Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... É uma zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre tudo e nada.

Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... É uma zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre tudo e nada.

Quando a idade é mais que um "posto"... é uma lição de vida.

general ramalho eanes.jpg

Habituei-me, desde muito cedo (até por razões familiares), a olhar para Ramalho Eanes de várias perspectivas:
- o (quase marechal... patente recusada pelo próprio) General, então Tenente-coronel, como um dos rostos da conquista da democracia no 25 de novembro de 1975, após um primeiro impulso e percursor trabalho do denominado "Grupo dos Nove" (Melo Antunes, Vasco Lourenço, Pedro de Pezarat Correia, Manuel Franco Charais, Canto e Castro, Costa Neves, Rodrigo Sousa e Castro, Vítor Alves, Vitor Crespo);
- como o Presidente da República da minha adolescência e juventude (10 anos, entre 1976 e 1986, com primeiros-ministros desde Pinheiro de Azevedo a Cavaco Silva, passando por Mário Soares, Maria de Lurdes Pintassilgo ou Sá Carneiro, por exemplo);
ou
- com aquele porte austero e cinzento, demasiado estadista e militar, mas (e são inúmeros os exemplos disso) com um sentido ético e cívico inquestionável.

Quem viu, no dia 2 de abril, a entrevista do General Ramalho Eanes à RTP (ou reviu depois ou se apercebeu, mais tarde, do facto tornado viral) muito dificilmente ficará indiferente ao "ponto alto" ou ao "momento chave" dos 30 minutos da conversa com a jornalista do principal canal da estação pública. Podemos dividir esse momento em duas partes.
Primeiro, o enquadramento: "(...) e eu falo porque sou um velho, tenho 85 anos… nós, os velhos, devemos pensar que a nossa situação é igual à das outros. E se alguma coisa há, é a obrigação suplementar de dizer aos outros que isto já aconteceu, que se ultrapassou, que vai ser ultrapassada”.
Depois, a sinceridade carregada de uma emoção demasiado rara em Ramalho Eanes: “Nós, os velhos, vamos ser os primeiros a dar o exemplo. Não saímos de casa, recorremos aos cuidados que nos são indicados e mais... quando chegarmos ao hospital, se for necessário, oferecemos o nosso ventilador ao homem que tem mulher e filhos”.

Não há forma de ficar indiferente... somos um povo de emoções, solidário, combativo. E se há um comovente choque com as palavras do primeiro Presidente da República pós 25 de Abril e de Novembro, a emoção cresce porque sabemos reconhecer que, num contexto real, Ramalho Eanes, pelo seu carácter como cidadão, pelo seu político sentido de Estado e pelos seus princípios militares, faria o que afirmou.

Mas é precisamente neste ponto que tenho que discordar do militar do MFA e do Conselho de Revolução.
Seja numa conjuntura de normalidade ou num contexto de crise profunda, como a que vivemos hoje, não serão raros os momentos (difíceis, complexos e não desejados) em que um médico tenha de tomar, de forma consciência, ética e técnica, opções de escolha de vida. Porque isso é, por muito que custe, também um acto médico.
Mas o que está em causa nas emotivas (e conscientes) palavras do General Ramalho Eanes não é essa realidade. É a assumpção pessoal, individual, de uma opção entre duas vidas assente num pressuposto: a idade.
Nós não temos uma cultura de valorização da idade, da velhice (até mesmo pela forma como usamos a palavra "velho", em contraponto com idoso, sénior ou maior idade) como tem a cultura asiática, por exemplo (passe a ironia geográfica do momento), apesar da afectividade com que tratamos os nossos pais ou os nossos avós e bisavós e da ligação que temos com estes, de forma genérica e global. Mas a sociedade, enquanto estrutura, não acompanha tão afincadamente estes sentimentos.
Por isso mesmo, importa demonstrar um enorme sentimento de gratidão pela nobreza cívica do General mas, respeitosamente, dizer-lhe que "Não... Obrigado, mas não".
A nossa sociedade tem de procurar todos os momentos e todas as oportunidades que a vida nos dá para valorizarmos os VELHOS. Por todas as razões: tempo de vida, o que já deram à sociedade, o saber e a experiência. Mal vai a sociedade, o Estado ou o país que perde este respeito pela "idade", como se fosse um estorvo, um fardo ou só porque se aproxima do "fim da linha".

E, acima de tudo, porque da mesma forma que a Vida não tem um preço, a mesma Vida não se mede/pesa por um mero exercício geracional. A Vida vale por si mesma, pelo valor universal que tem e pela valorização do esforço que merece em ser salva, por tudo e em qualquer circunstância. Acredito, pelos profissionais de saúde que tenho na família e pelos amigos, que qualquer médico saberá respeitar, defender e valorizar. E... decidir quando e se for necessário ou irremediável.

("Estado de emergência. A entrevista na íntegra a Ramalho Eanes" - RTP1)