Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

04
Jan 07
Publicado na edição de hoje (4.01.06) do Diário de Aveiro.

Post-its e Retratos
Rir de quê?!


Há cerca de 3 ou 4 dias a euforia da renovação do calendário levou-nos a bater palmas, deitar os foguetes e ainda a apanhar as canas.
Periodicamente (e em alguns casos, quão religiosamente) despedimo-nos de um ano velho e gasto e entramos num novinho em folha e por estrear. Mas melhor?! Nem sim, nem não… antes pelo contrário. Mesmo que esta comemoração seja inclusive contra-natura ou conter algo de incoerente. O calendário escolar não é coincidente. Para quem trabalha, salvo pequenas excepções, o ano tem claramente a sua principal viragem no reconforto das férias.
Assim sendo, para além da “obrigatoriedade” de revisitarmos repetidamente os mesmo meses, que motivos temos nós para comemorar?! Muitos, poucos ou entre aqueles e estes. Ou em outros casos a vontade clara de não o fazermos. Mesmo que a vida nos ensine que o que é cíclico também pode ser diferente, marca-nos a perspectiva de que o que passou não projecta um futuro mais risonho.
O que rotulamos de pessimismo, não é mais que o reflexo crítico e a contestação factual das realidades vividas e perspectivadas.
O ano de 2006 iniciou uma “cooperação estratégica” entre a Presidência da República e o Governo a que o país não estava acostumado. A que a direita não estava, nem acostumada, nem à espera. Tornando a sua tarefa de oposição mais difícil e complexa do que já era.
O ano findo demonstrou uma distorção preocupante entre o “propagandismo” governativo e a realidade do país: o aumento exorbitante das taxas de juro “massacraram” as famílias com empréstimos imobiliários, o badalado choque tecnológico não teve voltagem suficiente para ser notado, a co-incineração é uma obsessão incontrolável e as SCUT revelaram-se uma promessa eleitoral perfeitamente falaciosa.
O país vive uma assimetria asfixiante. Longe do habitual eixo norte-sul, Portugal revelou-se um território retalhado e desigual, descaracterizado pelo encerramento arbitral de maternidades, escolas, centros de saúde e urgências hospitalares.
Numa economia que teima em tardar e em deixar de regredir, fecharam, com uma regularidade preocupante, inúmeras empresas nacionais e multinacionais (com maior mediatismo para o caso de Azambuja), lançando para o flagelo do desemprego milhares de portugueses. A par desta problemática, as comunicações “oparam” (PT - Sonae) e a banca “opou” (BCP - BPI) para animar serões e um mercado estagnado e sem vida.
A justiça portuguesa conhecia o desejado substituto do Procurador Souto Moura, malfadado pelo processo Casa Pia e o caso “Envelope 9”, pelo processo do Apito Dourado e da decisão final da queda da Ponte Entre-os-Rios.
O ensino adaptava-se desequilibradamente a um inovado processo de Bolonha, ao mesmo tempo que as Universidades se deparam com a sua maior crise estrutural e financeira. O final do ano lectivo trazia a “cereja em cima do bolo”: a inexplicada TLEBS.
Mas o último trimestre revelava-se igualmente promissor em controvérsia. Aproveitando o calor do Verão e dos fogos, o povo saiu à rua em manifestações de inconformismo e contestação das quais já não havia memória.
E num país que vive uma crise económica e social preocupante, é de uma falta de responsabilidade colectiva e de pudor, a quantidade “obscena” de euros gastos neste Natal - 13 milhões de euros em transacções registadas. Valha-nos o “menino Jesus”. Porque por nós, continuaremos a viver num país de ilusões, contradições e irracionalismos. Onde se pode morrer sem socorro a 30 metros de uma praia e onde ainda há pais que matam os seus filhos com dois anos de idade.
Mas o mundo foi-nos companheiro de desventuras. A religiosidade dos homens caricaturava-se num desrespeito provocador e em discursos mal medidos e pouco compreendidos. Timor regredia no seu processo democrático. O espectro nuclear no Irão e na Coreia do Norte revela-nos um mundo inseguro, onde o dia-a-dia da violência, infelizmente, já se torna um hábito em Israel e no Líbano, no Iraque, no Afeganistão, na Somália e no Chade. E o “crime” compensa o “crime”, mesmo que este seja “camuflado” pela vã legitimação judicial duma pena de morte que resiste ao seu próprio enforcamento.
Como é que 2007 poderia ter melhores perspectivas, sendo claro que pior já será difícil?!
Os preços aumentam e destroem a nossa mais ínfima esperança em novos optimismos. As taxas de juro deverão aumentar. O emprego é uma realidade muito volátil. A vida não vai ser mais fácil.
A paz e o respeito pela dignidade humana não têm espaço para “vingar”.
A ilusão toma o lugar do dever cívico e de cidadania que deveria tornar-nos mais realistas e interventivos.
Mas gostamos é de festejar. Mesmo sem saber porquê e se vale a pena.
Sem saber porque rimos e sem ter a noção dos pés bem assentes na terra.
Ao menos que seja, definitivamente, por um melhor 2007.
publicado por mparaujo às 12:53

12 comentários:
Cristina
Não é uma questão de pessimismo. É a realidade.
E concordo contigo. Há coisas muito boas para comemorar, ao longo do ano. Agora passagens, nã!
beijos
migas (miguel araújo) a 10 de Janeiro de 2007 às 00:20

xiiiiiiii...
caramba, a coisa tá feia.:p
já sabes que não tenho essa visão catastrofista da vida meu amigo! há coisas para comemorar sim, muitas. mas esquecemo-nos tantas vezes delas..

beijinhos
Cristina a 8 de Janeiro de 2007 às 22:08

Viva Miguel:

Para o meu amigo os votos de uma óptima semana

Um abraço,
José Alberto Mostardinha a 8 de Janeiro de 2007 às 00:50

Caro Miguel,
voltei embora nunca tivesse saído, passeei-me por aqui e já vim aqui muitas vezes como deve imaginar,os nossos posts são similares e realmente festejar e rir para quê?
Mas creia caro Miguel, teremos que repensar os nossos pontos de vista, porque senão somos apelidados de mal resolvidos, como eu o já fui, temos que pensar só em nós e nos nossos e quem quiser bolota que trepe. Mas o pior é conseguirmos fazer isso..!
Um abraço.
Arauto da Ria a 8 de Janeiro de 2007 às 00:39

Caro José Alberto
A responsabilidade da construção de um país desenvolvido e melhor cabe-nos a todos. mas cada um com a sua responsabilidade. E a responsabilidade de um governo é saber gerir cabalmente e criar oportunidades para que os seus cidadãos tenham os desempenhos que indicou, e bem.
Porque são necessárias renovações nas mentalidades e posicionamentos culturais de todos: cidadãos e governo.
Um abraço
migas (miguel araújo) a 7 de Janeiro de 2007 às 23:38

Caro Abel Cunha
Irónico e incisivo como sempre.
Para além da entrega de mão beijada é a questão da concorrência e do monopólio.
um abraço
migas (miguel araújo) a 7 de Janeiro de 2007 às 23:30

Caro Abel Cunha
Irónico e incisivo como sempre.
Para além da entrega de mão beijada é a questão da concorrência e do monopólio.
um abraço
migas (miguel araújo) a 7 de Janeiro de 2007 às 23:30

Amigo Carlos
Não vou discutir contigo questões relacionadas com economia, porque a minha capacidade argumentativa é do mais senso-comum que possas imaginar e resume-se a uma simples gestão doméstica do deve e do haver.
No entanto, acreditando no que afirmas em relação ao mercado de valores e às OPAs, a prática e a realidade dos factos ficam a dever em muito à teoria.
A OPA da Sonae sobre a PT está longe de ser um processo que não deixará de significar a olhos vistos muita publicidade, mediatismo e pouca realidade. Para além das questões políticas envolventes.
Quanto às taxas de juro, o problema é mesmo esse. A falta de incentivo de investimento e poupança às familias, em contraponto com a publicidade e o marketing terrorista efectuado pelas instituições bancárias.
O país está endividado. As famílias estão sobre-endividadas. Essa é que é a realidade. O custo de vida é elevado e o poder de compra diminuto.
Independentemente da questão das taxas serem da responsabilidade do Banco Central Europeu. A responsabilidade é deles, mas a gestão da vida económica e social do país é do governo.
E a inflaçõ poderá estar abaixo dos dois dígitos. O que não significa controlada e racional.
Um abraço companheiro
migas (miguel araújo) a 7 de Janeiro de 2007 às 23:28

Viva Miguel:

ah!ah!ah!... permita que solte uma gargalhada pelo comentário do inestimável Abel Cunha... não podia estar mais de acordo.

Gostei do seu artigo especialmente pela forma como termina:

"...A ilusão toma o lugar do dever cívico e de cidadania que deveria tornar-nos mais realistas e interventivos.
Mas gostamos é de festejar. Mesmo sem saber porquê e se vale a pena.
Sem saber porque rimos e sem ter a noção dos pés bem assentes na terra."...

Pois, mas não depende do governo, de nenhum governo, que todos os portugueses se apliquem mais no seu exercício profissional, que os estudantes se apliquem mais no estudo, que ... se apliquem mais ...., etc, etc,.

Salazar livrou Portugal da guerra... não o livrou da fome como disse... e isso foi fatal.
Gente mal habituda... com 10 réis na algibeira já pensa que é milionária... faz vida de milionária.

Cabecinhas completamente desprovidas de qualquer sentido da responsbilidade.

Como diz o "trolha"... é preciso "vergar a mola"... para depois ser possível distribuir a riqueza gerada.

Um abraço,
José Alberto Mostardinha a 6 de Janeiro de 2007 às 23:12

Caro Miguel,
um dia a casa vem abaixo. E já faltou mais. Agora chamar OPA à entrega, pouco mais que gratuita da PT ao merceeiro, em nome do interesse dos consumidores, é piada de arromba.

Cpts
AC a 5 de Janeiro de 2007 às 22:53

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