Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

11
Fev 15

publicado na edição de hoje, 11 fevereiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
À beira de um ataque de nervos

A Europa, mais concretamente a União Europeia e a Zona Euro, estão a ferro e fogo, à beira de um autêntico ataque de nervos. Em causa a pressão da Grécia em relação à sua dívida e ao programa de ajustamento a que tem estado sujeita. Mas não só… a par, e não menos importante, a Europa vê-se a braços a com o prolongar da crise na Ucrânia e com a posição de força da Rússia.
Em vésperas da reunião do Eurogrupo e do Conselho Europeu muito está em jogo, neste momento, na União Europeia. E não se pense que é apenas fogo-de-vista ou fumo sem fogo. Tudo é colocado em causa: os princípios magnos da constituição da União Europeia, os Tratados (concretamente o de Lisboa, por exemplo), a solidariedade (ou a falta dela) entre os Estados-membro, os fundamentos económico-financeiros dos processos de ajustamento (a austeridade), entre outros.

Os próximos dias e as próximas horas ditarão quem será o mais inflexível, quem será o mais moderado nas posições, quem cederá primeiro, quais os países que estarão ao lado da Grécia e quais os que estarão ao lado da Alemanha. No fundo, os próximos dias marcarão a queda ou a consolidação dos princípios financeiros que têm sustentado os programas de ajustamento aos países em desestruturação financeira.

Mas há mais. Há quem considere que as posições assumidas pelo governo grego não passam de meras conjunturas negociais e demagogia eleitoral. Já aqui o disse, há dias, que achava que as posições assumidas pelo Syriza, nas eleições, e assumidas como programa governativo pela nova coligação governamental grega, acabariam por, mais cedo ou mais tarde, ceder ou criar uma profunda ruptura. Espera-se o bom-senso político, de ambas os lados, para que a ruptura não surja porque uma saída grega da zona euro terá um efeito ainda não bem avaliado, mas que se afigurará negativo para a moeda e para a própria estabilidade da zona-euro.

Há ainda um outro dado importante nesta semana explosiva na Europa. E um dado que ultrapassa a sua configuração geoestratégica e bélica para contornos geopolíticos e financeiros: o conflito na Ucrânia e a relação tensa entre a Rússia e a Europa/Estados Unidos.
Mais do que a Grécia tomar as “dores de parto” da Rússia, todo este aproximar grego a Putin afigura-se como um cavalo de Tróia da Rússia na Europa. E poderá estar aqui a ponte política e a arma negocial russa no conflito ucraniano, apresentado-se Putin como a sustentação do “Plano B” grego caso falhem as negociações no Eurogrupo. Quando muitos dos países da ex-URSS se apressaram a solicitar a adesão à União Europeia e à Zona Euro, bem como a NATO, eis que a crise grega e as recentes eleições na Grécia invertem a tendência e aproximam países europeus da Rússia, aumentando a sua importância geoestratégica na Europa e na Ásia.
Daí a imediata preocupação da Alemanha em reunir com os Estados Unidos tentando mediar o conflito pela via diplomática (ao contrário dos Estados Unidos que preferiam a via militar com ajuda bélica ao governo da Ucrânia para combater os separatistas), bem como a imediata reacção da China face às posições financeiras assumidas pelo governo grego em relação a processos de privatização.

Não é só a nível económico-financeiro que se discute o futuro da Grécia e da União Europeia (e as respectivas instituições) nos próximos dias. Vai muito para além da dívida, da sua renegociação e do programa de ajustamento.
O futuro da União Europeia passa, essencialmente, pela forma como a Europa contornará ao conflito na Ucrânia e conseguirá fragilizar a relação, que se afigura intensa, entre a Grécia e a Rússia.

publicado por mparaujo às 11:34

12
Ago 14

O trunfo é “espadas”.
Putin volta a marcar pontos no conflito da Ucrânia.
Depois das sanções decretadas pela União Europeia e pelos Estados Unidos, o Kremlin responde com o embargo às importações de produtos e bens alimentares e agrícolas do ocidente. Resta saber para que lado penderá a balança das sanções.
Mas Putin joga ainda uma cartada importante no jogo geopolítico e geoestratégico do conflito ucraniano: a ajuda humanitária. E a cartada é importante porque, seja qual for o desfecho desta acção, a Rússia poderá sair sempre a ganhar.
Sob a capa da Cruz Vermelha Internacional, caso a ajuda humanitária entre na Ucrânia, entrará sempre a “bandeira” russa e o que isso possa significar: ajuda e mais armamento nas mãos dos rebeldes, mas também uma melhor imagem política (salvação humanitária) para os ucranianos pró-russos e para todas as movimentações que promovam a integração da Ucrânia na Rússia. Além disso, a entrada da ajuda humanitária servirá também para a criação de um corredor de intervenção da ONU, colocando a Rússia numa posição internacional privilegiada e mais firme.
Mantendo-se a irredutibilidade ucraniana quanto à ajuda humanitária russa, no caso da impossibilidade da acção do Kremlin, a verdade é que Putin sairá na mesma a ganhar do ponto de vista político, já que aos olhos da opinião pública local e internacional, a Ucrânia será tida como força do bloqueio à ajuda aos seus próprios concidadãos.
Mais uma vez, Putin um passo à frente do resto do mundo na questão ucraniana.

publicado por mparaujo às 17:28

18
Mar 14

Primeiro round… primeira derrota da União Europeia.
Não foi nenhuma surpresa o resultado do referendo realizado no domingo na Crimeia. Cerca de 80% dos habitantes foram às urnas expressar, por significativa maioria (93%), a sua vontade de reunificação da antiga Região Autónoma da Ucrânia na Federação Russa. Apenas 7% dos votantes manifestaram-se a favor da continuidade da autonomia mas com ligação à Ucrânia.
Pelas mais variadíssimas razões, já expressas noutros textos, era mais do que espectável este desfecho e o resultado. A Rússia tinha todas as razões para restabelecer um “erro histórico”, como disse o principal rosto pela mudança política russa (o fim da URSS), o ex-presidente Gorbachov, e para preservar os seus interesses geoestratégicos na região, principalmente os militares e a posição privilegiada no Mar Negro.
Daí que seja inconcebível e injustificável a posição da União Europeia e dos Estados Unidos neste processo. A Crimeia já detinha uma posição de autonomia em relação à Ucrânia. Independentemente das pressões óbvias exercidas pelo Kremlin, a verdade é que foi o parlamento da Crimeia e os seus habitantes (para além dos 60% russófonos) que decidiram a reunificação à Rússia, por vontade expressa. Aliás, afigura-se lamentável todo este “circo” europeu e americano quando nenhuma das partes se preocupou com cumprimentos constitucionais no rebentamento de toda esta crise política naquele país. Aliás, quanto a referendos, vontades populares, decisões políticas de vários países e regiões, com pressão externa, influência diplomática ou militar, sanções económicas, “invasões” e desrespeito pelo direito internacional, está o inferno (história contemporânea) cheio, sem isenção para a Europa ou para os Estados Unidos (é só procurar nos compêndios mais recentes).
Mais… sendo certo que a primeira batalha está ganha pela Rússia, também é verdade que a “guerra” ainda está longe de ter terminado. O primeiro passo está dado com a Rússia a proteger os seus principais interesses. Mas há mais.
Os Estados Unidos tentam a todo o custo “cinturar” a Rússia através da NATO. Com bases na Turquia, Polónia, a Ucrânia afigurava-se como um ponto geográfico mais que estratégico para “intimidar” o Kremlin. Aliado ao facto de, excepção para Bielorrússia e Moldávia, toda a zona envolvente estar integrada na União Europeia, incluindo a “batalha integracionista” que a Turquia vem, à longa data, travando. Mas se deste ponto de vista geoestratégico é compreensível a posição americana, já a hipocrisia europeia deixa muito a desejar. Num momento em que se colocam em causa os princípios europeus que estiveram na génese da União Europeia (o seu futuro, a sua solidariedade entre Estados Membros, os seus fundamentos), numa altura em que a Islândia revê a sua posição de adesão, numa altura em que a UE não consegue cativar a Suíça nem a Noruega, numa altura em que ainda está por definir uma posição política em relação à zona dos Balcãs, numa altura em que crescem as diferenças sociais e económicas entre os Estados Membros, numa altura em que o futuro da zona euro é questionável, a União Europeia nada tem a ganhar com esta crise na Ucrânia. E é, por isso mesmo, criticável a forma como tem gerido e se tem posicionado neste processo, criando uma falsa ilusão ao povo ucraniano. O que a União Europeia está a preparar é mais uma derrota política ao dividir a Ucrânia, sendo certo que nessa divisão a melhor fatia (a zona sul do país, envolvente ao Mar Negro, mais industrializada e mais produtiva) é claramente pró-Russa.
Seria muito melhor que a União Europeia se preocupasse com os impactos e os “danos colaterais” que toda esta crise na Ucrânia possa provocar no seu seio: basta recordar os muito recentes manifestos independentistas da Catalunha e da Escócia. E não serão meras ameaças.

A este propósito importa recordar (e ler) o que o João Pedro Dias publicou na edição de ontem do Diário de Aveiro: "O Referendo Ilegal".

publicado por mparaujo às 17:01

12
Mar 14

publicado na edição de hoje, 12 março, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
A Leste... nada de novo.
Na análise ao conflito na Ucrânia, com extensão actual à Crimeia, há quem queira retomar a história com as invasões da (na altura) Checoslováquia (a célebre, Primavera de Praga) ou do Afeganistão; e há quem relembre, mais recentemente, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, contrapondo-se, assim, posições pró e contra. Invasão é sempre invasão… facto.
A Rússia tem interesses geopolíticos, geoestratégicos na região. Os Estados Unidos, sob a capa das armas de destruição maciça fantasmas, tinham óbvios interesses geopolíticos, geoestratégicos e económicos no médio oriente, aquando da invasão do Iraque, muito para além da questão do combate ao terrorismo. Empate.
O que deixa uma maior incerteza e preocupação quanto ao futuro é que a União Europeia não vai ter coragem para o confronto, mesmo que político e diplomático, com a Rússia; os Estados Unidos (e a NATO), para além da demagogia geopolítica, não servem de exemplo em relação à violação do direito internacional e não se sujeitarão a retomar os tempos da guerra fria. A Ucrânia fica, assim, entregue às suas próprias mãos e aos seus destinos, agudizando o conflito político e social entre pró-europeus e pró-russos.
Na guerra diplomática da condenação da violação do direito internacional, Estados Unidos e União Europeia são céleres a condenar a Rússia pela “invasão” da Crimeia. Diz o ditado que “quem tem telhados de vidro não deve atirar pedras ao telhado do vizinho”. E são muitos os telhados de vidro, esquecendo-se a “natural” (mesmo que não justificável) posição geopolítica e geoestratégica da Rússia naquela zona, o passado histórico-político da URSS e os “motivos semelhantes” que sustentaram outras acções por parte da UE e dos Estados Unidos (sob a NATO). Mas há ainda outro facto. A Rússia, com a “justificação” dos acordos celebrados com a Ucrânia e com a “defesa” das suas bases militares no Mar Negro, entrou pela Crimeia a dentro. Para o “ocidente” tal significa uma clara violação do direito internacional e uma evidente invasão de um Estado independente e soberano. Até aqui, parece óbvio. Mas tal como a Rússia que pretende defender os seus interesses, a mesma “violação” da independência e soberania da Ucrânia não é colocada em causa quando Estados Unidos e União Europeia aliciam e chantageiam com os 11 mil milhões de euros prometidos ao país (e que tão urgentemente precisa), bem como a pressão de uma adesão apressada e forçada à União Europeia até 21 de março?
Neste conflito há uma hipocrisia e um jogo do “faz-de-conta” (ou um bluff diplomático) evidentes e no qual muito poucos acreditarão: as ameaças de sanções da União Europeia e dos Estados Unidos à Rússia. Aliás, a questão é tão mal disfarçada que as ameaças não passam disso mesmo… puras ameaças políticas, sem quaisquer consequências.
Dando de “barato” a Ucrânia ou parte dela (se a isso obrigados), a Rússia defenderá a todo o custo, na Crimea (e no Mar Negro), os seus interesses políticos (regionais) e, principalmente, militares. É óbvio que as movimentações de Putin neste conflito não são, apesar da ausência (para já) do uso da força ou da violência, inocentes e não se escondem apenas na defesa dos legítimos interesses geopolíticos e geoestratégicos na Crimeia (porque em relação à Ucrânia estão já quebrados os protocolos e acordos que existiam, deixando o país à beira de um colapso e abismo financeiro). Ao colocar as suas forças em alerta na defesa dos pontos estratégicos russos naquela Região Autónoma, a “pressão militar” resultou já nos seus frutos. E enquanto a Ucrânia vai perdendo a “guerra”, Putin vai ganhando batalha a batalha. O parlamento (conselho regional) da República Autónoma da Crimeia aprovou a reunificação da Crimeia com a Rússia estando agendado um referendo (quanta democracia…) para decisão popular. Recorde-se que o governo desta região autónoma da Ucrânia não reconheceu o novo governo interino ucraniano e manifestou-se, desde de sempre, ao lado do presidente deposto (Ianukovich). Tudo isto deverá fortalecer Putin, relembrando o que foi o papel da Crimeia na própria história do leste: derrota do império Otomano e a dependência do Império Russo, no século XVIII; a guerra de sucessão e expansionismo russo – Guerra da Crimea e o Tratado de Paris em 1856 - no século XIX; a sua relevância estratégica na Segunda Guerra Mundial, com a pesada derrota para os invasores alemães (o que não deixa de ser curioso face à pública posição alemã no actual conflito); a supremacia da URSS e a “razia étnica” dos Tártaros, durante liderança de Brejnev, sendo substituídos por cidadãos russos. Principalmente este último aspecto da história da Crimea traz um dado importante para o processo e para o anunciado referendo sobre a reunificação: 60% dos cerca de dois milhões de habitantes da Crimeia são russos. Se dúvidas houvesse…
Por fim, sendo certo que os “cenários de guerra” são, hoje, totalmente distintos (mesmo em relação à Guerra do Golfo) é bom recordar que, este ano de 2014, a história completa 100 anos após os acontecimentos que levaram à I Guerra Mundial (28 de julho de 1914). Por curiosidade…

publicado por mparaujo às 13:24

11
Mar 14

Numa altura em que começam a acelerar as movimentações políticas em torno das eleições europeias de maio próximo e do sucessor de Durão Barroso, a União Europeia vai perdendo credibilidade e peso político na gestão diplomática do conflito na Ucrânia.
A braços com a necessidade de recuperação financeira; com o aumento das diferenças entre os membros mais ricos, os menos ricos e os que se encontram sob resgate externo; com a perda de solidariedade e união políticas entre os países membros criando a maior crise (ou uma das maiores) política na UE desde a sua criação; com países a colocarem em causa a sua adesão à UE e a repensarem as sua opções políticas (como o caso da Islândia); com Durão Barroso a tomar uma posição pública desfavorável a uma eventual adesão à UE por parte de uma Escócia independente; o mesmo em relação a uma Catalunha independentista... o certo é que a União Europeia tem andado a "piscar o olho" à Ucrânia. Aproveitando a actual crise política e o crescendo número de ucranianos pró-europeus, a UE teve o "desplante" de enfrentar a geopotência Russa.
Mas a questão é a de que se afigura uma derrota europeia neste conflito. Primeiro pela situação da Crimeia e da vantagem que a Rússia tem. Segundo porque a adesão da Ucrânia (ou parte dela) à NATO criaria um conflito diplomático acentuado e grave com a Rússia. Terceiro porque a divisão (e o seu fomento) entre cidadãos (e governo interino) pró-europeus e pró-russos levará, para além de um eventual agudizar dos confrontos e da violência, a uma divisão da Ucrânia em duas partes. Este retalhar da Ucrânia poderá significar a perda considerável do impacto da adesão daquele país à União Europeia: a sua forte produção industrial e um número significativo de cidadãos - cerca de 50 milhões.
Por isso não se afigura como a melhor estratégia o confronto diplomático com a Rússia, o aliciar a Ucrânia com 11 mil milhões de euros (sem se terem em conta que contrapartidas serão exigidas aos ucranianos) ou tomadas de posição públicas não concertadas como as declarações avulsas do ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, José Manuel García-Margallo, que prometeu que "nenhum dos 28 Estados membros da UE reconhecrá o referendo na Crimeia".

Enquanto isso o dado mais que certo é a Ucrânia perder a Crimeia para a Rússia (mesmo que sob um referendo "forçado") e, na eventualidade de uma divisão territorial do país a Rússia ficar com a "melhor parte".

Lá diz o ditado: "quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é burro ou não tem arte". De "burro" a Rússia não tem nada e falta de "arte" é algo que não se lhe reconhece.

publicado por mparaujo às 14:41

07
Mar 14

No conflito e crise da Ucrânia há uma hipocrisia e um jogo do “faz-de-conta” (ou um bluff diplomático) perfeitamente evidente e no qual muito poucos acreditarão: as ameaças de sanções da União Europeia e dos Estados Unidos à Rússia. Aliás, a questão é tão mal disfarçada que as ameaças não passam disso mesmo… puras ameaças políticas, sem quaisquer consequências.
Dando de “barato” a Ucrânia ou parte dela (se a isso obrigados), a Rússia defende na Crimea (e no Mar Negro, zona estratégica na região norte dos Balcãs) os seus interesses políticos (regionais), económicos e, principalmente, militares. Os mesmos princípios, mesmo que camuflados, que serviram de fundamentação aos Estados Unidos, União Europeia, NATO, para intervenções militares em diversos locais.
Tirando esta troca de galhardetes diplomáticos, ninguém esperará que a NATO tenha qualquer intenção de correr sérios riscos de intervenção militar na região (em conflito com a Rússia), ou que a Rússia tenha qualquer receio das pressões políticas americanas ou europeias.
Além disso, a pressão da Europa apenas servirá como “alimento (e alento) político” para uma viragem pró-europeia dos destinos da Ucrânia, dando substância ao desejo da, agora, posição ucraniana de uma eventual entrada na UE.
Tal como referido no post anterior, “A Leste… nada de novo (3)” este sentimento samaritano da União Europeia não é, em si mesmo, isento de crítica. À custa de uma suposta libertação da tirania interna e da influência russa, a Ucrânia não se livrará de uma liberdade condicionada ao jugo da tirania económica e da “prisão” do mercado financeiro.
Mas é igualmente óbvio que as movimentações de Putin neste conflito não são, apesar da ausência (para já) do uso da força ou da violência, inocentes e não se escondem apenas na defesa dos legítimos interesses geopolíticos e geoestratégicos na Crimeia (porque em relação à Ucrânia estão já quebrados os protocolos e acordos que existiam, deixando o país à beira de um colapso e abismo financeiro).
Ao colocar as suas forças em alerta na defesa dos pontos estratégicos russos na Crimeia, a “pressão militar” resultou já nos seus frutos. E enquanto a Ucrânia vai perdendo a “guerra”, Putin vai ganhando batalha a batalha. O parlamento (conselho regional) da República Autónoma da Crimeia aprovou a reunificação da Crimeia com a Rússia estando agendado um referendo (quanta democracia…) para decisão popular. Recorde-se que o governo desta região autónoma da Ucrânia não reconheceu o novo governo interino ucraniano e manifestou-se, desde de sempre, ao lado do presidente deposto (Ianukovich). No entanto, tudo isto não deverá preocupar Putin, até pelo que foi a história da Crimeia na própria história do leste: derrota do império Otomano e a dependência do Império Russo, no século XVIII; a guerra de sucessão e expansionismo russo – Guerra da Crimea e o Tratado de Paris em 1856 - no século XIX; a sua relevância estratégica na Segunda Guerra Mundial, com a pesada derrota para os invasores alemães (o que não deixa de ser curioso face à pública posição alemã no actual conflito); a supremacia da URSS e a “razia étnica” dos Tártaros, durante liderança de Brejnev, sendo substituídos por cidadãos russos. Principalmente este último aspecto da história da Crimea traz um dado importante para o processo e para o anunciado referendo sobre a reunificação: 60% dos cerca de dois milhões de habitantes da Crimeia são russos. Se dúvidas houvesse…

publicado por mparaujo às 16:44

05
Mar 14

Na guerra diplomática da condenação da violação do direito internacional, Estados Unidos e União Europeia são céleres a condenar a Rússia pela “invasão” da Crimeia.
Diz o ditado que “quem tem telhados de vidro não deve atirar pedras ao telhado do vizinho”. E são muitos os telhados de vidro, esquecendo-se a “natural” (mesmo que não justificável) posição geopolítica e geoestratégica da Rússia naquela zona, o passado histórico-político da URSS e os motivos “semelhantes” que sustentaram outras acções por parte da UE e dos Estados Unidos (sob a NATO).
Mas há ainda outro facto. A Rússia, com a “justificação” dos acordos celebrados com a Ucrânia e com a “defesa” das suas bases militares no Mar Negro, entrou pela Crimeia a dentro. Para o “ocidente” tal significa uma clara violação do direito internacional e uma evidente invasão de um Estado independente e soberano.
Até aqui, parece óbvio.
Mas tal como a Rússia que pretende defender os seus interesses, a mesma “violação” da independência e soberania da Ucrânia não é colocada em causa quando Estados Unidos e União Europeia aliciam e chantageiam com os 3,3 mil milhões de euros que o país, urgentemente, precisa? A que troco? Simplesmente pela caridade e misericórdia?
E isto ainda vai acabar (muito) mal.

publicado por mparaujo às 15:45

A situação que se vive na Ucrânia, com extensão actual à Crimeia, ultrapassa as fronteiras da região.
Há quem retome a história com as invasões da (na altura) Checoslováquia (a célebre, Primavera de Praga) ou do Afeganistão.
Há quem relembre, mais recentemente, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos.
A Rússia tem interesses geopolíticos, geoestratégicos e económicos na região, muito para além da questão das bases militares.
Os Estados Unidos, sob a capa das armas de destruição maciça fantasmas, tinha óbvios interesses geopolíticos, geoestratégicos e económicos no médio oriente, aquando da invasão do Iraque, muito para além da questão do combate ao terrorismo.
Invasão é sempre invasão… facto.
O que deixa uma maior incerteza e preocupação quanto ao futuro é que a União Europeia não vai ter coragem para o confronto, mesmo que político e diplomático, com a Rússia; os Estados Unidos (e a NATO), para além da demagogia geopolítica, não servem de exemplo em relação à violação do direito internacional e não se sujeitarão a retomar os tempos da guerra fria.
A Ucrânia fica, assim, entregue às suas próprias mãos e aos seus destinos, agudizando o conflito político e social entre pró-europeus e pró-russos.
E isto ainda vai acabar (muito) mal.

publicado por mparaujo às 15:16

Assim é difícil, RTP.
Factos prévios:
1. Defendo a RTP como estação pública.
2. Tenho assumido, publicamente, a defesa dos profissionais da RTP e dos momentos complicados que têm vindo a viver nestes dias conturbados do grupo da estação pública de televisão e rádio.
3. São muitas as vozes críticas em relação à continuidade da RTP como empresa pública e significativas as vozes que se posicionam a favor da sua privatização. Entre os principais argumentos encontram-se os custos e encargos de gestão da empresa.
Agora, o contexto…
A RTP tem, à data, um correspondente na zona leste da europa, Rússia: Evgueni Mouravitch. E têm sido as intervenções do referido jornalista que vão relatando, desde a primeira hora, os acontecimentos na Ucrânia.
Independentemente da “paz ou acalmia aparentes”, da incerteza quanto ao futuro do país, da “invasão” russa na Crimeia, a verdade é que, para já (e por enquanto), os tempos de tensão e violência vividos nos primeiros momentos da contestação e das manifestações parecem ter acalmado.
Regista-se agora a “guerra” política-diplomática, a da geopolítica e geoestratégica envolvendo a Urcânia, as suas forças políticas, a Crimeia, a Rússia, a NATO, os Estados Unidos e a União Europeia.
E a pergunta impõe-se: como justificar (e apoiar) o envio de um jornalista da RTP (ao caso, José Rodrigues dos Santos) para a região? Como justificar, para além da vertente jornalística (estando lá o Evgueni Mouravitch), esta decisão da RTP do ponto de vista financeiro?
Assim, parece-me, fica difícil contrapor e contrariar os argumentos de quem é pró-privatização do Grupo RTP.
Não se percebe…

publicado por mparaujo às 14:49

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