Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

20
Jan 19

ou, de outra forma: "nem uma coisa, nem outra... antes pelo contrário".

Pedro Santana Lopes (ex-líder do PSD, ex-primeiro ministro 'nomeado' pelo PSD, ex-deputado do PSD, ex-candidato derrotado nas últimas directas do PSD e ex-militante do PSD) tem vindo a desafiar partidos à direita do PS para uma "coligação que afaste a actual frente esquerda do poder".
O mesmo Santana Lopes que virou as costas ao PSD, amuado pela derrota eleitoral interna, quer agora "(re)casar-se" com o partido que renegou. Coerências, portanto.

Mas o desafio também quer dizer: "arranjem-me qualquer coisinha para brincar, porque dão-me 4% mas só consigo juntar pouco mais de 100 pessoas num jantar".

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(créditos da foto: José Carlos Carvalho, in círculo da novação)

publicado por mparaujo às 17:54

Segunda a TVI: «A Câmara Municipal de Loures, liderada por Bernardino Soares, do PCP, contratou, por ajuste directo, o genro de Jerónimo de Sousa por valores acima do vencimento do próprio presidente do município". Segundo contas e segundo os documentos, foram, alegadamente, pagos 11.000 euros para mudar oito lâmpadas e dois casquilhos.

Nada mas malicioso, infame, ignóbil, falso...
a bem da verdade (nomeadamente, da "verdade jornalística") não são «11.000 euros por mudar oito lâmpadas e dois casquilhos». Importa acrescentar o subsídio de risco à prova de choques eléctricos e o risco da subida ao escadote. Tudo somadinho, vai-se a ver, e ainda foi barato.
O resto são más línguas e "anticomunismo".

"Assim se vê a força do PC!"

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publicado por mparaujo às 13:25

19
Jan 19

ou, se preferirmos: "nem uma coisa, nem outra... antes pelo contrário".

Desbloqueadores de frases públicas.

  • Jerónimo de Sousa diz que sector público "faz melhor e mais barato" na saúde.
    Claro que faz, camarada presidente. Principalmente, "mais barato". Basta lembrar a precariedade e o valor salarial existente no SNS.
  • Assunção Cristas: “O primeiro-ministro quer pintar o país de cor de rosa”.
    Oh senhora doutora! Claro que quer, é primeiro-ministro socialista (cor rosa). Se fosse o Rui Rio era cor de laranja.
  • Marisa Matias: “O Bloco não é um partido populista”.
    Upsss... nem populista, nem radicalista, nem extremista. Aliás... nada, portanto.
  • Hugo Soares acusa Rio de "ter mais força" a atacar militantes do PSD do que António Costa.
    Bom, bom, era que tivesse ainda "mais força", nomeadamente para atirar "borda fora" quem não faz qualquer falta ao PSD.
  • Marta Temido: não é possível “corrigir 20 anos numa legislatura” nas carreiras de enfermagem.
    Tem toda a razão, Sra. Ministra. Mas era importante que, em poucos meses,  situação não batesse no fundo.

  • PCP acusa TVI de "anti-comunismo" após reportagem sobre genro de Jerónimo de Sousa.
    Claro... para "pró-comunismo" já há o jornal "Avante".

  • Hugo Soares: "Rui Rio não tem de fazer de mim nenhum Cristo".
    Nem precisa, "huguinho". Sempre que abres a boca é "auto-flagelação".

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publicado por mparaujo às 18:53

Há cerca de dois ou três anos tive o primeiro contacto com a "causa", infelizmente mais uma, na defesa dos Direitos Humanos, concretamente dos Direitos das Crianças.

A defesa dos direitos fundamentais e da dignidade humana de qualquer cidadão, por razões acrescidas quando se trata de crianças, não devem conhecer fronteiras, nem distâncias e, muito menos, indiferença.

No Gana, bem no coração dessa África esquecida e explorada, os pais vendem os seus filhos por menos de 30 euros a traficantes que os revendem aos pescadores do Lago Volta. Estas crianças são obrigadas a trabalhar 14 horas por dia, 7 dias por semana, a troco de um único prato de mandioca. Há, naquele país da África ocidental, 240 mil crianças vítimas de trabalhos forçados e 6,3 milhões de crianças nunca entraram numa sala de aula.

Em 2007, a jornalista Alexandra Borges (TVI) foi ao Gana para produzir uma reportagem sobre violação dos direitos humanos (ver vídeos abaixo). A reportagem e a experiência pessoalmente vivida transformar-se-iam na sua missão pessoal: resgatar o maior número que pudesse de crianças (começaram por ser três) daquele verdadeiro flagelo humano e proporcionar-lhes uma esperança e um futuro, a começar pela sua educação e formação.
Foi assim que nasceu o centro de resgate, acolhimento e formação, em Kumassi (Gana), numa parceria entre a associação que fundou (Filhos do Coração) e a congénere americana Touch a Life Kids, conta já com cerca de uma centena de crianças que voltaram a poder sorrir e viver.

Como a Alexandra Borges afirma, não é só o tráfico de crianças é também a "indiferença que mata as crianças no Gana". Há, no entanto, uma oportunidade para podermos ajudar a resgatar sorrisos e vidas.
A Associação FILHOS DO CORAÇÃO vai lançar uma campanha solidária entre os dias 26 de janeiro e 4 de fevereiro: Vamos Resgatar Sorrisos!

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As crianças do Gana contam com a ajuda de todos: pode ajudar a RESGATAR SORRISOS e/ou apoiar a campanha como voluntário.

As reportagens da jornalista Alexandra Borges.

publicado por mparaujo às 18:18

13
Jan 19

Deplorável! Condenável! Péssimo! Politicamente baixo! Funesto! Cínico! Sem sentido de ética e moral! Abominável! Repreensível! Reprovável! Censurável!
Não faltará, na língua de Camões e no dicionário português, adjectivos que qualifiquem a tomada de posição de confronto interno do ex-líder e ex-deputado da bancada parlamentar do PSD, Luís Montenegro.

São vários os contornos político-partidários que merecem uma análise e reflexão sobre a opção que levou/leva Luís Montenegro a desencadear uma clara e evidente "guerra civil interna" e uma execrável tentativa de "golpe de estado" para derrubar a liderança de Rui Rio.

O histórico
Importa relembrar, o que não será de somenos importância, que Luís Montenegro não teve a coragem política de se posicionar como candidato às eleições internas de 13 de fevereiro de 2018, virando as costas ao que parecem ser, agora, fortes convicções partidárias.
Importa relembrar igualmente que o ex-deputado do PSD na Assembleia da república abandonou as suas funções, por vontade e iniciativa própria, no dia 5 de abril de 2018.
Rui Rio está apenas a cerca de um ano à frente dos destinos e da liderança social-democrata, após o falhanço da formação do governo em 2015, de um  enorme desaire autárquico em 2017 e de uma conjuntura política que, mesmo falaciosa e ilusória, é favorável à esquerda nacional.

O que leva Luís Montenegro a esta inqualificável e ignóbil tentativa de "tomada de poder"? O que o move? Porquê e para quê?
As razões podem ser múltiplas, mas são simples e óbvias, não deixando de ser, igualmente, injustificadas e dispensáveis.
1. O timing, apesar das várias opiniões que o definem como despropositado (e é, em grande medida) não tem a ver propriamente com o actual momento político do PSD, com a eventual marcação imediata de novas eleições internas. Nem Luís Montenegro esperaria ver concretizado, JÁ, o desafio e o repto lançados de directas imediatas. Isso foi pura demagogia e claro bluff político.
Luís Montenegro marcou uma clara, apesar de condenável, posição de ataque à liderança do PSD mas a concretizar após as eleições europeias e/ou legislativas. Foi uma tomada de posição que desafia Rui Rio no pós próximo actos eleitorais, como que a dizer, face a resultados menos positivos: "eu bem tinha avisado", "era isto que já se esperava"... "agora é a minha vez".
Só que importa recordar a Luís Montenegro que, em fevereiro de 2018, a promessa de Rui Rio foi um combate claro ao PS e à actual maioria parlamentar, sem prometer vitórias eleitorais que sempre se souberam, desde o fim da governação de Passos Coelho, difíceis de alcançar face à conjuntura política. Que a promessa e o que muitos dos militantes (quase 55% dos que votaram) esperam de Rui Rio é que traga de volta o PSD às bases, às comunidades, ao poder local (precisamente após o desaire completo do PSD, em 2017, com Passos Coelho na liderança do partido).
2. Este regresso à ribalta mediática de Luís Montenegro incorpora ainda um passado, mais ou menos, recente da conflitualidade surgida entre Porto e Gaia, à data, quando Rui Rio era o autarca da "cidade invicta".
3. Por outro lado, já há muito que não se ouve, ninguém lê ou sabe, de Pedro Passos Coelho. Mas a verdade é que ele ainda anda por aí, ainda percorre os bastidores e os corredores obscuros do partido, qual "fantasma político". Pelo menos no que respeita ao saudosismo, perfeitamente dispensável, da sua governação e liderança que desvirtuaram a génese social-democrata do PSD, o seu posicionamento ideológico e programático. E se o ex-líder do PSD se tem mantido afastado dos palcos políticos, já os seus seguidores, os seus sebastianistas (como, por mero exemplo, Teresa Morais, Maria de Lurdes Albuquerque, Hugo Soares, Miguel Morgado, Carlos Abreu Amorim, Marco António Costa, Miguel Relvas ou Carlos Carreiras - curiosamente contrapondo com uma extraordinária agradável surpresa por parte do Comissário Europeu, Carlos Moedas), ou, inclusive, as "alucinações comentaristas" de Marques Mendes, ainda não conseguiram, ao fim de quase um ano, fazer "o luto" das derrotas eleitorais (autárquicas 2017 e directas 2018) e da mudança pragmática que, felizmente, o PSD vive hoje e começa a afirmar na política nacional.
4. E tendo em consideração ainda esta vertente sebastianista de uma minoria de "passistas saudosistas", esta "declaração de guerra política" de Luís Montenegro tem, igualmente, uma outra razão substantiva: com o aproximar dos actos eleitorais previstos para 2019, há quem não queira aceitar, há quem esteja demasiadamente preso aos lugares (e não ao partido ou convicções), há quem saiba, de antemão, que vai perder o "tacho" e faça de Rui Rio o "bode expiatório", o carrasco das carreiras políticas "pessoais". São agendas claramente pessoais que sustentam este confronto à liderança do partido.

Por fim, os argumentos a que Luís Montenegro recorreu para sustentar esta sua posição são do mais pobre e do mais fútil, já para não falar de notoriamente contraditórios.
Se Rui Rio, ao fim de 11 meses, não conseguiu unir o PSD (como o ex-deputado afirmou) tal deve-se, em parte (e numa maior fatia) a esta oposição interna ridícula e dispensável, a este permanente recurso a tentativas de desestabilização internas e descredibilização da liderança do partido.
Mais ainda... Luís Montenegro, contrariando o que o próprio esperaria da actuação política do partido, apenas está a valorizar e potenciar a oposição, a esquerda portuguesa, o PS e o Governo de António Costa (que assiste de "cadeirão", serenamente, aplaudindo e divertindo-se com este triste espectáculo).
Mas Luís Montenegro não afrontou apenas Rui Rio ou a direcção nacional do partido. Desrespeitou, desprezou, desconsiderou, desonrou, pelo menos, os 54,15% de social-democratas, os 22.728 militantes de base, que, em fevereiro do ano passado, viram (e ainda acreditam) em Rui Rio o líder ideal para voltar a trazer a social-democracia ao PSD, reposicioná-lo ideologicamente, ser uma clara alternativa a António Costa, de limpar o partido de caciques e interesse mesquinhos e pessoais que, infelizmente, ao longo de mais de 40 anos minaram o partido e foram o espelho dos interesses extra-partidários que se movem nos corredores, nos bastidores, na penumbra, do poder ou da tentativa de poder.

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Uma nota complementar.
O Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de TODOS os portugueses (mesmo os que não votaram nele), de quem se esperaria isenção, distanciamento e afastamento partidário, esteve, neste caso, muito mal, demasiadamente mal, bem pior que no telefonema à apresentadora Cristina Ferreira.
Em política o que parece... É! Totalmente a despropósito o timing da reunião com Rui Rio em pleno anúncio do desafio interno efectuado por Luís Montenegro.
Injustificável, insustentado e claramente parcial, o encontro, amanhã (segunda-feira, dia 14) com Luís Montenegro, opositor e desafiador interno do PSD.
Não há desculpa, nem forma de esconder. Marcelo Rebelo de Sousa, ex-deputado, ex-presidente social-democrata, ex-comentador político e, agora, Presidente da República imiscui-se, intrometeu-se, envolveu-se, na vida interna do PSD. Por mais que queira dizer e fazer crer o contrário.

publicado por mparaujo às 13:37

09
Jan 19

As lutas estudantis de 1992 e 1994 foram marcadas pela contestação nacional, não só contra as propinas (concretamente contra o seu aumento) mas contra o próprio sistema de ensino, nomeadamente no acesso às universidades (onde se incluía, por exemplo, a Prova geral de Acesso - PGA). Foram as manifestações de rua, as barricadas nas escolas, a tentativa de acesso à escadaria da Assembleia de República e, até, o baixar de calças perante a reunião com a ministra da Educação à data. As "propinas" venceram e mantiveram o "pacto de regime" durante estes cerca de 25 anos.

Apesar disso, são, ciclicamente, bandeira de populismo eleitoralista. Voltaram a ser neste arranque de 2019 (e serão, quase de certeza, em 2023).

Constitucionalmente, "todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar" (n.º1, artigo 74.º). Ou ainda (n.º1, artigo 76.º) que "o regime de acesso à Universidade e às demais instituições do ensino superior garante a igualdade de oportunidades e a democratização do sistema de ensino (...)".

Não será com a abolição das propinas no Ensino Superior que tais princípios poderão ser atingidos, plenamente. Faz sentido serem revistos os processos de acesso, os numerus clausus, entre outros.

Porque se pretendemos ter um Ensino Superior qualificado e de elevado nível educativo, cultural e científico, que desenvolva e promova a qualificação do país, não é retirando autonomia e sustentabilidade financeira às universidades, fazendo depender de "estados de alma" e conjunturas dos Orçamentos do Estado, que se garante uma qualificação superior de qualidade.

Por outro lado, a afectação de uma verba considerável para compensar a gratuitidade total da frequência universitária (o valor estimado total das propinas no ensino superior ronda os 330 milhões, representando cerca de 24% do rendimento das universidades e dos politécnicos) significa obstáculos graves e complexos ao apoio social ao estudantes. Aliás, a área mais problemática da frequência universitária reside nas despesas de habitação (esta principalmente), transportes, alimentação. São os próprios estudantes e as famílias que o indicam.

Por uma questão de justiça social, de igualdade de oportunidades, deverá ser na acção social escolar que deve residir a aposta na reestruturação da Lei de Bases do Ensino Superior. Diga-se, ainda, que foi esta justiça e apoio social que ficou abalada pelo populismo e pela demagogia política presentes na redução do valor das propinas no ensino superior, retirando e excluindo um elevado número de alunos dos parâmetros de atribibuição de bolsas.
Não é com a abolição das propinas que se cria maior justiça. Quanto muito equidade, mas uma equidade que coloca no mesmo prato da balança aqueles que têm capacidade financeira para pagar a sua qualificação superior e os que, querendo e tendo o mesmo direito, têm dificuldades económicas.

Já basta de populismos... até porque, daqui a quatro anos, voltaremos ao "tema eleitoral".

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publicado por mparaujo às 23:06

07
Jan 19

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Nunca me causou qualquer estranheza ou desagrado a forma como Marcelo Rebelo de Sousa tem levado a cabo o seu mandato, a forma como lida com a realidade social e política portuguesa e internacional. Ao contrário do que alguns possam argumentar, a adjectivação atribuída de "o Presidente dos Afectos" é um espelho do que tem sido o seu papel como principal figura do Estado e da Nação.

Não havia, por isso, qualquer necessidade de cair no ridículo, de promover este acto, no mínimo, insólito. E muito menos o argumento usado para justificar tamanho despropósito.

Não foi o cidadão, professor universitário jubilado, que, por iniciativa própria (espera-se) telefonou para um canal de televisão a desejar os maiores sucessos a uma apresentadora na primeira edição de um novo programa. E as minhas ausências de referência aos nomes é propositada porque não está em causa o canal, a apresentadora e o programa. Fosse em que circunstância fosse. Marcelo Rebelo de Sousa fez o telefonema enquanto Presidente da República, acto esse que nada tem a ver com o desempenho das suas funções. Mais ainda, tomou, deliberadamente, um "partido", assumiu uma opção e escolha pessoais, principalmente num momento muito particular e efervescente de "guerras de audiências" entre canais televisivos. Além disso, ao tomar esta atitude abriu um precedente que o obriga, enquanto Presidente de TODOS os portugueses (onde se incluem os profissionais de televisão), a ter a mesma deferência em situações semelhantes.
Isto porque a função de Chefe de Estado não se compadece ou se compagina a gostos e relações pessoais.

Por outro lado, é incompreensível que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa tenha argumentado como justificação do seu telefonema o facto de ter concedido uma entrevista, nas vésperas do Natal, à TVI e ao apresentador Manuel Luís Goucha. Pior a emenda que o soneto. O Presidente da República conceder uma entrevista a quem quer que seja não é o mesmo que, por iniciativa própria, pegar no telefone e ligar para a Cristina Ferreira (ou qualquer outro profissional da comunicação que fosse), por causa do seu primeiro programa e desejar "boa sorte".
Não está em causa a Cristina Ferreira (longe disso), o "Programa da Cristina" ou a SIC. Está sim em causa que nada disto tem a ver com a função de Presidente da República ou com qualquer questão de Estado.

Marcelo Rebelo de Sousa disse que "era o mínimo que podia fazer". Nem o tinha que fazer, porque o Presidente da República não é nenhum "agente de marketing televisivo, nem mediador de audiências televisivas", e muito menos foi "o mínimo". Antes pelo contrário... foi antes "o máximo" do absurdo e do ridículo.

Era escusado.

publicado por mparaujo às 21:26

30
Dez 18

A Segurança de Pessoas e Bens, a Saúde, a Justiça, o Ensino e a Política são os principais registos que marcaram o ano de 2018 em Portugal. Na mesma altura em que se assinalou o 20.º aniversário do prémio Nobel da Literatura atribuído a José Saramago e num ano em que o “Presidente dos Afectos” é, para muitos dos portugueses, uma das principais figuras.

da Tragédia…
Volvido um ano após os acontecimentos de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Ansião, Sertã, Pampilhosa da Serra e Penela (junho de 2017) e ainda Leiria, Seia, Nelas, Oliveira do Hospital, Penacova, Monção, Mira e Vagos (outubro 2017), Portugal volta a viver, em 2018, duas novas tragédias que envolveram, infelizmente, vítimas mortais, danos ambientais, sociais e económicos.
Agosto volta a ser “madrasto” no que respeita aos incêndios, desta vez, assinalado em Monchique, ardendo 27 mil hectares de floresta e mato (o maior incêndio da Europa), perdendo-se 50 casas e registando-se 50 perdas de habitações, 41 feridos e 49 pessoas desalojadas, marcando ainda o “mau estar institucional” entre Bombeiros e Protecção Civil que se acentuaria no final do ano.
Em outubro, o furacão Leslie (o maior em Portugal desde 1842) atingia o país, com ventos entre os 180 e os 190 km/hora, provocando mais de 2000 mil ocorrências, 28 feridos, 61 pessoas desalojadas, milhares de habitações (mais de 300 mil) sem electricidade e deixando um rasto de destruição, principalmente nos distritos de Coimbra (Figueira da Foz) e Leiria.
Novembro trouxe à memória dos portugueses o trágico acontecimento, em 2001, com a queda da ponte Entre-os-Rios, em Castelo de Paiva. Apesar dos riscos evidentes, anunciados e alertados em 2014 por vários relatórios, a incúria humana e a irresponsabilidade do Estado (Central e Local) foi o suficiente para que 5 pessoas perdem-se a vida com o colapso de parte da estrada municipal 255, em Borba, provocada pelo deslizamento de um grande volume de rochas, blocos de mármore e terra para o interior de duas pedreiras contíguas.
O lema dos bombeiros portugueses, “vida por vida”, ganhou uma dimensão arrepiante e sinistra, neste último mês do ano, às portas do Natal. Quatro elementos do corpo técnico do INEM perderam a vida quando, depois de transportarem uma doente em estado grave, de 76 anos, com problemas cardíacos, para o Hospital de Santo António, no Porto, regressavam à base, para Macedo de Cavaleiros (Bragança). O helicóptero (uma aeronave Agusta A109S) ao serviço do INEM, cairia na Serra de Santa Justa, Valongo, após embater numa antena de comunicações vitimando o piloto João Lima, o copiloto Luís Rosindo, o médico Luís Vega (de nacionalidade espanhola) e a enfermeira Daniela Silva. À boa maneira portuguesa a tragédia, infelizmente como de costume, originou um conjunto de tentativas de desresponsabilização por parte da NAV, ANPC e do próprio INEM.

da Política…
Foram a política, os políticos e os casos político-partidários, que marcarem fortemente a agenda de 2018, no ano em que se assinala o último Orçamento do Estado da coligação parlamentar que suporta o Governo socialista (a chamada “geringonça”), em vésperas de um ano de 2019 que será marcado por forte contexto eleitoral (eleições europeias e eleições legislativas).
O ano abriria com uma mudança de liderança, de estratégia e, até, de paradigma (pelo menos em rotura com o passado bem recente) no PSD, com a eleição (54,1% dos votos), em janeiro, de Rui Rio para a presidência do partido. Mas se a vontade expressa pela maioria dos militantes sociais-democratas e o desejo em romper com o período de Passos Coelho, com o espectro do liberalismo e o regresso à social-democracia (génese e identidade do partido) resultou numa desejada e apetecida eleição de Rui Rio (face à alternativa Santana Lopes), a verdade é que este primeiro ano de liderança do ex-Presidente da Autarquia do Porto trouxe “a lume” e à evidência o que de pior sempre caracterizou o PPD-PSD: uma “fome” desmesurada e incontrolada de alguns pela cadeira do poder partidário. Não durou muito, embora dure há demasiado tempo, a surgirem as incompreensíveis e dispensáveis vozes críticas internas: Luís Montenegro, inconformado com os resultados das directas e eterno fiel apoiante de Passos Coelho; a tagarelice e a “detracção”, por tudo e por nada, a que se juntam as adivinhações políticas, de Marques Mendes; a ambição e obsessão pelo palco mediático de Pedro Duarte, fazendo regressar aos bastidores e corredores do Partido um dos “espíritos” mais indesejáveis do PSD: Miguel Relvas.
Mas o ano de 2018 não foi, para o Governo e para o PS, um período fácil, fazendo antever um conjunto de desafios políticos agravados e complexos para o próximo ano. O número elevado de greves (mais do que no período intenso da Troika e da governação PSD/CDS) e a instabilidade social, têm colocado a nu e exposto as fragilidades e os falhanços governativos em áreas tão estruturantes num Estado de Direito como na Educação (seja no ensino básico e secundário, seja no ensino universitário), na Justiça ou na Saúde. Sem esquecer a questão da mobilidade, dos transportes, da empregabilidade (baixou a taxa de desempregados mas aumentou a precariedade laboral com a diminuição de vínculos contratuais) e na vertente social (há, em Portugal, 1,8 milhões de pobres, a taxa de poupança familiar regista, em 2018, valores mínimos de há duas décadas, e está perto do “alerta vermelho” o risco inerente ao aumento do crédito ao consumo por parte dos portugueses e das famílias).
Afinal, a austeridade (e eventualmente o tão badalado “diabo”) andam por aí, existe, é visível no dia-a-dia dos portugueses, mesmo que camuflada por uma colossal carga fiscal estruturada nos impostos indirectos. Os dados estão lançados para o próximo ano, com o fim da “paz social” com os sindicatos (Arménio Carlos, Secretário-geral da CGTP-IN, afirmou há poucos dias, logo a seguir à mensagem de Natal, que “2019 vai ser um ano quentinho e não é bluf”) e o fim da “união de facto” política (já que não chegou a haver “casamento”) com o BE e com o PCP.
A par da gestão das finanças públicas, com o impacto das cativações e da falta de investimento público nas áreas de responsabilidade a crescida das Funções Sociais do Estado, seria a Defesa Nacional a gerar um complexo caso de gestão política, abalando a estrutura governativa de António Costa. O “Assalto a Tancos” gerou impactos muito negativos na opinião pública quanto à confiança no Estado, nas Instituições e nas Forças Armadas, para além da demissão (pessoalmente, injustificada) do ex-Ministro Azeredo Lopes. Demissão aproveitada para uma remodelação governativa em pastas relevantes como a Economia, a Saúde (em permanente tempestade social e caos governativo), a sempre polémica Cultura, para além da Defesa (face aos acontecimentos). E a história política repete-se para o Governo socialista de António Costa: tal como aconteceu em 2017, perante a tragédia dos incêndios e do caos na Protecção Civil, dando origem à demissão da então Ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, há neste governo alguma dificuldade em gerir situações de crise, em assumir ou atribuir responsabilidades, em gerir as dificuldades e as adversidades. Tudo corre bem no “mar de rosas”… mas à primeira ondulação mais forte, perante um mar mais agitado ou revolto, o caos político e governativo instala-se demasiadamente fácil.
Uma última nota política de análise a 2018 tem a ver com a relação do Governo (Administração Central) e as Autarquias, apesar do “mapa rosa autárquico” saído das eleições de 2017 e a presença no Governo de alguns ex-autarcas, a começar pelo próprio Primeiro-ministro. Exemplo claro dessa dificuldade são os soluços nos investimentos e a gestão dos Fundos Comunitários e, essencialmente, as polémicas e a confusão e balbúrdia inerentes ao processo de Descentralização de competências e responsabilidades para os Municípios.
Este ano de 2018 deixou ainda uma marca histórica no seio da família socialista. A 2 de maio rebentava a bomba no n.º 2 do Largo do Rato. Um conjunto (significativo) de principais figuras do Partido Socialista e do Governo, após a divulgação de eventual caso de corrupção envolvendo o ex-ministro da Economia, Manuel Pinho, vieram a público demonstrar Vergonha (o adjectivo mais usado) pelo impacto político dos casos José Sócrates e Manuel Pinho (curiosamente o processo Marquês conheceu, este ano, uma alteração da condução judicial do processo para a fase de instrução com a troca do juiz Carlos Alexandre pelo juiz Ivo Rosa, para além de mais um “caso” e polémica com o histórico do processo a desaparecer do sistema informático).

da Justiça…
Contrariando algum sentimento generalizado, quer na sociedade, quer no universo político (com excepção do PS), António Costa e, por decisão última e final, Marcelo Rebelo de Sousa, optaram por substituir a liderança da Procuradoria-Geral da República, não reconduzindo Joana Marques Vidal e nomeando para o cargo Lucília Gago.
Um ao depois... continua por se encontrar a eventual responsabilização pela aparente ilegalidade e irregularidades na reconstrução das casas em Pedrógão Grande, num processo que deveria envergonhar o país; todos… sociedade, autarcas, instituições, partidos, políticos e Governo/Estado.

Dos Direitos Humanos…
Esta é, e há-de ser sempre, do ponto de vista pessoal, uma das principais preocupações e acções/intervenções cívicas (a par da política e do jornalismo/comunicação).
Se Portugal engloba, ao fim de 44 anos, o conjunto de países da primeira linha na defesa e garante dos direitos humanos, há ainda alguns percursos que devem ser percorridos e situações ou contextos que merecem um combate permanente.
A título de exemplo: O número de mulheres assassinadas em contexto de intimidade ou relações familiares próximas atingiu as três dezenas (mais seis do que no ano passado) e cerca de 20 viram a sua vida atentada. Em Portugal, no ano de 2018, todos os dias, cinco crianças são vítimas de crimes sexuais.
A desigualdade salarial entre homens e mulheres corresponde a 58 dias de trabalho pago, sendo mais elevada entre profissões mais qualificadas e com maior nível de escolaridade. As mulheres, em Portugal, ainda ganham 15,8% menos do que os homens, colocando o país no top europeu da disparidade salarial.
No ano em que se assinalou o 70.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos há ainda um caminho a percorrer em Portugal no que respeita ao racismo, à xenofobia, à inclusão e integração, à igualdade de género, aos atentados contra a dignidade humana, situações que se agravam com o crescimentos dos populismo e extremismos. A espelhar estas realidades, quando se pensa que os atropelos aos mais elementares direitos só acontecem na distante África, no complexo Médio Oriente ou no turbilhão social da América do Sul, num ano, em Portugal, a UNICEF registou 80 casos de mutilação genital feminina, fazendo aumentar para cerca de 240 os casos de raparigas e mulheres excisadas.

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publicado por mparaujo às 23:37

29
Dez 18

A história da Humanidade, ao longo dos séculos (AC e DC), sempre teve períodos, mais ou menos longos, de conflitualidade entre os homens e os povos/nações. Foi, também, nesses contextos que as civilizações delinearam os seus futuros.
No período contemporâneo, na primeira metade do século XX, as duas Grandes Guerras (1914-1918 e 1939-1945) foram o reflexo visível dessa conflitualidade.
No entanto, o Mundo soube sempre acolher períodos alargados de paz (ou alguma paz) e de coabitação entre as Nações, mesmo no chamado período da “Guerra Fria”. Até que chega a data de 11 de setembro de 2001, precedida, uma década antes, pela Guerra do Golfo (1990-1991) e imediatamente sucedida pela invasão do Iraque (março de 2003). Desde então o Mundo deixou de ser seguro e pacífico, tolerante e inclusivo, promotor dos Direitos Humanos e da Igualdade, Fraternidade e Liberdade.
Volvidos que estão 28 anos (1990-2018) este ano que agora se presta a terminar é, infelizmente, o espelho dessa realidade: conflitualidade geopolítica e geoestratégica permanente, terrorismo, desprezo pelos valores e pela dignidade humana, crescimento dos extremismos e dos populismos.
Atentados, ataques, violência, manifestações de intolerância, racismo, xenofobia e homofobia, fome, guerra, violação das liberdades e direitos fundamentais, são alguns contextos que descrevem o retrato do ano de 2018. Aos quais podemos ainda adicionar uma natureza madrasta, como que a querer vingar a maneira como o Homem a vai (mal) tratando e desprezando.

da Guerra…
O Médio Oriente, juntamente com África Subsaariana e Central, são duas zonas do globo em permanente explosão. A guerra civil na Síria, em sete anos (2011-2018) matou mais de 511 mil pessoas, das quais cerca de 40 mil neste ano, desalojou 5,6 milhões de sírios, dos quais 2,6 milhões são crianças. Geograficamente mais patente na região de Guta, Damasco, o conflito e os seus impactos estão ainda longe de terem terminado, apesar do recente, e internamente polémico, anúncio de Donald Trump de retirar as forças americanas da região (o Estado Islâmico agradece).
Dura desde 1948 o conflito que opõe Israel à Palestina, tendo a Cisjordânia, o Líbano e a Síria como fronteiras, sem esquecer o histórico colonialista britânico (1917-1947). Após um considerável número de acordos, de avanços e recuos, a conflitualidade naquela zona, onde a Faixa de Gaza é o seu expoente, é diária mas conheceu em 2018 um exponencial de atentados e vítimas que já há alguns anos não se conhecia: 265 incidentes/atentados resultaram em 14 israelitas mortos e 137 feridos; já no que respeita aos palestinianos os dados oficiais indicam 295 mortos e mais de 29 mil feridos (segundo dados da OCHA/ONU). Importa ainda recordar que foi em maio deste ano (14 de maio) que Trump ordenou a mudança da Embaixada Americana de Tel Aviv para Jerusalém.
Mas é o Continente Africano que regista o maior número de conflitos, mortes, feridos, desaparecidos, desalojados, fome e pobreza: Argélia, Burundi, Chade, Egito, Libéria, Líbia, Mali, Marrocos, Mauritânia, Níger, Nigéria, República Centro Africana, República Democrática do Congo, Ruanda, Saara Ocidental, Somália, Sudão, Tunísia, Uganda, entre outros conflitos regionais, étnicos e políticos. Só na última década a ONU estima que morreram, por força da guerra neste continente, cerca 5 milhões de crianças com idade inferior a 5 anos.

dos Direitos Humanos…
São diferenciadas as formas e diversos os contextos de violação dos mais elementares e fundamentais direitos humanos: contra a vida e a sua dignidade, o direito à diferença, a liberdade de pensar e exprimir, a alimentação, a saúde, o trabalho, a habitação, a paz e a segurança.
O ano de 2018 foi, infelizmente, repleto de realidades que merecem nota de destaque para que não se apague a memória, por uma questão de respeito, de solidariedade, de alerta. E para prestar merecida homenagem e tributo aos mais de 300 ativitas mortos no mundo, só porque não qquiseram deixar de defender os maisl elementares direitos universais. Destes, tornou-se rosto mediático a ativista e política brasileira (a América Latina é a região com mais ativitas mortos, presos, torturados e perseguidos) Marielle Franco, crítica da ações indiscriminadas da Polícia Militar, política em ascensão (apontada como eventual prefeita do Rio de Janeiro ou deputada federal em Brasília), assassinada aos 38 aanos, em março de 2018.
Além disso, o Mundo, em 2018, não soube, não quis, foi incapaz, foi indiferente, falhou na protecção das crianças. Na República Centro Africana a UNICEF estima que 1,5 milhões de crianças necessitam de ajuda humanitária. 5.000 crianças foram mortas ou mutiladas no Afeganistão. 4,2 milhões de crianças encontram-se em risco de desnutrição aguda grave na República Democrática do Congo. Cerca de 1.800 crianças foram recrutadas na Somália para a guerra. No conflito na Síria, o tal que Trump diz já não existir, 870 menores foram mortos. No Iémen, para além das 5,2 milhões de crianças que se encontram em risco de fome, 1.427 foram assassinadas em 2018.
Mas os conflitos armados não contemplam apenas a morte e a fome. O número de deslocados e refugiados é assustador: a ONU estima em mais de 68,5 milhões de pessoas. No caso dos refugiados, assunto que tem assombrado a União Europeia pela inoperância e incapacidade política e social em o enfrentar, o ano de 2018 foi relativamente próximo (embora “em baixa”) de 2017 e, felizmente, longe dos valores mais altos da última década. Mesmo assim, o movimento de refugiados no mediterrâneo ainda foi significativo: mais de 118 mil migrantes chegaram, por via marítima, à Europa e 2.241 pessoas morreram durante a travessia.
A questão das migrações e dos refugiados conheceu, em 2018, um especial relevo no continente americano, não estando muito longe, na dimensão dos refugiados que chegam à Europa oriundos do Médio Oriente e do Norte de África. A crise humanitária na América Central e do Sul, sustentada na pobreza, na falta de trabalho, na instabilidade política e nos conflitos armados, em países com a Venezuela, El Salvador, Honduras, Guatemala, Nicarágua (134 mortos desde abril nos confrontos contra o governo), levou cerca de 200 mil migrante até ao sul do México na expectativa desesperada de entrarem nos Estados Unidos.
No país onde supostamente a liberdade e a segurança são referência histórica centenas de milhares de americanos tomaram as ruas nas cidades dos Estados Unidos no maior protesto pelo controle de armas chocados por mais um massacre numa escola na Flórida, em março.
São já cerca de 700 mil refugiados Rohingya que fugiram de uma campanha militar brutal em Mianmar (antiga Birmânia) para o Bangladesh, crianças pequenas massacradas diante dos pais, raparigas e mulheres violadas em grupo enquanto as suas famílias são torturadas e mortas, aldeias incendiadas e arrasadas.
Mas é também nos países ditos civilizados que o ano de 2018 assinalou atropelos aos Direitos Humanos inadmissíveis em pleno século XXI. Por exemplo, neste ano, no Japão, foram realizadas 15 execuções por enforcamento.
Destaque, em 2018, para a atribuição (dupla) do prémio Nobel da Paz, distinção envolta em algumas polémicas como, por exemplo, a manutenção do Nobel (2012) à União Europeia, face à forma como não tem conseguido lidar com a questão dos refugiados; ou a Aung San Suu Kyi, em 1991, à data activista dos direitos humanos e políticos, agora líder da Birmânia, e que tem mantido um condenável silêncio em relação à perseguição e descriminação sobre a comunidade rohingya, obrigada a fugir para o Bangladesh. Finalmente, este ano, regressa a "normalidade": oO Comité Norueguês decidiu laurear, em 2018, com o Nobel da Paz, o congolês Denis Mukwege e a iraquiana Nadia Murad, "pela luta do fim do uso da violência sexual como uma arma de guerra e de conflito armado" (ambos Prémio Sakharov em 2016). Denis Mukwege é médico ginecologista na República Democrática do Congo, onde fundou, em 1999, o Hospital Panzi no qual foram tratadas mais de 50 mil mulheres vítimas de violência sexual na guerra e nos conflitos armados. No Congo, em média, 48 mulheres são violadas a cada hora. Nadia Murad, de minoria étnica Yazidi, em 2014, com 21 anos, foi raptada pelo Estado Islâmico, no Iraque, tendo sido vítima de violência sexual. Três meses depois conseguiu fugir, tendo-se tornado uma forte activista dos direitos humanos, contando a sua própria história para alertar para o problema da violência sexual como arma de guerra (é a primeira Embaixadora da Boa Vontade para a Dignidade dos Sobreviventes de Tráfico Humano das Nações Unidas).

das Tragédias Naturais…
A “mãe” natureza marcou, de forma assustadora e trágica o ano de 2018, com inúmeras mortes e uma devastação de dimensões sinistra.
Os sismos, erupções vulcânicas e os tsunamis na Indonésia, Filipinas e Vietname. As cheias e as inundações, na Índia, China, Japão e Guatemala. Os incêndios em Espanha, na Grécia e nos Estados Unidos.

da Política…
Com o aproximar da Tomada de Posse do próximo Presidente do Brasil, a eleição de Jair Balsonaro foi um dos acontecimentos políticos do ano de 2018, deixando antever um futuro preocupante, incerto e instável para um dos principais países da América do Sul.
Se sempre foi questionável a eleição e a presidência de Donald Trump à frente dos destinos da maior potência mundial, o espelho da desorientação governativa é bem patente no número histórico de demissões na Administração Trump: são já mais de 20, das quais se destacam áreas importantes como a Defesa, a Segurança, as Finanças.
Mas a Europa viveu, em 2018 (com prolongamento para 2019), momentos políticos de especial importância e impactos.
A crise política em Inglaterra está ainda longe de terminar e de ser conhecido o seu final. O Brexit tem trazido uma instabilidade política e governativa complexa e de difícil gestão para Theresa May e para o Partido Conservador britânico, deixando o país e a União Europeia em suspense e incerteza. O referendo à continuidade dos britânicos na União Europeia foi um claro "erro de casting" e tornou-se na expressão profunda da grave crise política e social em Inglaterra.
Atravessado o Canal da Mancha, os últimos meses deste ano trouxeram muitas dores de cabeça a Emmanuel Macron com uma intensa e significativa movimentação social nas ruas francesas, nomeadamente em Paris, protagonizada pelos “Coletes Amarelos”, que tem trazido uma instabilidade social difícil de gerir e que tem potenciado um efeito dominó na região (Bélgica, Holanda) com impactos políticos e sociais ainda por avaliar de forma segura.
Aqui ao lado, na vizinha Espanha, 2018, a par dos significativos casos de corrupção, Mariano Rajoy não superou as movimentações e manifestações pela criação de uma República independente na Catalunha e sucumbiu politicamente às eleições do dia 1 de junho e que elegeram o socialista Pedro Sanchéz.
O ano político também foi feito de algum flop e desilusão. A cimeira histórica entre os líderes da Coreia do Norte (Kim Jong-un) e Coreia do Sul (Moon Jae-in), que decorreu no simbólico Paralelo 38, a zona desmilitarizada que marca a fronteira entre os dois países, fazia perspectivar a implementação de um conjunto de medidas para a "completa desnuclearização" da península coreana. Fazia… porque na prática apenas resta o abrandar dos testes nucleares, sem que haja provas dadas da redução do programa nuclear Norte-Coreano.

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publicado por mparaujo às 02:16

27
Dez 18

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Das escolhas pessoais... das memórias que ficarão de quem não sobreviveu ao (no) ano de 2018.

Cá dentro...
na política: Maria Teresa Cárcomo Lobo, a primeira mulher a exercer funções governativas em Portugal (subsecretária de Estado de Saúde e de Assistência, 1970-1973); João Semedo, médico e dirigente do Bloco de Esquerda; Rosado Fernandes, professor universitário, deputado e eurodeputado pelo CDS.PP e ex-presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal; António Arnaut, advogado, ex-deputado pelo PS, ex-Ministro dos Assuntos Sociais, em 1978, altura em que criou o Serviço Nacional de Saúde.
na cultura: Celeste Rodrigues, fadista; Maria José Moura, a quem apelidaram de "mãe" da rede de bibliotecas públicas; Júlio Pomar, referência portuguesa das artes.
no conhecimento: António Santa-Rita, arquitecto, uma das grandes referências do urbanismo; João Corte-Real, professor universitário e o mais antigo investigador português do clima.
na defesa: capitão de Abril, Diamantino Gertrudes da Silva; general Loureiro dos Santos, antigo ministro da Defesa Nacional, ex-Chefe do Estado-Maior do Exército e geopolítico.
na comunicação social: Altino do Tojal, jornalista e escritor, autor de "Os Putos"; José Pinto, jornalista especialista em desporto automóvel e apresentador do programa "Rotações", na RTP; Helena Ramos, apresentadora e um dos rostos mais simbólicos da RTP.

Lá fora...
na cultura: Nancy Wilson, cantora de jazz, actriz e activista dos direitos humanos; Nicolas Roeg, realizador britânico conhecido pelo filme "Aquele Inverno em Veneza"; Montserrat Caballé, uma das cantoras de ópera mais importantes da história; Zienia Merton, atriz, conhecida como a cientista da saga "Espaço 1999"; Gary Friedrich, que deu vida aos super-heróis da Marvel (Homem-Aranha, Capitão América, Homem de Ferro, Hulk, por exemplo); Aretha Franklin, a rainha da soulmusic; Matt Murphy, a lenda dos blues; Danny Kirwan, ex-guitarrista do Fleetwood Mac (até 1972 quando foi excluído da banda); Pamela Gidley, actriz de "TwinPeaks" - "Os últimos dias de Laura Palmer"; Dolores O'Riordan, vocalista dos "The Cranberries"; Hugh McDowell, cofundador dos "Electric Light Orchestra"; Anthony Bourdain, um dos chefs mais famosos do mundo.
na sociedade e cidadania: Marielle Franco, política e activista brasileira; Kofi Annan, ex-secretário-geral da ONU; Winnie Madikizela-Mandela, política sul-africana e activista contra o apartheid.
na política: Roelof Frederik “Pik” Botha, político e governante da África do Sul; John McCain, Partido Republicano, ex-candidato derrotado por Barack Obama, e, apesar do mesmo partido, acérrimo crítico de Trump; George H. W. Bush, ex-presidente norte-americano (pai de George W.B.).
no conhecimento: Paul Allen, cofundador da Microsoft; Stephen Hawking, físico; Alan Bean, o quarto homem a pisar a Lua.

Por fim, num ano em que comemorámos os 100 anos do Armistício de Compiègne, assinado em 11 de novembro de 1918 entre os Aliados e a Alemanha, altura para prestar a mais profunda e sentida homenagem a dois sobreviventes do Holocausto Nazi da II Grande Guerra que faleceram em 2018.
Noah Klieger, sobrevivente dos campos de extermínio nazi e enquanto jornalistas cobriu todos os julgamentos dos antigos Nazis.
Joseph Joffo, escritor, contou em livro como fugiu aos Nazis, por exemplo em "Os meninos que enganavam os Nazis".

publicado por mparaujo às 17:01

23
Dez 18

Portugal tem mar e costa.
A Indonésia tem mar e costa.
Portugal tem praias e turismo balnear.
A Indonésia tem uma imensidão de praias e um turismo inquestionável e difícil de igualar.
Mas onde está a diferença?! Infelizmente, é fácil perceber...

O Natal acontece, ciclicamente, desde o século III (tal como é assinalado pelo cristianismo - cristãos católicos, ortodoxos e arménios). Mas não é para todos, nem sempre...

O "Anel de Fogo do Pacífico" resolveu "marcar", tragicamente, o Natal na Indonésia... e fez lembrar o ano de 2004.

Merecem um verdadeiro "conto de Natal" e uma referência muito especial os 222 mortos, os 843 feridos e os 28 desaparecidos (últimos dados oficiais).

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(créditos da foto: Azwar Ipank - AFP, in Revista Veja, edição Brasil)

 

publicado por mparaujo às 21:23

25
Nov 18

19 meses depois do 25 de abril de 74 o processo democrático vencia e selava a Revolução.
43 anos depois, o 25 de novembro "ainda" não é feriado porque há quem, teimosa e ideologicamente, queira travar a história.

25 de Novembro de 1975... SEMPRE.

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publicado por mparaujo às 16:04

24
Nov 18

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É lamentável e condenável que António Costa (acompanhado por uma boa parte do país) não tenha a humildade, a coragem e o respeito políticos para referir um facto inquestionável da história política recente: muito do actual "estado de graça" se deveu ao indiscutível esforço dos milhares de portugueses e à inevitável gestão do Governo de Passos Coelho sob os fortes constrangimentos impostos pela Troika (com erros, é um facto, com muito muito sacrifício político) e pelo deplorável estado das finanças públicas herdado em 2011.

Curiosamente, António Costa esqueceu propositadamente este facto da recente história política para acusar PSD e CDS de ganharem a medalha do despesismo com as propostas de alteração do OE2019. Logo António Costa que fez parte da governação de José Sócrates. Só pode ser piada de Carnaval (embora ainda nem tenhamos terminado o ano).

Mas na resposta a estas acusações proferidas pelo Primeiro-ministro, Assunção Cristas, na tomada de posse da concelhia política dos centristas de Arcos de Valdevez, deu um enorme e colossal "tiro nos pés". Acusar terceiros de falta de memória política esquecendo os seus "telhados de vidro" tem tudo para acabar mal.

A líder do CDS recordou, e bem, a passagem de António Costa pelo governação que deixou o país na total banca rota. E não se percebe a lógica da continuidade discursiva usada pela ex-ministra do Governo PSD-CDS.

A determinada altura, Assunção Cristas afirmou que o PSD é o partido do socorro de António Costa, pronto para livrar o PS das garras da esquerda, assumindo-se como a única alternativa governativa. Azar... é que Assunção Cristas também devia recordar a história política, principalmente a história dos 44 anos de existência do CDS. É que neste tempo todo, os centristas apenas conseguiram chegar ao poder e à governação "à boleia" curiosamente do PSD e, pasme-se, até do PS.

Mais valia ter pensado antes de dizer "asneiras". Mas o palco mediático e a memória histórica são lixados.

(fonte da foto: GEICE FM - 90.8)

publicado por mparaujo às 16:21

18
Nov 18

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Nada é mais importante que a vida. Nada se compara à luta pela sobrevivência perante a doença, a guerra ou a fome. Tomemos como exemplo a crise humanitária dos refugiados da África subsaariana, norte de África e do Médio Oriente (como exemplo, a Síria) e a permanente e constante busca diária pela sobrevivência e pela fuga à morte, mesmo que isso signifique mergulhar no completo desconhecido e incerteza.

Mas há outros contextos e realidades que tocam o limiar desta sobrevivência e que merecem também a nossa atenção e preocupação. É o caso da instabilidade social, económica e, principalmente, política que se faz sentir, nos dias de hoje, em vários (bastantes, diga-se) países da América Central e do Sul. À qual se acrescenta um significativo número de catástrofes naturais, numa região do hemisfério para a qual a natureza é madrasta.
São milhares de mexicanos, hondurenhos, guatemaltecos, nicaraguenses, haitianos, costa riquenhos, venezuelanos que chegam em caravanas de deslocados e migrantes à fronteira mexicana com os Estados Unidos.
À semelhança dos refugiados que atravessam a incerteza do Mediterrâneo, este milhares de migrantes fogem da pobreza, da fome, da violência e da degradação política dos seus países.
Não será por isso de estranhar que Portugal, por um conjunto de circunstâncias históricas e culturais, venha a sentir, muito em breve, esta realidade com milhares de brasileiros.
Não vale a pena escondermos a realidade... o Brasil caminha, perigosamente, para o abismo ditatorial. Ironicamente, através de um "normal" processo democrático que transformou essa mesma democracia na única escolha possível: à direita ou à esquerda, o mesmo resultado prático, a opção sobre um dos extremismos sem alternativa equilibrada ou moderada. Escusam, por isso, PCP e BE virem com falsos moralismos e demagogias balofas, como se mesmo ao lado, na Venezuela, a degradação e corrosão da democracia não fosse uma realidade visível e deplorável, com consequências humanitárias inquestionáveis. A verdade é que seja qual for a origem da deterioração política não há ditaduras de esquerda, nem de direita: há ditaduras, ponto. É de uma descarada hipocrisia política vir, para o caso do Brasil, rasgar vestes quanto a "estar em curso um poder de cariz ditatorial no Brasil" ou "recear a degradação democrática e pedir vigilância da comunidade internacional", quando se aplaude, orgulhosamente, um regime e uma realidade como a da Venezuela.
Aliás, sobre os populismos e os extremismos radicais deveria ser de leitura obrigatória o livro "How Democracies Die" ("Como Morrem as Democracias" - editora Vogais) da autoria de dois especialistas da Universidade de Harvard em ciência política,  Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, e publicado este ano a propósito da eleição de Donald Trump.

Infelizmente, é expectável olharmos para o Brasil com uma enorme apreensão porque o que se aproxima em janeiro de 2019 não é nada positivo: convulsões sociais, violência, autoritarismo, degradação das liberdades, dos direitos e garantias dos cidadãos. E bastaram as horas e os dias imediatos aos resultados da segunda volta eleitoral para perceber o destino da "Ordem e Progresso" brasileiros: as medidas estratégicas anunciadas (a liberalização das armas, os atentados à liberdade de expressão, opinião e de imprensa; a intenção de mudar a embaixada brasileira de Telavive para Jerusalém; o perigo da militarização do regime; ...) as suas ligações estreitíssimas à Igreja Universal do Reino de Deus; o xenofobismo e racismo latentes e religiosamente defendidos, a promoção da desigualdade social, e as primeiras felicitações de Maduro, de Erdogan, de Janos Ader ou de Trump.
Aliás, quanto ao presidente dos Estados Unidos, nunca fui, nem sou, admirador de Donald Trump (bem pelo contrário). Mas quando adjectivam Bolsonaro como o "Trump da América do Sul" a primeira reacção que tenho é: "tomara que fosse". Não pela personificação política mas porque, infelizmente, a estrutura política e das instituições democráticas brasileiras são muito mais frágeis que a democracia americana, apesar de tudo.

Não será, por isso, de estranhar que os consulados portugueses no Brasil venham, no próximo ano, a receber um elevado número de pedidos de asilo, de dupla nacionalidade ou de vistos e que Portugal venha a ver entrar pelas suas fronteiras um considerável número de cidadãos/famílias brasileiros. Estaremos nós preparados para esta onda de migração?

Estará a América do Sul preparada para um aumento das caravanas migratórias por força da permanente instabilidade geopolítica, da pobreza, da degradação da economia e da democracia, da violência?

Transformar-se-á, ainda mais, a fronteira do México com os Estados Unidos da América num novo "Mar Mediterrâneo", tal como o encaram, ainda hoje, os milhares de refugiados do Médio Oriente e de África às portas da Europa (Malta, Itália, Grécia, Espanha)?

Apesar de ser a menos imperfeita de todos os regimes, a democracia não pode, às mãos do populismo, do extremismo, do radicalismo e, acima de tudo, da indiferença (a pior de todas as "armas") transformar-se na "coveira das sociedades".

E os dados assustam as consciências: 230 milhões de pessoas vivem fora do país em que nasceram; há cerca de 14,2 milhões refugiados no mundo; 10 milhões de pessoas em todo o mundo são consideradas "apátridas" – nenhum país as reconhece como nacional; ou cerca 33,3 milhões de pessoas foram forçadas a deixar as suas casas permanecendo dentro do seu próprio país (deslocados internos). (dados: amnistia internacional)

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publicado por mparaujo às 16:36

11
Nov 18

Terminou, hoje, a XI Convenção do Bloco de Esquerda, com um conjunto de banalidades demagógicas, de contrariedades e de ilusões políticas, à semelhança do que foi o percurso do BE nestes quase quatro anos de "geringonça".

Um decepção política total, uma mascarada afirmação ideológica e uma completa ausência de sentido democrático. O Bloco é, neste momento, o "parasita partidário" (tal como classificam o CDS em relação ao PSD e aos vários governos onde esteve inserido) da esquerda, apenas sobrevivente porque colado aos Socialistas.

Basta começar pela afirmação de Pedro Soares ("não falamos [na convenção] da direita porque ela não conta para o futuro do país"), em três breves notas: 1. O conceito de democracia e de respeito democrático do BE é isto, sempre foi isto (imagine-se o que será em relação aos cidadãos que têm diversidade e disparidade de opiniões e visões); 2. Foi este "princípio democrático" ou "(falta total) "de sentido democrático" a única razão da formação e sobrevivência da "geringonça": o ataque ao PSD e afastamento do partido da governação; 3. Mas, por outro lado, há alguma "verdade", na afirmação do deputado bloquista, em não terem falado na direita, embora, claramente, por outra razão.

Vem tardia a "animosidade" e as permanentes críticas em todas as intervenções ao PS e ao Governo. Isto porque a aprovação do Orçamento de Estado para 2019, que contou na generalidade com o voto favorável do BE e contará, igualmente, com a aprovação na especialidade, significa o fim da "geringonça" face à aproximação das eleições legislativas de 2019.
Garantida qualquer crise política que pudesse perspectivar ganhos à direita, será mais que expectável que o Bloco de Esquerda inicie, agora, uma retórica política de distanciamento programático e ideológico aos PS, reconquistando o seu eleitorado, mesmo que para isso tenha que entrar em plena contrariedade com o que foi o seu discurso e  acção nestes pouco mais de três anos de coligação parlamentar e suporte à governação socialista.

É que a Convenção do BE, os discursos, principalmente, de Catarina Martins, Mariana Mortágua e Pedro Soares, esqueceram e camuflaram/dissimularam o comportamento político do Bloco de Esquerda como parceiro parlamentar do PS.
Noutros contextos e realidades o discurso, as atitudes e as acções do BE teriam sido completamente distintas e críticas, "rasgando vestes", alimentando manifestações e concentrações sectoriais e sindicais. O sentido de oposição, as causas ideológicas (excepção para a obsessão em relação aos rendimentos e ao tecido empresarial), a "batalha de classes", deram lugar a um populismo decepcionante e banal.

O BE esqueceu-se, enquanto parceiro da "geringonça"...
- da enorme carga fiscal, da injustiça contributiva por força da tributação "indirecta", igualando ou superando as exigências aos contribuintes no tempo do tão demonizado período da Troika.
- que provou do seu próprio "falso moralismo" com o caso Robles.
- da saúde, da clara deterioração do SNS e da inúmera falta de resposta de equipamentos e serviços em tantos Centros de Saúde e/ou Hospitais.
- do estado da Justiça.
- da relação do Estado com a Banca.
- do Poder Local, da ausência de uma descentralização sustentável, do papel das Autarquias e de uma eventual recuperação do mapa das Freguesias.
- do Ensino e do estado do Parque Escolar em tantos municípios, dos Professores (completamente dos professores, nomeadamente na luta do tempo de serviço, algo que seria mais que suficiente para fazer cair um Governo... noutros tempos, claro).
- do Ensino Superior e embarcou em demagogias e medidas sem estruturação, como a diminuição das propinas que vai deixar mais alunos do superior fora dos apoios sociais e vai afundar a situação dos precários nas Universidades e agravar a ausências das respostas ao nível das residências. isto para não falar no risco da deterioração do próprio ensino.
- dos Funcionários Públicos, dos seu salários e das suas reformas.
- do peso do IRS nas famílias, retirando-lhes rendimento e poder de compra.
- que a questão do IVA na electricidade é um embuste porque a descida do seu valor não tem qualquer impacto no consumo, para além da redução do IVA na potência contratada abranger apenas uma franja pequena dos consumidores.
- que o país é muito mais que Lisboa e que também existem milhares de pessoas, em tantos e tantos lugares, que necessitam de transportes públicos no seu dia-a-dia.
- que apoios à economia e às empresas significam apoios aos trabalhadores, aos seus rendimentos, e ao aumento do emprego.
- que há sete meses que aumenta o encerramento de empresas e desde há quatro anos que as empresas não têm tão pouca esperança no futuro.
- que os portugueses vão pagar mais de 3 mil milhões de euros só em taxas e taxinhas.
- que mais de um milhão de portugueses trabalha mas vive na pobreza ou que 2,4 milhões de portugueses, cerca de 23% da população, está no limiar da pobreza.
- que face à ausência de rendimentos e de poder de compra, perigosamente, o crédito ao consumo cresce há quase um ano e está em máximos desde a troika. Os pedidos de ajuda de famílias endividadas sobre desde março deste ano.
- que os portugueses, em média, só poupam cerca de 80 euros por mês.
O BE esqueceu-se, enquanto parceiro da "geringonça"... que o orçamento que aprovou é, segundo a UTAO, tecnicamente incoerente e tem indícios de sobre-orçamentação.

Ou ainda que a crise da democrcia no Brasil é a mesma que se vive na vizinha Venezuela (por exemplo).

Ou melhor. O BE não se esqueceu, fez-se esquecido.... do seu papel, do seu discurso, dos seus princípios, do que defendeu em campanha eleitoral e do seu eleitorado. Fez-se esquecido da suas causas, para, agora, cumprido este mandato legislativo, perante a aproximação da eleições de 2019 e ultrapassado o momento/marco de aprovação do OE2019, vir afirmar-se como um "salvador da pátria e dos portugueses" quando a única coisa que fez foi o simples expedito constitucional para impedir o cumprimento da vontade expressa dos portugueses em 2015.

Nestes quatro anos, com uma cobardia política clara do BE em não querer assumir e repetir o feito de Março de 2011 perante a realidade governativa socialista, o Bloco lá foi mantendo uma união de facto, mesmo sem "papel passado", só para afastar o PSD do governo. E por isso, Pedro Filipe Soares enganou-se (deu jeito enganar-se) no alvo do discurso. Quem não contou nestes 4 anos, para Portugal e para os Portugueses, foi o BE e o PS e António Costa bem souberam aproveitar isso.

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(crédito da foto: José Sena Goulão / LUSA, in Sapo24)

publicado por mparaujo às 20:32

04
Nov 18

As Forças Armadas, por razões familiares, pela sua história e pelo que representaram para a implementação da Democracia em Portugal, merecem-me todo o meu respeito, mesmo que abalado pelos recentes acontecimentos de Tancos.

Merecem respeito, e qualquer Honra de Estado, todos aqueles que, nas mais diversas circunstâncias e contextos, em grande parte contra própria vontade, estiveram sujeitos à realidade da Guerra ou sucumbiram no cumprimento de um dever (muitas vezes transformado em obrigação): as duas Grandes Guerras (a segunda também) ou os vários cenários ultramarinos.

Haveria, e haverá, garantidamente, outras formas carregadas de simbolismo e dignidade para celebrar esses momentos históricos, como o 100.º aniversário do Armistício da I Guerra Mundial.
Momentos para Portugal recordar as vítimas, os seus heróis (como por exemplo, o murcense Aníbal Augusto Milhais - Valongo de Vinhais/Murça, mais conhecido como o "Soldado Milhões"), os combatentes.
E deviam ser igualmente momentos para recordar, da mesma forma, a outra face da moeda da Guerra: os que ficam no desassossego, com o dever de sustentar, com esforço, as famílias (normalmente as mulheres) que se vêem privadas das referências masculinas, como os filhos e/ou os pais/maridos. Infelizmente, esta é uma realidade que teimosamente é, por norma, esquecida e abandonada.

Daí que projecta uma sensação de algum desconforto, de alguma estranheza, que, em plena democracia, se assista à maior parada militar nos últimos 100 anos, em Portugal (mais de 4100 militares, quase 200 viaturas motorizadas, etc.).
Volvidos 43 anos depois do 25 de Novembro de 75... sabe a um certo (dispensável) saudosismo imperialista.Parada.jpeg

(fonte da foto: LUSA, in TVI 24 online)

publicado por mparaujo às 17:20

02
Nov 18

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Mas há um turbilhão de sentimentos: revolta, solidariedade, impotência, comoção, choque, desassossego, (...).

E há igualmente uma premissa que importa, desde já, destacar: não colhe o argumento "cá também há situações de..." ou "isso é lá longe, o que conta são os 'nossos'". Não! Não é assim...

Primeiro, a vida, os direitos e a dignidade humana são universais e não conhecem fronteiras.
Segundo, existem realidades e contextos bem distintos.
Terceiro, a preocupação por aqueles que estão ao nosso lado não implica sejam esquecidos ou ignorados os que estão longe.
Por último, esse tipo de argumento (tão ouvido no que respeita à problemática dos refugiados/migrantes) serve, na maioria dos casos, para esconder uma total (seja perto ou longe) indiferença, apatia, marasmo, comodismo, insensibilidade.

Não foram tão poucas as vezes que aqui se deu conta que há muito mais para além do gravíssimo contexto da conflitualidade com o islamismo, que ultrapassa as vivências com os atentados terroristas na Europa ou nos Estados Unidos. Há todo um Norte e Centro de África e um Médio Oriente que vive, há décadas, assolado pela guerra, pela morte, pela fome, pela exploração por terceiros das suas riquezas... completamente ao abandono, onde impera a total ausência por um qualquer respeito pela vida e pelos direitos humanos.

A ciência e a tecnologia evoluem a cada nano-segundo... mas as sociedades e os homens teimam em manter um estado de primitivismo, medievalismo e arcaísmo gritantes (apesar de nos situarmos em pleno século XXI).

A informação e a comunicação atingem uma velocidade estonteante mas cada vez há uma maior conflitualidade entre as pessoas e as nações... Há riqueza e, simultaneamente, mais pobreza... Há melhores condições de vida mas morre-se de fome...

O Índice Global da Fome em 2018 revela que 821 milhões de pessoas passam fome.
Segundo os dados recentemente revelados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância, Organização Mundial da Saúde, Divisão da ONU para a População e pelo Banco Mundial, em 2017, morreram 5,4 milhões de crianças com menos de cinco anos e mais 900 mil crianças entre os  5 e 14 anos. Não há argumentos suficientes para se ser indiferente ao facto de, em 2017, tenham morrido todos os dias 15 mil crianças devido à guerra; à escravatura, onde as crianças são 25% das vítimas (ainda há leilões humanos em 2018, por exemplo, na Líbia, onde se vendem pessoas por pouco mais de 100 euros); à escassez de alimento e água; à falta de condições elementares de saúde (vacinação, tratamento médico, etc) ou de infraestruturas básicas como o saneamento.
A maioria das mortes ocorreu na África Subsariana, no Médio Oriente e no Sudeste Asiático, numa lista considerável de países como o Chade, Madagáscar, Serra Leoa, Iémen, Zâmbia, Burundi, República Democrática do Congo, Eritreia, Líbia, Somália, Sudão do Sul, Síria, Gabão, Gana, Maurícias, Senegal, ou o Sri Lanka... e por aí fora. Países sujos nomes, para muitos, são "perfeitos desconhecidos".

Mas são países com rostos, com vidas...

Infelizmente vamos vivendo à "custa" de símbolos, de rostos, de imagens que se tornaram referência em diversos contextos: o pequeno Aylan Kurdi, a criança síria de apenas 3 anos, encontrado morto sobre a areia de uma praia na Turquia, em 2015; a jovem, Malala Yousafzay, de 17 anos, que sobreviveu a um ataque de talibãs em 2012, Nobel da Paz em 2014, e que luta pelo direito universal à educação das crianças; a jovem síria Doaa al-Zamel, uma das 11 sobreviventes de um naufrágio que vitimou 500 refugiados no mar Mediterrâneo, e que publicou a sua história no livro "Uma Esperança mais Forte do que o Mar", escrito em conjunto com Melissa Fleming, então directora de Comunicação e porta-voz do ACNUR; ou Clemantine Wamariya, que aos 6 anos atravessou sozinha, com a irmã, sete países, andou de campo de refugiados em campo de refugiados, para fugir do genocídio no Ruanda, acabando por encontrar os pais, 12 anos depois, num dos programas da Ophra.

Ontem a pior das notícias corria o mundo. A imagem da criança Amal Hussain, de 7 anos, colhida pelo fotojornalista Tuler Hicks do The New York Times, tinha-se tornado o "rosto" e o "símbolo" da crise alimentar e da fome no Iémen. É mais uma das fotos, das imagens, dos "rostos" tornados referências que NUNCA DEVIAM EXISTIR. A criança Amal não resistiu ao estado debilitado do seu corpo e do seu organismo e acabou por falecer num campo de refugiados a SEIS QUILÓMETROS DE UM HOSPITAL. Vergonha!

Se isto não indigna, não revolta, não inquieta, que a indiferença e a apatia esbarrem nos números que acrescem: a Cimeira Mundial de Defensores de Direitos Humanos, realizada esta semana, em Paris, revela que, em 2017, 312 activistas de direitos humanos foram assassinados (o dobro do registado em 2015); 4.400 trabalhadores humanitários foram vítimas de ataques graves ao longo das duas últimas décadas, dados revelados a propósito do Dia Mundial da Ajuda Humanitária, celebrado a 19 de agosto.

Isto não é (em) Portugal... mas vivemos todos no mesmo mundo e planeta (cada vez mais pequenos). E é tão fácil ajudar (há muitas formas, meios e entidades para escolhar)

(crédito da foto: Tuler Hicks/The New York Times)

publicado por mparaujo às 22:09

31
Out 18

mas infelizmente a realidade vivida no dia a dia por muitas pessoas (e são já demasiadas) e a falta de respostas sociais, médicas e económicas (já para não falar de uma total ausência de resposta cultural da sociedade) que são gritantes, apesar dos permanentes apelos, alertas e gritos de desespero.

O Diário de Notícias, na sua (con)versão diária digital, na edição de hoje, traz à reflexão uma notícia sobre o que significa para muitas famílias cuidar de alguém, concretamente um(a) filho(a), com paralisia cerebral: "Elas são a sombra dos filhos, à espera de uma lei que as proteja".

E, de repente, veio-me à memória o mês de setembro de 2014... já lá vão 4 anos mas este trabalho da Fátima Araújo, "Por acaso...", publicado no final desse ano, relacionado com a problemática social (em todas as suas vertentes) e os "dramas" que enfrentam os cidadãos com Paralesia Cerebral mantem-se, infelizmente, mais que atual e pertinente. Tomara que assim não fosse...

mas a "ter que ser"... Era bom nunca perder a memória.

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(créditos da foto: Filipe Amorim / Global Imagens in DN digital)

publicado por mparaujo às 15:41

26
Out 18

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Continuo a entender que a questão essencial sobre o suposto fantasmagórico e encenado "Assalto a Tancos" está longe de ser respondida e completamente arredada do que deveriam ser as preocupações políticas sobre o caso.

Partidarices à parte, e diga-se, a bem da verdade, que o PSD e Rui Rio, no caso, tiveram uma postura politicamente aceitável e correcta, o aproveitamento das Armas de Tancos para abrir brechas e fracturas governamentais (e retirar algum aproveitamento político da circunstância, como teimosamente quer o CDS) não faz qualquer sentido.

O caso de Tancos é tudo menos político, embora já tenha feito cair um ministro e acentuado a antipatia óbvia entre militares e Azeredo Lopes.

Perde-se demasiado tempo a jogar às escondidas com memorandos, quem disse ou não disse a quem: o Chefe de Gabinete não informou o Ministro, que não informou o Primeiro-Ministro, que não informou o Presidente da República (Chefe Supremo das Forças Armadas). Pescadinha com rabo na boca... ou o sacudir a água do capote.

O que é, de facto, importante reter deste processo todo é o grave atentado a princípios basilares da sustentação de um Estado de Direito Democrático: a verdade, transparência e confiança.

De que forma passam os cidadãos a olhar para as Forças Armadas, para qualquer Governação, conhecendo-se agora que as principais e fundamentais estruturas do Estado e da Democracia inventam, falseiam, criam farsas, deturpando a realidade com o objectivo de a apresentarem à sociedade perfeitamente alterada, ilusória e condicionada a interesses próprios? E porque é que ainda ninguém exigiu as devidas responsabilidades militares?

(e tratando-se das forças armadas...) Não foi para isto que Abril aconteceu...

publicado por mparaujo às 15:38

15
Out 18

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No dia em que o Governo entrega na Assembleia da República a proposta do Orçamento de Estado para 2019, tomaram posse quatro novos Ministros: Defesa (João Gomes Cravinho), Saúde (Marta Temido), Economia (Siza Vieira) e Cultura (Graça Fonseca).

E como diz (e suspeita) o povo... "isto anda tudo ligado".
Vejamos...

Porquê e para quê esta remodelação governamental? e ainda estão para vir os Secretários de Estado...

Várias razões e nenhuma substância concreta...

Excluindo o Ministério da Defesa, resultado da demissão do então Ministro Azeredo Lopes, as substituições nas restantes pastas só são perceptíveis por razões de cosmética e estratégia políticas.

Primeiro, desviam as atenções públicas que levaram à saída de Azeredo Lopes e do caso, ainda muito por explicar, de Tancos.
Segundo, permitem a António Costa aliviar as pressões políticas sobre áreas da governação que estavam debaixo de fogo intenso: a degradação da saúde, as críticas à falta de investimento e ausência de políticas que promovessem a economia e o desinvestimento na cultura.
Terceiro, retiram espaço mediático às posições do PCP e do BE (até Catarina Martins se mostrou surpreendida) sobre o Orçamento de Estado para 2019, perante um excessivo palco político face aos constantes anúncios públicos das "vitórias negociais" de medidas a prever no próximo Orçamento.
Quarto, possibilitam a António Costa, passada a demissão do Ministro da Defesa e os "ganhos políticos" do PCP e BE nos anúncios das medidas orçamentais para 2019, ter espaço público necessário para que o Governo e o PS ganhem os créditos políticos da apresentação do OE2019. Isto porque é notório que o próximo Orçamento é, obviamente, um orçamento eleitoralista, por duas razões principais:
- as medidas conhecidas ou previsíveis terão impacto político no resultado das legislativas de 2019;
- e porque este é o último orçamento da Geringonça, sendo expectável que o próximo ano, ano eleitoral de importância acrescida, signifique o fim da "aliança à esquerda" e da "ilusória paz política" que manteve a maioria parlamentar. PCP e BE vão procurar tirar dividendos partidários das medidas negociadas no Orçamento de 2019 e, simultaneamente, afastarem-se e descolarem da política do Governo para, dessa forma, marcarem a diferença junto do eleitorado, evitando o risco de serem segregados ou perderem votos para um PS que irá fazer tudo para tentar conquistar a maioria nas eleições do próximo ano.

De resto, as alterações nos quatro ministérios representam "zero". A um ano das próximas eleições legislativas a mudança de ministros e secretários de Estado não produz, nem permite pela escassez de tempo, qualquer efeito na estratégia ou no decurso das políticas do Governo. A política e estratégia de um Governo não mudam com as substituições de ministros. Apenas possibilita a António Costa rodear-se de personalidades da sua confiança e criar, em vários sectores (profissionais da saúde, agentes culturais, tecido económico, empresarial e comercial) novas expectativas, um aliviar da tensão social e uma ilusão de mudança no rumo político.

Mas esta remodelação governamental tem ainda uma outra análise, principalmente no que diz respeito à Saúde, Cultura e Economia. A incapacidade do Primeiro-Ministro em segurar, politicamente, os seus ministros mais vulneráveis à pressão externa, mesmo que para isso se esqueça que as políticas do Governo são da sua responsabilidade e não de qualquer dos ministérios que formam o Executivo.
E basta lembrar, à semelhança do que aconteceu com Azeredo Lopes, que António Costa, há cerca de uma semana, dizia que "todos os ministros eram um activo importante".

publicado por mparaujo às 22:47

13
Out 18

O desempenho das funções governativas no Ministério da Defesa, embora demasiadamente desgastante pela particularidade do sector, não colhe, por norma, o reconhecimento público pela ausência de mediatismo.
Mas não é fácil ficar indiferente à demissão do ministro da Defesa, Azeredo Lopes.

Primeiro, entendo que, em todo este processo (Tancos), o (agora) ex-ministro foi o único que teve verdadeiro sentido de Estado.
Segundo, todos os contornos (pelo menos os conhecidos) do chamado "roubo de Tancos" têm contornos demasiadamente obscuros e surreais, que muito pouco têm a ver com o âmbito político.
Terceiro, tal como no dia-a-dia, no desporto/competição, nos ambientes profissionais,
na sociedade, também na "nobreza" da política entendo que não vale tudo e muito menos o aproveitamento político-partidário sem fundamento ou limitado a uma triste argumentação demagógica (como, por exemplo, a posição e pressão do CDS no caso).
Quarto, há algumas questões que merecem uma referência especial e uma resposta clara por quem de direito e que são muito mais relevantes que a demissão do ministro Azeredo Lopes.

Vejamos...

1. Desde a primeira hora deste mandato legislativo do Governo de António Costa que são conhecidas as antipatias militares em relação ao Ministro da Defesa, Azeredo Lopes, que teve sempre a frontalidade política de não sobrevalorizar o papel dos militares na democracia nacional (apesar do reconhecimento generalizado da importância histórica de abril de 74), assumindo todo o risco mediático e com a coragem de enfrentar o "fogo" da pressão das Forças Armadas. E é longa esta antipatia institucional: o caso do Colégio Militar; a relação da polémica em torno do Colégio Militar e do caso das armas de Tancos; o próprio caso de Tancos e o surrealismo de alguns factos conhecidos.
2. É, por demais, óbvio, face a todos os acontecimentos e desenvolvimentos conhecidos, que este desfecho concretizado pela saída de Azeredo Lopes do Governo vai muito para além de qualquer contexto político: é, claramente, por parte de um dos pilares da democracia que deveria estar bem acima de qualquer contorno político, uma "execução" política de alguém, por natureza, distanciado das características tradicionais de um político.
3. Por tudo isso, é louvável a posição do ministro que, apesar de todos os contextos, liberta o Governo e as Forças Armadas, do mediatismo e da pressão política a que estiveram sujeitos nos últimos tempos.
4. Lamentável é a posição do CDS que fez de todo este processo um julgamento de carácter e político do ministro demissionário, criticando e avaliando todo o caso apenas com a intenção do aproveitamento partidário, esquecendo (propositadamente) toda a envolvência e toda a responsabilidade militar.
Não obstante, não sendo nestas coisas caso inédito (basta lembrar a substituição de Catarina Marcelino, então Secretária de Estado da Igualdade, sem a própria saber as razões e sem qualquer aparente justificação face ao seu meritório trabalho, e a demissão no caso Galpgate de Rocha Andrade, João Vasconcelos e Jorge Costa Oliveira), também António Costa teve um comportamento criticável. Apesar de toda a argumentação usada publicamente, concretamente 48 horas antes do pedido de demissão em plena Assembleia da República, e tal como no Galpgate, assim que a pressão política aumenta, diminui a capacidade do líder do Governo de segurar e defender os seus ministros e secretários de Estado. Em menos de 2 dias, Azeredo Lopes passou de insubstituível a "descartável". Além disso, a resposta conhecida publicamente ao pedido de demissão do ex-ministro da Defesa é disso um espelho: referências substantivas à necessidade de defender as Forças Armadas e um mero e insignificante agradecimento ao ministro demissionário. Nem um reconhecimento do seu nobre gesto e do trabalho desenvolvido no Governo.
5. Toda esta realidade e o desfecho que se verificou suscita algumas questões.
O que é que verdadeiramente aconteceu? O roubo das armas e o seu posterior aparecimento, foi uma encenação? E com que fim? Onde fica a responsabilidade do exército e da PJ Militar? Se, percorrendo a hierarquia das funções, a responsabilidade termina com a demissão do ministro, sendo António Costa o responsável máximo do Governo e dos Ministros porque é que se mantém no lugar? Por último, mesmo que por inerência do cargo, o Presidente da República é o Comandante Supremo das Forças Armadas, como é possível que Marcelo Rebelo de Sousa tenha estado sempre "ao lado" dos acontecimentos?

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(créditos da foto: Mário Cruz / Lusa - in Observador)

publicado por mparaujo às 10:08

07
Out 18

No momento em que recordamos o 20.º aniversário da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago (1998), o segundo atribuído a um cidadão português (depois do Nobel da Medicina - Egas Moniz, 1949), após a polémica em 2016 com a atribuição do Nobel a Bob Dylan, a Academia Sueca volta a envolver distinção literária em nova controvérsia ao decidir a não atribuição em 2018 devido a escândalos sexuais que envolvem o marido de Katarina Frostenson, uma das responsáveis pela escolha do premiado com o Nobel de Literatura.

Por outro lado, o mais "mediático" e singular Nobel da Paz, com particularidades próprias (é atribuído pelo Comité Nobel Norueguês, ao contrário dos restantes cinco que são atribuídos pela Academia Sueca - Física, Química, Medicina, Literatura e Economia - e é o único que pode ser atribuído a pessoas singulares ou a instituições/organizações) regressa à "normalidade" dos seus objectivos depois de envolto em alguma polémica: é questionável a manutenção da atribuição, em 2012, à União Europeia, face à forma como não tem conseguido lidar com a questão dos refugiados; e a Aung San Suu Kyi, em 1991, à data activista dos direitos humanos e políticos, agora líder da Birmânia, e que tem mantido um condenável silêncio em relação à perseguição e descriminação sobre a comunidade rohingya, obrigada a fugir para o Bangladesh.

O Comité Norueguês decidiu laurear, em 2018, com o Nobel da Paz, o congolês Denis Mukwege e a iraquiana Nadia Murad, "pela luta do fim do uso da violência sexual como uma arma de guerra e de conflito armado".

Denis Mukwege, criticado pelo governo por tentativa de "politização" do seu trabalho humanitário, é médico ginecologista na República Democrática do Congo, onde fundou, em 1999, o Hospital Panzi no qual foram tratadas mais de 50 mil mulheres vítimas de violência sexual na guerra e nos conflitos armados. No Congo, em média, 48 mulheres são violadas a cada hora.

Nadia Murad, de minoria étnica Yazidi, em 201, com 21 anos, foi raptada pelo Estado Islâmico, no Iraque, tendo sido vítima de violência sexual. Três meses conseguiu fugir, tendo-se tornado uma forte activista dos direitos humanos, contando a sua própria história para alertar para o problema da violência sexual como arma de guerra.

Denis Mukwege foi galardoado com o Prémio Europeu da Liberdade de Expressão, Prémio Sakharov 2016, prémio igualmente atribuído em 2016 a Nadia Murad que foi, ainda, nomeada Embaixadora da Boa-Vontade das Nações Unidas, nesse mesmo ano.

A afirmação de Denis Mukwege reflecte a nobreza e a justiça da nomeação: "este não é um problema só das mulheres, é um problema da humanidade".

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publicado por mparaujo às 01:03

05
Out 18

Há, precisamente, uma semana, a Indonésia era abalada por um sismo de magnitude variável entre os 5.9 e os 7.7, seguido de um tsunami com ondas a varreram a costa a mais de 190 km/hora... e como se não bastasse a terra teimava em continuar a tremer juntando-se-lhe agora uma intensa actividade vulcânica.

Mas a "revolta da natureza" traz ainda outra realidade que nos suspende a respiração: para além da destruição estão, para já, contabilizados 1424 mortos; um número incalculável de desaparecidos; 66 mil edifícios arrasados; 200 mil pessoas, entre as quais milhares de crianças, necessitam de ajuda urgentemente.

E a Terra não pára de se agitar na região.

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(crédito da foto: Reuters - in JN edição online 02-10-2018)
publicado por mparaujo às 23:29

30
Set 18

Não é uma questão de "meter tudo no mesmo saco" mas antes a contestação de várias realidades e vários contextos similares.
Muito por força do peso de uma história pouco dada aos avanços e progressos civilizacionais, Portugal é, camuflada e hipocritamente, um país de disparidades e desigualdades sociais, de atropelos aos mais elementares direitos fundamentais, demasiado estratificado.

Não são, como se poderia pensar a priori, tão insignificantes, isolados e raros os casos de xenofobia, de racismo, de desigualdade de género, de violência doméstica e infantil, de atropelos aos direitos humanos (por exemplo, em três anos foram detectados cerca de 240 casos de mutilação genital feminina). Somos um país aberto, diz-se que simpático e tranquilo, recebemos tudo e todos... mas temos uma dificuldade enorme, abertas as "portas", de integrar, entronizar e abrigar. Não vão assim tão distantes os tempos controversos e conturbados do acolhimento dos chamados "Retornados", só para avivar memórias.

Mas se as questões dos direitos humanos são, infelizmente, cada vez mais transversais por essa Europa fora, muito por força da conflitualidade internacional, fazendo crescer, perigosamente, populismos, extremismos e radicalismos, Portugal tem algo que é sui generis e nos distingue da "normalização cultural europeia", algo que é de uma particularidade, simultaneamente, distinta e absurda ou ridícula: a estratificação social... em parte motivada pela "posse", pela "propriedade", e, por outro lado, pela obsessão social com o chamado "canudo" (que tanta polémica pública tem gerado com adulterados CV's). Acresce ainda alguma superioridade centralista existente em torno da capital.

Recentemente, o Reitor da Universidade de Lisboa, em entrevista à Rádio Renascença na passada quinta-feira, criticou a diminuição, em Lisboa (e no Porto) do número de vagas no ensino superior, para este novo ano lectivo. Vagas que não foram extintas mas que transitaram para o ensino universitário que é oferecido no interior do país.
Há uma observação na declaração de António Cruz Serra com a qual temos, em parte, que concordar: «O desenvolvimento do interior não se faz com medidas destas nem à custa dos alunos. As políticas fazem-se com os recursos que se geram pelo Estado (...)». É bem verdade... não se faz APENAS com estas medidas, mas TAMBÉM com elas.
Mas é só aí que se concordará com o Reitor da Universidade de Lisboa. Ao contrário do que afirmou, esta é uma media social que é louvável e desejável.
Já é socialmente condenável e criticável o flagelo que é para um aluno "provinciano" ir estudar para Lisboa e que deveria preocupar, e muito, o Reitor da Universidade de Lisboa.

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Mas o surrealismo e o absurdo da entrevista de António Cruz Serra à RR teria o seu "ponto alto", a "cereja em cima do bolo", nesta pérola discursiva: «Eu não vou ver nenhum filho de um CEO das empresas do PSI20 a ir estudar para as universidades do interior por causa disto». A (ignóbil) piada está feita... sem comentários. Simplesmente patético.

Até porque a melhor e assertiva resposta surgiu por parte do vice-Reitor da Universidade da Beira Interior (Covilhã), João Canavilhas:

Veja-se o pedantismo bacoco do reitor da Universidade de Lisboa em entrevista à Rádio Renascença:
"Não vou ver um filho de um CEO de empresas do PSI20 a estudar no interior».
Olhe, pela UBI já passaram filhos de ministros, de deputados, de CEOs e sei lá que mais. Mas sabe, senhor reitor, o que nos orgulha verdadeiramente é receber filhos de agricultores, de operários têxteis, de carpinteiros e de mais um sem-número de profissões. De receber filhos de quem trabalha arduamente para lhes dar uma vida melhor do que aquela que eles tiveram. São esses pais e esses filhos que fazem de nós uma universidade verdadeiramente nacional e que presta um serviço público de qualidade ... apesar o subfinanciamento.

Infelizmente, Portugal continua, social e civilizacional, pedante e bacoco.

publicado por mparaujo às 22:40

24
Set 18

Não tem sido nada fácil para o Governo, nomeadamente para o ministro Adalberto Campos Fernandes, a gestão da pasta da saúde durante o presente mandato.

Inclusivamente, a realidade apresenta-se pior do que os exigentes e apertados anos da Troika.
Conflitualidade laboral nos mais diversos sectores profissionais, demissões atrás de demissões, serviços vazios e sem resposta, falta de investimento, ausência de cumprimento dos compromissos financeiros, cativações inexplicáveis.

Para o Bloco de Esquerda a questão coloca-se, de forma minimalista, com a acusação e a pressão sobre o PS e o Governo de se "colarem" à direita ou manterem-se à esquerda na política da Saúde. Como se não fosse a "esquerda" que, nestes últimos anos, tem governado o país.

Para os portugueses, a questão da saúde não encaixa no confronto e na dialéctica ideológica. Para os portugueses, a questão da saúde é um direito, uma responsabilidade do Estado (com ou sem intervenção directa), uma necessidade e um garante de qualidade de vida.

Por isso, afigura-se legítimo o coro de críticas perante a insatisfação com um sector crucial da democracia que, excluindo os seus profissionais (ou como em tudo, a maioria dos seus profissionais) não funciona, não satisfaz, não consegue cumprir com as suas obrigações perante os cidadãos.

E se há críticas que são silenciosas perante os holofotes da informação, outras há que, para além de cumprirem a legítima revolta pessoal, se tornam o espelho colectivo, um alerta comunitário, face à exposição pública dos seus subscritores.

É o caso deste exemplo, mais um entre tantos, que ocorreu com a filha da ex-jornalista Cecília do Carmo e que deu origem a uma exposição ao ministro da Saúde (original no facebook da Cecília do Carmo ou, em alternativa, aqui).

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publicado por mparaujo às 15:37

23
Set 18

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A politização das opções tomadas na gestão ou governação em determinados sectores, que se esperam blindados a determinadas influências ou pressões e baluartes da independência, comporta riscos acrescidos numa eventual responsabilização futura.

António Costa e, por decisão última e final, Marcelo Rebelo de Sousa, optaram por substituir a liderança da Procuradoria Geral da República, não reconduzindo Joana Marques Vidal e nomeando para o cargo Lucília Gago.

Vamo-nos abster, para já, de tecer qualquer comentário sobre a nova Procuradora-Geral, por uma questão de respeito merecido e pelo facto de todo o "nomeado" ter direito ao seu natural e óbvio processo de adaptação. Apenas a referência a alguns factos conhecidos e públicos: exerce funções na Procuradoria desde 1994, especialista em Direito da Família e de Menores (área onde exerceu a maior parte das suas funções), tem ainda experiência em criminalidade relacionada com o exercício de funções públicas ou políticas, corrupção, branqueamento de capitais e fraude económico-financeira. Foi uma opção de António Costa propor ao Presidente da República um nome dentro dos quadros da Procuradoria-Geral.

Mas vamos ao reverso da medalha.

Seja do ponto de vista dos partidos, seja pela opinião pública dos cidadãos ou das "entidades colectivas", excluindo, obviamente, os "amargos de boca" (e estômago) e as críticas dos directamente visados pelas acções do Ministério Público, nestes últimos seis anos (12 outubro de 2012), é generalizada a adjectivação de  excelência do mandato de Joana Marques Vidal à frente da Procuradoria-Geral da República.
Por si só, teria sido motivo mais que suficiente para uma recondução (que nunca esteve em cima da mesa, nem, segundo a própria, colocada directamente), algo que seria completamente pacífico e aceitável por todos.

Mas para além disso e tido esse contexto presente...
Se a intenção era escolher alguém dos quadros da Procuradoria-Geral da República, Joana Marques Vidal cumpria os requisitos.
Se está em causa a tão badalada questão do mandato único não se percebe que António Costa ainda não tenha definido o que entende por, apara além de único, "mandato longo", tal como escreveu ao Presidente da República. Por outro lado, para o papel e função da Justiça o que será mais importante: a unicidade e durabilidade do mandato ou a sua qualidade, marca e carácter?

Por último... resumidamente: na política e nos cargos públicos, a Operação Marquês (com José Sócrates como principal "protagonista") o relatório sobre a operacionalidade nos incêndios de 2017 e, mais recentemente, as suspeitas sobre os fundos de solidariedade em Pedrogão Grande; nos crimes económico-financeiros, o caso BES; na própria Justiça, a operação Lex e o caso e-toupeira (com extensão ao desporto); no desporto, o caso dos emails do Benfica, a operação Cashball que envolve o Sporting e a viciação de resultados de futebol na II Liga com a Operação Jogo Duplo; ou ainda o surrealismo do "assalto (mais ou menos fantasma) a Tancos. E se quisermos recuar à data histórica do futebol nacional, o caso das viagens pagas para os jogos do Euro2016, em França, sem esquecermos a "conflitualidade jurídica" com Angola.

Só o Governo e o PS não estiveram disponíveis para reconduzir Joana Marques Vidal. O risco é enorme... a fasquia está demasiado alta e qualquer inversão ou reversão da estratégia e objectivos do Ministério Público trará uma carga e conotação política que o Partido Socialista e o Governo podem ter que "pagar" e assumir responsabilidades acrescidas.

Já que o país gosta tanto de futebóis, lá diz o ditado: "em equipa que ganha não se mexe". A menos que...

(créditos da foto: Cofina Media, in Jornal de Negócios)

publicado por mparaujo às 15:45

11
Set 18

Foi há 17 anos... 11 de setembro de 2001.

Passados tantos anos porque é que o "11/9" ainda está bem presente na memória colectiva, não só dos americanos, como do resto do mundo?

Duas razões essenciais.

Primeiro... o número de vítimas (acima das 3 mil), a tragédia em si mesma, o impacto mediático dos atentados (Torres Gémeas, Pentágono e o Voo 93) e o significado político dos mesmos (atentado em pleno "solo" americano, bem dentro do coração político, económico e militar dos Estados Unidos).
Só por isto, e não será, obviamente, pouco, muitos anos ainda restarão para que a memória vá perdendo as suas recordações.

Segundo... porque após o 11 de setembro o Mundo nunca mais foi o mesmo no que respeita à segurança dos povos e das comunidades, à conflitualidade internacional, à ameaça do extremismo, do fundamentalismo e do radicalismo (seja ele qual for), à geografia geopolítica e geoestratégia mundiais.
Iraque, Afeganistão, África, Médio Oriente, Europa, o permanente cemitério do Mar Mediterrâneo, a crise humanitária dos refugiados... Ano após ano, atentado após atentado, guerra após guerra, barco de refugiados após barco, crise humanitária após crise (nomeadamente no coração africano)... são imensuráveis os factos, os casos, a realidade, que nos trazem permanentemente à memória os acontecimentos da manhã de 11/9, nos Estados Unidos da América.

Por mais que queiramos ficar indiferentes, por mais que os anos passem... a História nunca pode ser travada.11-09.jpg

publicado por mparaujo às 22:06

08
Set 18

Há cerca de oito meses a ministra da Justiça cometeu uma gaffe (não tão leviana ou descuidada como se possa imaginar) imprudente: Francisca Van Dunem expressava a sua opinião quanto a um mandato único na Procuradoria Geral da República.

Desde essa altura, amiúde, o tema tem vindo para o debate público, com especial incidência nos últimos tempos, agora que se aproxima o mês da decisão (outubro). Decisão essa que caberá ao Presidente da República por indicação do Governo.

Cresce, por isso, o confronto entre algumas vozes do PS e, nomeadamente, do PSD e do CDS. Os primeiros advogam a substituição da actual Procuradora Geral da República, Joana Marques Vidal, enquanto os segundos, face ao que foram os exemplares seis anos de mandato da responsável máxima pela Procuradoria, defendem a sua continuidade.

Simultaneamente, a questão tem levantado vozes críticas no interior do PSD por causa do silêncio de Rui Rio sobre a matéria.
Mas a verdade é que Rui Rio faz muito bem em não trazer para a "praça pública" o tema e não querer transformar o assunto numa novela política.

A Justiça tem, nas mais diversas facetas e contextos, uma imagem debilitada junto da opinião pública.
São igualmente conhecidos os contornos das suspeitos e processos que envolvem a política e políticos.
Sendo a Justiça um dos pilares fundamentais da Democracia e de qualquer Estado de Direito, assente, essencialmente, na sua isenção e separação de poder, a opção de Rui Rio em não entrar no jogo demagógico e na tentação de politizar e partidarizar este processo é um acto de excelência política.

Até porque quanto mais ruído mediático e público houver sobre o processo menos respeito se demonstra pela ainda Procuradora Geral da Repúblico e pelo seu trabalho meritório, excelente e reconhecido por todos, da direita à esquerda (PCP e BE, por exemplo).

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publicado por mparaujo às 22:06

02
Set 18

Somos relativamente permissivos e influenciáveis pelo mediatismo e pelo colectivismo no que toca à tragédia, à desgraça e à morte.
Forma muitos os que assumiram a corrente do "Je Suis Charlie" quando em janeiro de 2015 se deu a barbárie do atentado ao jornal satírico francês Charlie Hebdo. Mesmo que até à data grande parte nunca tivesse ouvido falar do jornal, nem das suas posições editoriais significativamente polémicas (nomeadamente no que respeita às religiões e crenças). Uns (colectivos e individuais) manifestaram-se porque faz parte dos seus olhares pelo mundo a questão dos Direitos Humanos e das Liberdades e Garantias de qualquer cidadão (no caso, seja o direito à vida, o direito à ofensa e o da liberdade de expressão, opinião e imprensa). Outros porque foram sensibilizados pelas manifestações públicos e assumiram a causa. Há ainda os que o foram... porque sim.
Volvidos alguns meses, os direitos e liberdades depressa viraram a página da revolta popular.
Nem mesmo os trágicos atentados que percorreram a Europa fizeram abalar, significativamente, essa indiferença ou esquecimento prematuros.
Esquecemos a Síria, Iraque, Afeganistão, Somália, Nigéria, Birmânia, Sudão, Iémen, África Central, ... mantemo-nos (mais ou menos) indiferentes ao facto da  FAO (Food and Agriculture Organization), Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, anunicar cerca de 224 milhões de pessoas subnutridas no continente africano;
ou, segundo a UNICEF, que uma criança morre a cada dez minutos no Iémen por falta de alimento;
ou ainda, como a ONG "Save the Children" sublinhava, em maio último, que mais de mil milhões de crianças vivem em países confrontados com pobreza extrema, 240 milhões estão em ambientes de guerra e que 575 milhões de meninas vivem em sociedades onde os preconceitos sexistas são um problema extremamente grave.

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Faz hoje precisamente 3 anos (setembro de 2015) que a imagem do corpo do pequeno Aylan Kurdi (com 3 anos de idade) caído na areia de uma praia turca chocavam o Mundo (ou grande parte dele).
À data esperava-se que a atrocidade e o impacto da imagem fosse suficiente para alterar mentalidades, políticas e acções, fossem elas dos Governos, de entidades, dos cidadãos, das comunidades ou da própria União Europeia. Até hoje... depressa esquecemos o simbolismo da altura de Aylan Kurdi. Qualquer morte é, por si só, estúpida, muito mais quando se trata de uma criança com apenas 3 anos... mas Aylan Kurdi deu à costa sem vida, com a vida perdida, para "nada".
A União Europeia, os Estados e Nações, os políticos, Governos e políticas, as comunidades, as instituições e a maioria dos cidadãos continua sem saber lidar com esta catástrofe humanitária de quem foge aos horrores e à morte movidos pela guerra de alguns contra alguns, sem qualquer preocupação pelos outros TODOS.
Cresce a xenofobia, o racismo, a indiferença, na Europa...
ganham expressão preocupante os extremismos e os radicalismos (que tanto combatemos no lado de quem faz a guerra e atenta contra a vida do Outro)...
aumenta a instabilidade social pelos confrontos na rua (são já 18 os feridos nos recentes e actuais protestos contra a migração e os refugiados, em Chemnitz na Alemanha)...
é preocupante a incapacidade da União Europeia de lidar com esta realidade, indiferente ao fortalecimento nacionalista e de extrema-direita no eixo Húngaro-Italiano...

E esquecemos... demasiadamente rápido.

A título de exemplo, em apenas três dias (29 junho a 1 de julho de 2018) morreram afogadas ao largo da Líbia mais de 200 migrantes.

O Mediterrâneo continua a ser, simultaneamente, a porta da salvação e o cemitério dos que tentam fugir à morte da guerra ou da fome.

As portas da Europa e o a própria União Europeia (cada vez mais indiferente e menos solidária e livre) continua a ser o Muro que ofusca a janela da esperança de milhares e milhares de PESSOAS.

Tão simples quanto isto: PESSOAS.

publicado por mparaujo às 20:18

01
Set 18

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Havia quem  estivesse com "demasiadas" saudades de Rui Rio.
Hoje, a tradicional (mesmo que reformulada) Festa do Pontal trouxe o líder social-democrata de regresso aos palcos políticos e de forma bastante assertiva, sem precisar de discursos inflamados, e com três notas/recados bem pertinentes.

1. O estado da Nação
Rui Rio fez uma abordagem muito concisa às principais áreas onde o Governo tem falhado enquanto auto-proclamado protector de um Estado Social propriedade moral da esquerda: a degradação da saúde que nenhum governo da chamada direita alguma vez projectou e que esta "esquerda" tem teimosamente desprezado; a instabilidade e conflitualidade vivida na educação e que, noutros tempos, servia para "rasgar vestes políticas"; os números da economia que escondem o enfraquecimento laboral com a deterioração salarial, a falta de investimento público, o aumento das importâncias e o desequilíbrio da balança externa, e o aumento desajustado do consumo privado.

2. PSD pode ser alternativa já em 2019, assim o queiram os portugueses.
Desde há quatro anos que reitero o mesmo princípio... esta solução de maioria parlamentar não tem qualquer consistência e sobrevive com um único objectivo presente desde a sua constituição: não ter permitido que o PSD fosse, em 2015, governo.
É por demais evidente os desencontros programáticos e estratégicos, as divergências políticas, apenas disfarçadas pela necessidade de não ser criada qualquer instabilidade que leve a uma antecipação eleitoral.
Num contexto completamente distinto e antagónico do actual, onde a necessidade de cumprir um compromisso assumido face ao resgate externo a que Portugal foi sujeito em 2011 impôs uma realidade bem dura aos portugueses, a austeridade foi bandeira de combate e de confronto político e ideológico.
Hoje, é mais do que claro para muitos dos cidadãos, que a austeridade apenas mudou de rosto e de roupagem: uma excessiva carga fiscal, muito mais injusta porque sustentada na tributação indirecta, é, por mais que a esquerda bloquista e comunista tente disfarçar, a marca desta governação.
As eleições de 2019 não serão "favas contadas" como muitos e muita demagogia discursiva quer tentar fazer crer num passeio eleitoral socialista.

3. (internamente) "tirem o cavalinho da chuva"
Mas a intervenção de Rui Rio no regresso político do PSD para o novo ano legislativo não se ficou apenas na avaliação política do estado do país.
Os que acusam Rui Rio, errada e demagogicamente, de uma aproximação ao PS, são os que, pelas suas posições, mais favorecem o discurso populista do Governo. O que o líder social-democrata tem feito é clarificar a sua liderança interna, por muito que custe a alguns "instalados", e recolocar o PSD na sua área político-ideológica natural e genética: o centro ou centro-direita.
E o recado não podia ser mais directo: ir até ao fim com o regresso da social-democracia à essência programática do PSD.

E, felizmente, veio para ficar. Criticaram tanto 30 dias (de férias) de ausência aqui tiveram um regresso em grande.

publicado por mparaujo às 22:52

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