Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

18
Nov 18

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Nada é mais importante que a vida. Nada se compara à luta pela sobrevivência perante a doença, a guerra ou a fome. Tomemos como exemplo a crise humanitária dos refugiados da África subsaariana, norte de África e do Médio Oriente (como exemplo, a Síria) e a permanente e constante busca diária pela sobrevivência e pela fuga à morte, mesmo que isso signifique mergulhar no completo desconhecido e incerteza.

Mas há outros contextos e realidades que tocam o limiar desta sobrevivência e que merecem também a nossa atenção e preocupação. É o caso da instabilidade social, económica e, principalmente, política que se faz sentir, nos dias de hoje, em vários (bastantes, diga-se) países da América Central e do Sul. À qual se acrescenta um significativo número de catástrofes naturais, numa região do hemisfério para a qual a natureza é madrasta.
São milhares de mexicanos, hondurenhos, guatemaltecos, nicaraguenses, haitianos, costa riquenhos, venezuelanos que chegam em caravanas de deslocados e migrantes à fronteira mexicana com os Estados Unidos.
À semelhança dos refugiados que atravessam a incerteza do Mediterrâneo, este milhares de migrantes fogem da pobreza, da fome, da violência e da degradação política dos seus países.
Não será por isso de estranhar que Portugal, por um conjunto de circunstâncias históricas e culturais, venha a sentir, muito em breve, esta realidade com milhares de brasileiros.
Não vale a pena escondermos a realidade... o Brasil caminha, perigosamente, para o abismo ditatorial. Ironicamente, através de um "normal" processo democrático que transformou essa mesma democracia na única escolha possível: à direita ou à esquerda, o mesmo resultado prático, a opção sobre um dos extremismos sem alternativa equilibrada ou moderada. Escusam, por isso, PCP e BE virem com falsos moralismos e demagogias balofas, como se mesmo ao lado, na Venezuela, a degradação e corrosão da democracia não fosse uma realidade visível e deplorável, com consequências humanitárias inquestionáveis. A verdade é que seja qual for a origem da deterioração política não há ditaduras de esquerda, nem de direita: há ditaduras, ponto. É de uma descarada hipocrisia política vir, para o caso do Brasil, rasgar vestes quanto a "estar em curso um poder de cariz ditatorial no Brasil" ou "recear a degradação democrática e pedir vigilância da comunidade internacional", quando se aplaude, orgulhosamente, um regime e uma realidade como a da Venezuela.
Aliás, sobre os populismos e os extremismos radicais deveria ser de leitura obrigatória o livro "How Democracies Die" ("Como Morrem as Democracias" - editora Vogais) da autoria de dois especialistas da Universidade de Harvard em ciência política,  Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, e publicado este ano a propósito da eleição de Donald Trump.

Infelizmente, é expectável olharmos para o Brasil com uma enorme apreensão porque o que se aproxima em janeiro de 2019 não é nada positivo: convulsões sociais, violência, autoritarismo, degradação das liberdades, dos direitos e garantias dos cidadãos. E bastaram as horas e os dias imediatos aos resultados da segunda volta eleitoral para perceber o destino da "Ordem e Progresso" brasileiros: as medidas estratégicas anunciadas (a liberalização das armas, os atentados à liberdade de expressão, opinião e de imprensa; a intenção de mudar a embaixada brasileira de Telavive para Jerusalém; o perigo da militarização do regime; ...) as suas ligações estreitíssimas à Igreja Universal do Reino de Deus; o xenofobismo e racismo latentes e religiosamente defendidos, a promoção da desigualdade social, e as primeiras felicitações de Maduro, de Erdogan, de Janos Ader ou de Trump.
Aliás, quanto ao presidente dos Estados Unidos, nunca fui, nem sou, admirador de Donald Trump (bem pelo contrário). Mas quando adjectivam Bolsonaro como o "Trump da América do Sul" a primeira reacção que tenho é: "tomara que fosse". Não pela personificação política mas porque, infelizmente, a estrutura política e das instituições democráticas brasileiras são muito mais frágeis que a democracia americana, apesar de tudo.

Não será, por isso, de estranhar que os consulados portugueses no Brasil venham, no próximo ano, a receber um elevado número de pedidos de asilo, de dupla nacionalidade ou de vistos e que Portugal venha a ver entrar pelas suas fronteiras um considerável número de cidadãos/famílias brasileiros. Estaremos nós preparados para esta onda de migração?

Estará a América do Sul preparada para um aumento das caravanas migratórias por força da permanente instabilidade geopolítica, da pobreza, da degradação da economia e da democracia, da violência?

Transformar-se-á, ainda mais, a fronteira do México com os Estados Unidos da América num novo "Mar Mediterrâneo", tal como o encaram, ainda hoje, os milhares de refugiados do Médio Oriente e de África às portas da Europa (Malta, Itália, Grécia, Espanha)?

Apesar de ser a menos imperfeita de todos os regimes, a democracia não pode, às mãos do populismo, do extremismo, do radicalismo e, acima de tudo, da indiferença (a pior de todas as "armas") transformar-se na "coveira das sociedades".

E os dados assustam as consciências: 230 milhões de pessoas vivem fora do país em que nasceram; há cerca de 14,2 milhões refugiados no mundo; 10 milhões de pessoas em todo o mundo são consideradas "apátridas" – nenhum país as reconhece como nacional; ou cerca 33,3 milhões de pessoas foram forçadas a deixar as suas casas permanecendo dentro do seu próprio país (deslocados internos). (dados: amnistia internacional)

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publicado por mparaujo às 16:36

11
Nov 18

Terminou, hoje, a XI Convenção do Bloco de Esquerda, com um conjunto de banalidades demagógicas, de contrariedades e de ilusões políticas, à semelhança do que foi o percurso do BE nestes quase quatro anos de "geringonça".

Um decepção política total, uma mascarada afirmação ideológica e uma completa ausência de sentido democrático. O Bloco é, neste momento, o "parasita partidário" (tal como classificam o CDS em relação ao PSD e aos vários governos onde esteve inserido) da esquerda, apenas sobrevivente porque colado aos Socialistas.

Basta começar pela afirmação de Pedro Soares ("não falamos [na convenção] da direita porque ela não conta para o futuro do país"), em três breves notas: 1. O conceito de democracia e de respeito democrático do BE é isto, sempre foi isto (imagine-se o que será em relação aos cidadãos que têm diversidade e disparidade de opiniões e visões); 2. Foi este "princípio democrático" ou "(falta total) "de sentido democrático" a única razão da formação e sobrevivência da "geringonça": o ataque ao PSD e afastamento do partido da governação; 3. Mas, por outro lado, há alguma "verdade", na afirmação do deputado bloquista, em não terem falado na direita, embora, claramente, por outra razão.

Vem tardia a "animosidade" e as permanentes críticas em todas as intervenções ao PS e ao Governo. Isto porque a aprovação do Orçamento de Estado para 2019, que contou na generalidade com o voto favorável do BE e contará, igualmente, com a aprovação na especialidade, significa o fim da "geringonça" face à aproximação das eleições legislativas de 2019.
Garantida qualquer crise política que pudesse perspectivar ganhos à direita, será mais que expectável que o Bloco de Esquerda inicie, agora, uma retórica política de distanciamento programático e ideológico aos PS, reconquistando o seu eleitorado, mesmo que para isso tenha que entrar em plena contrariedade com o que foi o seu discurso e  acção nestes pouco mais de três anos de coligação parlamentar e suporte à governação socialista.

É que a Convenção do BE, os discursos, principalmente, de Catarina Martins, Mariana Mortágua e Pedro Soares, esqueceram e camuflaram/dissimularam o comportamento político do Bloco de Esquerda como parceiro parlamentar do PS.
Noutros contextos e realidades o discurso, as atitudes e as acções do BE teriam sido completamente distintas e críticas, "rasgando vestes", alimentando manifestações e concentrações sectoriais e sindicais. O sentido de oposição, as causas ideológicas (excepção para a obsessão em relação aos rendimentos e ao tecido empresarial), a "batalha de classes", deram lugar a um populismo decepcionante e banal.

O BE esqueceu-se, enquanto parceiro da "geringonça"...
- da enorme carga fiscal, da injustiça contributiva por força da tributação "indirecta", igualando ou superando as exigências aos contribuintes no tempo do tão demonizado período da Troika.
- que provou do seu próprio "falso moralismo" com o caso Robles.
- da saúde, da clara deterioração do SNS e da inúmera falta de resposta de equipamentos e serviços em tantos Centros de Saúde e/ou Hospitais.
- do estado da Justiça.
- da relação do Estado com a Banca.
- do Poder Local, da ausência de uma descentralização sustentável, do papel das Autarquias e de uma eventual recuperação do mapa das Freguesias.
- do Ensino e do estado do Parque Escolar em tantos municípios, dos Professores (completamente dos professores, nomeadamente na luta do tempo de serviço, algo que seria mais que suficiente para fazer cair um Governo... noutros tempos, claro).
- do Ensino Superior e embarcou em demagogias e medidas sem estruturação, como a diminuição das propinas que vai deixar mais alunos do superior fora dos apoios sociais e vai afundar a situação dos precários nas Universidades e agravar a ausências das respostas ao nível das residências. isto para não falar no risco da deterioração do próprio ensino.
- dos Funcionários Públicos, dos seu salários e das suas reformas.
- do peso do IRS nas famílias, retirando-lhes rendimento e poder de compra.
- que a questão do IVA na electricidade é um embuste porque a descida do seu valor não tem qualquer impacto no consumo, para além da redução do IVA na potência contratada abranger apenas uma franja pequena dos consumidores.
- que o país é muito mais que Lisboa e que também existem milhares de pessoas, em tantos e tantos lugares, que necessitam de transportes públicos no seu dia-a-dia.
- que apoios à economia e às empresas significam apoios aos trabalhadores, aos seus rendimentos, e ao aumento do emprego.
- que há sete meses que aumenta o encerramento de empresas e desde há quatro anos que as empresas não têm tão pouca esperança no futuro.
- que os portugueses vão pagar mais de 3 mil milhões de euros só em taxas e taxinhas.
- que mais de um milhão de portugueses trabalha mas vive na pobreza ou que 2,4 milhões de portugueses, cerca de 23% da população, está no limiar da pobreza.
- que face à ausência de rendimentos e de poder de compra, perigosamente, o crédito ao consumo cresce há quase um ano e está em máximos desde a troika. Os pedidos de ajuda de famílias endividadas sobre desde março deste ano.
- que os portugueses, em média, só poupam cerca de 80 euros por mês.
O BE esqueceu-se, enquanto parceiro da "geringonça"... que o orçamento que aprovou é, segundo a UTAO, tecnicamente incoerente e tem indícios de sobre-orçamentação.

Ou ainda que a crise da democrcia no Brasil é a mesma que se vive na vizinha Venezuela (por exemplo).

Ou melhor. O BE não se esqueceu, fez-se esquecido.... do seu papel, do seu discurso, dos seus princípios, do que defendeu em campanha eleitoral e do seu eleitorado. Fez-se esquecido da suas causas, para, agora, cumprido este mandato legislativo, perante a aproximação da eleições de 2019 e ultrapassado o momento/marco de aprovação do OE2019, vir afirmar-se como um "salvador da pátria e dos portugueses" quando a única coisa que fez foi o simples expedito constitucional para impedir o cumprimento da vontade expressa dos portugueses em 2015.

Nestes quatro anos, com uma cobardia política clara do BE em não querer assumir e repetir o feito de Março de 2011 perante a realidade governativa socialista, o Bloco lá foi mantendo uma união de facto, mesmo sem "papel passado", só para afastar o PSD do governo. E por isso, Pedro Filipe Soares enganou-se (deu jeito enganar-se) no alvo do discurso. Quem não contou nestes 4 anos, para Portugal e para os Portugueses, foi o BE e o PS e António Costa bem souberam aproveitar isso.

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(crédito da foto: José Sena Goulão / LUSA, in Sapo24)

publicado por mparaujo às 20:32

04
Nov 18

As Forças Armadas, por razões familiares, pela sua história e pelo que representaram para a implementação da Democracia em Portugal, merecem-me todo o meu respeito, mesmo que abalado pelos recentes acontecimentos de Tancos.

Merecem respeito, e qualquer Honra de Estado, todos aqueles que, nas mais diversas circunstâncias e contextos, em grande parte contra própria vontade, estiveram sujeitos à realidade da Guerra ou sucumbiram no cumprimento de um dever (muitas vezes transformado em obrigação): as duas Grandes Guerras (a segunda também) ou os vários cenários ultramarinos.

Haveria, e haverá, garantidamente, outras formas carregadas de simbolismo e dignidade para celebrar esses momentos históricos, como o 100.º aniversário do Armistício da I Guerra Mundial.
Momentos para Portugal recordar as vítimas, os seus heróis (como por exemplo, o murcense Aníbal Augusto Milhais - Valongo de Vinhais/Murça, mais conhecido como o "Soldado Milhões"), os combatentes.
E deviam ser igualmente momentos para recordar, da mesma forma, a outra face da moeda da Guerra: os que ficam no desassossego, com o dever de sustentar, com esforço, as famílias (normalmente as mulheres) que se vêem privadas das referências masculinas, como os filhos e/ou os pais/maridos. Infelizmente, esta é uma realidade que teimosamente é, por norma, esquecida e abandonada.

Daí que projecta uma sensação de algum desconforto, de alguma estranheza, que, em plena democracia, se assista à maior parada militar nos últimos 100 anos, em Portugal (mais de 4100 militares, quase 200 viaturas motorizadas, etc.).
Volvidos 43 anos depois do 25 de Novembro de 75... sabe a um certo (dispensável) saudosismo imperialista.Parada.jpeg

(fonte da foto: LUSA, in TVI 24 online)

publicado por mparaujo às 17:20

02
Nov 18

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Mas há um turbilhão de sentimentos: revolta, solidariedade, impotência, comoção, choque, desassossego, (...).

E há igualmente uma premissa que importa, desde já, destacar: não colhe o argumento "cá também há situações de..." ou "isso é lá longe, o que conta são os 'nossos'". Não! Não é assim...

Primeiro, a vida, os direitos e a dignidade humana são universais e não conhecem fronteiras.
Segundo, existem realidades e contextos bem distintos.
Terceiro, a preocupação por aqueles que estão ao nosso lado não implica sejam esquecidos ou ignorados os que estão longe.
Por último, esse tipo de argumento (tão ouvido no que respeita à problemática dos refugiados/migrantes) serve, na maioria dos casos, para esconder uma total (seja perto ou longe) indiferença, apatia, marasmo, comodismo, insensibilidade.

Não foram tão poucas as vezes que aqui se deu conta que há muito mais para além do gravíssimo contexto da conflitualidade com o islamismo, que ultrapassa as vivências com os atentados terroristas na Europa ou nos Estados Unidos. Há todo um Norte e Centro de África e um Médio Oriente que vive, há décadas, assolado pela guerra, pela morte, pela fome, pela exploração por terceiros das suas riquezas... completamente ao abandono, onde impera a total ausência por um qualquer respeito pela vida e pelos direitos humanos.

A ciência e a tecnologia evoluem a cada nano-segundo... mas as sociedades e os homens teimam em manter um estado de primitivismo, medievalismo e arcaísmo gritantes (apesar de nos situarmos em pleno século XXI).

A informação e a comunicação atingem uma velocidade estonteante mas cada vez há uma maior conflitualidade entre as pessoas e as nações... Há riqueza e, simultaneamente, mais pobreza... Há melhores condições de vida mas morre-se de fome...

O Índice Global da Fome em 2018 revela que 821 milhões de pessoas passam fome.
Segundo os dados recentemente revelados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância, Organização Mundial da Saúde, Divisão da ONU para a População e pelo Banco Mundial, em 2017, morreram 5,4 milhões de crianças com menos de cinco anos e mais 900 mil crianças entre os  5 e 14 anos. Não há argumentos suficientes para se ser indiferente ao facto de, em 2017, tenham morrido todos os dias 15 mil crianças devido à guerra; à escravatura, onde as crianças são 25% das vítimas (ainda há leilões humanos em 2018, por exemplo, na Líbia, onde se vendem pessoas por pouco mais de 100 euros); à escassez de alimento e água; à falta de condições elementares de saúde (vacinação, tratamento médico, etc) ou de infraestruturas básicas como o saneamento.
A maioria das mortes ocorreu na África Subsariana, no Médio Oriente e no Sudeste Asiático, numa lista considerável de países como o Chade, Madagáscar, Serra Leoa, Iémen, Zâmbia, Burundi, República Democrática do Congo, Eritreia, Líbia, Somália, Sudão do Sul, Síria, Gabão, Gana, Maurícias, Senegal, ou o Sri Lanka... e por aí fora. Países sujos nomes, para muitos, são "perfeitos desconhecidos".

Mas são países com rostos, com vidas...

Infelizmente vamos vivendo à "custa" de símbolos, de rostos, de imagens que se tornaram referência em diversos contextos: o pequeno Aylan Kurdi, a criança síria de apenas 3 anos, encontrado morto sobre a areia de uma praia na Turquia, em 2015; a jovem, Malala Yousafzay, de 17 anos, que sobreviveu a um ataque de talibãs em 2012, Nobel da Paz em 2014, e que luta pelo direito universal à educação das crianças; a jovem síria Doaa al-Zamel, uma das 11 sobreviventes de um naufrágio que vitimou 500 refugiados no mar Mediterrâneo, e que publicou a sua história no livro "Uma Esperança mais Forte do que o Mar", escrito em conjunto com Melissa Fleming, então directora de Comunicação e porta-voz do ACNUR; ou Clemantine Wamariya, que aos 6 anos atravessou sozinha, com a irmã, sete países, andou de campo de refugiados em campo de refugiados, para fugir do genocídio no Ruanda, acabando por encontrar os pais, 12 anos depois, num dos programas da Ophra.

Ontem a pior das notícias corria o mundo. A imagem da criança Amal Hussain, de 7 anos, colhida pelo fotojornalista Tuler Hicks do The New York Times, tinha-se tornado o "rosto" e o "símbolo" da crise alimentar e da fome no Iémen. É mais uma das fotos, das imagens, dos "rostos" tornados referências que NUNCA DEVIAM EXISTIR. A criança Amal não resistiu ao estado debilitado do seu corpo e do seu organismo e acabou por falecer num campo de refugiados a SEIS QUILÓMETROS DE UM HOSPITAL. Vergonha!

Se isto não indigna, não revolta, não inquieta, que a indiferença e a apatia esbarrem nos números que acrescem: a Cimeira Mundial de Defensores de Direitos Humanos, realizada esta semana, em Paris, revela que, em 2017, 312 activistas de direitos humanos foram assassinados (o dobro do registado em 2015); 4.400 trabalhadores humanitários foram vítimas de ataques graves ao longo das duas últimas décadas, dados revelados a propósito do Dia Mundial da Ajuda Humanitária, celebrado a 19 de agosto.

Isto não é (em) Portugal... mas vivemos todos no mesmo mundo e planeta (cada vez mais pequenos). E é tão fácil ajudar (há muitas formas, meios e entidades para escolhar)

(crédito da foto: Tuler Hicks/The New York Times)

publicado por mparaujo às 22:09

31
Out 18

mas infelizmente a realidade vivida no dia a dia por muitas pessoas (e são já demasiadas) e a falta de respostas sociais, médicas e económicas (já para não falar de uma total ausência de resposta cultural da sociedade) que são gritantes, apesar dos permanentes apelos, alertas e gritos de desespero.

O Diário de Notícias, na sua (con)versão diária digital, na edição de hoje, traz à reflexão uma notícia sobre o que significa para muitas famílias cuidar de alguém, concretamente um(a) filho(a), com paralisia cerebral: "Elas são a sombra dos filhos, à espera de uma lei que as proteja".

E, de repente, veio-me à memória o mês de setembro de 2014... já lá vão 4 anos mas este trabalho da Fátima Araújo, "Por acaso...", publicado no final desse ano, relacionado com a problemática social (em todas as suas vertentes) e os "dramas" que enfrentam os cidadãos com Paralesia Cerebral mantem-se, infelizmente, mais que atual e pertinente. Tomara que assim não fosse...

mas a "ter que ser"... Era bom nunca perder a memória.

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(créditos da foto: Filipe Amorim / Global Imagens in DN digital)

publicado por mparaujo às 15:41

26
Out 18

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Continuo a entender que a questão essencial sobre o suposto fantasmagórico e encenado "Assalto a Tancos" está longe de ser respondida e completamente arredada do que deveriam ser as preocupações políticas sobre o caso.

Partidarices à parte, e diga-se, a bem da verdade, que o PSD e Rui Rio, no caso, tiveram uma postura politicamente aceitável e correcta, o aproveitamento das Armas de Tancos para abrir brechas e fracturas governamentais (e retirar algum aproveitamento político da circunstância, como teimosamente quer o CDS) não faz qualquer sentido.

O caso de Tancos é tudo menos político, embora já tenha feito cair um ministro e acentuado a antipatia óbvia entre militares e Azeredo Lopes.

Perde-se demasiado tempo a jogar às escondidas com memorandos, quem disse ou não disse a quem: o Chefe de Gabinete não informou o Ministro, que não informou o Primeiro-Ministro, que não informou o Presidente da República (Chefe Supremo das Forças Armadas). Pescadinha com rabo na boca... ou o sacudir a água do capote.

O que é, de facto, importante reter deste processo todo é o grave atentado a princípios basilares da sustentação de um Estado de Direito Democrático: a verdade, transparência e confiança.

De que forma passam os cidadãos a olhar para as Forças Armadas, para qualquer Governação, conhecendo-se agora que as principais e fundamentais estruturas do Estado e da Democracia inventam, falseiam, criam farsas, deturpando a realidade com o objectivo de a apresentarem à sociedade perfeitamente alterada, ilusória e condicionada a interesses próprios? E porque é que ainda ninguém exigiu as devidas responsabilidades militares?

(e tratando-se das forças armadas...) Não foi para isto que Abril aconteceu...

publicado por mparaujo às 15:38

15
Out 18

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No dia em que o Governo entrega na Assembleia da República a proposta do Orçamento de Estado para 2019, tomaram posse quatro novos Ministros: Defesa (João Gomes Cravinho), Saúde (Marta Temido), Economia (Siza Vieira) e Cultura (Graça Fonseca).

E como diz (e suspeita) o povo... "isto anda tudo ligado".
Vejamos...

Porquê e para quê esta remodelação governamental? e ainda estão para vir os Secretários de Estado...

Várias razões e nenhuma substância concreta...

Excluindo o Ministério da Defesa, resultado da demissão do então Ministro Azeredo Lopes, as substituições nas restantes pastas só são perceptíveis por razões de cosmética e estratégia políticas.

Primeiro, desviam as atenções públicas que levaram à saída de Azeredo Lopes e do caso, ainda muito por explicar, de Tancos.
Segundo, permitem a António Costa aliviar as pressões políticas sobre áreas da governação que estavam debaixo de fogo intenso: a degradação da saúde, as críticas à falta de investimento e ausência de políticas que promovessem a economia e o desinvestimento na cultura.
Terceiro, retiram espaço mediático às posições do PCP e do BE (até Catarina Martins se mostrou surpreendida) sobre o Orçamento de Estado para 2019, perante um excessivo palco político face aos constantes anúncios públicos das "vitórias negociais" de medidas a prever no próximo Orçamento.
Quarto, possibilitam a António Costa, passada a demissão do Ministro da Defesa e os "ganhos políticos" do PCP e BE nos anúncios das medidas orçamentais para 2019, ter espaço público necessário para que o Governo e o PS ganhem os créditos políticos da apresentação do OE2019. Isto porque é notório que o próximo Orçamento é, obviamente, um orçamento eleitoralista, por duas razões principais:
- as medidas conhecidas ou previsíveis terão impacto político no resultado das legislativas de 2019;
- e porque este é o último orçamento da Geringonça, sendo expectável que o próximo ano, ano eleitoral de importância acrescida, signifique o fim da "aliança à esquerda" e da "ilusória paz política" que manteve a maioria parlamentar. PCP e BE vão procurar tirar dividendos partidários das medidas negociadas no Orçamento de 2019 e, simultaneamente, afastarem-se e descolarem da política do Governo para, dessa forma, marcarem a diferença junto do eleitorado, evitando o risco de serem segregados ou perderem votos para um PS que irá fazer tudo para tentar conquistar a maioria nas eleições do próximo ano.

De resto, as alterações nos quatro ministérios representam "zero". A um ano das próximas eleições legislativas a mudança de ministros e secretários de Estado não produz, nem permite pela escassez de tempo, qualquer efeito na estratégia ou no decurso das políticas do Governo. A política e estratégia de um Governo não mudam com as substituições de ministros. Apenas possibilita a António Costa rodear-se de personalidades da sua confiança e criar, em vários sectores (profissionais da saúde, agentes culturais, tecido económico, empresarial e comercial) novas expectativas, um aliviar da tensão social e uma ilusão de mudança no rumo político.

Mas esta remodelação governamental tem ainda uma outra análise, principalmente no que diz respeito à Saúde, Cultura e Economia. A incapacidade do Primeiro-Ministro em segurar, politicamente, os seus ministros mais vulneráveis à pressão externa, mesmo que para isso se esqueça que as políticas do Governo são da sua responsabilidade e não de qualquer dos ministérios que formam o Executivo.
E basta lembrar, à semelhança do que aconteceu com Azeredo Lopes, que António Costa, há cerca de uma semana, dizia que "todos os ministros eram um activo importante".

publicado por mparaujo às 22:47

13
Out 18

O desempenho das funções governativas no Ministério da Defesa, embora demasiadamente desgastante pela particularidade do sector, não colhe, por norma, o reconhecimento público pela ausência de mediatismo.
Mas não é fácil ficar indiferente à demissão do ministro da Defesa, Azeredo Lopes.

Primeiro, entendo que, em todo este processo (Tancos), o (agora) ex-ministro foi o único que teve verdadeiro sentido de Estado.
Segundo, todos os contornos (pelo menos os conhecidos) do chamado "roubo de Tancos" têm contornos demasiadamente obscuros e surreais, que muito pouco têm a ver com o âmbito político.
Terceiro, tal como no dia-a-dia, no desporto/competição, nos ambientes profissionais,
na sociedade, também na "nobreza" da política entendo que não vale tudo e muito menos o aproveitamento político-partidário sem fundamento ou limitado a uma triste argumentação demagógica (como, por exemplo, a posição e pressão do CDS no caso).
Quarto, há algumas questões que merecem uma referência especial e uma resposta clara por quem de direito e que são muito mais relevantes que a demissão do ministro Azeredo Lopes.

Vejamos...

1. Desde a primeira hora deste mandato legislativo do Governo de António Costa que são conhecidas as antipatias militares em relação ao Ministro da Defesa, Azeredo Lopes, que teve sempre a frontalidade política de não sobrevalorizar o papel dos militares na democracia nacional (apesar do reconhecimento generalizado da importância histórica de abril de 74), assumindo todo o risco mediático e com a coragem de enfrentar o "fogo" da pressão das Forças Armadas. E é longa esta antipatia institucional: o caso do Colégio Militar; a relação da polémica em torno do Colégio Militar e do caso das armas de Tancos; o próprio caso de Tancos e o surrealismo de alguns factos conhecidos.
2. É, por demais, óbvio, face a todos os acontecimentos e desenvolvimentos conhecidos, que este desfecho concretizado pela saída de Azeredo Lopes do Governo vai muito para além de qualquer contexto político: é, claramente, por parte de um dos pilares da democracia que deveria estar bem acima de qualquer contorno político, uma "execução" política de alguém, por natureza, distanciado das características tradicionais de um político.
3. Por tudo isso, é louvável a posição do ministro que, apesar de todos os contextos, liberta o Governo e as Forças Armadas, do mediatismo e da pressão política a que estiveram sujeitos nos últimos tempos.
4. Lamentável é a posição do CDS que fez de todo este processo um julgamento de carácter e político do ministro demissionário, criticando e avaliando todo o caso apenas com a intenção do aproveitamento partidário, esquecendo (propositadamente) toda a envolvência e toda a responsabilidade militar.
Não obstante, não sendo nestas coisas caso inédito (basta lembrar a substituição de Catarina Marcelino, então Secretária de Estado da Igualdade, sem a própria saber as razões e sem qualquer aparente justificação face ao seu meritório trabalho, e a demissão no caso Galpgate de Rocha Andrade, João Vasconcelos e Jorge Costa Oliveira), também António Costa teve um comportamento criticável. Apesar de toda a argumentação usada publicamente, concretamente 48 horas antes do pedido de demissão em plena Assembleia da República, e tal como no Galpgate, assim que a pressão política aumenta, diminui a capacidade do líder do Governo de segurar e defender os seus ministros e secretários de Estado. Em menos de 2 dias, Azeredo Lopes passou de insubstituível a "descartável". Além disso, a resposta conhecida publicamente ao pedido de demissão do ex-ministro da Defesa é disso um espelho: referências substantivas à necessidade de defender as Forças Armadas e um mero e insignificante agradecimento ao ministro demissionário. Nem um reconhecimento do seu nobre gesto e do trabalho desenvolvido no Governo.
5. Toda esta realidade e o desfecho que se verificou suscita algumas questões.
O que é que verdadeiramente aconteceu? O roubo das armas e o seu posterior aparecimento, foi uma encenação? E com que fim? Onde fica a responsabilidade do exército e da PJ Militar? Se, percorrendo a hierarquia das funções, a responsabilidade termina com a demissão do ministro, sendo António Costa o responsável máximo do Governo e dos Ministros porque é que se mantém no lugar? Por último, mesmo que por inerência do cargo, o Presidente da República é o Comandante Supremo das Forças Armadas, como é possível que Marcelo Rebelo de Sousa tenha estado sempre "ao lado" dos acontecimentos?

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(créditos da foto: Mário Cruz / Lusa - in Observador)

publicado por mparaujo às 10:08

07
Out 18

No momento em que recordamos o 20.º aniversário da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago (1998), o segundo atribuído a um cidadão português (depois do Nobel da Medicina - Egas Moniz, 1949), após a polémica em 2016 com a atribuição do Nobel a Bob Dylan, a Academia Sueca volta a envolver distinção literária em nova controvérsia ao decidir a não atribuição em 2018 devido a escândalos sexuais que envolvem o marido de Katarina Frostenson, uma das responsáveis pela escolha do premiado com o Nobel de Literatura.

Por outro lado, o mais "mediático" e singular Nobel da Paz, com particularidades próprias (é atribuído pelo Comité Nobel Norueguês, ao contrário dos restantes cinco que são atribuídos pela Academia Sueca - Física, Química, Medicina, Literatura e Economia - e é o único que pode ser atribuído a pessoas singulares ou a instituições/organizações) regressa à "normalidade" dos seus objectivos depois de envolto em alguma polémica: é questionável a manutenção da atribuição, em 2012, à União Europeia, face à forma como não tem conseguido lidar com a questão dos refugiados; e a Aung San Suu Kyi, em 1991, à data activista dos direitos humanos e políticos, agora líder da Birmânia, e que tem mantido um condenável silêncio em relação à perseguição e descriminação sobre a comunidade rohingya, obrigada a fugir para o Bangladesh.

O Comité Norueguês decidiu laurear, em 2018, com o Nobel da Paz, o congolês Denis Mukwege e a iraquiana Nadia Murad, "pela luta do fim do uso da violência sexual como uma arma de guerra e de conflito armado".

Denis Mukwege, criticado pelo governo por tentativa de "politização" do seu trabalho humanitário, é médico ginecologista na República Democrática do Congo, onde fundou, em 1999, o Hospital Panzi no qual foram tratadas mais de 50 mil mulheres vítimas de violência sexual na guerra e nos conflitos armados. No Congo, em média, 48 mulheres são violadas a cada hora.

Nadia Murad, de minoria étnica Yazidi, em 201, com 21 anos, foi raptada pelo Estado Islâmico, no Iraque, tendo sido vítima de violência sexual. Três meses conseguiu fugir, tendo-se tornado uma forte activista dos direitos humanos, contando a sua própria história para alertar para o problema da violência sexual como arma de guerra.

Denis Mukwege foi galardoado com o Prémio Europeu da Liberdade de Expressão, Prémio Sakharov 2016, prémio igualmente atribuído em 2016 a Nadia Murad que foi, ainda, nomeada Embaixadora da Boa-Vontade das Nações Unidas, nesse mesmo ano.

A afirmação de Denis Mukwege reflecte a nobreza e a justiça da nomeação: "este não é um problema só das mulheres, é um problema da humanidade".

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publicado por mparaujo às 01:03

05
Out 18

Há, precisamente, uma semana, a Indonésia era abalada por um sismo de magnitude variável entre os 5.9 e os 7.7, seguido de um tsunami com ondas a varreram a costa a mais de 190 km/hora... e como se não bastasse a terra teimava em continuar a tremer juntando-se-lhe agora uma intensa actividade vulcânica.

Mas a "revolta da natureza" traz ainda outra realidade que nos suspende a respiração: para além da destruição estão, para já, contabilizados 1424 mortos; um número incalculável de desaparecidos; 66 mil edifícios arrasados; 200 mil pessoas, entre as quais milhares de crianças, necessitam de ajuda urgentemente.

E a Terra não pára de se agitar na região.

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(crédito da foto: Reuters - in JN edição online 02-10-2018)
publicado por mparaujo às 23:29

30
Set 18

Não é uma questão de "meter tudo no mesmo saco" mas antes a contestação de várias realidades e vários contextos similares.
Muito por força do peso de uma história pouco dada aos avanços e progressos civilizacionais, Portugal é, camuflada e hipocritamente, um país de disparidades e desigualdades sociais, de atropelos aos mais elementares direitos fundamentais, demasiado estratificado.

Não são, como se poderia pensar a priori, tão insignificantes, isolados e raros os casos de xenofobia, de racismo, de desigualdade de género, de violência doméstica e infantil, de atropelos aos direitos humanos (por exemplo, em três anos foram detectados cerca de 240 casos de mutilação genital feminina). Somos um país aberto, diz-se que simpático e tranquilo, recebemos tudo e todos... mas temos uma dificuldade enorme, abertas as "portas", de integrar, entronizar e abrigar. Não vão assim tão distantes os tempos controversos e conturbados do acolhimento dos chamados "Retornados", só para avivar memórias.

Mas se as questões dos direitos humanos são, infelizmente, cada vez mais transversais por essa Europa fora, muito por força da conflitualidade internacional, fazendo crescer, perigosamente, populismos, extremismos e radicalismos, Portugal tem algo que é sui generis e nos distingue da "normalização cultural europeia", algo que é de uma particularidade, simultaneamente, distinta e absurda ou ridícula: a estratificação social... em parte motivada pela "posse", pela "propriedade", e, por outro lado, pela obsessão social com o chamado "canudo" (que tanta polémica pública tem gerado com adulterados CV's). Acresce ainda alguma superioridade centralista existente em torno da capital.

Recentemente, o Reitor da Universidade de Lisboa, em entrevista à Rádio Renascença na passada quinta-feira, criticou a diminuição, em Lisboa (e no Porto) do número de vagas no ensino superior, para este novo ano lectivo. Vagas que não foram extintas mas que transitaram para o ensino universitário que é oferecido no interior do país.
Há uma observação na declaração de António Cruz Serra com a qual temos, em parte, que concordar: «O desenvolvimento do interior não se faz com medidas destas nem à custa dos alunos. As políticas fazem-se com os recursos que se geram pelo Estado (...)». É bem verdade... não se faz APENAS com estas medidas, mas TAMBÉM com elas.
Mas é só aí que se concordará com o Reitor da Universidade de Lisboa. Ao contrário do que afirmou, esta é uma media social que é louvável e desejável.
Já é socialmente condenável e criticável o flagelo que é para um aluno "provinciano" ir estudar para Lisboa e que deveria preocupar, e muito, o Reitor da Universidade de Lisboa.

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Mas o surrealismo e o absurdo da entrevista de António Cruz Serra à RR teria o seu "ponto alto", a "cereja em cima do bolo", nesta pérola discursiva: «Eu não vou ver nenhum filho de um CEO das empresas do PSI20 a ir estudar para as universidades do interior por causa disto». A (ignóbil) piada está feita... sem comentários. Simplesmente patético.

Até porque a melhor e assertiva resposta surgiu por parte do vice-Reitor da Universidade da Beira Interior (Covilhã), João Canavilhas:

Veja-se o pedantismo bacoco do reitor da Universidade de Lisboa em entrevista à Rádio Renascença:
"Não vou ver um filho de um CEO de empresas do PSI20 a estudar no interior».
Olhe, pela UBI já passaram filhos de ministros, de deputados, de CEOs e sei lá que mais. Mas sabe, senhor reitor, o que nos orgulha verdadeiramente é receber filhos de agricultores, de operários têxteis, de carpinteiros e de mais um sem-número de profissões. De receber filhos de quem trabalha arduamente para lhes dar uma vida melhor do que aquela que eles tiveram. São esses pais e esses filhos que fazem de nós uma universidade verdadeiramente nacional e que presta um serviço público de qualidade ... apesar o subfinanciamento.

Infelizmente, Portugal continua, social e civilizacional, pedante e bacoco.

publicado por mparaujo às 22:40

24
Set 18

Não tem sido nada fácil para o Governo, nomeadamente para o ministro Adalberto Campos Fernandes, a gestão da pasta da saúde durante o presente mandato.

Inclusivamente, a realidade apresenta-se pior do que os exigentes e apertados anos da Troika.
Conflitualidade laboral nos mais diversos sectores profissionais, demissões atrás de demissões, serviços vazios e sem resposta, falta de investimento, ausência de cumprimento dos compromissos financeiros, cativações inexplicáveis.

Para o Bloco de Esquerda a questão coloca-se, de forma minimalista, com a acusação e a pressão sobre o PS e o Governo de se "colarem" à direita ou manterem-se à esquerda na política da Saúde. Como se não fosse a "esquerda" que, nestes últimos anos, tem governado o país.

Para os portugueses, a questão da saúde não encaixa no confronto e na dialéctica ideológica. Para os portugueses, a questão da saúde é um direito, uma responsabilidade do Estado (com ou sem intervenção directa), uma necessidade e um garante de qualidade de vida.

Por isso, afigura-se legítimo o coro de críticas perante a insatisfação com um sector crucial da democracia que, excluindo os seus profissionais (ou como em tudo, a maioria dos seus profissionais) não funciona, não satisfaz, não consegue cumprir com as suas obrigações perante os cidadãos.

E se há críticas que são silenciosas perante os holofotes da informação, outras há que, para além de cumprirem a legítima revolta pessoal, se tornam o espelho colectivo, um alerta comunitário, face à exposição pública dos seus subscritores.

É o caso deste exemplo, mais um entre tantos, que ocorreu com a filha da ex-jornalista Cecília do Carmo e que deu origem a uma exposição ao ministro da Saúde (original no facebook da Cecília do Carmo ou, em alternativa, aqui).

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publicado por mparaujo às 15:37

23
Set 18

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A politização das opções tomadas na gestão ou governação em determinados sectores, que se esperam blindados a determinadas influências ou pressões e baluartes da independência, comporta riscos acrescidos numa eventual responsabilização futura.

António Costa e, por decisão última e final, Marcelo Rebelo de Sousa, optaram por substituir a liderança da Procuradoria Geral da República, não reconduzindo Joana Marques Vidal e nomeando para o cargo Lucília Gago.

Vamo-nos abster, para já, de tecer qualquer comentário sobre a nova Procuradora-Geral, por uma questão de respeito merecido e pelo facto de todo o "nomeado" ter direito ao seu natural e óbvio processo de adaptação. Apenas a referência a alguns factos conhecidos e públicos: exerce funções na Procuradoria desde 1994, especialista em Direito da Família e de Menores (área onde exerceu a maior parte das suas funções), tem ainda experiência em criminalidade relacionada com o exercício de funções públicas ou políticas, corrupção, branqueamento de capitais e fraude económico-financeira. Foi uma opção de António Costa propor ao Presidente da República um nome dentro dos quadros da Procuradoria-Geral.

Mas vamos ao reverso da medalha.

Seja do ponto de vista dos partidos, seja pela opinião pública dos cidadãos ou das "entidades colectivas", excluindo, obviamente, os "amargos de boca" (e estômago) e as críticas dos directamente visados pelas acções do Ministério Público, nestes últimos seis anos (12 outubro de 2012), é generalizada a adjectivação de  excelência do mandato de Joana Marques Vidal à frente da Procuradoria-Geral da República.
Por si só, teria sido motivo mais que suficiente para uma recondução (que nunca esteve em cima da mesa, nem, segundo a própria, colocada directamente), algo que seria completamente pacífico e aceitável por todos.

Mas para além disso e tido esse contexto presente...
Se a intenção era escolher alguém dos quadros da Procuradoria-Geral da República, Joana Marques Vidal cumpria os requisitos.
Se está em causa a tão badalada questão do mandato único não se percebe que António Costa ainda não tenha definido o que entende por, apara além de único, "mandato longo", tal como escreveu ao Presidente da República. Por outro lado, para o papel e função da Justiça o que será mais importante: a unicidade e durabilidade do mandato ou a sua qualidade, marca e carácter?

Por último... resumidamente: na política e nos cargos públicos, a Operação Marquês (com José Sócrates como principal "protagonista") o relatório sobre a operacionalidade nos incêndios de 2017 e, mais recentemente, as suspeitas sobre os fundos de solidariedade em Pedrogão Grande; nos crimes económico-financeiros, o caso BES; na própria Justiça, a operação Lex e o caso e-toupeira (com extensão ao desporto); no desporto, o caso dos emails do Benfica, a operação Cashball que envolve o Sporting e a viciação de resultados de futebol na II Liga com a Operação Jogo Duplo; ou ainda o surrealismo do "assalto (mais ou menos fantasma) a Tancos. E se quisermos recuar à data histórica do futebol nacional, o caso das viagens pagas para os jogos do Euro2016, em França, sem esquecermos a "conflitualidade jurídica" com Angola.

Só o Governo e o PS não estiveram disponíveis para reconduzir Joana Marques Vidal. O risco é enorme... a fasquia está demasiado alta e qualquer inversão ou reversão da estratégia e objectivos do Ministério Público trará uma carga e conotação política que o Partido Socialista e o Governo podem ter que "pagar" e assumir responsabilidades acrescidas.

Já que o país gosta tanto de futebóis, lá diz o ditado: "em equipa que ganha não se mexe". A menos que...

(créditos da foto: Cofina Media, in Jornal de Negócios)

publicado por mparaujo às 15:45

11
Set 18

Foi há 17 anos... 11 de setembro de 2001.

Passados tantos anos porque é que o "11/9" ainda está bem presente na memória colectiva, não só dos americanos, como do resto do mundo?

Duas razões essenciais.

Primeiro... o número de vítimas (acima das 3 mil), a tragédia em si mesma, o impacto mediático dos atentados (Torres Gémeas, Pentágono e o Voo 93) e o significado político dos mesmos (atentado em pleno "solo" americano, bem dentro do coração político, económico e militar dos Estados Unidos).
Só por isto, e não será, obviamente, pouco, muitos anos ainda restarão para que a memória vá perdendo as suas recordações.

Segundo... porque após o 11 de setembro o Mundo nunca mais foi o mesmo no que respeita à segurança dos povos e das comunidades, à conflitualidade internacional, à ameaça do extremismo, do fundamentalismo e do radicalismo (seja ele qual for), à geografia geopolítica e geoestratégia mundiais.
Iraque, Afeganistão, África, Médio Oriente, Europa, o permanente cemitério do Mar Mediterrâneo, a crise humanitária dos refugiados... Ano após ano, atentado após atentado, guerra após guerra, barco de refugiados após barco, crise humanitária após crise (nomeadamente no coração africano)... são imensuráveis os factos, os casos, a realidade, que nos trazem permanentemente à memória os acontecimentos da manhã de 11/9, nos Estados Unidos da América.

Por mais que queiramos ficar indiferentes, por mais que os anos passem... a História nunca pode ser travada.11-09.jpg

publicado por mparaujo às 22:06

08
Set 18

Há cerca de oito meses a ministra da Justiça cometeu uma gaffe (não tão leviana ou descuidada como se possa imaginar) imprudente: Francisca Van Dunem expressava a sua opinião quanto a um mandato único na Procuradoria Geral da República.

Desde essa altura, amiúde, o tema tem vindo para o debate público, com especial incidência nos últimos tempos, agora que se aproxima o mês da decisão (outubro). Decisão essa que caberá ao Presidente da República por indicação do Governo.

Cresce, por isso, o confronto entre algumas vozes do PS e, nomeadamente, do PSD e do CDS. Os primeiros advogam a substituição da actual Procuradora Geral da República, Joana Marques Vidal, enquanto os segundos, face ao que foram os exemplares seis anos de mandato da responsável máxima pela Procuradoria, defendem a sua continuidade.

Simultaneamente, a questão tem levantado vozes críticas no interior do PSD por causa do silêncio de Rui Rio sobre a matéria.
Mas a verdade é que Rui Rio faz muito bem em não trazer para a "praça pública" o tema e não querer transformar o assunto numa novela política.

A Justiça tem, nas mais diversas facetas e contextos, uma imagem debilitada junto da opinião pública.
São igualmente conhecidos os contornos das suspeitos e processos que envolvem a política e políticos.
Sendo a Justiça um dos pilares fundamentais da Democracia e de qualquer Estado de Direito, assente, essencialmente, na sua isenção e separação de poder, a opção de Rui Rio em não entrar no jogo demagógico e na tentação de politizar e partidarizar este processo é um acto de excelência política.

Até porque quanto mais ruído mediático e público houver sobre o processo menos respeito se demonstra pela ainda Procuradora Geral da Repúblico e pelo seu trabalho meritório, excelente e reconhecido por todos, da direita à esquerda (PCP e BE, por exemplo).

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publicado por mparaujo às 22:06

02
Set 18

Somos relativamente permissivos e influenciáveis pelo mediatismo e pelo colectivismo no que toca à tragédia, à desgraça e à morte.
Forma muitos os que assumiram a corrente do "Je Suis Charlie" quando em janeiro de 2015 se deu a barbárie do atentado ao jornal satírico francês Charlie Hebdo. Mesmo que até à data grande parte nunca tivesse ouvido falar do jornal, nem das suas posições editoriais significativamente polémicas (nomeadamente no que respeita às religiões e crenças). Uns (colectivos e individuais) manifestaram-se porque faz parte dos seus olhares pelo mundo a questão dos Direitos Humanos e das Liberdades e Garantias de qualquer cidadão (no caso, seja o direito à vida, o direito à ofensa e o da liberdade de expressão, opinião e imprensa). Outros porque foram sensibilizados pelas manifestações públicos e assumiram a causa. Há ainda os que o foram... porque sim.
Volvidos alguns meses, os direitos e liberdades depressa viraram a página da revolta popular.
Nem mesmo os trágicos atentados que percorreram a Europa fizeram abalar, significativamente, essa indiferença ou esquecimento prematuros.
Esquecemos a Síria, Iraque, Afeganistão, Somália, Nigéria, Birmânia, Sudão, Iémen, África Central, ... mantemo-nos (mais ou menos) indiferentes ao facto da  FAO (Food and Agriculture Organization), Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, anunicar cerca de 224 milhões de pessoas subnutridas no continente africano;
ou, segundo a UNICEF, que uma criança morre a cada dez minutos no Iémen por falta de alimento;
ou ainda, como a ONG "Save the Children" sublinhava, em maio último, que mais de mil milhões de crianças vivem em países confrontados com pobreza extrema, 240 milhões estão em ambientes de guerra e que 575 milhões de meninas vivem em sociedades onde os preconceitos sexistas são um problema extremamente grave.

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Faz hoje precisamente 3 anos (setembro de 2015) que a imagem do corpo do pequeno Aylan Kurdi (com 3 anos de idade) caído na areia de uma praia turca chocavam o Mundo (ou grande parte dele).
À data esperava-se que a atrocidade e o impacto da imagem fosse suficiente para alterar mentalidades, políticas e acções, fossem elas dos Governos, de entidades, dos cidadãos, das comunidades ou da própria União Europeia. Até hoje... depressa esquecemos o simbolismo da altura de Aylan Kurdi. Qualquer morte é, por si só, estúpida, muito mais quando se trata de uma criança com apenas 3 anos... mas Aylan Kurdi deu à costa sem vida, com a vida perdida, para "nada".
A União Europeia, os Estados e Nações, os políticos, Governos e políticas, as comunidades, as instituições e a maioria dos cidadãos continua sem saber lidar com esta catástrofe humanitária de quem foge aos horrores e à morte movidos pela guerra de alguns contra alguns, sem qualquer preocupação pelos outros TODOS.
Cresce a xenofobia, o racismo, a indiferença, na Europa...
ganham expressão preocupante os extremismos e os radicalismos (que tanto combatemos no lado de quem faz a guerra e atenta contra a vida do Outro)...
aumenta a instabilidade social pelos confrontos na rua (são já 18 os feridos nos recentes e actuais protestos contra a migração e os refugiados, em Chemnitz na Alemanha)...
é preocupante a incapacidade da União Europeia de lidar com esta realidade, indiferente ao fortalecimento nacionalista e de extrema-direita no eixo Húngaro-Italiano...

E esquecemos... demasiadamente rápido.

A título de exemplo, em apenas três dias (29 junho a 1 de julho de 2018) morreram afogadas ao largo da Líbia mais de 200 migrantes.

O Mediterrâneo continua a ser, simultaneamente, a porta da salvação e o cemitério dos que tentam fugir à morte da guerra ou da fome.

As portas da Europa e o a própria União Europeia (cada vez mais indiferente e menos solidária e livre) continua a ser o Muro que ofusca a janela da esperança de milhares e milhares de PESSOAS.

Tão simples quanto isto: PESSOAS.

publicado por mparaujo às 20:18

01
Set 18

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Havia quem  estivesse com "demasiadas" saudades de Rui Rio.
Hoje, a tradicional (mesmo que reformulada) Festa do Pontal trouxe o líder social-democrata de regresso aos palcos políticos e de forma bastante assertiva, sem precisar de discursos inflamados, e com três notas/recados bem pertinentes.

1. O estado da Nação
Rui Rio fez uma abordagem muito concisa às principais áreas onde o Governo tem falhado enquanto auto-proclamado protector de um Estado Social propriedade moral da esquerda: a degradação da saúde que nenhum governo da chamada direita alguma vez projectou e que esta "esquerda" tem teimosamente desprezado; a instabilidade e conflitualidade vivida na educação e que, noutros tempos, servia para "rasgar vestes políticas"; os números da economia que escondem o enfraquecimento laboral com a deterioração salarial, a falta de investimento público, o aumento das importâncias e o desequilíbrio da balança externa, e o aumento desajustado do consumo privado.

2. PSD pode ser alternativa já em 2019, assim o queiram os portugueses.
Desde há quatro anos que reitero o mesmo princípio... esta solução de maioria parlamentar não tem qualquer consistência e sobrevive com um único objectivo presente desde a sua constituição: não ter permitido que o PSD fosse, em 2015, governo.
É por demais evidente os desencontros programáticos e estratégicos, as divergências políticas, apenas disfarçadas pela necessidade de não ser criada qualquer instabilidade que leve a uma antecipação eleitoral.
Num contexto completamente distinto e antagónico do actual, onde a necessidade de cumprir um compromisso assumido face ao resgate externo a que Portugal foi sujeito em 2011 impôs uma realidade bem dura aos portugueses, a austeridade foi bandeira de combate e de confronto político e ideológico.
Hoje, é mais do que claro para muitos dos cidadãos, que a austeridade apenas mudou de rosto e de roupagem: uma excessiva carga fiscal, muito mais injusta porque sustentada na tributação indirecta, é, por mais que a esquerda bloquista e comunista tente disfarçar, a marca desta governação.
As eleições de 2019 não serão "favas contadas" como muitos e muita demagogia discursiva quer tentar fazer crer num passeio eleitoral socialista.

3. (internamente) "tirem o cavalinho da chuva"
Mas a intervenção de Rui Rio no regresso político do PSD para o novo ano legislativo não se ficou apenas na avaliação política do estado do país.
Os que acusam Rui Rio, errada e demagogicamente, de uma aproximação ao PS, são os que, pelas suas posições, mais favorecem o discurso populista do Governo. O que o líder social-democrata tem feito é clarificar a sua liderança interna, por muito que custe a alguns "instalados", e recolocar o PSD na sua área político-ideológica natural e genética: o centro ou centro-direita.
E o recado não podia ser mais directo: ir até ao fim com o regresso da social-democracia à essência programática do PSD.

E, felizmente, veio para ficar. Criticaram tanto 30 dias (de férias) de ausência aqui tiveram um regresso em grande.

publicado por mparaujo às 22:52

27
Ago 18

é bem pior.... é Populismo.

O primeiro-ministro, na rentrée política do PS, em Caminha, afirmou que não "assinará" um Orçamento do Estado para 2019 eleitoralista, a bem da sustentabilidade financeira do país.

Era, apesar dos riscos, bem melhor que assim fosse, porque, no mesmo discurso, António Costa deixou antever um OE2019 significativamente populista para o Governo se afastar da pressão do PCP e BE e conquistar uma maioria tão desejada e sonhada pelos socialistas (mesmo que em "surdina").

Uma das afirmações mais expressivas desse populismo foi a que António Costa projectou como medida para a promoção do regresso dos muitos e muitos emigrantes que nos últimos anos abandonaram (uns forçados, outros por opção própria) o país: "50% de desconto de IRS e deduções em deslocação e habitação" aos emigrantes (nomeadamente os muitos jovens qualificados que saíram de Portugal) que emigraram entre 2011 e 2015 (curioso o período da Troika - nada acontece por acaso - como se não houvesse emigração em 2016) e que regressem nos anos de 2019 e 2020.

O que o populismo tem de mais perverso, mais que qualquer eleitoralismo, é desvirtuar a realidade e potenciar a demagogia e o engano.

Não foi, obviamente, a carga fiscal que fez com que milhares de portugueses abandonassem o país. E não será, claramente, a mesma carga fiscal (ou o seu alívio) que fará com que os mesmos, ou muitos deles, regressem.

Em 2017 a Fundação AEP (Associação Empresarial de Portugal) publicava o resultado de um inquérito aos jovens portugueses que optaram por emigrar. Destes, pouco mais de 40% afirmou que pensariam, um dia, regressar a Portugal e apenas cerca de 9% tinha mesmo planos para o fazer a curto prazo.

Oportunidades profissionais (emprego), atractivos científicos e culturais, valorização profissional e salarial, bem como a atractividade de uma Europa sem fronteiras e de um mundo globalizado, são razões muito mais válidas que o incentivo fiscal e que faz com que os emigrantes, nomeadamente os mais jovens, se fixem noutras paragens e se deixem seduzir por realidades sociais, económicas e culturais mais atractivas e promissoras.

O ministro Mário Centeno pode ficar descansado que não será por este anunciado populismo de António Costa que as contas públicas sofrerão qualquer abalo... nem mesmo um arranhãozito.

E não será por aqui que Portugal assistirá ao regresso de alguns dos "seus".

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 (créditos da foto: Pixabay/StelaDi - fonte: site jpn da Universidade do Porto)

publicado por mparaujo às 21:10

26
Ago 18

O PSD já teve a sua "silly season" tradicional da época do veraneio político: a saída de Pedro Santana Lopes do partido e a anunciada vontade de "atacar" a cadeira do poder partidário por parte de Pedro Duarte.

Mas pelos vistos tamanhos surrealismos político-partidários não foram suficientes para alimentar determinados egos, nomeadamente daqueles que se perfilam como críticos de Rui Rio.

Há agora quem também critique a ausência, neste mês de agosto, do líder do partido do palco público mediático. Mas para quê? Agosto é, por natura, um período de ausência da maioria dos portugueses do "mundo" por força do merecido (para a maioria) descanso das férias. É um mês onde as realidades políticas dão lugar às merecidas "fantasias das férias" e retempero de energias para um novo ciclo laboral/profissional ou escolar.

Falar de quê? De um orçamento que ainda é ficção e que nem no seio da Geringonça está perto de qualquer definição?
Falar dos incêndios? Quando o PSD sempre defendeu "não fazer política" à custa da tragédia ou quando ainda falta muita coisa (responsabilidades) por apurar?
Poderão alguns questionar a ausência, nesta data, de um posicionamento sobre os transportes/CP ou sobre o estado caótico da saúde e do SNS.

Mas porquê tanta pressa? Há timings que se revelam importantes para o confronto político. Neste caso concreto, num período que é, por tradição, adverso à política, fez bem Rui Rio guardar e resguardar o PSD para a rentrée política que terá lugar na Festa do Pontal, este ano agendada para 1 de setembro.
E fez bem porquê?

Primeiro, porque desvendará aí, não correndo o risco de repetição de conceitos, o posicionamento do PSD sobre o estado da nação, abrindo o regresso de novo ciclo político.
Segundo, porque parte com a vantagem de saber e poder responder às críticas e acusações que foram feitas pelo PS no seu regresso a novo ano político.

Nem sempre o falar muito, de tudo e sobre nada, apenas ao sabor de uma agenda mediática, é sinal de vitalidade política.

Descansem os agora "traídos e enganados" pela nova "Aliança" que Rui Rio está para ficar e durar e o PSD só terá a ganhar com este reencontro da sua matriz social-democrata.

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publicado por mparaujo às 17:08

23
Ago 18

Pedro Santana Lopes formalizou, no início do mês, a sua saída do PSD e a criação de um novo partido "Aliança".

Pessoalmente, não me aquece, nem me arrefece, e não acredito que seja motivo para tanta apreensão no PSD e para um desmedido receio de concorrência eleitoral. O vazio ideológico e a mera visão personificada do poder político, a par com o populismo programático (personismo - esse novo conceito político santanista - liberalismo e solidariedade... que na ordem devida soaria melhor se fosse "P"ersonismo, "S"olidariedade e "L"iberalismo - PSL), para além da ausência de dimensão nacional e autárquica, transformará rapidamente a "Aliança" em mais uma linha nos boletins de voto.

Por outro lado, para muitos terá sido uma surpresa (para não referir uma traição aos que o apoiaram recentemente nas eleições internas do PSD) Pedro Santana Lopes ter colocado um ponto final numa militância de cerca de 42 anos.

Mas a verdade é que a história desmistifica e desvenda, pelo menos, 22 anos (mais de metade) dessa militância. Pelo menos o "sonho" faz-nos regressar (ou recordar) a 1996...

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De "Alianças", para além da relevância político-partidária que teve a AD (1979-1983), gosto muito destas... e para mim valem muito mais e bem regionais.

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publicado por mparaujo às 22:49

11
Ago 18

Primeira nota.
Não há nada, nem coisa alguma, que tenha igual ou mais valor que a vida. É o direito mais supremo, inalienável, sem qualquer preço.
Daí que seja perfeitamente admissível e normal que em qualquer situação e, nomeadamente, em circunstâncias extremas, a prioridade seja o valor da vida e a sua defesa/preservação.
Que mais não fosse pelos exemplos de Pedrógão Grande, Pampilhosa, Góis, em 2017.

Mas daí a vermos o ministro da Administração Interna a agitar a bandeira de "zero mortos", no incêncio de Monchique e Silves, com uma enorme vitória mete pena, revolta. É que o povo (já) não é estúpido. A repetição da tragédia de 2017, ainda bem presente na memória dos portugueses, da maioria e não apenas daqueles que sentiram (e sentem) bem perto o flagelo vivido, seria a maior machadada na imagem política que algum Governo alguma vez pudesse corrigir. Ainda por cima, a menos de um ano das eleições.
Por isso, resta apenas a vitória moral presente na óbvia "ordem" que as forças de segurança tiveram neste incêndio algarvio.

Porque tudo (o resto) correu mal, bem mal, igualzinho a 2017 (e a tantos e tantos anos que ciclicamente registam esta triste e deplorável realidade) e é a maior demagogia e falácia política vir um ministro, como Eduardo Cabrita, afirmar, mesmo que perante factos e criticas insuspeitas das diversas entidades intervenientes, que foi um sucesso: o combate foi mal feito e mal coordenado; a ANPC rasgou as "normas", os relatórios, as decisões e as regras tomadas com o exemplo de 2017 e atrasou a sua entrada em cena para a coordenação dos trabalhos; os papéis da ANPC, dos CDOS, das corporações de Bombeiros, e as suas ligações/relações, são a maior confusão que se possa imaginar; os investimentos anunciados pelo governo para as melhorias do combate não existem; as comunicações voltaram a falhar; o incêndio demorou demasiado tempo a ser controlado e extinto; muitas pessoas perderam bens e subsistência; há o resultado de impactos ambientais, económicos (sivilcutura, turismo, apicultura, ...) muito significativos e ainda por apurar verdadeiramente; a prevenção tão desejada não funcionou, mesmo perante o que era um cenário mais que provável e expectável (repetindo-se, no mesmo espaço e da mesma forma, os acontecimentos de 2003); o país continua sem uma política florestal eficaz, restando a inconsequente e ineficaz limpeza das matas ou as ridículas faixas de proteção e combustão. Acresce ainda, extra Monchique-Silves, a continuidade da ausência de medidas políticas para o combate à desertificação, ao envelhecimento do meio rural, e ao abandono das terras.

Em tudo, excepto (felizmente) o registo de zero mortes (uma que fosse já era muito)... mas em TUDO o resto Monchique-Silves repetiu o "filme trágico" de Pedrógão Grande. E bem podemos agradecer (seja lá em quem cada de nós acredite) por termos tido um arranque de verão extremamente chuvoso e o calor ter surgido apenas há meia dúzia de dias.

Não se pode, por isso, ficar alheio à afirmação do Presidente da República ao recusar «triunfalismo» demagogos e falácios em relação ao incêndio de Monchique e Silves: «não é o facto de não ter havido mortos que traz consolo à população». (fonte: TSF)

dados relevantes:
39 feridos
230 pessoas desalojadas
cerca de 27 mil hectares de área ardida
perto de 2000 operacionais, 447 viaturas e 9 meios aéreos combateram as chamas durante 7 dias.

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(fonte da foto: dnoticias.pt)

publicado por mparaujo às 17:56

Os factos:
1. Pedro Santana Lopes (PSL) abandonou o PSD e pode vir a formar um novo partido ou a aproveitar alguns dos movimentos "emergentes" (por exemplo, o Democracia 21)
2. Pedro Duarte (PD) que provocar eleições internas e derrotar Rui Rio.

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Há três factores que ligam os dois propósitos e que os (con)fundem.

Primeiro, o crescimento do populismo tem servido de arma e estratégia políticas para o conforto demagógico dos (politicamente) derrotados, enfraquecendo a ética, a ideologia e os valores programáticos que sempre sustentaram a democracia, a política e os partidos.

Segundo, ao fim de cerca de 40 anos como militante do PSD, que sempre disse defender e a quem o partido deu, demasiadas vezes e de forma sobrevalorizada, excessivo palco mediático e político, Santana Lopes anunciou a sua desvinculação como militante e a eventual formação de um novo partido (estruturalmente liberal, mesmo que PSL defenda uma crescente e forte intervenção do Estado, por exemplo, na saúde, ou se tenha tornado mais eurocéptico).
Para os cerca de 19 mil social-democratas a quem PSL acusa agora de não o terem sabido escutar, este é um verdadeiro apunhalar pelas costas, uma sensação de terem sido usados e traídos, sentindo-se (legitimamente) envergonhados e a "face perdida". Mas é também algo que não surpreende (vindo de quem vem) e algo que seria perfeitamente esperado. Só se deixou enganar e iludir por Santana Lopes quem quis... a história sempre falou por si mesma. Três tentativas de presidência do Partido redundaram em três expressivas derrotas (em 1996 contra Marcelo Rebelo de Sousa, em 2008 contra Manuela Ferreira Leite e Pedro Passos Coelho e em 2018 contra Rui Rio), para além de muitos avanços e recuos e de muitos outros tantos anúncios.
Finalmente, parece que PSL vai poder ser Presidente (não importa porquê, nem a quê, nem com que "bandeira partidária").
Santana Lopes não faz falta à política e, muito menos, ao PSD. Não deixará saudades... como já poucas (ou nenhumas) saudades restam da sua curta chefia do Governo (que abriu as portas à chegada triunfal de José Sócrates) ou das suas passagens pelas Autarquias da Figueira da Foz ou de Lisboa.
Numa coisa, tendo em conta a afirmação produzida na carta de despedida, Santana Lopes tem razão e com a qual estou inteiramente de acordo: «o PSD nunca quis saber». Não quis saber dele e haverá muitos poucos que, neste momento, queiram saber se continua por aí, por ali ou por acolá na política portuguesa.

Por último, Pedro Duarte é o eterno esquecido (ressuscitado durante a campanha presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa), permanentemente desvalorizado e incompreendido pelos pares (militantes e pelo partido). É aquele repetido congressista orador (quando vai) que na hora do seu discurso 99,9% dos presentes aproveita para ir fumar, tomar café ou, simplesmente, esticar as pernas e apanhar ar.
Afirma PD que «o PSD tem sido um aliado do Governo socialista porque a estratégia tem sido quebrar a actual forma governativa, retirando o BE e o PCP da solução».
Duas notas a uma afirmação que comporta, por um lado, uma errada avaliação política e, por outro, uma óbvia estratégia há muito desejada no PSD.
Comecemos pelo fim... foi a actual forma governativa (a Geringonça) que retirou ao PSD a legitimidade governativa em 2015. É o actual acordo político-parlamentar que tem esvaziado o papel social do Estado, a sua relevante referência e intervenção na sociedade e tem diminuído a importância económica das empresas e dos portugueses para o desenvolvimento do país, nomeadamente no esforço que foi feito por TODOS durante os quatro anos da Troika e a saída, em tão pouco tempo, do Programa de Ajustamento Externo. Ter como objectivo a desvalorização da actual Geringonça nada tem de questionável para o PSD, é uma estratégia tão legítima e democrática como a que ainda hoje (e apenas) sustenta os actuais acordos à esquerda:manter a direita fora da governação custe o que custar, mesmo que isso represente, nomeadamente para o Bloco de Esquerda, a fragilidade das convicções e princípios programáticos até sempre defendidos.
E é neste âmbito que reside a errada avaliação política de Pedro Duarte sobre a actual conjuntura do partido. Nunca Rui Rio escondeu ao que vinha e o que propôs aos militantes do PSD nas eleições interna: renovar o partido, recolocá-lo no seu espectro político-ideológico, ser uma alternativa e referência à actual governação e, se caso fosse, colocar os interesses nacionais em primeiro plano. E esta é que é a confusão de Pedro Duarte. O PSD querer reconquistar e ganhar o seu espaço no Centro Político da democracia portuguesa não é a mesma coisa, nem tem que ser, retomar o "fantasma" do Bloco Central (mesmo que não veja nada de errado nisso, antes pelo contrário).
A realidade é que erradamente sempre se catalogou o PSD de partido de direita, algo que nunca, e muito menos para Sá Carneiro, esteve sequer na génese da fundação do Partido. A Social-democracia, principalmente a particularidade com que a mesma alicerçou o PPD-PSD, não se define, nem se situa, dogmaticamente à direita, mas sim ao centro (se quisermos ao centro-direita).
Mas obviamente tudo vale, até a demagogia e o populismo, para Pedro Duarte vir dizer, tal como dizia Santana Lopes, «ando por aqui». Aliás, Pedro Duarte afigura-se, no PSD, como o novo e futuro Pedro Santana Lopes: o sonho pessoal (diga-se, legítimo) de querer ser Presidente e o facto de, tal como a Santana Lopes, ninguém lhe ligar nenhuma. Bastava, pelo menos, ter vindo a votos nas últimas eleições do PSD.

E isto tudo nem para silly season serve.

 

publicado por mparaujo às 13:22

03
Ago 18

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Da expressão "A cadeira do Poder"... ou como ela se transforma na queda do mesmo.

Durante cerca de 35 anos foram muitos os que, por razões de "sobrevivência" ou de apatia/indiferença, se calaram...
Durante cerca de 35 anos foram muitos os que, por força do regime, foram calados...
Durante cerca de 35 anos foram ainda mais os que tentaram, por todos os meios e formas, derrubar e mudar o sistema.

A história regista esse momento de 24 para 25 de abril de 1974.

Mas a história também não é "cega"...

A 3 de agosto de 1968 (há 50 anos) UMA Cadeira, tantas vezes associada ao poder, abria caminho para a sua queda... UMA Cadeira e o abandonado Forte S. António (Estoril).

Abençoada "lona"...

publicado por mparaujo às 15:43

30
Jul 18

e à política e ao BE (ou a qualquer outro que seja) também não.

Sobre o "caso" Ricardo Robles e a especulação imobiliária e todo o impacto (e porque não, terremoto) político-partidário, XXX notas.

1. Os factos: Ricardo Robles, então vereador do BE na Câmara Municipal de Lisboa, adquire, em hasta pública, um imóvel em Alfama, pertença da Segurança Social, por 347 mil euros, nas quais realiza obras de requalificação no valor (dizem) de 650 mil euros, colocado, posteriormente, no mercado para venda por um valor estimado nos 5,7 milhões de euros.

2. Catarina Martins e Ricardo Robles afirmaram, no boom público do processo, que o (ex)Vereador do BE na Câmara Municipal de Lisboa não tinha feito nada de errado.

3. O caso tem, obviamente, impacto político no Bloco de Esquerda.

4. Caiu a máscara do populismo demagógico do BE.

5. Ricardo Robles apresenta a sua demissão como Vereador da Câmara Municipal de Lisboa e, segundo algumas notícias, de qualquer cargo político-partidário.

Assim...

De facto, do ponto de vista processual (excluindo eventual confirmação de notícias que afirmam que Ricardo Robles não cumpriu, totalmente, obrigações ficais) não há nada de errado no caso que virou mediatismo viral. Um cidadão, em parceria familiar, adquire uma imóvel, de forma claramente legítima e transparente, recupera-o e, face ao que é o mercado imobiliário, espera vendê-lo realizando mais-valias perfeitamente expectáveis.
Este é um processo natural em qualquer sociedade e para qualquer cidadão investidor. Não é, de forma alguma, notícia... ou se quisermos é uma não notícia.

Mas a realidade é outra. O caso tem contornos do ponto de vista da ética política, com impactos internos e externos no Bloco de Esquerda.
Tudo teria permanecido na perfeita normalidade não fosse Ricardo Robles, por exemplo desde 2016, um dos fortes porta-vozes bloquistas da bandeira ideológica no combate à especulação imobiliária, ao descontrolado aumento do alojamento local, à gentrificação dos centros históricos nas grandes cidades, aos vistos gold e às políticas nacionais para a habitação (deste e de anteriores governos, por exemplo, a tão criticada e condenada política habitacional protagonizada pela então ministra Assunção Cristas, no Governo de Passos Coelho).
E é neste confronto entre o que, publicamente, se afirma como crença político-ideológica e a realidade em que se vive, que Ricardo Robles errou, e errou de forma expressiva e contundente. O que se apregoa não correspondeu ao que se pratica e ao que se faz. Ou como a tentação capitalista foi mais forte que a fé ideológica.
Basta lembrar, deste mês de julho, dois twittes de Ricardo Robles: «Parar os despejos. Mudar a lei, Combater a especulação imobiliária» ou «os lisboetas merecem ser defendidos perante o bullying e a especulação imobiliária. Estamos do lado dos moradores».

O caso especulativo de Ricardo Robles vai muito para além da esfera pessoal ou individual. A bomba gelou o interior do Bloco de Esquerda, por mais que Catarina Martins tenha querido desviar os factos com acusações à imprensa e à direita. Aliás, essa atitude da coordenadora bloquista só veio enfatizar ainda mais a realidade e o caso e foi um claro tiro nos pés político.
Ricardo Robles, em dois ou três dias de forte exposição mediática conseguiu fazer mais pela queda da máscara do populismo bloquista que muitos anos de combate e confronto ideológico com os demais partidos, mesmo o PCP e o PS. De tal forma que são conhecidas as posições públicas de um dos fundadores do BE, Luís Fazenda, ao afirmar que «o Bloco tem que tirar conclusões» deste caso, e da reunião, com carácter de urgência, da Comissão Política do BE.
E não colherá o argumento usado por Luís Fazenda ou referir que «se querem um debate sobre valores, nós faremos esse debate» porque foram precisamente valores ideológicos que o BE sempre defendeu que foram, agora, colocados em causa pela incoerência entre o discurso demagógica e a vivência da realidade.
Imagine-se o que teria sido o rasgar de vestes se o caso tivesse como protagonista alguém dos denominados partidos da direita.
Este processo destruiu, grave e profundamente, um discurso político de um partido que sempre se mostrou colocar-se acima dos ricos, do capitalismo, dos especuladores, do diabolizado mercado, virando, claramente, o feitiço contra o feiticeiro no que respeita às acusações e confrontos da retórica político-partidária. O veneno tantas vezes criticado nos outros partidos foi, desta vez, muito provado e bebido.
Mas mais ainda... internamente este processo abre feridas internas no BE. Parte dos seus militantes, aqueles que na base suportam e valorizam ideologicamente o discurso bloquista sentem-se, obviamente, traídos e desiludidos. Alguns, qui ça, caídos na realidade e de regresso ao "mundo dos vivos".
Todo este caso traz-nos à memória, à esquerda, ao centro ou à direita, (como diria Sérgio Godinho) "uma frase batida", de George Orwell: «Todos os animais são iguais, mas há uns mais iguais que outros» (in Animal Farm, 1945), tão caracterizadora da ideologia do BE e das suas cúpulas directivas.

Depois de tanta tinta corrida, Ricardo Robles apresenta a sua demissão da função de Vereador da Câmara Municipal de Lisboa e, segundo consta, de qualquer cargo político. A questão não está no desfecho final que deveria ter sido assumido, por todas as partes, Robles e BE, desde o início (e teria poupado muitos amargos de boca. A questão é que Ricardo Robles não se demitiu. Foi obrigado a demitir-se... obrigado pela consciência, pela incoerência (mais uma vez) dos argumentos para tentar explicar o inexplicável (os dele e os de Catarina Martins), pela pressão interna do BE (como é óbvio... nem quero imaginar o "espumar" da Mariana Mortágua perante o caso) e pela pressão mediática que o caso provocou na opinião pública.

Se nada tivesse vindo a público, tudo permaneceria na mesma, dentro do mesmo populismo, continuando a mulher de César (o romano) a parecer mas nunca a ser.

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publicado por mparaujo às 22:01

ou como nos vêm à memória contextos antigos.

Santana Lopes está prestes a tornar-se o "Manuel Monteiro" do PSD.

Saídas e entradas partidárias é o que mais existe, cá e fora, na política.

A questão é a falta de capacidade política para "encaixar" derrotas e a opção da maioria. Não saber lidar com isto é que se lamenta... de resto, que Santana Lopes faça bom proveito da sua travessia no deserto no próximo partido liberal "Democracia 21".

Não fora a "bóia de salvação" mediática da televisão e, mais que a travessia, era mesmo o eclipse político.

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publicado por mparaujo às 16:43

17
Jun 18

e politicamente (in)correcto.

Aveiro anda em "sobressalto", diga-se bastante agitada, por causa do Rossio (Aveiro).

A uma semana do tema ter "honras de Estado" na próxima sessão da Assembleia Municipal importa "concordar em discordar".

A passividade, a apatia, a falta de participação e intervenção cívicas, no dia-a-dia, nos "espaços públicos" ou nos momentos cruciais da vida comunitária e do país (seja no direito ao exercício do voto, seja nas simples sugestões ou contributos) da generalidade dos portugueses é igualmente proporcional à forma como manifestam indignação e descontentamento perante resultados (mais ou menos) finais. Daí a sabedoria popular raramente errar no espelhar das realidades: "casa roubada, trancas à porta" ou "lembrar Sta. Bárbara quando troveja", como exemplos. Imagine-se que até já há quem, agora, venha "desejar" a tão malfadada ponte sobre o canal, ligando o Rossio ao Alboi.

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Quando reparei, pela primeira vez, na imagem que retrata o projecto de requalificação do Rossio o impacto não foi, diga-se, positivo. Não pela proposta em si mas pelo que ela contrasta com as memórias vividas e "fotográficas". Joguei ali "à bola"... foi ali que andei na 'Roda Gigante' da Feira de Março, pela primeira vez. Entre outras (muitas) coisas.
Mas o mundo é feito de mudanças e são muitos os exemplos dos chamados novos tempos. Aveiro já assistiu a muitos, de forma mais ou menos pacífica: as Pontes (que passaram a uma 'ponte'), o nascimento do Bairro de Santiago, a urbanização da Forca, o 'fecho' da Rua Direita, a requalificação do Teatro Aveirense, a praça Marquês de Pombal, o novo Estádio Municipal, o túnel da Estação (tornando esta um elo de ligação e não de separação ou isolamento), a antiga Fábrica Jerónimo Pereira Campos, a nova Estação da CP, por exemplo (e para todos os 'gostos').

Nas muitas discussões que tenho assistido há uma pergunta que tem faltado, mais do que qualquer teoria a polemizar o eventual estacionamento subterrâneo: o que é, hoje, o Rossio? O que significa ele para a cidade de Aveiro?
Já foi palco de romarias e devoções. Já foi espaço de feiras e trocas comerciais. Já teve um bar sobre parte dos seus muros. Já foi... Porta de entrada na cidade e um dos cartões de visita, a verdade é que o Rossio já não dá, nem tem capacidade de, resposta para um conjunto de funções lúdicas, culturais e sociais às quais nos habituou durante várias décadas. Querer manter este espaço nobre e central da cidade como está é votá-lo à sua degradação e conceder-lhe uma lamentável agonia.

A atractividade turística é, hoje, muito elevada, seja pelo natural aumento do turismo em Portugal e na Região Centro, seja pela atractividade da Ria. E o Rossio tem que saber sobreviver e complementar esta realidade.

A proposta apresentada, à qual, garantidamente, a "habituação visual" e a convivência darão uma inquestionável resposta positiva, dá nova vida ao Rossio, requalificando-o e repensando a sua funcionalidade e potenciando a sua atractividade.
O novo desenho projecta uma praça rejuvenescida, aberta, ampla, com novos suportes, com elementos urbanísticos que defendem melhor o ambiente (a manutenção de espaços relvados tem custos e impactos ambientais que são, nos dias de hoje, insuportáveis... para além de uma total ausência de cultura e de civismo, por exemplo, com os dejectos animais em pleno espaço onde as crianças teriam direito a pular e brincar). E tem mais... tem, pela sua amplitude, a capacidade de acolher um considerável e multifacetado conjunto de respostas culturais e sociais que hoje estão totalmente abandonadas (eventos artísticos, feiras e exposições). E tem ainda mais... para aqueles que, e bem, preservam a identidade e as "estórias", tem um interessante destaque da história e cultura daquele espaço aveirense.

A proposta apresentada traduz a duplicidade actual do Rossio: espaço de recepção e de cartão de visita para os turistas e um espaço permanentemente disponível para os aveirenses. Haja vontade e empenho para tornar o Rossio um "enorme espaço público" com intensa actividade.

Este Rossio, de hoje, é que já não respira saúde, nem serve os aveirense, nem os muitos que acolhemos ao longo do ano.
Este Rossio precisa de nova vida.

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E importa lembrar: (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa)
ros·si·o (substantivo masculino)
1. Terreno largo, fruído em comum pelo povo.
2. Logradouro público. = BALDIO
3. Lugar espaçoso; praça larga. = TERREIRO

publicado por mparaujo às 18:48

Um ano depois... mal começava Junho, começava o inferno na terra.

Por mais distantes que queiramos ser e estar Pedrogão (tal como Entre-os-Rios) ficará sempre na memória como o dia em que Portugal não soube cuidar e salvar os seus.

Esta será sempre uma memória colectiva na qual, pessoalmente, há-de perdurar esta soberba imagem do Adriano Miranda, carregada de todo o simbolismo da tragédia vivida por muitos e sentida por quase todos, em 2017.

Que Pedrogão não se repita NUNCA MAIS.

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publicado por mparaujo às 17:47

20
Mai 18

Não... não é ironia, piada ou brincadeira.
Infelizmente... é verdade.

Independentemente de outras análises que não me interessam rigorosamente, na longa (ou extensíssima) entrevista de ontem de Bruno de Carvalho, entre vários "disparos", o presidente do Sporting Clube de Portugal apontou baterias à Comunicação Social. Infelizmente tinha razão... não propriamente pelos motivos apontados, mas teve razão. Obviamente que não cabe toda a responsabilidade pela actual situação do futebol português ao jornalismo. Mas mesmo numa percentagem menor, a comunicação social (grande parte, para não dizer toda) tem uma quota parte de responsabilidade.

Por um lado, já aqui o tinha referido: "Oportunidade de reflexão".

E a verdade é que, por outro lado, nada mudou, bem pelo contrário.

Em vésperas da final da Taça de Portugal, no meio do enorme turbilhão vivido no emblema de Alvalade, há quem anuncie em plena televisão, com toda a certeza, que na segunda-feira (amanhã) há cerca de 7 ou 8 jogadores que abandonarão o clube. Se isto não é meter mais achas na fogueira...

O jornal Expresso, apesar da nota da direção de informação, tem um erro editorial enorme ao descontextualizar do texto de Miguel Sousa Tavares uma frase com aquele teor, com direito a chamada na primeira página...

Há "perseguição" televisiva até ao hotel do autocarro e do carro do treinador até a sua casa (isto então ultrapassa tudo e qualquer limite) da equipa (pasmem-se) vencida...

Mas ainda mais grave... como quer o jornalismo ser respeitado quando o próprio se abstém de respeitar.

Mesmo para aqueles que não gostam ou apreciam futebol, é comumente reconhecido que a Taça de Portugal em Futebol é a chamada "festa do futebol", pela abrangência dos vários campeonatos e do número mais alargada de equipas numa mesma competição.

Historicamente, o Desportivo das Aves chegou à Final da Taça de Portugal e venceu, hoje, o Sporting, no Jamor (Estádio Nacional). É um feito enorme para uma comunidade, região e para um clube de pequena dimensão, mas com um empenho e entrega grandes: pela primeira vez na sua história e na história desportiva e social da Vila das Aves, o Desportivo das Aves vence uma Taça de Portugal em Futebol.

Resultado... a comunicação social (toda) despende de 99,9% seu tempo de antena, das suas páginas (digitais ou impressas) para falar, horas a fio, repetindo chavões e factos atrás de factos, do Sporting.

Afinal... nem só dos VENCEDORES reza a história.

Respeito pelo Desportivo das Aves era o mínimo exigível por quem tem uma responsabilidade social acrescida. Muito mal.

Afinal as palavras de Bruno de Carvalho, ontem (sábado), não era, de todo, descabidas.

thumbs.web.sapo.io.jpg

publicado por mparaujo às 22:15

17
Mai 18

Isto continua a não ser um texto sobre futebol mas sim sobre "bola".

O caso das agressões em Alcochete continua a marcar a agenda informativa, mediática e a encher as redes sociais. Por mais que nos queiramos abstrair, por mais não consiga perceber como é que ainda há quem ache isto "não normal" e esteja chocado (salvaguardando o ataque em si, como é óbvio) e por mais que queira pensar em coisas sérias, isto não está fácil.

Vê-se na televisão... fecha-se a televisão
ouve-se na rádio... desliga-se a rádio
lê-se nos jornais... fecham-se os jornais
apanhamos com tudo e mais alguma coisa nas redes sociais e na internet.
Só emigrando para Marte é que nos safamos, porque mesmo a nível internacional já há quem se refira, com (des)honras de destaque, à situação.
Portanto, não há como fugir (ou, pelo menos, não é fácil).

O envolvimento quase generalizado (doentio) do país abrange toda a gente e sectores da vida nacional: desporto, política, governação e informação.

Aponta-se o dedo ao futebol... (a tudo o que ele comporta: ao sistema, negócio, jogadores; dirigentes; treinadores; adeptos; claques; ...)
Aponta-se o dedo à inércia política... (a proposta de António Costa foi apresentada na Assembleia da República, em setembro de 2017, pela Federação Portuguesa de Futebol)
Não demorará muito a ser apontado o dedo à Justiça... (faz parte da tradição)

A repartição de responsabilidades tem um evidente e claro risco: o passar culpas, a responsabilidade 'morrer solteira'. Mas o leque é, nas devidas proporções, abrangente.

E há ainda mais um sector: a COMUNICAÇÃO SOCIAL... a imprensa, o jornalismo, a comunicação, as assessorias, não podem ficar à margem de toda esta realidade. Mais importante que o esconderijo da teia do direito a informar e a liberdade de informação será a reflexão sobre o papel da comunicação social em todo este pântano, lamaçal e inferno desportivo.

(por uma questão de tempo e paciência) Ficando de fora a Rádio, os canais dos clubes, o digital, as redes sociais, mas tendo em conta os três jornais desportivos. Só para exemplo.

RTP 3: Grande Área - Trio d'Ataque
SIC Notícias: Play-Off - O dia Seguinte - Tempo Extra
TVI24: Futebol Mais - Mais Transferências - Mais Bastidores - Prolongamento - Mais Futebol
CMTV: Liga d'Ouro (terça a sexta) - Golos (fim de semana) - Pé em Riste

O paradigma não podia ser mais evidente: não há coincidências, nem acasos.

televisõesportuguesas_20150731.jpg

publicado por mparaujo às 00:21

15
Mai 18

Este texto não é sobre futebol... é sobre "bola".

No que se tornou o meio futebolístico, dentro e fora das quatro linhas, nos últimos anos, mais propriamente no decorrer da presente época que se aproxima do seu final, perspectivava, mais dia, menos dia, mais acontecimento, menos acontecimento, a ocorrência de situações como a que se vive no dia de hoje.
Por mais que muitos (infelizmente, muitos mesmo) bradem aos céus que isto não é normal (qualquer tipo de violência não é normal) a mim nada me espanta (apenas o lamento).

Mas o que não me parece normal é que um país, um Estado de direito, pare completamente por causa da "bola".
Pára o país, pára toda a comunicação social, pára o mundo...

De repente esquecemos Gaza, esquecemos que Trump riscou o Irão do mapa nuclear...
De repente esquecemos que em 2017 o país assistiu à maior carga fiscal (recorde) imposta aos portugueses, às famílias e às empresas...
De repente esquecemos que o 1.º trimestre da economia portuguesa registou um aumento abaixo do previsto pelo Governo...
De repente esquecemos o que se passa na saúde e na educação em Portugal...
De repente esquecemos que se aproxima a fase charlie (a chamada época dos incêndios)...

De repente... isto (em Portugal), na sociedade e na comunicação social, NÃO É NORMAL.

Fechem os Estádios para que o País volte a ser normal e possa respirar.

fnet.jpg

publicado por mparaujo às 23:01

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