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Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontravam e conversavam sobre tudo e nada.

É fogo que arde e se vê

Preâmbulo/Adenda ao artigo (actualização)
Qualquer situação que extravase a realidade e cause pânico, perdas pessoais ou públicas, vítimas, merece o respeito e o lamento público e colectivo. Um incêndio é e será sempre um incêndio. Uma casa atingida, um bem patrimonial, o ganha pão de qualquer família que fique em risco ou destruído merece a nossa atenção. Arouca, Aveiro (Águeda e Sever do Vouga), zona do Porto, norte do país (Arcos de Valdevez/Gerês), Viana do Castelo, são disso espelho. Mas há dimensões e impactos que assustam, que inquietam, que preocupam, seja por razões pessoais, por afinidades ou simplesmente por solidariedade: a Madeira (Funchal) merece todo o meu respeito, solidariedade, pelo cenário dantesco que se vive naquela ilha. Mais ainda, conhecido que é o facto de tudo apontar para uma acção premeditada e criminosa. Seis anos após a tragédia das enxurradas na ilha... ABRAÇO SOLIDÁRIO À MADEIRA.

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publicado na edição de hoje, 10 de agosto, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
É fogo que arde e se vê

Aveiro, na segunda-feira acordou com cinza espalhada, um cheiro a queimado e um ar abafado, um céu sem sol e em tom acastanhado. Uma cidade que é conhecida pela sua característica ventosa e por ser, em pleno verão, uma das cidades mais “frescas” do país, acordava (8:30 horas) nesse dia com uns significativos 30º de temperatura. As razões eram conhecidas e revisitadas na memória colectiva: desde o fim-de-semana, de forma mais acentuada e expressiva, a zona de Aveiro e a Região (Arouca, Estarreja e Águeda, como exemplos) era fustigada por incêndios de dimensão e extensão relevantes (só em Águeda e Estarreja perto de 1000 incansáveis bombeiros combatem, com inquestionável e louvável empenho, as chamas).

O mês de Julho, apesar de registar mais ocorrências que no mesmo período de 2015, registava simultaneamente menos área ardida (um número que pode reflectir o excessivo valor registado em 2015) e também eventos de menor dimensão e expressão. Daí não ser de estranhar a baixa expressão de referências na comunicação social ou a ausência do tema do debate e confronto político, algo que é, por norma e neste período do ano, um expediente recorrentemente usado para atacar o Governo. Corria, pelos factos e pelos dados, tudo bem ao país, aos cidadãos, às comunidades e, claro, ao Governo. Mas eis que, de repente, tudo muda. Apesar de, até à data, apenas se registar (e lamentar) uma vítima mortal (cidadão de 57 anos, no sábado passado, em Valongo) em todas as ocorrências desde que teve início o denominado Período Especial de Combate aos Incêndios (1 de Julho a 30 de Setembro), a verdade é que este arranque do mês de Agosto tem alterado, substancialmente, os factos e a realidade: três planos de emergência accionados (Porto, Arcos de Valdevez, Funchal), uma explosão no número de ocorrências com dimensão e expressão significativos, um considerável e claro aumento da área ardida e da perda de florestação, um esforço dos recursos técnicos e humanos ao ponto do envolvimento das forças militares (Exército) em algumas zonas, a destruição (ou deterioração) de propriedades e património particulares e públicos.

Podíamos recuperar aqui textos de edições deste espaço do ano passado, de há dois, três, quatro, cinco ou mais anos. Infelizmente, mais do que as temperaturas, as praias, as águas do mar mais ou menos quentes, a história do verão português é cíclica e demasiadamente repetitiva no que respeita aos incêndios florestais e ao incansável e inquestionável esforço dos bombeiros portugueses. Isto sem querermos menosprezar histórias irrepreensivelmente louváveis como a que ocorreu, junto da A1 em Estarreja no passado domingo (um casal distribuiu perto de uma tonelada de água às pessoas que ficaram retidas na autoestrada). Mas infelizmente, a história dos factos repete-se, os dramas revivem-se, as perdas (para já materiais) surgem.

Apesar do silêncio político em torno da realidade (e do Primeiro-ministro continuar a “banhos”), da oposição se manter emudecida pelo peso da responsabilidade governativa anterior (mesmo que, nesses períodos fosse politicamente atacada com alguma veemência por quem, hoje, é governo ou coligação); apesar das altas temperaturas que se fazem sentir; apesar da irresponsabilidade cívica dos cidadãos e dos casos criminosos que se conhecem (como a recente detenção de quatro suspeitos na Madeira) este triste e deplorável ciclo na história de cada verão português tem também muito (demasiado) de responsabilidade política que não é de agora, deste ano, nem apenas dos imediatos anteriores, mas sim, infelizmente, de políticas falhadas ao longo da história da democracia portuguesa: falta de políticas na florestação; falta de medidas na prevenção e na responsabilização de particulares e do próprio Estado (o país desconhece a real propriedade florestal nacional, seja particular ou pública); falta clara de políticas de prevenção.

Ano após ano o pais vive estes flagelos, com maior ou menor intensidade mediática em função da proximidade geográfica, do sentir bem perto a realidade, da dimensão dos factos ou das tragédias. O resto é o cíclico entregar na coragem de alguns milhares de homens e mulheres que se entregam, por mera opção voluntária, à defesa do que é “alheio”, individual ou de todos. O resto é o esperar que os ventos acalmem e que o tempo arrefeça. O resto é o desperdício de recursos financeiros, ano após ano, sem qualquer efeito preventivo ou que garante uma menorizarão dos impactos. Em jeito de conclusão e a título de exemplo: o Orçamento do estado para 2016 previu uma verba na ordem dos 84 milhões de euros para o combate aos incêndios. No mesmo plano orçamental do Estado eram consignados cerca de 8 milhões de euros (10% do valor do investimento no combate) à prevenção. Não basta responsabilizarmos os comportamentos negligentes e criminosos dos cidadãos. O verão, cada verão, é o maior flagelo ambiental para Portugal que tem, nos incêndios, a sua maior expressão. Agosto de 2016 não fugirá à regra, infelizmente.