Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

15
Dez 19

É mais que inquestionável que a ausência de ética na política e nos políticos tem sido determinante para a deterioração do seu nobre exercício e para o aumento do fosso da relação/ligação entre eleitor e eleito (basta olharmos para os diversos "casos de justiça" ou para a recente e urgente necessidade sentida pelo "poder político" em mitigar e combater a corrupção, por exemplo, por via jurídica). Seria extenso e fastidioso elencar os inúmeros exemplos que retratam esta realidade que, infelizmente, apenas tem merecido especial atenção em processos eleitorais muito por força das elevadas taxas de abstenção (recentemente: europeias, 69,27% ,e legislativas, 51,43‬%).

Mas nem só a questão ética merece relevância na degradação ou desvalorização da política, dos partidos e dos políticos. Ao tradicional "o que hoje é verdade, amanhã é mentira" assistimos a um aumento significativo de discursos, atitudes, decisões carregados de contradições entre princípios ideológicos e programáticos e opções políticas que são tomadas.

Os primeiros exemplos surgem com o Orçamento de Estado 2020.
Primeiro, começa a ser dramático e revoltante a demagogia e a falácia discursiva do BE e do PCP sobre o seu sentido de voto em relação ao OE2020. Não vale a pena quererem transformar o povo, nomeadamente os eleitores, em cidadãos estúpidos. A iliteracia política do pós 25 de Abril, numa conjuntura e realidades sociais muito peculiares para quem saía de uma ditadura de 48 anos (1926 a 1974), já lá vai. À velocidade que corre a informação e a facilidade com que se acede à mesma torna, no mínimo, os portugueses mais despertos para a realidade. Não vale a pena, por isso, derramarem lágrimas de crocodilo ou verterem para a imprensa populismos demagogos: PCP e BE vão permitir a aprovação do OE2020, critiquem o que quiserem criticar em relação aos grandes poderes, aos mais pobres ou à luta das classes. Entre a abstenção ou o voto a favor, venha o diabo e escolha. PCP e BE não têm nem coerência política, andaram 4 anos a enganar o seu eleitorado, a proferir discursos que não condizem com os princípios e os programas que defendem. Este é só mais um exemplo, um claro déjà vu.
Segundo, porque esta questão da incoerência é, obviamente, transversal, a recente entrada liberal na Assembleia da República não foge à regra. A Iniciativa Liberal, mais propriamente o seu único deputado eleito - João Cotrim, já anunciou o seu sentido de voto em relação ao OE2020: contra. Argumento: um simples e vago "Estado a mais". Este fundamentalismo neoliberal atentador da sustentabilidade das funções Sociais do Estado, para além de perigoso, quer do ponto de vista político, quer social, (perigo patente, igualmente, no processo eleitoral interno do PSD com as candidaturas anti-Rio), é deplorável. E, no caso de João Cotrim, uma triste demagogia e incoerência. Basta recordar-nos que durante 4 anos, entre 2013 e 2016, o deputado da Iniciativa Liberal foi presidente do Conselho-Diretivo do Turismo de Portugal, entidade pública totalmente beneficiária da subsidiação do Estado e de Fundos Comunitários. Além disso, esteve envolvido, em 2015, nas negociações que fixaram, em Lisboa, a Web Summit, à custa de um enorme esforço orçamental para o país e para os portugueses devido ao enorme investimento do Estado. Aliás... demasiado Estado, Estado a mais. De coerência argumentativa estamos conversados quanto a liberalismos elitistas e urbanos.

Mas a questão não se compagina apenas às posições sobre o OE2020.
Espera-se que a Assembleia da República seja, por si só, a "casa" da democracia e o expoente máximo da nobreza do exercício político. Aqui cabe, por diversos contextos, o verdadeiro sentido da liberdade de expressão e opinião.
Neste âmbito, não me parece que a segunda Figura de Estado da República Portuguesa tenha prestado um bom serviço à promoção e valorização da política e do papel do Deputado, na polémica em que se envolveu com André Ventura (deputado do partido Chega).
Durante o debate de quinta-feira, na Assembleia da República, sobre a problemática do amianto nas Escolas (tema levantado pelo PSD), Ferro Rodrigues interrompeu e advertiu André Ventura por este ter usar (na sua intervenção fê-lo por quatro vezes) desmaiadas vezes as expressões "vergonha" e "vergonhoso": «utiliza com demasiada facilidade as palavras vergonha e vergonhoso, o que ofende muitas vezes este parlamento e ofende-o a si também». Ao caso, o Deputado do Chega afirmava que «era vergonhoso haver dinheiro para tudo, incluindo para “subvenções vitalícias, mas não haver dinheiro para a remoção do amianto. Uma vergonha!».
Não nutro qualquer tipo de simpatia por André Ventura, muito menos pelo Chega, antes pelo contrário; tenho até alguma repulsa. Mas custa-me perceber o porquê da atitude recriminatória de Ferro Rodrigues e não consigo compreender como é que "vergonha" e "vergonhoso" é uma ofensa ética e moral à Assembleia e aos Deputados. E acima de tudo a situação mediatizada só permitiu a André Ventura e ao Chega ganharem protagonismo e palco público.
Mas há mais... acima de tudo não percebo a incoerência do Presidente da Assembleia da República (já para não falar do lamentável aplauso socialista, um partido que se diz tão defensor das liberdades de abril e, concretamente, da liberdade de expressão).
Se formos pesquisar os documentos e registos das intervenções parlamentares (algo que o Observador se deu ao trabalho) os números são curiosos. Na última década (duas últimas legislaturas, 2009 a 2019) "vergonha" e "vergonhoso" foram usadas foi usada 2198 vezes: 259 pelo PS, 371 pelo PSD, 594 pelo PCP, 359 pelo Bloco, 264 pelo CDS-PP, 120 pelo PEV e 2 pelo PAN. Na última legislatura, em que Ferro Rodrigues também foi o Presidente do Parlamento, a palavra “vergonha” foi usada 710 vezes. Ou seja, demasiadas vezes, sem uma única reprimenda.
Como diria um determinado deputado da Assembleia da República, recentemente eleito... "uma Verg....!".

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(cartaz do partido Chega colocado, após polémica, nas imediações da Assembleia da República)

publicado por mparaujo às 22:12

14
Dez 19

Muitos dos eurocépticos e da esquerda europeia colaram sempre a Alemanha ao trono europeu, seja do ponto de vista político, seja do ponto de vista económico.
A Alemanha é a Europa... a União Europeia (comissão, parlamento, eurogrupo, bce) é a Alemanha.
Até esta semana...

Quem é que passou então a mandar na Europa? Tal e qual... PORTUGAL.
Mesmo que seja na Liga Europa de Futebol. Também conta... estamos à frente da Inglaterra (3), Espanha (3), Alemanha (3), Itália (2) e a França (0) que ficou vazia em termos de representatividade clubística.

Quatro equipas nacionais seguem para os 16 avos: FC Porto, SC Portugal, SC Braga e SL Benfica.
Oito treinadores portugueses ao comando de outras tantas equipas: Sérgio Conceição, Silas, Ricardo Sá Pinto, Bruno Lage e, ainda, Paulo Fonseca (Roma), Luís Castro (Shakhtar Donetsk), Nuno espírito Santo (Wolverhampton) e Pedro Martins (Olympiacos).

Tomara que Portugal conseguisse em tantas outras, e mais importantes, matérias repetir este marco. Teríamos a Europa aos pés.

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(créditos da foto: Eric Gaillard - Reuter)

publicado por mparaujo às 17:37

08
Dez 19

Orçamento-do-Estado-2020-900x770.png

Populismo: substantivo masculino.
1. [Artes] (...)
2. [Política] Doutrina ou prática política que procura obter o apoio popular através de medidas que, aparentemente, são favoráveis às massas.
Se substituirmos "medidas" por "discursos" obtemos o perfeito retrato do populismo e falaciosa demagogia do Bloco de Esquerda e do PCP em relação ao Orçamento de Estado 2020 (OE2020). E, desta forma, vira-se o feitiço contra o feiticeiro no que respeita à coerência entre o discurso, a ideologia e a "sede do poder".

BE e PCP voltam a repetir, nesta "pré-campanha orçamental" para 2020, a triste imagem política deixada em cada debate e aprovação dos respectivos Orçamentos de Estado, entre 2015 e 2019, sob a capa protectora da "geringonça". Com uma clara agravante que já trouxe algum "amargo de boca interno" a Jerónimo de Sousa após as eleições legislativas de outubro passado e que começa a criar algum constrangimento partidário no seio do BE, com a anunciada movimentação do grupo crítico Via Esquerda que junta 60 críticos da actual orientação política do partido. É que a actual conjuntura político-partidária, patente na Assembleia da República, alivia a pressão do PS e do Governo para a discussão e aprovação do OE2020, bastando, para tal, contar com o apoio do PAN, Livre e dos três deputados sociais-democratas eleitos pelo círculo da Madeira que já anunciaram, pela voz de Miguel Albuquerque, o seu voto favorável se cumpridas as reivindicações madeirenses e os apoios à Região Autónoma da Madeira, como, por exemplo, a construção do novo Hospital, a ligação ferry semanal para o Continente e a comparticipação das viagens aéreas.
Pelo contrário, parece ficar de fora do OE2020 a descidda do IVA na eletricidade ou o englobamento dos rendimentos prediais no IRS, como tanto deseja o BE.

Não é por isso de estranhar, por exemplo, o "desabafo" do comunista João Oliveira que afirmou que a «negociação do Orçamento não está a ser feita com a profundidade dos anos anteriores», tendo a actual relação com o Governo sido cingida aos mínimos: o “recenseamento” das propostas do PCP.

Mostram-se como mero jogo político e populismo bacoco as afirmações quer de Catarina Martins, quer de Jerónimo de Sousa, em relação ao que se espera da aprovação do OE2020. Por mais que a coordenadora do BE diga que o «sentido de voto do BE sobre o OE2020 está completamente em aberto», por mais que o líder comunista queira denunciar «retrocessos” do PS no Orçamento e ofensiva reaccionária», por mais que diga que «o Governo escolhe meta do défice em vez de resolver os problemas sociais», por mais que queira convencer a opinião pública e o seu eleitorado que «o PCP só dará o aval ao OE2020 se respeitadas algumas das 70 condições propostas»... a verdade é que ninguém (nem a direita) acredita no chumbo do Orçamento do Estado para 2020.

PCP e, nomeadamente o BE (ainda está bem presente na memória bloquista a 'azia partidária' gerada com a opção política de 2011), não irão entregar de mão beijada o poder ao PSD; não irão ter a responsabilidade partidária de gerar uma crise política perante um governo recém-eleito; nem o PS correria o risco (preferindo, numa ou noutra matéria, vender a alma ao diabo) de procurar já, passados apenas 2 meses das últimas eleições, uma maioria absoluta num novo processo eleitoral.

São, portanto, ridículas as posições públicas de BE e do PCP nesta matéria de discussão orçamental. Nem para consumo interno, do seu eleitorado, serve.

publicado por mparaujo às 17:23

O que se passa no Livre daria claramente para um estudo de caso no âmbito de qualquer dissertação, tese de mestrado/doutoramento ou processo de investigação na área das Ciências Políticas.

Em plena crise interna, estrutural e partidária, principalmente nos momentos mais particulares e onde a coesão só faria todo o sentido, um dos fundadores e principal rosto do Livre, Rui Tavares (que até admiro/respeito) e a deputada Joacine Katar Moreira, tendem a concordar discordando.

Enquanto Rui Tavares, à entrada para a reunião da Assembleia, admitia «dificuldades e erros», adiantando que «todos os partidos têm conflitos, o que os distingue é a forma como os resolvem», já Joacine Moreira afirmava que «não existe conflito absolutamente nenhum. Há uma relação de diálogo e entendimento e é sobre isso que iremos falar». Ou seja, para a deputada única do Livre, reuniram-se num domingo de manhã, em pleno outono cinzento, frio e molhado, como quem foi à missa dominical.

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(© André Kosters /Lusa)

publicado por mparaujo às 14:17

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