Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

09
Out 14

Seguro - olhar direito.jpgAntónio José Seguro já tinha anunciado no início do processo das primárias que se demitiria das funções de secretário-geral do Partido Socialista caso perdesse essas eleições.

Perdeu e cumpriu a “promessa”, apesar das primárias servirem para a escolha, pelos simpatizantes e militantes socialistas, do seu candidato a primeiro-ministro nas eleições de 2015.

Simultaneamente, e pelo facto da função ter uma relação e ligação directa com o secretário-geral do partido, o líder da bancada parlamentar socialista, Alberto Martins, apoiante incondicional de António José Seguro, apresentou igualmente a sua demissão do cargo.

Ainda no seguimento do resultado das primárias do passado 28 de setembro, António José Seguro renunciou igualmente ao cargo de Conselheiro de Estado, função que desempenhou por nomeação/eleição pela Assembleia da República.

Mas as primárias do PS fizeram ainda mais mossa na então estrutura socialista. Marcos Sá, dirigente nacional do PS, escolhido por Seguro (de quem foi apoiante) para dirigir o jornal oficial do partido (“Acção Socialista”) apresentou igualmente a sua demissão das funções que desempenhava.

Mas a surpresa (ou não) estava para chegar. António José Seguro abandona também a sua condição de deputado na Assembleia da República (regressa ao ensino superior) e torna-se apenas militante socialista de base, deixando ainda a nota de não ter qualquer intenção de se envolver no próximo Congresso Nacional onde deverá ser aclamado António Costa como novo secretário-geral do PS.

É claro que a decisão tomada pelo ex-líder socialista, nomeadamente a renúncia ao cargo de secretário-geral e à de deputado, são de significativa nobreza e dignidade políticas. No entanto, reconheça-se que o registo político dos últimos três anos de António José Seguro fica demasiado sombrio, vazio e irrelevante: três anos de “abstenção violenta” enquanto oposição sabem a pouco; três anos sem conseguir marcar a diferença e assumir o PS como alternativa governativa, tal como sempre espelharam as sondagens e as próprias eleições (por exemplo, as europeias); três anos em que não conseguiu consolidar uma liderança interna forte e consistente, permitindo o crescer de uma oposição e de uma alternativa; três anos políticos (pelo menos os dois últimos) em que Seguro não conseguiu internamente fazer esquecer a liderança forte, histórica, e marcante de Sócrates enquanto secretário-geral do PS; três anos políticos que culminaram numa estratégia política errada e que se revelou mordaz, ao implementar um instrumento democrático apenas como recurso para “salvar” uma liderança frágil (provavelmente, sem as primárias, apenas com directas, poderia ter “salvado” a liderança). A tudo isto acresce um resultado de todo inesperado nas primárias, até pelo próprio, mesmo que a vitória pudesse ser questionável: pouco mais de um terço dos votos, numa relação esmagadora.

O epílogo é evidente: terminou um ciclo político de liderança que não fará história no país, no partido e a nível pessoal.

Como nos filmes… “The End”.

publicado por mparaujo às 11:57

28
Set 14
http://img.rtp.pt/icm/noticias/docs/7d/7d0059c5637eaaf95d48771158f91c73_80fdd02e912d9343026b42793bcce2e4.jpg

Isto, obviamente, para além de já se saber que António Costa foi o escolhido pelos militantes e simpatizantes socialistas para se candidatar, como primeiro-ministro, às próximas legislativas (2015).

Mas o processo eleitoral de hoje, nas hostes socialistas, tem outros resultados.

1. O processo das primárias, que pretendia ser inovador e aproximar a política/políticos dos eleitores, foi algo irreflectido, inconsequente, implementado em cima do joelho, e com objectivo de dar resposta política a um problema de autoridade e liderança de António José Seguro. Sim, porque o que esteve sempre em cima da mesa, neste processo, foi o reconhecimento interno de uma liderança de três anos sem capcidade de criar e se apresentar aos portugueses como alternativa governativa.

Seguro apostou e perdeu. Fica a primeira questão: Seguro poderia ter mantido a liderança socialista sem primárias (apenas com directas e congresso)?

2. Com a derrota e o consequente anúncio público de demissão do cargo de secretário-geral do PS, o partido vê-se a braços com a necessidade de uma reformulação do seu calendário político: a realização de directas para a escolha de um novo secretário-geral. É que a escolha que os socialistas (militantes e simpatizantes) fizeram hoje não foi a do líder do partido, mas sim a de um candidato a primeiro-ministro. Num sistema político como o dos partidos portugueses, em que a personalização do poder é demasiado elevada, por si só, a realidade criada no PS com estas primárias levanta um sério conjunto de interrogações.

3. Como será o “day after” socialista tendo em conta que o próximo líder socialista (secretário-geral do PS) pode vir a ser alguém da ala Seguro?

4. Que consistência e solidez política terá agora o PS, maior partido da oposição, tendo em conta que o actual líder da bancada parlamentar foi escolhido por António José Seguro?

5. O que se espera de uma oposição ao actual Governo quando o candidato a primeiro-ministro não é o secretário-geral do partido da oposição, não tem assento na Assembleia da República (palco principal do debate político) e tem um grupo parlamentar dividido?

Este é que é o verdadeiro resultado das eleições primárias no PS.

Uma serie de interrogações relevantes a ter em conta para o futuro e, no imediato, para as legislativas de 2015.

Pedro Passos Coelho, o Governo e o PSD agradecem…

publicado por mparaujo às 23:06

24
Set 14

publicado na edição de hoje, 24 de setembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

A “americanização” eleitoral socialista

No arranque da última semana antes do dia “D” socialista, António Costa afirmou que «as primárias no PS são uma questão nacional». Sobre esta convicção importa agora reflectir sobre este processo “nacional” das primárias socialistas (mesmo que a elaboração deste texto, por razões temporais, não possa espelhar o último frente-a-frente televisivo).

Tenderei, numa primeira fase, a concordar com António Costa. De facto, na génese de todo este processo interno no PS estava, no horizonte dos socialistas, as eleições legislativas de 2015 e uma eventual vitória, face ao que era, à data, a governação de Passos Coelho. Assim sendo, o resultado do confronto político pela cadeira do poder no Largo do Rato teria impacto directo na escolha dos portugueses nas legislativas do próximo ano e, obviamente, na próxima governação do país. Até os próprios slogans de campanha escolhidos pelos dois candidatos reflectem esse “desígnio” nacional destas primárias socialistas: “Mobilizar Portugal” de António Costa vs “Pela Mudança - Avançamos Juntos” de António José Seguro (sendo que, no caso de Seguro, entende-se “pela mudança” em relação ao país, já que internamente seria, obviamente, “pela continuidade”). Aliás, mais não seria necessário para sublinhar esta “questão nacional” do que a inovação política da realização de primárias abertas a simpatizantes e militantes do partido (independentemente das confusões processuais que envolveram a elaboração de algumas listas).

Só que esta projecção “nacional” deste inovador processo eleitoral no PS conflituou com uma realidade de campanha bem diferente, colocando em dúvida o interesse dos portugueses neste processo e, eventualmente, a própria participação e afluência eleitoral (no próximo domingo, dia 28 de setembro) dos simpatizantes e militantes inscritos (150 mil simpatizantes e 90 mil militantes, num total de 240 mil eleitores).

Tudo começou pelo timing escolhido por António Costa para provocar uma crise interna e o respectivo processo eleitoral, bem como a incapacidade de António José Seguro em aceitar que as lideranças são passíveis de crítica e de oposição (tal como acontece internamente em relação ao PSD e ao Governo) e nos fracassos eleitorais (apesar das vitórias, as chamadas “vitórias de Pirro”) que não projectaram o PS em termos de sondagens. “Traição política”, expressão usada ferozmente por Seguro em relação a Costa, não é o mesmo que o legítimo direito democrático da crítica e da oposição aberta e livre. Aliás, algo que Seguro saberá muito bem se nos recordarmos do que poderá ter sido a sua posição de bastidores nos últimos meses da governação de Sócrates.

Seguiu-se o posicionamento (e a divisão) interno das tendências socialistas com uma clara e preocupante incapacidade de se alhearem dum passado recente. A facção Seguro com claro afastamento em relação à governação de Sócrates e a tentativa de colagem do ex-primeiro ministro à facção Costa, tentando com isso valorizar um impacto negativo do autarca lisboeta numa futura governação. O que revela que no PS, muito mais do que na oposição, há um estigma muito forte para resolver chamado José Sócrates.

Por último, sendo estas eleições apelidadas por António Costa de “questão nacional”, esperar-se-ia uma campanha que mobilizasse e juntasse os portugueses (independentemente das questões ideológicas ou partidárias), que demonstrasse uma alternativa credível à actual governação e à actual coligação PSD-CDS.

O que se constatou, diariamente e com excessiva mediatização (o que levou a um cansaço e a uma saturação da opinião pública), foi tudo menos posições esclarecedoras e elucidativas quanto ao futuro do país. As posições públicas alternaram entre os ataques pessoais, a desvalorização do papel e imagem do adversário, as medidas populistas (redução de deputados, baixa de impostos, aumento do salário mínimo, etc.) e a não apresentação de projectos, propostas, programas para o futuro do país e uma eventual governação. É certo que, no caso de António Costa, o mesmo afirmou que existem três momentos distintos: as primárias, o congresso e a campanha eleitoral legislativa. Isto seria o mais óbvio se não tivesse sido o próprio António Costa a adjectivar as primárias como um desígnio nacional. Assim sendo, como podem os portugueses associarem-se a esta “dimensão nacional” se nada lhes foi apresentado como alternativa futura ao actual estado do país e da nação, para além de meses de quezílias políticas domésticas?

Como alguns amigos socialistas me diziam: “assim não vamos lá”. Como resultado prático de toda esta realidade (acusação, aliás, feita pelo próprio Seguro a Costa) quem ficará a ganhar será o PSD de Pedro Passos Coelho. Quanto ao país… restam-me muitas dúvidas. Nem foi “Mobilizado”, nem se sente motivado “Pela mudança”.

publicado por mparaujo às 09:59

23
Set 14

Antecipando a reflexão sobre as primárias no PS, a publicar na edição de amanhã do Diário de Aveiro, importa destacar o que tem sido o caudal de comentários nas redes sociais.

O desnorte socialista e a péssima imagem pública do que tem sido esta campanha interna para a liderança do PS que curiosamente, quer Seguro, quer Costa, projectaram como "questão nacional" ao sublinharem as primárias como a escolha, não do líder socialista, mas do futuro primeiro-ministro de Portugal, chegaram a um extremo e a um desrespeito político (para não dizer mesmo "desonestidade política) inacreditável.

Desde vídeos de reportagens de 2012 de obras em Lisboa e de António Costa (onde surgem títulos como "António Costa, o Sr. 'sarjeta') até à transposição das cheias em Lisboa, e daquilo que é (ou deveria ser) a gestão autárquica, tudo serve e vale para desvalorizar a imagem política de António Costa nestas primárias.

O que, por si só, demonstra claramente o que será o futuro do PS após estas inovadoras eleições primárias.

Com chuva ou com sol... será sempre uma tempestade que pairará, nos próximos tempos, no Largo do Rato.

O país dispensava... já nos chega o dilúvio que tem assolado este mês de setembro.

(créditos da foto: retirada do blogue "Epa cum catano")

publicado por mparaujo às 14:08

13
Ago 14

publicado na edição de hoje, 13 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

O defraudar político

É geneticamente uma realidade portuguesa, não tenhamos dúvidas. Injustamente, os portugueses facilmente incorrem na crítica fácil aos políticos, aos partidos políticos, à democracia, às instituições, ao sistema. Porque são isto, são aquilo, não servem para nada, não fazem nada, só estorvam, têm uma péssima imagem e credibilidade. E quando se está do outro lado da barricada, do lado de “fora”, muito mais fácil se assume o tom crítico. Mas não há um fundo de verdade nas críticas? Há. Sejamos honestos. Em muitas ocasiões, é a própria realidade política (os partidos, os político, etc.) que fomenta essa imagem. Basta ver o que se passa com a actual disputa pela cadeira do poder socialista que provoca um impacto inverso ao esperado: em duas recentes sondagens apresentada este fim-de-semana a coligação governamental PSD/CDS obtêm mais 2,7% da preferência do eleitorado que o PS (34,8% contra 32,1%) na sondagem apresentada pelo Expresso (Eurosondagem) e mais 5% de diferença para os socialistas, na sondagem apresentada pelo Jornal I/Pitagórica (35% PSD/CDS e 30% PS).

Mas se há algum fundamento na imagem que os portugueses têm dos políticos e do sistema partidário, também não deixa de ser verdade que está na génese da identidade nacional a capacidade de alterarmos as nossas concepções em função da nossa posição. A notícia teve honras de destaque no Jornal de Notícias da passada semana, prontamente replicado pela comunicação social. Dois títulos mereceram destaque: "Marinho e Pinto vai abandonar Parlamento Europeu” e “Sete dias bastaram para Marinho e Pinto regressar a casa” (se bem que o regresso está agendado para daqui a um ano).

Segundo ao antigo Bastonário da Ordem dos Advogados, eleito eurodeputado nas últimas eleições europeias pelo Movimento Partido da Terra, com uns surpreendentes (embora questionáveis) 7% dos votos (o que levou, inclusive, à eleição de um segundo eurodeputado), as razões são essencialmente três (pelo que refere nas suas declarações à imprensa): a desilusão face ao projecto europeu: "o elemento agregador da Europa não está nos ideais nem nas políticas, mas no dinheiro". Ora bem... em que planeta vivia Marinho e Pinto quando se candidatou ao Parlamento Europeu? Sendo candidato em Portugal, por um partido português, numa altura em que o país ainda estava sob o programa de ajustamento (Troika), Marinho e Pinto acreditava mesmo que a economia tinha um papel secundário nos actuais destinos do mundo?; a questão salarial: "o rendimento auferido pelos eurodeputados, que pode chegar aos 17 mil euros/mês, é vergonhoso". Tapar o sol com a peneira ou tratar os portugueses por parvos é que não. Há, em Portugal, valores salariais (excepções, mas há) muito superiores a 17 mil euros. Por outro lado, tratando-se do Parlamento Europeu onde se encontram eurodeputados de 28 países, onde nalguns deles o salário mínimo nacional é 4 ou 5 vezes maior do que o de Portugal, não se percebe a vergonha (ou até mesmo a obscenidade) do valor auferido por um eurodeputado. O problema não está na vergonha dos 17 mil euros/mês... a vergonha está no valor médio de 800 euros dos salários em Portugal. Além disso, este valor é por demais sabido e público, até para o politicamente mais "comum" e "distraído" do cidadão. Marinho e Pinto já o sabia na altura das eleições. Pior… apesar do valor vergonhosamente alto do salário de um eurodeputado, Marinho e Pinto não abdica dele, pelo menos, durante ano com a ‘desculpa’ de que “precisa de dinheiro para viver”. Também milhares e portugueses; a realidade nacional: o quase futuro ex-eurodeputado afirma que projecta uma candidatura presidencial por entender que "os problemas nacionais são mais graves do que os europeus". Que a realidade nacional é o que é, está enferma e não tem sido fácil viver cá e aguentar toda esta crise, é um facto. Mas é a realidade que Marinho e Pinto poderia constatar no dia-a-dia dos portugueses na altura da campanha eleitoral. Porque é que avançou e não se afirmou antes como futuro candidato presidencial?

Do ponto de vista pessoal, a minha análise já tinha feito na altura da avaliação dos resultados eleitorais mas que se completa com esta notícia de hoje:

1. Marinho e Pinto não tinha nenhuma afinidade político-partidária com o partido que o elegeu (Movimento Partido da Terra). Apenas o mediatismo público.

2. No Parlamento Europeu, eurogrupo/família parlamentar “O Verdes” não o aceitou.

3. Sempre disse que era um "fiasco" em termos políticos, mesmo quando muitos vaticinaram projecções legislativas e presidenciais futuras.

Deste modo, aqueles que, pelo mediatismo do candidato ou porque quiseram demonstrar o seu descontentamento face ao sistema político e aos partidos políticos, votaram em Marinho e Pinto (e não no MPT) sentem-se hoje perfeitamente "defraudados". E sentem a política e os partidos mais distante. Com exemplos destes…

publicado por mparaujo às 10:32

23
Jun 14

Publicado na edição de ontem, 22 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Politicamente anestesiados
Há quem ache que no país, neste momento, não se passa nada. Excepção feita para o mundial de futebol no Brasil e a prestação da selecção nacional (e mais algumas surpresas), bem como para o mais que badalado braço de ferro socialista.
Alguns comentários muito circunstanciais à decisão do Tribunal Constitucional e respectivo chumbos de algumas normas do Orçamento do Estado para este ano; é indiferente aos portugueses a degradação das relações entre Governo e Tribunal Constitucional; ausência de avaliação do impacto que pode ter nos portugueses a decisão do Governo em prescindir da última tranche financeira da Troika; passaram despercebidos os dados do INE do primeiro trimestre deste ano que apontam para a estagnação da economia, a continuação da emigração e o grave problema da demografia, a revisão em baixa da criação de emprego; a criminalidade; a indiferença perante a aprovação, em Conselho de Ministros, do aumento de impostos (IVA e TSU, por exemplo) e dos cortes salariais e nas reformas para 2015; passa despercebido a negociação entre Governo e Sindicatos da Administração Pública; é letárgica a posição do Presidente da República face aos acontecimentos políticos que têm envolvido o país; entre outros.
Assim sendo, face ao alheamento dos portugueses em relação à realidade, o país vive alienado e anestesiado com o Mundial de Futebol e a política interna no PS, saltitando entre a cabeçada do Pepe e a lesão do Cristiano Ronaldo, e a troca de “galhardetes” entre António José Seguro e António Costa. E nem os santos populares provocam qualquer desvio da agenda mediática.
No caso concreto de toda esta conflitualidade política do Partido Socialista, que tem ultrapassado o que seria a normal vivência exclusivamente interna do partido, tem tido o condão de produzir dois resultados simultâneos mas distintos, para além de se poder tornar num verdadeiro case study da ciência política moderna. Primeiro porque todo o combate interno surge após duas vitórias eleitorais muito próximas no tempo: autárquicas em Setembro de 2013 e europeias em maio de 2014. Segundo, pelo timing da disputa do poder socialista, que é óbvio para António Costa face à eventualidade de se fechar, nos próximos quatro a cinco anos, um ciclo político com eventual vitória legislativa de António José Seguro e uma mais que provável candidatura de António Guterres a Belém, mas que é vista como uma desmedida sede de poder face a uma provável vitória do PS nas legislativas de 2015. Terceiro, a facilidade com que se faz desmoronar toda uma alternativa e uma consolidação partidária. Os portugueses deixaram de confiar e acreditar neste PS, deixando no horizonte a possibilidade da coligação vir a ganhar novo fôlego para as eleições de 2015 e, eventualmente, renovar o mandato. Os próprios socialistas deixaram de acreditar no seu partido: fracturaram-no, descredibilizaram-no, trouxeram para a “praça pública” (o pior dos palcos políticos) o que deveria ter sido tratado entre “portas”, desnortearam-se entre acusações e estatutos, entre primárias e congressos. E o estado descontrolado e desorientado em que os socialistas vivem é tão evidente que há posições públicas de verdadeiro desespero de causas. Mário Soares garante a “pés juntos” que com António Costa nunca haverá entendimento com a direita, quando a percepção política pública surge no sentido contrário; recentemente surgiu mais um conflito público entre a direcção do partido e um conjunto de deputados socialistas da Assembleia da República que se posicionaram a favor de António Costa; também Aveiro não é excepção, sendo conhecidos as posições antagónicas entre Águeda e Estarreja (apoiantes de Seguro) e Aveiro e a Distrital (apoiantes de Costa); e, por fim, o desnorte é tal que a realidade ultrapassa o conflito entre António José Seguro e António Costa, com a deputada Isabel Moreira a afirmar que ninguém verdadeiramente de esquerda poderá apoiar uma candidatura de Guterres a Belém.
Uma coisa é certa… a cabeçada de Pepe estragou o jogo a Portugal. Toda esta guerra socialista estraga o partido e o país que vai adormecendo ao som desta novela, esquecendo-se da verdadeira realidade que os portugueses vivem.

publicado por mparaujo às 09:26

04
Jun 14

Publicado na edição de hoje, 4 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
A guerra dos Antónios
Não é inédito este confronto entre António José Seguro e António Costa. Aliás, é resultado das eleições de 2011 e tem sabido fazer as delícias informativas (entenda-se o trabalho "spin") da imprensa nacional. Quando se esperava que os últimos resultados das eleições europeias trouxessem alguma instabilidade na coligação governativa, eis que a surpresa surge do lado do Largo do Rato (PS) para grande espanto de muitos e sem deixar sequer arrefecer as emoções eleitorais. É certo que apenas António José Seguro e a sua faixa de apoiantes viram, nos resultados eleitorais do dia 25 de maio, motivos para grandes festejos e sustentação política para discursos de mudança. A derrota do PSD/CDS não foi histórica (apesar da queda), nem a vitória socialista expressiva, distante e esmagadora. É verdade que António José Seguro não tem tido a capacidade e a liderança necessárias para capitalizar em votos uma alternativa capaz ao actual estado das coisas e ao actual Governo. Mesmo com a expressividade dos resultados das eleições autárquicas há também aí uma responsabilidade repartida pela má gestão interna do PSD no processo das escolhas dos candidatos originando um excessivo número de candidaturas independentes, muitas com vitórias conseguidas. E embora seja, no curto espaço de três anos, mais uma tentativa falhada de António Costa subir ao trono socialista (facto ao qual não será alheia uma eventual candidatura de Guterres à Presidência da República, condicionando o espaço político de Costa) a verdade é que António José Seguro, no mesmo espaço de tempo, não conseguiu conquistar eleitorado, apoios e, mais relevante, não conseguiu afirmar o PS (e afirmar-se a si enquanto líder) como alternativa capaz ao Governo e ao PSD. Aliás, algo que uma sondagem projectada pela Intercampus para a TVI ainda no rescaldo eleitoral europeu mostravam que o PS teria uma margem inferior a 1% de vantagem sobre o PSD, caso houvesse eleições legislativas no imediato.
António José Seguro em condições normais só será substituído em 2016, muito após os últimos actos eleitorais próximos (2015 - legislativas e presidenciais). E aqui começa o “assalto” ao poder no Largo do Rato. E mais do que a disputa pela liderança começam a surgir as manobras de bastidores que condicionam e determinam os processos do confronto interno.
Em 2013, antes das eleições autárquicas de setembro passado, numa sondagem direccionada ao Partido Socialista e divulgada pelo jornal Expresso, 50,4% dos inquiridos achava que António Costa devia, na altura, candidatar-se à liderança socialista, recolheria 49,5% dos votos caso avançasse (como esteve quase a acontecer) e seria visto como o melhor candidato para derrotar Passos Coelho (em eleições legislativas) por 49,3% dos socialistas. Valores, aliás, muito constantes, coerentes, regulares e expressivos, e muito próximos da maioria. Mas na altura, após alguns encontros internos, a decisão recaiu sobre o abandono da candidatura de Costa, tendo Seguro conquistado um expressivo resultado eleitoral nas autárquicas de setembro de 2013, alguns meses depois da crise. Só que este retomar da crise interna não é um “déjà vú”, mesmo que o resultado possa ser, na prática, o mesmo: Seguro manter a liderança do PS.
A verdade é que tudo indica para, desta vez, um confronto claro, um contar de armas e de posições (votos), ou seja, o avanço concreto e real da disputa da liderança por parte de António Costa. E, desta vez, Seguro afigura-se mais isolado, ao ponto de se sentir “ameaçado”, andar nervoso, pouco claro e lúcido em relação aos processos eleitorais internos (a dos simpatizantes poderem votar em primárias afigura-se algo surreal), mesmo com as peripécias que tem surgido em torno dos apoios a António Costa (como a contradição de discurso de José Sócrates, a reviravolta de Assis que em 2013 apoiava Costa, blogue de apoio ao ainda autarca de Lisboa que surge publicamente, depois “apaga-se” e ressurge limitado e condicionado, etc). Mas é um facto que, assim tudo o indica, António Costa irá a jogo e que António José Seguro terá muito caminho a percorrer e muito suor a verter para manter uma debilitada liderança partidária que, diga-se em abono da verdade, nunca foi carismática, consensual e forte. Mesmo que, mais que os estatutos, o tempo jogue a favor de António José Seguro já que uma situação definitiva só será alcançada, muito provavelmente, em cima do processo eleitoral de 2015.
Para já, no meio do turbilhão rosa vai sobrando espaço para o Governo, para os portugueses esquecerem o impacto imediato e futuro de mais três chumbos do Tribunal Constitucional (deste vez sem unanimidade interna e com reservas à sua decisão/acórdão) e para o PCP, este o claro vencedor das europeias de maio, ir capitalizando o seu eleitorado e a esquerda (com o afundamento do BE).
A gasolina está derramada, basta chegar o fósforo. Venha é o Verão…

publicado por mparaujo às 09:23

27
Mai 14

Não é inédito este confronto entre António José Seguro e António Costa. Aliás, é resultado da eleições de 2011 e os constantes ataques internos à liderança de Seguro por parte da facção de Costa e de José Sócrates, sempre nos momentos altos da política nacional, independentemente se em eleições e indiferente aos resultados obtidos. E tem sabido fazer as delícias informativas (entenda-se o trabalho "spin") da imprensa nacional, desde o Expresso ao Público, passando pelo recém criado Observador, bem como pelos canais da televisão. Embora, ao contrário do que indica o título do jornal Público, António Costa não avança para a liderança, até porque isso é complexo do ponto de vista estatutário, mas sim mostra-se disponível para avançar, o que é bem diferente.

Quando se esperava que os resultados eleitorais do passado domingo trouxessem alguma instabilidade na coligação governativa, eis que a surpresa surge, mais um vez, do lado do Largo do Rato (PS). Sem qualquer sentido, sem deixar sequer arrefecer as emoções eleitorais.

É certo que apenas António José Seguro e a sua faixa de apoiantes viram, nos resultados eleitorais de domingo, motivos para grandes festejos e sustentação política para discursos de mudança. A derrota do PSD/CDS não foi histórica, nem a vitória socialista expressiva, distante e esmagadora.

É verdade que António José Seguro não tem tido a capacidade e a liderança necessárias para capitalizar em votos uma alternativa capaz ao actual estado das coisas e ao actual Governo. Mesmo com a expressividade dos resultados das eleições autárquicas, há também aí uma responsabilidade repartida pela má gestão interna do PSD no processo das escolhas dos candidatos originando um excessivo número de candidaturas independentes, muitas com vitórias conseguidas.

Mas é um facto que Seguro é o actual líder socialista, que em condições normais só será substituído em 2016, muito após os últimos actos eleitorais próximos (2015 - legislativas e presidenciais). E não serão sondagens realizadas em cima de actos eleitorais que têm qualquer expressividade e impacto em 2015.

Por outro lado, é ainda uma realidade que a oposição interna a Seguro parece querer esquecer e esconder. Grande parte da lista às eleições europeias do passado dia 25 era formada por candidatos "rotulados" como oposição à liderança de António José Seguro (a chamada facção Costa e socrática). Isto significa que as vozes que se ergueram, mais uma vez, contra Seguro (Manuel Alegre, Mário Soares, Isabel Moreira, João Galamba, etc.) e que voltaram a acenar com o fantasma da conquista da liderança pelo novo "D. Sebastião" socialista, António Costa, não assumem a responsabilidade própria no falhanço dos resultados eleitorais (apesar da vitória relativa).

E para o Governo, para o PSD e CDS, e até mesmo para partidos à esquerda do PS, como o BE e o PCP, nada melhor para respirarem de alívio e ganharem novos fôlegos que mais esta tentativa de liquidação da liderança socialista.

No fundo, temos mais um déjà vú, mais um folhetim da vida interna do PS, no ressuscitar de novas guerrilhas pela cadeira da liderança do partido, mas sem qualquer tipo de consequências práticas, como têm demonstrado os congressos e os conselhos nacionais.

Aliás, é interessante recordar estes dados divulgados pelo expresso, em fevereiro de 2013, em plena preparação das eleições autárquicas que o PS, com António José Seguro na liderança, ganhou, em setembro de 2013, de forma expressiva e clara.

António Costa é o melhor para liderar o PS

Com amigos assim, os restantes partidos (do governo ou não) nem precisam de se preocupar com o trabalho de oposição.

A gasolina está derramada, basta chegar o fósforo.

publicado por mparaujo às 15:30

26
Mar 14

O título poderia ter um significativo número diferenciado de expressões. Por exemplo, "como perder as eleições numa só noite"; "a ingratidão política"; "do mérito à prateleira"; "as incoerências de Seguro"; "o peso da oposição socialista"; etc.

A pré-campanha eleitoral para as eleições europeias do próximo 25 de maio não me parece ter merecido, por parte do PS e, nomeadamente, de António José Seguro, uma especial e cuidada atenção. Mesmo que, como aqui o disse, entenda que este processo eleitoral em causa é, contextualmente, europeu (e deve ser pautado por isso), é evidente que a tendência de voto possa expressar o descontentamento dos eleitores em relação à coligação que governa o país. Não aproveitar esse facto é de uma incoerência e imaturidade política relevante. Aliás, algo que o próprio governo tem acautelado ao projectar o anúncio da saída do processo de ajuda externa apenas após as eleições. "Quem tem cu tem medo", lá diz o ditado.

Isto a propósito da elaboração, ontem, da lista dos candidatos socialistas a eurodeputados. Segundo a Comissão Política Nacional do PS em cima da mesa estiveram três critérios de selecção: renovação, qualidade e competências específicas em dossiês fundamentais para Portugal. Não se sabendo se os critérios são cumulativos ou independentes. Quanto à "renovação" tenho sempre a referência desportiva (não apenas futebolística) de que "em equipa vencedora não se mexe". Renovar apenas por um mero critério de "tempo" parece-me do mais redutor que possa existir. Aliás, para muitos dos cidadãos este aspecto da renovação, normalmente, está associado a um "encostar à prateleira", afastar geograficamente, para não ser embaraço político interno. E são tantos os casos que poderíamos usar para ilustrar tal realidade. Incomoda, é oposição interna, afasta-se para a Europa ou para uma outra qualquer instituição fora do país.

O que, mesmo que não tenha sido esse o critério, não andará muito longe da imagem deixada por António José Seguro ao anunciar o cabaça-de-lista socialista às europeias. Conhecidas as movimentações do PSD para as eleições europeias, foi notória a pressão interna que Seguro sofreu pelo impasse que estava a parecer preocupante em relação ao processo socialista. Uma das vozes do descontentamento, a par da de António Costa, foi a de Francisco Assis, aliás adversário interno de António José Seguro. Resultado: precipitação clara na forma como foi anunciado publicamente o cabeça-de-lista (em simultâneo com o congresso social-democrata) e a escolha do próprio Francisco Assis para cabeça-de-lista.

Não me vou pronunciar sobre a escolha, até porque os cenários de análise poderiam ser diversos.

Mas no entanto, a menos que haja uma qualquer razão ou um plausível motivo pessoal (que não consta publicamente e acho difícil a sua consistência e realidade) há um enorme tiro no pé na elaboração da lista socialista.

Apesar das listas serem uninominais, os portugueses votam pelo partido A, B ou C. No entanto, é mais que óbvio que a presença de personalidades de relevo, incluindo os cabeças-de-lista, facilitam o impacto eleitoral.
Se já colocaria, pessoalmente, em causa o facto de não ter sido escolhida para cabeça-de-lista, por mais razões que queiram apresentar para justificar o injustificável, é completamente inqualificável que o PS tenha deixado de fora às próximas eleições europeias a actual eurodeputada Edite Estrela. Trabalho e provas dadas não faltam. Embate político com coragem e frontalidade como muito poucos, ou raríssimos. Para além de ter sido, recentemente (2013) e pela segunda vez, nomeada a melhor eurodeputada (entre os 766 eurodeputados) para os assuntos do emprego e assuntos sociais. Se isto não tem valor, nada mais terá. Isto é de um ingratidão política que, mesmo para quem de "fora", inaceitável e incompreensível.
Isto sim... é brincar às eleições. E depois o Passos Coelho é que se está a lixar para as eleições.

publicado por mparaujo às 13:56

08
Jul 13

A questão esteve em cima da "mesa" durante esta semana em qualquer debate sobre a crise política no Governo, provocada pela "suposta" demissão de Paulo Portas (a isso regressaremos, no Diário de Aveiro, na próxima quarta-feira). Mesmo que não totalmente afastada essa questão, não me parece que Cavaco Silva saiba fazer, tão bem, um "flic-flac" à rectaguarda como Paulo Portas, embora falte a validação do "acordo do novo Governo" e o Presidente da República tenha mantido o agendamento das reuniões com os partidos políticos com assento parlamentar.

Mas o tema das eleições antecipadas foi, pela oposição, por várias vezes (quase todas) aflorado.

E muitos portugueses poderiam pensar ou desejar esta solução, nesta altura da crise que o próprio Governo criou. Mais não fosse por se sentirem completamente enganados face aos compromissos eleitorais que Passos Coelho assumiu em 2011, e que não concretizou ou aplicou. Nenhum. Antes pelo contrário...

Se a pergunta - "um português independentemente das suas opções partidárias, olha para este governo e acredita na palavra deste governo?" - que o líder do PS, António José Seguro, deixou este fim-de-semana em Vizela (durante a sessão de apresentação da recandidatura de Dinis Costa à presidência da Câmara local) parece ter uma resposta maioritariamente evidente, a verdade é que a mesma questão poderá ser devolvida ao líder dos socialistas: "será que um português, independentemente das suas opções partidárias, olha para António José Seguro e acredita nesta alternativa governativa?"

Fazendo "fé" nas palavras do líder do maior partido da oposição (a seguir a Paulo Portas) os portugueses, face às circunstâncias reais da vida, do dia-a-dia, nas famílias e nas empresas, nos apoios sociais e na responsabilização do Estado, até entendem que Seguro afirme e defenda que "que Portugal precisa de uma visão, um horizonte, uma estratégia, uma mudança". Acho que até a própria "posição" (PSD e CDS) têm isso muito presente.
Mas quando se espera que o PS clarifique e defina, concretamente e de forma não demagógica, os seus conceitos, políticas e medias, não encontramos nas palavras de António José Seguro nada de novo, nada de real, de concretizável, de alternativo: "Portugal precisa também da ajuda dos parceiros europeus para sair da crise, sendo para isso necessário ter uma voz forte na Europa. Nós já não nos bastamos a nós próprios".
Pois o problema é mesmo esse... é que os portugueses querem, o mais rapidamente possível, sair deste sufoco, deste buraco, e dependerem deles mesmos (e não, exclusivamente, da ajuda externa).

O que os portugueses (a maioria) pensam quando olham para o "lado esquerdo" e imaginam  a "alternativa" é o velho ditado: "mal por mal...".

Por outro lado, os portugueses já deixaram de ser tão "infantis" nas suas análises à agenda política. Percebem claramente que o pedido de eleições antecipadas, coincidindo com as autárquicas, nada tem de poupança de recursos, de custos, ou de tempo.
Tem exclusivamente a ver com o aproveitamento, em campanha, do desgaste do Governo para retirar daí o maior benefício em termos de votos, quer nas autárquicas, quer nas legislativas.

(créditos da foto: Rádio Renascença online)

publicado por mparaujo às 14:26

03
Abr 13

Não me parece democraticamente legítimo condicionar qualquer partido parlamentar ao direito que lhe assiste de apresentar moções, sejam elas de confiança ou de censura. Obviamente, que o instrumento regimentar (ou Constitucional – alínea e) do artigo 163º) tem um peso político relevante (independentemente de poder ter impacto directo na queda ou não dos governos, mesmo que chumbadas à partida) e não deve ser usado de forma leviana e abusiva, sob pena de desvirtuar e banalizar este “argumento” de combate político.

E este é que se tornou o principal “inimigo público” da Moção de Censura que António José Seguro apresentou, hoje (3 de março) contra o Governo de Pedro Passos Coelho. Falhou no objectivo (já que o impacto, por força do número de votos seria o esperado: chumbado, com 131 votos contra – PSD e CDS - e 97 a favor – PS, CDU e BE). É que Moção de Censura não foi eficaz no combate político, não fragilizou o Governo (aliás, na duvidosa estratégia de tentar “dividir para reinar”, tentado questionar e interpelar o papel do CDS na coligação, apenas a tornou, mesmo que aparentemente, mais consolidada), não mobilizou a esquerda (apenas no voto). Fez ricochete, virou-se o feitiço contra o feiticeiro. E a verdade está na resposta de Passos Coelho e que apenas mereceu a gargalhada de Seguro: “A Maioria está bem mais unida que o PS”.

Foram tantas as armadilhas, tanta a incapacidade argumentativa, tanta a demagogia sem apresentação de alternativas que mostrem a diferença dum projecto político que garanta algum sucesso eleitoral (imagine-se o que seria o país a cair em eleições nestas circunstâncias) e credibilidade externa, que o PS e, concretamente, António José Seguro, saíram claramente a perder a dobrar: moção chumbada e imagem política fragilizada.

Antes de analisar, brevemente, um ou outro aspecto em particular, há, inexplicavelmente (a não ser por uma questão de “trauma político”) uma aversão de António José Seguro ao passado recente da governação de José Sócrates. E seria por aqui que o líder socialista deveria ter fundamentado a sua moção. Porque politicamente é sustentável do ponto de vista argumentativo e factual. Se é verdade que foram cometidos erros na governação do período socrático (alguns mais graves que outros, para além dos aspectos positivos que o próprio Governo PSD-CDS ainda recentemente aproveitou), também não deixa de ser menos verdade os erros, demasiados, que este Governo tem cometido. Tudo isto com um transparente agravamento: o que motivou o chumbo do PEC IV, a condução do país para o inevitável recurso à Troika, as falsas (como agora se pode perfeita e historicamente demonstrar e comparar) promessas eleitorais alternativas para o país que apenas tiveram o objectivo do derrube do anterior governo para, com desmedida e encapotada ambição, ocupar a “cadeira do poder” custasse o que custasse. Tudo tinha sido mais fácil para Seguro, se não andasse tão obcecado pelo mediatismo, por forçar ser oposição apenas por ser, demagogicamente, apenas para tentar esbater a “sombra” do regresso de Sócrates à esfera e intervenção públicas. Exemplo disso é o caso hilariante, tal como ridículo, da carta à Troika (que afinal tinha ido, mas não foi, existia, mas que acabou por aparecer hoje, sem se saber se foi enviada). Ou ainda o total desnorte com o aumento das reformas mais baixas e das PPP.

Ao enveredar por este caminho, tal como em muitos pontos altos públicos, António José Seguro, com a habitual demagogia e vazio de propostas concretas, reais, compatíveis coma situação do país, concretizáveis, banalizou e perdeu uma oportunidade (mais uma) de se demarcar de tudo. Nem a capacidade de contestar a surpresa discursiva do ministro das Finanças, Vítor Gaspar quando, ao contrário do que tem sido a posição do Governo em não falar do governo de Sócrates, a menos que a isso José Seguro exija, se debruçou sobre o resultado da “década perdida” da governação anterior. Vítor Gaspar recordou que o PS esteve no Governo em grande parte dos últimos 15 anos e que, neste período, Portugal foi dos países que menos cresceu. "Não é possível negar que a estratégia do Partido Socialista falhou". Nem uma contestação.

(ver aqui, via TSF, os principais momento do debate de hoje)

publicado por mparaujo às 23:16

A Moção de Censura ao Governo, apresentada pelo PS (texto integral), ao menos por uma questão de coerência política e discursiva poderia ter servido para um total ruptura: do passado recente da governação socialista, do memorando (como o próprio afirmou, não foi por ele assinado), do governo. Mas faltou-lhe coragem… a mesma ausência de coragem para assumir que tudo podia ter sido diferente se não tivessem ocorrido as eleições de 2011 que, afinal e na prática, serviram para desiludir muitos eleitores, decepcionar os cidadãos e, conforme provam a realidade dos números, afundar ainda mais o país. Como diz o ditado “mal por mal, mais-valia não se ter mexido”. Mas também o que esperar de uma Moção de Censura ao Governo, com um país assolado de problemas e que se resume a quatro páginas? (já vi textos na Assembleia Municipal de Aveiro maiores e mais consistentes).

Só que foram tantos os erros no debate de hoje.

1. A estratégia de tentar destabilizar e criar algum mau estar, com a moção, no Governo, a partir do CDS. Logo o CDS que dificilmente sairá do Governo porque tal significa abdicar do poder (que nem o conquistou directamente por sufrágio) e sujeitar-se a mais uma travessia do deserto político nacional. Alvo totalmente errado.

2. Segundo Carlos Zorrinho, a “moção de censura contra o governo é um acto patriótico”. Tal como a abstenção em relação ao OE2012 era uma abstenção violenta. O patriotismo vê-se e demonstra-se em alternativas, em apresentar soluções para o problema… os portugueses já não conseguem sobreviver de demagogia (não alimenta o estômago, nem avia medicamentos nas farmácias). E aqui, surge a primeira armadilha política pela voz do líder da bancada social-democrata, Luís Montenegro: "Censuro, logo existe. Censuro, logo sou oposição, Censuro, logo acalmo as minhas hostes. Censuro, logo isso é bom para mim enquanto líder do PS".

3. Não basta dizer que tudo falhou, que é a austeridade pura e dura, que as previsões foram todas ao lado (algumas até para o dobro). Isso qualquer dos comuns dos mortais portugueses sente na pele e no bolso todos os dias. Era preciso demonstrar que o caminho que estava a ser anteriormente seguido (obviamente com as devidas e constantes readaptações, tal como em cada revisão da troika), afinal, era menos penoso, podia ter tido mais sucesso, sacrificava menos os portugueses e, acima de tudo, de tudo mesmo, não recorria a promessas eleitorais que, na prática, resultaram em políticas, reformas e medidas totalmente opostas ao discurso de passos Coelho em 2011, quer face ao Governo do PS, quer em plena campanha eleitoral.

4. Outro e preocupante erro estratégico do PS é não ter conseguido rebater o argumento do Governo (usado por Passos Coelho e por Portas) de que a moção, em caso de aprovação, significaria um segundo resgate externo a Portugal. Algo que o próprio governo PSD-CDS não garante, nem tem provas, de que não acabará por acontecer face ao rumo que o país leva. A menos que, finalmente, Portugal saia da zona euro. Alternativa, infelizmente, que o PS não sublinha. Ou ainda, o tal erro que revela um incompreensível “trauma político” pelo passado foi o não assumir que o PEC IV tinha a aprovação das instituições da União Europeia e que não teve consequência por força do seu chumbo e pela “birrinha institucional” de Cavaco Silva.

5. O discurso vazio, inócuo, do mais tempo, da renegociação do memorando, de outras condições, é pura demagogia. Seguro sabe bem que a sua posição perante os credores externos (troika e mercados) só teria qualquer peso se apresentasse soluções, medidas alternativas concretas. Atirar uns bitaites e no fim afirmar que honrará os compromissos, é o mesmo que perder qualquer credibilidade. O certo é que o PS ainda não encontrou capacidade de pressionar a Troika para outro tipo de condições de resgate que garantam, a quem nos emprestou o dinheiro (goste-se ou não), um conjunto de garantias de sucesso para a consolidação da dívida e das contas públicas. Por outro lado, Seguro sabe que está a dar um tiro no pé ao exigir uma renegociação profunda das condições quando não tem qualquer suporte, nem apoio, por parte da Troika.

6. Quando Seguro foi comparado com Hollande na ânsia da conquista do poder, a que poderia ser comparado Passos Coelho depois de tudo o que mentiu aos portugueses e depois de tudo o que fez, com a conivência de Cavaco Silva, para derrubar José Sócrates? Pelos visto, nada…

7. António José Seguro assumir publicamente (o tal patriotismo) a responsabilidade política de liderar um novo Governo no país, acaba por, apesar da legitimidade do “sonho”, de colocar a “cereja em cima do bolo” no desastre que foi esta Moção de Censura: o PS não tem alternativa política para se apresentar a sufrágio, os portugueses não querem, com essa realidade eleições, o país não aguenta, nesta fase, eleições. Isso é radicalismo à esquerda.

publicado por mparaujo às 23:06

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