Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

05
Dez 16

1a8e5d464cc4c8eb741ac46a410134a0.jpg(crédito da foto: Ana Baião, in Expresso online)

Terminou ontem o XX Congresso do Partido Comunista Português, um dos, se não mesmo o mais atípico da história congressista dos comunistas. Não que a sua estruturação, a sua organização, tenham trazido algo de novo ou de diferente. A diferença residiu no conteúdo e não na forma.

Dos grandes combates ideológicos do pós 25 de Abril, das grandes defesas pragmáticas e programáticas dos últimos anos (décadas), o XX Congresso do PCP que se realizou em Almada, foi demasiado soft, pouco programático e mais conformista. Tudo, obviamente, por força do compromisso assumido com o PS no suporte parlamentar ao actual Governo, por mais distanciamento que o PCP procure publicamente justificar (sem resultado, diga-se).

Por isso é que ideológica e programaticamente apenas se falou do aumento do salário mínimo e de eventual revisão da lei laboral. A grande defesa do povo, dos trabalhadores, dos direitos adquiridos, da força sindical, neste fim-de-semana, ficou muito longe do Pavilhão dos Desportos de Almada e da retórica discursiva dos comunistas.

A verdade é que o PCP saberá manter o seu retorno político do acordo com o PS tendo o seu "trunfo" que reside na actual "paz sindical". No momento em que verificar que o apoio à "geringonça" terá mais riscos que benefícios saberá colocar na rua toda a sua força reivindicativa, saberá movimentar nas escolas, nos hospitais, nos transportes, na função pública, toda a sua máquina sindical. E mais do que ninguém o PS depende desta paz nas ruas negociada com o PCP. Por outro lado, o PCP sabe que a sua maior preocupação é o BE e o mediatismo que a posição dos bloquistas mantêm na coligação parlamentar, sendo que os comunistas estarão particularmente atentos às fragilidades do BE e à sua perda de eleitorado.

Enquanto for rentável politicamente o PCP só verá vantagens em manter este apoio ao Governo de António Costa. Por mais que os comunistas queiram demonstrar diferenças e manter distanciamentos de governação, a verdade é que a aprovação dos últimos dois orçamentos do Estado e algumas políticas de gestão governativa não deixam dúvidas que a relação estará para durar. E nem mesmo as ameaças com o Euro, a renegociação da dívida ou os compromisso europeus, beliscarão minimamente esta relação. Sabendo-se as diferenças nas áreas internacionais enquanto o Governo mantiver mais ou menos controlada a pressão da União Europeia, do Banco Central Europeu, da OCDE e do FMI, tudo isto não passa de demagogia congressista numa tentativa de demarcação programática e ideológica em relação ao Governo para consumo da opinião pública portuguesa e da manutenção do eleitorado comunista.

Mas há um dado interessante no rescaldo deste XX Congresso do PCP. Um dado interessante e que será marcante, no panorama político e partidário, no próximo ano de 2017: as eleições autárquicas.

Sendo o PCP um partido com clara e forte identidade local e autárquica, as eleições locais de 2017 têm uma redobrada importância e espelham o que já por diversas vezes referi: as eleições autárquicas de 2017 terão uma leitura marcadamente nacional. O PCP saberá tirar partido da sua forte presença nas autarquias e nas freguesias, gozará de uma "Paz institucional" que lhe permita negociar com o PS a menor confrontação autárquica possível e usufruir, eventualmente, de alguma proximidade/coligação, e, por último, será o barómetro para avaliar o impacto da presença do PCP na "geringonça" precisamente a meio de uma legislatura.

Aliás, esta realidade eleitoral autárquica do próximo ano foi uma das chaves do discurso de Jerónimo de Sousa no encerramento do XX Congresso do PCP.

publicado por mparaujo às 15:33

02
Dez 14

ceu guerra no xx congresso ps.jpgAinda a propósito do XX Congresso do PS, após a primeira análise que aqui foi feita “O Não à direita. O Talvez à esquerda... E longe de Évora”.

Se por um lado António Costa se preocupou em manter fora do secretariado nacional qualquer oposição, deixando para a Comissão Nacional os 30% da facção Seguro, foi inesperada a forma como o actual líder socialista escolheu os seus pares mais próximos para a direcção do partido. Muitas caras novas, deixou de fora os históricos, deixou de fora rostos marcadamente de facção (fossem de António José Seguro ou de José Sócrates), apostou em gente da sua confiança e numa ou outra promessa política socialista, como o mediático deputado João Galamba. Por outro lado, de forma politicamente inteligente, António Costa afastou do Congresso todo o peso do caso judicial que envolve o ex primeiro-ministro socialista José Sócrates, quer nas ausências a quaisquer referências à sua prisão ou a qualquer política governativa dos seus dois mandatos legislativos bem recentes. Algo, aliás, que os próprios congressistas e socialistas convidados entenderam e aceitaram cumprir na “perfeição”, deixando a exclusividade do espírito do Congresso ao confronto político com o Governo.

Aqui chegado, António Costa virou baterias, armas e bagagens, contra o Governo, Pedro Passos Coelho, PSD e CDS. As críticas, sob a forma de “casos de vida”, envolveram a maioria das medidas e acções governativas nos últimos três anos, sem uma referência significativa à Troika ou adiando para a primavera de 2015 as sua propostas programáticas para o futuro de Portugal. Apesar da sensação de vazio e de vacatura do discurso é, goste-se ou não, uma estratégia política que o final de 2015 revelará eficaz ou não. Até lá fica a interrogação se o declaradamente explícito Não a um entendimento à direita e uma Talvez abertura à esquerda (com quem o PS tem fortes divergências quanto à dívida, a algum Estado social e empresarial, à União Europeia, à NATO, sem esquecer a rasteira que a esquerda lhe pregou em 2011, já para não me remeter a longínquos conflitos na era PREC) se manterão para além dos resultados eleitorais de 2015.

Mas nesta narrativa crítica à actuação do Governo surgiu ainda um momento inesperado no Congresso e que é de difícil compreensão (para não dizer, aceitação) por parecer demasiadamente populista, eleitoralista, que, a eventualidade da emoção discursiva (e de improviso), por si só, poderá não justificar.
É certo que são conhecidos os movimentos femininos (muito para além do feminismo) que lutam e trabalham pela igualdade de género e em defesa das mulheres; são conhecidas as lutas que o PS trava, através de militantes e deputados seus, por essas causas (como exemplos); é certo que a “esquerda” tem, por natura, uma forma marcadamente mais pública e activa na defesa dos direitos, igualdades e dignidade humanos. Mas… estas realidades não são, não podem, nem devem ser, “propriedade política” de alguns, de uma parte apenas. Mais… muito menos devem ser confundidas com as circunstâncias discursivas ou narrativas dos momentos. António Costa não deveria ter tido o direito de se “apropriar politicamente” (já que de acto político se tratava o discurso de encerramento do Congresso do PS) de uma causa, de uma luta, de um sofrimento, que não é exclusivo do PS mas sim de todos e, principalmente, do respeito que vítimas e familiares merecem: a violência doméstica e as suas vítimas, mortais (ao caso concreto, as 34 mulheres vítimas mortais em casos de violência doméstica). Ficou mal na “fotografia” o líder socialista.

Permito-me, mesmo com a ousadia da “libertinagem” de usurpação de “palavras alheias”, reproduzir aqui um comentário da Fernanda Câncio, no Jugular, a propósito do tema: «muito comovente ouvir recitar, por céu guerra no congresso do ps, o nome das mulheres assassinadas este ano. mas estou tão cansada de momentos simbólicos sem consequência, de ramos de flores e poemas marejados de lágrimas q só sublinham a indiferença e a continuação do costume do resto do tempo. (…) olho para a prática legislativa e vejo o ps a defender q o assédio sexual, q é a evidência quotidiana da violência e da menorização das mulheres, da certificação d q o espaço público é masculino e q as mulheres nele se devem aventurar sempre a medo e sob ameaça (...), 'ñ tem dignidade penal'. as mulheres são mortas, e tantas, porque vivemos num país q as desconsidera quotidianamente, (…).a morte não tem remédio. é na vida que temos de reparar, e agir. porque só isso pode evitar a morte, real e simbólica, das mulheres».

publicado por mparaujo às 17:07

01
Dez 14

XX congresso PS - Mario Cruz_Lusa.jpg
(créditos da foto: Mário Cruz / Lusa)

Terminou o XX Congresso do Partido Socialista, agendado para este fim-de-semana.
Sabia-se já da incontestável liderança de António Costa que, há uma semana, tinha sido eleito secretário-geral com mais de 90% dos votos. Nesse aspecto nada de novo. Mas os acontecimentos político-judiciais dos últimos dias fariam prever uma acrescida perspectiva sobre este congresso.

Face ao que são os novos tempos político-partidários e as suas regulamentações internas, os congressos (concretamente do PS, PSD e CDS) perderam o fulgor e a “alma” de outros tempos. Destes, resta apurar no discurso de encerramento os chamados “recados da narrativa”. Em relação a este congresso socialista houve, de facto, vários ‘recados’ a extrair das palavras finais de António Costa.

O primeiro para uma comunicação social que, naturalmente, estaria à espera de referências ao caso que envolve José Sócrates. Importa não esquecer que há uma semana, no preciso momento em que “rebentava” o processo que envolve o ex primeiro-ministro, António Costa referia, no discurso da sua eleição à liderança do partido, que o PS “assume toda a sua história, os bons e os maus momentos”, acrescentado, numa clara referência à detenção do ex-líder socialista, que o “PS não adopta as más práticas estalinistas de eliminar este ou aquele da fotografia”, independentemente do desfecho deste processo judicial. Só que neste XX Congresso o nome de José Sócrates ficou de fora e foi tabu, para além de qualquer referência a um passado bem recente da governação socialista. A própria escolha dos membros da direcção nacional são disso prova, com uma renovação interna significativamente inesperada, com muitas “caras” novas, salvo uma ou outra excepção espelhada, por exemplo, naquele que é tido como um dos futuros políticos socialistas: João Galamba.

O segundo recado foi para o actual Governo. Críticas duras quanto à forma como nestes três anos Passos Coelho e a coligação conduziram os destinos do país. Os “casos da vida” apontados por António Costa empolgaram o congresso, marcaram uma posição política, apelaram ao coração dos portugueses, dos militantes e dos simpatizantes socialistas, mesmo que para além das críticas tenha faltado a razão de um programa, as linhas programáticas, de governação socialista, caso este vença as eleições. Restou o pedido de uma maioria e o suspense do país até à próxima primavera para que seja possível perceber-se o que propõe, concretamente, António Costa para os destinos do país.

O terceiro recado é direccionado para dentro do próprio partido e, simultaneamente, para a direita política portuguesa. Primeira nota para a exclusão da Direcção Nacional de qualquer militante afecto à ala de António José Seguro que, desta forma, é “apagado” da estrutura nacional socialista. Segunda nota para o afastamento peremptório de qualquer entendimento futuro (pré ou pós eleitoral) à direita do PS. Para aqueles que perspectivavam o regresso de Rui Rio ao PSD sustentado num apetecível entendimento com Costa, ou para os socialistas, como Francisco Assis, que afirmaram publicamente o desejo de um novo bloco central, tiveram, nas palavras bem claras do líder do PS, um redondo Não e um evidente afastamento político (Francisco Assis nem chegou a discursar no congresso).

O quarto recado tem uma relação directa com o anterior, embora pelo reverso da moeda. Apesar de ter “piscado o olho” à esquerda (desde a presença do Livre no congresso, às referências ao Bloco de Esquerda e ao PCP), o facto António Costa ter manifestado, por vários momentos, o desejo político de conquistar a maioria nas eleições de 2015 e ter, simultaneamente, dirigido críticas quanto às posturas políticas do BE e do PCP, leva a crer que é vontade do líder do PS que o partido assuma um papel político individual, afirmando-se como “a” referência da esquerda em Portugal numa eventual governação do país. Aliás, esta foi a imagem espelhada nos próprios comentários das ‘figuras’ do BE e do PCP que criticaram a referência que António Costa lhes atribuiu como “partidos do protesto” e o facto de não ter apresentado linhas programáticas quanto ao que o PS propõe para Portugal, nomeadamente quanto à questão da dívida portuguesa.

publicado por mparaujo às 10:51

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