Publicado na edição de hoje, 12 de junho, do Diário de Aveiro.
Debaixo dos Arcos
Pareceu brincadeira... mas foi sentido.
Comecemos pelos factos. A imagem cada vez mais deteriorada dos políticos, da política, das instituições, da função do Estado, tem afastado os cidadãos da participação activa, do interesse pelas causas públicas (excepção para as manifestações; aguardemos pela próxima greve geral). E por mais razões ou fundamentação que queiramos encontrar para justificar esta realidade (a crise, o desespero das famílias e dos trabalhadores, o desemprego, as perdas na economia e no desenvolvimento) este desencanto e descontentamento social tem muito mais de responsabilidade dos próprios agentes políticos e dos partidos (é interessante realizar-se o exercício de verificar quantos candidatos às autárquicas 2013, pelo PSD, não têm o símbolo do partido nos cartazes de campanha), do governo e, a “cereja em cima do bolo”, daquele que é, ou deveria ser, o garante da defesa e preservação dos valores políticos e democráticos: o Presidente da República. Se dúvidas houvesse basta recuperar e ler o discurso surreal e completamente distante da realidade de um país, a sonhar com um futuro desconhecido sem a mínima preocupação com um presente bem concreto e “negro”.
Mas sejam quais forem as concepções ideológicas, os princípios legítimos e válidos que sustentem a, cada vez mais, necessária participação cívica e envolvimento dos cidadãos, a verdade é que a democracia seria envolta em preocupantes fragilidades sem a existência dos partidos políticos, da sua representatividade, sem as instituições políticas. Independentemente da negatividade da imagem política ainda há “luzes de esperança”.
Durante este mandato autárquico (quase a chegar ao fim), a Mesa da Assembleia Municipal de Aveiro promoveu, desde ao ano lectivo 2010/2011, a Assembleia Municipal Jovem, entre outras iniciativas complementares com o normal funcionamento do órgão deliberativo municipal (“Aveiro à Conversa”, visitas de estudo, “As freguesias vêm à Assembleia”, debates, apresentações de livros, entre outros). Um projecto que se pretendeu diferente do conhecido “Parlamento Jovem”, pelo envolvimento de todas as escolas e estabelecimentos de ensino do Concelho, professores e, principalmente, os alunos, com regularidade e sistematização. Durante três anos, uma vez em cada período escolar, os jovens deputados representantes das escolas, debateram temáticas como voluntariado e inclusão social; ambiente; valores e sociedade; planeamento e urbanismo; cidadania e participação; solidariedade social; e actividades e tempos livres. Feito o balanço final (aguardando-se a perspectiva da sua continuidade após as eleições), em função das reacções dos alunos, os objectivos que sustentaram a realização desta iniciativa foram perfeitamente atingidos, não só pela durabilidade do projecto (três anos), mas pelo que representou e o impacto que teve nas escolas e nos alunos (restando apenas o senão da aplicação prática das inúmeras propostas apresentadas, fruto das contingências económicas que se vivem). A Assembleia Municipal Jovem Municipal foi um espaço de debate de ideias e projectos, de construção de realidades e programas, de intervenção política, social e cultural, e do uso do direito de cidadania, envolvendo a comunidade escolar juvenil do Concelho de Aveiro. Teve como propósito desenvolver e aprofundar nos jovens o gosto pelos valores e espírito democráticos, proporcionando-lhes a possibilidade de serem sujeitos activos num processo de decisão político com influência na sua vida social, dentro das regras do debate parlamentar e das regras da formação de decisão em vigor na Assembleia Municipal de Aveiro, enquanto órgão deliberativo e fiscalizador da actividade municipal.
Sendo conhecidos alguns envolvimentos de vários jovens nas estruturas políticas locais (“jotas”), houve dois momentos particulares que marcaram a última sessão da Assembleia Municipal Jovem realizada na semana passada (quinta-feira, dia 6). Momentos que reflectem o alcance dos objectivos do projecto e que traduzem o impacto da iniciativa nos jovens. É certo que a vida vai trazer novas imagens e realidades, novas visões da sociedade, novas concepções. Mas face ao que foi referido no início do texto, à projecção negativa da imagem dos políticos e da política, não deixa de ser interessante e de valorizar a coragem e frontalidade com que dois jovens (da escola EB de S. Bernardo e da escola EB de Oliveirinha) assumiram publicamente a vontade futura de fazerem carreira na política, como políticos.
Que ao desejo deles se junte o ânimo para lutarem por esse seu, legítimo, sonho, mas igualmente a capacidade de poderem mudar a realidade política e dos partidos a nível local ou nacional. E já agora… que não precisem de emigrar.

