Entre a Proa e a Ré
O fim da linha…
A semana que terminou centrou a discussão aveirense no ainda dúbio plano nacional de transportes que prevê o encerramento da Linha do Vouga, em toda a sua extensão: entre Aveiro e Serenata do Vouga, e entre Albergaria-a-Velha e Espinho. De repente, bem antes de mais explicações e informação por parte do Governo, uma grande parte da comunidade, à qual se juntou a vertente política, iniciou um processo crítico quanto à medida tomada pelo actual governo, como se não houvesse amanhã.
O primeiro aspecto a reter é que, num ápice, toda a gente (cidadãos, autarcas, políticos, partidos) veio para a “praça pública” defenderem a Linha do Vouga e mostrarem a sua indignação para com o encerramento da histórica (e pouco resta para além disso) linha do Vouguinha. Infelizmente a realidade da ligação ferroviária era já conhecida há algum tempo. Por exemplo, em 2009, foi alvo de um estudo inicial de viabilidade (onde estive envolvido), entretanto inacabado, e que demonstrava a crueldade dos factos e dos números. Na altura, ninguém se preocupou com a linha e com o seu futuro. Infraestruturas degradadas, equipamento circulante obsoleto e em mau estado, péssima oferta de horários, estações e apeadeiros sem segurança e condições de utilização…
Fui, em tempos, utilizador muito regular da linha… Sou conhecedor, mesmo que limitado, da sua história, do seu papel social e ainda da sua ligação a Viseu. Embora reconheça a importância histórica e social da Linha do Vouga, e me entristece o seu eventual encerramento, a factualidade dos números e da conjuntura são determinantes e “cruéis”: por exemplo, entre Aveiro e Sernada, 610 mil passageiros num ano representam cerca de 1600 passageiros por dia, dando uma média de 46 passageiros por circulação (dados da CP). Valores que não viabilizam qualquer sustentabilidade de um serviço de transportes colectivos, face aos seus elevados custos de exploração (nem mesmo no transporte urbano de passageiros).
Por outro lado, excluindo os terminais de Aveiro e de Águeda (com maior número de passageiros) a realidade é que é diminuta a sua utilização ao longo do troço. A linha está estruturada fora dos espaços urbanos, sem condições de acessibilidade (veja-se o exemplo do apeadeiro em Azurva junto aos tanques) e compete, por exemplo entre Eixo e Aveiro, com a melhor linha de transportes urbanos da MoveAveiro que circula no interior das comunidades.
Participei num inquérito realizado em 2009, na Zona Industrial de Aveiro, junto das empresas aí sediadas, e eram inexpressivos os utilizadores, ou quem pretendesse ser, da infraestrutura ferroviária. A Linha do Vouga, desde os tempos da sua ligação a Viseu, foi sendo votada ao “abandono” e desinteresse. Não foram feitas nenhumas acções para a sua reestruturação ou viabilização. Aos poucos e poucos foi definhando sem que ninguém se insurgisse, até hoje (pese embora algumas campanhas quando alvo de anteriores tentativas de encerramento). E não houve empenho quer por parte da CP, quer do poder político, autárquico e das comunidades (numa responsabilidade comum). A Linha foi morrendo. E mesmo quando de se fala nos cerca de 3 milhões de euros investidos na automatização das passagens de nível, é bom que se saiba que este investimento faz parte de uma imposição europeia ao nível da segurança ferroviária.
O que importa agora é pensar no futuro da Linha do Vouga, concretamente no seu canal e nas suas infraestruturas.
Por exemplo, entre Carcavelos (Requeixo) e Aveiro a criação de um pista ciclável utilizando um canal excepcional e praticamente plano. Não só do ponto de vista do lazer mas, principalmente, como processo de mobilidade. Além disso, as Juntas de Eirol e Eixo podem reaproveitar os edifícios das estações para espaços públicos ou associativos.
Por outro lado, a Câmara de Aveiro tem agora uma oportunidade única para, finalmente, poder abrir ao trânsito a ligação entre Esgueira e o Túnel da Estação pela zona nascente da Avenida, inacabada há tempo demasiado.
Por fim, poderá ser esta uma argumentação válida para que Águeda e Aveiro reclamem a ligação rodoviária, sem cair no erro de ser em perfil de auto-estrada evitando-se custos acrescidos para os utilizadores (preferencialmente em trajecto “IC ou IP”).
Uma boa semana…

