Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

03
Ago 16

foto em pe de guerra.jpg

publicado na edição de hoje, 3 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Em pé de guerra

A recente notícia dos quatro argelinos que invadiram a pista do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, deixou muitos portugueses entre a perplexidade e o sobressalto, para mais com a divulgação que, semana antes, o mesmo tinha ocorrido com um grupo de marroquinos. A perturbação e o desassossego deram, rapidamente, origem a algum histerismo colectivo e informativo com o fantasma “terrorismo”. O que já não é novidade, nomeadamente por essa Europa fora. Por mais que seja usado o chavão de que a vida continua e há que mostrar serenidade ao enfrentarmos a realidade, não tenhamos dúvidas: há medo instalado na sociedade, principalmente em países muito particulares como a França, a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Inglaterra, a Suécia ou a Noruega. Podemos continuar a andar na rua mas cada vez mais olhamos para o lado, para trás, para o “vizinho” com o qual nos cruzamos. Isto para referirmos especificamente a Europa, pela proximidade e pela afectividade, porque o olhar podia (e deve) ser mais distante: Estados Unidos, América do Sul, Iraque, Síria, Líbano, Afeganistão, Turquia, Mali, Somália, Sudão, Nigéria, entre outros. Pela lista, apesar de resumida, percebe-se que o Mundo está em guerra consigo mesmo, como afirmou recentemente o Papa Francisco. A todo este contexto importa lembrar, não deixar cair no esquecimento, e acrescentar a continuidade de vidas que, semanalmente, se perdem para sempre no Mar Mediterrâneo (números da Organização Mundial das Migrações revelam, só este ano e até à data, cerca de 3200 mortos neste mar cada vez mais transformado em cemitério do desespero).

A história revela-nos marcos importantes que determinaram mudanças relevantes nas sociedades e no desenho geopolítico mundial. Recordemos, a mero título exemplificativo, o fim da “Guerra-Fria”, a queda do Muro de Berlim e a unificação alemã, o fim da cortina de ferro e a desagregação da unificação no leste europeu. Além disso, os trágicos e impensáveis acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, com a consequente guerra no Afeganistão (Outubro de 2001) e, mais especificamente, com a Guerra do Iraque e o derrube de Sadam Hussain (Março de 2003), tornaram o Mundo menos seguro e mais conflituoso, como o demonstraram, por exemplo, os consequentes episódios de Madrid (11 de Março de 2004) e Londres (7 de Julho de 2005). Com a morte de Bin Laden, o (re)surgimento do jihadismo islamita com raízes sunitas (em claro confronto com a corrente xiita), o denominado Estado Islâmico tem manchado o valor da liberdade, da igualdade, da fraternidade e, principalmente, o inegável direito à vida, seja na Europa, seja em pleno coração africano, directamente ou através da sua influência. Na Europa, após os trágicos e deploráveis acontecimentos no Charlie Hebdo, há pouco mais de ano e meio (7 de janeiro de 2015) cobririam a França e a Europa de um rasto de atentados terroristas sob a suposta conversão do mundo ao islamismo radical e à implantação do grande califado (a junção da política - estado - com a religião é, neste caso, incontestável). O mais recente caso, na Europa, de terrorismo sob a capa do jihadismo ocorreu em França, na igreja de Saint-Etiénne-du-Rouvray, com o sacerdote Jacques Hamel a ser degolado. Mas o medo, a agitação e o constante sobressalto com que vivem, no dia-a-dia, milhares de europeus não pode ser apenas visto como sinónimo de islamismo radical ou tudo com a marca do Estado Islâmico. A verdade é que a Europa, em particular, vive momentos inconfundíveis duma clara “crise existencial”, de degradação dos seus valores políticos e sociais e que estiveram na sua génese, de incapacidade política para enfrentar os recentes desafios (seja na origem - Síria, p.ex., seja no seu interior) sociais e humanitários com que se depara diariamente, como por exemplo questões de integração social e cultural e a questão dos refugiados. A Europa em particular e o mundo, em geral, vivem demasiadamente preocupados com questões económico-financeiras, descurando as vertentes políticas, sociais e culturais. O medo e alguma histeria islamofóbica instalou-se na sociedade a propósito de tudo e de quase nada, mesmo que nem tudo seja Estado Islâmico ou islamismo radical. Reconheça-se o crescimento da xenofobia e do racismo, da perda dos valores e dos direitos humanos em muitos estados a caminho dos totalitarismos (Hungria, Turquia, etc.) do radicalismo da extrema-direita (como sucedeu há cinco anos na Noruega, como sucedeu recentemente na Alemanha, num centro comercial em Munique, e com o crescimento dos movimentos radicais) ou até mesmo, por efeito sistémico, um aumento significativo de psicopatias como aconteceu em Nice.

A Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o inegável direito universal à vida, têm de voltar a ter um papel e um valor intrínsecos, fundamentais e inabaláveis, na sociedade e na gestão política das governações, sob pena do mundo entrar num espiral de violência e medo incontroláveis, e permanecer em permanente “estado de guerra” até ao caos total.

(créditos da foto: Christopher Furlong / Getty Images)

publicado por mparaujo às 10:39

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publicado na edição de hoje, 3 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Em pé de guerra

A recente notícia dos quatro argelinos que invadiram a pista do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, deixou muitos portugueses entre a perplexidade e o sobressalto, para mais com a divulgação que, semana antes, o mesmo tinha ocorrido com um grupo de marroquinos. A perturbação e o desassossego deram, rapidamente, origem a algum histerismo colectivo e informativo com o fantasma “terrorismo”. O que já não é novidade, nomeadamente por essa Europa fora. Por mais que seja usado o chavão de que a vida continua e há que mostrar serenidade ao enfrentarmos a realidade, não tenhamos dúvidas: há medo instalado na sociedade, principalmente em países muito particulares como a França, a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Inglaterra, a Suécia ou a Noruega. Podemos continuar a andar na rua mas cada vez mais olhamos para o lado, para trás, para o “vizinho” com o qual nos cruzamos. Isto para referirmos especificamente a Europa, pela proximidade e pela afectividade, porque o olhar podia (e deve) ser mais distante: Estados Unidos, América do Sul, Iraque, Síria, Líbano, Afeganistão, Turquia, Mali, Somália, Sudão, Nigéria, entre outros. Pela lista, apesar de resumida, percebe-se que o Mundo está em guerra consigo mesmo, como afirmou recentemente o Papa Francisco. A todo este contexto importa lembrar, não deixar cair no esquecimento, e acrescentar a continuidade de vidas que, semanalmente, se perdem para sempre no Mar Mediterrâneo (números da Organização Mundial das Migrações revelam, só este ano e até à data, cerca de 3200 mortos neste mar cada vez mais transformado em cemitério do desespero).

A história revela-nos marcos importantes que determinaram mudanças relevantes nas sociedades e no desenho geopolítico mundial. Recordemos, a mero título exemplificativo, o fim da “Guerra-Fria”, a queda do Muro de Berlim e a unificação alemã, o fim da cortina de ferro e a desagregação da unificação no leste europeu. Além disso, os trágicos e impensáveis acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, com a consequente guerra no Afeganistão (Outubro de 2001) e, mais especificamente, com a Guerra do Iraque e o derrube de Sadam Hussain (Março de 2003), tornaram o Mundo menos seguro e mais conflituoso, como o demonstraram, por exemplo, os consequentes episódios de Madrid (11 de Março de 2004) e Londres (7 de Julho de 2005). Com a morte de Bin Laden, o (re)surgimento do jihadismo islamita com raízes sunitas (em claro confronto com a corrente xiita), o denominado Estado Islâmico tem manchado o valor da liberdade, da igualdade, da fraternidade e, principalmente, o inegável direito à vida, seja na Europa, seja em pleno coração africano, directamente ou através da sua influência. Na Europa, após os trágicos e deploráveis acontecimentos no Charlie Hebdo, há pouco mais de ano e meio (7 de janeiro de 2015) cobririam a França e a Europa de um rasto de atentados terroristas sob a suposta conversão do mundo ao islamismo radical e à implantação do grande califado (a junção da política - estado - com a religião é, neste caso, incontestável). O mais recente caso, na Europa, de terrorismo sob a capa do jihadismo ocorreu em França, na igreja de Saint-Etiénne-du-Rouvray, com o sacerdote Jacques Hamel a ser degolado. Mas o medo, a agitação e o constante sobressalto com que vivem, no dia-a-dia, milhares de europeus não pode ser apenas visto como sinónimo de islamismo radical ou tudo com a marca do Estado Islâmico. A verdade é que a Europa, em particular, vive momentos inconfundíveis duma clara “crise existencial”, de degradação dos seus valores políticos e sociais e que estiveram na sua génese, de incapacidade política para enfrentar os recentes desafios (seja na origem - Síria, p.ex., seja no seu interior) sociais e humanitários com que se depara diariamente, como por exemplo questões de integração social e cultural e a questão dos refugiados. A Europa em particular e o mundo, em geral, vivem demasiadamente preocupados com questões económico-financeiras, descurando as vertentes políticas, sociais e culturais. O medo e alguma histeria islamofóbica instalou-se na sociedade a propósito de tudo e de quase nada, mesmo que nem tudo seja Estado Islâmico ou islamismo radical. Reconheça-se o crescimento da xenofobia e do racismo, da perda dos valores e dos direitos humanos em muitos estados a caminho dos totalitarismos (Hungria, Turquia, etc.) do radicalismo da extrema-direita (como sucedeu há cinco anos na Noruega, como sucedeu recentemente na Alemanha, num centro comercial em Munique, e com o crescimento dos movimentos radicais) ou até mesmo, por efeito sistémico, um aumento significativo de psicopatias como aconteceu em Nice.

A Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o inegável direito universal à vida, têm de voltar a ter um papel e um valor intrínsecos, fundamentais e inabaláveis, na sociedade e na gestão política das governações, sob pena do mundo entrar num espiral de violência e medo incontroláveis, e permanecer em permanente “estado de guerra” até ao caos total.

(créditos da foto: Christopher Furlong / Getty Images)

publicado por mparaujo às 10:08

22
Mar 16

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É um facto... é condenável e provoca um enorme sentimento de revolta e indignação o que se passou hoje em Bruxelas, na capital belga e em pleno coração da União Europeia.

O terrorismo tem de ser combatido; a intolerância, a não aceitação do outro, a falta de liberdade e de democracia, têm de ser combatidos de forma voraz e eficaz. Não podemos começar a viver com esta noção de medo, de insegurança, da desconfiança permanente por quem caminha ao nosso lado, com a crescente onda de exclusão e de radicalismos ou extremismos que surgem nestes momentos trágicos e que têm surgido em torno da questão dos refugiados (que normalmente é sempre "mal" colada a estes episódios).

Mas também temos que ser coerentes e racionais nestas alturas. Indignamo-nos, revoltamo-nos, somos todos "Charlie" e "Je Suis...", rezamos por Paris, como rezámos por Madrid, Londres e agora também por Bruxelas ("Pray for Brussels"). Mas somos, ao mesmo tempo, hipócritas. Tocam-nos, legitimamente, os atentados em "nossa casa", no seio da Europa, no coração das instituições europeias. Temos esse direito? Claro que temos... o direito e a obrigação "moral e solidária". E é verdade que está em causa a defesa do princípio da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade (pelo menos), a que se junta uma inacreditável irresponsabilidade política dos países europeus e da União Europeia quer na sua defesa, quer no combate ao terrorismo, quer na forma exploratória com que sempre lidou com países como a Síria, o norte e o centro de África ou o Médio Oriente, quer na forma como não consegue lidar com a tragédia humanitária dos refugiados.

Há hipocrisia e incoerência quando privilegiamos uma Europa e uma sociedade exclusivamente economicistas e financeiras, para depois virmos "chorar" pela Liberdade, pela Democracia, pelos Valores Sociais (a justiça social, a igualdade, a inclusão, etc.).

Mas é também sermos hipócritas e incoerentes quando bradamos aos céus e a todos os ventos por estes atentados, reclamamos a justiça pelas vítimas inocentes, mas, simultaneamente, desviamos o olhar, sentimos indiferença, apatia, Nigéria, Quénia, Mali, Tunísia, Costa do Marfim, Centro de África, Afeganistão, Iraque... e principalmente quando não conseguimos defender, nem proteger, a Síria ou negociamos imoralmente com a Turquia deixando-a a "ferro e fogo", sem vertermos uma única palavra ou lágrima de revolta.

Pedimos bandeiras para fotos de perfil, luzes que espelhem as cores da Bélgica na Torre Eiffel ou na Torre de Belém, mas importa questionar: onde esteve projectada a bandeira da Rússia quando abaterem o avião russo no deserto ou a bandeira da Turquia sempre que lá há um (constante) atentado ou a da Tunísia a lembrar o último atentado no resort em 2015 ou na Costa do Marfim também num resort, no início deste mês, etc., etc., etc.?

Pela coerência, pela verdade, pelo respeito por todos, Je Suis... Madrid, Londres, Charlie, Paris, Bruxelas, Turquia, Nigéria, Quénia, Síria, Costa do Marfim, Tunísia, Iraque, ... onde hajam vítimas da intolerância, da falta de liberdade, dos radicalismos e extremismos (sejam eles políticos ou religiosos... ou ambas as coisas).

"Je Suis..." pela LIBERDADE, IGUALDADE, pela VIDA, pelos DIREITOS UNIVERSAIS.

Hoje, como "ontem" noutras circunstâncias, "Je Suis... Bruxels", sem hipocrisia.

publicado por mparaujo às 13:53

08
Jan 15

A onda de solidariedade para com o jornal Charlie Hedbo, a condenação do atentado de ontem, a defesa da liberdade de expressão e da liberdade de informação, e, infelizmente em menor escala, o luto também pelos dois polícias mortos, fizerem crescer um sentimento colectivo nas redes sociais e nos espaços públicos.

As capas de muitos jornais (nacionais e internacionais) de hoje (08-01-2015) são o espelho deste sentimento colectivo.
Espero, muito sinceramente, que todos nós, os que hoje somos "Charlie", amanhã o continuemos a ser em tudo o que condiciona a Liberdade de Expressão, a Liberdade de Informação e o direito à Vida.

(em portugal)

I 08-01-2015.jpg DN 08-01-2015.jpg JN 08-01-2015 Charlie Hedbo.jpg

Publico 08-01-20015.jpg Negocios 08-01-2015.jpg

(lá fora)

 Berliner Kurier 08-01-2015.jpg Berliner Zeitung 08-01-2015.jpg  Berlingske.jpg

Guardien 08-01-2015.jpg Independent 08-01-2015.jpg La Tribune 08-01-2015.jpg

Le Parisien 08-01-2015.jpg Lecho 08-01-2015.jpg Lequipe 08-01-2015.jpg

Liberation 08-01-2015.jpg  National 08-01-2015.jpg Normandie 08-01-2015.jpg

Politiken 08-01-2015.jpg

publicado por mparaujo às 17:29

26
Ago 13

O falecimento de qualquer pessoa, independentemente das circunstâncias ou do que marcou a sua vida, merece-me duas reacções: respeito e de pesar, sendo alguém (mesmo que não conhecido pessoalmente ou próximo) que, em vida, me mereceu consideração, apreço e deferência; ou indiferença (mas não regozijo ou censura) se caso de alguém que condenei, critiquei ou em nada se aproxima dos meus princípios e valores.

E são inúmeros os casos que sustentam esta dualidade de reacção em relação à morte de alguém.

Vem a propósito o falecimento do Dr. António Borges, economista, ex secretário-geral do PSD, ex director do FMI e consultor político do Governo de Passos Coelho.

Em relação a António Borges nunca nutri qualquer simpatia pela sua acção pública, aliás extremamente carregada de controvérsia e contradição. Não tenho, em relação ao seu falecimento, qualquer reacção de condenação, regozijo ou lamento (a não ser a perda da vida, que essa me merece todo o respeito).

Têm sido diversas (para o bem e para o mal) e muitas as reacções e análises nas redes sociais ao falecimento de António Borges. Quer em relação à sua pessoa, quer em relação à tomada de posição pública do PSD, do Governo e do Presidente da República.

Não tenho que criticar essas reacções do partido do qual António Borges foi secretário-geral (no tempo de Manuela Ferreira Leite), nem do Governo do qual foi consultor (em muitos casos com mais peso que qualquer ministro) ou do Presidente da República. Para além da afinidade política acresce a perda de uma vida humana.
Mas lamento profundamente que em relação a essa vida humana o Governo e, nomeadamente, o Presidente da República (que deveria ser presidente de todos os portugueses) não tenham tomado uma única posição de respeito pelo falecimento, este ano, de três bombeiros no combate aos incêndios, das inúmeras crianças que faleceram nessa chacina que tem sido a guerra na Síria ou em relação às mortes nas cheias na China ou nas manifestações no Egipto.

O respeito pela vida não é apenas em relação àqueles que nos são mais próximos. A vida, como o bem mais precioso e o direito inalienável de qualquer ser humano deve merecer o respeito (seja de que forma for) sempre e em qualquer circunstância.

E há circunstâncias mais que óbvias: os indefesos e os que dão a vida pelas causas dos outros.

Lamenta-se o silêncio…

publicado por mparaujo às 10:42

18
Ago 13

Publicado na edição de hoje, 18 de agosto, do Diário de Aveiro (sem a foto cujos créditos corresponde ao site da Rádio Renascença).

Cagaréus e Ceboleiros

“Vida por Vida”… levado à ‘letra’

“Vida por Vida” é o conhecido lema dos bombeiros portugueses.

O Verão é uma época do ano que deveria ser lúdica, cheia de prazer e gozo, resultado de uma merecido descanso após um ano laboral. Mas com ele não vem apenas o sol, a praia, o mar (ou os rios e albufeiras) e o calor… este, principalmente, traz um verdadeiro flagelo: os incêndios.

Infelizmente é um processo cíclico que marca, de forma dramática, o país e esta época do ano.

Este flagelo dos incêndios, que proliferam de norte a sul, deixa o país à beira de um ataque de nervos. É um problema repetido verão após verão, desleixado ao nível governamental e local: planos municipais de prevenção, maioritariamente, inexistentes; falhas na prevenção; falhas nos recursos a disponibilizar aos bombeiros (corte no financiamento de cerca de 30%) e protecção civil; e, muitas vezes esquecido, falhas na elaboração e aplicação de um plano de (re)florestação nacional consistente e estável.

Sem um combate permanente e uma acção constante planeada, anualmente, o país perde (“arde”) a nível económico, ambiental e social. Mas mais importante que as perdas do país é o desespero vivido por muitas famílias e comunidades que vêem os seus bens, total ou parcialmente, destruídos.

Para além das questões ambientais, económicas e sociais, os fogos servem igualmente para um desfile de opiniões, críticas, acusações. Curiosamente, seja qual for o sector da sociedade civil (autárquico, político, cidadãos, governo) os Bombeiros são, em alguns casos, o alvo preferencial das criticas: ou porque demoraram a surgir para o combate ao incêndio; ou porque são ineficazes e falta-lhes estratégia; ou porque são adjectivados de ‘amadores’, mal preparados e mal formados (esquecendo-se que são considerados dos melhores bombeiros do mundo); ou porque são descuidados, precipitados e negligentes.

Depressa as pessoas se esquecem de que, na hora da aflição, é a eles que recorremos em primeiro lugar (muitas vezes, e são várias as histórias conhecidas, por tudo e por nada). Depressa as pessoas se esquecem de quem perde a vida pelos outros, pelos bens dos outros, só pelo serviço comunitário, pelo espírito de missão e voluntariado, de forma desinteressada… são os bombeiros. E, infelizmente, são já muitos os que partiram (segundo os dados dos Bombeiros de Portugal, desde 1980 e até à sexta-feira passada – incêndio na Covilhã/Peso, faleceram 104 bombeiros no combate a incêndios). A média estatística poderia trazer valores (pouco mais de três mortes por ano; este ano registam-se, à data, duas mortes) que correriam o risco de parecerem irrelevantes, não fosse o caso de se tratarem de vidas humanas. Nem uma que fosse, seria, por si só, algo que se lamentaria, como se lamenta que todos estes 104 bombeiros tenham perdido a vida, só porque por vontade própria e por vocação pessoal decidiram dedicar o seu esforço e a sua vida aos outros. A gratidão é dos gestos mais nobres na relação humana. Não seria mais que uma evidente obrigação uma maior atenção (reconhecimento social e apoio financeiro) do Governo, das Autarquias, das comunidades e dos cidadãos para com as corporações de bombeiros e pelos seus voluntários. Pessoalmente, só posso dizer: Obrigado.

O mais recente trágico falecimento de um bombeiro na Covilhã (do qual o relato dos acontecimentos explicado, por exemplo, pelo presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Soares, quer na RTP, quer no Diário de Notícias de sexta-feira, é, no mínimo, “arrepiante”) faz trazer à memória, não só os factos acima descritos, como, de novo, as notícias relacionadas com a situação insustentável dos Bombeiros Novos de Aveiro, agravadas neste mês (depois das últimas dificuldades sentidas em Abril passado).

Hoje, as comunidades e Aveiro, em particular, têm de reflectir sobre o redimensionamento de muitas das suas instituições em diversos sectores e áreas. É o caso de algumas vozes tornadas públicas (por exemplo, na Assembleia Municipal), às quais me junto, que defendem a fusão das duas corporações de bombeiros, dando-lhes uma melhor estrutura, solidez, dimensão, escala e melhor rentabilidade de recursos, melhorando com isso o excelente e dignificante serviço (a maioria das vezes impagável) que prestam aos cidadãos e à comunidade.

Questionar a actual existência de duas corporações de bombeiros não é desprestigiar todos os que directa ou indirectamente a elas estão ligados, nem renegar a história e o papel que foram tendo ao longo da sua existência. É antes de mais, valorizar a sua importância, dignificando o seu valor social e humanitário, promovendo a sua sustentabilidade e a continuidade do seu serviço público inquestionável.

O contrário, face às novas realidades sociais e económicas que vivemos (e que muito dificilmente verão “melhores dias”, num futuro próximo), poderá ditar constrangimentos futuros que colocarão em causa a sobrevivência, não apenas dos Bombeiros Novos, mas, eventualmente, das duas instituições.

Como aveirense “Cagaréu e Ceboleiro”.

publicado por mparaujo às 13:39

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