O Circo chegou ao Governo (actualizado)
Publicado na edição de hoje, 4 de julho, do Diário de Aveiro.
Debaixo dos Arcos
O Circo chegou ao Governo
Normalmente a expressão significaria, noutro (e real) contexto, algo de jubiloso e gratificante: o circo chegou à cidade (vila ou aldeia), e tal seria motivo de regozijo local. Mas neste caso, o "circo" tem obviamente um sentido depreciativo, embora real: a 'palhaçada' foi mesmo instaurada no Palácio de S. Bento (Governo).
Se a demissão, anunciada na segunda-feira, do ex-ministro Vítor Gaspar, apesar da surpresa, foi algo perceptível e racional; se a escolha de Maria Luís Albuquerque, apesar de outras alternativas tem o mesmo sentido de racionalidade e de percepção; o mesmo não se pode dizer dos acontecimentos que marcaram o dia de terça-feira e que anteciparam a tomada de posse da nova ministra das Finanças.
Paulo Portas, ministro de Estado, ministro dos Negócios Estrangeiros e líder de um dos dois partidos que compõem a coligação governamental, perdeu todo e qualquer sentido de responsabilidade política, de pudor, de topete, de sentido de Estado (tantas vezes por ele reclamado), de racionalidade. Sempre foi um facto que a maior consistência ou fragilidade do Governo, desde a sua tomada de posse em 2011, dependeria muito mais da consistência da coligação, do que da instabilidade social ou do próprio Presidente da República.
Poderíamos repetir infinitamente todos os erros da governação, podemos estar horas a fio a debater as opções políticas do governo e os seus impactos na vida dos portugueses e da sociedade. Mas a realidade é que os factos surpreendentes com que Portugal se confrontou nestes dias são de uma "surrealidade" que ultrapassa qualquer lógica.
Nestes dois anos de governação, houve claros momentos (tal como no caso do pedido de demissão de Vítor Gaspar) em que o CDS, nomeadamente Paulo Portas, deveria ter "dado um murro na mesa", ter tomado posições mais drásticas (para alguns, mais dramáticas), ter colocado em causa a continuidade da coligação governamental: a TSU, os cortes nas reformas (bandeira tão emblemática para o líder centrista), os Orçamentos de Estado (com ou sem chumbo), o agravamento das medidas de austeridade que colocaram em causa a estabilidade social de inúmeros cidadãos, famílias e empresas. Já para não falar nas constantes conflitualidades com o então ministro das Finanças, Vítor Gaspar. Agora que Vítor Gaspar estava fora do Governo e depois de há bastantes meses ter desaparecido o "peso político" de Miguel Relvas, tudo se perfilava para que o CDS e Paulo Portas pudessem ter mais relevância governativa.
Contrariando todo o discurso de sentido de Estado até agora bradado a sete ventos por Paulo Portas, bem como a imagem de "animal político" que muitos lhe adjectivaram, esquecendo todas as acções que desenvolveu nos tempos mais recentes ao nível da diplomacia económica no seu ministério, ofuscando inclusive a sua responsabilidade no processo da "Reforma do Estado", o líder do CDS e de um dos dois partidos da coligação vem a terreiro fazer uma birrinha política sem sentido, sem pés nem cabeça, sem qualquer razoabilidade ou racionalidade, de uma infantilidade sem precedentes e justificação, só porque não gosta da ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque (como nunca gostou de Vítor Gaspar). Saímos de uma recente visita intercalar, estamos em pleno arranque da oitava avaliação da Troika... Paulo Portas foi tudo menos responsável e honesto, politicamente. Aliás, é por estas (e por outras, obviamente) que os portugueses deixaram de acreditar na política, nos partidos, nas instituições e na democracia. Com políticos assim... muito facilmente se deixará de acreditar no próprio país.
Paulo Portas dá, politicamente, um valente tiro no pé, por três simples razões:
1. Se Passos Coelho mantiver a sua posição de não aceitar a demissão de Portas, o ainda ministro dos Negócios Estrangeiros, mantendo-se no Governo, transmite uma imagem de incoerência e irresponsabilidade. 2. Se Paulo Portas sair do Governo e arrastar consigo, por exemplo Mota Soares e Assunção Cristas, a responsabilidade política passará para a esfera parlamentar, com Passos Coelho a governar sem maioria absoluta. Tal como sucedeu com Sócrates (e afinal a história pode ter momentos repetitivos) o CDS poderá correr o risco de cometer o mesmo erro do Bloco de Esquerda em 2011. E pagará bem caro por isso em eventuais eleições antecipadas. 3. Será muito difícil encontrar adjectivação suficientemente "soft" para qualificar os rumores de uma possível aliança com o PS em hipotéticas eleições antecipadas. Não que a aliança entre CDS e PS (algo que não é inédito) tenha alguma coisa de mal ou de errado. Tão somente pela inqualificável opção política de Paulo Portas, apenas justificada pela ânsia do poder. E isso tem muitos adjectivos muito pouco agradáveis.