Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

11
Jan 07
Publicado na edição de hoje (11.01.07) do Diário de Aveiro.


Post-its e Retratos
O Poder dos Efeitos…

Chamam-lhe o quarto poder. Um poder hoje questionável, se em si mesmo livre para influenciar e exercer o seu domínio, ou, por outro lado, subjugado também ele a interesses externos. Refiro-me ao poder dos media. Mas…
É incomparável a qualquer outro momento da história universal o facto de, na sociedade actual, ser possível a qualquer indivíduo um acesso quase que incondicional e ilimitado a uma quantidade infinita de informação sobre o mundo. Hoje, lê-se, ouve-se e fala-se de política, de ciência, de cultura, da guerra e da fome, da economia, da educação, do trabalho, das pessoas e dos espaços, de uma forma global e consciente através da acção dos meios de comunicação de massas. Mas este subsídio social tem um “preço”: poder e influência.
Há muito tempo e ainda nos dias de hoje, se discute os efeitos da comunicação social, atribuindo, nomeadamente à televisão pelo seu mediatismo, mas igualmente à rádio e à imprensa escrita, um conflito entre o que significa a liberdade e o dever de informar e transmitir uma determinada mensagem e a sua consequente repercussão no receptor e os seus efeitos.
As teorias sobre os efeitos dos media na sociedade e a sua capacidade de revolucionar e alterar comportamentos, quer individuais, quer comunitários, são substanciais, reflectindo posicionamentos do ponto de vista do emissor e outras ao nível do receptor, contrariando-se, sobrepondo-se ou simplesmente complementando-se com o evoluir do próprio tempo e do conhecimento.
Existem, no entanto, teorias da comunicação de massas que contemplam um alcance mais abrangente e objectivo, relacionado com a sua capacidade de vincar o seu papel socializador e a sua vertente construtora social da realidade colectiva e individual.
Esta realidade comunicacional contempla duas questões importantes no processo socializador: Quais são os efeitos que a comunicação de massas gera e que impacto produzem na sociedade, seja ao nível individual, social, cultural e político e, até mesmo, histórico?!
Tomemos, como exemplo, a televisão; obviamente pelo seu mediatismo e impacto directo no receptor (pela transmissão simultânea de imagem dinâmica e palavras).
Ainda hoje se discutem os efeitos que provoca na sociedade este dinamismo simultâneo da imagem e da palavra, da visão e da audição, da capacidade de intervir no momento exacto e no local preciso.
São as crianças influenciáveis pela televisão?!
São os adultos influenciáveis nos seus comportamentos, convicções e posições?!
De entre as várias teorias dos efeitos da comunicação há as que demonstram esta capacidade de influenciar e condicionar os receptores, com há as que defendem o oposto, como é o caso da “Teoria dos Usos e Gratificações” que entende que ao receptor é permitido “utilizar” a mensagem consoante as suas necessidades, emoções e convicções.
Daí que a comunicação, em especial a televisão, tenha adaptado a sua capacidade de intervir na sociedade, de forma a moderar os seus efeitos e a ajustar-se às necessidades individuais e colectivas das pessoas, mantendo a sua aptidão de produzir efeitos.
Mas mesmo com a “obrigatoriedade” de informar, transmitir e recalcular a realidade, a televisão tem tido, nos dias de hoje, algum cuidado na forma como comunica, nomeadamente no que se refere à transmissão de imagens, seja ou não em directo.
Mas assim sendo, como é possível explicar a morte de 7 crianças e adolescentes, com idades compreendidas entre os 9 e os 15 anos, dos mais díspares locais do globo (Estados Unidos - Índia - Paquistão - Argélia - Arábia Saudita - Iémen) ao imitarem ou “reproduzirem” o enforcamento de Saddam Hussein?!
Se podemos discutir a relevância da informação veiculada pelas televisões (já para não falar no acto em si, que me parece sem qualquer motivo de discussão, a não ser a crítica), não podemos deixar de salientar que este “quarto poder” a que me refiro (televisão, rádio, imprensa escrita) há já algum tempo que vai sendo destronado do seu “trono” por um meio de comunicação de massas (de muitas maiores massas) que dia-a-dia se torna mais real, acessível, ilimitado, descontrolado (mesmo que ultravigiado), anárquico, para o qual todas as teorias que quisermos usar, adaptar ou inventar, ainda não determinaram o seu verdadeiro alcance, a sua vulnerabilidade, os perigos e virtudes do seu uso, a sua vertente comunicacional: a Internet.
E este meio, sem regras e com uma resistência “assustadora” ao controlo, é hoje o mais importante agente socializador, estimulando efeitos nas estruturas sociais e no indivíduo, capaz de produzir alterações comportamentais, sociais, culturais e históricas que os ditos meios de comunicação tradicionais já deixaram de criar ou que sentiram necessidade de se reestruturar.
Disto a sociedade tarda em tomar consciência. Consciência em factos tão simples como o uso de um telemóvel, um computador e um fio (ou já nem isso)… e claro, sete mortes.
A comunicação mudou. O poder dos efeitos dos media transformou-se.
Depende do indivíduo e da sociedade a forma como os deverá usar.
publicado por mparaujo às 13:25

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