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Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... É uma zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre tudo e nada.

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É a politiquice, estúpido!

Publicado na edição de hoje, 19 de janeiro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos

É a politiquice, estúpido!

O País foi assolado, nos últimos dias, por uma dose significativa e incompreensível de “politiquice” pura, de alarvidades perfeitamente condicionantes da realidade, reflexo de um país mais ávido pelo entretém do que pelo seu estado, pelos seus problemas, pelo seu futuro (por exemplo, pelo seu futuro a partir de maio, com o final deste resgate financeiro).

Entre uns assuntos mais relevantes que outros, importa recordar o entretenimento viral que foi a questão da história de infância de José Sócrates ao recordar a memória que guardou do jogo entre Portugal e a Coreia, no Mundial de 66, a propósito do falecimento de Eusébio. E ainda em relação à morte do “Rei do futebol português”, não satisfeitos, portugueses, redes sociais e comunicação social, deambularam e divagaram sobre cachecóis queimados ou transladações para o Panteão (mesmo que a maioria dos portugueses não saiba o que é, nem onde fica ou nunca lá tenha colocado um pé – valha-nos Santa Engrácia). Entretanto o CDS realizava, em Oliveira do Bairro, o seu congresso nacional. Um congresso que não trouxe nada de relevante do ponto de vista político: Paulo Portas esmagou a ala crítica, ganhou significativamente para os vários órgãos internos. O único factor político relevante prendeu-se com o anúncio da coligação com o PSD para as eleições europeias (sem nada definido quanto às legislativas de 2015) e nem uma referência aos que os portugueses poderão esperar a partir de junho deste ano. Grave, foi mesmo a proposta da Juventude Popular (que mal vão as “jotas” dos partidos – todos) em querer reduzir a escolaridade obrigatória do 12º para o 9º ano, tornando os jovens menos preparados, menos habilitados, mas muito mais “operários”. Quanto mais ‘analfabeto’ for o povo mais facilmente será controlado. Oh tempo, volta para trás. Mas o melhor estava reservado para a historieta que envolveu congressistas do Algarve, leitão da Bairrada e contas pagas. Isso sim, um verdadeiro acontecimento político relevante.

Por fim, ao terminar esta semana os verdadeiros casos da política nacional, do seu lastimável estado e da falta de ética e moral políticas que assolam partidos, políticos e instituições, como a Assembleia da República. Alterando a cronologia dos factos, lamenta-se que o PSD não consiga encontrar, internamente, uma alternativa para a sua liderança que não seja assente na continuidade da destruição do partido, do país e da social-democracia com a, mais que confirmada, reeleição de Passos Coelho. Talvez com a derrota, em 2015, a história mude, para melhor.

Por fim… a Vergonha Par(a)lamentar do mais baixo golpe político que ultimamente se possa assistir. Como declaração de interesses, importa primeiro referir que sou católico, social-democrata e a favor da Co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo. Segundo, é relevante referir que o que está em causa é a co-adopção e não a adopção (matérias distintas, embora, apesar disso, o PSD queira colocar tudo no mesmo “saco” do referendo). O que está em causa é o vergonhoso aproveitamento político da proposta da JSD para meros ganhos eleitoralistas por parte do PSD. Ao fim de oito meses após a aprovação da lei na sua globalidade, sem que a palavra referendo fosse pronunciada, ao fim de oito meses de trabalho da comissão parlamentar para a especificidade da lei a ser, novamente, votada na Assembleia da República, eis que o PSD decide deixar a ética e a responsabilidade políticas de lado, esquecer o supremo interesse das crianças e pensar apenas nos votos eleitorais. Com esta posição (face às contingências do país e aos calendários eleitorais, o referendo acabará numa gaveta) o PSD empurrou para a próxima legislatura o ónus da aprovação da lei (que poderá cair sob a responsabilidade de um governo socialista). Questões como a defesa das crianças, as minorias, o respeito, a democracia, a igualdade, são pormenores perante a importância do voto e da conquista do poder.

Curiosamente, pelo meio ficou a proposta de grave atentado a um Estado que defenda os direitos, liberdades e garantias mais elementares, como a liberdade de informar, com a divulgação do relatório sobre violação do segredo de justiça envolvendo a comunicação social; a gravíssima realidade dos serviços de saúde em Portugal; alterações na Educação; ou o aumento considerável da dívida no sector empresarial do Estado (cerca de 565 milhões de euros) desde a chegada da Troika. Ou ainda, o facto dos portugueses, já este mês, verem os preços subirem de valor em muitos bens e os salários e as reformas receberem cortes significativos e preocupantes.
Mas o que importa é a politiquice e à portuguesa.