Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

23
Nov 06
Publicado na edição de hoje (23.11.06) do Diário de Aveiro

Post-its e Retratos
Aniversários e velinhas!


Hoje é institucional e socialmente assumida a necessidade de se comemorar.
Há datas e temáticas de sobra para que o calendário anual se preencha quase na sua totalidade, com o “dia de…”.
E se somos bons a inventar dias de.
Desde o dia Mundial da Paz até à espiritualidade de se celebrar o Dia da Sedução, tudo e qualquer coisa se celebra.
Banalizando o que é verdadeiramente relevante, sobrevalorizando o que se apresenta claramente supérfluo.
Desde o social, político, religioso, cultural e histórico.
Descendo a faixa etária dos 35 anos, que significado tem hoje a celebração do 25 de Abril ou o 25 de Novembro?!
Que importância e relevância tem o dia da Restauração da Independência, a implantação da República ou a data da formação da Nacionalidade?!
Que significado tem o 10 de Junho, mesmo para uma nação historicamente alicerçada nas conquistas, nas descobertas e na diáspora de muitas décadas?!
E mesmo o 1º de Maio, apesar de toda a conexão político-sindical, terá a mesma capacidade mobilizadora de outros tempos?!
A banalização do conceito de celebração e de comemoração, institucionalizou-se, pelo esgotamento e pelo exagero, transformou-se numa mera referência no calendário, a qual muito raramente consegue transportar para os restantes dias a objectividade e o apego ao “objecto” a comemorar.
Santa Joana tem direito a feriado para nossa satisfação concelhia e a uma estátua renovada. Não cause espanto a possível criação do dia do Sal, do Marnoto e da Salineira, do Moliceiro e do Ovo-Mole. Mesmo que isso já nada diga à maioria dos aveirenses no seu dia-a-dia e nas suas memórias histórico-culturais.
Se a realidade do dia-a-dia nos mostra um mundo menos seguro, mais mortífero e injusto, celebramos a Paz num único dia, sem sequer a garantia de que, nessa data, as armas se calarão. O dia seguinte encarregar-se-á de fazer esquecer a ilusão e recordar a triste verdade.
Se a afeição pelos dados científicos nos faz acreditar na realidade de um mundo mais poluído, menos limpo e menos saudável, a nossa atitude ambientalista resume-se ao dia do ambiente e a acções mais ou menos pontuais de reciclagem doméstica.
Se a vida é o nosso maior bem e garantia e a saudade a nossa melhor característica de identidade, atrevemo-nos, para gáudio de algum sector comercial, a recordar quem nos foi mais querido, num só único dia, para descargo de consciência ou devido ao comodismo do dia-a-dia.
Apesar da pobreza e a exclusão bater à porta do lado todos os dias, a indiferença de quem pede, mora e vive na/e da rua, leva-nos hipocritamente a “lavar as mãos” com 1 quilo de arroz ou 500 gr de massa num saco de hipermercado que nos incómoda e inquieta, uma ou duas vezes por ano.
Um país mergulhado numa realidade económica que obriga a um sacrifício constante, gosta de preparar a despedida de cada ano com a fidalguia hipócrita de quem celebra o Natal que nunca foi quando o homem quer, nunca foi o da solidariedade constante, mas o que comercialmente se determinou.
Uma nação que historicamente tem um dos seus símbolos de identidade nacional identificado com o Mar, celebra num dia por ano a certeza de desperdiçar uma, senão a, maior riqueza que possui.
Um povo que historicamente se lançou aos mares e ventos, já nem no dia 10 de Junho consegue lembrar aqueles que, contrariando um processo natural de acomodação e adaptação a novas culturas e identidades, continuam, teimosa e orgulhosamente, portugueses lá fora.
Somos, claramente, um povo de muita festa, de muitas velinhas acesas e datas solenes.
Somos um povo de banalidades importantes. Mesmo que sem reflexos práticos e sem ecos ao longo dos outros dias.
E todos os anos celebramos… com a certeza que para o ano haverá mais um dia qualquer de qualquer coisa, nem que seja definitivamente o dia do anti-dia.
publicado por mparaujo às 18:58

8 comentários:
Cara Susana
Não era para agradecer, porque foi transmitido gratuitamente e sem qualquer esforço pessoal.
Quanto a nós todos, claro que temos de mudar. Mudar muito e em muitas coisas.
Cumprimentos
migas (miguel araújo) a 24 de Novembro de 2006 às 21:30

Viva Mostardinha
Não é crise! É a realidade de uma identidade cultural e social cada vez mais mistificada e sebastianista. Sem reflexos práticos. Apenas o bel prazer de calendarizar num único dia, o que o resto do ano teima em fazer esquecer.
E é um facto... lá fora somos capazes de reiventar a vida, o dia-a-dia. Cá dentro somos os eternos saudosistas.
Abraços
migas (miguel araújo) a 24 de Novembro de 2006 às 21:28

Caro Arauto
Fico lisonjeado com o facto de lhe ter proporcionado um bom momento de leitura.
Não pretendo virar ninguém, apenas questionar a nossa vida (a cá do burgo e a que nos rodeia e inquieta). Mas se virar que seja por bem e para se sentir melhor.
O 10 de Junho é um exemplo que me parace pessoalmente bem ilustrativo do que referi: é questionável o seu eco na sociedade e a importância que tem, hoje, os descobrimentos (a nossa história) - Camões (já pouco se ensina) e o facto de apenas nos lembrarmos dos nosso emigrantes uma vez por ano (e se calhar mal) quando estes se lembram de Portugal, eventualemnte, todos os dias (que mais não seja pela distância e pela saudade).
Abraços
migas (miguel araújo) a 24 de Novembro de 2006 às 21:25

Viva caro Abel
Expressão deveras interessante a sua, para resumir o que escrevi.
migas (miguel araújo) a 24 de Novembro de 2006 às 21:19

Tem razão no que escreve, Miguel. Por isso é que nos traduzimos num povo pouco objectivo e pouco produtivo. Tornámo-nos assim... Temos de mudar em muito!
Obrigada pela solidariedade à morte do meu amigo.
Susana Barbosa a 24 de Novembro de 2006 às 11:24

Viva Miguel:

chiiiii!!!... mas que crise de identidade vai nessa alma meu bom amigo.

Já esqueceu que fomos nós que criámos o maior carnaval do mundo... só que no Rio de Janeiro?

Um abraço,
José Alberto Mostardinha a 23 de Novembro de 2006 às 23:56

Caro Miguel!
Somos um País de festas,haja "DIAS" e feriados, muitos mas muitos, não precisamos de trabalhar, se estamos condenados a ser pobres, sejamos, mas em FESTA.
Reli novamente, gostei e até parece que estou a virar, mas aquela do 10 de Junho..!
Bem, um abraço
Arauto da Ria a 23 de Novembro de 2006 às 23:51

Circo..., e pão. (Pouco e sem manteiga).

Cpts
AC a 23 de Novembro de 2006 às 22:56

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