Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

28
Out 17

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Não há região do planeta mais esquecida, mais abandonada à sorte e às sortes, mais desprotegida, com maior desrespeito pelos direitos do Homem/Mulher e das Crianças, com maior pobreza, fome, miséria, guerra e terrorismo.

Não podemos olhar apenas para o nosso umbigo e esquecermos que mesmo aqui ao lado da Europa o fundamentalismo e o radicalismo islâmico, sustentado num terrorismo cego, fazem as suas inocentes vítimas, espalham o terror e a destruição.

Basta uma mochila esquecida num banco de uma via pedonal ou numa estação de metro para toda a Europa tremer, ser capa de jornal e abertura de telejornais.

Há uma semana, em Mogadíscio, capital da Somália, alguns camiões armadilhados explodiram junto ao mercado bem no centro da cidade. Inúmeros edifícios ficaram destruídos mas, principalmente, este ataque reivindicado pela organização Al-Shebab, ligada à Al-Qaeda, é o mais devastador que há memória seja na África subsaariana ou em todo o continente.

Mais de 300 vítimas mortais e um número infindável de feridos, hospitais sobrelotados, ausência de medicamentos e de respostas médicas.

Juntem Barcelona, Paris, Londres, Madrid, Bruxelas, Berlim, Estocolmo... e não há comparação com Mogadíscio - Somália, há cerca de uma semana. Nem há comparação na desmedida e desproporcional resposta noticiosa.

Só porque África é... nem interessa onde.

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Infelizmente a comunidade internacional só olha para África pelas piores razões e por toda a exploração comercial possível. E nem sempre da melhor maneira: há precisamente sete dias a Organização Mundial da Saúde (OMS) apontava o tirano e ditador Presidente do Zimbabwe, Robert Mugabe, como Embaixador da Boa Vontade. Não fosse o coro de criticas, a pressão internacional que lembrou ao Presidente daquela organização da ONU (o ex-ministro da Saúde da vizinha Etiópia, Tedros Adhanom) as sanções vigentes por parte, por exemplo, da União Europeia, e hoje teríamos mais um país de África na linha da frente no atropelo e aniquilação dos Direitos Humanos. Felizmente, mesmo que contrariado, passados dois dias o Presidente da OMS revogou a deplorável e condenável nomeação.

(crédito da foto: Said Yusuf Warsame / EPA)

publicado por mparaujo às 14:50

21
Ago 17

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publicado excepcionalmente na edição de hoje, 21 Agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
No tenim por
(*)

Os últimos e recentes momentos são de luto, de dor e de tragédia: incêndios, devastação, mortes, ataques terroristas. Foi no Pinhal Interior, no interior centro e sul do país, na Madeira, em Barcelona e em Cambrils (acrescentando-se ainda, com contornos por clarificar à hora da escrita deste texto, o atentado em Turku, na Finlândia). No caso das Ramblas e Cambrils, a Europa volta a ser alvo de dois hediondos ataques terroristas reivindicados pelo Daesh, apesar de várias notícias recentemente difundidas que davam conta de uma eventual fragilização na liderança e nos recursos do movimento radical islâmico. No entanto, no espaço de poucas horas e de escassos quilómetros de distância, dois atentados provocam 14 mortos e mais de uma centena de feridos, duas das quais portuguesas, num total de quase 40 nacionalidades.

A Europa voltou a ser alvo do extremismo e da fúria do radicalismo islâmico assente nos três pilares dogmáticos: social, religioso e político. O transtorno da normalidade do dia-a-dia, a instalação do pânico, do medo e da insegurança, a conflitualidade e a divisão multicultural, são objectivos claros da acção das células terroristas no seio das comunidades. A negação e o combate aos valores da sociedade ocidental por oposição aos valores do Islão, são os óbvios objectivos religiosos desta jihad menor. Por último, a reacção às acções da comunidade internacional, nomeadamente no médio oriente, que têm, ao longo de décadas (para não precisarmos de recuar muito mais nas memórias da história), criado na região uma instabilidade política, social e económica completamente desastrosa, espelha o combate político.

Novamente, em plena Europa, os nossos valores, costumes, princípios e modo de vida, foram atacados “por e de dentro”, por cidadãos europeus nos seus plenos direitos de cidadania. Mas, a par com a revolta e a solidariedade inequívocas, há algumas inquietações que os factos me suscitam.

  1. Por mais discursos e momentos de solidariedade que possam exprimir a dor e a revolta, das cerca de 40 nacionalidades representadas pelas vítimas dos atentados na Catalunha quantos governos não são responsáveis pela instabilidade política, económica e social do Médio Oriente (com a Síria à cabeça, sem esquecer a “amiga” norte-americana e europeia Arábia Saudita) e no coração africano, que tem levado ao surgimento e propagação do radicalismo islâmico?
  2. O ressurgimento do populismo e xenofobismo (islamofobia). Não faltou muito, poucas horas apenas, para que se instalasse a confrontação (discursiva ou mesmo física) entre aqueles, nos quais me incluo, que defendem a integração e o multiculturalismo, que acham que o drama dos refugiados nada tem a ver, directamente, com esta realidade, que a jihad menor não é apenas executada na Europa mas sim nos próprios países muçulmanos (mas é tão fácil esquecer a Síria, África, Afeganistão, Mossul, …, só porque é lá a “terra deles”); e os que preferem erguer muros e fronteiras, barreiras sociais e físicas contra a defesa da dignidade da pessoa humana e dos seus fundamentais direitos, liberdades e garantias inerentes a cada cidadão, muito para além das fronteiras do nosso quintal, bairro, comunidade ou país. E isso é um dos principais objectivos que motivam os jahidistas.
  3. No caso concreto, alargado a todos os atentados até agora realizados, a comunidade islâmica radicada na Europa tem publicamente condenado as acções dos radicais e extremistas. Mas é importante que os responsáveis por essas comunidades passem a ser, definitivamente de uma vez por todas, parte activa no combate ao terrorismo porque é no seu seio que surgem estes mujahidin. Importa lembrar que só na Catalunha estão mais de metade das mesquitas erguidas em território espanhol, algumas centradas no islamismo mais conservador. Não basta condenarem publicamente se o seu dia-a-dia é inconsequente no que respeita ao contributo para o fim das células terroristas.
  4. Por último, é inequivocamente louvável a forma como as comunidades que sofrem os atentados reagem, positivamente (mesmo com a dor e a revolta), a cada acto ignóbil e indigno que atenta contra o valor da vida humana e a sua dignidade. O regresso imediato, mesmo que a custo, à normalidade é algo que perturba o sucesso destas acções e dos seus autores. Daí que não seja perceptível o comportamento da comunicação social no tratamento informativo destes contextos, com a difusão excessiva e massiva de imagens das vítimas e dos impactos da tragédia, a proliferação repetitiva (e muitas vezes banalizada) dos directos e depoimentos, a divulgação dos rostos e nomes dos criminosos transformados, dessa forma, em mártires e exemplos vindouros, colocando em causa a própria responsabilidade social inerente à sua génese e missão. É contraditório, é perfeitamente escusado, é evitável, sem que isso menorize a qualidade informativa e o rigor da notícia. Importa distinguir interesse público de “interesse do público”.

(*) “No tenim por” significa, em catalão, “Não temos medo”

(créditos da foto: Lluis Gene/AFP - in Veja.com)

publicado por mparaujo às 11:15

20
Ago 17

A isto podemos chamar inúmeras coisas com a certeza que, infelizmente, não é para qualquer um.

Consciência, Respeito pela Dignidade Humana, Cidadania, Liberdade, Coerência, Personalidade, ... (podem continuar).

O nadador espanhol Fernando Álvarez pediu à organização do Mundial de Masters de Budapeste, em que está a participar, que fosse feito um minuto de silêncio antes da realização das provas em homenagem às vítimas do atentado de Barcelona. A organização recusou. “Não se pode perder nem um minuto”, foi a resposta da organização da prova de veteranos ao nadador espanhol.
Álvarez não se conformou e, quando chegou a sua vez de competir, na prova dos 200 metros bruços, quando todos os outros nadadores partiram, o espanhol ficou quieto e em silêncio durante um minuto na prancha, e só depois partiu, acabando por perder a prova.

(fonte: Observador)

a prova dos nove. Exemplar...

publicado por mparaujo às 18:00

06
Jun 17

São significativamente várias as reflexões sobre o terrorismo onde aponto o dedo à responsabilidade que a União Europeia, a Rússia, a China e os Estados Unidos têm, TAMBÉM, neste avolumar de actos bárbaros terroristas que têm assolado a Europa, os Estados Unidos, o Médio Oriente (bem no coração islâmico), a África (tanta áfrica) e a longínqua Ásia. Ou seja... os quatro cantos do mundo e não apenas a Europa.

Não vale a pena esconder a cabeça na areia ou sacudir a água do capote. O extremismo político-religioso islamita tem causado o pânico, o terror e a morte, por todo o mundo, por mais ou menos que estejamos preocupados ou com medo. É preocupante, tem que ser combatido e extinto. Mas importa igualmente abandonar de vez a hipocrisia geopolítica e geoestratégica internacional que por um lado verte lágrimas de solidariedade e por outro vende armas ao coração do extremismo islâmico (Arábia Saudita e envolvente) ou ainda descarrega responsabilidades na tragédia humanitária dos refugiados que nunca soube tratar, nem acolher (antes pelo contrário), com Donald Trump como protagonista principal.

Mas há ainda um outro aspecto importante no urgente combate ao terrorismo que explode nos dias de hoje: a própria comunidade islâmica, principalmente a radicada fora das suas naturais origens (por exemplo, na Europa).

Reconheça-se a coragem de dizer "Not in my name"...
Reconheça-se a coragem pública de Sadiq Khan, mayor de Londres, (para além da genial frontalidade em relação a Trump) em afirmar que, como muçulmano, não se revê na perversão dos valores do Islão e que, pessoalmente, estará na primeira linha de combate a estes hediondos actos...
Reconheça-se e aplauda-se a posição assumida por cerca de 130 Imãs que se recusaram a participar nos funerais dos autores dos atentados do passado sábado...

São actos e posições louváveis, que se aplaudem, que se devem valorizar e que vão para além de uma questão de sobrevivência social.

São pequenos mas gigantescos passos para que a comunidade islâmica tenha consciência que é no seu seio que surgem as radicalizações e as conversões ao extremismo e se prontifique a ser parte da solução deste grave problema... em defesa do multiculturalismo, da liberdade religiosa e do contributo que podem dar ao desenvolvimento e crescimento das comunidades.

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(créditos da foto: Marko Djurica/Reuters in JN)

publicado por mparaujo às 15:16

05
Jun 17

O Mundo centrou todos os olhares para Londres, no passado sábado. Cerca de 15 dias antes Manchester vivi o terror do flagelo cobarde do terrorismo. Volvidas duas semanas é a capital londrina a (re)viver momentos de terror.

É certo que o mediatismo da recente viagem de Trump a Bruxelas (Cimeira da NATO), é certo que a proximidade cultural e social e a afinidade europeia com Inglaterra fazem-nos ter uma especial atenção e solidariedade para com as suas gentes e as suas comunidades.

Mas esta é, igualmente, a triste realidade cinzenta e obscura da forma como encaramos e olhamos para o terrorismo, nomeadamente aquele que está ligado, directa ou indirectamente, ao radicalismo e extremismo islâmico.

Esquecemo-nos (ou desviamos o olhar cobardemente) do Oeste da Europa (Afeganistão há poucas semanas, por exemplo), de África (milhares e milhares de refugiados, de fome e de morte diárias) ou da Ásia.

No mesmo dia que Londres, no passado sábado, um homem, supostamente extremista islâmico (o estado islâmico reivindicou o atentado, o atacante gritou vários slogans islâmicos, o Governo Filipino tem estado a combater vários extremistas islâmicos na região de Marawi, não há a certeza da ligação entre o acto e um atentado terrorista do daesh) entrou armado no complexo turístico Resorts World Manila, nas Filipinas, incendiando o local e provocando 38 vítimas mortais e mais de 70 feridos. Aqui, não houve concertos de solidariedade... apesar de haver quem não esqueça.

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(créditos da foto: Dondi Tawatao/Reuters)

publicado por mparaujo às 15:45

01
Jun 17

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a propósito da reflexão de ontem, "Falsos Moralismos"...
ou melhor... infelizmente, nem de propósito.

Ainda há poucos meses (finais de março), Donald Trump, perigosamente armado em salvador do mundo, depois de bombardear a base militar síria em Shayrat, decidiu autorizar a que as suas altas patentes militares lançassem, na província de Nangarhar no Afeganistão, a chamada "mãe de todas as bombas" (a maior bomba não nuclear com 11 toneladas de TNT e até agora nunca usada) isto quando a Rússia e o Afeganistão preparavam a sua cimeira bilateral (só por "coincidência", claro).

Na altura foram inúmeros os elogios dos americanos a esta decisão da Administração Trump, bem como do presidente dos Estados Unidos às suas elites militares, enquanto a Europa, mais concretamente, a União Europeia assobiava para o lado repartida entre a dualidade da relação euro-americana (tendo igualmente em conta que esta era ainda uma acção que tinha a Rússia como alvo político) e o receio e a insegurança que Donald Trump, manifestamente, trás ao mundo.

Na altura muitos ficaram admirados pela referência usada de "andar um perigo à solta na Casa Branca".

Agora, no seguimento da última e recente cimeira NATO, já é a própria Europa que questiona e duvida da estabilidade e dos benefícios da sua relação com os Estados Unidos da América (e da própria a Inglaterra).

A verdade é que volvidos cerca de dois meses após o ataque americano a Nangarhar, do qual a propaganda política mediática da Administração Norte Americana se rejubilava publicamente, continuamos a assistir a um aumento da escalada terrorista, à guerra, à violência e à morte de centenas e centenas de inocentes.

Ontem, em pleno Ramadão, a zona das embaixadas e representações diplomáticas internacionais em Cabul, capital do Afeganistão, na zona conhecida como Wazir Akbar Khan, foi devastada por um forte atentado muito perto da Embaixada da Alemanha.

A explosão de um camião-cisterna teve ainda impactos nas Embaixadas da França, Turquia, Japão, Bulgária, Paquistão, entre outras.

Ainda sem ter sido reivindicado, este atentado provocou, segundo os últimos balanços oficiais, 90 mortos e cerca de 400 feridos, sendo já considerado um dos piores atentados dos últimos anos no Afeganistão.

Mas claro que a culpa há-de ser, exclusivamente, dos outros, dos "verdadeiros maus"... enquanto o comércio internacional de armamento vai revigorando forças (com alguns países mais que "beneficiados", como a Arábia Saudita), enquanto o terrorismo não encontrar uma solução política internacional e servir para populismo e extremismos, e enquanto Europa, Estados Unidos, Rússia e China se alimentarem dos interesses geopolíticos e geoestratégicos. A isto acrescentando ainda uma África completamente desprezada e abandonada.

publicado por mparaujo às 12:18

23
Abr 17

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publicado na edição de hoje, 23 de abril, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Allons enfants de la Patrie

À semelhança do que aconteceu no ano passado com o referendo no Reino Unido que resultou no Brexit, apesar das eleições já ocorridas (presidenciais austríacas e legislativas holandesas), as presidenciais deste domingo em França são o ponto alto eleitoral da União Europeia neste ano de 2017. Mas até do que as presidenciais na Alemanha que também terão lugar em este ano, em Setembro de 2017.

Por mais evidentes que sejam os impactos da economia e do sector financeiro nas políticas governamentais, nas relações entre Estados-membros (a tal União Europeia a várias velocidades, a divisão entre as economias mais fortes e mais produtivas e aqueles que gastam tudo em mulheres e copos e depois ainda vão pedir ajuda) e nas relações Internacionais, a União Europeia vive, acima de tudo, uma grave crise de identidade, uma clara crise política, e vive uma desfiguração do que foram parte dos alicerces da sua fundação e evolução: o sentido de unidade, de solidariedade, de convergência, de preocupação política e social.

O que assistimos hoje, na União Europeia, é o cimentar de um dos seus aspectos mais cinzentos e nebulosos (a cegueira do tecnocratismo e dos burocratas) e a preocupação e visão minimalista do que foi a sua fundação: a relação economicista (do “ferro e do aço”) entre os Estados-membros, apesar dos quase 72 anos decorridos sobre o armistício.

Independentemente das nuvens que pairam sobre a inconsistência da economia mundial, independentemente de estarem mais aliviados os danos colaterais provocados pela crise financeira de 2007/2008, o problema real da União Europeia não está na sua economia mas sim nos seus pilares político e social. Foi isto que os ingleses expressaram no referendo de 2016, é isto que leva ao crescimento sistemático e cíclico (em cada processo eleitoral) dos extremismos e radicalismos ideológicos europeus e é muito isto que está em causa nas eleições de hoje no país do “galo”. Mais ainda… apesar das eleições austríacas e holandeses terem mantido afastado do poder a extrema-direita a verdade é que, apesar do não reconhecimento público, não conseguiram estancar a sucessiva subida eleitoral e um aumento da influência política e ideológica que exercem junto das comunidades. Importa recordar que ainda no início do ano, a Europa viu juntar, na Alemanha, numa “contra-cimeira” europeia os principais rostos do extremismos e do populismo europeu presentes no grupo Europa das Nações e da Liberdade do Parlamento Europeu: Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional francesa (hoje a votos); Frauke Petry, líder do Alternativa para a Alemanha (AfD); o holandês Geert Wilders, do Partido para a Liberdade; o italiano Matteo Salvini, da Liga do Norte; e o austríaco Harald Vilimsky, entre outros.

É isto que está em suspenso no acto eleitoral de hoje em França.

A forma como a Europa e os Estados-membros da União Europeia não souberam cuidar do Estado Social Europeu e, principalmente, a forma como não conseguiram (ou não quiseram) lidar com a questão dos refugiados, deixa uma enorme porta aberta para a presença inevitável da questão do terrorismo e da emigração nestas eleições e para o que serão os impactos óbvios do Brexit no Reino Unido e da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.

Muito pouco se discutiu e se reflectirá questões de natureza económica, laboral, da educação, da saúde, dos investimentos públicos, do desenvolvimento, em França; nunca o medo e o terrorismo, nunca o Euro e a União Europeia foram tão marcadamente bandeiras eleitorais.

Num país que tem, por natureza e pela história, uma clara presença política na União Europeia, a França vota hoje sobre a indiferença e a dignidade humana, sobre o direito à integração ou à exclusão, sobre a igualdade, a fraternidade e a liberdade ou sobre o racismo, a homofobia e a xenofobia. A França, hoje, vota sobre o futuro da própria Europa, sobre o crescimento ou não do extremismo e do radicalismo (seja à direita, mais presente, seja à esquerda, mais diluído mas igualmente condenável), sobre o regresso ou a aniquilação definitiva (como aconteceu em Portugal após 2015) da balança política das sociedades actuais: o pragmatismo e o paradigma político do centro ideológico e partidário. Vamos ver o que consegue Macron em relação a Marie Le Pen, ou até mesmo em relação a Fillon (conservador, direita moderada) ou a Jean-Luc Mélenchon (esquerda), já que o socialista Benoît Hamon se encontra longe de uma segunda volta.

A Europa suspende a respiração e vai controlando, como pode, uma óbvia e clara ansiedade política à espera de voltar a poder suspirar politicamente de alívio.

(créditos da foto: Eric Gaillard/Reuters)

publicado por mparaujo às 15:40

14
Abr 17

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Que legitimidade tem um país, seja ele qual for, ao abrigo das relações e do direito internacional para atacar, por livre e unilateral iniciativa, um outro país? Nenhuma... sejam os Estados Unidos, a Rússia, a China, ou outro país qualquer.

Mesmo com a cobertura da NATO, da ONU ou de acordos pontuais e parcelares, serão mais as interrogações e dúvidas do que as respostas concretas e as certezas sobre os resultados práticos das ofensivas. Basta recordar o que o Mundo vive hoje após a Guerra do Golfo, a invasão do Iraque ou do combate aos Talibãs e à Al-Qaeda no Afeganistão.

Donald Trump sabe que pelo passado recente na história  dos Estados Unidos (após 11 de setembro de 2001) os americanos olham para a política externa com um elevado sentido de unidade, ao contrário do que espelha o comportamento da sociedade americana no que respeita à política interna. E volvidos os quase primeiros 100 dias de administração Trump, a verdade é que têm sido mais as polémicas, os falhanços políticos e o desastre da governação interna do que propriamente um estado de graça que os resultados eleitorais poderiam fazer crer.

Daí que Donald Trump tenha encontrado nas altas patentes militares o seu maior aliado político, mais do que a justiça, do que o poder político (Senado e Congresso), mais do que o sector financeiro (por exemplo, como a recente posição contrária e oposta, por parte do Tesouro, em relação a eventual manipulação de moeda por parte da China) ou mais do que a própria sociedade americana completamente fracturada.

Daí que Donald Trump tenha encontrado a melhor forma de se manter politicamente sobrevivente aos olhos dos americanos: reavivar a história recente dos atentados terroristas em 2001 e do consequente combate aos Talibãs, à fragilizada e reduzida Al-Qaeda ou ao Estado Islâmico.

E é apenas nesta perigosa assumpção de força e de política musculada, de potência geopolítica (mesmo que auto-determinada), de auto-nomeado justiceiro, que Donald Trump se posiciona em relação aos americanos, aos Russos e aos Chineses, sem medir ou pesar qualquer tipo de consequências seguintes e impactos ou danos político colaterais das suas opções e acções.

Foi assim na Síria há poucas semanas com o bombardeamento à base do Governo Sírio em Shayrat e que foi aplaudida pela maioria dos norte-americanos contrapondo com os 40% de popularidade interna de Trump; foi assim com o lançamento, na província de Nangarhar no Afeganistão, da "mãe de todas as bombas" (a maior bomba não nuclear com 11 toneladas de TNT e até agora nunca usada) isto quando a Rússia e o Afeganistão preparam a sua cimeira bilateral sem a presença dos Estados Unidos e sem que daí se conheçam reais resultados práticos; ou esta incompreensível, injustificada e insensata medição de forças e presença provocatória ao largo da Coreia do Norte.

Se os actos geopolíticos consequentes ao 11 de setembro de 2001 trouxeram um mundo mais perigoso e instável, janeiro de 2017 (mais propriamente 20 de janeiro de 2017 - tomada de posse de Donald Trump) agravaram a realidade internacional, potenciam a conflitualidade entre povos e renovam o medo que paira no dia-a-dia de milhões de pessoas.

Não basta ser-se potência económica e militar porque bombardear é simples e fácil para os norte-americanos... é muito mais relevante e importante a capacidade para se ser potência e se ter responsabilidade política e geoestratégica. E política e estratégica é o que mais falta nesta administração norte-americana.

E ainda o mundo se queixava do lado pior de George W. Bush.

publicado por mparaujo às 23:37

21
Dez 16

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publicado na edição de hoje, 21 de dezembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Não sabe a Natal…

O calendário não deixa dúvidas, seja para crentes ou para não crentes, seja na esfera religiosa ou na esfera pagã ou laica, seja junto a um presépio ou junto a uma árvore de Natal, seja a contemplar o Menino ou à espera que alguém desça pela chaminé, a verdade é que estamos no Natal. A questão é: mas que Natal?

Por força da condição humana esta época é, por si só, um período de maior sensibilidade social, de maior atenção humanitária e humanista, de uma maior proximidade com aqueles que têm mais dificuldades na vida, seja porque razão for. Embora, seja óbvio, que tais realidades nos deveriam preocupar durante todo o ano. Aliás, não raramente ouvimos como desculpa e como justificação para restringir a proximidade ou alargar distâncias em relação às realidades negativas da vida humana (pobreza, o desemprego, a fome, a morte, o terror e o medo) as vozes críticas acusando quem olha mais global esquecendo os que estão e moram ao lado, mesmo que essas vozes críticas nem se preocupem por uns ou por outros.

Vivências em cenários de guerra, de permanente fuga à morte pelas armas, de fome, de pobreza, de isolamento, da necessidade de acolhimento e refúgio, não têm fronteiros e são da responsabilidade universal. É uma questão óbvia e natural da defesa dos valores dos direitos universais, da defesa do direito inalienável e primário da vida.

São inúmeras, nalguns casos excessivas e questionáveis (porque, não raramente, fraudulentas), as campanhas de solidariedade e humanitárias que proliferam neste período do ano. Surgem no âmbito dos cuidados da saúde, dos apoios sociais, nos contributos para entidades que prestam serviços primários às comunidades, para causas culturais, para a solidariedade com uma comunidade ou com os vizinhos. Raramente, salvo as devidas excepções (também elas raras), apesar do espírito natalício, tenha ele carácter religioso ou não, surgem campanhas consistentes que contribuam para a paz. E este alheamento dos cidadãos, das comunidades e, nomeadamente, dos governos das nações e das instituições internacionais, face ao que é, hoje, a realidade da convivência e sobrevivência internacional é, deveras, preocupante e inquietante. A forma como as pessoas são incapazes de aceitar o outro, de aceitar as diferenças e conviver com elas, respeitar diferentes convicções e opções de vida; a forma como os países sobrepõem interesses questionáveis ao respeito pelo direito universal e internacional à existência de cada povo e nação; a forma como as comunidades excluem em vez de incluir, ostracizam em vez de valorizar e envolverem ou acolherem; tem tornado estas três últimas décadas um verdadeiro genocídio universal, tem transformado a vidas das comunidades e dos cidadãos insegura, turbulenta, infernal, desumana.

Quando no declínio da chamada “guerra fria” o mundo assistia, nos finais de 1989, à impensável queda do Muro de Berlim, ao fim da “cortina de ferro” e da União Soviética e do pacto de Varsóvia, muitos foram os que acreditavam num mundo melhor, mais igual, mais justo, mais fraterno. Puro engano… as nações estão mais agressivas, menos cooperantes, mais dominadoras, e os povos/cidadãos menos tolerantes, mais indiferentes, menos solidários.

Os acontecimentos do início desta semana que dizimaram milhares de pessoas, feriram outras tantas e exilaram ainda mais em Aleppo (Síria), em Berlim, na Turquia, na Suíça, na sempre esquecida e abandonada África ou no Médio Oriente, mais não são que o reflexo de 30 anos (pelo menos) de uma comunidade internacional em constante êxodo, em permanente conflito por imposição de verdades e convicções absolutas que não existem, o reflexo de 30 anos da degradação dos valores e direitos humanos fundamentais e universais. Não bastam, face aos acontecimentos, as mensagens de solidariedade entre algumas nações, quando a União Europeia vê os princípios e valores da sua fundação e estruturação a regredirem permanentemente; quando a comunidade internacional não consegue lidar com as diferenças entre os povos, não consegue aceitar princípios básicos de convivência ou de justiça internacional, não consegue unir esforços no combate a realidades de terror e de carnificina como a que diariamente assistimos, tendo a Síria como exemplo entre outros tantos.

Não faz sentido desembrulhar aquela prenda especial, carregar sacos no centros comerciais, beijar o “menino na Missa do Galo, quando milhares de pessoas vivem em campos de refugiados, vivem debaixo das pontes, fogem por entre as ruínas das suas cidades e tentam escapar por entre as balas e as bombas, sem que disso tenham qualquer responsabilidade.

E 2016 tem sido um forte espelho desta triste realidade… em pleno Natal.

publicado por mparaujo às 10:01

18
Dez 16

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publicado na edição de hoje, 18 de dezembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O Inferno na terra

Tomemos como marco o mundo tido da “era moderna” pós II Guerra Mundial que é referência no actual sistema geopolítico e geoestratégico mundial, seja ao nível político, económico, científico e social.

O mundo ainda não refeito do impacto na Europa do conflito com a Alemanha de Hitler procurava dar os primeiros passos na sua organização geopolítica, como a criação da NATO, das Nações Unidas, dos primórdios da Comunidade Europeia, do Bloco de Leste. No entanto, as feridas mal saradas do conflito na Europa, que se estenderia ainda ao Pacífico com o confronto entre o Japão e os Estados Unidos, não foram suficientes para, mesmo em plena “Guerra Fria”, tornar o mundo mais seguro e politicamente mais estável. A década de 60 ficava marcada pela guerra no Vietnam e nas Coreias durante cerca de oito anos; nos finais deste período (1968) a Operação Danúbio fazia entrar na então Checoslováquia as tropas soviéticas e os aliados do Pacto de Varsóvia que, desde a Primavera de Praga, ocupariam aquele território até 1991. Nos anos 70 e durante cerca de dez anos (1979-1989) o mundo assistia à invasão do Afeganistão por parte das tropas da URSS de Brezhnev que só terminaria com Gorbachev a ordenar a retirada das tropas no que é considerado por alguns como o princípio do colapso da União Soviética. A década de 90 ficava marcada por dois grandes conflitos armados e por um outro (mais de guerrilha) que tocou bem de perto muitos portugueses: o massacre de Santa Cruz (Dili - novembro de 1991) e a correspondente libertação de Timor-Leste do domínio da Indonésia. O início desta década (agosto de 1990) ficou marcado pela Guerra do Golfo e a invasão do Kuwait por parte do Iraque (agosto de 1990 a fevereiro de 1991 naquele que é um marco temporal no que é hoje a nova configuração de conflito e relações internacionais e, curiosamente, a forma como a comunicação social passou a ter um outro papel na informação de cenários de guerra. Bem perto do Natal de 1991, após a importância que teve a difusão das imagens do jornalista inglês Max Stahl do massacre de cerca de 400 timorenses, os olhares voltaram-se para Timor-Leste tendo sido possível, até ao final da década de 90, com alguma diplomacia portuguesa à mistura, libertar aquele povo do domínio da Indonésia e torná-lo na mais jovem nação. Entretanto, o mundo regista um dos maiores e mais duradoiros conflitos da história da humanidade que já vem desde o início do século XX: o conflito Israel-Palestiniano. Também pelo meio fica a sempre esquecida e abandonada África em constante conflitualidade interna após os períodos colonizadores de Portugal, Holanda, França e Inglaterra; a relação instável entre a Índia e o Paquistão; a posição instável da Turquia entre duas realidades culturais (ocidente e oriente); e, ainda, as convulsões dos países da América do Sul (Colômbia, Chile, Argentina, Nicarágua, como exemplos).

Eis-nos chegados à nova realidade geopolítica e geoestratégica internacionais: 11 de setembro de 2001 e a consequente invasão do Iraque de Saddam Hussein em março de 2003. O mundo ficaria, por mais vozes que o contradigam, muito mais inseguro, muito mais conflituoso, muito mais perigoso, muito menos humano, humanizado e humanitário, e o mesmo mundo passaria a viver uma nova realidade de conflitualidade: o terrorismo e o extremismo religioso-político. Até hoje, o mundo assistiu à guerra no Iraque, à intervenção no Afeganistão; ao ressurgimento dos focos extremistas em África; à explosão do sentimento de liberdade nas Primaveras Árabes; aos atentados no coração da Europa (Espanha, Inglaterra, França, Bélgica, Alemanha); ao crescimento das ideologias radicais e extremistas de movimentos e partidos políticos quer na Europa, quer nos Estados Unidos; à inigualável e histórica crise dos refugiados. E como toda esta história da humanidade em “apenas” 71 anos (desde o final da II Guerra Mundial em 1945 até hoje) o Mundo nada aprendeu, nada corrigiu, os povos e os seus líderes em nada mudaram continuando a sobrepor os interesses de uns (poucos) e de algo (economia, poder, recursos) acima das pessoas, das comunidades, das vontades e liberdades de cada cidadão.

Eis-nos chegados a Aleppo, na Síria, em finais deste ano de 2016. A distância de mais de cinco mil quilómetros, mesmo que os impactos sejam mais que visíveis no Mundo e na Europa, faz-nos olhar para os milhares de mortos, refugiados e desalojados, para milhares de cidadãos em permanente sobressalto e pavor, enfrentado diariamente a morte pelas armas ou pela fome e/ou doença, enfrentando a destruição das suas vidas, com uma generalizada indiferença e alheamento. A Europa e os Estados Unidos não podem continuar a desresponsabilizar-se (e a responsabilizar terceiros) por algo que lhes diz, directamente, respeito. O mundo (nós) não pode ficar indiferente perante um dos maiores massacres que a história conheceu.

Aleppo deveria-nos fazer pensar se o Natal, se este Natal, faz qualquer sentido. Um Natal que na Síria (e não só… em Mossul, em África, no Iraque e em muitos outros sítios) é sinónimo de Inferno… na terra.

(créditos da foto: Abdalrhman Ismail / Reuters)

publicado por mparaujo às 16:36

03
Ago 16

foto em pe de guerra.jpg

publicado na edição de hoje, 3 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Em pé de guerra

A recente notícia dos quatro argelinos que invadiram a pista do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, deixou muitos portugueses entre a perplexidade e o sobressalto, para mais com a divulgação que, semana antes, o mesmo tinha ocorrido com um grupo de marroquinos. A perturbação e o desassossego deram, rapidamente, origem a algum histerismo colectivo e informativo com o fantasma “terrorismo”. O que já não é novidade, nomeadamente por essa Europa fora. Por mais que seja usado o chavão de que a vida continua e há que mostrar serenidade ao enfrentarmos a realidade, não tenhamos dúvidas: há medo instalado na sociedade, principalmente em países muito particulares como a França, a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Inglaterra, a Suécia ou a Noruega. Podemos continuar a andar na rua mas cada vez mais olhamos para o lado, para trás, para o “vizinho” com o qual nos cruzamos. Isto para referirmos especificamente a Europa, pela proximidade e pela afectividade, porque o olhar podia (e deve) ser mais distante: Estados Unidos, América do Sul, Iraque, Síria, Líbano, Afeganistão, Turquia, Mali, Somália, Sudão, Nigéria, entre outros. Pela lista, apesar de resumida, percebe-se que o Mundo está em guerra consigo mesmo, como afirmou recentemente o Papa Francisco. A todo este contexto importa lembrar, não deixar cair no esquecimento, e acrescentar a continuidade de vidas que, semanalmente, se perdem para sempre no Mar Mediterrâneo (números da Organização Mundial das Migrações revelam, só este ano e até à data, cerca de 3200 mortos neste mar cada vez mais transformado em cemitério do desespero).

A história revela-nos marcos importantes que determinaram mudanças relevantes nas sociedades e no desenho geopolítico mundial. Recordemos, a mero título exemplificativo, o fim da “Guerra-Fria”, a queda do Muro de Berlim e a unificação alemã, o fim da cortina de ferro e a desagregação da unificação no leste europeu. Além disso, os trágicos e impensáveis acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, com a consequente guerra no Afeganistão (Outubro de 2001) e, mais especificamente, com a Guerra do Iraque e o derrube de Sadam Hussain (Março de 2003), tornaram o Mundo menos seguro e mais conflituoso, como o demonstraram, por exemplo, os consequentes episódios de Madrid (11 de Março de 2004) e Londres (7 de Julho de 2005). Com a morte de Bin Laden, o (re)surgimento do jihadismo islamita com raízes sunitas (em claro confronto com a corrente xiita), o denominado Estado Islâmico tem manchado o valor da liberdade, da igualdade, da fraternidade e, principalmente, o inegável direito à vida, seja na Europa, seja em pleno coração africano, directamente ou através da sua influência. Na Europa, após os trágicos e deploráveis acontecimentos no Charlie Hebdo, há pouco mais de ano e meio (7 de janeiro de 2015) cobririam a França e a Europa de um rasto de atentados terroristas sob a suposta conversão do mundo ao islamismo radical e à implantação do grande califado (a junção da política - estado - com a religião é, neste caso, incontestável). O mais recente caso, na Europa, de terrorismo sob a capa do jihadismo ocorreu em França, na igreja de Saint-Etiénne-du-Rouvray, com o sacerdote Jacques Hamel a ser degolado. Mas o medo, a agitação e o constante sobressalto com que vivem, no dia-a-dia, milhares de europeus não pode ser apenas visto como sinónimo de islamismo radical ou tudo com a marca do Estado Islâmico. A verdade é que a Europa, em particular, vive momentos inconfundíveis duma clara “crise existencial”, de degradação dos seus valores políticos e sociais e que estiveram na sua génese, de incapacidade política para enfrentar os recentes desafios (seja na origem - Síria, p.ex., seja no seu interior) sociais e humanitários com que se depara diariamente, como por exemplo questões de integração social e cultural e a questão dos refugiados. A Europa em particular e o mundo, em geral, vivem demasiadamente preocupados com questões económico-financeiras, descurando as vertentes políticas, sociais e culturais. O medo e alguma histeria islamofóbica instalou-se na sociedade a propósito de tudo e de quase nada, mesmo que nem tudo seja Estado Islâmico ou islamismo radical. Reconheça-se o crescimento da xenofobia e do racismo, da perda dos valores e dos direitos humanos em muitos estados a caminho dos totalitarismos (Hungria, Turquia, etc.) do radicalismo da extrema-direita (como sucedeu há cinco anos na Noruega, como sucedeu recentemente na Alemanha, num centro comercial em Munique, e com o crescimento dos movimentos radicais) ou até mesmo, por efeito sistémico, um aumento significativo de psicopatias como aconteceu em Nice.

A Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o inegável direito universal à vida, têm de voltar a ter um papel e um valor intrínsecos, fundamentais e inabaláveis, na sociedade e na gestão política das governações, sob pena do mundo entrar num espiral de violência e medo incontroláveis, e permanecer em permanente “estado de guerra” até ao caos total.

(créditos da foto: Christopher Furlong / Getty Images)

publicado por mparaujo às 10:39

foto em pe de guerra.jpg

publicado na edição de hoje, 3 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Em pé de guerra

A recente notícia dos quatro argelinos que invadiram a pista do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, deixou muitos portugueses entre a perplexidade e o sobressalto, para mais com a divulgação que, semana antes, o mesmo tinha ocorrido com um grupo de marroquinos. A perturbação e o desassossego deram, rapidamente, origem a algum histerismo colectivo e informativo com o fantasma “terrorismo”. O que já não é novidade, nomeadamente por essa Europa fora. Por mais que seja usado o chavão de que a vida continua e há que mostrar serenidade ao enfrentarmos a realidade, não tenhamos dúvidas: há medo instalado na sociedade, principalmente em países muito particulares como a França, a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Inglaterra, a Suécia ou a Noruega. Podemos continuar a andar na rua mas cada vez mais olhamos para o lado, para trás, para o “vizinho” com o qual nos cruzamos. Isto para referirmos especificamente a Europa, pela proximidade e pela afectividade, porque o olhar podia (e deve) ser mais distante: Estados Unidos, América do Sul, Iraque, Síria, Líbano, Afeganistão, Turquia, Mali, Somália, Sudão, Nigéria, entre outros. Pela lista, apesar de resumida, percebe-se que o Mundo está em guerra consigo mesmo, como afirmou recentemente o Papa Francisco. A todo este contexto importa lembrar, não deixar cair no esquecimento, e acrescentar a continuidade de vidas que, semanalmente, se perdem para sempre no Mar Mediterrâneo (números da Organização Mundial das Migrações revelam, só este ano e até à data, cerca de 3200 mortos neste mar cada vez mais transformado em cemitério do desespero).

A história revela-nos marcos importantes que determinaram mudanças relevantes nas sociedades e no desenho geopolítico mundial. Recordemos, a mero título exemplificativo, o fim da “Guerra-Fria”, a queda do Muro de Berlim e a unificação alemã, o fim da cortina de ferro e a desagregação da unificação no leste europeu. Além disso, os trágicos e impensáveis acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, com a consequente guerra no Afeganistão (Outubro de 2001) e, mais especificamente, com a Guerra do Iraque e o derrube de Sadam Hussain (Março de 2003), tornaram o Mundo menos seguro e mais conflituoso, como o demonstraram, por exemplo, os consequentes episódios de Madrid (11 de Março de 2004) e Londres (7 de Julho de 2005). Com a morte de Bin Laden, o (re)surgimento do jihadismo islamita com raízes sunitas (em claro confronto com a corrente xiita), o denominado Estado Islâmico tem manchado o valor da liberdade, da igualdade, da fraternidade e, principalmente, o inegável direito à vida, seja na Europa, seja em pleno coração africano, directamente ou através da sua influência. Na Europa, após os trágicos e deploráveis acontecimentos no Charlie Hebdo, há pouco mais de ano e meio (7 de janeiro de 2015) cobririam a França e a Europa de um rasto de atentados terroristas sob a suposta conversão do mundo ao islamismo radical e à implantação do grande califado (a junção da política - estado - com a religião é, neste caso, incontestável). O mais recente caso, na Europa, de terrorismo sob a capa do jihadismo ocorreu em França, na igreja de Saint-Etiénne-du-Rouvray, com o sacerdote Jacques Hamel a ser degolado. Mas o medo, a agitação e o constante sobressalto com que vivem, no dia-a-dia, milhares de europeus não pode ser apenas visto como sinónimo de islamismo radical ou tudo com a marca do Estado Islâmico. A verdade é que a Europa, em particular, vive momentos inconfundíveis duma clara “crise existencial”, de degradação dos seus valores políticos e sociais e que estiveram na sua génese, de incapacidade política para enfrentar os recentes desafios (seja na origem - Síria, p.ex., seja no seu interior) sociais e humanitários com que se depara diariamente, como por exemplo questões de integração social e cultural e a questão dos refugiados. A Europa em particular e o mundo, em geral, vivem demasiadamente preocupados com questões económico-financeiras, descurando as vertentes políticas, sociais e culturais. O medo e alguma histeria islamofóbica instalou-se na sociedade a propósito de tudo e de quase nada, mesmo que nem tudo seja Estado Islâmico ou islamismo radical. Reconheça-se o crescimento da xenofobia e do racismo, da perda dos valores e dos direitos humanos em muitos estados a caminho dos totalitarismos (Hungria, Turquia, etc.) do radicalismo da extrema-direita (como sucedeu há cinco anos na Noruega, como sucedeu recentemente na Alemanha, num centro comercial em Munique, e com o crescimento dos movimentos radicais) ou até mesmo, por efeito sistémico, um aumento significativo de psicopatias como aconteceu em Nice.

A Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o inegável direito universal à vida, têm de voltar a ter um papel e um valor intrínsecos, fundamentais e inabaláveis, na sociedade e na gestão política das governações, sob pena do mundo entrar num espiral de violência e medo incontroláveis, e permanecer em permanente “estado de guerra” até ao caos total.

(créditos da foto: Christopher Furlong / Getty Images)

publicado por mparaujo às 10:08

20
Jul 16

Mundo ao Contrario.jpgpublicado na edição de hoje, 20 de julho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Virado do avesso

As recentes semanas têm sido, passe a expressão, de “loucos”. E não me refiro propriamente aos inúmeros e impensáveis sucessos desportivos que têm sido conquistados nos diferentes campeonatos europeus e mundiais nas mais diversas e distintas modalidades. Não deixa de ser um momento particularmente importante mas há outras realidades para além do desporto. E realidades que merecem especial atenção porque deixam antever alguma preocupação quanto ao futuro do país, da Europa e do mundo.

  1. A forma como a Europa não tem sabido lidar com a questão do terrorismo foi por demais evidente no trágico acontecimento de Nice, na passada quinta-feira. O medo e o sobressalto permanentes (mesmo que escondido) com que a França encara o seu dia-a-dia estiveram demasiado presentes nas reacções precipitadas, imponderadas e impetuosas com que as entidades responsáveis francesas e o Presidente François Hollande avaliaram a barbárie cometida. A França, face aos inúmeros atentados que tem sofrido (aos quais se acresce os da vizinha Bélgica) e á forma como tem agido perante o problema global e latente, não soube ter o discernimento e a sensatez necessários para uma eficaz e consciente avaliação dos factos. Teria sido preferível do que retomar discursos e intenções que reforçam e redobram sentimentos de ódio e de xenofobia que, apesar do modo e do que as investigações ainda possam revelar, até à data, se revelam perfeitamente escusados.
  2. Mas já que de terrorismo se fala, importa um olhar sobre a Turquia e a forma como a Europa (lembremos todo o histórico processo de integração na UE permanentemente recusado e o mais criticável recente acordo no processo dos refugiados) ou a comunidade Internacional (lembremos que a Turquia é membro pleno da NATO com um dos maiores exércitos, e a presença de bases militares americanas em território turco, para além dos hipócritas acordos no combate ao terrorismo) se tem relacionado com esta “porta” entre o Ocidente e o Oriente em permanente “combustão”. Os acontecimentos de sexta-feira, que cada vez mais comportam contornos de manipulação e de premeditação governamental, têm um claro e perigoso resultado: o aumento da popularidade de Erdogan, a clara purga da oposição, o reforço dos poderes totalitários do presidente turco, o declínio dos pilares de um Estado democrático e de direito, a diminuição dos fundamentais direitos humanos, e o perigoso aumento do peso geopolítico e geoestratégico da Turquia naquela região, seja do ponto de vista económico e social, seja do ponto de vista militar e no combate ao terrorismo, sendo que nesta caso é mais que conhecido o jogo duplo do governo de Ancara.
  3. Olhemos ainda para a União Europeia e o seu perfeito estado de deriva política e social, a sua degradação e fragmentação. Se há cerca de um mês seria expectável que o Brexit pudesse, por diversas formas e contextos, ser reversível, após a mudança do “inquilino” do número 10 da Downing Street, em Westminster (Londres) já tudo parece inevitável. De facto, com a saída de David Cameron da liderança do Governo britânico e a entrada de Theresa May, tudo parece ficar mais clarificado. A nova primeira-ministra britânica foi uma clara apoiante do Brexit e na remodelação do executivo inglês não teve qualquer constrangimento ao colocar nas principais pastas governamentais, como os Negócios Estrangeiros e da Economia, dois fortes opositores de Cameron e principais impulsionadores, no Partido Conservador, do Brexit: o rosto mediático do Brexit, o polémico Boris Johnson e Philip Hammond, respectivamente. Mas não deixa de ser revelador da vontade do Reino Unido em abandonar a UE com a criação do ministério do Brexit, que tutelará as negociações com a União Europeia, tendo como responsável mais um apoiante do Brexit David Davis. Mas se todo este processo se torna agora mais evidente e claro mas ao mesmo tempo esperado, a nova governação britânica deixa muito a desejar e a temer. Com tão pouco tempo de governação já houve oportunidades de sobra para a polémica. Por exemplo, quando se teme tanto ao olharmos para a Turquia, não assusta menos ouvirmos a nova primeira-ministra do Reino Unido a afirmar, clara e directamente, em plena Câmara dos Comuns que não hesitaria em usar armas nucleares, sem olhar a inocentes, incluindo crianças, com o objectivo de mostrar a força bélica aos “inimigos britânicos“.

Se é verdade que o Mundo sofre com a ausência ou degradação de valores políticos não deixa de ser menos verdade que o Mundo sofre ainda mais com a maioria dos políticos que governam o mundo.

publicado por mparaujo às 10:04

28
Mar 16

ataque paquistao - 27-03-2016.jpg

Faz todo o sentido "chorar" por Bruxelas, como fez sentido "chorar" por Paris, por Madrid, por Londres ou pelos Estados Unidos a 11 de Setembro de 2001.

O que me parece não fazer qualquer sentido é a hipocrisia dos fundamentos quando bradamos aos sete ventos pelos direitos humanos, contra o terrorismo, pela inclusão, pelo direito à diferença, contra os radicalismos e extremismos, e apelamos a uma solução humanitária para os refugiados... mas permanecemos totalmente indiferentes quando a mesma realidade ultrapassa os nosso limites geográficos, políticos, culturais e sociais.

Ontem, domingo (precisamente Domingo de Páscoa... a observação não é descabida), morreram pelo menos 70 pessoas (mais do dobro que em Bruxelas, na passada semana) e registaram-se mais de 300 feridos num ataque em Lahore, Paquistão, reivindicado por um grupo Talibã. Um indivíduo fez-se explodir em pleno parque onde, maioritariamente, crianças e mulheres (cristãs) celebravam a Páscoa.

Importa destacar até onde chega a hipocrisia humana...

1. Morreram cerca de 72 vítimas inocentes e mais de 300 ficaram feridas.

2. O Paquistão também é neste planeta Terra.

3. O atentado foi reivindicado por um grupo extremista e fundamentalista: talibã.

4. Os princípios do ataque são os mesmos: radicalismo ideológico e fanatismo religioso.

5. Após Bruxelas, o daesh já veio afirmar que os ataques efectuados na capital belga eram apenas "um aperitivo".
Também após reivindicarem o atentado de ontem, no Paquistão, o porta-voz do grupo terrorista Jamaat-ul-Ahrar (facção paquistanesa talibã "sediada" na região de Punjab) veio a público ameaçar a comunidade cristão no Paquistão com mais ataques.

6. Tal como na Guerra do Iraque, o regime de Sadam, deposto, não foi eliminado registando-se o ressurgimento dos sunitas às suas batalhas ideológicas e religiosas, também a Guerra no Afeganistão, eliminando mais tarde Osama Bin Ladden, não extingui o radicalismo ideológico e o fanatismo religioso do regime talibã.

7. Em todas as circunstâncias há a tentativa de apagamento de memória colectiva quanto às responsabilidades políticas, militares, económicas e sociais, da ONU, da Nato, dos Estados Unidos, da Europa e demais aliados.

 

publicado por mparaujo às 15:30

27
Mar 16

ng6283903.jpgpublicado na edição de hoje, 27 de março, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
“Je Suis… Brussels”

É um facto... é condenável e provoca um enorme sentimento de revolta e indignação o que se passou, esta semana, em Bruxelas, na capital belga e em pleno coração da União Europeia.

O terrorismo tem de ser combatido; a intolerância, a não aceitação do outro, a falta de liberdade e de democracia, têm de ser combatidos de forma voraz e eficaz. Não podemos viver com esta noção de medo, de insegurança, da desconfiança permanente por quem caminha ao nosso lado, com a crescente onda de exclusão e de radicalismos ou extremismos que surgem nestes momentos trágicos e que têm surgido em torno da questão dos refugiados (que normalmente é sempre "mal" colada a estes episódios). Nada disto tem a ver com a trágica crise humanitária dos refugiados… bem pelo contrário. Fogem da mesma tragédia que a Bélgica sentiu por minutos e que muitos, desde adultos a crianças, vivem há anos e permanentemente.

Mas também temos que ser coerentes e racionais nestas alturas. Indignamo-nos, revoltamo-nos, somos todos "Charlie" e "Je Suis...", rezamos por Paris, como rezámos por Madrid, Londres e agora também por Bruxelas ("Pray for Brussels"). Mas somos, ao mesmo tempo, hipócritas. Tocam-nos, legitimamente, os atentados em "nossa casa", no seio da “nossa” Europa, no coração das instituições europeias. Temos esse direito? Claro que temos... o direito e a obrigação "moral e solidária". E é verdade que está em causa a defesa do princípio da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade (pelo menos), a que se junta uma inacreditável irresponsabilidade política dos países europeus e da União Europeia quer na sua defesa, quer no combate ao terrorismo, quer na forma exploratória com que sempre lidou com países como a Síria, o norte e o centro de África ou o Médio Oriente, quer na forma como não consegue lidar com a tragédia humanitária dos refugiados. Acresce ainda a responsabilidade dos Estados Unidos e do que foi a crise no Iraque e a “histórica” cimeira das Lajes onde Bush impôs o ataque a Sadam com as repercussões que hoje sentimos com a revolta sunita.

Há hipocrisia e incoerência quando privilegiamos uma Europa e uma sociedade exclusivamente economicistas e financeiras, para depois virmos "chorar" pela Liberdade, pela Democracia, pelos Valores Sociais (a justiça social, a igualdade, a inclusão, etc.).

Mas é também sermos hipócritas e incoerentes quando bradamos aos céus e a todos os ventos por estes atentados, reclamamos a justiça pelas vítimas inocentes, mas, simultaneamente, desviamos o olhar, sentimos indiferença, apatia, Nigéria, Quénia, Mali, Tunísia, Costa do Marfim, Centro de África, Afeganistão, Iraque... e principalmente quando não conseguimos defender, nem proteger, a Síria ou negociamos imoralmente com a Turquia deixando-a a "ferro e fogo", sem vertermos uma única palavra ou lágrima de revolta.

Pedimos bandeiras para fotos de perfil, luzes que espelhem as cores da Bélgica na Torre Eiffel ou na Torre de Belém, mas importa questionar: onde esteve projectada a bandeira da Rússia quando abaterem o avião russo no deserto ou a bandeira da Turquia sempre que lá há um (constante) atentado ou a da Tunísia a lembrar o último atentado no resort em 2015 ou na Costa do Marfim também num resort, no início deste mês, etc., etc., etc.?

Pela coerência, pela verdade, pelo respeito por todos, Je Suis... Madrid, Londres, Charlie, Paris, Bruxelas, Turquia, Nigéria, Quénia, Síria, Costa do Marfim, Tunísia, Iraque, ... onde existam vítimas da intolerância, da falta de liberdade, dos radicalismos e extremismos (sejam eles políticos ou religiosos... ou ambas as coisas).

"Je Suis..." pela LIBERDADE, IGUALDADE, pela VIDA, pelos DIREITOS UNIVERSAIS.

Hoje, como "ontem" noutras circunstâncias, "Je Suis... Bruxels", sem hipocrisia. Mas também por uma Europa (e União Europeia) inclusiva, capaz de receber e acolher, sem xenofobias, capaz de incluir sem guetos, sem marginalização, dar liberdade com responsabilidade. Porque o problema deste terrorismo fanático e religioso tem contornos conhecidos e tem de ser combatido para além fronteiras, bem na sua génese, com a assunção de responsabilidade: da Europa, da ONU, da Arábia Saudita, do Médio Oriente, do próprio Islamismo, dos Estados Unidos. As vítimas inocentes merecem esse respeito, merecem essa honra.

publicado por mparaujo às 21:52

22
Mar 16

ng6284428.jpg

É um facto... é condenável e provoca um enorme sentimento de revolta e indignação o que se passou hoje em Bruxelas, na capital belga e em pleno coração da União Europeia.

O terrorismo tem de ser combatido; a intolerância, a não aceitação do outro, a falta de liberdade e de democracia, têm de ser combatidos de forma voraz e eficaz. Não podemos começar a viver com esta noção de medo, de insegurança, da desconfiança permanente por quem caminha ao nosso lado, com a crescente onda de exclusão e de radicalismos ou extremismos que surgem nestes momentos trágicos e que têm surgido em torno da questão dos refugiados (que normalmente é sempre "mal" colada a estes episódios).

Mas também temos que ser coerentes e racionais nestas alturas. Indignamo-nos, revoltamo-nos, somos todos "Charlie" e "Je Suis...", rezamos por Paris, como rezámos por Madrid, Londres e agora também por Bruxelas ("Pray for Brussels"). Mas somos, ao mesmo tempo, hipócritas. Tocam-nos, legitimamente, os atentados em "nossa casa", no seio da Europa, no coração das instituições europeias. Temos esse direito? Claro que temos... o direito e a obrigação "moral e solidária". E é verdade que está em causa a defesa do princípio da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade (pelo menos), a que se junta uma inacreditável irresponsabilidade política dos países europeus e da União Europeia quer na sua defesa, quer no combate ao terrorismo, quer na forma exploratória com que sempre lidou com países como a Síria, o norte e o centro de África ou o Médio Oriente, quer na forma como não consegue lidar com a tragédia humanitária dos refugiados.

Há hipocrisia e incoerência quando privilegiamos uma Europa e uma sociedade exclusivamente economicistas e financeiras, para depois virmos "chorar" pela Liberdade, pela Democracia, pelos Valores Sociais (a justiça social, a igualdade, a inclusão, etc.).

Mas é também sermos hipócritas e incoerentes quando bradamos aos céus e a todos os ventos por estes atentados, reclamamos a justiça pelas vítimas inocentes, mas, simultaneamente, desviamos o olhar, sentimos indiferença, apatia, Nigéria, Quénia, Mali, Tunísia, Costa do Marfim, Centro de África, Afeganistão, Iraque... e principalmente quando não conseguimos defender, nem proteger, a Síria ou negociamos imoralmente com a Turquia deixando-a a "ferro e fogo", sem vertermos uma única palavra ou lágrima de revolta.

Pedimos bandeiras para fotos de perfil, luzes que espelhem as cores da Bélgica na Torre Eiffel ou na Torre de Belém, mas importa questionar: onde esteve projectada a bandeira da Rússia quando abaterem o avião russo no deserto ou a bandeira da Turquia sempre que lá há um (constante) atentado ou a da Tunísia a lembrar o último atentado no resort em 2015 ou na Costa do Marfim também num resort, no início deste mês, etc., etc., etc.?

Pela coerência, pela verdade, pelo respeito por todos, Je Suis... Madrid, Londres, Charlie, Paris, Bruxelas, Turquia, Nigéria, Quénia, Síria, Costa do Marfim, Tunísia, Iraque, ... onde hajam vítimas da intolerância, da falta de liberdade, dos radicalismos e extremismos (sejam eles políticos ou religiosos... ou ambas as coisas).

"Je Suis..." pela LIBERDADE, IGUALDADE, pela VIDA, pelos DIREITOS UNIVERSAIS.

Hoje, como "ontem" noutras circunstâncias, "Je Suis... Bruxels", sem hipocrisia.

publicado por mparaujo às 13:53

01
Fev 16

Boko Haram criancas armadas.jpgInfelizmente... não há só a Síria e a conflitualidade com o Estado Islâmico no Médio Oriente ou os refugiados que atravessam o Mediterrâneo, os que lá morrem e os que esbarram com as portas, fronteiras, muros e arames farpados da Europa.

Há toda uma África votada ao inferno - "Boko Haram queima crianças vivas em atentado" - sem merecer os devidos olhares internacionais.

Até quando?

 

publicado por mparaujo às 21:41

24
Nov 15

Bernardo Pires de Lima - rebentou a bolha.jpgApós os recentes trágicos atentados em Paris, o mundo entrou numa espiral de acções de segurança, prevenção e combate ao terrorismo.

Não querendo, de modo algum colocar em causa estas e toda a actividade das forças de segurança no combate ao terrorismo, a verdade é que todas as recentes notícias (nomeadamente as que vêm de Bruxelas) fazem ecoar o velho ditado "casa roubada, trancas à porta" ou que "só nos lembramos de Sta. Bárbara quando troveja".

Além disso, corre na opinião pública um olhar céptico quanto às acções desenvolvidas e aos resultados tornados públicos. A mais notória é a incapacidade para que se impedissem os ataques em Paris e o número já anunciado de desmantelamento de redes e ataques no pós-Paris.

Interessante é a forma como Bernardo Pires de Lima, o investigador, em Relações Internacionais, colunista do Diário de Notícias e comentador de assuntos internacionais na RTP e Antena 1, descreve o actual mediatismo em torno das acções desenvolvidas na "capital política europeia", Bruxelas. A ler... "Rebentou a bolha", hoje no Diário de Notícias.

publicado por mparaujo às 12:10

18
Nov 15

Neste momentos (e noutros) de reacção às tragédias há sempre a tendência para se questionar as opções de solidariedade de cada um, normalmente colocando em causa as convicções, as opções por uma determinada causa em detrimento de outra(s).

Não faço juízos de valor e muito menos considerações sobre quem opta pelo quê ou por que causa (muito menos me indigna quem cobre a foto de perfil - eu fi-lo - com a bandeira ou condenaria quem não o fez).

Compreendo perfeitamente que os atentados em Paris, pela sua barbárie, pela proximidade cultural, social e política, pelo sentido europeu, pela larga comunidade portuguesa aí residente, ou, simplesmente, porque sim, tenham um impacto junto dos portugueses mais forte do que outras realidades. Embora, importa lembrar o sentimento solidário de outras realidades como Timor, Haiti, as intempéries na região da Oceânia/Ásia ou a catástrofe nuclear no Japão, a título de exemplos.

Mas, do ponto de vista pessoal, conforme já demonstrado publicamente, importa não deixar esquecer o recente duplo atentado em Beirute (Líbano), nas vésperas dos acontecimentos na capital francesa, que provocou a morte de 40 cidadãos e cerca de 200 feridos.

E mais uma vez o regresso à Nigéria e mais uma chacina perpetrada pelo Boko Haram, matando 32 pessoas e ferindo cerca de 80. E aproveitar para relembrar as 17 mil vítimas nos últimos seis anos, sem esquecer, obviamente, o milhão de crianças raptadas e desaparecidas.

Sim... também pela Nigéria vale a pena "mudar".

Franca e Nigeria - EU.jpg

publicado por mparaujo às 16:28

#not in my name.jpgpublicado na edição de hoje, 18 de novembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Não vale a pena esconder… “cheira a medo”

O Presidente e o Primeiro-ministro franceses já o declararam, no seguimento dos acontecimentos da passada sexta-feira, em Paris: a França (e não só) está em guerra. Será difícil prever quando terminará ou de que maneira terminará esta guerra. Também não é difícil afirmarmos que ela já se desenrola desde as consequências acções no após “11 de Setembro”. E só a afirmação, a declaração de guerra em si mesma assusta, inquieta, insegura qualquer comunidade ou cidadão. Não tenhamos dúvidas… há medo no ar. Ou, para os mais afastados dos acontecimentos de Paris, há, pelo menos, alguma apreensão, algum desconforto, alguma inquietação. Não há, genericamente, é indiferença, seja pela solidariedade, seja pela crítica.

Por maior que seja o regresso à normalidade na capital francesa os próximos tempos serão de um desassossego latente, seja em França e na Europa, seja, por exemplo, nos Estados Unidos. A instabilidade política, social e militar na Síria e no Médio Oriente, em toda a região Árabe, agravada pelo reforço das intervenções militares na região síria controlada pelo autoproclamado Estado Islâmico (a mais recente pela França, na resposta imediata, e pela Inglaterra), deixa o resto do mundo, nomeadamente a Europa e os Estados Unidos, num permanente nervoso miudinho. A globalização do mundo, em todas as suas vertentes (social, económica, política, cultural, religiosa) já não se compadece com sentimentos de “orgulhosamente sós”. Isso já não existe. A Europa, os Estados Unidos e a NATO, têm responsabilidades acrescidas neste combate ao terrorismo extremista e radical, com pseudo-fundamentos religiosos mas que é mais de índole política, por todas as alterações geopolíticas ocorridas no pós Iraque, Afeganistão, Primavera Árabe e pelo abandono de grande parte de África. Têm responsabilidades, têm que assumir posições claras, tomar medidas conjuntas e eficazes, estratégias comuns, mesmo que envolvam países que, à partida, estão afastados do processo, como a Rússia ou a China. Este processo tem, necessariamente, de ser, à escala política e militar, também ele global e estrategicamente conciliado. Até porque o “tempo” destes islamitas radicais não é o mesmo “tempo”, não tem a mesma dimensão”, que o “tempo ocidental”. Se há algo que o estado islâmico tem é tempo e paciência.

Mas a responsabilidade não é só política e institucional (Estados, Organizações). Cabe a todos. Cabe aos cidadãos pela capacidade na demonstração de serenidade e coragem, pelo não embarque (infelizmente já sentido) em concepções xenófobas e comparações desmedidas. Por exemplo, no que toca aos refugiados. É que estes milhares que batem às portas da Europa, num total desespero e com a esperança de vida, são as primeiras vítimas do Estado Islâmico, é desta barbárie que fogem, mesmo com o risco de encontrarem a morte no Mediterrâneo. E importa separar as águas. Os radicais islamitas não precisam de se infiltrarem nos refugiados. Recrutam nos cidadãos europeus, recrutam na sua região, sempre espalharam e alimentaram as suas células sem precisarem do fluxo dos refugiados. E mais ainda… é importante desmistificar. A União Europeia tem, às suas portas, menos de um milhão de refugiados (28 Estados-membros, perto de 4,4 milhões de km2 de extensão e uma população de cerca de 508 milhões de habitantes). Só o Líbano (10,5 mil km2 de extensão e uma população de cerca de 4 milhões de habitantes) já recebeu cerca de milhão e meio de refugiados sírios.

Por último, a responsabilidade também cabe aos muçulmanos e aos islamistas. A resposta de demarcação dos atentados de Paris dada por muitos simples cidadãos muçulmanos é um passo, é uma resposta clara de crítica, de desejo de integração e, obviamente, de “sobrevivência social”. Mas falta mais. Falta aos próprios Imãs, aos responsáveis pelas comunidades (religiosas ou não), não só dizerem ‘Basta!’, mas criticarem e acusarem este extremismo que desvirtua o Islão, bem como, publicamente e dentro das comunidades, desconstruírem este radicalismo e desvio religioso. Para que o medo não vença.

publicado por mparaujo às 10:08

17
Nov 15

Rezar por Paris.jpgEnquanto preparava o texto para a edição de amanhã, 18 de novembro, do Diário de Aveiro: «Não vale a pena esconder… “cheira a medo”», saíam algumas linhas, como estas...

(...) Por maior que seja o regresso à normalidade na capital francesa os próximos tempos serão de um desassossego latente, seja em França e na Europa, seja, por exemplo, nos Estados Unidos.
(...) A Europa, os Estados Unidos e a NATO, têm responsabilidades acrescidas neste combate ao terrorismo extremista e radical, com pseudo-fundamentos religiosos mas que é mais de índole política, por todas as alterações geopolíticas ocorridas no pós Iraque, Afeganistão, Primavera Árabe e pelo abandono de grande parte de África.
(...) Mas a responsabilidade não é só política e institucional (Estados, Organizações). Cabe a todos. Cabe aos cidadãos pela capacidade na demonstração de serenidade e coragem, pelo não embarque (infelizmente já sentido) em concepções xenófobas e comparações desmedidas. Por exemplo, no que toca aos refugiados. É que estes milhares que batem às portas da Europa, num total desespero e com a esperança de vida, são as primeiras vítimas do Estado Islâmico, é desta barbárie que fogem, mesmo com o risco de encontrarem a morte no Mediterrâneo. E importa separar as águas.
(...) Por último, a responsabilidade também cabe aos muçulmanos e aos islamitas. A resposta de demarcação dos atentados de Paris dada por muitos simples cidadãos muçulmanos é um passo, é uma resposta clara de crítica, de desejo de integração e, obviamente, de “sobrevivência social”. Mas falta mais. Falta aos próprios Imãs, aos responsáveis pelas comunidades (religiosas ou não), não só dizerem ‘Basta!’, mas criticarem e acusarem este extremismo que desvirtua o Islão, bem como, publicamente e dentro das comunidades, desconstruírem este radicalismo e desvio religioso.

Ao mesmo tempo deparava-me com estas quatro referências informativas de inquestionável interesse e pertinência.

Primeiro, uma excelente reportagem da Fernanda Câncio, enviada especial do Diário de Notícias a Paris. Uma abordagem directa a alguns muçulmanos e às suas visões sobre os acontecimentos (muito bom mesmo o final da peça): "Estamos todos na merda, os muçulmanos".

Coincidência ou não, o "The Huffington Post" publicava um artigo sobre as mães dos jahidistas ("Mothers of ISIS") ao mesmo tempo que hoje, no Jornal da Uma, na RTP, deparava-me com um extracto de uma entrevista de António Esteves Martins (com Pedro Escoto) com a mãe de um jahidista português ("Jihadista português falou à mãe para saber notícias após os atentados").

Por último, o jornal Sol publica, com direito a tradução, uma carta aberta (publicada pelo autor nas redes sociais) do cidadão francês Antoine Leiris que perdeu a mulher (mãe de um bebé com 17 meses) nos ataques de sexta-feira passada ("Viúvo escreve carta emocionada aos terroristas que lhe mataram a mulher").

Leituras, entre outras, dos acontecimentos e dos seus reflexos.

(créditos da foto: EPA/Ian Langsdon)

publicado por mparaujo às 16:24

15
Nov 15

12234963_10207880615794185_5618338359793464142_n.jpublicado na edição de hoje, 15 de novembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
A propósito dos Refugiados

Na sexta-feira, a França, o mundo, Portugal, deitaram-se de luto, chocados, aterrorizados.

Sete atentados em Paris, cerca de 150 mortos, mais de 200 feridos e um objectivo claramente alcançado: sob a capa de uma adulterada consciência religiosa, os fins políticos do Estado Islâmico continuam a deixar um rasto de sangue, pânico, terror e sentimentos crescentes de xenofobia. Numa operação meticulosamente preparada, quer na forma, quer no tempo, quer nos alvos, o fundamentalismo islâmico alargou a sua tipologia de acção: para além de potenciais alvos militares ou de segurança, de alvos políticos, de alvos financeiro-económicos, dez meses depois do atentado contra a liberdade de expressão e de informação perpetrado contra o Charlie Hebdo, os fundamentais direitos, liberdades e garantias dos cidadãos são atingidos nas suas rotinas quotidianas, na vivência mais normal do seu dia-a-dia, como o desporto, a cultura, a socialização, uma simples ida a um restaurante. E tudo isto causa uma óbvia escala de terror e pânico nas pessoas e nas comunidades, para além dos reflexos na globalização da informação. Além disso, face à realidade trágica dos movimentos migratórios que a Europa assiste é lamentável, embora perceptível, o crescimento inqualificável do sentimento xenófobo que estas situações provocam, até pela clara ligação do Ocidente (nomeadamente a França) ao conflito na Síria e ao combate ao terrorismo islâmico (sim… um terrorista é um terrorista, seja europeu, americana, muçulmano ou ‘marciano’). Infelizmente, há quem aproveite estas acções para gerar o pânico em relação ao fluxo dos Refugiados para a Europa, mesmo sabendo-se que esta acção tem uma notória preparação no tempo.
E a propósito dos Refugiados…

A discussão já não é nova mas voltou a ter palco e luzes de ribalta, ecoando nas conversas de rua, café, trabalho e redes sociais. Para alguns (demasiados, por sinal) é inadmissível que Portugal (e porque não a sociedade) ajude Refugiados quando há tanta pobreza e tantos sem-abrigo no nosso país. Não é aceitável o tipo de comparação (entre carência e a morte/sobrevivência) e esta desculpa para a indiferença alicerçada na incapacidade da sociedade portuguesa e do nosso país em combater esse triste flagelo. Soa a claro xenofobismo. E embora este pensamento seja condenável em qualquer circunstância ou círculo, é ainda mais criticável quando muitas das contestações à ajuda aos Refugiados surgem na boca de tanto (pseudo) católico, daqueles de ver bater no peito dominicalmente; os que preferem as caridadezinhas à solidariedade. Tudo tomou proporções que necessariamente não devemos menosprezar, nem deixar indiferentes, com a anunciada chegada de Refugiados a Portugal. Não propriamente por Portugal ser país de acolhimento (embora muitos, infelizmente, até isso repudiem) mas pelo facto de estar assegurado aos Refugiados acesso assistência médica, escola e aprendizagem da língua portuguesa, entre outros. Primeiro há uma nota que importa destacar, por força de muita ignorância solidária: Portugal está a dar expressão prática a tratados e convenções (como por exemplo a de Genebra) internacionais aos quais está obrigado, por força da sua aceitação e subscrição, e que impõem o cumprimento de determinadas regras e acções para o acolhimento de Refugiados. Segundo, esta abjecta falta de solidariedade para com aqueles que, num mundo cada vez mais global e com menos fronteiras e limitações geográficas, sociais, culturais e políticas, é tão grave quanto tão facilmente esquecemos o que foi e é, ainda hoje, a nossa história de emigração. Infelizmente, só nos lembramos os que deixaram e deixam o país quando dá jeito para criticar governos. Terceiro, a ajuda, o apoio e o acolhimento de Refugiados não se sobrepõe à necessidade de acções sociais e políticas governativas que diminua a pobreza em Portugal. Aliás, muitas das instituições e entidades que, por exemplo, fazem parte da Plataforma de Apoio aos Refugiados - PAR, não deixaram de exercer a sua acção e responsabilidade sociais para com os portugueses carenciados. Por último, sem entrar em juízos de valor, a verdade é que muitas (muitas mesmo) das vozes que tanto se insurgem contra a ajuda aos Refugiados, argumentando e sustentando a sua crítica na falta de apoio aos portugueses (aos chamados "de cá"), são os mesmos que nunca saíram do sofá para ajudar ninguém, desviam a cara sempre que alguém precisa de ajuda sentado no meio de um passeio ou na rua ou nunca contribuíram em qualquer campanha ou acção de solidariedade. A actual dimensão da tragédia da maior crise de refugiados do pós-Guerra exige uma urgente e importante mudança de mentalidade e um olhar muito mais humano e solidário para o outro, mesmo que distante.

(créditos da foto/desenho: Daniel Catalão - RTP)

publicado por mparaujo às 10:49

14
Nov 15

Podia (e já o fiz por outras vias e para a edição de amanhã do Diário de Aveiro) falar do terror instalado em Paris e dos inqualificáveis atentados na capital francesa levados a efeito pelo Estado Islâmico, ontem à noite.

Infelizmente, paralelamente à tragédia e ao terror, há sempre quem sucumba ao ridículo, à pura estupidez, à falta clara de inteligência, quem, com acções e afirmações, acabe por promover um sentimento cada vez mais presente de que a liberdade de expressão e opinião não deveria ser para todos.

Primeiro é o discurso xenófobo, racista e de total desprezo pela tragédia humanitária, ao associar o execrável terror de ontem, em Paris, com a situação dos Refugiados que chegam à Europa. Começa o terrorismo das convicções...

Mas até aqui é mesmo uma questão de convicção, de ideologia, de princípios, de moral e ética.

O que não posso deixar passar em claro (e repudiar veemente este tipo de "liberdade") é o ridículo, a estupidez e o "terrorismo das convicções".

São públicas e publicadas as minhas opiniões sobre a actual conjuntura política nacional. Não acho que o PS deva ser governo (apesar da legitimidade constitucional), não reconheço legitimidade democrática para BE e PCP promoverem esta maioria de esquerda. Mas são, obviamente, opções políticas e legais (independentemente das suas fragilidades).

O que não aceito, seja de quem for, seja com que argumento for, seja a lutar pelo que for, acusações e avaliações de carácter e o recurso à morte e ao terrorismo para qualquer tipo de comparações.

Discordo das posições da Catarina Martins e da Mariana Mortágua. Estamos longe de nos entendermos em inúmeras e significativas concepções da sociedade, da política ou do mundo.

Mas isto é terrorismo político inaceitável (daí ter alterado a imagem) e que circula nas redes sociais, sem qualquer justificação nem aceitação. É a total perda da razão e só permite uma maior valorização e força à "parte oposta". Para além do óbvio alastrar do rastilho...

Ao autor da foto só desejo, muito sinceramente, um terrorista islamita por um certo sítio acima.

terrorismo contra Catarina Martisn e Mariana Morta

(retirado daqui)

publicado por mparaujo às 12:51

11
Set 11
Publicado na edição de hoje, 11 de Setembro, do Diário de Aveiro.

Cambar a Estibordo...
Após dez anos… pouco e muito tempo.


O mundo relembra, hoje, o infausto dia 11 de Setembro de 2001. É inevitável não recordar os acontecimentos.
Os Estados Unidos da América, mesmo considerando os atentados de Oklahoma City de 19 de Abril de 1995, iniciavam o dia estupefactos e incrédulos com o que estava a acontecer nas Torres Gémeas de Nova Iorque (às 8:46 – voo 11 American Airlines e às 9:03 – voo 175 United Airlines, horas locais), no Pentágono (às 9:37 – voo 77 American Airlines ) ou na Pensilvânea (às 10:03 – voo 93 United Airlines) com um ataque perpetuado (reivindicado) pelo exterior: a Al-Qaeda, de Bin Laden. Em causa estava o “coração” do poder político, militar e económico dos Estados Unidos: as Torres do World Trace Center (economia); o Pentágono (militar) e, embora não tenha sido atingido o alvo, o Capitólio ou, noutra teoria, a Casa Branca (político). Os números, oficiais e apurados, prevendo-se que os mesmos pecam por defeito, são elucidativos da dimensão dos atentados: cerca de 3000 mortes e um número ainda por estimar mas que se calcula superior a 6000 feridos, de cidadãos de 70 países. A América, e uma parte do Mundo, estava em choque.
E estes dez anos volvidos parecem, de facto, muito curtos face à memória que as imagens e os acontecimentos reservaram nas pessoas de todo o mundo e de todos os recantos.
Os embates dos aviões, a estupefacção inicial originada pelo factor surpresa, a queda das torres, a correria das pessoas em fuga, a azáfama dos bombeiros e das forças policiais, e… a imagem mais marcante de algumas pessoas em queda nas Torres.
No pós 11 de Setembro, são ainda marcantes as iniciativas para retomar o quotidiano, os memoriais, as celebrações de pesar e de homenagem às vítimas… mas os sinais dos atentados estavam bem marcados no rosto das pessoas e no espaço físico.
Mas dez anos volvidos são, igualmente, muito tempo. Muito tempo porque o Mundo não foi mais o mesmo após os atentados de 11 de Setembro de 2001.
O terrorismo passou a ser a bandeira e o lema das relações internacionais, mesmo que muitas das acções levadas a cabo tenham tido fundamentações questionáveis, como é o caso da invasão do Iraque com a argumentação das armas de destruição (para esconder a necessidade do reforço geopolítico face ao Irão).
Mas a verdade é que muita coisa aconteceu.
Dois anos após os ataques, o Iraque era invadido por forças internacionais e Saddam Hussein deposto e morto, mesmo que isso não tenha trazido, de imediato, a segurança e estabilidade ao país.
Enquanto se reforçavam as acções de combate ao terrorismo e na perseguição daquele que foi considerado o inimigo público número um – Bin Laden – Madrid sofria os horrores das acções terroristas (11 de Março de 2004) vitimando cerca de 200 pessoas e mais de 1700 feridos, seguido de mais uma acção no metro de Londres a 7 de Julho de 2005 (52 mortos e mais de 700 feridos).
Imediatamente aos acontecimentos de 11 de Setembro, as forças norte-americanas invadiam o Afeganistão onde sempre se suspeitou ser o “abrigo natural” da Al-Qaeda e de Bin-Laden, que, curiosamente, também ao fim de dez anos, é capturado e morto (2 de Maio de 2011) no Paquistão, por tropas de elite da Marinha americana.
Pensava-se, desta forma, que o Mundo ficaria mais sossegado.
Mas, mesmo que pela ânsia de liberdade, pela vontade de alterar a história, por uma sociedade mais justa e mais fraterna, o mundo não sossegava. Se por um lado, a crise económica do mercado da globalização criou uma instabilidade social, já há muitos anos não vivida (que os acontecimentos de Londres e outras cidades inglesas são a imagem mais visível e real), também a vontade dos povos surgia em gritos de revolta de mudança e de uma sociedade mais justa e democrática: Marrocos, Egipto, Tunísia, Líbia, Síria e, até mesmo, em Israel.
Por isso, a pergunta mantém-se: o Mundo estará melhor?! A resposta é difícil… mas há uma certeza: após o dia 11 de Setembro de 2011 o Mundo não foi mais o mesmo.

Uma boa semana… espera-se com mais paz.
publicado por mparaujo às 06:15

05
Set 11

É indiscutível que o Mundo mudou depois do dia 11 de Setembro de 2001.
É indiscutível que essa mudança ainda está por classificar se positiva ou negativa.
Mas o Mundo não foi mais o mesmo... e não apenas do ponto de vista da segurança internacional e da relação entre as nações. A mudança também se fez sentir ao nível social, económico, tecnológico e científico.

  
O facto é que já passaram dez anos.
O Jornal Público inicia, com a sua edição de hoje, um conjunto de reportagens sobre o fatídico "9/11".
publicado por mparaujo às 22:00

11
Mar 10
Há seis anos atrás, Madrid, Espanha e uma parte do Mundo acordava sobressaltada, assustada e a "chorar" mais vítimas...

ATOCHA era, pelas piores razões, o centro do mundo.

publicado por mparaujo às 21:17

15
Mar 07
Publicado no Diário de Aveiro na edição de hoje (15.03.07).

Post-its e Retratos
Acção preventiva. Lembrar 11.03.2004.

Ninguém está livre de, amanhã, sem qualquer tipo de aviso, de repente apenas ter a noção de ouvir “PUM”. Algo que explode, rebenta e atinge as nossas vidas. Num ápice tudo se esvanece.
O Mundo tornou-se mais frágil e inseguro. Tornou-se um palco de conflitualidade, de violência, de guerra e de morte.
E esta é que é a verdadeira questão.
Há três anos, no dia 11 de Março de 2004, Madrid mergulhava num pesadelo. Não que a realidade dos atentados fosse algo estranho para aquela cidade. Mas pela dimensão, pela expressão internacional e pelo contexto e objectividade, Espanha sentia-se ferida.
Mas só Espanha?!
Por razões históricas, é conhecida a nossa relação “amor-ódio” com o país vizinho.
Pelas mesmas razões, é óbvia a nossa proximidade geográfica e um conjunto de opções político-estratégicas comuns. Exemplo: a cimeira das Lajes e a intervenção no Iraque.
É portanto preocupante este aumento da escalada de violência no Mundo.
Por várias razões e motivos, sejam de ordem ideológica, cultural ou política, podemos escolher vários (à nossa medida e gosto) responsáveis por esta triste realidade.
No entanto, há sempre um nome como referência: Estados Unidos.
Para o bem e para o mal, são os escolhidos.
Os americanos não são, sejamos objectivos e racionais, um poço de virtudes. A começar pelo que escrevi na semana passada sobre os direitos humanos.
No entanto, é reconhecida a sua capacidade, como única superpotência actual, de intervenção em situações de reconhecida insuficiência e inoperante diplomacia, em situações de clara injustiça humana.
Isenta de interesses?! Claro que não. Mas isso também seria uma verdadeira utopia.
Mesmo no nosso dia-a-dia, nas nossas vidas particulares, as nossas acções e reacções centram-se num óbvio dar e receber. É esta a necessidade comunicacional e emotiva entre o ser humano. É esta uma realidade subjacente aos povos e ás suas acções. Não como premeditações objectivas, mas como consequências naturais.
Mas é um facto que o Mundo, após o 11 de Setembro, o conflito no Afeganistão e a invasão do Iraque, se tornou mais instável, conflituoso e perigoso, a fazer esquecer o confronto mais diário e mediático das últimas décadas: o conflito Israel/Palestina.
Nos últimos anos, têm-se discutido ao nível das instâncias e na política internacionais a objectividade, legitimidade e legalidade da chamada acção preventiva.
Isto significa a permissão e possibilidade de um determinado estado, ou alianças entre estados, intervirem belicamente sobre um terceiro, se objectiva e factualmente estiver em eminência acções de conflito ou de insegurança internacional.
Por si só, esta realidade mostraria uma escalada da violência no mundo.
Mas também não deixa de ser verdade que, embora com o recurso ao conflito armado, se possa minimizar os efeitos devassos e devastadores da vida humana.
A complexidade deste paradigma resulta na certeza ou não da objectividade da acção preventiva.
Mas enquanto esta nova visão das relações internacionais se discute, a realidade da violência e do conflito tem um novo rosto e uma nova concepção, para as quais as nações não estão conscientes ou verdadeiramente preparadas.
É objectiva e relativamente clara uma percepção de uma ameaça ou conflito confinado a uma fronteira, um estado ou uma nação.
Quando esta realidade ultrapassa um espaço geograficamente definido, quando não se conhecem os propósitos políticos da ameaça, é muito difícil, para não afirmar, quase que impossível o seu combate eficaz. E é esta a realidade do terrorismo.
Ultrapassou fronteiras. Este enraizado no carácter emotivo, ideológico ou religioso das pessoas.
Não tem rosto. Não tem “morada”. Mas vive… para que outros morram.
Por mera convicção. Por falta de respeito pela vida.
publicado por mparaujo às 19:01

11
Mar 07
Há 3 anos Madrid chorava e a Europa tremia.
Mesmo aqui ao lado.
4 Combóios - 10 bombas - 191 mortos - 2000 feridos.

O Mundo não é mais o mesmo.

Atocha (Madrid) mostrava a barbárie, o terror e o medo.
publicado por mparaujo às 18:38

15
Set 06
A data que mudou o mundo deve merecer momentos importantes de reflexão. Mesmo aqui, neste “paraíso” aveirense.
O 11 de Setembro de 2001, é um acontecimento que dificilmente se poderá esquecer, muito menos apagar da memória de milhares de pessoas e da história contemporânea.
Mas sempre pelos piores fundamentos.
Passados 5 anos, o que mudou então?!
Ficou o mundo mais seguro?!
A resposta óbvia e coerente é não! Claro que não!
Os acontecimentos de Manhattan - New York, Washington e Pennsylvania naquele fatídico dia chocaram a América e o Mundo. E a esta distância temporal, no regresso ao passado, as imagens ainda chocam e transportam uma perplexidade difícil de explicar.
A poderosa e inatacável América tornou-se vulnerável.
O Mundo tornou-se mais frágil e inseguro. Tornou-se um palco de conflitualidade, de violência, de guerra e de morte.
No pós 11 de Setembro, já tivemos 200 mortos no Bali (Outubro de 2002), 190 mortos em Madrid (Março de 2004), 70 mortos em Londres (Julho de 2005) e 200 mortos em Bombaim (Julho de 2006).
É a expressão real da máxima: violência gera violência; conflito gera conflito. Da irreflexão do ataque ao Afeganistão, até à incompreensível e infundada invasão do Iraque.
Não queiram entender nestas palavras qualquer movimentação anti-americana. Por princípio ideológico não o poderia fazer.
Mas é um facto que até ao dia 11/9 e mesmo após essa data, nas acções de segurança interna de vários países, o mundo sempre soube “capturar” terroristas sem recorrer ao confronto bélico.
Daí que necessidade de invadir um país como o Afeganistão, para capturar Usama bin Laden, pela responsabilização dos atentados de 11/9 foi um acto irreflectido. Passados 5 anos, Bin Laden continua algures entre o Paquistão e o Afeganistão. Passados 5 anos o sul do Afeganistão volta a “cair” nas mãos dos talibãs.
E nesta data, é importante e relevante a captura do líder da Al-Qaeda?! Não é.
Mesmo após algumas figuras da rede terem sido atingidas, mesmo que há cerca de dois anos não se saiba nada do seu líder, a Al-Qaeda já ultrapassou a sua essência. Hoje mais que uma associação, a Al-Qaeda transformou-se num conjunto de células espalhadas por todo o mundo, baseadas no seu princípio.
E hoje a sua importância, mormente o renascimento do “talibanismo” no Afeganistão, começa a ser repensada. Tão ou mais importante é o papel da Síria, do Irão, do Hezbollah no Líbano e os xiitas na Arábia Saudita.
A Al-Qaeda não criou o Jihadismo. Ela baseia-se na Jihad islâmica. E este fundamentalismo é “universal” no mundo islâmico e muçulmano.
E esta é que é a verdadeira questão.
O mundo, após os ataques às Torres Gémeas e ao Pentágono(!), tornou-se mais vulnerável, mais inseguro pelo aumento do terrorismo assente num aumento do ódio entre o mundo ocidental e o mundo islâmico.
A totalmente questionável e irreflectida invasão do Iraque, sem a descoberta das armas químicas, sem a prova da ligação de Saddam Hussein a Bin Laden ou de Bagdad (Iraque) aos atentados de 11/9 (aliás, recentemente reconhecido pelo senado americano), tornou o terrorismo mais forte. Criou um maior antagonismo entre os dois mundos, tão distintos. Aumentou o ódio entre islâmicos e muçulmanos e ocidentais. Aumentou o receio, a desconfiança política, reflexo das sucessivas acções e “mentiras” desta administração do presidente Bush. Aumentou os atropelos ás liberdades fundamentais e aos estados de direito, como o comprovam os voos da CIA e as prisões secretas americanas espalhadas na Europa.
Reconheço o direito de quem é atacado em se defender. Ninguém ficaria indiferente se atacassem a Torre Eifel, a nossa Torre de Belém, etc. Não reconheço que a sua defesa se faça na base do “olho por olho, dente por dente”, no uso e justificação de quaisquer meios para atingir um fim. Ao fazê-lo as circunstâncias e os papéis são iguais. Tornamo-nos, obviamente, terroristas.
O mundo passou a ser “governado” por um submundo cheio de secretismo, de interesses obscuros, sem respeito pela dignidade humana, pelos direitos fundamentais.
A realidade é que, nestes últimos 5 anos, o ocidente ficou refém do terrorismo que “ajudou” a aumentar e a espalhar, mesmo para dentro das suas fronteiras e da declaração de “guerra santa” do mundo islâmico.
A realidade é que o ocidente está refém de uma economia que se baseia essencialmente, se não exclusivamente, no petróleo, riqueza e matéria-prima do mundo árabe.
Por estes princípios, é difícil o combate desta dualidade Ocidente-Islamismo através da via do diálogo, da tentativa de democratização e socialização do mundo árabe.
As consequências e as opções tomadas após o do dia 11 de Setembro e 2001, das quais se destacam as invasões ao Afeganistão e Iraque, o conflito recente Israel-Libano, o desenvolvimento nuclear no Irão, começam a tomar proporções maiores que os ataques daquele dia.
A intolerância, o ódio, os preconceitos, o desrespeito pela condição humana, aumentaram.
O mundo tornou-se mais dividido, com maiores divergências políticas ou económicas, principalmente mais relevantes naqueles que eram, até há 5 anos atrás, os maiores aliados (Europa e Europa-Estados Unidos).
Hoje, volvidos apenas 5 anos, no mundo há mais terrorismo, há mais guerra, mais violência e mais mortes.
Hoje, a Humanidade morreu.
O mundo precisa de voltar a mudar.
(publicado na edição de 16.09.2006 no Diário de Aveiro)
publicado por mparaujo às 10:40

11
Set 06
O Dia em que o terrorismo mudou o Mundo.




Sem mais pelo respeito às vítimas.
publicado por mparaujo às 10:45

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