Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

20
Jan 20

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Não. Nesta história do Luanda Leaks não há um lado B.
As coisas são o que são e são-no em todos os contextos.

A "panela de pressão" rebentou... fervia há anos, suspeitava-se o que estava a ser "fervido" ou "cozinhado", apesar da falta provas. Não há, por isso, qualquer novidade na bomba que rebentou nas praças internacionais (não apenas em Angola ou Portugal) neste fim de semana e que tem ocupado o mediatismo da actual agenda.
As suspeitas sobre o enriquecimento de Isabel dos Santos são antigas e já há alguns anos eram questionadas/levantadas, as suspeitas sobre a governação angolana de José Eduardo dos Santos não são novidade, as suspeitas sobre negócios menos transparentes (nomeadamente os que resultavam da exploração e comercialização de diamantes) há muito que eram anunciadas.
A novidade do Luanda Leaks surge por via da divulgação pública dos documentos que (alegadamente) provam todas as suspeitas.
Mas não só...

Há duas realidades que importa destacar em todo este processo.

Primeiro, a fazer lembrar o inócuo dos Panama Papers, a questão do consórcio internacional que apurou os factos e divulgou a documentação, do qual fazem parte a SIC e o jornal Expresso.
O jornalismo de investigação é um inquestionável meio para, em vários contextos, se apurar a verdade, servir como factor de escrutínio público de factos que tenham impacto na vida dos cidadãos, das comunidades, das instituições e da sociedade. Sobre isso não há (não pode haver) qualquer dúvida. Mas como em qualquer género jornalístico, também a investigação tem regras, códigos de conduta e obedece a princípios de rigor e transparência.
É, no mínimo criticável, que não se coloque em causa forma como foi apurada/obtida a informação neste processo quando comparado com outros Leaks não muito distantes no tempo (wikileaks e o caso de Edward Snowden - presidente da Freedom of the Press Foundation) ou ainda mais recentemente, preso e a aguardar julgamento, o caso de Rui Pinto (football leaks).
Mais ainda... é, no mínimo, curioso, com todo o avanço tecnológico/informático e a facilidade (para alguns) com que se obtém, hoje, informação tão relevante e bombástica, que o processo Luanda Leaks só tenha vindo a público depois da família Dos Santos deixar o poder em Angola. Isto, apesar, de todas as suspeitas que alguns sempre tentaram denunciar.

Segundo, tal como tantas vezes a política transparece, também o universo dos negócios é um mundo obscuro, hipócrita, opaco, apócrifo.
Durante décadas, empresas, empresários, bancos e banqueiros, políticos e governantes, viveram na sombra dos negócios da oligarquia angolana. E todos sabiam...
Mal surgiram publicamente as eventuais provas todos viram costas, tratam de limpar os estilhaços e salvar a pele.
Como diz, sabiamente o povo (invertendo-se os factores): "sabem-se as verdades, zangam-se as comadres".

publicado por mparaujo às 23:48

19
Jan 20

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Por norma, as forças de segurança criam um sentimento de "amor-ódio" na sociedade pela hibridez dos contextos com que as pessoas se relacionam ou convivem com essas forças. Mas há um pressuposto inquestionável: as forças de segurança são peça fundamental no equilíbrio social de um Estado de Direito. Independentemente, tal como em inúmeras profissões, de serem cometidos erros, seja pelas estruturas, seja pelos profissionais. Isso faz parte da vida.
Neste âmbito, cabe a Polícia de Segurança Pública (PSP). Protege, multa, assegura as liberdades e garantias e a segurança de pessoas e bens, para além de ser o garante da chamada 'ordem pública'. Com erros?! Sim... alguns evitáveis, outros escusados e ampliados pela génese da função. Mas também com muitos honrosos e heróicos feitos e brios profissionais.

Por outro lado, a um Ministro que tutela uma determinada área ou entidade, em alguns casos (como o caso) de forma muito directa e presente, no mínimo, espera-se que tenha algum senso político para, em caso de discórdia, saber intervir, resolver, solucionar, pacificar e valorizar.

O Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrito, soube fazer isto tudo... mas ao contrário e pela forma mais negativa e condenável.

Já não é de agora (embora tenha ganho uma maior dimensão) que os profissionais da PSP se queixam da falta de condições para o exercício das suas funções, a maioria das quais exigidas e solicitadas pela sociedade e pelo próprio Estado. Nesta falta de condições cabe, de forma significativa, a ausência de equipamento(s) necessário(s) para o exercício das funções de segurança pública.
Tudo isto é do conhecimento público, tantas vezes provado e comprovado, quer pelos profissionais, quer pela própria estrutura hierárquica da PSP.

Não é por isso admissível que o Ministro venha, publicamente, numa entrevista à TSF e ao Diário de Notícias, dizer que «os Polícias compram equipamento porque querem e não têm nenhuma necessidade de o fazer».
Por menos, bem menos, já houve quedas ministeriais: por expressões ou gestos muito mais inofensivos (a "bofetada" de João Soares ou os "corninhos" de Manuel Pinho); por egos académicos (erros nos currículos); ou pela pressão das conjunturas (ministros Constança Urbano de Sousa, Adalberto Campos Ferreira ou Luís Filipe Castro Mendes).

As afirmações do Ministro Eduardo Cabrita são inaceitáveis do ponto de vista político, social e da segurança. É uma condenável negação da realidade demasiadas vezes comprovada, descredibiliza a PSP, demonstra um desconhecimento da área que ministra e tutela e, acima de tudo, desrespeita completamente os profissionais da PSP.
No mínimo, no mínimo dos mínimos, é um total absurdo um Ministro achar que um profissional (tantas vezes tão 'mal pago' e tão contestatário da sua condição laboral) se dava ao luxo de gastar dinheiro pessoal só porque sim... porque seria 'giro' andar 'bem armado'. Que falta de sentido de Estado, de ausência de condição para o exercício ministerial e político.

Um alto cargo público, governativo, de Estado, não pode estar sujeito a estados de alma trauliteiros. Obviamente...

(*) Crédito da foto: Mário Cruz / Lusa

publicado por mparaujo às 20:08

12
Jan 20

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Uma das principais virtudes de um verdadeiro líder é a sua elevação e grandeza nas vitórias e, igualmente, nas derrotas.
Algo que o discurso de Luís Montenegro não teve na noite eleitoral de ontem.
O que revela muito da sua ética política. Aliás, o que não se estranha desde o congresso de fevereiro de 2018. E, acredito, infelizmente, não irá parar por aqui.

Independentemente das regras em vigor (que obrigam a uma, "escusada", segunda volta... que em nada irá beneficiar o partido), só alguém com todo o topete político pode questionar uma vitória que ficou a cerca de 0,5% de uma clara maioria que terminaria, no sábado, o assunto das directas no PSD. Com topete e sem qualquer respeito democrático.

Mas o descaramento de Montenegro não fica por aqui. Há três notas nas suas afirmações que são demasiado graves, e falaciosas, para ficarem em claro.

Afirmou Luís Montenegro que "foram mais os militantes que votaram na mudança do que na continuidade". Não não foram...
A existência de duas candidaturas que se opuseram à reeleição de Rui Rio, significa tão somente que os 9,2% de militantes que votaram em Miguel Pinto Luz não votaram, de facto, na continuidade de Rui Rio mas também não quiseram a mudança de Luís Montenegro. A usurpação desses votos é, no mínimo, uma total falta de respeito pelo legítimo e democrático exercício de voto desses militantes.
Mas há ainda um facto curioso nesta afirmação de Montenegro, revelador da sua incoerência política e do seu jogo de pura demagogia eleitoral. Regressemos às legislativas de 2015. À data, PSD e CDS (PaF), foram a coligação mais votada nesse acto eleitoral. No entanto, a maioria dos portugueses elegeu uma Assembleia da República, maioritariamente, de esquerda (a tal 'geringonça'). Na altura Montenegro 'rasgou as vestes' ao criticar o que chamou de assalto ao poder por parte do PS e dos seu 'aliados', contrariando o que era a 'tradição' de constituição de um Governo pelo partido mais votado. Pois... a coerência é uma coisa chata mas não pode servir quando nos dá jeito. Luís Montenegro deita por terra qualquer seriedade e honestidade política ao usar, agora, os mesmos argumento do PS, BE e PCP na altura.

As Directas são eleições internas para a escolha do presidente do PSD. São, por isso, eleições que disputam projectos internos. Durante a grande parte, se não a maioria, da campanha eleitoral Luís Montenegro escolheu como alvo principal Rui Rio, acusando-o e criticando-o. Vir agora afirmar que o seu adversário é António Costa é, no mínimo, ridículo mas ao mesmo tempo revelador da sua obsessão pelo poder.
Pelo contrário, Rui Rio sempre manifestou e espelhou uma clara magnitude política: através do PSD, servir Portugal e os Portugueses.

Por último, Montenegro apresenta-se com uma presunção vencedora que se lamenta (para além de um erro político, mas isso já é problema seu).
Não é eticamente compreensível (e aceitável) que um político/candidato se apresente a um qualquer acto eleitoral como um anunciado vencedor ou, pior ainda, no caso de Montenegro afirmando (mais que uma vez) que ganharia as eleições de 2021 (autárquicas) e as de 2023, assumindo-se como Primeiro-ministro antecipado.
As eleições não se ganham previamente, não há vencedores antecipados. As eleições 'tentam-se' ganhar, conquistam-se. Primeiro, porque há um conjunto de factores que não se controlam ou que condicionam os actos eleitorais, como as conjunturas políticas. Segundo, e principalmente, porque ninguém é dono dos votos, o voto pertence à vontade e livre opção de cada eleitor.
Talvez por isso não seja de estranhar que Luís Montenegro tenha perdido, em Espinho, as eleições autárquicas de 2005 para o PS local (o socialista José Mota) e tenha perdido, agora, a primeira volta das directas no PSD, quando se apresentou, presunçosamente, como vencedor, com maioria (à 1.ª volta). Curiosamente, nem no distrito 'natal' (Aveiro), nem no Concelho de Aveiro onde encerrou a campanha e tão fervorosos adeptos tinha (ou como alguém referiu, numa das sessões de campanha, no Porto: "O Melhor de Aveiro" com Luís Montenegro).

Uma coisa Montenegro pode ter a certeza...
Há mais de 49% dos militantes que votaram (22% optaram por ficar em casa) não querem um PSD esvaziados dos seus fundamentais princípios da social-democracia, fora do seu posicionamento ideológico (ao Centro) que Sá Carneiro tanto defendeu.
Há mais de 49% dos militantes que votaram (22% optaram por ficar em casa) que não querem ver um PSD regressar ao sombrio e vazio tempo de 2010 a 2018.
Há mais de 49% dos militantes que votaram (22% optaram por ficar em casa) que não aceitam que PSD ocupe um espaço político (perigosamente neoliberal) que não é o seu por natureza, que se confunda com CDS, Iniciativa Liberal, Aliança ou Chega.
Há mais de 49% dos militantes que votaram (22% optaram por ficar em casa) que querem ver um PSD ao centro e que, dessa forma, contribua para o fim dos extremismos (à direita e à esquerda).
Há mais de 49% dos militantes que votaram (22% optaram por ficar em casa), o maior número, que entendem que Rui Rio é o líder certo para construir uma alternativa política a António Costa, capaz de defender Portugal e os Portugueses.

publicado por mparaujo às 21:17

10
Jan 20

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Ou como, facilmente, se atira a ética política para o lixo.

Nesta campanha para as eleições directas para a presidência do PSD já não bastava a bipolarização "pró ou contra" Rui Rio para termos assistido, desde a primeira hora, a um chorrilho de demagogias inconsistentes e incoerentes, nomeadamente por parte de Luís Montenegro.
À falta de uma alternativa consistente em relação à liderança de Rui Rio, à falta de uma argumentação sólida que colocasse em causa, de forma rigorosa, Montenegro refugiou-se numa estratégia baseada num pressuposto errado e falso: uma suposta (que nunca existiu, nem nunca foi anunciada) aliança ou submissão do PSD ao PS. Isso é uma pura falácia, engodo político, demagogia eleitoral e uma tentativa deplorável de denegrir o carácter e a imagem de Rui Rio.
Confundir "sentido de Estado" ou superior interesse do país e dos portugueses (incluindo todos os sociais-democratas com "muletas", "vassalagens", "submissões", é apenas irresponsabilidade política e partidarismo balofo.
Para além de desvirtuar, esgotar ou despojar o PSD da sua génese e posicionamento ideológico (bem definido por Rui Rio... ao CENTRO), é totalmente irracional a estratégica de Luís Montenegro de querer colocar o partido num espaço político liberal e conservador, perfeitamente alheio aos valores e princípios da social-democracia. Para isso já existe o CDS ou a Iniciativa Liberal, para isso já nos bastaram alguns anos de sacrifício partidário.

Mas a inconsistência da campanha e estratégia de Montenegro esteve também presente num conjunto de mensagens e afirmações incoerentes. Para além de não trazer nada de novo ao que é qualquer estratégia óbvia de liderança do partido (tal como sempre afirmou Rui Rio: ser Governo, ser alternativa ao actual estado do país, liderar o maior número de autarquias) Montenegro procurou dividir, criar a dúvida e desvalorizar a presidência e a actuação de Rui Rio. Basta recordarmos, como mero exemplo, a obsessão pela pressa na definição do sentido de voto do PSD em relação ao Orçamento de Estado. Mesmo que isso significasse uma tomada de posição sem qualquer fundamentação e argumentação válidas ou que soasse apenas a ruído político (muito à semelhança da identidade discursiva da esquerda).

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E é importante recordar a incoerência e a deriva política de Luís Montenegro: quando líder da bancada parlamentar do PSD, bem ao lado de Pedro Passos Coelho, o PSD anunciava, a 22 de fevereiro de 2016, o voto contra a proposta de Orçamento do Estado para 2016. Até aqui nada de anormal... apenas não fosse o caso da discussão o OE2016, na Assembleia da República ter início nessa mesma tarde. Nessa altura também não era enganar e iludir os sociais-democratas e os portugueses? Ou a realidade é só quando nos convém, tipo catavento?
Mais ainda... a tentativa de Luís Montenegro colar Rui Rio a António Costa, para além de ridículo, cai facilmente nas imensas contradições das posições do ex-líder parlamentar. É de uma enorme incoerência acusar Rui Rio para, publicamente, defender uma recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa depois de um mandato onde o Presidente da República andou com o Governo claramente "ao colo" e defendeu a união das esquerdas em torno do OE2020 e da sua aprovação.

Por isso...
contra o "ressaibismo" partidário...
contra a deterioração e esvaziamento programático do partido...
pela afirmação do PSD no centro da ideologia política portuguesa...
pela ética e responsabilidade políticas...
pelo rigor e firmeza na liderança partidária...
pela preservação dos valores e princípios da social-democracia...
por um PSD ao serviço de Portugal e dos Portugueses...

EU VOTO RUI RIO. Porque é a melhor liderança para o PSD... a melhor alternativa a António Costa... a melhor proposta para recentrar o PSD e devolver a sua relevância autárquica.

publicado por mparaujo às 21:06

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O Orçamento de Estado para o ano de 2020 entrou na sua fase de apresentação e discussão parlamentar com vista à sua (para já, garantida) aprovação na generalidade (globalidade).

BE, PCP, Os Verdes, Livre, PAN, a chamada "liga das esquerdas", anunciaram o seu sentido de voto: Abstenção.
António Costa e Mário Centeno, desde a primeira hora das abordagens ao OE2020,  apelidaram este Orçamento de continuidade (em função da anterior legislatura) e de esquerda.

Face às criticas e ao sentido de voto da "liga dos 5" percebe-se que a continuidade da Geringonça faliu e que o OE2020 diz muito pouco às Esquerdas. O resto não passa de jogo político porque também é mais que óbvio que o OE2020 irá passar na globalidade e especificidade na Assembleia da República.

Tretas, portanto.

publicado por mparaujo às 17:10

08
Jan 20

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Ou como paira no ar uma ilusória sensação de paz.

Não alinho no coro (que acho desafinado) daqueles que acham que caiu o pano sobre um eventual conflito Irão(Iraque)/Estados Unidos da América.
Assim como também não alinho naqueles que acham que podemos voltar todos à normalidade, que não há mais "nada para ver" depois dos acontecimentos que ditaram a morte do general iraniano Qasem Soleimani.
Tudo porque a reacção norte-americana à resposta iraniana à morte de Soleimani foi uma patética declaração de Trump.

Seria então preferível que os Estados Unidos cumprissem as ameaças do presidente norte-americano? Obviamente que não... ninguém, no perfeito juízo (algo que falta para os lados da terra do 'Tio Sam'), preferirá a guerra/violência.
Mas também é óbvio que tinha sido (mais) preferível que Donald Trump tivesse tido o bom senso (se é que isso é possível) de não ter tomado um dos maiores erros geopolíticos, como foi a decisão assumida no final da passada semana (3 de janeiro).

Mas apesar da reacção norte-americana aos mais de 20 misseis literalmente "descarregados" pelo Irão contra duas bases militares americanas sediadas em Al Assad e Erbil, no Iraque, ter sido um chorrilho de demagogias proferidas por Trump (e não, felizmente, uma resposta militar) ainda me falta muito para poder ficar convencido que tenha regressado a normalidade (ou alguma normalidade possível). Não me parece...

Do lado iraniano, o primeiro passo foi dado para vingar a morte do seu principal general. Aliás, afigura-se claro que a retaliação foi cirurgicamente preparada, evitando propositadamente vítimas, mas, simultaneamente, mostrando (internamente) aos iranianos que a morte de Soleimani não será facilmente esquecida.
Segue-se o crescimento da aversão e do ódio aos Estados Unidos (e respectivos aliados), o desejo que as tropas americanas instaladas em toda a região (e não apenas no Iraque) abandonem as suas bases militares. Há ainda o jogo geopolítico da vontade do Irão se afirmar na região e provocar o isolamento e enfraquecimento dos três principais aliados 'ocidentais': Israel, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Por último, apesar das circunstâncias, esta foi uma janela de oportunidade única para o Irão ter um argumento de peso para rasgar o acordo de limitação nuclear - Plano Conjunto de Acção, assinado em julho de 2015.

Do lado norte-americano a desgraça política e estratégica é quase total. Nem o facto de terem morto Soleimani escapa ao deplorável jogo político de Trump para salvar a pele como presidente, que nem para "consumo interno" consegue afirmar-se.
O argumento de terrorismo, independentemente dos actos militares cometidos às ordens do general iraniano, é perfeitamente inconsistente. O principal inimigo terrorista dos Estados Unidos, como os próprios americanos há muito determinaram, tem sido o jihadismo islamita (salafita e wahabita) presente na Al Qaeda, no Daesh, nos afegãos Talibãs, nos sírios do Jabhat Fateh al-Sham ou nos africanos Boko Haram. Grupos terroristas do extremismo islâmico que o Irão repugna e que o próprio Soleimani combateu. É, portanto, uma justificação de Trump, no mínimo, incongruente.

A verdadeira razão para esta decisão absurda e (extremamente) perigosa, ainda longe do seu fim, foi, claramente, uma razão de ego político e de salvar uma imagem política caduca, perante o risco de perder a reeleição nas próximas eleições (daí o repetido e absurdo discurso crítico em relação à Administração Obama) ou ainda a embrulhada política que levou ao processo do impeachement.
A declaração de hoje (8 janeiro) de Donald Trump não é mais que a consciencialização de uma enorme derrota política e geoestratégica. O assassinato de Qasem Soleimani não teve qualquer legitimidade internacional (ONU/Conselho de Segurança) ou suporte e apoio dos tradicionais aliados americanos, nomeadamente a União Europeia e a NATO. Mais ainda... o que se esperava ser um trunfo político eleitoralista resultou numa estrondosa falha estratégica já que nem internamente (nos Estados Unidos) a decisão de Donalda Trump foi consensual. Aliás, bem longe disso.
Os riscos de uma escalada de violência e uma indesejada eventual repetição da Guerra do Golfo (do início da década de 90), com clara vantagem no terreno para o Irão, a inquestionável entrada em cena, mais tarde ou mais  cedo, da Rússia e da China como claros opositores de peso aos estados Unidos, pesaram, mesmo que tardiamente, na decisão americana de não retaliação.
Donald Trump e os Estados Unidos viram-se, de repente, obrigados a recuar e a redirecionarem a sua estratégia e discurso para o low profile político da temática da produção Nuclear e do Acordo rasgado, tentando, com isso, colocar a comunidade internacional ao seu lado. Mas mesmo neste campo, nem tudo é ouro sobre azul para a Administração Trump. Não é, de todo, previsível que o Irão queira sentar-se à mesa de uma negociação com o principal "inimigo público", com um país e um presidente que não inspira qualquer tipo de confiança e respeito.

A embrulhada está feita... os nós para desatar são vários, os cenários são múltiplos e, sinceramente, a procissão ainda vai no adro. Infelizmente para o Mundo.

publicado por mparaujo às 22:51

07
Jan 20

Promovida, mais uma vez, pela Porto Editora, os portugueses escolheram a palavra do ano de 2019.

Por si só, qualquer contexto de violência é condenável, criticável e deve ser denunciado.
Têm vindo a público inúmeras realidades reprováveis: 900 casos de violência contra profissionais da saúde (normalmente, médicos e enfermeiros); praticamente todas as semanas há registo de casos com professores e auxiliares de educação; são mais que significativos os casos de violência contra idosos, seja em contexto familiar, seja, infelizmente, em contexto institucional; são as situações de roubo/assalto, algumas com finais trágicos; são as violações ou os abusos sexuais, incluindo, abominavelmente, crianças; é, ainda, a violência psicológica ou fruto da exclusão.

Mas os portugueses foram mais específicos... manifestaram uma consciência social e colectiva importante, espelharam o que tem sido um flagelo social que tem vindo a crescer, contrariamente ao que seria de esperar e desejável: a "Violência Doméstica".
Poderia ter sido uma outra opção mais confortável, eventualmente mais mediática ou mediatizada, como, por exemplo as palavras "seca", "sustentabilidade", "lítio", "trotineta" ou "jerricã".
Foi antes, uma escolha que, em si mesma, é o reflexo de uma inaceitável realidade social: em 2019 morreram 38 pessoas vítimas de violência doméstica (30 mulheres, 7 homens e 1 criança).

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publicado por mparaujo às 22:19

04
Jan 20

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(créditos da foto: Estela Silva / LUSA)

Por tradição (mesmo que sem nexo aparente) o dia 1 de abril, considerado o 'dia das mentiras', é a altura do ano onde cabe o engodo com base numa inocente partida, mentira ou piada.

O Bloco de Esquerda conseguiu quase tudo isso antecipando o dia 1 de abril para hoje (4 de janeiro).

A piada, à qual podemos juntar a demagogia populista (há quase tudo de tão populista no discurso político e nas opções política do BE como no perigoso populismo da extrema-direita), está feita no anúncio público de Catarina Martins: o Bloco de Esquerda não vai votar favoravelmente o Orçamento de Estado para 2020.

Tretas...

O Bloco sabe muito bem, desde o dia 6 de outubro de 2019, que aritmética partidária na Assembleia da República é muito favorável ao PS e ao Governo de António Costa, apesar de não terem maioria absoluta.
O Bloco sabe muito bem, desde o dia 6 de outubro de 2019, que a conjuntura vivida na anterior legislatura não é repetível nos próximos 4 anos porque o PS já não precisa do BE e do PCP de forma tão intensa e estreita.
O Bloco sabe muito bem, desde o dia 6 de outubro de 2019, que todo o discurso que tem proferido não passa de uma falácia e um mero bluff. O facto de não votarem favoravelmente não tem impacto rigorosamente nenhum já que é mais que óbvio que o BE se vai abster na votação, abstenção essa que é mais que suficiente para que o OE2020 seja aprovado.
O Bloco sabe muito bem, e tenta tudo para o disfarçar, que os últimos quatro anos da coligação "Geringonça" foram apenas um jogo político (para afastar o PSD da governação), sem qualquer vantagem para o país e para os portugueses, e sem 'frutos partidários' para o BE e PCP (antes pelo contrário como espelham os críticos internos no BE ou o resultado eleitoral do PCP). Como resultado, bloquistas e comunistas sentem-se agora meras marionetas e que foram politicamente usados pelos socialistas.
O Bloco sabem muito bem que, votando contra o OE20202, seria politicamente muito difícil justificar e sobreviver a um novo "2011". Repetir a 'história' seria um suicídio partidário.

Portanto, todas as críticas ao Governo e ao PS, bem como ao OE2020 (que é uma continuidade do que foi a anterior governação... sem tirar nem pôr) não passa de demagogia política para convencer o seu eleitorado e para se desresponsabilizar, perante os portugueses, do actual e futuro Estado da Nação.

Não façam é dos portugueses parvos... porque cada vez há mais memória política colectiva.
E o Bloco de Esquerda, tal como o PCP, são corresponsáveis (nem que seja por omissão) pelo estado do país.

publicado por mparaujo às 23:43

Começa da pior maneira o ano de 2020. Muito mal, mesmo.

E se muitos (infelizmente, a maioria) acham que os recentes acontecimentos no Médio Oriente, nomeadamente em Bagdad (Iraque) e, mais concretamente, a morte do general iraniano Qasem Soleimani (o segundo da hierarquia do regime do Irão), são aí mesmo, num longínquo médio oriente (onde a maioria só em 'sonhos' se imagina de férias no Qatar ou Dubai) é urgente alertar para a importância da tomada de consciência com a realidade e a necessidade de assentarmos bem os pés na terra.
O que se passou com a decisão (para alguns à margem da própria constituição e num manifesto abuso dos poderes presidenciais) tomada por Donald Trump em avançar com uma acção militar para assassinar Soleimani foi um evitável, deplorável e condenável "acto de guerra". Não há qualquer argumento que consiga minimizar o impacto de tal decisão de supremacia política que, só por si, já há muito que deveria ser controlada. Não se evita uma guerra (segundo as palavras do presidente norte-americano) abrindo outra guerra (aparentemente maior).
À margem de qualquer decisão do direito internacional (nomeadamente da ONU), o que Donald Trump fez foi, claramente, legitimar e justificar toda e qualquer escalada de violência e de terrorismo que se avizinha e que o Médio Oriente, nomeadamente o Irão, já prometeu.

Os impactos são óbvios... um aumento substancial do valor do petróleo e as consequências que o mesmo pode ter na economia mundial (pode ser que depois disso os muitos portugueses cépticos ou indiferentes comecem a perceber a realidade); um eventual regresso da "Guerra Fria" face ao posicionamento (mesmo que aparentemente neutral, devido ao terrorismo islâmico) da Rússia e o bloqueio nas relações comerciais China-USA; o aumento exponencial dos actos de terrorismo islâmico provocados pela sede de vingança e pelo reforço do extremismo político-religioso.

O mundo já tinha vivido este sentimento de enorme insegurança a partir de 1990-91, com a Guerra do Golfo, após o Iraque ter invadido (e tentado anexar) o Kuwait. Importa recordar que, na altura, a reacção da comunidade internacional (e não apenas dos estados Unidos) tinha como sustentação a Resolução 678 do Conselho de Segurança da ONU.
A década que se seguiu culminou com o ataque, em pleno território americano, às 'Torres Gémeas" (World Trade Center) e ao Pentágono, no fatídico 11 de setembro de 2001.
A partir daqui o mundo não seria mais o mesmo.
Seguiu-se, curiosamente também sob uma administração Republicana (George W. Bush), a invasão do Iraque que levou ao derrube (em 2003) e morte (por enforcamento, em 2006) de Saddam Hussein, sob a (inventada) suspeita de armas de destruição maciça ou massiva (por empréstimo externo, se usarmos o anglicismo). Um dos maiores flops da história geopolítica e que, até aos dias de hoje, tantas mortes provocou, seja pelos atentados terroristas no continente africano, no próprio Médio Oriente, na Europa, por exemplo, ou através da tragédia humanitária que tem sido a crise dos refugiados, nomeadamente aqueles que morreram nas águas do Mediterrâneo.

Esta perigosa presunção, infelizmente demasiadas vezes sustentada e 'aplaudida' por tantos "aliados", dos Estados Unidos serem os senhores/donos do mundo, os arautos da democracia e dos valores, os guardiões da liberdade e da verdade, só tem resultado num Mundo intolerante, sem respeito pelos outros ou pelos mais elementares direitos humanos, cada vez mais inseguro, menosprezando o direito à liberdade e à coexistência. A isto podemos ainda acrescentar o perigo subjacente ao exercício do poder por parte de um dos presidentes norte-americanos mais incauto e politicamente inadaptado para o cargo: Donald Trump.

Quando os interesses geopolíticos e geoestratégicos, aliados às 'vontades' económicas (ou interesses economicistas) se sobrepõe a todos os valores fundamentais e universais, não há argumento que justifique, valide ou sustente qualquer meio que leve à violência.
No caso concreto, lamenta-se que os Estados Unidos e Donald Trump ataquem o Irão e o Iraque, mas validem todos os atentados aos direitos humanos que emergem na Arábia Saudita e nos Emirados Arabes Unidos. Lamenta-se que os Estados Unidos e Donald Trump não tenham tido a mesma posição de força, por exemplo, no caso do assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi. Lamenta-se que os Estados Unidos e Donald Trump tenham contribuído para o alimentar do conflito entre Israel e a Palestina, por exemplo, com a decisão de mudar a embaixada norte-americana de Telavive para Jerusalém, numa clara atitude provocatória e de demonstração de força política.
No caso concreto, lamenta-se que os Estados Unidos e Donald Trump não tenham qaulqer tipo de preocupação com as consequências da decisão e os impactos futuros, apenas o interesse em salvar a face política (se é que alguma vez a teve) do presidente norte-americano perto de um acto eleitoral e sob a ameaça de um impeachment.

A partir de 2 de janeiro de 2020 o Mundo ficou, ainda, mais perigoso. Bullshit, Mr. Trump.

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publicado por mparaujo às 14:16

15
Dez 19

É mais que inquestionável que a ausência de ética na política e nos políticos tem sido determinante para a deterioração do seu nobre exercício e para o aumento do fosso da relação/ligação entre eleitor e eleito (basta olharmos para os diversos "casos de justiça" ou para a recente e urgente necessidade sentida pelo "poder político" em mitigar e combater a corrupção, por exemplo, por via jurídica). Seria extenso e fastidioso elencar os inúmeros exemplos que retratam esta realidade que, infelizmente, apenas tem merecido especial atenção em processos eleitorais muito por força das elevadas taxas de abstenção (recentemente: europeias, 69,27% ,e legislativas, 51,43‬%).

Mas nem só a questão ética merece relevância na degradação ou desvalorização da política, dos partidos e dos políticos. Ao tradicional "o que hoje é verdade, amanhã é mentira" assistimos a um aumento significativo de discursos, atitudes, decisões carregados de contradições entre princípios ideológicos e programáticos e opções políticas que são tomadas.

Os primeiros exemplos surgem com o Orçamento de Estado 2020.
Primeiro, começa a ser dramático e revoltante a demagogia e a falácia discursiva do BE e do PCP sobre o seu sentido de voto em relação ao OE2020. Não vale a pena quererem transformar o povo, nomeadamente os eleitores, em cidadãos estúpidos. A iliteracia política do pós 25 de Abril, numa conjuntura e realidades sociais muito peculiares para quem saía de uma ditadura de 48 anos (1926 a 1974), já lá vai. À velocidade que corre a informação e a facilidade com que se acede à mesma torna, no mínimo, os portugueses mais despertos para a realidade. Não vale a pena, por isso, derramarem lágrimas de crocodilo ou verterem para a imprensa populismos demagogos: PCP e BE vão permitir a aprovação do OE2020, critiquem o que quiserem criticar em relação aos grandes poderes, aos mais pobres ou à luta das classes. Entre a abstenção ou o voto a favor, venha o diabo e escolha. PCP e BE não têm nem coerência política, andaram 4 anos a enganar o seu eleitorado, a proferir discursos que não condizem com os princípios e os programas que defendem. Este é só mais um exemplo, um claro déjà vu.
Segundo, porque esta questão da incoerência é, obviamente, transversal, a recente entrada liberal na Assembleia da República não foge à regra. A Iniciativa Liberal, mais propriamente o seu único deputado eleito - João Cotrim, já anunciou o seu sentido de voto em relação ao OE2020: contra. Argumento: um simples e vago "Estado a mais". Este fundamentalismo neoliberal atentador da sustentabilidade das funções Sociais do Estado, para além de perigoso, quer do ponto de vista político, quer social, (perigo patente, igualmente, no processo eleitoral interno do PSD com as candidaturas anti-Rio), é deplorável. E, no caso de João Cotrim, uma triste demagogia e incoerência. Basta recordar-nos que durante 4 anos, entre 2013 e 2016, o deputado da Iniciativa Liberal foi presidente do Conselho-Diretivo do Turismo de Portugal, entidade pública totalmente beneficiária da subsidiação do Estado e de Fundos Comunitários. Além disso, esteve envolvido, em 2015, nas negociações que fixaram, em Lisboa, a Web Summit, à custa de um enorme esforço orçamental para o país e para os portugueses devido ao enorme investimento do Estado. Aliás... demasiado Estado, Estado a mais. De coerência argumentativa estamos conversados quanto a liberalismos elitistas e urbanos.

Mas a questão não se compagina apenas às posições sobre o OE2020.
Espera-se que a Assembleia da República seja, por si só, a "casa" da democracia e o expoente máximo da nobreza do exercício político. Aqui cabe, por diversos contextos, o verdadeiro sentido da liberdade de expressão e opinião.
Neste âmbito, não me parece que a segunda Figura de Estado da República Portuguesa tenha prestado um bom serviço à promoção e valorização da política e do papel do Deputado, na polémica em que se envolveu com André Ventura (deputado do partido Chega).
Durante o debate de quinta-feira, na Assembleia da República, sobre a problemática do amianto nas Escolas (tema levantado pelo PSD), Ferro Rodrigues interrompeu e advertiu André Ventura por este ter usar (na sua intervenção fê-lo por quatro vezes) desmaiadas vezes as expressões "vergonha" e "vergonhoso": «utiliza com demasiada facilidade as palavras vergonha e vergonhoso, o que ofende muitas vezes este parlamento e ofende-o a si também». Ao caso, o Deputado do Chega afirmava que «era vergonhoso haver dinheiro para tudo, incluindo para “subvenções vitalícias, mas não haver dinheiro para a remoção do amianto. Uma vergonha!».
Não nutro qualquer tipo de simpatia por André Ventura, muito menos pelo Chega, antes pelo contrário; tenho até alguma repulsa. Mas custa-me perceber o porquê da atitude recriminatória de Ferro Rodrigues e não consigo compreender como é que "vergonha" e "vergonhoso" é uma ofensa ética e moral à Assembleia e aos Deputados. E acima de tudo a situação mediatizada só permitiu a André Ventura e ao Chega ganharem protagonismo e palco público.
Mas há mais... acima de tudo não percebo a incoerência do Presidente da Assembleia da República (já para não falar do lamentável aplauso socialista, um partido que se diz tão defensor das liberdades de abril e, concretamente, da liberdade de expressão).
Se formos pesquisar os documentos e registos das intervenções parlamentares (algo que o Observador se deu ao trabalho) os números são curiosos. Na última década (duas últimas legislaturas, 2009 a 2019) "vergonha" e "vergonhoso" foram usadas foi usada 2198 vezes: 259 pelo PS, 371 pelo PSD, 594 pelo PCP, 359 pelo Bloco, 264 pelo CDS-PP, 120 pelo PEV e 2 pelo PAN. Na última legislatura, em que Ferro Rodrigues também foi o Presidente do Parlamento, a palavra “vergonha” foi usada 710 vezes. Ou seja, demasiadas vezes, sem uma única reprimenda.
Como diria um determinado deputado da Assembleia da República, recentemente eleito... "uma Verg....!".

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(cartaz do partido Chega colocado, após polémica, nas imediações da Assembleia da República)

publicado por mparaujo às 22:12

14
Dez 19

Muitos dos eurocépticos e da esquerda europeia colaram sempre a Alemanha ao trono europeu, seja do ponto de vista político, seja do ponto de vista económico.
A Alemanha é a Europa... a União Europeia (comissão, parlamento, eurogrupo, bce) é a Alemanha.
Até esta semana...

Quem é que passou então a mandar na Europa? Tal e qual... PORTUGAL.
Mesmo que seja na Liga Europa de Futebol. Também conta... estamos à frente da Inglaterra (3), Espanha (3), Alemanha (3), Itália (2) e a França (0) que ficou vazia em termos de representatividade clubística.

Quatro equipas nacionais seguem para os 16 avos: FC Porto, SC Portugal, SC Braga e SL Benfica.
Oito treinadores portugueses ao comando de outras tantas equipas: Sérgio Conceição, Silas, Ricardo Sá Pinto, Bruno Lage e, ainda, Paulo Fonseca (Roma), Luís Castro (Shakhtar Donetsk), Nuno espírito Santo (Wolverhampton) e Pedro Martins (Olympiacos).

Tomara que Portugal conseguisse em tantas outras, e mais importantes, matérias repetir este marco. Teríamos a Europa aos pés.

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(créditos da foto: Eric Gaillard - Reuter)

publicado por mparaujo às 17:37

08
Dez 19

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Populismo: substantivo masculino.
1. [Artes] (...)
2. [Política] Doutrina ou prática política que procura obter o apoio popular através de medidas que, aparentemente, são favoráveis às massas.
Se substituirmos "medidas" por "discursos" obtemos o perfeito retrato do populismo e falaciosa demagogia do Bloco de Esquerda e do PCP em relação ao Orçamento de Estado 2020 (OE2020). E, desta forma, vira-se o feitiço contra o feiticeiro no que respeita à coerência entre o discurso, a ideologia e a "sede do poder".

BE e PCP voltam a repetir, nesta "pré-campanha orçamental" para 2020, a triste imagem política deixada em cada debate e aprovação dos respectivos Orçamentos de Estado, entre 2015 e 2019, sob a capa protectora da "geringonça". Com uma clara agravante que já trouxe algum "amargo de boca interno" a Jerónimo de Sousa após as eleições legislativas de outubro passado e que começa a criar algum constrangimento partidário no seio do BE, com a anunciada movimentação do grupo crítico Via Esquerda que junta 60 críticos da actual orientação política do partido. É que a actual conjuntura político-partidária, patente na Assembleia da República, alivia a pressão do PS e do Governo para a discussão e aprovação do OE2020, bastando, para tal, contar com o apoio do PAN, Livre e dos três deputados sociais-democratas eleitos pelo círculo da Madeira que já anunciaram, pela voz de Miguel Albuquerque, o seu voto favorável se cumpridas as reivindicações madeirenses e os apoios à Região Autónoma da Madeira, como, por exemplo, a construção do novo Hospital, a ligação ferry semanal para o Continente e a comparticipação das viagens aéreas.
Pelo contrário, parece ficar de fora do OE2020 a descidda do IVA na eletricidade ou o englobamento dos rendimentos prediais no IRS, como tanto deseja o BE.

Não é por isso de estranhar, por exemplo, o "desabafo" do comunista João Oliveira que afirmou que a «negociação do Orçamento não está a ser feita com a profundidade dos anos anteriores», tendo a actual relação com o Governo sido cingida aos mínimos: o “recenseamento” das propostas do PCP.

Mostram-se como mero jogo político e populismo bacoco as afirmações quer de Catarina Martins, quer de Jerónimo de Sousa, em relação ao que se espera da aprovação do OE2020. Por mais que a coordenadora do BE diga que o «sentido de voto do BE sobre o OE2020 está completamente em aberto», por mais que o líder comunista queira denunciar «retrocessos” do PS no Orçamento e ofensiva reaccionária», por mais que diga que «o Governo escolhe meta do défice em vez de resolver os problemas sociais», por mais que queira convencer a opinião pública e o seu eleitorado que «o PCP só dará o aval ao OE2020 se respeitadas algumas das 70 condições propostas»... a verdade é que ninguém (nem a direita) acredita no chumbo do Orçamento do Estado para 2020.

PCP e, nomeadamente o BE (ainda está bem presente na memória bloquista a 'azia partidária' gerada com a opção política de 2011), não irão entregar de mão beijada o poder ao PSD; não irão ter a responsabilidade partidária de gerar uma crise política perante um governo recém-eleito; nem o PS correria o risco (preferindo, numa ou noutra matéria, vender a alma ao diabo) de procurar já, passados apenas 2 meses das últimas eleições, uma maioria absoluta num novo processo eleitoral.

São, portanto, ridículas as posições públicas de BE e do PCP nesta matéria de discussão orçamental. Nem para consumo interno, do seu eleitorado, serve.

publicado por mparaujo às 17:23

O que se passa no Livre daria claramente para um estudo de caso no âmbito de qualquer dissertação, tese de mestrado/doutoramento ou processo de investigação na área das Ciências Políticas.

Em plena crise interna, estrutural e partidária, principalmente nos momentos mais particulares e onde a coesão só faria todo o sentido, um dos fundadores e principal rosto do Livre, Rui Tavares (que até admiro/respeito) e a deputada Joacine Katar Moreira, tendem a concordar discordando.

Enquanto Rui Tavares, à entrada para a reunião da Assembleia, admitia «dificuldades e erros», adiantando que «todos os partidos têm conflitos, o que os distingue é a forma como os resolvem», já Joacine Moreira afirmava que «não existe conflito absolutamente nenhum. Há uma relação de diálogo e entendimento e é sobre isso que iremos falar». Ou seja, para a deputada única do Livre, reuniram-se num domingo de manhã, em pleno outono cinzento, frio e molhado, como quem foi à missa dominical.

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(© André Kosters /Lusa)

publicado por mparaujo às 14:17

30
Nov 19

Enquanto uns se deslumbrem com as aparências ou com fugazes efeitos cénicos, Aveiro viveu, hoje (no encerramento de mais um mês), o verdadeiro espírito da social democracia. A verdadeira, a real, a paradigmática... sem populismos, sem demagogias.
A social democracia que importa para o PSD, para os portugueses e para o país.

O auditório do Parque de Feiras e Exposições de Aveiro encheu, de forma simples mas muito real, para ouvir Rui Rio afirmar-se como um verdadeiro líder: frontalidade, transparência, saber, experiência e, principalmente, um inequívoco sentido de Estado bem cimentado no que são os verdadeiros pilares da social-democracia - igualdade de oportunidades, solidariedade e justiça social.

Rui Rio foi mais uma vez, para além de igual a si mesmo, muito realista, directo e concreto: «Candidato-me a presidente do PSD por Portugal». O PSD é o contexto instrumental, o meio para atingir o sublime sentido da política: servir o país e os portugueses, com o olhar e pensar ideológico e político da social-democracia (bem ao centro, sem desvios dos princípios, dos valores e da génese que nortearam o partido). Com o objectivo de alcançar 'Melhores empregos, melhores salários, melhores serviços públicos, melhor qualidade de vida para os portugueses'.

Só com Rui Rio será possível um PSD em condições de servir melhor Portugal, de ser alternativa governativa, de reconquistar o centro e honrar a história do partido e dos seus fundadores.
Um PSD dos sociais-democratas, das bases do partido, (re)implantado e de novo enraizado no poder local, aberto à e com a sociedade, focado no país e nos portugueses.

Com RUI RIO: PORTUGAL AO CENTRO.

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publicado por mparaujo às 22:59

26
Nov 19

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Enquanto muitos se "deslumbraram" com deambulismos sobre a gaguez da deputada Joacine Katar Moreira e a saia do seu assessor parlamentar, foi-se secundarizando a questão principal: a mensagem (o seu conteúdo e não a forma) político-partidária.
A isto pode-se acrescentar o amadorismo político e o ego e deslumbramento parlamentares da deputada eleita que prejudica, notoriamente, o Livre. Mas isso é, obviamente, um problema do partido que, diga-se, não está isento em toda esta problemática da relação com Joacine. Um problema que deveria ter sido resolvido "à porta fechada", internamente, e não na praça pública, com danos colaterais que provocam danos na imagem do partido.
Mas, repito, esse é um problema do Livre, da sua direcção, de Joacine Moreira e de Rui Tavares. E importa referir que a abstenção em relação à condenação da Assembleia da República (proposta pelo PCP) da intervenção de Israel na Palestina não é, de todo, mais grave do que o Livre ter perdido (por ter ultrapassado os prazos definidos) a oportunidade de agendamento de um Projecto sobre a Lei da Nacionalidade.

Já o reflexo de toda esta embrulhada na democracia portuguesa é muito mais abrangente e diz respeito a todos, nomeadamente à política: leva-nos a uma reflexão (ou à necessidade de reflectirmos) sobre a actual Lei Eleitoral.
Há uma enorme incoerência no processo eleitoral e num perigoso esvaziamento do sentido e princípio colectivo da política a favor do egocentrismo político e pseudo-representativo.
O sistema eleitoral português ( seja no legislativo/nacional, como no autárquico/local) assenta na representatividade democrática das listas uninominais onde, ao contrário do que é senso comum, se vota nas pessoas e não nos partidos. Isto faz com que o eleito seja o legitimo detentor e tutelar do voto. Não há nada de mais hipócrita e perverso neste processo (para isso mais vale avançar para os círculos uninominais): os eleitos/candidatos concorrem sob o símbolo e um programa político de um determinado partido ou movimento... não concorrem de forma individualizada (isso acontece nas presidenciais). No entanto, em casos como o de Guterres e o "Queijo Limiano", mais recentemente com Paulo Trigo Pereira e o PS, e agora com Joacine Moreira e o Livre, os eleitos acabam donos dos seus lugares e só os abandonarão por vontade própria (por mais "expulsões" internas que os partidos promovam).
E é isto que traz o maior desconforto político ao Livre (agravado pela condição de deputada única), sem capacidade de reacção a afirmações como "Isto é um golpe e a minha resposta é esta: não sou descartável e exijo respeito", "Fui eu que ganhei as eleições, sozinha, e a direcção quer ensinar-me a ser política (como se qualquer um de nós não estivesse em permanente aprendizagem, principalmente quando se começa um novo desafio)". Com responsabilidades acrescidas para o próprio partido e, concretamente, para Rui Tavares, face ao processo interno, mais anárquico que democrático ou participativo, das eleições primárias para a elaboração de listas de candidatos. Ao contrário do que o Livre tentou fazer passar na sociedade, este é um processo mais perverso do que democrático e livre, que mais não seja porque liberta qualquer eleito nas primárias da "relação programática e ideológica" face ao partido.

publicado por mparaujo às 22:51

25
Nov 19

Dia-para-a-Eliminação-da-Vilência-Contra-a-Mulh

A ONU instituiu, em 1990, o dia 25 de novembro como o "Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres", em memória das irmãs Maribal (Minerva, Patria e María Teresa), activistas da República Dominicana, assassinadas em 1960 (a 25 de novembro).

É indiscutível que as preocupações sociais, do garante e defesa das liberdades, dos direitos e garantias, devem ser permanentes e diárias. Mas não é menos verdade que o foco centrado na celebração de datas que invocam determinadas realidades não devem ser descoradas, seja para que se evidenciem de todo o banalismo e ridículo em que se tornaram as ditas "efemérides" (dias de...); seja, por outro lado, para que a sociedade não deixe cair no esquecimento importantes contextos e problemáticas.

Hoje é o caso... Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher.
Importa, por isso, recordar: este ano, já houve 36 vítimas mortais em contexto de violência doméstica (28 mulheres, 1 criança e 7 homens). As mulheres continuam a ser as principais vitimas deste flagelo social: a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), nos últimos 5 anos, apoiou mais de 43.000 pessoas em contexto de violência doméstica, sendo a maioria (86%) mulheres; nos últimos 15 anos foram assassinadas mais de 500 mulheres, numa média de 3 mulheres assinadas a cada mês.
É inquestionável que são as mulheres as principais vítimas da violência doméstica, mesmo que a realidade seja transversal, incluindo crianças e homens (e muito mais transversal no que respeita às idades).

É, por todo este cenário, um claro problema social, do domínio público, que faz inverter a deplorável cultura, demasiado enraizada na sociedade (não só portuguesa... veja-se o caso de França), que "assuntos domésticos" ficam entre portas. Não... nem todos. Os que colocam em causa a dignidade da pessoa, os que ferem os seus direitos, liberdades e garantias, os que colocam em causa a sua integridade e a sua vida, são, por obrigação cívica, públicos e merecem ser denunciados.
Infelizmente, de todos os casos de violência doméstica que chegam às autoridades e às entidades, que são denunciados, 91% são-no por intermédio da própria vítima ou de alguém muito próximo (filhos, por exemplo). Apenas 9% são dos vizinhos, da comunidade ou outros familiares.

Este é um problema colectivo, social, de dever cívico, porque não pode ser aceitável esta realidade em pleno século XXI, não é aceitável que apenas sejam registadas 41,2% das queixas/denúncias face ao total de situações e crimes assinalados (dados APAV).

publicado por mparaujo às 22:01

19
Nov 19

É um facto inquestionável que a cultura tem "ideologias" (assim... no plural). Apesar de niguém poder (ou dever) ser dono e proprietário da Cultura, a verdade é que a dinâmica cultural, nomeadamente a individual, é património da ideologia e concepção social do seu criador (músico, escritor, artistas plástico, actor, encenador, programador, whatever). Não há isenção concepcional na Cultura. Ela é o espelho e reflexo da individualidade.

Mas neste contexto, goste-se ou não, estejamos mais próximos ou liminarmente no oposto, uma REFERÊNCIA da cultura, património e identidade de uma comunidade é, e deverá ser sempre, uma REFERÊNCIA.

E quando um referência parte ficará sempre um vazio irreparável e insubstituível. Goste-se ou não.
Apesar do "lado oposto", lamento... ficámos cultural e patrimonialmente mais pobres na música: R.I.P. JOSÉ MÁRIO BRANCO.

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(crédito da foto: Isabel Pinto, in Comunidade Cultura e Arte)

publicado por mparaujo às 12:04

17
Nov 19

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(créditos da foto: André Vidigal / Global Imagens, in JN online)

O facto: Fatima Habib, uma atleta da equipa sub-16 feminina do Clube de Basquetebol de Tavira, de origem paquistanesa e de religião muçulmana, foi impedida de disputar um jogo contra o Basquetebol Clube de Albufeira, porque se recusou a despir uma camisola interior de manga comprida, já que a sua religião a impede de mostrar publicamente os braços. Fatima Habib apresentou-se em campo com o equipamento do clube, collants, camisola preta de manga comprida e um lenço na cabeça.
A equipa de arbitragem limitou-se (e apenas isso) a fazer cumprir os regulamentos em vigor, tendo o clube já sido alertado, numa situação anterior, para a questão.
A equipa de arbitragem permitia que a jovem atleta jogasse com collants e o lenço, mas não a camisola preta de manga comprida. Apesar de entender (sempre são 29 anos de experiência treinador de basquetebol) que o argumento usado pelos árbitros para a não autorização do uso da camisola não terá sido o mais lógico: da indumentária apresentada pela jogadora, o que podia criar problemas de integridade física à atleta e às restantes jogadoras seria o lenço e não a camisola de manga comprida. Mas não é isso que importa destacar...

O que importa referir foi o chorrilho de comentários e observações que se seguiram: a facção de acusação de xenofobia, racismo, intolerância... a facção dos que criticaram a atleta e a família pelo uso dos costumes muçulmanos (estando em Portugal).

As regras da FIBA (Federação Internacional de Basquetebol), aplicadas pela Federação Portuguesa de Basquetebol (FPB) nas diversas competições, são gerais, aplicáveis a todos de igual forma, sem qualquer tipo de discriminação, nomeadamente no que diz respeito à religião e credos. Esteve muito bem a FPB que, neste fim de semana, proporcionou à atleta um equipamento homologado pela FIBA para casos semelhantes em todo o mundo e que permitiu a Fatima Habib poder jogar sem qualquer tipo de constrangimento.
Cai, aqui, o argumento extremista (num dos extremos) que acusava a equipa de arbitragem, a Associação de Basquetebol do Algarve e a FPB de xenofobia e intolerância.

O outro argumento extremista (o do populismo, da pequenês de espírito, do ridículo) é mais preocupante. Seria uma lista bastante grande de "copy paste" de um conjunto de críticas que nem lembrariam ao diabo (só mesmo a alguns dos portugueses pequeninos): «se está em Portugal tem que cumprir as 'normas'(?) sociais portuguesas», «as filhas hão-de vestir biquini», «não gosta ou não quer, que vá para a terra dela», «Portugal é um país católico e não é para esta gentinha» (esta é das melhores)... isto para referir apenas as mais "soft".

Segundo a jovem, esta realidade não é nova; já se tinha deparado com este tipo de circunstâncias também na escola, minimizadas pela firme posição de uma professora que a defendeu publicamente.

Este é o grande problema da inclusão, do acolhimento, da tolerância. Este é, perigosamente, o problema de Portugal: somos, cobarde e hipocritamente, anti-racistas, anti-xenófobos, tolerantes e acolhedores.
Acolher, integrar, receber é um processo de respeito mútuo. Um processo de integração respeitando a multiculturalidade, a diferença, as opções de vida do outro. E não querer impor uma vontade, maioritária que seja, o nosso modo de vida, como se fossemos os "donos da verdade e da existência".
Só defendendo integralmente o princípio e o conceito da tolerância, do respeito pela diferença, conseguiremos ter uma sociedade mais justa e mais igualitária.
Enquanto assim não for, aqui, como por esse mundo fora, vão continuar a existir os radicalismos, os extremismos, os refugiados, os conflitos políticos, sociais e religiosos, os atentados terroristas.

A jovem atleta Fatima Habib limitou-se apenas a ser quem era, na diversidade (por sinal perfeitamente aceite) da sua equipa e do seu grupo.
Felizmente, jovens de 14 e 15 anos perceberam muito melhor o que é viver em sociedade do que muitos adultos armados em "arautos da moralidade e dos bons costumes".

publicado por mparaujo às 20:49

09
Nov 19

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(créditos da foto: ricardo stuckert, in viomundo)

Já há algum tempo que a probabilidade ganhava contornos reais e concretizáveis... após 20 meses de cativeiro, Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, foi, ontem, libertado após o Supremo Tribunal Federal brasileiro (STF) ter decidido anular a decisão de prisão, em abril de 2018, do Tribunal de segunda instância.

Neste processo, há 3 ou 4 pressupostos que importa referir.
1. Não tenho qualquer afinidade ideológica com o Partido dos Trabalhadores (Brasil), fundado, em 1980, precisamente por Luiz Inácio da Silva - "Lula da Silva".
2. Por falta de informação completa e aprofundamento dos factos, não tenho uma opinião formada e consolidada sobre o processo "Lava Jato" que levou à prisão do ex-Chefe de Estado brasileiro. Tal como em relação ao processo "Vaza Jato".
Entendo que a Justiça (o poder judicial), seja em que parte do mundo for, deve ter uma forte e total independência em relação ao poder político e à componente ideológica. Nem um processo, nem outro, deveria estar politizado e partidarizado. Sempre defendi o direito à "presunção de inocência" até que um processo transite em julgado e seja apurada toda a verdade.
3. Será pura demagogia e mero populismo, e uma triste presunção altaneira e arrogante, achar-se que a corrupção tem o seu expoente máximo nas regiões sul-americanas ou africanas. Basta olharmos para o nosso umbigo, para a nossa realidade, para os "casos de justiça" nacionais, para percebermos e reconhecermos que Portugal não é exemplo "dos bons costumes da ética política e do serviço público". Seja na política, na governação (nacional, regional ou local), nas empresas, na economia, nas famílias e em cada um dos cidadãos. Basta, por exemplo, ver como, cada um de nós, de forma individual e particular, encaramos o cumprimento das obrigações fiscais (mesmo no simples facto de solicitarmos a mera factura sobre o consumo).
4. Mas infelizmente, perante toda a complexidade conhecida destes dois processos (aos quais se juntarão, inevitavelmente, os que atropelam os mais elementares direitos universais - como o caso "Marielle Franco"), dos seus impactos políticos, esta realidade brasileira mistura, no mesmo saco, a justiça com o poder político, a política e a ideologia. O que, infelizmente, dá sempre muito mau resultado; veja-se o caso actual da Catalunha e a reação à condenação, pelo Tribunal Supremo de Espanha, à condição de 'presos políticos' dos independentistas catalães (Oriol Junqueras, Jordi Turull, Raül Romeva, Dolors Bassa, Joaquim Forn, Josep Rull, Meritxell Borrás, Carles Mundó, Santiago Vila, Carme Forcadell, Jordi Sànchez e Jordi Cuixart).

Há uma questão incontornável na libertação de Lula da Silva (que não significa a sua absolvição): a devolução do sentido pleno da sua liberdade (mesmo que o processo continue o seu percurso judicial) tem impacto na democracia e justiça brasileiras. Algo que deveria ser mais abrangente do que a mera retórica ideológica da esquerda portuguesa (BE e PCP).

Independentemente de se gostar ou não de Lula da Silva, independentemente da maior ou menor proximidade ideológica com o PT, a libertação do ex-Presidente do Brasil é uma manifesta excelente notícia face ao preocupante rumo democrático do país. Mesmo que ainda esteja em suspenso o desfecho final do processo, Lula da Silva em liberdade será sempre um factor de estabilidade da democracia (por óbvia oposição a Bolsonaro), para além da sempre desejada pluralidade para o equilíbrio da qualquer sociedade.

publicado por mparaujo às 16:12

03
Nov 19

Há um elefante no meio da sala que a muitos teimam não ver.
O mundo está, hoje, numa perigosa escalada de instabilidade e conflitualidade social ou de contestações governativas.
Veja-se o que se passa na América do Sul (Chile, Bolívia, Equador, Guatemala), no Médio Oriente (Líbano, Iraque, Iémen) ou em África (Etiópia, Argélia, Sudão, Burkina Faso, Somália, Ruanda, Zimbabwe, Líbia), na Ásia (Hong Kong).
E, claro, o conflito internacional mais "mediático": Síria. Outra vez a Síria. Ou... ainda a Síria.

Importa acrescentar que, excluindo as regiões da América do Sul e Hong Kong, muitos destes países referenciados são geradores de fluxos significativos de migrantes e refugiados. E este é outro "elefante no meio da sala"... principalmente para a União Europeia.

Leva décadas a forma inconsequente, socialmente condenável, como a Europa tem tratado (ou não tem sabido tratar) a questão dos cidadãos migrantes/refugiados, nomeadamente após o boom do fluxo migratório dos últimos anos, com o Mediterrâneo a transformar-se, semana após semana, num assustador cemitério. Só este ano, segundo os dados da Organização Internacional das Migrações (outubro 2019), atravessaram o mar Mediterrâneo mais de 76.500 refugiados e cerca de 1.1000 perderam lá a vida (1 em cada 28 não chega à "liberdade").

Não é coerente, não é honesto colocarmos todo o ónus da responsabilidade no terrorismo, no estado islâmico, no conflito religioso, na corrupção que assola esses países, no tráfico humano. A fome, a miséria, os conflitos armados/a guerra, a obsessão pelo poder, a exploração de pessoas e recursos, os interesses geopolíticos e geoestratégicos, têm rostos e bandeiras. A Europa é um desses rostos, pela história, pela inércia, pela incapacidade de acção e de influência, pela subserviência a valores mais altos (que não mais dignos).

Esta inércia, esta incapacidade de acção e de se criarem políticas sociais comuns no seio da União Europeia, é preocupante.

Interessa-me muito pouco, muito poucachinho mesmo (para ser mais soft que o treinador Sérgio Conceição) a guerrinha de egos entre Nuno Melo e Marisa Matias, mesmo sabendo que a eurodeputado bloquista não foi, politicamente, séria na discussão (escondendo, porque lhe deu jeito) metade da história/dos factos. O velho estigma e mau hábito que só a "esquerda liberta e é socialmente responsável". Tretas.

O que importa é que, em cima da mesa, no parlamento europeu estiveram 4 propostas para votação, todas elas directamente relacionadas com a problemática do resgate e apoio aos refugiados que atravessam o Mediterrâneo (as 4 propostas de resolução podem ser consultadas AQUI). Excluindo duas das propostas - do grupo de extrema-direita "Identidade e Democracia" e do grupo eurocéptico e conservador ERC (Conservadores e Reformistas Europeus) - que eram explicitas na forma como condenavam e como recusavam qualquer apoio ou política para os Refugiados, as outras duas apresentavam, com diferenças pontuais, o mesmo objectivo: o apoio a processos de busca e salvamento de migrantes/refugiados no Mediterrâneo. Uma apresentada pelo deputado europeu espanhol, o socialista Juan Fernando López Aguilar, da LIBE (comissão das Liberdades Cívicas, da Justiça e dos Assuntos Internos) e outra pelo PPE (Partido popular Europeu). E aqui reside a vergonha e a tristeza de uma União Europeia que apenas se limita à distribuição de subsidiozinhos (apesar de relevantes para o desenvolvimento das regiões... não é isso que está em causa, obviamente).

A tristeza, o que é deplorável e condenável, é que o Parlamento Europeu tenha estado mais preocupado com diferenças de pormenor entre as duas propostas do que propriamente com a vida daqueles que fogem à morte nas suas terras para, infelizmente, a encontrarem no mar à procura da liberdade e da sobrevivência. O não acordo e a falta de conciliação das duas propostas levou ao chumbo das mesmas e, consequentemente, de todo o processo, acabando por entregar a vitória "social e política" aos extremismos, radicalismos e populismos.
Enquanto isso, vão continuar as guerras, os conflitos sociais, a fome, a miséria e a morte, sob o assobiar para o lado por parte de quem tem responsabilidade e tem a capacidade de intervir, positivamente, nesta problemática e realidade. Enquanto isso, vamos sofrendo a ameaça, real, da Turquia em abrir as suas portas, esquecendo-nos do triste acordo que a União Europeia (Angela Merkel) firmou com o Sr. Erdogan em março de 2016.
Por outro lado, infelizmente, os vários e muitos "Nunos de Melo" e as "Marisas Matias" do Parlamento Europeu vão continuar a medir propostas como os putos mediam pilinhas na escola primária: a minha proposta é melhor que a tua!

As vidas??!! ... podem esperar. Vergonha!

euroscolah100611-1-.jpeg

publicado por mparaujo às 21:54

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