Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

02
Mai 17

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O movimento "Plataforma Cidades", sediado em Aveiro desde 2003, com a coordenação do Arq. Pompílio Souto, vai promover amanhã, dia 3 de maio, um novo momento de reflexão cívica sobre urbanidade, tendo como objectivo a identificação do que possa ser decisivo para qualificar a vida urbana e o que possa constituir o (essencial) do caderno de encargos da acção futura da Plataforma.

O evento, sobre o mote "Duas ou três coisas boas para a cidade", terá lugar amanhã, 3 de maio, no Auditório Atelier Pompílio Souto, na rua Dr. Nascimento Leitão, 28 (em frente ao Hotel Imperial), em Aveiro, a partir das 19:30 horas (a inscrição no jantar e debate tem o custo de 11 euros e pode ser efectuada em plataformacidades@gmail.com ).

Nesta iniciativa é mais um exemplo da importância da participação cívica de todos nas suas comunidades e nos seus grupos. No caso concreto, as reuniões da "Plataforma Cidades" procuram suscitar reflexões sobre o espaço público, sobre o espaço urbano, sobre a qualificação territorial em todas as suas vertentes, sobre a vida (ou as vidas) das comunidades, com vista à construção de uma "cidade" (comunidade) mais fortalecida e enriquecida.

Paralelamente ao debate e à reflexão será inaugurada a exposição fotográfica "Caligrafias na Água", da autoria do Arq. Jorge Freitas Costa (natural do Porto e residente em Aveiro desde 1987). O momento da inauguração será complementado com declamação poética de Isabel Pinto sob extractos do álbum Water, da pianista
Hélène Grimaud, e será comentada pelo Prof. Doutor Aníbal Lemos, da Universidade Europeia e do IADE da
Universidade de Lisboa.
A exposição é pública e poderá ser visitada de segunda (10:00 - 2:00 horas) a sábado (10:00 - 17:00 horas).

publicado por mparaujo às 15:21

18
Jan 17

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publicado na edição de hoje, 18 de janeiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

De novo… a cidadania e as cidades

O assunto foi abordado pelo Primeiro-ministro, em finais de 2016, aquando da realização, na Póvoa do Varzim do XX Congresso da Juventude Socialista. No discurso proferido aos jovens socialistas congressistas António Costa afirmou que «não há futuro para as nossas cidades se o centro dessas cidades não for reocupado pela vossa geração que é a geração que tem de ter oportunidade para viver no centro da cidade que é onde podemos construir o futuro para todos nós». Com esta afirmação surgem de novo as temáticas da degradação social (económica e demográfica, por exemplo) e urbana (edificado, reabilitação) dos centros das cidades e, ainda, questões ligadas às responsabilidades de cidadania e do Poder Local.

Já por diversas vezes foi mote nestas páginas a defesa do princípio de que, mais do que qualquer outra vertente ou válido conceito, a recuperação dos centros das cidades, das chamadas zonas históricas (no seu sentido lato), só faz sentido, só terá impacto e sucesso, se as pessoas voltarem a viver (e a conviver) nesses espaços urbanos. São os casos concretos aveirenses da Rua Direita e suas envolventes, da zona do Alboi, do bairro da Beira Mar e, obviamente, da cada vez mais desertificada Avenida.

Podemos falar do “estado de alma” do chamado comércio tradicional que proliferou durante muitas décadas nestas zonas dos centros urbanos, umas mais típicas, outras mais históricas; podemos acrescentar a esta anterior vertente a maior ou menor quantidade de oferta de serviços (públicos ou privados) e as suas interferências nestes espaços; podemos falar sobre os impactos, positivos ou negativos, do crescimento (em muitos casos excessivos) do turismo local que tem sido relevante para a estagnação de muito do edificado mas que traz alguns problemas à descaracterização social destes centros; podemos, também, abordar a problemática (porque é, de facto, um problema) da reabilitação urbana e do espaço público; podemos, por último, avaliar os impactos que medidas e projectos de socialização, mais ou menos esporádicos e pontuais, possam ter na revitalização dos centros urbanos; mas a verdade é que sem as pessoas, principalmente, sem as pessoas voltarem a habitar e a dar vida, diária e permanente, a estas zonas emblemáticas das identidades das cidades, tudo não passará de exercícios pontuais, esporádicos, ou de medidas de cosmética.

Deste modo, a questão da requalificação urbana tem mais significado e relevância, numa responsabilidade partilhada entre o Poder Local (aplicação de medidas e políticas como os planos urbanos inseridos nos PEDUs e/ou ARUs, no caso concreto de Aveiro os recém aprovados PEDUCA e ARU) e a responsabilidade de cada cidadão, nomeadamente os proprietários de imóveis, investidores e comerciantes. Não basta, a estes últimos exigir que as cidades sejam devolvidas às pessoas se não houver corresponsabilização no seu cuidado, na sua gestão, no seu desenvolvimento.

Será, neste sentido de responsabilidade cívica e de pleno exercício de cidadania, sem que os cidadãos estejam constante e permanentemente à espera ou dependentes dos poderes locais e centrais, que se aguarda por uma iniciativa inédita em Aveiro e que será realizada a 4 de Fevereiro: o Aveiro Soup, sob o lema “Mudara a cidade, Sopa a Sopa”. Este recente exercício pleno de cidadania (que teve a sua origem há seis anos nos Estados Unidos, em Detroit) tem como objectivo a apresentação, num jantar simples e informal, de quatro projectos com impacto na cidade e na sua comunidade (previamente escolhidos por um colectivo de personalidades ligadas às áreas científicas, empresariais, sociais e culturais) que serão avaliados pelos presentes e destes seleccionado/votado um que será implementado.

Apesar de desconhecer por completo os quatro projectos a serem apresentados, este poderia ser um excelente e interessante momento para que possam surgir propostas sólidas para se revitalizar os vários centros urbanos da cidade de Aveiro. Que seja uma boa “sopa” de ideias e de cidadania.

publicado por mparaujo às 10:48

29
Jun 16

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publicado na edição de hoje, 29 de junho, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Faltam pessoas

Há, a nível nacional, nomeadamente nos principais, tradicionais e históricos centros urbanos das grandes cidades e das cidades médias portuguesas, uma patologia grave e comum: a sua descaracterização, a sua desertificação, o seu abandono, a sua degradação. E esta patologia, ou patologias, tem a sua sustentação no decréscimo ou abandono das actividades económicas e comercias, das tradições, da história, da vida comunitária e social. Esta é uma realidade que se acentuou na última década, é generalizada a vários pontos do país, já por diversas vezes referenciada, seja na comunicação social, seja por diversas entidades. Não é recente, nem novidade, a referência ao centro histórico e tradicional do Porto, aos bairros típicos de Lisboa, à “baixa” de Coimbra, etc. Aveiro não foge à (infeliz) regra. Basta recordar as diversas referências, neste aspecto, à Avenida Dr. Lourenço Peixinho, a algumas zonas do bairro da Beira Mar ou à tão repetida Rua Direita e zonas envolventes (Praça Marquês do Pombal, Bairro do Alboi - apesar da requalificação - Rua Belém do Pará e Gustavo Ferreira Pinto Basto).

Ao longo dos tempos, por diversas razões, estes centros foram perdendo a sua vitalidade, a sua identidade, a sua referência urbana ou a sua actividade comercial, deteriorando-se o património, o espaço público e acentuando a desertificação. Mudaram-se serviços, alterou-se a sua identidade e referência comercial, perderam-se as pessoas. E é essencialmente neste aspecto eu se torna mais notória a degradação dos centros urbanos: a ausência das pessoas. Seja pelo abandono dos espaços habitacionais, seja pela falta de pontos de referência (serviços, comércio, cultura). No caso da Rua Direita e da Avenida é evidente a degradação comercial, patrimonial e a desertificação: fecharam serviços (muitos), fechou comércio que, apesar de tradicional, era referência, as pessoas deixaram de habitar estes locais. Apesar da realidade é de louvar e registar a resistência e a motivação que leva os poucos moradores e comerciantes desta zona a não baixarem os braços, a lutarem contra o “destino”, contra a corrente, a promoverem o espaço público, as tradições e o sentido de comunidade e bairro, entretanto perdidos no tempo. Iniciativas como as que são proporcionadas pelo projecto Vivó Bairro, sustentadas na vontade dos cidadãos e alicerçadas em sólidas e importantes parcerias (Câmara Municipal de Aveiro, Universidade de Aveiro, etc.) são importante para a vitalidade dos centros urbanos, apara a mobilização das comunidades e dos bairros. Mas ainda mais… são importantes contributos para que se pense, se planeia, se estruture o território urbano. E neste aspecto é importante que os projectos que se desenvolvam ou as acções que se promovam tenham na sua estruturação uma condição fundamental: a construção de um território (bairro) ou de uma comunidade não se faz sem pessoas, sem que haja quem habite espaços, sem que haja quem procure o espaço público, sem que haja um foco gerador de movimentos e fluxos. Mesmo que tal implique alterações nas identidades e características destes centros e bairros.

Em Lisboa, a título de exemplo, tem havido publicamente alguma crítica à forma como se tem requalificado alguns bairros tradicionais e típicos da capital. Acusam os críticos que os bairros têm sofrido um acréscimo e um fluxo de pessoas sem raízes, visitantes ou turistas, que provocam uma rotação populacional que descaracteriza aquelas zonas. Mas a verdade é que a recuperação do património imobiliário em espaços de alojamento turístico local teve três aspectos que importa destacar: a recuperação e reabilitação urbana; o combate à desertificação; o combate à degradação dos imóveis que no caso de arrendamento não se afigurava possível. No fundo, o repensar uma nova identidade para aquelas zonas tradicionais de Lisboa permitiu dar uma nova vida aos bairros e às comunidades.

O que é importante é que as pessoas voltem a habitar os centros urbanos, preencham e vivam aqueles espaços públicos, permitindo, dessa forma, a revitalização das tradições, do comércio e da vivência comunitária, preservando o património e combatendo a desertificação e a degradação urbanas.

Que vivam os bairros.

publicado por mparaujo às 10:41

24
Nov 14

publicado na edição de ontem, 23 de novembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
A Rua Direita: volta, não volta…

A problemática, a que se acresce alguma complexidade, da Rua Direita, “volta, não volta” é tema de abordagem pública. Desta vez numa recente sessão da Assembleia Municipal.
É, por inúmeras razões, um tema que suscita sempre alguma polémica e reacção dos aveirenses. Pessoalmente, por razões de afinidade geográfica à zona onde passei a infância, adolescência e juventude (cerca de 30 anos) há um sentimento nostálgico, mas há também a vertente social, económica e urbana da realidade. Daí que tenham sido já alguns os textos alusivos àquela área da cidade de Aveiro. Mas tendo sido o tema de novo trazido à ribalta, importa também, e de novo, abordar. Ponto de partida relevante: a Rua Direita (e a sua envolvente: Rua Gustavo Ferreira Pinto Basto, Rua de Belém do Pará, Praça da República, Praça Marquês de Pombal, Rua 31 de Janeiro e Rua Capitão Sousa Pizarro) já não é o que era. É mesmo caso para dizer que a tradição deixou de ser o que era.
A actual realidade apresenta-nos uma zona, anteriormente vital no comércio e serviços da Cidade, com alguma degradação urbana; despejada de muito do que foi a energia do comércio tradicional aveirense, com vários estabelecimentos comerciais encerrados; esvaziada da grande, ou quase totalidade, actividade de serviços públicos (e não só). Ou seja… a Rua Direita, outrora, o coração ou o pulmão do centro urbano da cidade é hoje um desalento e um desconforto para quem a atravessa. Mas mais que “chover no molhado” ou “chorar sobre o leite derramado” há que olhar para aquela importante zona do centro urbano e tentar perceber que soluções podem ser encontradas para revitalizar e reabilitar aquela área. Porque a realidade que se vive actualmente é fruto da dinâmica da sociedade, da dinâmica das cidades e do seu espaço urbano. Aliás, algo que acontece nos centros urbanos históricos das grandes cidades, como no caso de Lisboa. Ou ainda, ter a consciência que as centralidades urbanas já não são tão fixas e vitalícias como o eram há algumas décadas.
Então, que soluções se podem preconizar para aquele espaço importante da cidade? Primeiro, perceber que as alterações das relações comerciais entre comércio e cidadãos se alterou profundamente com a chegada dos centros comerciais, dos hipermercados e do Forum (esta é uma realidade económica do mercado). Depois, a própria diminuição do poder de compra dos cidadãos provocou a procura de outras alternativas de consumo.
Não é com o regresso da circulação automóvel (a pedonalização da artéria foi, e afigura-se, como uma excelente iniciativa) que se dá vida à Rua Direita. Isso comporta questões ambientais e de mobilidade acrescidas e problemáticas. E nem do ponto de vista comercial se vislumbra que traga quaisquer benefícios. Por outro lado, se é certo que a saída dos vários serviços públicos daquela zona (embora mantendo-se o Tribunal, a PSP e os CTT, saíram os serviços camarários e as finanças), pelas exigências e dimensão dos mesmos nos dias de hoje, esses serviços públicos não têm condições para o regresso àquele espaço (não há condições físicas para o regresso das finanças, da autarquia, ou a transferência da “loja do cidadão”, entre outros).
A Rua Direita necessita de ser repensada em termos de intervenção urbana, de redefinição das suas ofertas enquanto espaço público (que podem não passar pelo comércio), de se promoverem acções para que volte a ser um espaço atractivo, com acções culturais mais permanentes e menos esporádicas.
E como qualquer espaço urbano ele só faz sentido com e para as pessoas. Sem isso é um espaço urbano sem vida, sem realismo, sem objectivo.

publicado por mparaujo às 18:06

26
Mar 14

publicado na edição de hoje, 26 março, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Da urbanidade à dimensão regional.
É indiscutível que, neste período pós-eleitoral (apesar dos cerca de seis meses que decorreram desde as eleições autárquicas de setembro de 2013), têm sido significativos os projectos e os planos para o desenvolvimento de Aveiro, quer a nível local, quer a nível regional. Independentemente do que foi feito ou ficou por fazer, são mais que naturais e legítimas as perspectivas que se criam quando há mudanças na gestão municipal.
A nível local, excluindo, por razões óbvias, questões da gestão interna municipal, regressam à agenda pública aveirense temas que preocupam os aveirenses e naturalmente a autarquia: são os exemplos da reabilitação urbana, como a Rua Direita, a Avenida, a zona nascente da Estação, os edifícios devolutos na zona da Beira Mar e na envolvente ao Alboi; são os exemplos ao nível da mobilidade, como o estacionamento, o trânsito, os transportes públicos, os projectos/campanhas de mobilidade saudável (pedonal e ciclável); são os exemplos da promoção do turismo, como a anulação da taxa turística nos passeios de moliceiro na Ria (embora se espere substituída por outro tipo de receitas, já que o que está em causa é a utilização, para fins privados, de um bem e espaço público, tal como se paga o imposto de circulação automóvel, por exemplo) ou ainda a potencialidade que abarca a zona lagunar da antiga Lota e das marinhas envolventes às duas margens do antigo Porto Comercial (zona Tir/Tif); são os exemplos relacionados com a vertente cultural e a promoção do património histórico da azulejaria e cerâmica aveirenses, por exemplo, com o aproveitamento do edifício da antiga Estação, de promoção da identidade gastronómica aveirense, e da promoção da sua identidade relacionada com a Ria e o Sal; são os exemplos na vertente ambiental potenciando espaços com capacidade de implementação de um novo Parque da Cidade como é toda a zona a sul entre Centro de Congressos/Av. 25 de Abril e a EN109; são os exemplos na saúde como a falta das Unidades de Saúde Familiar de Esgueira, Cacia e S. Bernardo. Para além disso, é ainda o exemplo da necessidade de se atrair investimento que desenvolva económica e socialmente Aveiro, como a reabilitação das três zonas industriais (Cacia, Taboeira e Mamodeiro). Há, portanto, espectativas, sonhos e projectos aveirenses mais que suficientes para que, com a vontade de todos, Aveiro tenha qualidade de vida sustentável e atractiva.
Mas a realidade dos contextos locais/municipais dos dias de hoje já há algum tempo que perderam as suas fronteiras e limites. A dimensão regional tem um peso extremamente significativo no desenvolvimento ou estagnação dos municípios que a constituem. E nesta área há questões verdadeiramente importantes e prementes. Mesmo que a realidade não seja, de todo, optimista. Basta recordar a interessante peça publicada no Diário de Aveiro do passado domingo (23 de março), da jornalista Maria José Santana, em que retrata a perda de serviços públicos na região de Aveiro desde 2000: escolas, centros de saúde, tribunais, direcções regionais, repartições de finanças, o que referencia Aveiro como a quarta região que mais organismos públicos perdeu na última década.
Mas Aveiro tem todas as potencialidades para, através da sua região, regressar à merecida referência no mapa regional a nível nacional. Para tal, com todo o significativo esforço que se exigirá aos aveirenses, às entidades privadas, às públicas (como a Universidade, a CIRA, as autarquias, o Porto de Aveiro), Aveiro tem de manter vivas as suas bandeiras do desenvolvimento e do bairrismo político: um Centro Hospital do Baixo Vouga de referência; a gestão regional da Ria e do Baixo Vouga ao nível ambiental, económico e turístico; a ligação rodoviária Aveiro-Águeda; o fim da cobrança das portagens na cintura externa nos quatro pórticos (estádio, Angeja, acesso à A1/A29, Oliveirinha/S.Bernardo; a ligação ferroviária Aveiro-Salamanca que permitirá, entre outros, a afirmação nacional do Porto de Aveiro e o desenvolvimento económico e industrial; ou ainda a intermunicipalização, já há vários anos discutida, dos transportes públicos, não apenas rodoviários (vulgarmente, autocarros) como no caso da reabilitação da Linha do Vouga.
Como se pode ver Aveiro precisa de muito trabalho que não cabe, obviamente, apenas na esfera política, nem demarcado por limites temporais dos mandatos autárquicos. Mas que se afigura urgente, parece claro, a menos que os aveirenses se sintam bem dependentes de outros actores políticos e de outras regiões. Para sermos pequeninos basta estarmos quietinhos.

publicado por mparaujo às 09:41

05
Fev 14
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publicado na edição de hoje, 5 de fevereiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Olhares sobre Aveiro

Vem a propósito a lembrança das mensagens da última campanha eleitoral autárquica e do discurso de tomada de posse (devidamente tornado público) do actual Executivo camarário.

É, para já, notório o cumprimento de um dos pilares anunciados no período eleitoral e reforçado na tomada de posse: recolocar Aveiro como referência de uma região. Presidência da CIRA, vice-presidência da ANMP, relançamento da plataforma A25, integração do grupo europeu do poder local, entre outros. Resta esperar pelos resultados e impactos que isso possa trazer para Aveiro.

Sendo certo que a reorganização interna de todo o universo municipal está pendente das conclusões da auditoria interna, prevendo-se que os seus resultados possam ser conhecidos ao longo deste primeiro semestre do ano; já o desenvolvimento social e económico, e a qualificação urbana estão dependentes do resultado do esforço anunciado para este primeiro ano de mandato no que diz respeito à recuperação e equilíbrio financeiro das contas do Município.

No entanto, volvidos os primeiros 100 dias de mandato autárquico e porque foi determinação expressa pela autarquia acolher as vontades dos aveirenses, as suas sugestões e os seus “olhares” sobre a sua cidade e o seu concelho, resta-me, nessa qualidade, devolver um conjunto de reflexões que foram, por diversas vezes, ao longo de oito anos do “Debaixo dos Arcos”, repetidamente expostas e consideradas relevantes para o desenvolvimento local e a qualidade de vida em Aveiro.

Do ponto de vista da qualificação urbana Aveiro tem carências significativas. Há duas áreas que são vitais: revitalizar, quer do ponto de vista social, quer económico, quer, essencialmente, urbano (espaço público e edificado) o centro da cidade – Rua Direita e Avenida. Mas há ainda a zona a nascente da Estação (entre o túnel e a E.N.109) que urge promover a sua urbanização; a zona da antiga Lota (agora já fora do programa do Pólis da cidade) onde poderia, com uma qualificação urbana e ambiental coerente e consistente, surgir uma marina e equipamentos complementares (lazer, turismo e ciência/educação ambiental) aproveitando ainda toda a zona lagunar e as marinhas/salinas; a zona sul do plano pormenor do centro (toda a área entre o cruzamento para S. Bernardo e o pavilhão do Galitos) onde esteve planeado o novo parque da cidade, qualificando ambientalmente toda aquela área a sul da avenida 25 de Abril (entre esta e a E.N.109) proporcionando uma melhor qualidade de vida aos aveirenses com mais espaço verde e de lazer; e, por fim, a zona a norte das Barrocas, a área das Agras do Norte, entre Esgueira e a A25, requalificando urbanisticamente todo aquele espaço “abandonado”, permitindo o crescimento da cidade.

Mas o desenvolvimento de Aveiro não estará apenas compaginado à vertente urbanística. A cidade precisa, urgentemente, de um planeamento ao nível da mobilidade, integrado e sustentável, com impactos na vertente pedonal, ciclável, da promoção do transporte público (seja ele municipal ou concessionado), do estacionamento e do ordenamento do trânsito (nomeadamente na zona da Vera Cruz).

Por outro lado, Aveiro não pode esquecer o seu património, quer por razões históricas e sociais (identidade colectiva), quer por questões económicas (turismo, por exemplo). Primeiro o seu património histórico, cultural e social, porque o presente e o futuro não se constroem renegando o passado. Seja a gastronomia, a azulejaria (a falta que faz o museu do azulejo), o sal, entre outros, Aveiro precisa de investir na sua preservação e promoção. Segundo, o seu património natural, inserido na região, como são os casos da Ria de Aveiro e das salinas/marinhas. Do ponto de vista turístico, não temos muito mais para projectar e “vender” para captar visitantes e receitas, sem esquecer a tão desaproveitada praia de S. Jacinto, a única praia do concelho.

Terceiro, do ponto de vista do património ambiental, são necessários projectos que promovam a Ria, a zona lagunar do Baixo Vouga, o retomar do projecto do Rio Novo do Príncipe (ao nível ambiental, turístico e desportivo) e a reserva ambiental de S. Jacinto.

Por fim, Aveiro precisa de promoção cultural, de vida nos espaços públicos que traga uma maior qualidade de vida e bem-estar aos aveirenses. As poucas e parcas praças que temos na cidade, Rossio, Melo Freitas, Marquês de Pombal, precisam de dinamismo, de vida, de animação, que promova o convívio, a cultura, entre os aveirenses.

É óbvio que nem tudo poderão ser prioridades, nem tudo poderá ser equacionado, face às contingências económicas do país e da autarquia. Mas, pelo menos, espero que não sejam esquecidas estas realidades, umas mais relevantes que outras, com impacto no desenvolvimento de Aveiro. Fica o contributo.

publicado por mparaujo às 09:43

11
Ago 13

Publicado na edição de hoje, 11 de agosto, do Diário de Aveiro.

Cagaréus e Ceboleiros

Regeneração histórico-cultural

Há duas semanas a menção neste espaço recaiu sobre o Sal (Salgado Aveirense) como referência do património social e cultural da história de Aveiro. Aí foi focado um dos aspectos mais importantes para a vitalidade e sustentabilidade de uma comunidade: a sua regeneração urbana como factor de preservação da história e cultura dessa mesma comunidade. Embora o conceito de regeneração/reabilitação no campo do planeamento urbano seja bastante abrangente, não recaindo exclusivamente sobre o edificado, o facto é que uma das importantes vertentes da história do Salgado Aveirense reside no seu património edificado – os palheiros do sal, para além, obviamente, das marinhas.

Apesar do Salgado Aveirense, que marcou, juntamente com a cerâmica, o património histórico de Aveiro, ter vertentes ambientais, económicas, sociais e culturais que definiram um passado da cidade e da região e que marcaria o seu futuro, o seu edificado (os Palheiros do Sal), concretamente o que ainda resta na zona envolvente ao Canal de S. Roque é parte importante e relevante desse património e dessa história que construíram Aveiro. A temática tem sido, recentemente, alvo de “atenção” por parte de vários aveirenses após o conhecimento público da eventual perda dos Palheiros do Sal do estatuto de Imóvel de Interesse Público. Curiosamente, para não usar outra adjectivação, após o despacho de homologação do Ministério da Cultura, em 2003, que classificou os “Palheiros do Sal” como Imóveis de Interesse Público que os mesmos, por falta de publicação em Diário da República, mantêm a inqualificável situação de “em vias de classificação”.

É indiscutível que o desaparecimento ou mesmo a transformação dos palheiros significa a perda de uma parte considerável da história aveirense e logo quando é notícia o aumento do número de marinhas (de sete para oito) para a safra deste ano (ver Diário de Aveiro de 26 de junho de 2013). É certo que é apenas mais uma (por enquanto) mas contribui para que uma parte significativa e importante da história e identidade aveirense não desapareça. Para isso já bastam os barreiros, a cerâmica, o azulejo, os moliceiros sem proa e a “raiar o veneziano”, as muralhas, o aqueduto, as várias festas (Sra. das Febres, por exemplo) e feiras (a da cebola). O facto é que a tradição e a identidade se mantém com o “dia da botadela” nas marinhas da ‘Santiaga da Fonte’, ‘Passã’, ‘Troncalhada’, ‘Grã Caravela’, ‘Senitra’, ‘Peijota’, ‘Puxadoiros’ e ‘18 Carbonetes’ (pelos menos de forma conhecida).

Com a promoção e criação em inúmeras localidades e recônditos do país de diferenciados centros de interpretação e educação, tendo a autarquia adquirido e preservado uma das poucas marinhas em safra como ecomuseu (Marinha da Troncalhada), parece ser indiscutível que é desejável que uma parte da história do salgado aveirense seja também preservada: os palheiros. Nem que seja como centro interpretativo ou “museu do sal”, incluindo parte comercial como, por exemplo, da flor do sal, artefactos, trajes ou até moliceiros. Não apenas como mera transformação urbanística ou arquitectónica (não tem qualquer significado ou sentido passar por um bar ou restaurante na zona do Canal de S. Roque e dizer” aqui foi um palheiro de sal”) mas como preservação da cultura e história aveirense.

É um facto que a reabilitação do edificado, concretamente em edifícios degradados e devolutos, tem falhas legais enormes que desresponsabilizam proprietários (sejam privados ou públicos) e as próprias comunidades. E neste caso a especulação imobiliária falou mais alto que a história e a cultura. Ao ponto da autarquia não conseguir reaproveitar o Palheiro do Sal do qual é proprietária. E, neste caso, deveria ser exemplo até para os proprietários privados. Porque o que está mesmo em causa não é o conjunto de “Palheiros” que se situam na zona sudoeste do Canal, até porque estes foram transformados e perderam a sua identidade. O que está mesmo em causa é o conjunto de “Palheiros” na zona nordeste e que, apesar do estado de degradação, ainda representam a história do Salgado de Aveiro.

Com o aproximar de um novo quadro de apoios comunitários, com tantas parcerias público-privadas e memorandos de entendimento, com financiamentos adequados, não será difícil encontrar e captar verbas necessárias para a regeneração e preservação histórico-cultural dos “verdadeiros” Palheiros do Sal e criar um centro de interpretação ou museu interligado com a Marinha da Troncalhada, o Sal e a Ria de Aveiro, conservando a identidade da sua história e das suas gentes.

Uma boa oportunidade para, em ano eleitoral e face aos compromissos que assumirão com os cidadãos, os candidatos à gestão da autarquia aveirense olharem para a importância de se preservar a identidade da comunidade como factor de desenvolvimento e de progresso. Tal como sugere a Associação Portuguesa para a Reabilitação Urbana e Protecção do Património ao elaborar uma carta de recomendação sobre a reabilitação urbana e a protecção do património dirigida a todas as candidaturas das próximas eleições autárquicas. No “Enquadramento Geral” dos objectivos da carta de recomendação, entre outros, podemos destacar: "a reabilitação urbana é um vector fundamental do desenvolvimento urbano sustentável, inteligente e inclusivo (em sintonia com o postulado na Declaração de Toledo de 2010) e que por isso tem que ser assumida como uma estratégia urbana integrada. Uma estratégia que se legitima por argumentos de natureza diversa: (…); de natureza social (identidade local; qualidade do ambiente urbano e de condições de vida; novas centralidades; coesão e inclusão social); (…); de natureza histórico-cultural (a cidade, nas suas múltiplas dimensões - patrimonial, morfológica, funcional, social, económica, imaterial – como bem colectivo que importa preservar e que contribui para a atractividade das cidades); (…)."

Como aveirense “Cagaréu e Ceboleiro”.

publicado por mparaujo às 14:19

26
Mai 13

Publicado na edição de hoje, 26 de maio, do Diário de Aveiro.

Entre a Proa e a Ré

Mobilidade (in)segura

Ao nível das redes sociais não tem havido descanso, nos últimos dias quanto à participação cívica, ao debate e à reflexão sobre mobilidade ciclável na cidade, ao ponto da temática me merecer, publicamente, uma terceira reflexão: “a questão da segurança na circulação ciclável na cidade de Aveiro”. Será ou não um mito? Ou se quisermos, relembrando o artigo de quarta-feira passada, mais uma desculpa para a não alteração de hábitos de mobilidade. Por uma questão de gestão de espaço e esquematização de conceitos/ideias permitam-me o recurso a simples tópicos, que espero resultem na contribuição para um eventual debate/reflexão. Importa destacar que a referência se situa no âmbito da mobilidade quotidiana (e não o lazer ou desporto).

1. A insegurança é, face a múltiplos factores sociais e à conjuntura actual, uma preocupação acrescida nos dias de hoje: as crianças não brincam livremente na rua como há uns anos (valentes); não se anda facilmente a pé por determinados sítios ou a determinadas horas, entre outros exemplos. Na mobilidade, especificamente na ciclável, a insegurança prende-se, essencialmente, com dois factores: um ao nível da prática/aprendizagem, da experiência e da confiança; e outro ao nível das acessibilidades e infraestruturas.

2. Por norma, em centros urbanos com a dimensão e escala da cidade de Aveiro, infraestruturas dedicadas, ciclovias, canais próprios, são sinónimo de maior segregação da bicicleta e mais facilitadores e promotores do excessivo continuado uso e recurso ao automóvel que, assim, se vê “dono e senhor” da rede viária. Além disso, Aveiro não tem, salvo raras excepções, zonas problemáticas de excesso de velocidade de tráfego. Aliás, com o aumento do volume automóvel surgem os conflitos de circulação e, normalmente, diminuem as velocidades, de forma natural.

3. A implementação de ciclovias sem que para tal haja dimensão viária, nem condições físicas, para tal, tornam-se mais rapidamente num problema do que na solução. Veja-se a marcação da ciclovia na Avenida (onde ela ainda possa ser visível) com estacionamento sobreposto ou o perigo que existe para o ciclista quando algum carro estacionado decida abrir a porta do lado do condutor. Por outro lado, a implementação de ciclovias para uma mobilidade quotidiana tem, em espaço urbano, naturais conflitualidades com cruzamentos, rotundas ou necessárias mudanças de direcção (principalmente à esquerda). Excluindo, com muito esforço, a Ponte de Praça, Aveiro não tem zonas de conflito acentuado e tem a particularidade de ser extremamente plana.

4. Face aos dados (último censos) que nos revelam que 90% das deslocações em bicicleta se efectuam nas freguesias periféricas, é curioso que os ciclistas se mostram mais seguros face a vias com maiores velocidades de tráfego, mesmo que com eventual menor volume. Recordo que durante vários meses, numa das acções do projecto ciclável LifeCycle houve alunos a deslocarem-se, diariamente, entre Azurva e a escola EB 2,3 de Eixo de bicicleta pela “assustadora” EN230.

5. É evidente que, para facilitar a segurança, tem de haver uma complementaridade de informação e prevenção, tal como, por exemplo, foi feito pelo projecto LifeCycle no exemplo referido (foto). Se a política de mobilidade for direcionada para o uso e recurso da mobilidade ciclável terá, forçosamente, de existir uma prioridade para a bicicleta na partilha do espaço público com o automóvel, tal como prevê o recente estudo para a requalificação da Avenida (sem ciclovias projectadas).

6. Por último, quanto menor for a segregação (salvo evidentes situações de conflito) e maior for o uso da via pública por parte da bicicleta, maior será a acalmia do tráfego e maior será o respeito do automobilista pelo ciclista. Em Paris, com o interessante projecto de mobilidade Vélib (20 mil bicicletas fabricadas em Águeda e cerca de mil parques), não existem canais dedicados. Nas zonas de claro conflito (não se compara Aveiro a Paris) a circulação faz-se partilhando os canais de BUS mas com definida prioridade da bicicleta sobre o transporte público.

7. Perigo e insegurança é o uso indevido e incorrecto da bicicleta com a circulação nos passeios, nas passadeiras, em contramão, etc. Isso sim, é clara insegurança rodoviária. A maior ou menor sensação de segurança resultará sempre da maior ou menor experiência ciclista, tal como com a maior ou menor aptidão para conduzir um automóvel.

Nota final: exclui-se, propositadamente, da reflexão o estado das vias porque esse é um factor limitativo para a mobilidade ciclável, como para os malfadados amortecedores dos automóveis.

publicado por mparaujo às 14:01

28
Abr 13

Publicado na edição de hoje, 28 de abril, do Diário de Aveiro.

Entre a Proa e a Ré

E brincar?

Tem sido recorrente o debate em Aveiro (mesmo que inconsequente) sobre questões relacionadas com urbanismo (ou urbanidades), espaço público, regeneração urbana e dos centros, e mais recentemente sobre mobilidade ou paisagismo e botânica (dendrologia) principalmente quando se discutiu a queda ou abate de várias árvores no concelho. Sobre urbanismo, espaço público, regeneração urbana e do centro da cidade, há matéria em debate que transborda: pontes pedonais, parque da sustentabilidade, arranjo do Alboi, a Rua Direita, o projecto para a Avenida, a revitalização das praças como a do Marquês de Pombal ou a de Melo Freitas, entre outros. Em relação à mobilidade temos as discussões em torno de planos e políticas, dos vários modos de deslocação (automóvel, transporte público, ciclável ou pedonal), a regulação do trânsito e o seu excesso no centro urbano, a ligação da avenida das Agras, os pórticos na A25 e A17 que circundam e isolam a cidade, e mais recentemente toda a polémica relacionada com a regulação e oferta de estacionamento. No que diz respeito à vertente paisagística, depois da rearborização da Avenida e após a tempestade de janeiro último, foram diversas as abordagens públicas sobre as quedas das árvores, a sua substituição, a necessidade ou não de abates, o estado arbóreo do Parque da Cidade, a replantação ou a criação e espaços verdes. Não nos podemos queixar de não termos o que e com quem discutir uma parte significativa da vida da cidade e do concelho. No entanto, salvo uma ou outra rara excepção, tem faltado em Aveiro o debate, e já agora a preocupação, sobre outra realidade social e urbana (de urbanidade): parques infantis. Só assim de relance, sem precisar de recorrer a um grande esforço de memória, perderam-se os do Alboi, Museu Sta. Joana (ou de Aveiro), Parque Infante D. Pedro (onde, para além do parque infantil, poderíamos juntar o circuito de manutenção) e mais recentemente na urbanização da Forca, a título de exemplo.

São inúmeras as questões que se levantam ao nível da qualidade de vida, da saúde e da sociabilização no que se refere às crianças e aos adolescentes: obesidade, destreza, agilidade, isolamento social, aprendizagem, sociabilidade. Ao contrário do que possa parecer, pelo facto das famílias e dos cidadãos terem hoje uma vida demasiadamente agitada e confinada a rotinas, a sociedade é menos urbana, no sentido em que, dispondo de melhores e mais meios, não usufrui dos mesmos, concretamente os espaços de lazer. Mas a própria cidade ao alterar o paradigma das suas urbanidades (espaços públicos, vizinhança, sentido de bairro, a rua, o trânsito) deixou de criar condições para que as crianças usufruam da rua, de actividade física, de autonomia, da descoberta lúdica do jogo, da agilidade, da imaginação. Não basta uns metros quadrados de relva. Não basta para o desenvolvimento mais completo da criança o simples prazer de correr.

Não podemos criticar o aumento da violência entre pares, da problemática crescente do bullying escolar, da indiferença, do isolamento social, da falta de solidariedade, e depois obrigarmos as crianças e os adolescentes a crescerem entre as quatro paredes dos seus quartos, dentro de uma playstation, de um portátil ou de um tablet. E isto não é apenas uma responsabilidade parental ou familiar. É, também, uma questão social, da responsabilidade da sociedade e das cidades: devolver as crianças à rua e aos jardins. E quem diz os parques infantis diz mais. Aprendi, felizmente, a andar de bicicleta, sozinho, na rua onde cresci e no Parque Infante D. Pedro (até proibirem, criminosamente, o acesso de bicicletas àquele espaço). Hoje, face ao trânsito, à insegurança e à ausência de espaço, as crianças têm dificuldade em aprender a andar de bicicleta e a dar-lhe o devido valor (quantos não se recordarão da sua “primeira” bicicleta e do que significou recebê-la como prenda).

Infelizmente, Aveiro cresceu em betão e foi perdendo o sentido da urbanidade e do desenvolvimento social.

publicado por mparaujo às 12:50

24
Mar 13

São vários os debates e as discussões, mesmo que avulsos, que vão surgindo por algumas vozes e espaços aveirenses, sobre a urgência da regeneração dos centros urbanos e dos respectivos espaços públicos.

A temática em Aveiro tem tido particular enfoque na Avenida Dr. Lourenço Peixinho e, muito concretamente, na Rua Direita (como é exemplo disso este último texto sobre o assunto "Rua Direita: porque sim e porque não").

No entanto, como várias vezes o referi, isto não é uma realidade exclusiva de Aveiro, nem tem propriamente a ver com mais ou menos sensibilidade das governações autárquicas... é uma realidade transversal a mutios centros e baixas urbanas no país, fruto de um conjunto de factores complexos, alguns opostos, e que, pela sua diversidade, dificultam as análises e, mais preocupante, as soluções.

E isso é que preocupa... a falta, clara, de soluções.

Acontece em Aveiro ou no Porto (baixa do Porto com lojas a fecharem, centro histórico a perder moradores ou os problemas de concentração de bares na baixa contestados por moradores e comerciantes)... mas também em Lisboa com a crise a trazer problemas às avenidas nobres da cidade (a exemplo do que aconteceu com a Rua Direita e a Avenida, em Aveiro).

Este é um problema que merece urgente e especial atenção de TODOS: governo, comunidades intermunicipais, autarquias, associações comerciais e culturais, e os próprios cidadãos, sob pena de se perderem os centro urbanos e se degradar o urbanismo e a qualidade de vida nas cidades.

Mas não se afigura tarefa fácil... Nada mesmo.

(créditos da foto: diário de aveiro)

publicado por mparaujo às 17:36

21
Jan 13
(créditos da foto: Notícias de Aveiro - Júlio Almeida)

Foi de tal modo forte o temporal que se fez sentir em Aveiro, nomeadamente na cidade (sem querer entrar em qualquer tipo de comparação ou “competição” com o resto do país) que nunca se tinha assistido a uma devastação tão significativa das árvores do espaço urbano. Não sei quantificar, de forma exacta, o seu número (embora pense ser já possível existir esse dado oficial, pelo menos estimado. Mas posso garantir que forma muitas… demasiadas).

Não se trata, ao caso, de qualquer medida de política ou paisagismo urbanos, mas tão somente a força da natureza e a maneira da mesma se manifestar, por vezes de forma negativa e trágica.

Só que as consequências da manifestação da natureza tem, essencialmente, posteriores responsabilidades políticas, sejam ao nível nacional, regional ou local (como é o caso da cidade de Aveiro).

Como avançou, e muito bem, José Carlos Mota no blogue “Os Amigos d’Avenida”

"é importante um bem pensado ‘plano verde’ para 'decorar' de novo a imagem urbana de Aveiro. Deveria seguir-se uma rápida e intensiva plantação de árvores de porte significativo e espécie cuidadosamente seleccionada."

Se concordo inteiramente com a primeira parte (‘plano verde’) já coloco algumas reticências quanto à solução.

Transcrevo aqui alguns conceitos da bióloga e especialista Rosa Pinho sobre a temática da arborização em espaços públicos urbanos (com os devidos créditos em Boirede – Arboreto de Aveiro).

Alguns aspectos positivos e que justificam a existência de árvores nas ruas das cidades (por exemplo, Aveiro) e que considero mais relevantes: a arborização urbana tem uma importância que excede o seu valor ornamental e recreativo como a melhoria da qualidade do ambiente urbano; a importância das árvores como filtro ambiental, na purificação do ar através da fixação de poeiras e gases tóxicos e pela reciclagem de gases através de mecanismos fotossintéticos, reduzindo os níveis de poluição; a redução da poluição sonora pelos obstáculos que oferece à propagação das ondas sonoras, funcionando de amortecedores de ruídos; a redução da velocidade dos ventos; e o contributo para a harmonia paisagística e ambiental do espaço urbano. Por outro lado, os aspectos negativos (que também os há) são, ainda segundo Rosa Pinho: a pavimentação do solo deixa, por vezes, um espaço muito reduzido à volta do tronco, limitando a infiltração da água e o arejamento do solo; o trânsito de veículos e de peões, pode ocasionar ferimentos nos troncos e nas copas; se as árvores estiverem próximas umas das outras, são ‘obrigadas a competir’ pelos recursos disponíveis (água, luz, minerais e oxigénio); os problemas causados pelo confronto das árvores (por exe., as raízes) com o equipamento urbano, nomeadamente em interrupções no fornecimento de energia, entupimento de calhas, danos nos muros e passeios; e, face à dificuldade e erros no planeamento urbano em conceber espaços amplos (passeios largos em detrimento de excesso de espaço viário), há os inúmeros obstáculos gerados à circulação de peões, concretamente para quem tem mobilidade reduzida (cadeiras de rodas, entre outros). (adaptado)

É, por isso, inquestionável a conclusão da Rosa Pinho e que vem ao encontro da questão do ‘plano verde’ do José Carlos Mota:

"em virtude destes factores, quando se trata de enquadrar as árvores num ambiente, há que proceder a uma escolha adequada das espécies, em conformidade com o local, clima e tipo de solo, em que se pretende efectuar a sua implantação.

Só que face aos pós e contras (não televisivos) da arborização do espaço urbano apresentados, independentemente do peso e dimensão no confronto entre os aspectos positivos ou negativos referidos, pessoalmente tenho outra visão (aliás já expressa publicamente) sobre a problemática das árvores nas cidades.

Sendo difícil (embora não impossível) alterações significativas no espaço urbano (nomeadamente alteração da dimensão de muito dos passeios – são inúmeros os casos na cidade de dificuldade de circulação dos peões nos passeios, pela redução do espaço ou pela sua degradação por causa das raízes); havendo pouco cuidado na escolha das espécies e que, mais tarde, se traduz, por exemplo, na degradação do piso dos passeios; havendo sempre o risco de queda inesperada das árvores colocando em perigo a segurança das pessoas; prefiro arriscar outro tipo de solução, mesmo que implique ruas e avenidas sem arborização (o que não significa som exclusivo domínio do automóvel). E a solução passaria antes pela regeneração biológica consistente e eficaz de parques já existentes (como o Parque D. Pedro) e a criação de novos parques arborizados (por exemplo reformular o Rossio, a zona do Canal S. Roque, a zona do Cais da Fonte Nova, a zona da Forca a nascente do Centro Congressos na Av. Sá Carneiro), criar novos Parques na cidade como o projecto antigo de implementar um novo parque na zona “agrícola” entre o cruzamento de S. Bernardo (Pingo Doce) e o Pavilhão do Galitos até à EN.109, ou alguma área na zona a nascente da Estação (entre a Estação e a EN109). Isto entre muitos outros exemplos. Eventualmente mais relevantes do que o, apesar de meritório, parque da sustentabilidade, que poderia ser, preferencialmente, uma sustentabilidade ambiental. Veja-se o exemplo do Porto com a reabilitação do Parque da Cidade.

Mas as cidades, praticamente todas e à qual Aveiro não fugiu, nem foge, à regra sustentam a sua sobrevivência mais no “betão” do que na “florestação”.

publicado por mparaujo às 15:07

16
Jan 13

Têm sido recorrentes, nestes dias mais recentes, as referências ao centro urbano da cidade, nomeadamente à Rua Direita (Rua dos Combatentes da Grande Guerra e Rua de Coimbra), e zona envolvente (Rua Príncipe Perfeito, Rua Belém do Pará e Rua Gustavo Ferreira Pinto Basto).

Todas as localidades, seja qual for a sua dimensão e importância, têm uma centralidade própria, projectada nas mais diversas e distintas tipologias: zonas histórias, zonas culturais, zonas comerciais, zonas sociais (religiosas, por exemplo). Aveiro não foge à regra. Ao tempo, a zona muralhada da Av. 5 de Outubro (actual Sé e Museu de Aveiro), o antigo Cojo (hoje Fórum Aveiro), a Praça Marquês de Pombal, a Praça da República, o Alboi e o bairro da Beira Mar (Largo do Rossio e Praça Melo Freitas), delimitaram, nas mais diversas e individuais características e importância, duas zonas relevantes e marcantes na história da cidade. Mais tarde, quando por volta de 1921, Lourenço Peixinho “rasga” a Avenida Central (a partir de 1952 com o nome de Avenida Dr. Lourenço Peixinho) desde a Ponte de Praça até à Estação de Caminhos-de-Ferro, a cidade ganha uma nova e forte centralidade, concorrente do espaço até então projectado, no tempo, pela nobreza, aristocracia, Igreja e política, agora, já sem a muralha e sem a Freguesia de S. Miguel (com clara perda de parte da sua história), essencialmente confinado à Praça Marquês de Pombal (Governo Civil, Convento das Carmelitas e Palácio da Justiça), Rua Direita (comércio), Museu e Praça da República (Paços do Concelho, Misericórdia, Liceu Homem Cristo e Teatro Aveirense). Embora nascido na ainda freguesia da Vera Cruz sempre vivi e cresci na, também ainda, freguesia da Glória, precisamente muito perto da Rua Direita, até ter casado e ter-me fixado na Vera Cruz. Daí que tenha acompanhado, durante cerca de 40 anos, todo o definhar daquele espaço que foi, a par e concorrencialmente com a Avenida Dr. Lourenço Peixinho, o centro urbano da cidade. Recordo perfeitamente a circulação automóvel em toda aquela zona, os serviços lá existentes, o comércio que florescia, etc. Já por diversas e variadas vezes aludi aqui que é preocupante o estado actual e o futuro da Rua Direita. E a solução, aparentemente óbvia e lógica, afigura-se difícil de atingir e de uma complexidade que inquieta porque apenas permite concluir que a Rua Direita vai mesmo “morrer”, mais ano, menos dia. A tal solução é só uma: devolver as pessoas à Rua Direita. Só que os meios para atingir tal realidade é que parecem não serem exequíveis, nem passíveis de se implementarem. Porque há aqui um paradoxo muito forte e relevante: é que foram as próprias pessoas que abandonaram a Rua Direita (tal como na Avenida). Deixaram de habitar a Rua Direita, deixaram “comercializar na Rua Direita, “obrigaram” a outras centralidades no que respeita aos serviços, nomeadamente os públicos (como a autarquia, finanças, etc.) e aquela centralidade vai, a pouco e pouco, deixando de ter o impacto de outros tempos na cidade, com preocupantes questões ao nível social e urbanístico. E de forma abalada e com profunda tristeza não consigo encontrar meios capazes de chegar à solução que revitalize aquela zona: as pessoas. Não é com o regresso da circulação automóvel, não será apenas com reabilitação urbana ou projectos de urbanismo, os serviços públicos não têm, pelas exigências dos dias de hoje, condições para o regresso àquele espaço (não há condições físicas para o regresso das finanças, da autarquia, ou a transferência da “loja do cidadão”, entre outros), não é através de um comércio que deixou de ser atractivo ou concorrencial, não é com acções culturais esporádicas (lembro a realização da feira mensal criativa, que tem enorme sucesso), que as pessoas regressam à Rua Direita. Também é certo que as cidades, como as sociedades, são dinâmicas: constroem os seus percursos na evolução ou alteração da história e da sua urbanidade. Seriam inúmeros os exemplos que retratam esta realidade: as muralhas, as quatro freguesias urbanas, o primeiro espaço da junta de freguesia da glória na casa mais antiga da cidade (junto aos Paços do Concelho), o aqueduto ou arcada do Cojo, em alvenaria, cujos vestígios estão hoje completamente “engolidos” pela construção urbana na Rua de Viana do Castelo, a Fonte dos Amores, a produção cerâmica e os barreiros, as salinas, a Feira das Cebolas (que alcunhou os ‘ceboleiros’) ou a grandeza da Festa da Sra. das Febres (muito antes do S. Gonçalinho), etc., etc. O que a memória nos conseguir recordar.

Infelizmente, por maior que seja a mágoa, a realidade é mais forte… a menos que haja algum milagre urbano que salve a Rua Direita (assim como a Avenida) de mais uma dinâmica urbana.

publicado por mparaujo às 07:39

09
Jan 13

Publicado na edição de hoje, 9 de janeiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

Novo alerta urbano.

A edição do passado sábado do Diário de Aveiro trazia uma peça, assinada pelo jornalista João Peixinho, com o título “Vaga de encerramento de comércio e restauração em Aveiro” (versão reduzida online), sobre o crescente encerramento de inúmeros estabelecimentos do comércio tradicional, acrescentando eu ainda um considerável número de empresas de serviços. Logo no início do seu texto, o jornalista tem (no segundo parágrafo) uma interessante expressão que transmite a realidade do que se passa em Aveiro: o “número de portas de lojas encerradas durante o horário normal de expediente, quando deveriam estar abertas”, e que começa a ser uma imagem vulgar na cidade.

A realidade económica que o país vive, as medidas e políticas que são implementadas (não interessa, ao caso, se são as correctas ou não) com impacto directo nos cidadãos, nas famílias, nas empresas, nas pequenas empresas (comércio e serviços), infelizmente, já nos habituaram a cenários, realidades e notícias diárias que retratam esta preocupante situação. Mas apesar da grande fatia desta realidade ser de natureza económico-financeira, a verdade, tal como refere José Carlos Mota no blogue “Os amigos d’Avenida”, é que esta problemática tem também raízes sociais e, em vários casos, urbanísticas. É o caso concreto da Rua Direita e da Praça Marquês de Pombal, em Aveiro, com o abandono de espaços e prédios que se tornam degradados e que descaracterizam a zona e a cidade.

Já perdi, sinceramente, a conta aos artigos e comentários que fiz publicamente ou nas sessões da Assembleia de Freguesia da Glória sobre a Rua Direita e o seu futuro. No entanto, face à referência no Diário de Aveiro de sábado, não queria deixar de relembrar um dos últimos textos que escrevi sobre aquela zona da cidade, precisamente sobre o título “O futuro da Rua Direita”. Na altura referia que “contrariar a preocupante realidade do número de estabelecimentos comerciais a encerrar, de espaços a ficarem vazios, das dificuldades em se manter o negócio, de uma inquietante ausência de movimento naquela zona, não se resolve com o regresso automóvel àquelas ruas (posição defendida pelo Presidente da Junta, numa sessão da Assembleia Municipal). Passa sim por ser necessário melhorar a imagem e reabilitar os espaços urbanos (por exemplo, o alargamento do passeio da Rua Belém do Pará/Gustavo Ferreira Pinto Basto dando continuidade ao do Teatro Aveirense, retirando o estacionamento de superfície – há um parque completamente vazio, melhor iluminação, recuperação habitacional, etc.) e criar mais atractividade (mais actividades e iniciativas culturais, com mais visibilidade e publicidade, por exemplo, e mais serviços).” E este aspecto da atractividade nos espaços urbanos é fundamental para a sua sobrevivência e sustentabilidade.

Pode ser discutível, tal como a lógica filosófica de quem surgiu primeiro se o ovo ou a galinha, se são as pessoas que promovem o surgimento do comércio ou se é o comércio que atrai as pessoas. Pessoalmente, entendo que a Rua Direita (e a Praça Marquês de Pombal) só voltará a ganhar vida, só poderá manter a sua dinâmica comercial de outrora, quando se promover o regresso das pessoas à Rua Direita. E o desafio não passa (pelo menos tão afincadamente) pelo “combate” entre o comércio tradicional e as grandes superfícies. Até porque basta algum olhar atento para perceber que a crise e a vaga de encerramentos também já chegou a esses espaços.

Enquanto as pessoas não regressarem à Rua Direita muito mais portas vão fechar, como refere o João Peixinho, em “horário normal de expediente”.

Não será preciso um esforçado exercício de memória para recordar que aquele espaço urbano (desde a Praça Marquês de Pombal e zona envolvente até à Ponte Praça, via Rua Direita) já teve uma corporação de Bombeiros, a Direcção de Finanças, a Esquadra da PSP, as Finanças, o Turismo, todos (ou quase) os serviços autárquicos, a Assembleia Municipal, cinema, um parque infantil na zona envolvente (no Museu). Perdeu tudo isto, acrescido, recentemente, do Governo Civil.

Mais uma vez está lançado o alerta.

publicado por mparaujo às 07:12

28
Out 12

Publicado na edição de hoje, 28 outubro, do Diário de Aveiro.

Entre a Proa e a Ré

Centralidade urbana

A reabilitação da “Avenida” (Avenida Dr. Lourenço Peixinho) voltou à agenda aveirense por via da apresentação na Assembleia Municipal, aos deputados municipais, do projecto de recuperação do espaço público mais emblemático da cidade de Aveiro. Projecto este solicitado pela Câmara Municipal a uma equipa técnica da Universidade de Aveiro.

Apesar da urgente necessidade de intervenção numa zona quase centenária, com uma história marcante no desenvolvimento económico e social da cidade (que se iniciou com a ligação do “centro” à estação do caminho-de-ferro) e com o principal papel centralizador da urbanidade aveirense (habitação, comércio, serviços, mobilidade), qualquer solução que se projecte e perspective para a “Avenida” comportará sempre os riscos de criar alguns “anticorpos” e algumas oposições (mais ou menos fortes, mais ou menos consistentes) face à exigência e complexidade desta intervenção urbana.

Em relação ao projecto apresentado, e ao que parecem ser as linhas orientadoras do mesmo, parece-me claro que estão contempladas, não sei se todas, mas pelo menos uma grande parte, de soluções válidas para a reabilitação da “Avenida”: a promoção de mecanismos que criem atractividade e um novo usufruto público do espaço; a integração dessa atractividade com a recuperação e revitalização das funções de serviços e comércio; a reabilitação arquitectónica urbana do solo e do espaço público; uma maior disponibilidade do espaço urbano para as importantíssimas mobilidades suaves (pedonal e ciclável), condicionando o trânsito (estacionamento), nomeadamente reduzindo, sem excluir, a circulação automóvel, dando primazia ao transporte público; a recuperação da centralidade da “Avenida”. Destes aspectos há a realçar o projecto de intervenção urbanística ao nível do solo (alargamento de passeios, áreas de lazer, espaços públicos atractivos, condicionamento da circulação automóvel) e a criação de uma verdadeira “praça” que Aveiro nunca teve ou já perdeu. Um espaço especialmente dedicado à cultura e à cidadania, com centralidade e com condições para a realização de eventos, tão necessários ao desenvolvimento da cidade e tão dispersos por circunstâncias que provocam o seu desgaste ou o seu fim (por exemplo, as feiras do livro, do artesanato, ou outras manifestações culturais menos regulares). E esta tem sido uma notória lacuna, nessa vertente, em Aveiro face ao isolamento da Praça Marquês de Pombal (com a evidente falta de atracção), da Praça da República (com a saída dos serviços da autarquia e serviços públicos daquele espaço), da Praça Melo Freitas (cada vez mais reduzida e sem nunca ter usufruído, verdadeiramente, do seu monumento à liberdade), e de um Rossio desgastado, sem condições de acessibilidade e de preservação. Há quem questione o não aproveitamento da zona do Cais da Fonte Nova (pormenor do centro) para a criação dessa praça urbana, mas esse espaço, apesar da sua beleza e enquadramento, é um evidente espaço habitacional e que carece de centralidade e acessibilidade (são algumas as experiências de participação em eventos naquele espaço com uma evidente falta de público; veja-se o que aconteceu, recentemente, com a Farav2012 ou com o Dia Municipal do Imigrante). Além disso, o condicionamento e a regulação do trânsito (circulação e estacionamento) permitem uma maior liberdade à “Avenida”: liberdade de circulação das pessoas, de espaços de lazer, de facilidades de mobilidade e acessibilidades. E neste âmbito importa realçar que a “Avenida” já não é o pólo distribuidor da circulação automóvel. A Estação já não está apenas virada para poente (a “sua” avenida), com toda a concorrência da zona nascente (ainda por explorar e desenvolver) e das ligações projectadas entre a zona da Forca e Esgueira, com evidente preferência pela circulação na Avenida 5 de Outubro ou pela variante. Aliás é notória, para quem circula diariamente na “Avenida”, a utilização de parte do seu troço para quem vem de Esgueira poder-se deslocar para a rotunda que confina a Avenida dos Congressos e a Avenida 5 de Outubro.

Mas há alguns aspectos do projecto que me deixam algumas dúvidas ou “reticências”.

O facto de se condicionar (e bem) a circulação e o estacionamento na “Avenida” não me parece (excluindo a questão de receitas para a sustentação do investimento público) que a criação de mais parques de estacionamento seja uma opção necessária e imprescindível face à taxa de ocupação dos três parques existentes na zona e na envolvente. Para além disso, apesar dos planos e projectos de planeamento que permitem alternativas de fluxo rodoviário fora da “Avenida”, a verdade é que a reutilização do túnel sob a Estação (apenas para transporte público e acesso a um eventual parque de estacionamento) vai ter um impacto de selagem da “Avenida” e retomar o obstáculo físico que é a linha da CP impedindo a expansão da centralidade urbana para o lado nascente, até à EN 109.

Mas a “Avenida” tem um complexo e grave problema para resolver e que não passa por este projecto ou outro que possa ser implementado. A questão é que a “Avenida” precisa de uma forte intervenção ao nível do edificado, com a recuperação dos edifícios degradados (eventualmente com incentivos legislativos e económicos), com regulação própria para a utilização dos espaços (são excessivos as habitações que foram ocupadas por serviços, em alguns casos, quase a totalidade dos prédios), com a definição clara e rigorosa de planeamento urbanístico (fachadas, cérceas, áreas de utilização).

É que por maior e mais eficaz que seja a intervenção junto ao solo, apenas confinada ao espaço público, enquanto a “Avenida” não preserve os seus habitantes e não promova o regresso das pessoas às habitações (que as pessoas voltam a morar e a dar vida à Avenida) não haverá uma solução eficiente e eficaz para reverter a agonia da zona mais central da cidade de Aveiro, com evidentes impactos nas zonas envolventes (nomeadamente a zona da Beira Mar e das Barrocas).

E, consequentemente, Aveiro perderá a sua identidade.

publicado por mparaujo às 18:15

27
Mai 12

Publicado na edição de hoje, 27.05.2012, do Diário de Aveiro.
Entre a Proa e a Ré
Pressões de gestão…
A semana ficou marcada, essencialmente, pelas alegadas pressões do ministro-adjunto, Miguel Relvas ao jornal Público, tendo sido reforçada pela demissão do adjunto do Ministro no caso “SIED/Secretas”, e relegando para segundo plano a presença da missão da Troika para mais uma avaliação à execução do memorando de resgate financeiro.
Mas as “pressões” não se ficam apenas pela relação sempre “conflituosa” entre o poder político e a comunicação social (mesmo que seja sempre uma relação de simbiose existencial). A verdade é que a “pressão” é o dia-a-dia da política e da governação, mesmo que não exclusiva. E o mesmo se passa na gestão autárquica.
A necessidade e gerir correctamente as necessidades de cada município aliada aos anseios de cada munícipe, dentro de um conjunto normativo e legal cada vez mais exigente, não se afigura tarefa fácil (quando muitas vezes desmotivadora).
No caso concreto de Aveiro, a situação financeira do município e a conjuntura nacional, obrigam a um exercício de gestão acrescido para fazer face às exigências e ao cumprimento de projectos e compromissos assumidos para com os aveirenses. É o caso da necessidade vital, não só para a cidade, da reabilitação urgente da Avenida. A Avenida precisa de intervenção, precisa de voltar a ganhar vida sob pena da cidade e do município serem contagiados pela sua degradação. Mas tudo isto a que custo? Não haverá outra solução para a conhecida falta de investimento público sem que se aliene espaço público e se condicione três gerações a um projecto urbanístico, tal como deliberado na última reunião da Câmara Municipal de Aveiro? É que as questões afiguram-se muitas (talvez até demasiadas).
Aveiro tem, no centro urbano, quatro estacionamentos fechados que, por natureza são parques com características diferentes do estacionamento à superfície e na via pública. Mais duração que rotatividade. No entanto, excluindo os períodos de consumo alto, como o Natal, qual a taxa de ocupação de cada um deles? O da Praça Marquês de Pombal até já encerra aos domingos… Será eficaz a construção de mais quatro? Quem ficará com o défice dos custos de exploração? O investidor privado? Para além da questão do estacionamento subterrâneo, que incluiu a concessão do parque Manuel Firmino, o projecto prevê a concessão, pelos tais 60 anos, de estacionamento à superfície, em espaço público, nas zonas envolventes aos parques subterrâneos. É uma opção entendível para minimizar efeitos concorrenciais. No entanto, esta proposta para salvar a Avenida também se afigura, numa primeira análise, ao “não salvamento” da empresa municipal de mobilidade, a MoveAveiro. Retirar das suas contas de gestão a principal fonte de receita parece ser a desistência antecipada de uma provável recuperação da empresa. Até porque o estigma (para usar uma expressão tão governativa dos dias de hoje) de que os transportes públicos só servem para dar prejuízo (muito por força da sua componente social) é algo, mesmo em tempos de crise, ultrapassável. Veja-se o exemplo recente da STCP – Sociedade de Transportes Colectivos do Porto que, em abril deste ano e pela primeira vez desde a década de 1970, atingiram o equilíbrio operacional em 100% (taxa de cobertura dos gastos operacionais pelos proveitos operacionais, incluindo a cobertura do serviço social prestado).
Por outro lado, penso que seria mais eficaz o enquadramento do projecto de recuperação da Avenida (goste-se ou não da solução encontrada) também num plano municipal (ou pelo menos urbano) de mobilidade. Aliás, face às condicionantes de trânsito, estacionamento e de transportes públicos indicadas na proposta da Universidade de Aveiro, tudo fará mais sentido integrado nesse plano alargado de mobilidade urbana.
Além disso, “vender” ou alienar espaço urbano público poderá significar condicionar, não só o usufruto legítimo de qualquer cidadão a esse espaço, como qualquer projecto futuro de urbanismo para Aveiro, naqueles espaços.
Não é só o estacionamento subterrâneo (ou nem será por isso)… mas trata-se de espaço público e este é e deverá ser sempre isso mesmo: público. E 60 anos são muitas vidas…
Uma boa semana…

publicado por mparaujo às 15:05

19
Abr 12

No seguimento da notícia divulgada na edição de hoje, 19 de abril 2012, do Jornal de Notícias – página 27, secção Norte/Sul, com o título “Construtor desiste de fazer ponte polémica sobre a ria” não queria deixar de tecer algumas considerações que me parecem pertinentes, face à ilusão que a situação possa criar.

É curioso que, aquando deste meu texto (“No aproveitar nem sempre está o ganho…”) e apesar da sua leitura ter sido descontextualizada (como posteriormente esclarecei – “Esclarecimento para ‘Amigos’…”), fui imediatamente alvo de críticas e de divulgação das mesmas pela maillinglist, sob a “condenação” de parcialidade, falta de rigor e injustiça. Isto porque recaiu sob a leitura do texto, apenas e isoladamente, o facto de eu ter referido que os Amigos d’Avenida não eram democráticos, nem pluralistas.
Acontece que, mesmo após o texto legítimo de contraditório e publicado no Diário de Aveiro (“Transparência, pluralidade e democracia participativa!), surgiram dois artigos de opinião manifestando a sua concordância com a construção da ponte pedonal sob o canal central ("A Torre Eiffel e o Canal Central" de Ferreira Seabra e "As Pontes" de Lacerda Pais, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Aveiro)… Nem uma referência aos mesmos.

Mal foi noticiado pela Rádio Terra Nova o parecer favorável à construção da ponte por parte a Agência Portuguesa do Ambiente, surgiu de imediato a resposta pronta contestando a autorização oficial para a construção da ponte (“O Movimento Cívico por Aveiro – Contra a Construção da Ponte Pedonal, contesta licença para a construção da ponte”). Aliás, é conhecido o parecer da ARH Centro que, apesar das 3500 assinaturas recolhidas, emitiu autorização/licenciamento para a construção da ponte, mas não é público o parecer que a própria ARH Centro solicitou à Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas.

Por outro lado, o que nos leva a podermos afirmar que a razão está do lado do empreiteiro e não do lado da câmara?!
O empreiteiro apresenta a sua versão: atraso no início da execução da obra para reclamar a desistência e respectiva indemnização. No entanto, é curioso que o mesmo defende uma rescisão por mútuo acordo. O que leva a prever que, em caso de recurso judicial, a garantia de sucesso será muito difícil. Então vejamos mais pormenorizadamente: alegar e reclamar atraso na obra porque foi solicitada a sua suspensão temporária por causa das festas de S. Gonçalinho é, no mínimo, absurdo. Porque, tendo acontecido de facto, tal situação requereu a sua concordância. Então reclama de quê? Da sua própria opção?
Todos os que lidam com contratações públicas (seja ao nível autárquico, seja que nível for) por certo são conhecedores de mil e uma histórias e situações de derrapagens dos valores das obras às custas das mais-valias e trabalhos a mais. Era assim até há pouco tempo atrás. Acontece que os hábitos não mudaram, mas a lei é que foi, felizmente, sendo ajustada, limitando percentualmente os valores dos trabalhos a mais.
É que antigamente ganhavam-se concursos por valores apresentados relativamente baixos que depois eram compensados por trabalhos a mais e mais valias nas obras. Hoje quem assume um valor concursal tem de assumir a responsabilidade do mesmo e os compromissos assumidos.
Nem tudo o que parece… é!

publicado por mparaujo às 23:56

28
Dez 11
Publicado na edição de hoje, 28 de Dezembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
O futuro da Rua Direita

Nos últimos dias foi notícia, nalguma imprensa local, a intervenção pública do Presidente da Junta de Freguesia da Glória, Fernando Marques, a propósito da Rua Direita e do comércio tradicional. Ou melhor… da sua, cada vez mais, ausência e falência.
Já aqui me referi à questão do comércio tradicional e da concorrência do mercado, nomeadamente com as grandes superfícies. É uma temática delicada e complexa que não se resume apenas a questões de dimensão ou de capitalismo, como há quem queira fazer crer.
Além disso, no caso concreto da Rua Direita (e se quisermos da própria Avenida) não me parece que o Forum Aveiro seja, por si só, um motivo concorrencial, até porque a sua essência corresponde ao comércio dito tradicional, mesmo que com algumas particularidades (por exemplo, horários de funcionamento).
Já por diversas ocasiões, quer na Assembleia de Freguesia da Glória (comungando de algumas preocupações do Executivo da Junta de Freguesia), quer neste espaço (ou no blogue), afirmei que acho a (re)distribuição de iniciativas e actividades nos espaços públicos de Aveiro mal estruturada e desequilibrada.
A cidade não pode (e acho que nem deve) ficar circunscrita ao Rossio (com os problemas que daí advêm: deterioração do espaço verde, conflitos de trânsito e acessibilidades) ou à Praça Melo Freitas… há outros espaços com dignidade, com capacidade e que carecem de “movimento” e de atenção.
Um desses espaços é a Praça Marquês de Pombal e a própria Rua Direita.
Não comungo totalmente da opinião do “meu” Presidente da Junta da Freguesia da Glória no que respeita à circulação automóvel. Acho que fez muito bem ter encabeçado, há uns anos, o movimento a favor da pedonalização daquela artéria e da praça. Não tem que se arrepender desse facto. Antes pelo contrário. Mas contrariar a preocupante realidade do número de estabelecimentos comerciais a encerrar, de espaços a ficarem vazios, das dificuldades em se manter o negócio, de uma inquietante ausência de movimento naquela zona, não se resolve com o regresso automóvel àquelas ruas. Não há uma relação directa entre a circulação de veículos e o consumo ou a actividade comercial. Em muitos casos, antes pelo contrário.
Passa sim por ser necessário melhorar a imagem e reabilitar os espaços urbanos (por exemplo, o alargamento do passeio da Rua Belém do Pará/Gustavo Ferreira Pinto Basto dando continuidade ao do Teatro Aveirense, retirando o estacionamento de superfície – há um parque completamente vazio, melhor iluminação, recuperação habitacional, etc.) e criar mais atractividade (mais actividades e iniciativas culturais, com mais visibilidade e publicidade, por exemplo, e mais serviços).
E este aspecto da atractividade nos espaços urbanos é fundamental para a sua sobrevivência e sustentabilidade.
Recordemos que aquele espaço urbano (desde a Praça Marquês de Pombal e zona envolvente até à Ponte Praça, via Rua Direita) já teve uma corporação de Bombeiros, a Direcção de Finanças, a Esquadra da PSP, as Finanças, o Turismo, todos (ou quase) os serviços autárquicos, a Assembleia Municipal. Perdeu tudo isto, acrescido, recentemente, do Governo Civil.
Basta reparar no parque de estacionamento que, de tão deserto e pouco utilizado (apesar de ter a mesma função que o do Forum), até encerra ao Domingo.
Daí que tudo o que possa devolver à Rua Direita e à Praça Marquês de Pombal o movimento de outros tempos (não muito longínquos, diga-se) só beneficiará aquela zona urbana.
Mesmo que a transferência da loja do cidadão (ou de alguns serviços), como aventurou o Presidente da Junta de Freguesia, para aquela zona possa parecer irrealista e utópica.
Mas só com o regresso das pessoas à Rua Direita ela poderá ser recuperada e reabilitada.. tal como a Avenida.
publicado por mparaujo às 14:54

14
Set 11
Publicado na edição de hoje, 14 de Setembro, do Diário de Aveiro.

Preia-Mar
A mobilidade passou de moda?


Este ano, a comemoração da “Semana Europeia da Mobilidade” e o “Dia Europeu Sem Carros na Cidade” celebram dez anos. Uma data (dita “redonda”) que relança a discussão sobra a importância e a vitalidade da mobilidade para o desenvolvimento sustentável das cidades e para a melhoria da qualidade de vida no espaço urbano.
Com enorme coincidência e curiosidade, o lema deste ano da Semana da Mobilidade 2011, que se realiza entre 16 e 22 de Setembro, é: “Mobilidade Alternativa”. Ou seja, soluções alternativas para a melhoria do espaço urbano, do ambiente e da qualidade de vida dos cidadãos, através, por exemplo, do recurso à mobilidade pedonal e ciclável, bem como a combustíveis e energias alternativas.
Focando-nos nos dois modos suaves de mobilidade (pedonal e ciclável), Aveiro tem feito algum esforço para a sua promoção: há três anos que a mobilidade saudável, com o projecto europeu Life Cycle (terminou a 31 de Maio deste ano), tem sido uma das acções mais prementes na área da mobilidade, e que deu origem a um novo projecto “Movimento Pedal Aveiro; e mais recentemente a aposta na mobilidade pedonal, com a parceria no projecto europeu ActiveAccess.
O projecto ciclável pretende promover alterações aos estilos de vida dos aveirenses, melhorando a qualidade de vida, a valorização do espaço urbano, o ambiente das cidades, através do recurso à bicicleta, nas pequenas e médias distância, no quotidiano dos cidadãos.
Já o programa pedonal pretende encorajar a circulação pedonal nas pequenas deslocações, reduzindo o consumo de energia e emissões, bem como a melhoria da saúde, a prosperidade do comércio tradicional e ainda o aumento do sentido de pertença a um lugar, reforçando os laços de vizinhança e sociabilidade, e um maior sentido de urbanidade.
A Mobilidade tem de deixar de ser uma moda para passar a ser, definitivamente, uma realidade, com a responsabilidade de todos: autarquia, entidades, empresas, comércio e, obviamente, cidadãos.
As cidades, mesmo as de dimensão reduzida como Aveiro, precisam de uma sustentabilidade e desenvolvimento que se estruture numa mobilidade que promova o desenvolvimento social e económico, a defesa do ambiente e da qualidade de vida, e de melhor urbanidade (espaço urbano mais eficaz).
A Semana Europeia da Mobilidade é uma clara oportunidade para promover este princípio basilar para a melhoria do ambiente urbano. Perder esta oportunidade é desvalorizar um dos objectivos principais da urbanidade e da socialização das cidades: a mobilidade! Mesmo que uma vez por ano… mas como diz o ditado: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.
Mas de forma abrangente, com dimensão, com pedagogia e sensibilização, à procura de públicos-alvo para determinadas e específicas acções. Em espaço urbano público, com especificidade (por exemplo, as vias urbanas mais movimentadas, as praças, os bairros), sem ser em locais descontextualizados do princípio e do objectivo, com visibilidade reduzida.
As políticas de implementação de uma verdadeira mobilidade urbana deveriam encarar o espaço urbano e o tempo como bens fundamentais e não supríveis, consentindo que respondessem a um conjunto de necessidades de deslocações dos cidadãos, para suster a ruína da qualidade de vida nas cidades, por mais pequenas que elas sejam.
É urgente que sejam implementadas medidas de restrição ou proibição do uso automóvel e alterações nos hábitos quotidianos dos cidadãos, reduzindo o efeito negativo sobre as cidades, o espaço e o meio ambiente.
Por fim, a mobilidade é, ao mesmo tempo, a causa e o efeito da sustentabilidade económico-social, da expansão urbana e da distribuição geográfica e consistência das actividades.
publicado por mparaujo às 06:29

21
Jul 11
Publicado na edição de hoje, 21 de Julho, do Diário de Aveiro.

Preia-Mar
(re)Habitar a “Avenida”…

Após cerca de ano e meio sobre o relançamento da discussão da necessidade urgente de se regenerar a Avenida, intercalado com o processo de reabilitação urbana do Parque da Sustentabilidade que, nesta fase, encontra uma interessante dinâmica ao nível da promoção e da animação de um dos sectores mais nucleares (o parque Infante D. Pedro e a Baixa de Sto. António), a Avenida Dr. Lourenço Peixinho volta a suscitar novas “emoções” e discussões, quer ao nível das entidades, quer por parte dos cidadãos (de forma isolada ou associada).
Há poucas semanas, em sede do órgão máximo do município - a Assembleia Municipal, foi apresentado um estudo sobre a regeneração da emblemática artéria da cidade de Aveiro. Em relação a este tema há um aspecto que merece importante relevo e análise, por sinal, focado na intervenção do deputado municipal Arq. Paulo Anes.
É certo que a Avenida necessita, urgentemente, de uma regeneração ao nível do edificado, da recuperação dos edifícios degradados, do redimensionamento do espaço público (zonas pedonais maiores e mais abrangentes, rede viária adequada, espaços verdes), do condicionamento do estacionamento e do trânsito, embora entenda que não se deva retirar a circulação automóvel por julgar ser um factor de desertificação (veja-se o caso da nossa Rua Direita, ou o que seria a Av. dos Aliados – Porto, ou a Av. da Liberdade – Lisboa, sem circulação automóvel), mas sim optar pela sua ordenação e regulação.
Mas, a par disso, há uma outra importante realidade: as pessoas. E curiosamente o maior problema da Avenida reside precisamente nas pessoas, ou mais concretamente, na ausência de pessoas. Mas pessoas que dêem vida à Avenida e vivam na Avenida, porque esse foi um dos factores determinantes para a sua desertificação e degradação: o abandono dos edifícios, dos apartamentos, originando a descaracterização social e urbana do espaço.
Por isso, pode-se alargar os passeios, pode-se diminuir o espaço viário, pode-se retirar o estacionamento à superfície, pode-se criar espaços verdes, pode-se promover atractividade (cultural, comercial), pode-se, inclusivamente, recuperar todo o edificado. Mas se não houver pessoas para habitar a Avenida Dr. Lourenço Peixinho o que é um dos ex-libris e referências do espaço urbano aveirense continuará sem vida, por mais projectos e estudos que se promovam.
Por outro lado, a Avenida já não tem a mesma configuração, o mesmo desenho, já não cumpre a mesma função. Isto porque a Estação já não é uma barreira, uma meta, um único objectivo! Aveiro cresceu para além da linha de caminho-de-ferro.
Por isso, torna-se igualmente importante que qualquer projecto implementado na Avenida tenha em especial atenção a sua ligação, não apenas à zona poente (Rossio), mas também, e, porque não, principalmente, à zona nascente (antiga zona do bairro do Vouga) espaço privilegiado para o crescimento da cidade e que necessita de um forte impulso urbanístico (há bastantes anos sem qualquer movimento). Daí que a reabilitação urbana da Avenida não deva ser um projecto isolado, mas algo mais abrangente e que deve ter em conta toda a sua envolvente muito para além do Rossio, a sua natural atractividade como a Estação, a zona nascente, o comércio e potenciar espaços de sociabilidade e cultura.
Não basta um simples ou complicado processo de “lifting” à Avenida… se não tiver em conta as pessoas e a nova realidade urbana será tempo e dinheiro perdidos!
publicado por mparaujo às 14:51

02
Mar 11
Publicado na edição de hoje, 2 de Março, do Diário de Aveiro.

Preia-Mar
Urbanidades…


A questão do urbanismo tem marcado a agenda local em Aveiro, seja do ponto de vista político, seja ao nível da gestão autárquica ou, até mesmo, no que respeita às vertentes social e económica.
O projecto do Parque da Sustentabilidade, a reabilitação urbana do Bairro do Alboi, a Ponte Pedonal, o retomar do estudo e da reabilitação da Avenida, a zona envolvente ao Estádio Municipal, são assuntos que movem e confrontam emoções, sensibilidades, convicções.
Mais recentemente, foi aprovada uma correcção/alteração ao Plano de Pormenor do Centro de Aveiro – PUCA. Para os menos familiarizados, trata-se da zona envolvente ao Cais da Fonte Nova. O plano tem já vários anos, o tempo e o desenvolvimento urbano trouxeram outras realidades e circunstâncias, bem como o facto de existir uma normal e legítima preocupação dos proprietários na valorização dos investimentos realizados.
Entre o debate direccionado para o confronto entre a tese do edificado em altura (que reduz a utilização do solo permitindo outros usos) e a construção em extensão (que aumenta o uso do solo mas reduz o impacto visual), entendo ser mais relevante outro tipo de reflexão: a necessidade de tanta área de construção, seja em altura, seja em extensão, na cidade de Aveiro. Face à procura, face à conjuntura, face a realidades sociais, económicas, culturais subjacentes ao urbanismo.
E não é uma questão de gestão autárquica (ou apenas uma questão de gestão autárquico) é uma questão de estruturação das comunidades e das sociedades. “Betão” não é sinónimo de desenvolvimento.
Escasseiam, cada vez mais, os espaços de urbanidade, de lazer, de cultura, de socialização nas cidades. Estas ganharam novas dimensões. Não só em termos demográficos, como nas suas identidades culturais, sociais e políticas.
O sentido de comunidade, de bairrismo (no seu sentido puro), os processos de socialização, as influências externas que pressionam os aspectos culturais e históricos (identidades) das localidades, alteraram profundamente o conceito de cidade, comunidade e urbanismo (na sua vertente social, arquitectónica, ordenamento e planeamento e ambiental).
As cidades cresceram a um ritmo elevado, em muitos casos, acima do previsto, do planeado e da capacidade de resposta.
Cresceram em extensão, demografia, em alterações de valores, na insegurança, na dificuldade de mobilidade dos cidadãos (trânsito, estacionamento, etc.).
As pessoas tornam-se mais distantes, menos abertas, menos solidárias e menos participativas. Tornam-se mais indiferentes.
Hoje, as cidades têm falta de segurança, de espaço, de liberdade, um menor aproveitamento do “espaço público”.
Não se joga à bola na rua, não se passeia e brinca sozinho (com os amigos) na rua, poucas crianças vão ao mini-mercado do bairro às compras (já nem os há), muito poucos andam de bicicleta na rua (as crianças têm dificuldade em aprender a andar de bicicleta, em parte, por falta de espaços).
Em suma… as cidades cresceram muito em altura e em extensão, mas pouco em sentido verdadeiramente comunitário e social.
publicado por mparaujo às 06:54

26
Dez 10

Valorizar e promover a cerâmica Aveirense, renovar o espaço urbano, potenciar a criatividade, divulgar a história e percursos históricos da cidade, são os principais objectivos do Concurso de Ideias lançado pela Câmara Municipal de Aveiro.



publicado por mparaujo às 17:41

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