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Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... É uma zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre tudo e nada.

Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... É uma zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre tudo e nada.

Não é verdade, Sr. Presidente. Não é verdade...

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Já não é a primeira vez, antes pelo contrário, que o Presidente da República refere, publicamente, que os portugueses têm demonstrado um enorme sentido cívico e de cidadania, nestes difíceis e complexos tempos virais.

Sr. Presidente da República... Não, não têm. Infelizmente. Se assim fosse, retribuo com uma questão simples: Então para quê o Estado de Emergência a partir das 00h00 de hoje?

Se há contexto que espelha, claramente, a falta de respeito colectivo e a ausência de sentido cívico e de cidadania de grande parte dos portugueses é precisamente este tempo de convivência com a COVID-19.
Se há, por parte de uma maioria significativa de portugueses, um total desrespeito pelo Estado, pelas Instituições, nomeadamente pelos inúmeros avisos, alertas e orientações, isto é claramente visível nos comportamentos antagónicos dos cidadãos.

Se não, vejamos.

De que valem todas indicações dos profissionais e da Direcção-Geral da Saúde que referiram que as máscaras apenas devem ser usadas em contexto hospitalar, por quem integra grupos de risco ou apresenta sintomas confirmados de contaminação, se houve um claro assalto e esgotamente de stocks destes equipamentos, de forma desmedida, inconsciente e descontrolada, ao ponto de não haver material suficiente nos nossos Hospitais e Centros de Saúde?

De que valem todas indicações dos empresários, do Governo e da Direcção-Geral da Saúde que referiram, constantemente, que não há o risco de falhas no abastecimento das cadeias alimentares, se houve (ainda há) um claro açambarcamento e esgotamento de stocks alimentares diários, de forma inconsciente, descontrolada e egoísta, ao ponto dos portugueses não se preocuparem, minimamente, que o excesso de armazenamento individual significa que muitos outros portugueses não puderam, simplesmente, comprar o que precisam para a normalidade do seu dia a dia?

De que valem todas indicações do Governo e da Direcção-Geral da Saúde que referiram, constantemente, que a concentração e aglomerado de pessoas agrava o risco de contaminação, se os portugueses preferiram, até há cerca de 2 dias, permanecer, em magotes em espaços comerciais de áreas reduzidas, horas a fio em filas de caixas ou ainda nas entradas dos estabelecimentos? Ou ironicamente, encher praias e esplanadas como se de um óptimo verão qualquer se tratasse?

Há muito poucos dias, os portugueses (nos quais me incluo), há semelhança de outros países, foram até às suas varandas e janelas demonstrar a sua solidariedade para com os profissionais de saúde, protecção civil e segurança que têm tido, de forma estóica, um papel cívico e profissional inquestionável na mitigação da COVID-19. Mesmo que, em outros contextos, se indignem contra os mesmos, por exemplo, em situações de greve.
Pena é... e é mesmo pena... que grande partes desses mesmos portugueses sejam os que engrossaram (e engrossam) as filas e os espaços nos hiper e supermercados, e "assaltam", literalmente, as prateleiras. Principalmente, porque não têm o menor respeito pelo seu semelhante, pela pressão profissional, pelo desgaste físico e emocional, e, principalmente, pela exposição ao risco de contágio que colocaram milhares dos trabalhadores destes espaços/cadeias comerciais, sem esquecer, obviamente, todos os que exercem as suas funções na "rectaguarda", como a produção e distribuição.
Àqueles que, por norma, têm das piores condições profissionais, dos empregos mais precários e instáveis, das mais baixas remunerações laborais, não houve o menor sentimento de solidariedade, respeito, consideração... nem uma única salva de palmas.

Não, Sr. Presidente da República, a maioria dos portugueses não tem, não tiveram, neste contexto que vivemos, respeito, comportamento exemplar, sentido cívico e de cidadania.