Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

25
Ago 13

Publicado na edição de hoje, 25 de agosto, do Diário de Aveiro.

Cagaréus e Ceboleiros

Das duas, uma…

Na passada semana, neste mesmo espaço, em “Vida por Vida… levado à letra” foi referência o papel inexcedível e heroico com que os Bombeiros combatem esse flagelo do verão, os incêndios. Em alguns casos (mesmo que poucos, mas uma vida é sempre uma vida) sendo vítimas dessa abnegada dedicação e voluntarismo.

Não podia deixar de regressar à temática, mesmo correndo o risco de me repetir, por quatro razões. A primeira pela actualidade do tema face ao crescente número de incêndios e do volume de área ardida em Portugal (juntando a Ilha da Madeira). Segundo porque, infelizmente, volta a ser notícia o trágico falecimento de um bombeiro, neste caso de uma bombeira da corporação de Bombeiros de Alcabideche, que perdeu a vida em pleno combate a um incêndio na Serra do Caramulo e que feriu nove bombeiros da mesma corporação. Tal como o jornalista da SIC, Hernâni Carvalho referiu aquando do falecimento do Bombeiro da Covilhã, subscrevendo as suas palavras, nem na morte o país tem a devida e obrigatória consideração e o respeito pelos Bombeiros, pelo seu trabalho, pelo seu papel (heróico mas subestimado) na sociedade. Em milhares de horas de acção, após dias e dias de serviço à comunidade (seja a que nível for) há o registo de 41 bombeiros feridos e três que perderam a vida apenas pela dedicação aos outros. Estatisticamente, serão números reduzidos. Mas bastava um que fosse que Portugal teria, no mínimo, a obrigação de “chorar” e honrar os seus heróis. Em terceiro lugar, foi com alguma perplexidade que ouvi na Renascença as declarações do responsável da Associação de Bombeiros Profissionais que afirmou existir falhas de coordenação e estratégia no combate aos incêndios, de falta de formação e preparação dos Bombeiros e chefias (algo que o presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Soares, já tinha, há semanas, refutado, afirmando que os bombeiros portugueses são considerados dos melhores operacionais do mundo). Além disso, para alguém que aufere um vencimento pelo exercício de uma actividade profissional, contra o exercício da mesma acção por quem o faz de forma desinteressada e dedicada, a “lei do deixa arder”, não trocando a vida de um bombeiro por um “punhado” de eucaliptos ou de pinheiros do Estado ou de particulares, é uma expressão, mesmo estando em causa o valor da vida, que deveria ser mais cuidada e ponderada. Apesar de se saber da incúria e da irresponsabilidade do Estado e de muitos particulares no cuidado e preservação das matas, mas isso não justifica a posição assumida.

Por último, de novo o regresso a Aveiro. Depois das notícias que vieram a público sobre a situação de insustentabilidade que se vive nos Bombeiros Novos, surge a notícia do reforço do apoio da Câmara Municipal de Aveiro às duas corporações de bombeiros da cidade. Para além do reforço financeiro, há o registo do protocolo que volta a ceder aos Bombeiros Velhos o edifício que, durante 24 anos, serviu de sede à Junta de Freguesia da Glória e a cedência de um terreno, em Esgueira, para que os Bombeiros Novos edifiquem o seu novo quartel. Face à realidade, é evidente que uma notícia desta natureza deixa os bombeiros e os aveirenses satisfeitos. Não poderia ser de outra forma face a um apoio desta natureza e que ultrapassará os 1,5 milhões de euros. Mas, tal como já há tempos referi e sublinhei na última crónica “Cagaréus e Ceboleiros”, e fazendo eco de algumas vozes públicas, a verdade é que tal satisfação não trará, de todo, serenidade a muitos aveirenses.

Apesar da polémica e de algum desalento pela união das duas freguesias da cidade, a verdade é que Aveiro não tem dimensão populacional, estrutural e geográfica para precisar de duas freguesias. Tal como também referiu o Bispo Emérito de Aveiro, D. António Marcelino, a própria Igreja deveria repensar o seu mapa administrativo das paróquias e equacionar a fusão de algumas delas, nomeadamente as da cidade. A cidade não deve perder o sentido mais puro de “bairro”, enquanto identidade social e cultural (ou histórica) das suas gentes. Mas não pode permitir que esse bairrismo se projecte em divisões, em “costas voltadas”, em ciúmes socias ou culturais.

Hoje, a cidade de Aveiro, em particular, tem de reflectir sobre o redimensionamento de muitas das suas instituições em diversos sectores e áreas. É o caso das duas corporações de bombeiros. Uma eventual fusão daria aos bombeiros (e à segurança dos cidadãos aveirenses) uma melhor estrutura, solidez, dimensão, escala e melhor rentabilidade de recursos, melhorando com isso o excelente e dignificante serviço (a maioria das vezes impagável) que prestam aos cidadãos e à comunidade.

Questionar a actual existência de duas corporações de bombeiros não é desprestigiar todos os que directa ou indirectamente a elas estão ligados, nem renegar a história e o papel que foram tendo ao longo da sua existência. É antes de mais, valorizar a sua importância, dignificando o seu valor social e humanitário, promovendo a sua sustentabilidade e a continuidade do seu serviço público inquestionável.

O contrário, face às novas realidades sociais e económicas que vivemos (e que muito dificilmente verão “melhores dias”, num futuro próximo), poderá ditar constrangimentos futuros que colocarão em causa a sobrevivência, não apenas dos Bombeiros Novos, mas, eventualmente, das duas instituições ou até dos apoios que a autarquia aveirense deva, por obrigação social, dispensar.

Se a Câmara Municipal de Aveiro encontrou forma (e bem) de financiar as duas corporações em 1,5 milhões de euros, imagine-se o que seria esse valor ao serviço de apenas uma corporação de bombeiros e o impacto que esse investimento teria na sua estruturação, sustentabilidade e serviço a prestar.

Como aveirense “Cagaréu e Ceboleiro”.

publicado por mparaujo às 12:59

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