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Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... É uma zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre tudo e nada.

Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... É uma zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre tudo e nada.

Não há liberdade... sem respeito pela memória/história

Já lá vão 46 anos desde a madrugada de 25 de abril de 1974... aproximamo-nos da meia década, o que, socialmente, leva a que a memória colectiva vá perdendo a sua referência histórica e social.

Soube, pela história familiar, as marcas que a guerra colonial deixou.
Soube, por vivência, que naquela quinta-feira do dia 25 de abril de 1974 não iria sair de casa para ir às aulas (até porque lá em casa já se sabia que "algo" iria acontecer entre 24 e 25 de abril).
Sei, por muito que o queiram esconder e menorizar, a essência e o que estruturou a revolução de abril (a situação militar na Guerra Colonial), com um enorme sentimento de gratidão aos Militares (todos). A história e os factos confirmam-nos a forma como, depois, o Povo soube abraçar uma oportunidade única que o Movimento das Forças Armadas ofereceu, com bravura e coragem dos "Capitães de Abril" em tempos muito particulares (dos quais não tenho, nem nunca tive, a mínima saudade ou saudosismo).
Soube, por vivência familiar, o que foram os tempos do PREC (sem juízos de valor).
Soube, pela experiência e pelas relações familiares, o que foram os tempos complexos (a melhor adjectivação que encontro) do Verão Quente seguinte.
Por convicção política e ideológica (sempre assumidas há décadas) sei reconhecer o 25 de novembro de 75 como um marco único na formação da nossa democracia, tal como o 25 de abril de 74 para a liberdade.
Sei, pelos laços familiares e pelo ENORME respeito, afectividade e consideração que me merece um dos Capitães de Abril que fizeram a Revolução e a fizeram, igualmente, crescer, a importância do Conselho de Revolução durante todo o processo político de transição.
Sei quem foram Otelo Saraiva de Carvalho, Melo Antunes, Vasco Gonçalves, Garcia dos Santos, Vítor Crespo, Sanches Osório, Nuno Fisher Lopes Pires ou Hugo dos Santos. Ou os capitães que tomaram de "assalto" o Rádio Clube Português (RCP), a RTP e o comando militar do Porto: Santos Coelho (RCP), Teófilo Bento (RTP) e Carlos Azeredo (Porto). Entre os cerca de 5.000 militares, anónimos, que saíram à rua nessa quinta-feira.
Sei quem foi António Spínola, Adelino de Palma Carlos e Costa Gomes.
Sei (ainda bem melhor) quem foram Melo Antunes, Vasco Lourenço, Pedro de Pezarat Correia, Manuel Franco Charais, Canto e Castro, Costa Neves, Sousa e Castro, Vítor Alves, Vitor Crespo. Bem como Ramalho Eanes.
Sei, entre outros processos, da importância d' Os Congressos da Oposição Democrática (nomeadamente o 3.º Congresso, realizado em Aveiro no início de abril de 1973).

Sei, pela história, pelos factos, pelas vivências... Mas também sei que a história, e as suas as mutações, e os marcos políticos têm sempre um rosto, têm a sua principal referência (que tantas vezes se quer "esconder").

A verdade é que a Liberdade de Abril tem uma memória e o seu verdadeiro herói: Salgueiro Maia.
Mesmo que o próprio nunca o tenha querido, merece muito mais que um mera lembrança da história. Merece o respeito, a consideração nacional e o reconhecimento colectivo (todo o reconhecimento) pelo papel ÚNICO que desempenhou no "25 de abril de 74".

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Estava a tentar evitar... mas lá tenho que colocar o cravo ao peito.

Vem isto a propósito das cerimónias que assinalam o 46.º aniversário do "25 de Abril"

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E diga-se de passagem... é a primeira vez que o faço (não sei se a última ou não, mas é a primeira). E diga-se ainda mais... principalmente para um fervoroso convicto do 25 de novembro (colocando-o no mesmo patamar que abril de 74, para que conste).

Vem isto a propósito de petições e contra-petições "pró e contra" as cerimónias previstas e anunciadas para a Assembleia da República (AR) e que assinalam o 46.º aniversário do "25 de Abril". E vem igualmente a propósito de toda a polémica que se gerou por causa de uma publicação que fiz no facebook (no seguimento deste post), embora relacionada com a recusa do líder do CDS em marcar presença nas cerimónias e não, propriamente, sobre a realiazação destas.

Importa pois esclarecer... Se o Presidente da Assembleia da República e os Partidos com assento parlamentar entenderem celebrar o 25 de Abril de outra forma não me cria qualquer tipo de constrangimento. Aliás, desde 1977 (altura da primeira cerimónia oficial na AR) que não houve cerimónias em 1983 e 1993 (por dissolução da AR - não estava, portanto, em funcionamento pleno e regular, entenda-se) e em 2011 quando as cerimónias foram transferidas para o Palácio de Belém.

Mas também não me incomoda rigorosamente nada, nem me choca, nem acho que isso seja motivo de qualquer tipo de desrespeito para com os cidadãos em isolamento (forçado ou por opção), pelos que trabalham na linha da frente ou na retaguarda no combate ao COVID-19 (muito menos pelos que, infelizmente, faleceram... antes pelo contrário), nem vista como falta de exemplo cívico.
Há, no calendário anual político (em cada legislatura) quatro pontos altos da democracia e liberdade: o 25 de abril (deveriam acrescentar o 25 de novembro), o 10 de junho, o 5 de outubro e o discurso de Ano Novo.

Regressando ao 25 de Abril (eu que até sou um fervoroso convicto da importância igual do 25 de novembro de 75... um deu-nos a liberdade o outro a democracia).
A AR não vai abrir portas para uma festa ou um arraial ou até mesmo uma manifestação de rua. A Assembleia vai, na continuidade das suas funções e competências, assinalar uma dos mais importantes marcos na história política e social portuguesa. E fá-lo porque sempre se manteve em funções, com um número reduzido de deputados e funcionário. Não fechou portas, não deixou de funcionar... como muitas empresas privadas, serviços públicos, governo, autarquias, take aways, ..., e não me quero referir aos serviços de saúde pelo enorme respeito que merecem.
Com a mesma importância e relevo dos que ficaram em casa (por opção ou imposição) em isolamento social, e bem.

Tal como não me incomodou nada, nem me causou qualquer constrangimento, que a Assembleia da República tivesse o cuidado de manter as suas funções e responsabilidades, nomeadamente nos plenários onde se decidiram as medidas e acções no combate ao surto pandémico. Porque é que as vozes críticas não se revoltaram? Porque é que determinados partidos marcaram presença e não se opuseram ao funcionamento, mais ou menos normal, da AR?

Porquê tanto alarido pelas cerimónias do 25 de abril, este ano, com 130 pessoas?

Excluindo da equação as críticas dos cidadãos, mais ou menos fundamentadas, por entenderem a situação injusta face à imposição do isolamento social (apesar de discordar), a resposta é bem mais preocupante?

E isso sim, é um condenável e deplorável aproveitamento, por parte de alguns partidos e de alguns políticos ou sectores da sociedade, da situação de crise que vivemos, um colossal desrespeito pelos portugueses e um inqualificável ataque à democracia e à liberdade. As mesmas que, hoje, ao celebrar-se o 25 de abril, nos permitem ser do contra, dar voz pública e mediática aos argumentos mais surreais e imbecis, ter opinião, ofender, pensar e expressarmo-nos.
A história já não é, infelizmente, nova... e tem na sua base o, condenável, fundamento ideológico de querer terminar com a celebração e a memória do 25 de abril.

(nota de rodapé: para que conste, para evitar comentários desnecessários ou argumentos de que até há socialistas contra as celebrações, sou social-democrata e, por isso mesmo, a favor dos dias 25: o de abril de 74 e o de novembro de 75... e SEMPRE).

Sobre estudos em tempos de pandemia... telegraficamente

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Sobre "estudos" que confrontam mobilidade com isolamento social e risco de contágio pandémico COVID-19...
Sobre alarmismos sociais e críticas avulsas...
O jornal Expresso publica, na sua edição semanal, um estudo da NOS que indica quais são os Concelhos (Municípios) que mais furaram o confinamento têm mais infectados. Um estudo de abrangência nacional.

O Município de Ílhavo, há cerca de 3 ou 4 dias, tinha sido visto (e criticado) como um "perigo para a saúde pública" face a supostos "maus comportamentos dos seus munícipes". Soaram os alarmes e os dedos pressionaram logo os gatilhos fáceis da crítica (principalmente atrás de um teclado), sem que se tivesse em conta o fim do Estudo e as características dos seus dados.

Pois bem... analisado o mapa e o texto da peça do jornal Expresso deve ter havido um enorme lapso da NOS: esqueceram-se de Ílhavo. É que nem no mapa aparece.

(no mínimo) Curioso...

É um Estudo, senhores... um Estudo!

Divulgado, já noite dentro, pelo jornal Público (versão online) e republicado, hoje, por vários órgãos de comunicação social, um estudo realizado pela empresa de consultadoria PSE demonstrava dois dados que fizeram agitar o dia cinzento e chuvoso: no Domingo de Páscoa cerca de 79% dos portugueses ficou em casa (91% movimentou-se muito próximo da sua habitação) e que, na terça-feira seguinte (dia da semana laboral), esse valor baixou para os 56%; além disso, o Município de Ílhavo surge no estudo como o que registou menor confinamento e apresenta-se como o Município com maior risco COVID-19, em oposição a Ovar (menor risco) ou a muitos municípios do norte onde os valores de infecções são elevadíssimos.

Para a comunicação social estava lançado o soundbite informativo... para as redes sociais e para o alarmismo social estava lançado o caos.
Obviamente, sem qualquer intencionalidade por parte da PSE (especializada em ciência dos dados) e dos autores do estudo que se limitam a monitorizar dados desde 2019 e a apresentá-los, enquanto dados estatísticos, como ferramenta de decisão.

Importa, precisamente por isso, desmistificar a informação porque só assim ela terá o seu real valor.

Os pressupostos. Número de município descritos: 45 (de um total nacional de 308). Número de amostragem: 3.670 pessoas (o que representa um valor médio de 81 pessoas/município). O estudo pretende avaliar taxas de mobilidade, nomeadamente a intermunicipal, e não comportamentos/fundamentos de mobilidade.

A desmistificação.
Começando pelo factor e finalidade do estudo: a mobilidade.
O número de amostragens recolhidas (81 por município, em média) não faz qualquer avaliação prévio sobre o contexto isolamento ou recolhimento. No caso de Ílhavo, não se conhece se as 81 pessoas analisadas (média feita) deveriam ou não estar em isolamento, se tinham condições para estar em isolamento ou se descuidaram o seu dever cívico de isolamento. Não há nenhum valor que quantifique estes contextos. O que o Estudo refere é que 81 pessoas do Município de Ílhavo tiveram comportamentos de mobilidade, isto é, saíram das suas casas. Motivos? Inúmeros: porque precisaram, nem que fosse por uma só vez, de ir às compras; de tratar das reformas (até ao dia 8 de abril); ajudaram um vizinho ou um familiar; deram o seu "permitido" passeio higiénico ou foram passear o animal de companhia; foram à farmácia, provavelmente, até, ao Centro de Saúde; e, com base na referência do estudo à intermunicipalidade (mobilidade de residentes e não-residentes), principalmente porque se deslocaram para o seu ("obrigatório e imprescindível") local de trabalho. Local de trabalho este que, no caso de Ílhavo, tal como se sabe, está muito relacionado com a deslocação até Aveiro ou, mesmo que internamente, até às zonas industriais da Mota e das Ervosas ou da própria Vista Alegre (como exemplos).
Se para muitos portugueses a ausência de aulas presenciais; a necessidade (forçada em alguns casos) de alguns pais de cuidar dos filhos em casa; a possibilidade profissional de realizar teletrabalho; infelizmente, por despedimento ou por regime de layoff; ... para uma grande maioria, o desempenho profissional fez-se (e faz-se) no local de trabalho: sem possibilidade de recurso ao teletrabalho; para não perder o emprego; porque a sociedade precisa de alimentação; de produção de bens e serviços; de segurança; de gestão administrativa territorial; de informação; da recolha do lixo; do abastecimento de água, gás, combustíveis e electricidade; dos correios; dos serviços e profissionais de saúde; da protecção civil; de transportes; de...; de...; de... Porque para que muitos possam (e bem) cumprir o seu dever de recolhimento... outros tantos há que têm que compensar o funcionamento de uma sociedade.

E concluindo a desmistificação....
O Estudo tem como referência dados de base para comparação da DGS até 11 de abril.
Ora, analisando esse relatório a DGS apresenta-nos um total nacional de 15.987 casos positivos COVID-19 (média de 52 casos por município). Em Ílhavo a DGS apresentava-nos, a 11 de abril, um total de 87 casos positivos. Nesta data, infelizmente, o Lar de S. José era já um contexto que pesava nestes valores. Se excluirmos esta situação que a todos preocupa, Ílhavo teria, à data, cerca de 45 casos positivos no Município. Bem abaixo do valor médio nacional e muito longe, felizmente, do panorama na região centro e no norte do país.

O risco estatístico fica longe, felizmente, da realidade... independentemente de, na conjuntura em que vivemos, UM caso ser sempre UM lamentável caso.

E posto isto... independentemente do valor reconhecido do Estudo, os que puderem, por favor, Fiquem Em Casa.
Aos que necessitam de mobilidade e de manter, como refere o Estudo, os seus comportamentos e hábitos de mobilidade pré-Covid, cuidem-se e protejam-se.

#VaiFicarTudoBem... já nos basta o vírus para combater, não precisamos de nos "gladiarmo-nos" uns aos outros.

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Um lugar de destaque... com saudade.

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A descoberta do autor foi (demasiado) tardia... há cerca de 14 anos (em 2006).

A descoberta da sua escrita foi "amor à primeira vista", incondicionalmente.

Até hoje, e espero que sempre, Luís Sepúlveda teve e tem um muito especial destaque na modesta biblioteca doméstica.

De activista político, a jornalista, passando por realizador, fotógrafo e argumentista, seria como escritor, um excelente escritor, que deixou a sua marca na literatura mundial.

Vai deixar um vazio enorme e uma saudade igual que será sentida, essencialmente, pela ausência da escrita.

Descanse em Paz.

Nome de Toureiro (o primeiro livro que li)
O Velho Que Lia Romances de Amor
Patagónia Express
Diário de um Killer Sentimental
O fim da história
Últimas Notícias do Sul
Uma História Suja
História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar
A sombra do que fomos
Palavras em tempos de crise
História do caracol que descobriu a importância da lentidão


Da irresponsabilidade ao egoísmo...

Se há alturas em que a política surpreende pela positiva e serve de referência é na actual conjuntura que vivemos fruto do surto pandémico do COVID-19.
Mais do que procurar dividendos políticos, mais do que criar ruído ou distracções, é inquestionável que o foco deve centrar-se na necessidade de afirmar um Sentido de Estado que permita a quem tem a responsabilidade de gerir os destinos do país tomar decisões e implementá-las, para além do dever de colaboração.
E nisso, maioritariamente, a verdade é que os partidos políticos têm sido exemplares (veja-se, como mero exemplo, Rui Rio, goste-se ou não... nem está em causa). Mesmo que isso custe, no imediato, mais ou menos visibilidade, menos popularidade ou queda mais ou menos acentuada nas sondagens e amostragens de intenções de voto. Primeiro, as pessoas e o país... depois o partido.

Por outro lado, as vozes, mais ou menos críticas, de muitos autarcas (PS, PSD, CDS ou eleitos pelos chamados Movimentos Independentes) têm-se pautado pela legítima defesa dos interesses municipais e do bem-estar dos munícipes, mais do que pelos benefícios políticos ou eleitoralistas, aliás, questionáveis face ao desgaste e exposição pública a que estão sujeitos (à crítica, à incompreensão, ao permanente escrutínio por força do assumir muitas responsabilidades que deveriam ser de terceiros, nomeadamente da Administração Central/Governo).
Além disso, são mais as intervenções e as mediações fazendo eco da ansiedade e do aperto das pessoas e instituições, do que o embandeirar em arco do esforço e dos recursos despendidos na mitigação deste enorme desafio para o qual ninguém estava, minimamente, preparado.
Também nas autarquias, face à pressão da conjuntura e da tragédia, é maior a preocupação em cuidar das pessoas, do território, da comunidade, do que na politiquice. Primeiro, os cidadãos, as famílias e as instituições, ao mesmo tempo que se perspectiva um futuro (pós emergência) bem complexo, económica e financeiramente difícil e complicado/austero.É, igualmente, o tempo do respeito, do reconhecimento e, particularmente, da solidariedade e da ajuda. É o tempo do "Estamos Juntos", "Vai Ficar Tudo Bem".

Mas se isto parece perfeitamente óbvio, evidente e cristalino, não se percebe porque é que tem que surgir sempre alguma coisa que escapa à normalidade e ao aceitável.
No início do surgimento da pandemia em Portugal, por mais explicações médicas e orientações da Direcção-Geral de Saúde sobre os perigos de contágio devido à concentração de pessoas, por mais alertas que foram feitos a informar que não iria haver rotura de stocks na distribuição alimentar, os portugueses passaram horas a fio, entalados entre filas e encontrões, dentro dos hipermercados (já para não falar da praia).
O medo (e eventualmente o tamanho reduzido das dispensas e das arcas frigoríficas), para além da necessidade de impor restrições e condicionantes no acesso aos super e hipermercados, a situação acalmou.
Mas não foi apenas esta situação... Por mais generalizado e premente que tenha sido o apelo "pela sua saúdinha... fique em casa", a preocupação pelo bem-estar mental e físico (que se lixe a saúde) de muitos portugueses foi mais forte, transformando as ruas, marginais, paredões, calçadas, jardins e afins em aglomerados populacionais, a fazer inveja às mais consistentes manifestações sindicais da CGTP ou da UGT, no Terreiro do Paço.
Mais recentemente, são as proliferas "fugas" ao recolhimento obrigatório para cidadãos sinalizados com COVID-19 e confinados ao tratamento domiciliário. Do género... "ou à moralidade...". Se eu tenho, nada de egoísmos, toca é a partilhar com a malta. Enfim...Se estes comportamentos e atitudes dos cidadãos são, no mínimo, condenáveis (e algumas configuram como crime público), é incompreensível e inqualificável a falta de solidariedade e de respeito por quem tem responsabilidades públicas acrescidas e devia ser exemplo de cidadania, de consideração, de protecção, etc.

Nunca vi, em situação alguma, mesmo nas mais desesperantes (Ovar, Vila Real, Aveiro, Ílhavo, Santo Tirso, Albergaria-a-Velha entre outras mais... a lista seria mais longa), qualquer das vozes dos autarcas na defesa das suas gentes e das suas comunidades, a virem publicamente desculparem-se com a realidade de outros municípios ou regiões. Nunca vi, nenhum outro Presidente de Câmara comparar dimensões, contextos, realidades, dramas (acima de tudo) para benefício do seu Município ou Região e, dessa forma, pressionar o Governo. Todos desesperaram, todos se colocaram ao lado dos seus munícipes, das suas associações, dos seus idosos, inclusive ao lado dos seus municípios vizinhos e dos seus pares.
As declarações, hoje, na comunicação social, do presidente do município de Gondomar, simultaneamente presidente da Protecção Civil Distrital do Porto são graves e de uma enorme falta de respeito pelos doentes críticos e pelas instituições e, igualmente, uma desconsideração pelos seus colegas autarcas e o esforço que têm demonstrado na defesa das suas comunidades. Os 10 mil testes que a DGS colocou na zona Centro não são comparáveis, nomeadamente pela realidade, aos mais de 60 mil teste disponibilizados para a zona Norte. Não são, nem têm que ser... porque não pode, nem deve, haver lugar a qualquer tipo de comparações.

Mas infelizmente, o dia de hoje tinha de ser pródigo na anormalidade.

Vila Nova de Famalicão é um dos municípios no país mais afectados pela pandemia (mais de 150 casos) e dos primeiros focos de infecção em Lares (ainda a procissão viral, em Portugal, ia no adro). Já nessa altura foram bem audíveis as preocupações, as críticas e os apelos do Presidente da Autarquia. Ainda ontem faleceram 5 idosos num Lar naquele município.
Surpresa... apesar do tempo "farrusco", Famalicão acordou cheia de pujança e dinamismo.
Ao Estado de Emergência, ao sentido de responsabilidade e segurança colectiva, à preservação da saúde pública, aos apelos para o confinamento e recolhimento familiar, a Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão decidiu abrir as portas da feira e promover a sã e calorosa manifestação de socialização, provocando um aglomerado populacional e um engarrafamento rodoviário a lembrar um claro dia de verão numa qualquer localidade da nossa costa.
Pior... os argumentos do Presidente da Autarquia são qualquer coisa de surreal.
Se Vila Nova de Famalicão não se preocupa em proteger, cuidar e respeitar as suas gentes, no mínimo... respeitem os profissionais de saúde, os que mantêm o país "vivo" e a funcionar, respeitem os outros. Sem isso não merecem respeito.
Enquanto há gente que, infelizmente, vai morrendo.

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(Vila Nova de Famalicão - 08ABR2020 / trânsito para a feira)

Quando a idade é mais que um "posto"... é uma lição de vida.

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Habituei-me, desde muito cedo (até por razões familiares), a olhar para Ramalho Eanes de várias perspectivas:
- o (quase marechal... patente recusada pelo próprio) General, então Tenente-coronel, como um dos rostos da conquista da democracia no 25 de novembro de 1975, após um primeiro impulso e percursor trabalho do denominado "Grupo dos Nove" (Melo Antunes, Vasco Lourenço, Pedro de Pezarat Correia, Manuel Franco Charais, Canto e Castro, Costa Neves, Rodrigo Sousa e Castro, Vítor Alves, Vitor Crespo);
- como o Presidente da República da minha adolescência e juventude (10 anos, entre 1976 e 1986, com primeiros-ministros desde Pinheiro de Azevedo a Cavaco Silva, passando por Mário Soares, Maria de Lurdes Pintassilgo ou Sá Carneiro, por exemplo);
ou
- com aquele porte austero e cinzento, demasiado estadista e militar, mas (e são inúmeros os exemplos disso) com um sentido ético e cívico inquestionável.

Quem viu, no dia 2 de abril, a entrevista do General Ramalho Eanes à RTP (ou reviu depois ou se apercebeu, mais tarde, do facto tornado viral) muito dificilmente ficará indiferente ao "ponto alto" ou ao "momento chave" dos 30 minutos da conversa com a jornalista do principal canal da estação pública. Podemos dividir esse momento em duas partes.
Primeiro, o enquadramento: "(...) e eu falo porque sou um velho, tenho 85 anos… nós, os velhos, devemos pensar que a nossa situação é igual à das outros. E se alguma coisa há, é a obrigação suplementar de dizer aos outros que isto já aconteceu, que se ultrapassou, que vai ser ultrapassada”.
Depois, a sinceridade carregada de uma emoção demasiado rara em Ramalho Eanes: “Nós, os velhos, vamos ser os primeiros a dar o exemplo. Não saímos de casa, recorremos aos cuidados que nos são indicados e mais... quando chegarmos ao hospital, se for necessário, oferecemos o nosso ventilador ao homem que tem mulher e filhos”.

Não há forma de ficar indiferente... somos um povo de emoções, solidário, combativo. E se há um comovente choque com as palavras do primeiro Presidente da República pós 25 de Abril e de Novembro, a emoção cresce porque sabemos reconhecer que, num contexto real, Ramalho Eanes, pelo seu carácter como cidadão, pelo seu político sentido de Estado e pelos seus princípios militares, faria o que afirmou.

Mas é precisamente neste ponto que tenho que discordar do militar do MFA e do Conselho de Revolução.
Seja numa conjuntura de normalidade ou num contexto de crise profunda, como a que vivemos hoje, não serão raros os momentos (difíceis, complexos e não desejados) em que um médico tenha de tomar, de forma consciência, ética e técnica, opções de escolha de vida. Porque isso é, por muito que custe, também um acto médico.
Mas o que está em causa nas emotivas (e conscientes) palavras do General Ramalho Eanes não é essa realidade. É a assumpção pessoal, individual, de uma opção entre duas vidas assente num pressuposto: a idade.
Nós não temos uma cultura de valorização da idade, da velhice (até mesmo pela forma como usamos a palavra "velho", em contraponto com idoso, sénior ou maior idade) como tem a cultura asiática, por exemplo (passe a ironia geográfica do momento), apesar da afectividade com que tratamos os nossos pais ou os nossos avós e bisavós e da ligação que temos com estes, de forma genérica e global. Mas a sociedade, enquanto estrutura, não acompanha tão afincadamente estes sentimentos.
Por isso mesmo, importa demonstrar um enorme sentimento de gratidão pela nobreza cívica do General mas, respeitosamente, dizer-lhe que "Não... Obrigado, mas não".
A nossa sociedade tem de procurar todos os momentos e todas as oportunidades que a vida nos dá para valorizarmos os VELHOS. Por todas as razões: tempo de vida, o que já deram à sociedade, o saber e a experiência. Mal vai a sociedade, o Estado ou o país que perde este respeito pela "idade", como se fosse um estorvo, um fardo ou só porque se aproxima do "fim da linha".

E, acima de tudo, porque da mesma forma que a Vida não tem um preço, a mesma Vida não se mede/pesa por um mero exercício geracional. A Vida vale por si mesma, pelo valor universal que tem e pela valorização do esforço que merece em ser salva, por tudo e em qualquer circunstância. Acredito, pelos profissionais de saúde que tenho na família e pelos amigos, que qualquer médico saberá respeitar, defender e valorizar. E... decidir quando e se for necessário ou irremediável.

("Estado de emergência. A entrevista na íntegra a Ramalho Eanes" - RTP1)