Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

29
Mar 20

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O surto pandémico COVID-19 não escolhe idades, nem sexo (apesar de haver grupos de maior ou menor risco), não escolhe condição social (mais ou menos rendimentos, mais ou menos subsistência, mais ou menos sobrevivência, mais ou menos condição), não escolhe raça, credo, nem tem fronteiras. Surge carregado de um universalismo inquestionável.

Há, por isso, um "cá", um "lá", um "por todo o lado"...
Há os sobreviventes, os que precisam de cuidados médicos, os que estão ao nosso lado, os vizinhos, os nossos heróis que merecem as nossas palmas e todas as expressões de solidariedade: os profissionais dos Hospitais, Unidades/Centros de Saúde, Farmácias, Lares, IPSS; as forças de segurança e protecção civil - militares, gnr, psp, serviços prisionais, fronteiras, polícias municipais (onde os houver), bombeiros, protecção civil; todos os que continuam a trabalhar na agricultura, na produção alimentar, na mercearia da Ti Maria em cada bairro, nos super e hipermercados, na distribuição de bens e serviços, nos postos de combustível; os restuarantes e as empresas que se readaptaram e inovaram (mesmo que temporariamente); os professores; os jornalistas; os investigadores. As Autarquias e os Presidentes de Câmara e de Junta de Freguesia. Podemos e devemos incluir, com destaque, os educadores e os pais que inventam e reinventam todas as formas criativas de ocupar o tempo no isolamento/recolhimento social, principalmente com e por causa dos seus filhos.
Há muito país a mexer para que outros possam e devam ficar em casa, sem que isso seja um fardo, uma injustiça ou uma estratificação social. A estes olhamos com Respeito, com Admiração, com Orgulho, com GRATIDÃO.

Mas há, também, Outros... aqueles que nos esquecemos no dia a dia, mesmo na maior das normalidades: os sem abrigo; os refugiados (por exemplo, em Levos-Grécia precisam de nós - Amnistia Internacional - basta uma simples mensagem) ou as crianças vítimas de escravatura e tráfico humano em África, completamente desprotegidas (como no Gana onde são resgatadas, quando possível, pela Associação Filhos do Coração - da jornalista Alexandra Borges/TVI).
A estes o COVID-19 também não passa ao lado, nem se preocupa com a falta de condições de vida, com a ausência de assistência e qualidade médica ou com a incapacidade de cumprimento de isolamento ou recolhimento.

publicado por mparaujo às 18:48

22
Mar 20

É nos tempos marcadamente de crise que se evidenciam aqueles que são, verdadeiramente, essenciais ao funcionamento da sociedade.
Felizmente, por mais negros que venham a ser os tempos pós-crise, não são os sectores como os mercados e os bolsistas, a banca e os seus banqueiros ou os gestores de fundos monetários; não é o milionário e obscuro mercado desportivo.
Estes dias que vivemos mostram-nos quem são os verdadeiro heróis e aqueles que mais impacto têm na sociedade e na nossa sobrevivência: os médicos, enfermeiros e auxiliares da saúde; as farmácias e os farmacêuticos, as forças de segurança, os bombeiros e os profissionais de protecção civil; os homens do lixo, do abastecimento de água e luz; os repositores e funcionários dos hiper e supermercados; a mais pequena mercearia de bairro ou o mercado tradicional; os motoristas de pesados; entre outros.
No meio de tanto medo e pânico social, da mudança drástica nos hábitos e rotinas, a melhor luz ao fundo do túnel, depois de vencido o "bicho", será a conquista do respeito por todos eles e pelas suas futuras e legítimas perspectivas profissionais. Será igualmente, a percepção da necessidade de olharmos para o que é verdadeiramente essencial, vital e prioritário na nossa sociedade para, dessa forma, podermos alicerçar o verdadeiro sentido de Estado.

Da mesma forma que é expectável que nestes momentos de crise profunda a política e os políticos tenham como igual prioridade a valorização da sua imagem e da sua primordial função na defesa do Estado de Direito Democrático.
Importa reconhecer que, na generalidade, Presidente da República, Governo (apesar das inúmeras falhas na gestão do processo... já lá iremos), a Assembleia da República e a quase totalidade dos partidos políticos (PSD, PCP, BE, PS, Iniciativa Liberal) com assento parlamentar, têm demonstrado um verdadeiro sentido de Estado, um respeito muito significativo pela conjuntura que vivemos, evitando claros aproveitamentos político-partidários da situação. A estes podemos juntar ainda as Ordens Profissionais directamente envolvidas e diversas entidades empresariais que, apesar das dificuldades que o dia a dia deixa transparecer, têm tido uma clara preocupação em fazer parte da solução e não do problema.
MAS... e infelizmente há sempre um mas.

A obsessão pelo poder, o facilitismo com que se cai no populismo, o execrável aproveitamento político não tem, infelizmente, limites.
Enquanto verdadeiro heróis sacrificam as suas vidas pessoais e profissionais, as suas famílias e o seu futuro (por exemplo: há, no país, mais de 50 médicos infectados e mais de 150 em quarentena), no mais profundo dos anonimatos e com o verdadeiro espírito de dedicação e cidadania, é abominável e condenável que o CDS emita uma nota pública e exclusivamente política a dizer: «Francisco Rodrigues dos Santos [líder do CDS-PP] alistou-se como voluntário para ajudar as Forças Armadas nas acções que vão desenvolver na luta contra o novo coronavírus durante o estado de emergência".
Se essa é, verdadeiramente a sua vontade, enquanto cidadão que, acima de tudo é, tomava a decisão e ponto. Como eventualmente muitos outros o fizeram, felizmente.
Vir para o palco mediático e partidário, com uma decisão que deveria ser, acima de tudo, pessoal é puro populismo e execrável aproveitamento partidário, demonstrativo do carácter político. A sociedade, os portugueses e a política (a verdadeira) dispensa veemente.

Ao PSD e a Rui Rio fica o apelo... mantenham-se bem ao centro (como é a intenção anunciada desde 2018) e longe destes reais e perigosos riscos de degradação da democracia e da política... custe os resultados eleitorais que custarem.

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publicado por mparaujo às 12:04

18
Mar 20

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Já não é a primeira vez, antes pelo contrário, que o Presidente da República refere, publicamente, que os portugueses têm demonstrado um enorme sentido cívico e de cidadania, nestes difíceis e complexos tempos virais.

Sr. Presidente da República... Não, não têm. Infelizmente. Se assim fosse, retribuo com uma questão simples: Então para quê o Estado de Emergência a partir das 00h00 de hoje?

Se há contexto que espelha, claramente, a falta de respeito colectivo e a ausência de sentido cívico e de cidadania de grande parte dos portugueses é precisamente este tempo de convivência com a COVID-19.
Se há, por parte de uma maioria significativa de portugueses, um total desrespeito pelo Estado, pelas Instituições, nomeadamente pelos inúmeros avisos, alertas e orientações, isto é claramente visível nos comportamentos antagónicos dos cidadãos.

Se não, vejamos.

De que valem todas indicações dos profissionais e da Direcção-Geral da Saúde que referiram que as máscaras apenas devem ser usadas em contexto hospitalar, por quem integra grupos de risco ou apresenta sintomas confirmados de contaminação, se houve um claro assalto e esgotamente de stocks destes equipamentos, de forma desmedida, inconsciente e descontrolada, ao ponto de não haver material suficiente nos nossos Hospitais e Centros de Saúde?

De que valem todas indicações dos empresários, do Governo e da Direcção-Geral da Saúde que referiram, constantemente, que não há o risco de falhas no abastecimento das cadeias alimentares, se houve (ainda há) um claro açambarcamento e esgotamento de stocks alimentares diários, de forma inconsciente, descontrolada e egoísta, ao ponto dos portugueses não se preocuparem, minimamente, que o excesso de armazenamento individual significa que muitos outros portugueses não puderam, simplesmente, comprar o que precisam para a normalidade do seu dia a dia?

De que valem todas indicações do Governo e da Direcção-Geral da Saúde que referiram, constantemente, que a concentração e aglomerado de pessoas agrava o risco de contaminação, se os portugueses preferiram, até há cerca de 2 dias, permanecer, em magotes em espaços comerciais de áreas reduzidas, horas a fio em filas de caixas ou ainda nas entradas dos estabelecimentos? Ou ironicamente, encher praias e esplanadas como se de um óptimo verão qualquer se tratasse?

Há muito poucos dias, os portugueses (nos quais me incluo), há semelhança de outros países, foram até às suas varandas e janelas demonstrar a sua solidariedade para com os profissionais de saúde, protecção civil e segurança que têm tido, de forma estóica, um papel cívico e profissional inquestionável na mitigação da COVID-19. Mesmo que, em outros contextos, se indignem contra os mesmos, por exemplo, em situações de greve.
Pena é... e é mesmo pena... que grande partes desses mesmos portugueses sejam os que engrossaram (e engrossam) as filas e os espaços nos hiper e supermercados, e "assaltam", literalmente, as prateleiras. Principalmente, porque não têm o menor respeito pelo seu semelhante, pela pressão profissional, pelo desgaste físico e emocional, e, principalmente, pela exposição ao risco de contágio que colocaram milhares dos trabalhadores destes espaços/cadeias comerciais, sem esquecer, obviamente, todos os que exercem as suas funções na "rectaguarda", como a produção e distribuição.
Àqueles que, por norma, têm das piores condições profissionais, dos empregos mais precários e instáveis, das mais baixas remunerações laborais, não houve o menor sentimento de solidariedade, respeito, consideração... nem uma única salva de palmas.

Não, Sr. Presidente da República, a maioria dos portugueses não tem, não tiveram, neste contexto que vivemos, respeito, comportamento exemplar, sentido cívico e de cidadania.

publicado por mparaujo às 22:29

15
Mar 20

Vamos por partes que o caso tem contornos distintos, mesmo que relacionados.

Por norma, salvo raríssimas excepções (felizmente), os portugueses têm uma capacidade solidária enorme. Gigantesca, mesmo. Seja em iniciativas próprias, seja por correntes internacionais.
Ao caso, refiro-me à iniciativa que gerou a salva de palmas colectiva (ontem, às 22h00) de agradecimento aos profissionais de saúde pelo HERÓICO esforço que têm realizado no combate à COVID-19. Exaustos, sem muitas condições, expostos, com as suas famílias, legitimamente, preocupadas. A estes, a corrente não o mencionava, mas podíamos acrescentar os Bombeiros, as Forças de Segurança, entre outros.

Lamento é que a corrente das Palmas ao SNS não tenha o mesmo efeito nos comportamentos abomináveis de muitos portugueses: praia, bares e esplanadas, e, principalmente, um condenável "assalto aos hipermercados". Isso sim... o maior ataque que se pode fazer aos nossos profissionais de saúde e ao nosso SNS.

Mas há uma interrogação que fica... e que importa, por RESPEITO à Saúde, referir.
Espero, muito sinceramente, que muitos dos que ontem foram (E BEM) às varandas tenham o mesmo comportamento e respeito quando Enfermeiros e Médicos, em defesa da sua profissão, das condições (que não têm) profissionais, da saúde de todos nós e do futuro do SNS, exerçam o seu legítimo e democrático direito à greve.

Quero ver... espero que aí também a sociedade se assuma como #somostodosSNS

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publicado por mparaujo às 21:24

11
Mar 20

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A paranóia, a histeria e o alarmismo juntam-se à falta de civismo, à falta de lucidez, à ausência de sentido comunitário e colectivo... e temos a figura típica de grande parte dos portugueses em momentos de crise ou de pressão.
Tudo o que não se devia fazer ou deveria acontecer nestes importantes e críticos momentos.

Mas a ganância e a precipitação lusa está no sangue e gene de muitos dos portugueses.
Porquê esta corrida às prateleiras dos super e hipermercados? O que é que o COVID-19 pode trazer tão graves problemas na distribuição e no sector alimentar?
E a cereja em cima do bolo... esgotar o papel higiénico??? Esgotar a carne de porco e frango e deixar as outras??? PORQUÊ???

As pessoas temem que o "vírus" possa "secar" os hipermercados e provocar escassez alimentar... e não têm dois dedos de testa para reparar que é precisamente isso que estão, elas mesmas, a provocar.

Paranóicos compulsivos.

publicado por mparaujo às 21:59

08
Mar 20

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Mudar ou não mudar "generais" na batalha política. Para o Governo e António Costa, depende se, politicamente, dá jeito ou não.

O Presidente da República, agora em casa de pantufas e termómetro na mão, enalteceu, ontem, a forma “madura, tranquila e serena” (sic) como os portugueses estão a reagir ao COVID-19.

Embora a observação presidencial seja marcadamente cívica (e, face ao que é o notório alarmismo social, algo questionável) se os portugueses têm sido maduros e serenos, já o Governo tem dado mostras, nesta área, de alguma imaturidade, irresponsabilidade e intranquilidade.

Numa primeira fase, foi a catadupa informativa, o exagero de conferências de imprensa mais alarmistas do que formativas e demasiado vazias de conteúdo relevante. Era a fase do "de suspeito em suspeito até ao infectado final (primeiro)".
Depois o desfasamento das intervenções da Ministra da Saúde (mais uma vez) e da Directora-Geral de Saúde com a realidade e o que é, no dia a dia, o SNS e as respostas de Saúde. Não fosse, de facto, com a necessária serenidade alguma alteração de hábitos e comportamentos dos portugueses e a situação poderia, eventualmente, estar caótica.
À boa maneira portuguesa, há ainda a acção, por norma, reactiva e não pró-activa, a falta do envolvimento de vários sectores da sociedade nas tomadas de decisão/prevenção (por exemplo, autarquias, escolas, empresas, ...)
Por último, o primeiro-ministro não podia, nem quereria, ficar fora deste "quadro".

Em tempos de crise, a referência e a figura/imagem de quem tem a responsabilidade de decidir, validar, definir estratégias e processos é ainda mais importante do que nos, ditos, tempos normais. Isto vale para qualquer entidade pública ou privada, seja qual for a sua natureza.
Dentro deste princípio básico (mas estrutural) António Costa, no pico dos fatídicos incêndios de 2017 (em defesa da Ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa) e há poucas semanas, no início das infecções do COVID-19 em Portugal (defendendo a Directora-Geral da Saúde, Graça Freitas) afirmava - e muito bem - que "não se mudam generais a meio de uma guerra".

Só que a pressão e a ansiedade políticas provocaram um claro erro na governação e na gestão desta crise. A substituição/demissão do presidente da entidade responsável pela Linha SNS24, Henrique Martins (e dos vogais Artur Mimoso e João Martins) é uma clara e manifesta incoerência e irresponsabilidade políticas.
E não colhe o argumento, já sabido há mais de 2 meses, que Henrique Martins não foi demitido, mas sim substituído, porque a sua comissão tinha terminado a 31 de dezembro (embora não seja líquido que a mesma não pudesse ser renovada).
Não atirem areia para os olhos dos cidadãos porque estes não são parvos. A decisão é claramente política e errada, e o timing não é nenhuma mera coincidência.
Se Henrique Martins e o seu Conselho de Administração não serviam e, tal como demagogicamente Marta Temido afirmou (num manifesto erro comunicacional), já havia a decisão da sua substituição, dois meses é tempo mais que suficiente para que tal tivesse acontecido ou, então, era preferível, seguindo a coerência do primeiro-ministro, que a substituição acontecesse após a crise do COVID-19.
A questão é política e apenas política, numa tentativa (mais uma) do Governo sacudir a água do capote e transferir para terceiros aquelas que são as suas responsabilidades e falhanços. Se não tivessem vindo a público, esta semana, as notícias que deram conta que 1 em cada 4 chamadas para a Linha SNS24 não foi atendida (apesar das explicações dadas pelos seus responsáveis... limites impostos pelo contracto com a Altice e validado pelo Governo) o Conselho de Administração ter-se-ia mantido em funções.

Anda-se a brincar com a saúde dos cidadãos.

publicado por mparaujo às 20:17

07
Mar 20

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Em tempos de crise o racionalismo, a responsabilidade, o respeito pelo outro, o sentido colectivo/comunidade, a serenidade deveriam ser princípios fundamentais. E são-no por muitos desses países fora, nomeadamente em grande parte da Europa.

Em Portugal... também não! Em tempos de crise somos um país carregado de parolos, chicos-espertos, sem qualquer pingo de responsabilidade e moral.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) o uso de máscaras é recomendado para quem estiver doente e, preferencialmente, em contexto hospitalar.
Ainda a mesma OMS, a Direcção-Geral de Saúde e os profissionais de saúde referem que a lavagem mais regular das mãos é preferível e mais eficaz que o uso do gel desinfectante.

E o que é que se faz por cá? Em fevereiro (ainda sem nenhum cidadão infectado confirmado) foram vendidas mais de 419 mil máscaras (21.746 em fevereiro de 2019), o que representa um aumento de 1.829,3%. Já a venda de desinfectantes também registou um crescimento de 221% em relação a fevereiro do ano passado (dados da Associação Nacional das Farmácias).
Para além de uma questão de saúde pública porque condiciona significativamente os meios de combate num futuro próximo (sim... porque os casos aumentarão sem ilusões ou paranóias) e irá colocar em causa a recuperação de muitos cidadãos infectados ou profissionais de saúde no exercício das suas funções, há ainda a questão da racionalidade. Um excessivo pico de procura de um qualquer bem tem três impactos imediatos: a possibilidade de rotura de stock e incapacidade de oferta imediata (ou num curto espaço de tempo... pelo menos o necessário à produção e distribuição); um aumento de preço para conter a procura e racionalizar o mercado; ou ainda um aumento de preço pela especulação comercial (a que vulgarmente apelidamos de "roubalheira").

Mas pior que tudo isto é a especulação e o aproveitamento do "mal/sofrimento alheio" para o lucro, a exploração e a "comercialite". Teve que ser uma empresa do centro da Europa, que até nem é propriamente um exemplo de ética, a vir dar-nos lições de moral, de civismo e responsabilidade comunitária. A OLX sediada em Amesterdão/Holanda) apercebendo-se do surgimento de um óbvio (quanto estúpido) aproveitamento especulativo da venda de máscaras e gel desinfectante decidiu retirar todos os anúncios que promovessem a oferta destes produtos.

Infelizmente, embora louvável, a decisão da OLX não pode ir mais longe. Porque, no mínimo, deveríamos estar perante um caso de justiça ou de policia... de crime de saúde pública, bem grave.

publicado por mparaujo às 20:08

04
Mar 20

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(créditos: Anthony Wallace/AFP, in CBN)

A Directora-Geral da Saúde, Graça Freitas, numa das excessivas e dispensáveis conferências de imprensa sobre o COVID-19, afirmou que seria expectável que Portugal pudesse, no limite, ter cerca de 1 milhão de infectados (em vários graus de intensidade)... o que representa 10% da população nacional. Valor apontado face ao que foi a previsão da epidemia da gripe em 2009 (fixada em 7% na avaliação final). Perfeitamente lógico e enquadrado.

Voltemos, por isso, à premissa inicial: uma epidemia ou uma pandemia não deixam de ser preocupantes e merecem particular atenção. O que é diferente de alarmismo e histerismo social.

O maior problema é mesmo o do comportamento humano (individual ou nas instituições, como a comunicação social), seja pela negligência, seja pela informação viral que é produzida. Aliás, esta temática do COVID-19 assenta mais "numa epidemia informativa" sobre a qual se diz tudo e se sabe tudo (o que é e o que não é).

Bastou surgir o primeiro caso para o “circo” pegar fogo (e são, à data, 5)…
Já não bastava Portugal ter sido “pioneiro e inovador” na informação, em catadupa, de casos suspeitos (quando na Europa, pelo menos, se limitou a informação aos casos comprovados e às mortes) os noticiários abriram, em horário nobre, com o 1.º caso e foram prolongando resmas de dados, pareceres, estatísticas e opiniões, acima de 35 minutos (ou horas a fio), com esta única notícia.
Mais… enquanto em Espanha, em Itália, na Alemanha ou no centro da Europa há uma contenção óbvia e lógica na informação, restringindo-a ao essencial, evitando, assim, os perigos do alarmismo social, Portugal chega ao ponto de fazer directos informativos lá fora (por exemplo, em França ou Itália) onde os próprios “da casa” se abstêm de ir.

Se a Dra. Graça Freitas prevê (e bem... do ponto de vista lógico, face ao conhecimento técnico e aos dados que a Direcção-Geral de Saúde terá) que haja, em Portugal, um pico no surto do vírus entre 12 a 14 semanas, para a Comunicação Social (e aqui… diga-se… sem excepções, infelizmente) é fácil fazer contas: 1.000.000 (previstos) – 5 (infectados) = 999.995 (saldo)… ainda haverá muitos "quilómetros" de horário informativo para percorrer.
Uma coisa é mais certa sobre o 1 milhão de infectados: o jornalismo nacional vai entrar (já entrou) em perfeita pandemia. E pasme-se... com gosto.

publicado por mparaujo às 13:04

01
Mar 20

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(créditos: LUSA, in Sapo lifestyle)

Uma epidemia ou uma pandemia, tendo níveis de impacto diferenciados, não deixam de ser preocupantes e merecem particular atenção. O que é diferente de alarmismo e histerismo social.

O COVID-19 (uma das formas e estirpe do Coronavirus... que existe há alguns anos e que, por exemplo, se manifesta, sazonalmente, em Portugal através das gripes, pneumonias e viroses de inverno) já infectou cerca de 80.000 pessoas e vitimou perto de 3.000 (aproximadamente 4% das infecções), espalhando-se por 62 países e pelas 5 regiões/continentes. A Europa regista 1.500 casos de infecção e 31 mortes (2%), sendo a Itália a zona/região com maior expressão. Estes são (alguns) factos.

Devemos, perante os números, "assobiar para o ar" e fingir que tudo isto é residual, controlável e normal? Obviamente que isso significa uma irresponsabilidade individual e colectiva de risco irreparável.

Mas a questão é: devemos criar alarmismo, paranóia e histerismo colectivo? Como está a acontecer, nomeadamente em Portugal? Por todas as razões expostas, é claro que... NÃO!
Qualquer sensação de pânico, de medo, de histeria, leva ao irracional, ao desespero, ao absurdo, ao extremismo, ao desrespeito pelo comum (comunitário/colectivo) e leva ao mero instinto "animal" de sobrevivência individual. Por muito menos, basta recordar o que se passou em 2019 com a crise/greve dos combustíveis em Portugal.

Por todas estas razões, quer o Estado/Governo, muito particularmente o Ministério da Saúde e a Direcção-Geral de Saúde, deviam ter uma maior sensibilidade nas abordagens à questão do COVID-19. Pelo menos a nível europeu devemos ser o único país que se dá ao "luxo" de agendar conferências de imprensa, praticamente diárias, para anunciar "casos suspeitos", esquecendo-nos que, em pleno inverno, gripes (como a ainda existente 'gripe A'), viroses, pneumonias, bronquites, febres e dificuldades respiratórias são, o que o povo sabiamente chama, "fruta da época".

Enquanto na Europa se divulgam as infecções confirmadas e, infelizmente, as vítimas...
Enquanto na Europa se tratam os doentes, se contém as possibilidades de contágio, de forma mais ou menos 'musculada'...
Enquanto na Europa se criam medidas excepcionais e se aumenta as capacidades de respostas médicas...
Enquanto a Organização Mundial da Saúde e a ONU se preocupa com uma eventual propagação do vírus a regiões do mundo onde as condições sociais, económicas, políticas e de saúde pública são extremamente frágeis... (demasiado facilitadoras para a propagação e contágio)

Em Portugal...
Andamos ansiosamente à espera do CASO ZERO...
Fazemos previsões proféticas para 1 milhão de infectados...
Anunciamos, diária e epicamente, x suspeitas para y não casos...
Qualquer pessoa entra e sai "à vontadinha" do país enquanto o sul (Alentejo e Algarve) coloca a nu o Estado da Nação do nosso Serviço Nacional de Saúde.

Para agravar toda esta realidade e essência bem "portuga" a comunicação social (toda, diga-se em abono da verdade... e não apenas os 'suspeitos' do costume) espera e desespera para a primeira pessoa infectada. Acreditando no nosso histórico jornalístico e informativo, o cidadão "premiado" irá sofrer mais pelo assédio jornalístico do que pela doença.
Não falecendo da doença... há-de, infelizmente, "morrer" da pressão e virose mediática.

publicado por mparaujo às 23:52

16
Fev 20

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Já há alguns anos que tenho como certeza pessoal que o futebol é uma realidade e um contexto no qual a vertente desportiva é apenas residual: é um meandro obscuro, tenebroso, impune, tormentoso, lamacento e pantanoso, acima da lei e da sociedade.

Mas infelizmente, não é propriamente sobre um jogo, 11 contra 11, um penálti que não foi marcado, um golo que foi anulado.
É sobre o reflexo de uma sociedade espelhada num lamentável e condenável episódio que ocorreu no jogo Vitória SC (Guimarães) vs FC Porto, tendo como alvo o jogador portista Marega vítima de racismo declarado e explícito.
Se o futebol nunca foi palco de promoção de valores e princípios (basta olhar para as declarações de técnico, presidente e claque do Vitória no pós jogo), tal não pode justificar qualquer tipo de ataque à dignidade da pessoa.

Mas isto é o futebol e infelizmente... o país que temos, hoje.
Não vale a pena esconder a cabeça na areia (o que se torna, deveras, perigoso). Há racismo na escola, nos locais de trabalho, nos cafés e bancos de jardim, no desporto, na saúde, na justiça, na política e na ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA.
O racismo está legitimado, normalizado e vulgarizado na sociedade.
E nada disto não é exagero. Basta rever os comentários (e mimos) que me foram dirigidos a propósito desta publicação.

Mas quando temos uma juventude (70%dos inquiridos) que legitima a violência no namoro e temos políticos com acrescida responsabilidade parlamentar que dizem estas barbaridades e anormalidades:

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publicado por mparaujo às 22:27

15
Fev 20

O Governo lançou, há poucos dias, a nova campanha "#NamorarNãoÉSerDon@" que tem como objectivo "educar e capacitar jovens para melhor identificarem e rejeitarem comportamentos de violência em relações de namoro, incluindo violência física, sexual, psicológica, e nas redes sociais", segundo Rosa Monteiro, Secretária de Estado da Cidadania e da Igualdade de Género, sob tutela da Ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, Mariana Vieira da Silva.

Percebe-se o enquadramento e justifica-se a iniciativa face aos dados referentes à violência no namoro que foram revelados, esta semana, pelo Observatório da Violência no Namoro (OVN) e pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) em inquérito produzido já em 2020.

No caso do Observatório, o relatório de 2019 indica que se registaram 74 denúncias de casos de violência, sendo que destas 71 (94,9%) denunciantes são do sexo feminino. O OVN adianta ainda que 2019 registou um decréscimo de denúncias em relação a 2018 (128 denúncias), embora os casos apresentados exprimem um contexto de violência mais agravada. Geograficamente, a maioria dos crimes ocorreu, em 51,4% dos casos, no Porto e em 10% das situações nos distritos de Lisboa e Aveiro.
Importa referir que o decréscimo de denúncias não tem uma relação de proporcionalidade em relação ao número de casos registados em 2019. Ou seja, a diminuição de denúncias não representa uma diminuição da violência no namoro.

Basta olharmos os dados da UMAR resultantes de um inquérito realizado junto de jovens entre os 11 e os 21 anos. Em 2020, valor que iguala os dados de 2019, os cerca de 4.600 jovens dos distritos do Porto, Braga, Coimbra, Lisboa e Região Autónoma da Madeira revelam que 58% já sofreu pelo menos um caso de violência em contexto de relação amorosa/afectiva, nomeadamente: violência psicológica (20%); perseguição (17%); controlo (14%); violência através das redes sociais (9%); violência sexual (8%) e violência física (6%).

Os dados são, de facto, preocupantes... agravados por um indicador que sobressai no meio de toda esta problemática social: dos jovens inquiridos 67% acham normal que durante a relação existam e se pratiquem contextos de violência, legitimando, por isso, esses condenáveis e abomináveis actos.

Se é assim, hoje, numa idade em que se formam concepções e percepções de sociabilidade e afectividades... o que será no futuro. Até que ponto a idade apagará este conceito de superioridade e supremacia sobre o outro.

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publicado por mparaujo às 20:45

10
Fev 20

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ou, de outra forma: "nem uma coisa, nem outra... antes pelo contrário".
Desbloqueador de frases públicas.

1. As desculpas não se pedem... evitam-se. E no caso de figuras e funções públicas a expressão toma contornos ainda mais importantes.
Lapsos, gafes, erros em situação de pressão, em directos, em contextos de perguntas e respostas ou informais, mesmo que criticáveis são compreensíveis.
Mas em intervenções pensadas, reflectidas, programadas e contextualizadas (escritas ou não) são inaceitáveis porque, tal como os actos, em política as palavras contam e têm um peso significativo. E são o que são... não outra coisa qualquer.
Por mais justificações e argumentos que a Ministra da Agricultura queira apresentar a expressão e a afirmação foram mais que claras: "o coronavírus até pode ter consequências bastante positivas para as exportações portuguesas do sector agroalimentar".

2. Joacine justifica voto contra propostas do PCP e do BE para evitar "queda do Governo".
Naïf e politicamente pueril. O Governo nunca cairia por causa do IVA na electricidade. Isso não passou de uma mera chantagem política.
Na verdade, a sua saída do Livre e a passagem a 'deputada não-inscrita' deixou Joacine Katar Moreira politicamente livre mas partidariamente orfã, com impactos em futura eleições legislativas. Não será por isso de estranhar que a política que afirma que "nasceu para ser deputada" (seja lá de que forma for, já vimos...) não tarde muito a afirmar que "nasceu socialista".

3. Ainda no rescaldo da aprovação do OE2020 e da problemática do IVA na electricidade.
Francisco Rodrigues dos Santos, líder do CDS, diz que partido não dá satisfações a ninguém, não faz fretes a ninguém, nem anda às ordens do PSD.
Pelo princípio da independência partidária e da legitimidade democrática, o PSD nunca esperaria outra coisa. No entanto, importa recordar ao jovem presidente centrista e conservador de direita que a história política da democracia portuguesa é bem clara: o CDS só foi poder em Portugal à custa e às costas do PSD (excepção feita para uns breves 7 meses de governação PS-CDS, em 1978). E lembrar os resultados do CDS em 2019.

4. Augusto Santos Silva disse, na apresentação da recandidatura de Manuel Pizarro à distrital do PS Porto, que é motivo de orgulho a aprovação do Orçamento do Estado sem os votos da direita.
Deve ser o mesmo orgulho, ao contrário do que aconteceu na anterior legislatura, que o ministro Augusto Santos Silva deve ter sentido com a abstenção de toda a esquerda (BE, PCP e Verdes). Porque será que só o PS votou a favor?

5. Luís Montenegro, afirmou, durante o seu discurso no segundo dia do congresso do PSD, que não vê nem Rui Rio nem Miguel Pinto Luz como "adversários" mas sim como "companheiros" numa luta contra os outros partidos. Pelo histórico bem recente e "fresco" com amigos (companheiros) assim para que é que queremos inimigos.
Razão tinha Winston Churchill: "À minha frente sentam-se os meus adversários políticos. Os meus inimigos sentam-se aqui, ao meu lado".

publicado por mparaujo às 00:30

09
Fev 20

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Caiu o pano do Congresso Social-democrata. Rui Rio fechou o 38.º Congreso do PSD, em Viana do Castelo, com uma intervenção a lembrar a abertura da reunião magna social-democrata, na sexta-feira: com chave de ouro. Se em termos ideológicos, programáticos, políticos e oratórios o presidente do PSD foi bastante claro, credível, assertivo e estratégico, tal não significa um redundante "ouro sobre azul".
Rui Rio perdeu o Conselho de Jurisdição para uma das vozes internas mais críticas, Paulo Colaço. Ganhou o Conselho Nacional por 5 votos de diferença (21-16) para a lista liderada por Paulo Cunha e apoiada por Luís Montenegro. Mas olhando para o que foram algumas (muito poucas) intervenções, nomeadamente, de Luís Montenegro, Pedro Duarte, Hugo Soares, Paulo Cunha, ou Paulo Colaço ouve-se, ao longe, uma frase cirúrgica do Secretário-geral do partido, José Silvano: BASTA DE CINISMO.

E cinismo foi algo que marcou este congresso, desde a sua preparação até ao cair do pano. Não vale a pena esconder a cabeça na areia, qual avestruz, ou assobiar para o lado, como se isso fosse resolvesse as fracturas internas. A verdade é que uma das principais conclusões político-partidária deste 38.º Congresso é a de que as feridas continuam (e vão continuar) abertas.

Muita razão tinha José Silvano, quando subiu à tribuna.
Luís Montenegro veio exigir ao partido e a Rui Rio tudo aquilo que não fez desde 2018: respeito, lealdade institucional (mesmo que divergente), unidade e coesão. Para além de ter procurado também, nas eleições internas, deslocar perigosamente o partido para o conservadorismo, para o liberalismo ou para o populismo.
Afirmava Montenegro que "no PSD há demasiada crispação e agressividade verbal. Há demasiado fanatismo e excessos". Isto só pode ser anedótico, no mínimo. Basta recordar todo o discurso nas internas, ao ponto de Carlos Carreiras, seu apoiante na segunda volta, ter apelidado Rui Rio de "traidor". Acho que basta como exemplo.
Além disso, é muito interessante ver Luís Montenegro parafrasear Sá Carneiro mas apenas quando e no que lhe interessa ou dá mais jeito. Curiosamente, nunca se ouviu Montenegro a recuar até 1975 e relembrar a frase do fundador do PSD "Somos um partido de esquerda não marxista e continuaremos a sê-lo". Ou até ao Congresso de 1978: "nós, Partido Social Democrata, não temos qualquer afinidade com as forças de direita, nós não somos nem seremos nunca uma força de direita". Sim... não dá mesmo jeitinho nenhum. O que dá jeito é recuar até 1972, em plena Assembleia Nacional, esquecer o contexto, a conjuntura e a realidade, e subscrever as palavras de Sá Carneiro: "O que não posso, porque não tenho esse direito, é calar-me, seja sob que pretexto for." Mas Montenegro faria um enorme favor lembrando-se do "dever de se calar", por uma simples e normal lealdade institucional.
Para além do cinismo e da hipocrisia também houve claros momentos de perfeito ressabiamento por quem, de derrota em derrota, ainda não percebeu que terminou, à nascença, o seu sonho de puro e mero carreirismo político. A intervenção e o papel deplorável de Hugo Soares (desde 2018 e) neste Congresso roçou o ridículo, como aliás muitas das suas intervenções em 8 (excessivos) anos de mediatismo político. As comparações com o PCP ou a adjectivação "socialistas de segunda" são o espelho da irresponsabilidade e da falta de ética política do ex (e importa reforçar "ex") deputado. Ao ex (e importa voltar a reforçar "ex") líder temporário da bancada parlamentar do PSD (alguns meses) importa recordar que em 2015, apesar da "COLIGAÇÃO" (e não o PSD) ter sido o 'partido' mais votado, não teve o peso da representatividade parlamentar suficiente para governar. Assim, como importa recordar desastroso resultado das autárquicas de 2017 que agora o Partido e Rui Rio se vêem na contingência de inverter.
Depois, há ainda os perfeitos "erros de casting", quem acha que ainda é ouvido só porque, num passado recente, teve algum papel político, como é o caso de Pedro Duarte e a sua responsabilidade na gestão da campanha presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa, em 2016.
Pedro Duarte enganou-se redondamente no destinatário do seu "recadinho": "um partido com um líder e não um líder com um partido”. Rui Rio foi, precisamente, eleito pelo partido em 2018 e 2020 para ser o seu líder. Já Luís Montenegro, que Pedro Duarte tanto apoiou, andou precisamente dois anos a tentar encontrar um partido (que não este PSD, felizmente) para a sua almejada liderança.

Vamos esperar para ver o que reserva o final de 2020 e início de 2021 quando começar a fervilhar as eleições autárquicas do próximo ano. Vamos ver até que ponto, críticos e apoiantes, se lembrarão dos princípios defendidos por Rui Rio neste Congresso em relação a listas e candidatos: o mérito e relevância local e a ética/transparência.
É que aqueles que tanto criticam Rui Rio pela falta de coesão partidária, de aceitação da diferença de opinião, de "varrer à vassourada" os críticos/opositores, esquecem-se, porque a memória selectiva dá um jeitaço, do que foram as varridelas, os "pontapés no traseiro" e todas as quezílias e conflitos internos nas últimas autárquicas, e que resultaram, entre outros, em abandonos, demissões e suspensões, e num surgimento exponencial de movimentos com candidaturas "independentes" (muitas das quais com pleno sucesso eleitoral, cconquistando, aliás, câmaras e freguesias sociais-democratas). Mas essa derrota não interessa lembrar... porque toca em supostos "ídolos" políticos (mesmo que com pés de barro) ou sustenta o argumento mais que válido, usado por Rui Rio, na análise eleitoral de 2019.

publicado por mparaujo às 16:22

08
Fev 20

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Dito de outra forma... eis a razão de eu e 53,2% dos militantes sociais-democratas termos votado em Rui Rio, nas directas de janeiro último. E este poder ser um dos melhores presidentes que o partido já teve (haja a oportunidade e tempo de o provar).
E a razão é bem simples e muito clara... com Rui Rio, desde 2018 (e não apenas agora, em Viana do Castelo) o Partido tem vindo a reencontrar o seu posicionamento ideológico ao centro (perdido, pelo menos, nos seus últimos anos: 2010-2018) e que alguns, poucos mas insistentes, tentam a todo o custo inverter; o Partido tem procurado encontrar forma de dignificar a política, seja por uma oposição crítica mas realista e consistente, seja pela sua transparência, ética e rigor, seja ainda por colocar os portugueses (todos) e o país em primeiro plano e prioridade; e, ainda, o Partido tem percorrido um sinuoso caminho na promoção de espaços de abertura à sociedade e à participação dos cidadãos na construção de um país bem melhor (e diferente)... pena é que muitas estruturas de base (concelhias) ainda não tenham compreendido a importância deste contexto para que o PSD volte a sedimentar-se nas freguesias, nos municípios, nas associações e instituições, no mundo laboral, nas escolas, no tecido comercial e empresarial (como foi a sua génese fundadora).

Por norma e pela tradição a intervenção do presidente do partido na abertura dos Congressos Nacionais é dedicada ao partido, essencialmente dirigida aos congressistas e militantes, com uma mensagem marcadamente interna.
Tal aconteceu com Rui Rio, ontem, em Viana do Castelo. Mas não só... para além do contexto, foi a forma soberba como o fez. Daí que o Congresso não precisasse de mais nada porque o discurso de Rui Rio foi cirúrgico, assertivo, preciso, rigoroso, político e ideologicamente importante, sem qualquer necessidade de fulgor e empolgamento mediáticos, de grandes rasgos retóricos (que, por regra, soam sempre a demagogia e falácia) ou de calorosas ovações. Para além de ter sido, ainda, inquestionável e necessariamente educativo, no que respeita à precisão com que o presidente do PSD focou os críticos e as facções internas.

Dividindo o excelente discurso de Rui Rio em três partes, estas traduzem e espelham as actuais necessidades do PSD face à actual conjuntura política e ao seu futuro no contexto nacional.

Primeiro, a avaliação dos exigentes desafios mais próximos (já em 2021): as eleições regionais nos Açores e as Autárquicas.
O PSD para se voltar a afirmar na sociedade e na política, para voltar a crescer, não pode descurar o que é a sua base estrutural: as aldeias, vilas, cidades, freguesias, municípios. No fundo... o Poder Local, principal barómetro da implementação nacional de um partido e o espelho do seu vigor e da sua aceitação na sociedade.
Dos importantes elogios ao trabalho autárquico e ao peso do Poder Local no desenvolvimento do país, Rui Rio deixou uma mensagem interna bem clara: não vale a pena quererem condicionar as escolhas de candidatos e listas à "pala" de um falso sentimento de unidade e coesão (algo que uma minoria tem andado a fazer - e não acredito que por aqui parem - desde 2018 porque perderam influência, carreirismo e palco político). Divergência de opinião não é o mesmo que falta de lealdade partidária ou ética política, de valorização de interesses pessoais ou corporativos. Felizmente, com Rui Rio, o principal critério nas escolhas autárquicas será o do mérito, do valor, da relevância, da seriedade e rigor, independentemente das divergências de opinião. De fora ficam os interesses pessoais, o 'amiguismo', o clientelismo, o carreirismo político, os fundamentados 'casos de justiça' (que infelizmente existem, contrariando os que acham que há demasiada judicialização da política).

Segundo, a mensagem "churchilliana"... o recado aos críticos internos.
Os que tanto clamam por unidade, por coesão, são aqueles que nestes dois últimos anos tudo fizeram para fracturar o partido, com um notório deplorável sentimento de ressabiamento, vingança e rancor.
O que temos assistido no PSD, desde a chegada de Rui Rio à presidência (2018), é o espelho da actualíssima expressão de Wilson Churchill em relação à disposição das forças políticas no Parlamento Britânico: "em frente sentam-se os meus adversários políticos... ao meu lado os meus inimigos".
Aqueles que tanto têm bradado aos ventos para que Rui Rio assuma claramente António Costa com um adversário e o foco da estratégia partidária do PSD, são os mesmos que, interna ou publicamente, têm feito do Presidente do PSD o seu alvo e foco principal, o seu verdadeiro inimigo.

Por último, e mais determinante, o reposicionamento do PSD, contra o esvaziamento e desvio ideológico que um passado bem recente (última década), que os críticos e oposicionistas internos (nos dois últimos anos) têm procurado impor, remetendo para o esquecimento, para a mera "gaveta" das recordações, toda a história e princípios estruturantes da fundação do partido protagonizados, entre outros, por Sá Carneiro (que injuriosamente aclamam). Contra os que afirmando ter-se fechado um ciclo político, remetem-se ao anonimato e à privacidade, mas que, a espaços, vão querendo "andar por aí" e vão surgindo publicamente nos momentos mais determinantes da vida do partido, expressando desejos e sonhos recentes de viragem para um vazio ideológico e programático.
Mais que interpretar conceitos e afirmações, nada melhor que reproduzir algumas excelentes e soberbas expressões que o discurso de Rui Rio trouxe a público.
Antes de mais, aos críticos e ao que foram muitas das argumentações eleitorais internas no final de 2019 e início de 2020.

«Podemos, até, ganhar eleições, mas tal não significa necessariamente que se tenha ganho o País. Ganhar os portugueses é conquistar o seu respeito e a sua confiança e não conseguir o seu voto, apenas porque eles acham que os outros são piores do que nós.
A frase que tantas vezes tenho citado, “Primeiro está Portugal, depois o partido e, por fim, a nossa circunstância pessoal” é o princípio que Sá Carneiro nos apontou, e que temos de ter sempre como pano de fundo de toda a nossa actuação política. Os partidos existem para servir o País, não existem para dar corpo às suas pequenas tácticas, nem aos interesses particulares dos seus dirigentes.»
«Em Portugal, (...) se berra mais alto, se diz mal de tudo o que o Governo faz, se não concorda com nada, então está a fazer uma verdadeira oposição. Se assim não é, se o faz com critério, coerência e elevação, então a sua acção política é fraca e a oposição muito frouxa. É isto que eu não quero que o PSD faça sob a minha liderança. Porque é esta postura, que foi descredibilizando a política ano após ano. Não adianta insistir na política do “bota-abaixo” e da critica sem critério nem coerência. Deixemos isso para os outros e portemo-nos nós com a elevação e a nobreza que a actividade política nunca devia ter perdido. Serve-se o País no Governo, tal como se serve o País na oposição. O nosso objectivo é Portugal, não é apostar no quanto pior, melhor. Somos oposição. Compete-nos enaltecer as diferenças relativamente ao Governo em funções, denunciar, com firmeza, as suas falhas e apresentar, com competência, políticas alternativas.»
«Não podemos ser contra ou a favor de uma ideia em função de quem a apresenta. Temos de tomar a nossa posição em função do mérito da mesma e não em função do seu autor.
É, pois, uma oposição credível e realista, aquela que o PSD fará ao Governo no mandato que agora se vai iniciar. Fazer o contrário, como alguns críticos internos defenderam e como tantos comentadores nos pretendiam ensinar, teria tido o mesmo resultado eleitoral que outros partidos tiveram, quando deram ouvidos a tais criticas e optaram por seguir as teses do politicamente correto.»

Por último, e verdadeiramente mais importante (no momento) a questão da ideologia.

«O PSD, tal como o seu nome indica, é um partido de ideologia social-democrata. Não somos, pois, a direita, nem somos a esquerda. Não somos liberais nem conservadores, assim como não somos socialistas nem estatizantes. Abarcamos todo o centro político ou seja, o espaço onde se encontra a esmagadora maioria das pessoas. Desde a nossa fundação, que apostamos em ter connosco os sectores mais moderados da nossa sociedade.»
«Somos um partido moderado, reformista e personalista. Rejeitamos o extremismo. Defendemos a via reformista como caminho para o progresso e para o desenvolvimento. Respeitamos a liberdade individual como elemento estruturante do rumo que cada um entenda dever dar à sua vida.»
«Disse Sá Carneiro no Congresso de 1978 em Lisboa: “Nós, Partido Social Democrata, não temos qualquer afinidade com as forças de direita, nós não somos nem seremos nunca uma força de direita.” Deslocar o PSD para a direita é desvirtuar os nossos princípios e os nossos valores e afunilar eleitoralmente o partido, em direcção a um espaço onde hoje já praticamente nada mais há para ganhar. Uma coisa é o PSD conseguir ser o líder de uma opção à direita da maioria de esquerda que nos tem governado, outra, completamente diferente, é sermos, nós próprios a direita.»

Portugal precisa do PSD. Seja na oposição ou no Governo.

publicado por mparaujo às 16:36

07
Fev 20

Focando apenas três casos como meros exemplos.

Em junho de 1993, o então Ministro do Ambiente, Carlos Borrego, do Governo de Cavaco Silva, visitava a cidade de Braga.
Nesse mesmo ano, entre abril e junho, a região de Évora vivia uma trágica realidade com a morte de 25 doentes que realizavam tratamento de hemodiálise, devido à contaminação por alumínio da água que abastecia o Hospital de Évora. Escuso-me, por uma questão de respeito, a relatar, textualmente, o "humor" usado pelo Ministro e divulgado por uma rádio local, referindo-se ao nível de alumínio encontrado no organismo das vítimas.

Em julho de 2009, ilustrando um hipotético litígio político-estratégico entre BE (Francisco Louçã) e o PCP (no caso, Bernardino Soares) referente a um contexto laboral que envolvia os trabalhadores das minas de Aljustrel, Manuel Pinho, ministro do Governo de José Sócrates com a pasta da Economia, durante o debate do estado da Nação, empolgou-se e dirigiu à oposição (Bernardino Soares) um gesto a simular uns "chifres", considerado insultuoso (motivando, inclusive, um pedido público e formal de desculpas do Primeiro-ministro).

Já mais recentemente, em abril 2018, o, à data, Ministro da Cultura, João Soares, cedeu claramente ao mediatismo das redes sociais e ofereceu "virtualmente" umas “salutares bofetadas” a Augusto M. Seabra e também ao comentador Vasco Pulido Valente, como reacção a artigos de opinião críticos da sua actividade ministerial, apesar de apenas 4 meses de exercício.

O primeiro caso ocorreu, publicamente, mas num contexto restrito.
O segundo, na Assembleia da República difundido pelo Canal do Parlamento.
O terceiro, numa página pessoal do facebook.

Há dois dias, a Ministra da Agricultura, Maria do Céu Albuquerque, na maior feira internacional do sector das frutas e legumes - Fruit Logistica - em Berlim, afirmava, em discurso público, que o coronavírus podia ser bastante positivo para as exportações portuguesas na China.
O coronavírus uma oportunidade comercial e económica muito positiva.
Importa dar nota: até hoje, morreram cerca de 700 pessoas e estão infectadas mais de 31 mil devido ao surto do vírus.

Concluindo... por muito menos ou, no mínimo, por contexto idênticos caíram os três ministros citados.
Hoje... António Costa, PS e Governo, assobiam para o lado, numa enorme e inqualificável falta de respeito pela condição humana, por quem sofre e por quem morreu.

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(créditos da foto: João Silva / Global Imagens)

publicado por mparaujo às 22:52

02
Fev 20

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Com o argumento de Isabel Fernandes Pinto, a produção de Fugir do Medo - Associação Cultura (e a ajudinha conceptual do Gil Moreira), o "fifty-fifty" portuense/aveirense Joaquim Pavão concebeu e realizou: "SCULP - Os Sonhos".
Os sonhos como experiência, a realidade como ausência... um projecto cinematográfico do Joaquim Pavão a partir de um desafio da Câmara Municipal de Santo Tirso e do acervo do Museu Internacional de Escultura Contemporânea, em Santo Tirso.

A estreia acontecerá já na próxima sexta-feira, 7 de fevereiro (21h30 na sede do Museu Internacional de Escultura Contemporânea, em Santo Tirso - com entrada gratuita) e prolongar-se-á até ao dia 1 de março: diariamente... o filme, a exposição e o debate.

"Algures no futuro, a espécie humana está à beira da extinção, devido ao desenvolvimento de bactérias multi-resistentes, às alterações climáticas e a conflitos armados entre as nações. Como recurso de sobrevivência, a tecnologia torna-se endémica à vida humana e tende a tomar o lugar do
livre arbítrio. Toda a delimitação, controlo e posse de território é proibida. A ideia de nação é abolida em favor de um Estado totalitário e universal.
Nesse Estado, um Sistema gerido através de algoritmos determina a função, as opções e as ações de cada indivíduo, controlando toda a sua
existência social com vista ao prolongamento da vida humana, à sua reprodução e à manutenção do seu domínio sobre o planeta Terra.
Embora os pensamentos e emoções sejam também induzidos e manipulados pelo Sistema Algorítmico, o conhecimento da mente e a evolução tecnológica ainda não permitem um controlo absoluto sobre essa dimensão do indivíduo. É aí, ainda, que reside uma centelha de liberdade.
Para controlar essa potencial imprevisibilidade, o Sistema mantém um controlo apertado sobre todos os indivíduos, classificando aqueles que colocam em causa as orientações algorítmicas como Instáveis. Esses são submetidos a uma estreita vigilância e a vários procedimentos de manipulação mental. Após esse tratamento, caso persistam nas dúvidas que colocam, são convidados a desligar pacificamente do Sistema.
Para prevenir qualquer tipo de união entre os indivíduos que possa potenciar futuras rebeliões, está em curso um processo de abolição das relações emocionais e sexuais. Todos os novos humanos serão gerados em laboratório e a sua gestação será totalmente feita fora de útero, em incubadora". (sinopse - instalação)

publicado por mparaujo às 17:38

31
Jan 20

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O Brexit passou à história... segue-se o "day after".

O Reino Unido deixa hoje, definitivamente, a União Europeia às 23h00 portuguesas e inglesas (fuso GMT) e às 24h00 da União Europeia. O Brexit pode, finalmente, abrir o champanhe, sem, no entanto, recordar que "a procissão ainda vai no adro" e que há muito ainda por discutir até ao final de 2020 (pelo menos).

Para já, há duas questões incontornáveis? Quem perde mais com a saída do Reino de Sua Majestade da UE? O que reserva o futuro após o 'day after'?

Reino Unido
Em 1973, a então CEE acolhe mais um Estado membro: o Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte). Volvidos apenas dois anos, em 1975, o primeiro referendo coloca à prova a permanência na Comunidade Europeia: 67% vota pelo sim à continuidade.
41 anos depois, num claro erro político e uma desastrosa estratégia geridos por David Cameron (à altura, Primeiro-ministro eleito pelo Partido Conservador - apesar da sua preferência pública pelo "no deal"), os partidos Trabalhista, Aliança da Irlanda do Norte, Verde, Liberais Democratas, Partido Nacional Escocês, Sinn Féin, Partido Unionista do Ulster, entre outros, não foram suficientemente capazes de contrariar muito do populismo e demagogia que sustentaram os discursos "deal" de partidos como o Partido Conservador, Partido Unionista Democrático, Aliança Antiausteridade, Voz Unionista Tradicional ou o Partido da Independência (do extremista e eurocéptico Nigel Farage), como exemplos.
A 23 de junho de 2016, 51,89% dos eleitores 'britânicos' votaram a favor da saída do Reino Unido da União Europeia (contra 48,11% que optaram pelo "no deal" e pela permanência). O Brexit iniciava, assim, um período de mais 3 anos de altos e baixos, avanços e recuos, mais dúvidas que certezas, até à aprovação final, a 9 de janeiro deste ano (330 votos a favor e 231 contra) no Parlamento Britânico, da saída oficial do Reino Unido da União Europeia (31 de janeiro de 2020).
São muitas feridas que o Brexit deixa bem abertas. Primeiro, a memória do fatídico dia 16 de junho de 2016, quando a parlamentar trabalhista Jo Cox foi assassinada em Bristol por defender a permanência na União Europeia. Além disso, são evidentes, públicas e inequívocas as brechas políticas que o Brexit criou na própria união do Reino: Escócia e Irlanda do Norte à cabeça: a luta secular pela independência e, no caso dos segundos, acresce ainda o eterno desejo unionista (as duas irlandas numa só). Além disso, há uma fractura imensa na sociedade britânica, nas instituições e até nas famílias... e vai demorar a sarar.
A troco de um conjunto de populismos nacionalistas e chavões eurocépticos, aos quais se juntou o crescente sentimento anti-imigração, os britânicos (mais os ingleses e galeses) escolheram perder peso económico, político e estratégico.
A permanência na União Europeia, apesar de todas as circunstâncias e conjunturas, dava ao Reino Unido o conforto do peso internacional do bloco europeu, conferia-lhe dimensão política, assegurava-lhe capacidade negocial e económica. Com a saída os súbditos de Sua Majestade ficam dependentes de si mesmos (apenas), do resultado dos acordos com a União Europeia, fragilizados economicamente, dependentes da sua relação umbilical com os Estados Unidos da América (não sendo, nos dias de hoje, uma clara "segurança", nem uma aconselhável opção).
Como toda o sua altivez e vaidade nacionalistas e perseverança monárquica (mesmo a cair aos bocados), lá continuarão a conduzir pela esquerda.

União Europeia
A UE, com eventuais perdas menores, não deixa de sentir um sabor amargo neste contexto de rotura.
É inquestionável a sensação de fragilidade política que leva a colocar em causa o presente e o futuro da Comunidade. É óbvio que a União Europeia tem uma quota parte de responsabilidade neste Brexit porque se uns quiseram sair, a UE não foi capaz de ter arte e engenho para conseguir manter a sua unidade e não perder uma "peça de peso" na sua estrutura, perdendo o seu centro financeiro e ficando reduzida ao eixo franco-alemão (centro político e centro económico) com evidente supremacia do dinheiro/economia em relação à política.
Mas há mais... se é um facto que as vozes eurocépticas foram diminuindo no seu mediatismo (o que não significa que tenham desaparecido ou perderam peso e força), optando por aguardar novos desfechos e novos episódios, a União Europeia tem, a partir de hoje, enquanto durarem as negociações e os acordos que se seguem, desafios muito complexos para ultrapassar, sem que a União Europeia perca a sua essência, os seus valores e o seu sentido de unidade. Se os processo negociais resultarem em benefícios desproporcionados, com clara vantagem para o Reino Unido, isso pode ser manifestamente visto pelas vozes anti-UE como uma porta relativamente fácil para, face a potenciais crises políticas e sociais, surgirem novos Euroexits. E há 'bons' exemplos de quem não ensaie muito para colocar em causa a sua permanência, independentemente das vontades de integração da Turquia, Croácia, Albânia, Bósnia-Herzegovina, Islândia, Kosovo, República da Macedónia, Montenegro (a grande maioria destes países com fortes constrangimentos sociais, culturais e políticos).
Será, claramente, a forma como a União Europeia se projecte no presente e perspective o seu futuro, juntando processos 'pacíficos' de alargamento, e consiga criar fortes laços de unidade e integridade, com uma política forte de coesão social, de crescimento económico e financeiro, de ganhos e fortalecimento geoestratégico e geopolítico, que minimizará os impactos (haverá sempre) negativos do Brexit.

Day After
Se muitos pensam que o Brexit é o fecho e o fim de um ciclo podem "tirar o cavalinho da chuva". Este bem pode ser, como canta Sérgio Godinho, "o primeiro dia do resto das nossas vidas". E ainda a "procissão vai no adro".
Muitas horas, muitos dias, muitos avanços e recuos, hão-de acontecer, pelo menos, até ao final do presente ano. Serão negociados muitas contrapartidas, muitas regras e procedimentos, muita legislação que salvaguarde, agora, interesses contraditórios e opostos, nomeadamente aqueles que se sustentam na economia e nas relações comerciais e na livre circulação de pessoas e bens.

Mesmo que o processo seja, para já, irreversível (não sei se o será definitivamente... o que pode criar, no futuro, outro grande e complexo problema à União Europeia: um hipotético regresso - como? em que moldes? de que forma? igual a um outro qualquer pedido de adesão?) muita água irá correr por debaixo da ponte.

A história continuará... a vida também. Mas para o UK e para a UE nada será como dantes... há um antes de 31 de janeiro de 2020 e um depois do Brexit.

publicado por mparaujo às 21:08

29
Jan 20

A proposta da (ainda) deputada do Livre na Assembleia da República, Joacine Katar Moreira, que prevê a devolução às antigas colónias portuguesas de património cultural e histórico que faz parte do acervo museológico nacional é, no mínimo, discutível e polémica. Mas isso não justifica, nem legitima, que, ao abrigo da impunidade parlamentar ou da suposta liberdade de expressão, se use uma retórica clara e inequivocamente xenófoba e racista.
A ironia, ou, no caso, o completo falhanço humorístico, não fundamenta, nem justifica, um deplorável ataque à dignidade humana espelhado na afirmação do deputado do Chega na Assembleia da República, André Ventura, que sugeriu que Joacine seja "devolvida ao seu país de origem", o que tornaria tudo "muito mais tranquilo para todos... inclusivamente para o seu partido! Mas sobretudo para Portugal!". Mesmo que Joacine Katar Moreira tenha nacionalidade portuguesa, apesar de ter nascido na Guiné-Bissau.

As declarações de André Ventura não têm qualquer tipo de legitimidade, de justificação, nem podem ser aceitáveis.
Primeiro... porque a liberdade de expressão não legitima qualquer ataque de ódio ou racista.
Segundo... porque a impunidade parlamentar não justifica um ataque desta natureza a alguém que é democraticamente eleito e um par entre os pares.
Terceiro... porque tem que haver limites a uma suposta retórica política, a uma criticável demagogia que fere a dignidade de qualquer cidadão, sob a falácia do confronto político.

Daí que sejam de aplaudir todas as criticas ao ignóbil discurso de André Ventura já expressas pela "sociedade civil", por instituições e entidades, pelo poder político (partidos, ministros, ...).

Só que no caso dos partidos políticos há um outro lado da moeda (há quase sempre um "vice-versa").
Partido Socialista (Ana Catarina Mendes), Livre (apesar de continuar, em crescendo, toda a polémica que envolve a relação partido vs deputada), Bloco de Esquerda (Pedro Filipe Soares), Adolfo Mesquita Nunes, entre outros (como por exemplo a Ministra da Justiça).
A questão, principalmente no que toca aos partidos com assento parlamentar, é que todo este mediatismo tem duas vertentes que não podem ser escamoteadas. Uma que é inevitável e preferível, apesar de tudo, ao silêncio: a ampliação pública da afirmação de André Ventura que, incompreensivelmente, em pleno século XXI, ainda colhe adeptos.
A outra é a recolha de dividendos políticos, de ganho de popularidades partidárias, à custa das críticas (e, infelizmente, da própria visada/atacada Joacine). Como aliás refere o insuspeito bloquista José Manuel Pureza. As críticas dos mencionados Livre, do PS e do BE não passam de mensagens marcadamente políticas porque, infelizmente, não há qualquer consequência política ou condenatória para a execrável atitude do deputado e líder do Chega, André Ventura.
Verdadeiro impacto e desejadas consequências das críticas proclamadas de condenação das declarações xenófobas e racistas seria a Assembleia da República poder ir mais longe que um inconsequente "voto de repúdio". É apenas um "louro" político que, estupidamente, favorece também o populismo político-partidário e ideológico do Chega, dando-lhe eco e palco.

Curiosamente, ao contrário de tanta "falsidade", "cobardia", "vergonha", gritadas aos 4 ventos na última assembleia do Livre, a melhor resposta foi a da própria Joacine que se limitou, para já, ao silêncio.

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publicado por mparaujo às 22:36

26
Jan 20

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É um marco incontornável da realidade e história contemporânea: a II Guerra Mundial e o extermínio étnico - Holocausto - que vitimou um número estimado superior a 11 milhões de cidadãos, 6 dos quais homens (3 milhões), mulheres (2 milhões) e crianças (1 milhão) judeus.
Sob o desígnio político-nacionalista Endlösung der Judenfrage (Solução Final), com a ignóbil desculpa/justificação dos lebensunwertes Leben (indignos da vida), foram condenados à morte, morreram pela exaustão do trabalho escravo (o tal que "libertaria") ou pelas condições deploráveis, nos 48 campos de concentração nazi, milhares e milhares de judeus, ciganos, eslavos, polacos, comunistas, homossexuais, maçons, prisioneiros de guerra, deficientes físicos e mentais.

No total,  foram erguidos cerca 48 Campos de Concentração nazis (os mais relevantes) distribuídos por países como a Alemanha, Polónia, Áustria, Noruega, Itália, França, Países Baixos, Croácia, Lituânia, Estónia, Ucrânia, Bielorrúsia, Letónia e República Checa, dos quais 13 eram marcadamente campos de extermínio étnico.

De todos eles o que ganhou uma maior dimensão histórica e social foi o de Auschwitz-Bikernau (que, na verdade, era uma rede de 3 campos no sul da Polónia: Stammlager Auschwitz (administrativo); Auschwitz-Bikernau (extermínio) e Auschwitz-Monowitz (trabalho forçado), e ainda mais 45 pequenos campos satélites) pelo seu peso, pela sua dimensão e relevância no terrível genocídio.

A 27 de janeiro de 1945, no final da II Grande Guerra, as tropas soviéticas iniciaram o processo de libertação dos prisioneiros dos Campos de Concentração de Auschwitz.
São 75 anos de muitas histórias de sobrevivência, de clamor pemanente por justiça, de intensas memórias...

Porque a história nunca pode ser travada...
Para que a MEMÓRIA «Nunca esqueça que, na história e na vida de milhões de pessoas, existiu um lugar chamado Auschwitz»...
Pelos 'auschwitz' e 'holocaustos' que vivemos, promovemos e assistimos HOJE!

Auschwitz (2020)(créditos das fotos: Memorial Museum Auschwitz e ONU)

Livros Auschwitz

publicado por mparaujo às 15:50

20
Jan 20

kwanzas.jpg

Não. Nesta história do Luanda Leaks não há um lado B.
As coisas são o que são e são-no em todos os contextos.

A "panela de pressão" rebentou... fervia há anos, suspeitava-se o que estava a ser "fervido" ou "cozinhado", apesar da falta provas. Não há, por isso, qualquer novidade na bomba que rebentou nas praças internacionais (não apenas em Angola ou Portugal) neste fim de semana e que tem ocupado o mediatismo da actual agenda.
As suspeitas sobre o enriquecimento de Isabel dos Santos são antigas e já há alguns anos eram questionadas/levantadas, as suspeitas sobre a governação angolana de José Eduardo dos Santos não são novidade, as suspeitas sobre negócios menos transparentes (nomeadamente os que resultavam da exploração e comercialização de diamantes) há muito que eram anunciadas.
A novidade do Luanda Leaks surge por via da divulgação pública dos documentos que (alegadamente) provam todas as suspeitas.
Mas não só...

Há duas realidades que importa destacar em todo este processo.

Primeiro, a fazer lembrar o inócuo dos Panama Papers, a questão do consórcio internacional que apurou os factos e divulgou a documentação, do qual fazem parte a SIC e o jornal Expresso.
O jornalismo de investigação é um inquestionável meio para, em vários contextos, se apurar a verdade, servir como factor de escrutínio público de factos que tenham impacto na vida dos cidadãos, das comunidades, das instituições e da sociedade. Sobre isso não há (não pode haver) qualquer dúvida. Mas como em qualquer género jornalístico, também a investigação tem regras, códigos de conduta e obedece a princípios de rigor e transparência.
É, no mínimo criticável, que não se coloque em causa forma como foi apurada/obtida a informação neste processo quando comparado com outros Leaks não muito distantes no tempo (wikileaks e o caso de Edward Snowden - presidente da Freedom of the Press Foundation) ou ainda mais recentemente, preso e a aguardar julgamento, o caso de Rui Pinto (football leaks).
Mais ainda... é, no mínimo, curioso, com todo o avanço tecnológico/informático e a facilidade (para alguns) com que se obtém, hoje, informação tão relevante e bombástica, que o processo Luanda Leaks só tenha vindo a público depois da família Dos Santos deixar o poder em Angola. Isto, apesar, de todas as suspeitas que alguns sempre tentaram denunciar.

Segundo, tal como tantas vezes a política transparece, também o universo dos negócios é um mundo obscuro, hipócrita, opaco, apócrifo.
Durante décadas, empresas, empresários, bancos e banqueiros, políticos e governantes, viveram na sombra dos negócios da oligarquia angolana. E todos sabiam...
Mal surgiram publicamente as eventuais provas todos viram costas, tratam de limpar os estilhaços e salvar a pele.
Como diz, sabiamente o povo (invertendo-se os factores): "sabem-se as verdades, zangam-se as comadres".

publicado por mparaujo às 23:48

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