O Circo chegou ao Governo
Normalmente a expressão significaria, noutro (e real) contexto, algo de jubiloso e gratificante: o circo chegou à cidade (vila ou aldeia). E tal seria motivo de regozijo local.
Mas neste caso, o "circo" tem obviamente um sentido depreciativo, embora real: a 'palhaçada' foi mesmo instaurada no Palácio de S. Bento (Governo).
E se a demissão, anunciada ontem, do ex-ministro das Finanças, Vítor Gaspar, apesar da surpresa foi algo perceptível e racional, se a escolha de Maria Luís Albuquerque, apesar de outros posicionamentos (como, por exemplo, o actual ministro da Saúde, Paulo Macedo) tem o mesmo sentido de racionalidade e de percepção, o mesmo não se pode dizer dos acontecimentos que marcaram o dia de hoje e que anteciparam a tomada de posse da nova ministra das Finanças.
Sempre foi um facto que se sabia que a maior consistência ou fragilidade do Governo, desde a sua tomada de posse em 2011, dependeria muito mais da consistência da coligação, do que da instabilidade social ou do próprio Presidente da República.
Poderíamos repetir infinitamente todos os erros da governação, podemos estar horas a fio a debater as opções políticas do governo e os seus impactos na vida dos portugueses e da sociedade. Mas a realidade é que os factos surpreendentes com que Portugal se confrontou, hoje, são de uma "surrealidade" que ultrapassa qualquer dessas discussões.
Nestes dois anos de governação, houve claros momentos (tal como no caso do pedido de demissão de Vítor Gaspar) em que o CDS, nomeadamente Paulo Portas, deveria ter "dado um murro na mesa", ter tomado posições mais drásticas (para alguns, mais dramáticas), ter colocado em causa a continuidade da coligação governamental: a TSU, os cortes nas reformas (bandeira tão emblemática para o líder centrista), os Orçamentos de Estado (com ou sem chumbo), o agravamento das medidas de austeridade que colocaram em causa a estabilidade social de inúmeros cidadãos, famílias e empresas. Já para não falar nas constantes conflitualidades com o então ministro das Finanças, Vítor Gaspar.
Agora que Vítor Gaspar estava fora do Governo, depois de há bastantes meses ter desaparecido o "peso político" de Miguel Relvas, tudo se perfilava para que o CDS e Paulo Portas pudessem ter mais relevância governativa.
Contrariando todo o discurso de sentido de Estado até agora bradado a sete ventos por Paulo Portas, contrariando a imagem de "animal político" que muitos adjectivaram, contrariando todas as acções que desenvolveu nos tempos mais recentes ao nível da diplomacia económica no seu ministério (veja-se o caso do negócio dos Magalhães, no México, ou as relações com a Venezuela e Brasil), contrariando inclusive a sua responsabilidade no processo da "Reforma do Estado", o líder do CDS e de um dos dois partidos da coligação vem a terreiro fazer uma birrinha política sem sentido, sem pés nem cabeça, sem qualquer razoabilidade ou racionalidade, de uma infantilidade sem precedentes e justificação, só porque não gosta da ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque (como nunca gostou de Vítor Gaspar).
Saímos de uma recente visita intercalar, estamos em pleno arranque da oitava avaliação da Troika... Paulo Portas foi tudo menos honesto, politicamente.
Aliás, é por estas (e por outras, obviamente) que os portugueses deixaram de acreditar na política, nos partidos, nas instituições e na democracia. Com políticos assim... muito facilmente se deixará de acreditar no próprio país.
Recordemos, para memória futura, algumas das expressões recentes de Paulo Portas, em momentos-chave da governação.
"Vivo uma circunstância política em que tenho de cumprir com o meu dever perante o país e devo também procurar ser quem sou, o que significa estar em paz com a minha consciência." 05-05-2013
"Uma coligação não é uma fusão. (...) Achei simpáticas as declarações do primeiro-ministro ontem e, como creio que fiz questão de dizer, não tenho a jactância de atribuir apenas ao CDS determinados pensamentos." 05-05-2013
"As eleições são daqui a dois anos e meio." 08-05-2013
"Esta legislatura começou praticamente com a 'troika'. Esta legislatura só fará sentido quando, no final, a 'troika' já cá não estiver para que a independência seja recuperada." 03-06-2013
Nota final. Pior na fotografia ficou o líder do PS, António José Seguro. Para quem (e o partido que lidera) sempre criticou (e bem) a ânsia da conquista do poder a todo o custo pelo actual Governo, não poderia ter pior discurso do que aproveitar esta irresponsabilidade política (ou palhaçada política, para ser mais preciso) de Paulo Portas para tentar conquistar o lugar em S. Bento. De incoerências está o país farto (e os portugueses).
Comunicado de Paulo Portas
Declaração de Pedro Passos Coelho
Desmentido das declarações de Paulo Portas pelo Gabinete de Pedro Passos Coelho
(créditos da foto: Dinheiro Vivo)
