Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

28
Out 10
Publicado na edição de hoje, 28.10.2010, do Diário de Aveiro.

Cheira a Maresia
Inverno quente...

Quando menos se espera, quando se afirma que nada acontece, eis que o País, a Região e a cidade entram em perfeito estado de ebulição, fazendo aquecer um Outono vacilante no que respeita à sua temperatura climática.
Com a habitual azáfama do regresso ao trabalho ou à escola após o período das férias de verão, surgiram os primeiros sintomas que faziam antever uma agitação política e social neste final de ano: o desemprego aumentava (mesmo com a influência do forte período de trabalho sazonal do verão), a economia estagnava, encerram mais portas empresariais do que as que se abrem.
A agravar a situação surge o “fantasma” do Orçamento de Estado para 2011: ameaça de demissão do governo face ao eventual chumbo parlamentar, a indefinição do PSD, o estigma da entrada do FMI, … até que surge a fase negocial (a “destempo”, contrariando um discurso de ruptura e alternativa, para desencanto de muitas vozes: por exemplo, Ângelo Correia e António Nogueira Leite).
Pelo meio explode a “agitação” com maior impacto social e económico. O anúncio (em alguns casos, implementação imediata) do maior ataque à capacidade de sobrevivência e de sacrifício dos cidadãos, das famílias e das empresas (pelo menos as PME’s) nos últimos 25 anos: cortes salariais, redução das prestações sociais e das deduções fiscais, aumento de impostos, aumento dos preços e do custo de vida, … tudo a fazer prever um ano de 2011 de forte recessão que se reflectirá nos próximos três anos, pelo menos, face à urgente necessidade de solução do problema financeiro (défice orçamental) com medidas e políticas que afundam a outra face da moeda: a economia. Do ponto de vista político, o PSD assumindo este processo negocial que pouco acrescentará a um orçamento mau e dispensável, só resultará numa diminuição de espaço e manobra política para se afirmar como alternativa governativa e marcará na opinião pública e no combate/confronto político uma “colagem” às medidas orçamentais e sociais do governo, pagando uma “factura” que não é a sua.
Sendo certo que há sempre mais vida para além do défice, a realidade é que este Orçamento marca a vida… do país, das regiões e dos cidadãos. E marca igualmente a percepção do aumento da agitação social, da contestação e da criminalidade. Mas apesar disso, e não obstante, este período é igualmente marcado por um conjunto de acontecimentos que só revelam a agitação e o ambiente social que definem este final de ano: com todas as dúvidas, com providências cautelares, com compromissos de isenções aparentemente quebrados (veja-se o caso do pórtico entre o nó do Marnoto e a Gafanha da Nazaré), com todo um processo de cobranças surreal, as SCUT do Norte e Centro litoral deixaram de ser gratuitas e passaram a ser portajadas, constituindo mais uma medida suplementar de sacrifício nacional ao cidadão, às empresas, e como se isso não bastasse, às relações comerciais, sociais e turísticas com a vizinha Espanha (recordando a expressão “orgulhosamente sós”? Para lá caminhamos…).
E nem mesmo a cidade se alheia deste período conturbado e controverso: num espaço de duas semanas, aparentemente face a dificuldades financeiras e estruturais, Aveiro vê-se a braços com os anúncios de demissão do presidente do Beira-Mar e do director artístico do Teatro Aveirense.
Por último, como se já não houvesse conflitualidade suficiente, os Hipermercados e as grandes superfícies comerciais vêem os seus horários de funcionamento alargados aos Domingos e Feriados, entre a contestação laboral e do comércio tradicional. Não acredito que esta medida crie mais oito mil postos de trabalho como afirma o sector (traz é mais esforço e sacrifício aos trabalhadores existentes), como também não ache que este alargamento prejudique o comércio tradicional, face à falta de protecção e apoio, para além do claro desnível concorrencial do mercado. O que acredito é que este alargamento deveria ter sido sujeito a um estudo aprofundado (inclusive, face à nova realidade económico-financeira) que tivesse em conta áreas social, económica, laboral e de sustentabilidade.
Nestes tempos conturbados, há a certeza que o final de 2010 e o arranque de 2011, mesmo que em pleno Inverno, vão “aquecer” o País, as famílias e os cidadãos… mesmo que para nosso descontentamento.
publicado por mparaujo às 07:43

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