto", pelo que qualquer alteração também será feita em conjunto.

Ora bem (ou mal, neste caso).

O Provedor do Telespectador da RTP, no seu programa, colocou a análise da questão ao nível jornalístico quando foi claro ao afirmar que o programa foi, e tem sido, anunciado como de opinião, o que, para Jaime Fernandes, "pressupõe que o comentador faça as considerações que entenda sobre temas da actualidade sem necessitar de contraditório", o qual (contraditório) a acontecer deverá ser em espaços distintos e próprios, como os debates ou entrevistas. Isto não é sequer minimamente questionável por José Manuel Portugal (o que na minha opinião até faz sentido pelo facto de ser uma realidade ou evidência jornalística). Mas o Director de Informação da RTP comete dois erros de análise preocupantes e que levam, legitima e inevitavelmente, à abordagem da questão do ponto de vista político.

Ao ser colocado no calendário uma eventual (de novo) reformulação daquele espaço televisivo apenas após as eleições europeias, é claro que existiram pressões externas para condicionar/minimizar o impacto dos comentários e das opiniões de José Sócrates na opinião pública e, concretamente, os efeitos que poderiam provocar na campanha eleitoral.

Por outro lado, afirmar-se que os espaços de José Sócrates e Morias Sarmento são analisados em conjunto é demagogia e o sacudir de responsabilidades, já que os espaços iniciaram-se de facto nos mesmos moldes, mas não têm, hoje, a mesma configuração, nem o mesmo contexto.

Se em "José vs José... mais que mera polémica." não tive qualquer constrangimento em afirmar que José Sócrates esteve mal no confronto pessoal com o jornalista José Rodrigues dos Santos, a verdade é que hoje tenho muito mais convicção de que a alteração provocada no programa de José Sócrates tem como motivo principal condicionar e desvalorizar a opinião do ex-Primeiro Ministro, claramente, por razões políticas.

publicado por mparaujo às 19:44

09
Abr 14

Tem já mais de quinze dias a polémica que envolve o espaço de comentário político que José Sócrates ocupa na RTP1, aos domingos após o telejornal.

Quando Paulo Ferreira ocupava as funções de director de informação da estação pública, recordo, na altura, toda a polémica que envolveu a “contratação” do ex Primeiro-ministro. Para uns era a forma de José Sócrates acertar contas com o país e com a derrota eleitoral de 2011 e de avaliar, com conhecimento de causa, o actual estado da Nação; para outros era inaceitável (tendo havido lugar a petição pública e tudo) que aquele que acusavam de ter sido o responsável pela crise no país tivesse lugar de honras e destaque na televisão de todos os portugueses.

Pessoalmente, partidarites à parte, tal como o defendi, José Sócrates tinha tanta legitimidade e direito a intervenção no espaço público como qualquer dos outros responsáveis políticos e partidários que a exercem (Manuela Ferreira Leite, Augusto Santos Silva, Marques Mendes, Francisco Louçã, Marcelo Rebelo de Sousa ou Morais Sarmento, por exemplo). Mais ainda, mesmo sendo na estação pública (o que é, em sim mesmo, o garante da pluralidade e liberdade de expressão e opinião) e pelo facto da RTP estar no “mercado”, esta tinha sido uma interessante aposta da Direcção da Informação face à concorrência, nomeadamente à da TVI com Marcelo Rebelo de Sousa. Independentemente das “afinidades” e “afectividades”, bem como dos “shares” e das audiências, o programa lá foi acontecendo dominicalmente.

Até que a polémica surgiu no domingo, 23 de março, com a aparente alteração das “regras do jogo”. Polémica que seria agravada com o confronto directo e pessoal entre comentador/político e moderador/jornalista. E o pormenor da substantivação das funções não é irrelevante. Andei a tentar evitar comentar, porque o ruído já é muito (e em alguns casos totalmente a despropósito), mas não resisti a algumas notas perfeitamente arredadas de qualquer constrangimento “afectivo” (quer político – José Sócrates, quer pessoal – José Rodrigues dos Santos).

1. Não tenho qualquer pudor em que a Imprensa (jornais, rádios e televisões) ceda a ex-políticos espaços de intervenção/comentários: por serem conhecedores dos factos; pelas experiências adquiridas; e por, em alguns dos casos, serem “portadores” de informação relevante, pelos contactos que ainda possam ter no poder político (governo, instituições ou partidos).

2. O comentário à agenda e actualidade política não é, de todo e em modo algum, uma entrevista. E não tem que haver lugar ao contraditório nesse espaço. É uma questão de opinião pessoal, sustentada na maior ou menor credibilidade e conhecimento do comentador, face à apresentação (por parte do moderador/jornalista) dos factos (recentes ou “arquivados”). Aliás é o que ainda consta (pelo menos no site da RTP) institucionalmente sobre o programa em causa: «A Opinião de José Sócrates. Um olhar único, a análise exclusiva e a opinião de José Sócrates, num espaço de comentário e análise política, conduzido semanalmente por Cristina Esteves. Esta é “A Opinião de José Sócrates».

3. Em relação à alteração dos jornalistas na condução do programa, não importa qualquer comentário, até porque isso são, claramente, opções editoriais e de gestão de recursos que não conheço e sobre as quais nada importa pronunciar. Para além da minha opção pessoal, perfeitamente conhecida.

4. O que está em causa é a alteração de formatos e as posições de confronto assumidas. A RTP, segundo nota do próprio José Rodrigues dos Santos (apenas o ponto 6 importa para o caso), decidiu alterar as “regras do jogo”, tendo as mesmas sido apresentadas a José Sócrates. Ou seja, aparentemente, o espaço televisivo passou de comentário/opinião a entrevista. Não é normal em qualquer outra estação de televisão e espaços semelhantes (basta ver que, no caso de Morais Sarmento, tudo ficou igual). Ou a RTP pretendeu um golpe de originalidade ou uma “inquisição pública” ao ex Primeiro-ministro. Em qualquer um dos casos, a RTP não fica bem na “fotografia”. Por outro lado, há uma notória “afirmação pública pessoal” do jornalista José Rodrigues dos Santos porque há, claramente, uma significativa diferença semanal no programa quando conduzido por Rodrigues dos Santos ou pelo João Adelino Faria. E não é uma questão de “arquivos”.

Resta saber se José Sócrates aceitou, ou não, estas alterações das regras “do jogo”. Se aceitou, “pôs-se a jeito” e o “não vinha preparado para isto” mais que uma acusação é um evidente desabafo.

5. Mas também não deixa de ser verdade que José Sócrates sai mal desta embrulhada toda. Desde o primeiro momento (ainda em jeito de espaço de comentário/opinião) foi sempre visível a ânsia de um acerto de contas com o passado, a necessidade constante de justificar o pré-2011, muito para além do comentário à agenda e actualidade política.

Após a demissão de Paulo Ferreira e a entrada da nova Direcção de Informação há algo que muda no contexto. Seja por razões editoriais da RTP, seja por eventual pressão externa (e todos sabemos que no jornalismo elas existem), a alteração das regras do jogo demonstram uma pretensão em “moldar” o discurso de José Sócrates, “colar” a sua imagem com o passado e a chegada da Troika, ou, até mesmo, pura e simplesmente, provocar um desconforto que culmine com a saída de Sócrates da RTP.

O que mais surpreende, face ao que era a imagem política e comunicacional de José Sócrates, é o próprio ter, aparentemente, “caído no engodo”. Porque por mais razões que lhe assistam, por mais que se critique o “estilo jornalístico” de José Rodrigues dos Santos, posições tidas de confronto directo e pessoal com o jornalista, algumas no limite da ofensa, apenas servem para que o efeito “vitimização” surja a favor de José Rodrigues dos Santos. Ou seja, José Sócrates só perde em enveredar pelos mesmos erros do entrevistador. E aqui, Sócrates, errou.

No fundo, perde a RTP e perde José Sócrates.

publicado por mparaujo às 15:34

08
Abr 14

Com a polémica José Rodrigues dos Santos vs José Sócrates (RTP) ainda recente (quer a de há 15 dias, quer, principalmente, a deste domingo passado), com os maravilhosos momentos de Marcelo Rebelo de Sousa (TVI) do género "comentário político em formato standup comedy" ("Ao longo desta crise, todos nós portugueses temos feito colonoscopias sem sedação"), com o anúncio da produção RTP2 sediada no norte... de repente dei por mim a pensar que me faz falta (provavelmente a muitos mais) voltar a ver nos horários nobres rostos como os da Cristina Esteves e da Alberta Marques Fernandes (para além de outros rostos que merecem também agarrar "merecidas" oportunidades). Haveria outros rostos?! Claro que sim... Há.

Mas à memória, por há algum tempo andar desencontrado, vieram estes dois.
Acho que me faz falta a mim e ao jornalismo. E já agora... à RTP também.

publicado por mparaujo às 13:35

12
Mar 14
Televisões recusam cobrir campanha e fazer debates

Já tinha acontecido nas útlimas eleições autárquicas, em setembro de 2013.

Volta a ser tema polémico e controverso.
Maioria e PS preparam-se para alterar a legislação que regula a cobertura jornalística das campanhas eleitorais. Isto a apenas dois meses de distância do próximo acto eleitoral: eleições europeias.

Em causa estão eventuais princípios constitucionais de equidade em confronto com a liberdade de informação e a independência editorial, embora com algumas diferenças de aplicação entre a proposta do PSD-CDS e a do PS, nomeadamente no que diz respeito a distinções entre períodos de pré-campanha e campanha leitorais.

De qualquer forma, as três direcções de informação - RTP, SIC e TVI já vieram denunciar a eventual alteração à lei e a sua não exequibilidade ou a sua inviabilidade operacional e jornalística. Isto expresso num comunicado conjunto que levará a procedimentos jornalísitcos idênticos aos das eleições autárquicas de 2013.

publicado por mparaujo às 16:34

05
Mar 14

Assim é difícil, RTP.
Factos prévios:
1. Defendo a RTP como estação pública.
2. Tenho assumido, publicamente, a defesa dos profissionais da RTP e dos momentos complicados que têm vindo a viver nestes dias conturbados do grupo da estação pública de televisão e rádio.
3. São muitas as vozes críticas em relação à continuidade da RTP como empresa pública e significativas as vozes que se posicionam a favor da sua privatização. Entre os principais argumentos encontram-se os custos e encargos de gestão da empresa.
Agora, o contexto…
A RTP tem, à data, um correspondente na zona leste da europa, Rússia: Evgueni Mouravitch. E têm sido as intervenções do referido jornalista que vão relatando, desde a primeira hora, os acontecimentos na Ucrânia.
Independentemente da “paz ou acalmia aparentes”, da incerteza quanto ao futuro do país, da “invasão” russa na Crimeia, a verdade é que, para já (e por enquanto), os tempos de tensão e violência vividos nos primeiros momentos da contestação e das manifestações parecem ter acalmado.
Regista-se agora a “guerra” política-diplomática, a da geopolítica e geoestratégica envolvendo a Urcânia, as suas forças políticas, a Crimeia, a Rússia, a NATO, os Estados Unidos e a União Europeia.
E a pergunta impõe-se: como justificar (e apoiar) o envio de um jornalista da RTP (ao caso, José Rodrigues dos Santos) para a região? Como justificar, para além da vertente jornalística (estando lá o Evgueni Mouravitch), esta decisão da RTP do ponto de vista financeiro?
Assim, parece-me, fica difícil contrapor e contrariar os argumentos de quem é pró-privatização do Grupo RTP.
Não se percebe…

publicado por mparaujo às 14:49

03
Fev 14

Tudo indica que será esta semana, em princípio no dia 7 de fevereiro, que a Assembleia da República discutirá os novos estatutos da RTP, bem como consequentes revisões da Lei da Televisão e da Lei da Rádio. Para já, a “novidade” (se é que haverá algo que mude a influência do poder tutelar na RTP) é a criação de um Conselho Geral que surgirá rotulado de independente. Só que tal não será mais que uma nova roupagem nos estatutos da televisão pública e uma ilusão a ideia da diminuição da interferência do poder político no grupo RTP.

Segundo o interessante trabalho publicado na edição de ontem do jornal Público, “Governo terá pelo menos metade do poder decisório no novo conselho geral independente que vai criar para a RTP, a que se soma o parecer prévio e vinculativo sobre o administrador responsável pela área financeira. O Estado mantém também na sua alçada a assembleia geral, composta exclusivamente por membros designados pelo Governo. Um cenário que contraria a intenção a montante da criação do novo órgão: a desgovernamentalização da RTP” (via clube dos jornalistas).

O Governo, através do seu ministro Poiares Maduro, tem feito da desgovernamentalização da RTP a principal bandeira que sustenta a proposta dos novos estatutos da RTP. Não será, com este tipo de articulações, que tal acontecerá face ao continuar da gestão governamental (directa ou indirectamente) da televisão e rádio públicas.

Na entrevista que o Público realizou a Poiares Maduro, em relação a este novo modelo de gestão da RTP, Maria Lopes e Miguel Gaspar questionam o ministro sobre a posição do Conselho de Administração da RTP (sabida que é a sua discordância) face à proposta do Governo. A resposta é, no mínimo, inquietante: “Eu compreendo que um CA [Conselho de Administração] nomeado com um certo modelo de governo da empresa possa sentir algum desconforto por a meio desse mandato ver esse modelo alterado. Mas um Governo não pode esperar pelo fim dos mandatos dos CA das empresas públicas para mudar os modelos de governo das empresas. O importante é o CA estar ou não disponível para funcionar de acordo com este modelo. E está.” Mas será?

Mas em relação a Alberto da Ponte, presidente do Conselho de Administração da RTP, não será de estranhar uma oposição à proposta do Governo, nomeadamente no que diz respeito à questão dos financiamentos, da TDT e do recurso (ou a ausência) a fundos publicitários.

O que não admira. É certo que o grupo RTP tem a urgente necessidade de uma reavaliação do seu projecto, da sua missão e função públicas, e, obviamente, da sua gestão financeira. Mas não será com declarações bombásticas, sem respeito pelos profissionais (e muitos deles excelentes profissionais), pelo seu trabalho e pelo seu mérito, que a RTP construirá o seu futuro, de forma consistente, equilibrada e pacífica. Polémico e mal-amado desde que iniciou as suas funções à frente da RTP, não me parece que a visão que muitos têm da sua gestão melhorará, nem a imagem da falta de competência para o cargo que desempenha, quando, ao Jornal de Notícias, Revista Notícias TV, afirmou que “(…). Continuo a ver na RTP profissionais que trabalham 13 e 14 horas por dia e continua a haver na RTP profissionais que não trabalham puto. (…) Há gente na RTP que não trabalha puto. E não sou eu que o digo, são os próprios colegas dessas pessoas, que eu não vou identificar, naturalmente, mas que estão identificadas, que o dizem”.

É gravíssimo quando um administrador diz que, na empresa que (supostamente) deveria gerir e liderar, há quem não se esforce (mas que eventualmente é premiado) à custa dos colegas. Mais grave ainda é o facto de Alberto da Ponte fazer uma gestão empresarial da RTP com base no “diz que disse” e dos queixumes de alguns (não se sabe se muitos ou poucos) dos funcionários da empresa pública de rádio e televisão. E ainda mais grave é que condicione a sua reflexão sobre o mérito, o valor e o desempenho dos profissionais da RTP com base em apenas um dos seus funcionários, ao caso, do jornalista José Rodrigues dos Santos, sem que se perceba o porquê da “bitola profissional”, relegando para segundo plano todo o mérito e valor profissionais dos inúmeros jornalistas e trabalhadores da RTP (grupo).

Alguém que salve a RTP… porque se (eventualmente) há quem "não faça puto", é mais que óbvio que também há, na RTP, quem não "gere puto".

publicado por mparaujo às 10:47

08
Jan 14

Nós somos, de facto, um país sui generis. E por mais que nos colem os latinos ou nos colem pelas áfricas e américas por onde navegámos e estivemos durante séculos, a verdade é que os portugueses são ÚNICOS.
Para o bem e para o mal. E quer na tristeza, quer no sofrimento, quer nos sacrifícios, não há nada que nos tire o humor. Ainda dizem que o Brasil é que é a nação mais alegre de “todómundo”. Não é, somos nós.
E somos de tal forma únicos, particulares, singulares, incomparáveis, que até mesmo as situações meramente circunstanciais, com rasgos de algum humor, sem a mínima importância relevante, tornam-se, rapidamente, num excessivo raciocínio político, onde cabe toda, e mais alguma, reflexão dogmática.
Na passada segunda-feira, no programa de José Sócrates na RTP, "O Fim do Silêncio" (excepcionalmente ocorreu nesta segunda-feira) o ex Primeiro-ministro revelou, a propósito do falecimento do Eusébio, que se recordava do dia em que foi para a escola a ouvir os golos do Eusébio no famoso jogo do Mundial de 66, em Inglaterra, Coreia do Norte vs Portugal, em que a selecção nacional venceu por 3-5, depois de estar a perder por 3-0.
Até aqui nada de especial. Quantos não se lembrarão do facto, quantos não terão assistido ao facto, quantos não o confirmaram nas inúmeras vezes que foi repetido, para a memória futura, o referido jogo (como eu que, à data, tinha apenas 2 meses de proveta idade).
No entanto, houve logo quem, atentíssimos aos pormenores (por deformação profissional ou porque, simplesmente, gostam da cusquice), descobrisse “gato escondido com rabo de fora”. Posto isto surgiram logo os primeiros comentários: “1 - É possível que, aos 8 anos, Sócrates fosse à escola num sábado. 2 - É possível que ele tivesse saído de casa pelas 15h25, com Portugal a perder contra a Coreia do Norte (o jogo começou pelas 15h e estava a Coreia a ganhar por 3-0 aos 25 min). 3 - É possível que, mesmo em Julho (dia 23, já quase a chegar a Agosto), o pequeno Sócrates ainda tivesse de ir à escola, mas poderia não haver aulas. 4 - É possível que ele não fosse o único, daí a "explosão de alegria" do resto dos companheiros quando chegou à escola e Portugal já estava a ganhar (se bem que aqui teríamos de saber quanto tempo demorava a chegar à escola, já que Portugal só passou para a frente do marcador aos 59 minutos do jogo, na segunda parte).” Tudo não passaria de um momento mais ou menos humorístico, para um conjunto de considerações humorísticas perfeitamente naturais, tal como o foi a descoberta da premeditação do Manuel Goucha que já em 1993 (há vinte anos) advinhou o futuro do, então, jovem Pedro Passos Coelho nos destinos da nação. Maldita hora... despeçam o Goucha, JÁ!
Mas é óbvio que os portugueses não aguentam as urinas. E tudo o que seja apenas rir e sorrir não serve e sabe a pouco. Enquanto não se passar ao insulto, à calúnia, à blasfémia, à maledicência, rir é para “meninos”.
E rapidamente se passou de uma insignificância, de uma mera historieta de infância (com mais ou menos memória) para um caso de política e de Estado: veio à baila a licenciatura, os casos (?) de justiça, o Miguel Relvas, a crise, o Estado do país, a relação de Sócrates com a Comunicação Social (basta rever a capa de um jornal de hoje). Nada faltou…
Mas como não chegava a triste polémica onde ela não existe, rapidamente veio o contraditório. Legítimo? Desse ponto de vista, sim. Necessário? Não… só para alimentar mais a polémica. É que há justificações (por mais desinteressadas que sejam, do ponto de vista pessoais) que faz-nos recordar o ditado: “pior a emenda que o soneto”. Eram desnecessárias. Porque como dizia o meu (sábio) avô paterno… “quanto mais se mexe na bosta mais mal ela cheira”.

publicado por mparaujo às 15:38

28
Dez 13

Paulo Ferreira apresentou ontem a sua demissão do cargo de Director de Informação da RTP.

"A minha saída destas funções resulta de uma decisão pessoal, sustentada na leitura que faço sobre o que melhor defende os interesses gerais da RTP e, em particular, os da fundamental área da informação". (excerto da carta de demissão, via TSF)

Conheci o Paulo Ferreira, há cerca de 4 anos, num almoço/convívio do twitter, em Fermentelos, para além de acompanhar, com merecida atenção, todo o seu trabalho profissional.

A decisão pessoal, seja quais forem as razões, está por si tomada. Aliás, algo já "anunciado" em Outubro deste ano.

Pessoalmente, lamento a perda e a opção, porque, ao contrário do que Paulo Ferreira invoca, acho que a RTP ficou a perder (e muito). É lamentável e condenável, sublinhando o que afirma o ex-director de informação da estação pública, que a RTP não consiga segurar (ou premiar) os seus melhores profissionais.

Com todo o respeito, consideração e admiração, votos dos maiores sucessos, daqui para a frente, nos novos projectos.

créditos da foto: daniel rocha - público (caderno: autárquicas2013)

publicado por mparaujo às 14:37

03
Out 13

Apesar do desfasamento temporal, não quero deixar de prestar a minha homenagem a VASCO LOURINHO.

Durante cerca de 20 anos era inconfundível a sua presença nos écrans da RTP sempre que surgiam notícias do outro lado da fronteira.

Vasco Lourinho faleceu aos 71 anos, na noite da passada terça-feira. Mas não morreu a memória do seu trabalho, o inconfundível sotaque e a mistura fonética entre português e castelhano.

Terminava sempre as suas peças com a frase "Vasco Lourinho, de Madrid, para a RTP".
Desde ontem... "Vasco Lourinho, de Madrid, para a RTP e para sempre..."
R.I.P.

publicado por mparaujo às 09:16

02
Abr 13

Após a entrevista da passada semana (quarta-feira) e com o aproximar do primeiro programa como comentador (domingo, dia 7 de abril, na RTP1), o ex Primeiro-ministro, José Sócrates, continua a ser tema de conversa e de comentário político-partidário, mesmo que com alguma polémica à mistura.

Quando aqui ("A 'novela' do arranque da primavera") respondi a uma interessante questão colocada pela Estrela Serrano ("Quem tem medo de Sócrates?") não andei muito longe de ter acertado na resposta: começam a revelar-se os receosos pelo regresso de Sócrates à vida pública (que, obviamente, não tem nada de 'inocente' e será, clara e legitimamente, uma oportunidade para o relançamento da vida político-partidária, seja lá em que altura for ou porque via: presidência da república ou o regresso à liderança do PS). Para além disso, será óptimo tema para comentários de comentadores... mais 'assunto' não haveria.

Daí que o resultado da entrevista de quarta-feira passada tenha tido os impactos esperados: ajuste de contas com o passado, recado a Cavaco Silva, sombra a António José Seguro e uma pedra no sapato de alguns socialistas como, por exemplo, Manuel Maria Carrilho. Se o "ressaibiamento" pagasse imposto, a crise do país estava saldada.

Devolvo a pergunta de Estrela Serrano: De que terá tanto medo Manuel Carrilho?

publicado por mparaujo às 22:02

31
Mar 13

Publicado na edição de hoje, 31 de março, do Diário de Aveiro.

Entre a Proa e a Ré

(in)Tolerância? zero…

Este é um daqueles textos que não apetece nada escrever mas que resulta da obrigação, pela condição humana, de verter para o papel a indignação e a repugnância pelo artigo de opinião da responsável pela comunidade judaica em Portugal, Esther Mucznik. O texto, intitulado “Hitler na escola” foi publicado na edição do Público do dia 25 (segunda-feira) e pode ser consultado em versão online. O artigo de opinião de Esther Mucznik começa por uma referência a um infeliz e criticável episódio numa escola portuguesa com a colocação de um cartaz a publicitar um workshop de alemão com a fotografia de Hitler, para terminar, pasme-se, com a referência (comparativa) ao regresso do ex Primeiro-ministro, José Sócrates, à esfera pública como comentador político na RTP. Sobre este facto, já o expressei no “Debaixo dos Arcos” que, este regresso de Sócrates, é mais receado pelo próprio PS e por José Seguro do que pelo Governo. E tal como assiste o direito a tantos outros políticos, ex-titulares de cargos públicos (como Santana Lopes que também foi Primeiro-ministro) não vejo que José Sócrates não possa ter, pelo direito que lhe assiste à opinião e à liberdade de expressão, de ser, igualmente e entre pares, comentador político. Quando muito, como sempre defendi, podemos questionar é o tipo, o formato, dos programas… a sua estrutura e forma.

Mas não é isto que Esther Mucznik nos apresenta no seu texto. A comparação entre a falta de tolerância e de respeito com a colocação do cartaz com a foto de Hitler e o programa de comentário político que Sócrates irá ter na RTP é, no mínimo, abominável, para não dizer um atentado à memória do povo judaico, concretamente os que padeceram às “mãos” do nazismo. Não é preciso ser judeu para condenar o extermínio de milhares de cidadãos em função da sua crença ou condição. É, aliás, para alguém que tenha o sentido da responsabilidade, da tolerância, da igualdade na diferença, (como refere a Fernanda Câncio, no Jugular, “a escol(h)a de esther”) normal condenar e repudiar o holocausto sem precisar de ser judeu, o racismo sem precisar de ser negro, a homofobia sem precisar de ser homossexual. Acrescentaria eu, a xenofobia, a pedofilia, a intolerância religiosa, a indiferença pelos portadores de deficiência, os menos cultos… a lista seria extensa. O que é inqualificável e não tem explicação é toda a contradição que existe no texto de Esther Mucznik quando pretende criticar a falta de tolerância, de respeito por um povo e por uma etnia, o abuso do direito à liberdade de expressão e opinião, e comete o crasso erro de envergar pelo mesmo caminho na forma como critica o convite feito, pela RTP, a José Sócrates. Não pela crítica que, legitimamente lhe assiste, mas pela comparação argumentativa usada na colagem ao cartaz com a foto de Hitler. E ao contrário do que pretende insinuar, não há direitos ilimitados, como o da “liberdade de expressão”, apesar de universais (excepção feita para o direito à vida e, mesmo este, com a reserva do direito à legitima defesa que, na prática, mais não é do que o mesmo direito à vida). Já para não falar nos infelizes comentários que comparam o ensino antes e pós 25 de abril.

O que as sociedades ou comunidades precisam, seja em que tempos forem (de crise ou menos crise), é de alimentar ódios, rancor, ‘ressabismo’, indiferença, intolerância. Como escreveu @vascodcm no twitter “banalizar o ódio é ser tolerante com o Mal”. Banalizar a história recente do povo judaico com a inqualificável falta de tolerância e respeito, é o mesmo que menosprezar a sua memória. No caso de Esther Mucznik torna-se mais grave face à responsabilidade que tem na comunidade judaica. Para criar conflitualidade social já nos bastaram as caricaturas a Maomé, os confrontos religiosos, os interesses geopolíticos que marcam as guerras, a intolerância para com os que são considerados “socialmente diferentes”, as diferenças de tratamento e oportunidade entre géneros.

Mas este também é um país que se indigna e revolta por um ex Primeiro-ministro ser comentador na RTP, ao mesmo tempo que elege Salazar como a figura portuguesa do século XX.

Surrealismo é mesmo connosco.

publicado por mparaujo às 08:36

28
Mar 13

Importa primeiro uma declaração de interesses: em junho de 2011, nas últimas eleições legislativas votei PSD (a esta distância, mesmo que isso não mude o facto e o acto, repito no PSD e não neste Governo e em Passos Coelho). Para além do voto partidário, foi, face aos acontecimentos e à data, um voto, não contra José Sócrates, mas contra as suas políticas.

Apesar deste texto e da entrevista que o ex Primeiro-ministro concedeu ontem à RTP nada ter a ver com comparações ou análises ao actual estado do país (isso ficará, com certeza, para o futuro espaço como comentador), importa ainda terminar a declaração de interesses dizendo que nunca, como agora, me senti tão enganado, tão desiludido e tão arrependido com o meu voto, face àquilo que foram as perspectivas e os discursos apontados na altura da campanha eleitoral de 2011, por parte de Passos Coelho.

Antes de entrar na minha pessoal, modesta e simples visão dos cerca de noventa minutos do regresso de José Sócrates, quero, desde já, sem qualquer tipo de constrangimento ou comprometimento, afirmar que, independentemente de se gostar ou não, Sócrates é um notável político (o chamado “animal político”), como, infelizmente, já não se vai assistindo no actual panorama político-partidário nacional. Daí que, tal como aqui escrevi, quem mais receio terá deste seu regresso será parte do Partido Socialista e o seu actual líder António José Seguro (que muito longe está desta qualidade e capacidade política).

José Sócrates regressou (pessoalmente, acho que tarde) quase ao fim de dois anos após ter perdido as eleições, em 2011, para explicar ou defender-se das acusações que são direccionadas aos seus seis anos de governação ou, principalmente, aos seus dois últimos.

Em relação a este aspecto, do ponto de vista pessoal (não sei se de muitas outras pessoas, mas de algumas seguramente) a sua derrota nas eleições deveu-se à leitura da realidade dos factos e dos números, mais do que contra algumas das suas políticas (ninguém de bom senso recusaria melhores escolas, melhores estradas ou até mesmo um novo aeroporto ou um tgv) apesar, também, de uma eventual penalização pela oportunidade político-económica das mesmas (os gastos, as ppp - todas elas -, as obras em plena crise financeira) . E esse foi o seu grande erro, sublinhado pela desfavorável conjuntura externa: tinha obrigação de perceber o destino (sabia-o e conhecia-o) e a espiral dos acontecimentos surgidos em 2008 e ter tomado outro rumo. Mas quer as coisas positivas (aumento das protecções sociais, reforma da segurança social, alguns aspectos da educação – apesar da fragilidade política de Maria de Lurdes Rodrigues e de terem sido desvirtuados, com a implementação prática, os alicerces das Novas Oportunidades – a aposta tecnológica e a reestruturação administrativa do Estado – caso simplex, entre outros – aspectos sociais como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, entre outros); quer os erros cometidos e que levaram (também) a um défice de 10,2% em 2010, a um desemprego acima dos 12%, a uma instabilidade social que Sócrates não soube gerir (lembremos a primeira manif as 12 de março de 2011), uma dívida pública perto dos 109% e uma redução do PIB acima dos 2% (quando a economia tinha sofrido um interessante impulso no início do seu primeiro mandato, por exemplo, em 2007, quando se assistiu ao maior aumento do PIB, em relação aos anteriores 10 anos, em 2,4%); tudo isto foi escrutinado, nas urnas, em 2011. Ponto. E tal como José Sócrates fez, e, aliás, muito bem, estes eram os dados à data das eleições e, para o fim que a entrevista se destinava (explicar os factos, à data) não tinham (têm) que ser analisados comparativamente aos dias de hoje (excepção para as óbvias referências, por força da narrativa, ao memorando assinado com a Troika). Repito, tendo como fundamento os objectivos da entrevista: descrever a realidade à data. Para outras “andanças”, aguarda-se com alguma expectativa a leitura que fará enquanto comentador político.

Mas o facto é que em 2011, José Sócrates não conseguiu implementar o PEC IV (por força do seu chumbo parlamentar), não conseguiu inverter a realidade e, tal como referiu, não havia, no final, qualquer alternativa se não o recurso à ajuda externa (Troika). Aliás, facto que serviu de “traição” política do então ministro das Finanças, Teixeira dos Santos. Embora aqui, José Sócrates não tenho dito tudo. Porque, pessoalmente, o que teve mais impacto na sociedade e nos portugueses nem foi a antecipação, por Teixeira dos Santos, do anúncio da “entrada” da Troika. Mas o facto de, na mesma altura, o ex-ministro ter afirmado que “em junho Portugal não teria mais dinheiro”, dando assim a machada final. E foi isto que muitos portugueses (iludidos, pelo menos eu e mais alguns, com as propostas e alternativas de Passos Coelho) julgaram a 5 de junho de 2011.

Assim sendo, nada na entrevista (a espaços algo confusa) parecia trazer nada de novo. Até mesmo o cuidado que houve, quer de Sócrates, quer dos jornalistas, para não entrarem na inqualificável (protagonizada pelo “gosto” de alguns) narrativa dos aspectos da vida pessoal, a sua formação académica, das polémicas judiciais, etc. Apesar do final da entrevista ter sido algo escusado ou evitado (referência à formação em Paris).

Mas a entrevista valeu pelo seu ponto alto: o verdadeiro ajuste de contas (daí que tenha dito atrás que poderia ter acontecido mais cedo, logo na altura da polémica). Um ajuste de contas não com o eleitorado que o derrotou, nem com o actual governo ou com aqueles que no PS abdicam do passado recente. Um ajuste de contas com quem, verdadeiramente, influenciou a sua queda, perspectivou e desenhou o seu derrube: Cavaco Silva.

E, aqui, José Sócrates teve o seu auge: lealdade institucional não tem sentido único. É uma relação bidireccional.

Sócrates, mesmo já com o “jogo” terminado, ganhou pontos, pelo menos, no que respeita ao esclarecimento, à explicação, ao direito à sua defesa e ao contraditório.

E lições de moral dão-se, de facto, quando alguém respeita e conquista o respeito. Algo que Cavaco Silva, logo em março de 2011, no discurso da sua tomada de posse deixou bem patente que não saberia, nem iria, cumprir.

(entrevista completa de José Sócrates - RTP, 27 de março 2013)

publicado por mparaujo às 22:36

21
Mar 13

A Primavera chegou com o tempo cinzento. Por Aveiro costumamos associar a este tempo ventoso, frio e chuvoso (de arranque primaveril) à secular Feira de Março. A Primavera chegou, a Feira de Março também... resultado: tempo cinzento.

Mas o dia de hoje não podia ter sido mais acalorado com o alarido e algazarra com o regresso à esfera pública do ex Primeiro-ministro, José Sócrates, como comentador na RTP. Uma verdadeira "novela" nas redes sociais, nas conversas de café, à mesa. Não se fala noutra coisa. Aliás, é notícia de abertura do jornal das oito, na TVI (com declarações do director de informação da RTP, Paulo Ferreira).

Estrela Serrano, no seu blogue, coloca uma interessante questão sobre a 'polémica': "Quem tem medo de Sócrates?"

Ao seu excelente texto a minha resposta é simples: o próprio Partido Socialista. Tão somente. Ou, se quisermos, também à SIC, à TVI e ao recente CM TV. Devem estar a "espumar de raiva" por não se terem lembrado ou conseguido este claríssimo trunfo de audiências. Mas fundamentalmente o PS.

Para o actual aparelho político socialista, para o próprio António José Seguro, nada poderia ser mais pressionante, mais assombrador, que o regresso de José Sócrates à ribalta política. Pelo "fantasma" de um passado que Seguro tenta, a todo o custo, apagar. Pela afronta que representa uma ala muito crítica à actual liderança dos socialistas (aliás, verificada aquando do confronto Seguro vs António Costa). Talvez António José Seguro aprenda a fazer oposição, com propostas concretas alternativas, de forma construtiva e sem a demagogia e os zig-zags do costume.

Quem agradece é o Governo. Enquanto os vários comentadores políticos (por exemplo, Morais Sarmento, também com o mesmo espaço e formato na RTP) dos vários órgãos de comunicação social se vão entretendo a apreciar os comentários de José Sócrates; enquanto o PS vai tentado gerir, interna e externamente, cada uma das palavras que Sócrates dirá; enquanto o país se vai distraindo com estes "fait divers"; o Governo vai avançando com o afundamento do país (cantando e rindo).

Por último, uma declaração de interesses, em total sintonia como que escreve Estrela Serrano no seu texto: nada tenho contra o facto de, em abril, José Sócrates ter um espaço de comentário político na RTP (mesmo que seja a RTP). É o legítimo direito que qualquer cidadão, seja qual for a condição política que tenha tido no passado, mesmo que recente, tem à liberdade de expressão e opinião. Vários são os exemplos que proliferam na comunicação social com ex-políticos, ex-dirigentes partidários, ex-ministros e também, ex Primeiro-ministros (Santana Lopes). Já não concordo (mas isso tem a ver, de facto, com o órgão de imprensa em si e não com o cidadão/comentador) com o tipo de formatos usados: sem a presença de profissionais, sem contraditório, ou mesmo que esteja presente um jornalista a sua função seja, claramente, condicionada e limitada (o vulgo "pé de microfone"). Mas isso serão outras "estórias".

A terminar, até penso que os portugueses poderão beneficiar da presença de José Sócrates na RTP: pode ser a forma de muita coisa, agora longe dos condicionalismos da formalidade e institucionalidade do cargo, poder explicar muitas das razões que levaram à gestão do país nos seus seis anos de governação. Quer o actual PS goste ou não...

publicado por mparaujo às 20:01

03
Fev 13

Publicado na edição de hoje, 3 de fevereiro, do Diário de Aveiro.

Entre a Proa e a Ré

A ‘caixa’ volta a mudar o mundo

O título bem poderia ser ‘a RTP transformada em PTR’, tal é o momento controverso que atravessa, virando-a completamente ao contrário. Não há dia ou semana em que a RTP não seja notícia ou referência na agenda política.

Este governo começou por encomendar um estudo, perfeitamente inócuo, sobre a definição de “serviço público de televisão”, princípio consagrado na Constituição da República Portuguesa (número 5 do artigo 38º) tantas vezes invocada, por tudo ou por nada, ao ponto de se desvalorizar o papel que desempenha no Estado de Direito. O estudo resultou num conjunto de conceitos muito mais económico-financeiros do que, propriamente, direccionados ao papel socializador que a RTP deve desempenhar na área comunicacional e que serviço, enquanto entidade pública, deve prestar aos cidadãos.

Após o relatório (do qual já muito poucos se recordam) ter sido colocado numa qualquer gaveta ministerial, o Governo, pela acção do ministro Miguel Relvas (curiosamente aquele que parece ter mais dificuldade em lidar com os valores/princípios da comunicação social), passou a considerar a privatização da RTP como um processo crucial. Um imperativo que foi, pouco tempo de pois, transformado numa intenção de concessão e que culmina agora num processo de “Reestruturação”, ou, eventualmente, como é usual neste Governo, um processo de “Refundação”. Estes recuos sucessivos do Governo têm vários factores e nenhum vencedor: o Governo não quis correr o risco de uma operação de privatização mal sucedida como a TAP ou, segundo parece, a ANA; a pressão interna na coligação, por parte do CDS, que tem uma visão distinta do PSD sobre o assunto RTP; a pressão dos operadores concorrentes, como a SIC e a TVI, argumentando a incapacidade do mercado suportar mais um operador privado; a comissão de trabalhadores e os sectores sindicais dos vários grupos profissionais que integram a RTP. Mas a questão é que não me parece, face ao cenário, que haja vencedores. Nem Governo, nem RTP, nem os cidadãos.

Qualquer processo de reestruturação de uma organização tem sempre impacto (negativo) na vertente dos recursos humanos dado que esta é uma fatia considerável dos encargos financeiros. Mas não só… há outras e inúmeras formas de minimizar esses impactos, muito longe dos números avançados pela imprensa para um processo de despedimento como o da RTP (mais de 600 profissionais) e com contornos muito pouco claros, ou, por outro lado, muito preocupantes: como é que será o futuro da RTP? Que (e com quem será feito) reestruturação está delineada para o canal público? Apenas a vertente financeira? É a isto que continua, para o Governo, a resumir-se o ‘serviço público’, seja quais forem as administrações e as direcções da RTP? Pura e simplesmente, pegar em 42 milhões de euros (dinheiro que afinal existe… deve ter vindo dos “mercados”) e cortar (nem sequer é reestruturar) sempre pelo elo mais fraco, parece-me mais do mesmo, num país completamente esfrangalhado nas competências sociais e culturais do Estado.

Mas esta semana a RTP voltaria à ribalta (mesmo que involuntariamente) pela mão da Assembleia da República, numa posição do mais hilariante e ridículo que se possa imaginar. Ao ponto de muitos dos portugueses pensarem tratar-se de uma mera brincadeira de pré-carnaval quando o assunto foi anunciado. De volta à Constituição Portuguesa, o número 4 do artigo 38º refere que “o Estado assegura a liberdade e a independência dos órgãos de comunicação social perante o poder político e o poder económico (…)” e o número 6 do mesmo artigo explicita que “a estrutura e o funcionamento dos meios de comunicação social do sector público devem salvaguardar a sua independência perante o Governo, a Administração e os demais poderes públicos (…)”. Não se vislumbra em qualquer outro articulado da Constituição, em qualquer lei da imprensa ou da televisão, que o Governo ou a Assembleia da República (ou qualquer outro poder ou órgão políticos) têm qualquer legitimidade para determinarem conteúdos ou programas televisivos da RTP. Mas como este país, apesar da crise e das dificuldades que atravessa, tem a particularidade única no mundo de tudo poder acontecer, mesmo o mais surreal, a verdade é que a Assembleia da República parou no tempo, deixou por breves horas a realidade económica, financeira e social do país, e entrou no mundo imaginário ao aprovar (com os votos favoráveis do PSD, CDS, a abstenção de parte do grupo parlamentar do PS e os votos contra de outra parte do PS, do BE e do PCP/PEV) uma recomendação ao Governo para que promova um programa semanal relacionado com a agricultura e o mar na RTP, fazendo renascer das cinzas o mítico “TV Rural”. Afinal, o serviço público da RTP é importante e relevante, apesar de toda a hilaridade e o ridículo deste processo. Ao que está sujeito e reservado o poder político que deveria cuidar do país e dos cidadãos.

O Governo tem mais do que inúmeros meios para promover o desenvolvimento da agricultura e das pescas no país (isto se ainda for possível recuperar o que quer que seja nestes dois sectores que Cavaco Silva arruinou completamente, enquanto primeiro-minsitro). Por outro lado, esta proposta é, como foi exemplificado e demonstrado, uma evidente e clara intromissão na gestão de conteúdos e de programas da RTP, e a todos os níveis, incluindo os constitucionais, condenável e criticável.

Mas já agora, aproveita-se a "embalagem" e sugere-se a inclusão do programa no "Canal Parlamento".

Além disso, nada seria de espantar se qualquer dia tivermos Pedro Passos Coelho, na televisão pública, a retomar o "Conversas em Família" (de Marcello Caetano), qui ça, aproveitando as mensagens que o "cidadão Pedro" publica e partilha no seu faceboock.

publicado por mparaujo às 08:59

31
Jan 13

Já há muito tempo que não me lembro de olhar para as notícias do dia e assistir a tanto disparate. Se não fosse dia 31 de janeiro, diria que era Carnaval (se é que ainda existe). Mas reconheça-se que o dia de hoje foi pródigo.

1. RTP

Continuo defensor do serviço público de televisão, continuo defensor da RTP (mesmo que sujeita a redefinições), continuo perfeitamente solidário com os profissionais da RTP, com os conhecidos que tenho na RTP e com alguns Amigos que tenho na RTP. No entanto, até pelos (alguns) anos que estive ligado ao sindicalismo, mesmo que local, não basta o exercício do direito à indignação, à defesa dos interesses dos trabalhadores, à luta por determinados objectivos. Há que o fazer, essencialmente, com ponderação e com sentido de responsabilidade. Principalmente com o sentido de se ser parte da solução e nunca do problema. Daí que tenha muitas dúvidas que o caminho escolhido pela comissão de trabalhadores da RTP seja o mais correcto e eficaz.

2. Ver o "cisco" no olho dos outros.

Ou como se diz na gíria: "pimenta no rabinho dos outros é refresco". E tudo começa com esta afirmação de Carlos Zorrinho, líder parlamentar da bancada socialista: «Governo revela sinais de que está "esfrangalhado" e "esgotado".» A afirmação, por si só, até seria compreensível face ao que têm sido as várias trapalhadas deste Governo. Mas proferir tal afirmação em plena crise interna do PS que, afinal, ainda está muito longe de parecer resolvida (mesmo depois da noite quente de ontem, no Largo do Rato). E quando Carlos Zorrinho afirma que as negociações que ocorreram entre António José Seguro e António Costa não incidiram sobre cargos ou pessoas mas sim sobre ideias e propostas, mesmo que para o secretário-geral do PS não tenha havido um vencedor e um vencido, a verdade é que, pela pressão exercida por António Costa para a clarificação estratégica do partido só demonstra que, após o dia 10 de fevereiro, no PS vai haver mesmo um vencedor e um vencido, com uma futura escolha, nem que seja em congresso, de cargos e pessoas.

3. À terceira ainda não foi de vez.

Por causa de um Secretário de Estado (Paulo Júlio) 'pagam' mais seis. É desta forma que Passos Coelho, após ano e meio de governação, volta a remodelar o governo, pela terceira vez (média de uma remodelação a cada semestre). A questão não está apenas na remodelação em si mesma, até porque na sua origem está um acto aceitável e justificável de apresentação de demissão (diga-se, apesar de tudo, com alguma dignidade e ética política). A questão é a justificação e argumentação para mais uma mini-remodelação e apenas ao nível dos Secretários de Estado. Este parece ser o resultado óbvio e prático da opção de Passos Coelho pelos mega ministérios na estrutura governativa.

4. O 'dito' pelo 'não dito'

Muitas críticas surgiram, a vários níveis, pelo CDS no que respeita à candidatura, a outras autarquias, de presidentes de câmara que, por força legal (continuo a achar que a legislação nada tem de dúbio ou pouco claro), atingiram o máximo de mandatos permitidos e não se poderiam candidatar nos actuais municípios onde exercem as funções de Presidente de Câmara. As críticas atingiram o seu "expoente" máximo quando os centristas se insurgiram contra a candidatura de Luis Filipe Menezes à autarquia do Porto, afastando o seu apoio. Mas na política o que 'hoje é verdade amanhã é mentira' e o que é mais comum é a prática de "engolir sapos". E o CDS acaba por dar o dito pelo não dito, apenas por mero interesse partidário. Ao contrario do que aocntece em relação à "capital nortenha", o CDS decidiu apoir a candidatura de Fernando Seara (nas mesmíssimas condições que Menezes) à autarquia da capital portuguesa. Haja coerência... 

5. O regresso do "TV Rural" (e não é na RTP Memória)

A maioria parlamentar está disposta a apresentar, na Assembleia da República, uma proposta para fazer "renascer" o mítico programa do Eng. Sousa Veloso - "TV Rural", com o objectivo de promover o sector agrícola e das pescas. Nada mais hilariante...
O Governo tem mais do que inúmeros meios para promover o desenvolvimento da agricultura e das pescas no país (isto se ainda for possível recuperar o que quer que seja em dois sectores que Cavaco Silva arruinou completamente). Por outro lado, esta proposta é uma evidente e clara intromissão na gestão de conteúdos e de programas da RTP, a todos os níveis, incluindo os constitucionais, condenável. Aproveita-se a "embalagem" e sugere-se a inclusão do programa no "Canal Parlamento". Além disso, qualquer dia temos Pedro Passos Coelho, na televisão pública, a retomar o "Conversas em Família" (de Marcello Caetano), qui ça, aproveitando as mensagens do "cidadão Pedro" no faceboock.

6. De que vale contestar o óbvio?

E o óbvio é o desastre e o inqualificável relatório do FMI. Desde o primeiro momento que foi conhecido que são várias as vozes que denunciam as mais evidentes lacunas, os mais óbvios e graves erros, que o referido documento contém. Apesar do governo, mesmo que o relatório não seja a bíblia para Passos Coelho, afirmar, como o fez o Secretário de Estado, Carlos Moedas, que o documento era excelente e muito bom. Com base no mesmo, foi lançada, pelo Governo, a discussão em torno da temática da "Refundação do Estado" (aliás recordando o triste e polémico episódio da conferência "pública" para se ouvir a sociedade civil - alguma dela - sobre o assunto). Mas a questão ainda mais relevante (para além da qualidade do documento/relatório) é o uso da informação e das reformas anunciadas, supostamente, pelo FMI, com base em dados que não são fiáveis ou que são imprecisos, que servem de ponto de partida para a discussão sobre as funções do Estado. E torna-se incompreensível que haja quem, para além do Governo, sustente esta triste realidade.

Aliás, o que a jornalista Fernanda Câncio revelou, mais uma vez, na edição de hoje do Diário de Notícias com este interessante texto. (via Shyznogud)

7. A cereja em cima do bolo

O últimos são os primeiros e esta referência merece o destaque dos destaques. Já conhecíamos a expressão do "patrão" do BPI, Fernando Ulrich, "ai aguenta, aguenta". Na altura (e após esse momento) gerou acesa polémica por ser entendida como uma ofensa aos sacrifícios dos portugueses no seu contributo (quase exclusivo) no combate à crise que o país ainda atravessa. Mas Fernando Ulrich, pelos vistos, não ficou satisfeito com o "protagonismo metafórico" atingido. E voltou "à carga". Só que desta vez de forma mais ultrajante para todos os portugueses e para o próprio país. Ulrich justificou a expressão utilizada com uma ofensa à desgraça humana, ao infortúnio e, ainda pela segunda vez, aos sacrifícios dos portugueses, muitos deles alimentando o sucesso do lucro bancário que o BPI alcançou no final de 2012. E a justificação, pasme-se, foi dada: "Se os sem-abrigo aguentam porque é que nós não aguentamos?". Se isto não fosse demasiadamente grave e inqualificável, merecia a medalha da expressão humorística do ano. Era interessante ver Fernando Ulrich a passar um mês na qualidade de sem-abrigo numa das cidades deste país... sempre queria ver se ele "aguentava".

publicado por mparaujo às 20:09

25
Jan 13

Esta foi a questão/resposta que António José Seguro enviou aos socialistas que reclamam a realização do Congresso do PS antes das eleições autárquicas.

Tal como aqui referi, face ao que tem sido a oposição que o PS tem efectuado ao Governo e na perspectiva de eventuais eleições antecipadas (o que nesta altura começa a figurar-se menos provável, por enquanto), há uma evidente, embora encoberta, vontade de uma determinada ala socialista em alterar a liderança do partido.

E o mais interessante é que António José Seguro só tem favorecido a argumentação de quem exige ao PS maior consistência e uma verdadeira alternativa política.

A propósito do último post "Solidariamente... RTP." esperava-se toda e qualquer reacção de António José Seguro menos esta: "Seguro vê adiamento da privatização da RTP como «mais uma vitória do PS»" (via TSF).

E depois, o actual líder socialista, fica admirado, furioso e questiona: qual é a pressa?

Como é que é possível o PS congratular-se e reclamar vitória num processo que tem tudo para acabar mal, ser uma verdadeira falácia e apenas ter como certeza o despedimento (à custa de 42 milhões de euros) de 600 profissionais da RTP?

Só significa que o responsável pelos 600 postos de trabalho a cortar na RTP, afinal não é Relvas, mas sim António José Seguro.

Enfim...

publicado por mparaujo às 14:00

 

Qualquer processo de reestruturação de uma organização tem sempre impacto (negativo) na vertente dos recursos humanos dado que esta é uma fatia considerável dos encargos financeiros. Mas não só… há outras e inúmeras formas de minimizar esses impactos, muito longe dos números avançados pela imprensa para um processo de despedimento como o da RTP (mais de 600 profissionais) e com contornos muito pouco claros, ou, por outro lado, muito preocupantes: como é que será o futuro da RTP Porto?

Dos 323 trabalhadores (números avançados pela Comissão de Trabalhadores) perspectiva-se o despedimento de 300, reduzindo toda uma história e uma capacidade produtiva comprovada a 23 colaboradores? E que tipo de reestruturação vai ser executada? Apenas o que respeita aos encargos com o pessoal? É isto que é repensar o serviço público de televisão e todo o papel da RTP na comunicação social?

Já aqui avancei, em algumas ocasiões, um exemplo do que poderia ser (evidentemente com alguns constrangimentos de recursos humanos, mas isso seria de todo inevitável mesmo que em número muito mais reduzido) uma parte de um processo abrangente de reestruturação: a fusão da RTP2 com a RTP Inf, aproveitando o que de melhor tem a informação com a “formação” e conteúdos de excelência da RTP2 (pena que já tenham antecipado o fim do “Câmara Clara” ou a redefinição do “Sociedade Civil”, por exemplo). Por outro lado, repensar a RTP Memória, RTP África e RTP Internacional.

Agora, pura e simplesmente, pegar em dinheiro (que afinal existe… deve ter vindo dos “mercados”) e cortar (nem sequer é reestruturar) sempre pelo elo mais fraco, parece-me mais do mesmo, num país completamente esfrangalhado nas competências sociais e culturais do Estado.

Resumo de uma triste história, com um final ainda pior.

RTP: História de uma privatização que passou a concessão e que vai acabar numa reestruturação “dolorosa”

(via Jornal de Negócios, versão on-line, 26 janeiro 2013)

publicado por mparaujo às 11:22

06
Jan 13

Ainda a tempo...

Escrevi aqui, em “Sociedade Civil RTP”, uma forte preocupação quando se perspectivou, em Março de 2012, um eventual fim do programa diário da RTP2, “Sociedade Civil”.

Se é verdade que tudo tem um fim, nada é eterno, não tenho como sempre válida a máxima de que “ninguém é insubstituível”. Claro que há quem seja insubstituível. Mas já lá vamos…

Para já retomo alguns apontamentos do texto de 2012:

Claramente mais preocupada com as audiências e a concorrência (informação em "A RTP tem razão" de Estrela Serrano) do que com a qualidade, a diferença e o verdadeiro serviço público, existe a eventualidade da direcção de programação poder terminar com o programa da RTP2 "Sociedade Civil". Para além de terminar com um programa que é referência no segundo canal da televisão pública (?) - e que ainda há bem pouco tempo, no dia 18 de Fevereiro, comemorou a milésima emissão (programa 1000) , para além de inúmeros prémios conquistados - há um claro sentimento de desilusão e de decepção por parte dos cerca de 120 parceiros do programa. Todos!!! O que leva a questionar como é que se pode terminar com um programa que é uma evidente mais-valia para a estação e para os espectadores.

Neste momento, a RTP decidiu não acabar com o programa, mas “refundá-lo” (mais depressa do que o Governo quer fazer com o Estado Social) ao ponto de lhe retirar toda as características e estrutura que fizeram do “Sociedade Civil” um programa de referência, de excelência, na televisão portuguesa. Entre alguns factores decisórios está a questão financeira (que mais poderia ser), como se o que tem qualidade e tem valor não tivesse, obviamente, os seus (justificados) custos, e que reduziu em 65% o orçamento do programa (o que significa reestruturar mais de metade do programa), bem como o facto de terminarem com uma das suas principais razões existenciais: a participação do público, da “sociedade civil”. Para quê ter um programa “Sociedade Civil” sem a participação da sociedade?!

Em relação à questão dos custos e encargos, volto a repetir o que afirmei quando escrevi sobre o fim do “Câmara Clara”:

Quando se retomou a discussão da viabilidade da RTP (porque o processo não é, de facto, novo) por mais que uma vez aqui, neste espaço, defendi que o Governo e a Administração tinham uma solução para a redução de custos no canal público: para tal bastava juntar o que de melhor tem a programação da RTP2 com o que de melhor tem a informação na RTP Inf num único canal. O difícil seria, eventualmente, escolher, porque qualidade não falta nas duas grelhas, deixando a RTP1 para a exclusividade da programação generalista. Mas as várias Administrações e este Governo insistem que a vida e a sociedade gira em torno de folhas de excel, de cálculo financeiro. Infelizmente não percebem que há realidades sociais que não têm preço. O saber, o valor, a crítica, a qualidade, a cultura e a arte, são valores que não têm preço pela importância e relevância que têm na construção do espaço público e do desenvolvimento das comunidades.”

Regressemos à temática do “ninguém é insubstituível”. Não está, nem quero colocar, em causa a competência e o profissionalismo da nova apresentadora do “refundado” Sociedade Civil, Eduarda Maio. Mas, ao caso, há alguém que tenho de considerar insubstituível: a jornalista Fernanda Freitas.

Acima de toda esta “tragédia” comunicativa e de atentado a um verdadeiro serviço público, há um desperdício de um recurso humano de uma qualidade superior indiscutível, quer a nível profissional, quer humano. A sua inteligência, a sua “liberdade” (não alinhamento), o seu sentido cívico e crítico, o seu lado emocional e humano (basta recordar o seu importante papel no Ano Europeu do Voluntariado), e, obviamente, a sua capacidade e empenho profissionais. Enquanto a Fernanda não regressar e abraçar outro projecto televisivo, a RTP e a televisão não serão as mesmas. Porque há pessoas que são insubstituíveis.

publicado por mparaujo às 22:22

14
Out 12
Acabado de ver o novo formato do Telejornal da RTP 1 (já que ontem não pude prestar a devida atenção e vi muito pouco) com a apresentação da Cristina Esteves e a coordenação da Rita Marrafa de Carvalho. Muito Bom... com olhares novos sobre o "mundo". Nota 18.


A cereja em cima do bolo surge com o "Termómetro Político" conduzido pelo Carlos Daniel. Dou também um 18... 6 ao Carlos, 12 (6+6) a dois excelentes directores (do melhor que temos, neste momento, no jornalismo) e comentadores: João Marcelino (DN) e Pedro Santos Guerreiro (Jornal de Negócios).


Pois... eu sei. Só dá 18, faltam mais 2 para os 20 valores. Nem tudo pode ser perfeito. É a vida :))

publicado por mparaujo às 21:40

16
Set 12

Publicado na edição de hoje, 16 de setembro, do Diário de Aveiro.

Entre a Proa e a Ré

O “Um” e o “Outro”…

1. Quatro minutos de vazio…

Foi com alguma expectativa que aguardei a comunicação de António José Seguro (na passada quinta-feira, dia 13 de setembro) após toda a polémica e crítica em torno das recentes medidas e políticas do governo. António José Seguro usou cerca de quatro minutos do prime-time, em pleno horário informativo, para, afinal… não dizer nada. Ou pelo menos, não dizer nada de novo, nem de relevante.

Primeiro, anunciou o sentido de voto do partido em relação a um Orçamento do Estado que nem sequer tem um documento inicial ou nem conhece. António José Seguro corre o risco de ter de dar o dito pelo não dito já no próximo mês.

Segundo, a única medida alternativa anunciada (face a um rol de medidas que vão ser implementadas pelo Governo) foi a criação de uma taxa (imposto extraordinário) sobre as PPPs. Sem quantificar, nem explicar. A única conclusão é que o líder socialista “renega” e reconhece o erro das parcerias público-privadas da anterior governação do PS.

Terceiro, o líder do maior partido da oposição afirmou que há outro caminho para a saída da crise, embora exigente e que alia o rigor orçamental com o crescimento económico e social. Mas qual é o caminho? Por onde quer o PS levar o país?! É necessário e importante saber isso.

Quarto, por último. António José Seguro centrou o seu discurso, essencialmente e de forma dramática e entoada, criticando as medidas aplicadas em relação à Taxa Social Única. Só que sem qualquer novidade. O que disse já tinha dito quase todo o país, incluindo figuras de proa do próprio PSD, lembrando, por exemplo, a entrevista de Manuela Ferreira Leite, ontem, na TVI24. E não é a “ameaça” da moção de censura (sem qualquer efeito prático e que há bem pouco tempo era desvalorizada por José Seguro) que traz uma alternativa ou novidade.

A novidade, se é que assim se pode definir, tem a ver com o anúncio de Seguro em querer levar o assunto da Taxa Social Única até às instâncias mais altas da magistratura: Presidente da República e Tribunal Constitucional. Aqui, Seguro falhou redondamente. As alterações na TSU foram resultado (correcto ou errado) da interpretação e da oportunidade que o Governo fez e viu na decisão do Tribunal Constitucional sobre os cortes dos subsídios na Função Pública. E nessa altura, à revelia do próprio partido e da sua direcção, foi um grupo isolado de deputados socialistas (cerca de 10) com deputados do BE que solicitaram o parecer ao Tribunal Constitucional. Vir agora ameaçar com inconstitucionalidades é, literalmente, um recurso de desespero político à falta de outro tipo de argumentações.

Em 45 minutos de entrevista à TVI24, um dia antes, Manuel Ferreira Leite conseguiu fazer mais oposição ao governo, de forma crítica, eficaz, coerente, até com alguma ironia, do que António José Seguro desde as eleições de 2011.

Com uma oposição assim é fácil governar assim. Uma má, a outra péssima.

2. Comunicação governativa péssima

A entrevista que Pedro Passos Coelho concedeu igualmente na quinta-feira, 13 de setembro, à RTP foi um verdadeiro mau momento político e comunicacional.

Primeiro, porque o país esperou mais de cinco dias (desde a comunicação ao país na passada sexta-feira) para ouvir explicações que deveriam ter sido dadas na altura. Isto apesar de continuar a achar que a comunicação de sexta-feira foi totalmente despropositada face ao decurso da avaliação da Troika (deveria ter sido feita apenas na terça-feira).

Segundo, esta entrevista era, do ponto de vista político, perfeitamente escusada já que, excluindo questões relacionadas com a coligação e a sua sobrevivência, ou a relação institucional com o PS, nada mais haveria a acrescentar dada a distância temporal para a apresentação do Orçamento para 2013 e as próximas reuniões de preparação com partidos e parceiros sociais. Aliás, do ponto de vista político é um erro crasso porque condicionante da acção futura do governo e dos parceiros sociais.

Terceiro, a entrevista foi demasiada “sem sabor”, sem novidades, sem qualquer motivo verdadeiramente interessante. A não ser o facto de se ficar a saber (ou pelo menos com a sensação) que não haverá recuo governativo e que Passos Coelho (com ou sem razão, o futuro imediato o dirá) ter-se adiantado a qualquer posição pública do CDS e de Paulo Portas.

Quarto, três notas finais: Pedro Passos Coelho esteve muito inseguro, sem firmeza e serenidade, e muito mal preparado; o jornalista Vitor Gonçalves e o jornalista e editor de economia da RTP, Paulo Ferreira, estiveram muito bem profissionalmente. Bem preparados, temas bem estudados, questões bem formuladas, serenos e assertivos, seguros na condução da entrevista. Muito bom, exemplar até, exercício de jornalismo; com esta entrevista Pedro Passos Coelho prestou uma excelente publicidade e incentivo às manifestações agendadas para este sábado, em vários pontos do país. Melhor publicidade não poderia ter havido.

publicado por mparaujo às 20:22

13
Set 12

A entrevista que Pedro Passos Coelho concedeu hoje, 13 de setembro, à RTP foi um verdadeiro mau momento político e comunicacional.

Primeiro, porque o país esperou mais de cinco dias (desde a comunicação ao país na passada sexta-feira) para ouvir explicações que deveriam ter sido dadas na altura. Isto apesar de continuar a achar que a comunicação de sexta-feira foi totalmente despropositada face ao decurso da avaliação da Troika (deveria ter sido feita apenas na terça-feira).

Segundo, esta entrevista era perfeitamente escusada já que, excluindo questões relacionadas com a coligação e a sua sobrevivência, ou a relação institucional com o PS, nada mais haveria a acrescentar dada a distância temporal para a apresentação do Orçamento para 2013 e as próximas reuniões de preparação com partidos e parceiros sociais. Aliás, do ponto de vista político é um erro crasso porque condicionante da acção futura do governo e dos parceiros sociais.

Terceiro, a entrevista foi demasiada “sem sabor”, sem novidades, sem qualquer tipo de motivo verdadeiramente interessante. A não ser o facto de se ficar a saber (ou pelo menos com a sensação) que não haverá recuo governativo e que Passos Coelho (com ou sem razão, o futuro imediato o dirá) ter-se adiantado a qualquer posição pública do CDS e de Paulo Portas.

Quarto, três notas finais:

- Pedro Passos Coelho muito inseguro e mal preparado.

- O jornalista Vitor Gonçalves e o jornalista e editor de economia da RTP, Paulo Ferreira, estiveram muito bem profissionalmente. Bem preparados, temas bem estudados, questões bem formuladas, serenos e assertivos, seguros na condução da entrevista. Muito bom, exemplar, exercício de jornalismo.

- Com esta entrevista Pedro Passos Coelho prestou uma excelente publicidade e incentivo às manifestações agendadas para amanhã em vários pontos do país.

publicado por mparaujo às 23:14

01
Set 12

Antes de mais, para que conste como declaração de interesse, tenho amigos, conhecidos e referências na RTP, na SIC ou na TVI, nomeadamente no que respeita a jornalistas (mas não só). Não importa sequer discutir qualidade e profissionalismo, porque, como em todas as profissões e empresas, há bons, menos bons e maus profissionais (seja qual for a área). Sobre isso, não vejo que haja uma televisão melhor que a outra, uma rádio melhor que a outra ou um jornal melhor que outro (excluindo as devidas excepções).

E antes de tecer qualquer comentário, importa dizer que acho que houve, como muita gente o referiu, uma histeria colectiva sobre o caso RTP, a partir das declarações do consultor/assessor governativo, António Borges, em entrevista à TVI. Não me refiro aos profissionais da RTP que, como é natural, sentiram a “casa” que é deles e feita por eles a ser “assaltada” (embora entenda que em determinados momentos e em alguns espaços de discussão, tenha faltado alguma serenidade e discernimento). Mas, por exemplo, parece-me esquisito que de repente seja imenso o número de “adeptos” da RTP2 (provavelmente o canal TV mais “visto” na última semana) mesmo que a maioria não saiba o que é o Hoje, a Sociedade Civil, a Justiça Cega, a Janela Indiscreta, o Diário da Câmara Clara, o Parlamento ou até mesmo a Fé dos Homens, entre outros.

Mas vamos ao que importa. A primeira análise (de três, sendo a última guardada para o fim) centra-se no ponto de vista político. Não são inocentes as declarações de António Borges a Judite de Sousa, na TVI. Primeiro porque ele não falou a nível pessoal. Falou na qualidade de assessor/consultor do governo para a área das privatizações e com óbvia cobertura do ministro Miguel Relvas. E porquê o modelo de concessão da RTP1 e o encerramento da RTP2? Porque, ao contrário do que ainda hoje refere Passos Coelho, quando diz que nada está definido e que todos os cenários são possíveis, este é, ou era, o modelo que melhor encaixava nas perspectivas do Governo (podendo deixar de ser por força do ruído inesperado). A ideia foi, claramente, tentar sentir o pulsar das reacções públicas e do mercado a esse modelo. Só que o governo nunca esperou uma reacção crítica tão grande, principalmente pela posição do CDS. Puro amadorismo governativo ao não serem acautelados quaisquer tipo de riscos e consequências, nomeadamente para a própria imagem do governo que não discutiu a questão nos espaços próprios e devidos (coligação governativa, parlamento, administração da RTP, presidência da república). Daí que enviar um “ventrículo” a terreiro facilita sempre o sacudir da água do capote se necessário inverter as posições. Por mais que se saiba que a divulgação da concessão da RTP1 e do encerramento da RTP2 (mesmo sem se saber o que aconteceria à RTP inf, à RDP ou à Lusa) foi feita com a cobertura governativa, ela não o foi do ponto de vista formal e institucional. António Borges foi o chamado “testa de ferro”.

Por outro lado, não são coincidências de mero agendamento informativo o facto das declarações de António Borges surgirem logo após a notícia publicada pelo jornal SOL, curiosamente um órgão de comunicação social que é propriedade de um dos grupos que se perfilam para “atacar” o canal público de televisão (Newshold, grupo angolano constituído pela Pineview Overseas e pela TWK). Importa ainda destacar, como bem referiu a Estrela Serrano, que a notícia publicada no jornal SOL é assinada por um elemento do conselho de administração do jornal. Coisa rara e que só realça a importância do facto.
Mas não só… (segunda análise política) Durante mais de uma semana o país desviou a sua atenção de um dos mais graves problemas reais: a derrapagem do défice das contas públicas para valores próximos dos 6,9%, neste primeiro semestre e logo em altura da 5ª avaliação da Troika. Tal como no défice e na crise o governo voltou a falhar redondamente. Assim como, do ponto de vista comunicacional e de gestão.

Concessionar um canal e fechar outro deixa o governo perfeitamente vulnerável a questões legais, bem como a uma derrota política já que o programa eleitoral previa a manutenção de um dos canais. Assim como não entendo porquê encerrar a RTP2. Aquando da renovação e reestruturação da RTP N (RTP Info) defendi que deveria haver uma fusão dos recursos e da oferta, criando uma estrutura sólida, distinta de outros canais (SIC notícias ou TVI24), apresentando-se como um canal verdadeiramente alternativo, ganhando posição concorrencial no mercado fruto do uso de canal aberto RTP2 (emitido também através do cabo). E estariam criadas condições para o garante de um canal público e a sustentação de um serviço público, E aqui reside outra realidade. É que o problema da televisão pública não passa, essencialmente, pela questão dos gastos, despesas, custos. Nem vou perder muito tempo a questionar esta situação até porque, nesta temática, há números para todos os gostos. Sem no entanto deixar de relevar uma realidade: estamos a falar de uma entidade pública, dentro de um universo estatal, com todos os riscos comparativos, seja a nível da própria estrutura, seja a nível dos seus quadros.

O que falta é uma definição clara, consistente e coerente sobre o que deve ser o serviço público (já que o último estudo terminou desastrosamente numa gaveta, provavelmente ainda bem) mesmo que se conheçam alguns dos seus princípios fundamentais: maioria de capital público (o que não acontecerá na concessão); financiamento directo pelos cidadãos/imposto; isenção em relação ao poder político e económico (aliás como deve ser o jornalismo) embora esta realidade, hoje em dia, seja totalmente desrespeitada; a existência de um órgão fiscalizador da sua actividade; entre outros. E penso que, a par com algumas reformas de gestão necessárias para corrigir erros que existem, passaria por aqui a consolidação do futuro do grupo RTP e a sua permanência como canal público. Até nem seria muita a exigência porque, excluindo uma ou outra situação (muito poucas, diga-se) a RTP não se assemelha (programação e informação) aos canais privados. Mas também aqui é importante que paremos para reflectir com alguma serenidade: serviço público não é só informação, com os riscos óbvios de não se agradar, simultaneamente, a gregos e a troianos. Mas tal como referi aqui, a propósito do valor da cultura, também cabe referir que não concebo um preço, um valor comercial, para toda a história, identidade, património e percurso do serviço prestado pela RTP, desde a sua origem até aos dias de hoje.

Por último, entendo que tem havido muito ruído em torno desta questão da RTP que, diga-se, nem é nova. E a este respeito, acho que o Sindicato dos Jornalistas tem sabido ser mais assertivo e consistente do que a plataforma sindical da RTP ou, por exemplo, a comunidade de jornalistas. É extremamente fácil e tentador disparar contra tudo e contra todos. Assim como é muito fácil perder a serenidade, a coerência, a lucidez, e consequentemente perder-se a razão e dar força ao “outro lado”. A constante presença no palco mediático da “rua” expõe em demasia e está muito mais vulnerável a críticas e animosidades. Além disso, numa altura em que os profissionais da RTP (e agora refiro-me aos jornalistas, sem qualquer tipo de desconsideração ou desrespeito pelos outros sectores, apenas para contextualizar) estão sujeitos a uma grande pressão, a um sentimento de desilusão e apreensão em relação ao futuro, exigia-se muito mais consideração, respeito e corporativismo por parte dos colegas jornalistas dos outros órgãos de comunicação (como exemplos: Sol, Correio da Manhã, Mário Crespo) até porque ninguém está livre de lhe acontecer o mesmo. E é tão notória a inveja, a cobiça e o ressabiamento de alguns, felizmente não muitos.

A terminar tal como começado (a terceira análise política). Tinha aqui defendido a posição pública da Administração da RTP e a sua continuidade, com as razões e fundamentações descritas. Entendo que a apresentação da demissão só vem reforçar a intenção inicial do governo. Provocar alterações na administração da RTP para ser mais fácil atingir os objectivos delineados pelo governo para o futuro do canal público e respectivo grupo. E conseguiu-o. E para além de deixar caminho aberto a Passos Coelho e Miguel Relvas, o agora demissionário conselho de administração deixou mais vulneráveis, mais isolados e abandonados as direcções, chefias e os profissionais da RTP.

Resta-me a solidariedade e respeito para com todos, porque para com os amigos é escusado sublinhar.

publicado por mparaujo às 23:43

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