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Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... É uma zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre tudo e nada.

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Caridade ou Solidariedade?

Publicado na edição de hoje, 5 de dezembro, do Diário de Aveiro.

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Caridade ou Solidariedade?

É inquestionável que em Portugal (para não irmos mais longe), face à conjuntura em que vivemos, é demasiado elevado o número de portugueses e famílias com dificuldades de sobrevivência, com problemas de liquidez dos seus orçamentos pessoais e domésticos, com fome, sem emprego, ‘feridas’ na sua dignidade humana. Isto não tem a ver com partidarismos, política ou com compêndios económico-financeiros, apesar da evidente consequência dos seus impactos. É a realidade do dia-a-dia, o que o país real sente e vive, o que as comunidades observam nas suas ruas, em cada esquina ou vão de escada. E também o que espelham as preocupantes estatísticas: o elevado número de desempregados, o fenómeno da emigração, os cerca de 300 mil portugueses que não conseguem alimentar-se, os cerca de 2 milhões de pobres (com rendimentos inferiores a 360 euros mensais) segundo os dados do INE. Esta é a realidade nua e crua. Como resolver este flagelo? Entre estudos, conceitos e convicções ideológicas, há uma responsabilidade que cabe ao Estado e à sociedade. Ao Estado, na medida em que é responsável pelo garante do bem-estar dos seus cidadãos, pela gestão do bem público e pelas políticas que implementa (ou se abstém de implementar). À sociedade, porque é na relação social, no respeito pelos direitos dos outros, que se podem minimizar os impactos de um mundo onde o ter tem, cada vez mais, importância do que o ser.

A dificuldade na avaliação desta realidade prende-se essencialmente com o ‘conflito’ entre as questões da falta de medidas estruturais na sociedade que combatam a pobreza e a exclusão, e o assistencialismo ou a caridade/solidariedade.

Se é verdade que existem inúmeras falhas em alguns processos de solidariedade, quer a nível individual, quer através das inúmeras instituições e entidades; se é ainda verdade que tenho bastante relutância, para não dizer toda, em defender as posições pessoais da presidente da Banco Alimentar contra a Fome; não deixa de ser igualmente verdade que sem o papel e a acção de várias instituições, como, por exemplo, o Banco Alimentar contra a Fome manter-se-ia, infelizmente, a questão: o que seria de milhares de portugueses e de famílias sem o recurso à solidariedade social dos cidadãos e destas entidades? Ou ainda… que alternativas, imediatas e concretas haveria para conter a eventual “explosão de violência” a nível social e político, e que o Papa Francisco alerta na sua recente Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”, concretamente na abordagem à doutrina social da Igreja. Doutrina que muitos sectores político-partidários vêm “reforçar” porque interessa ao combate político, mesmo esquecendo que essa é uma realidade da Igreja desde os tempos do Papa Leão XIII (“Rerum Novarum”) nos remotos anos de 1890/91, reforçada (mesmo que inconsistente e erradamente aplicada, na prática) nos documentos conciliares do Vaticano II.

Em plena crise social e económica, os portugueses doaram cerca de 2,8 toneladas de alimentos ao Banco Alimentar. Rapidamente, quer em plena campanha, quer ao serem conhecidos os resultados, várias vozes soltaram brados porque quem beneficiaria com a campanha seriam as grandes superfícies (esses monstros do comércio) e o próprio Estado com o aumento da receita de IVA. Mesmo que esta seja a realidade dos factos, não é no seu todo. Excluindo a manifesta solidariedade dos portugueses para com cerca de meio milhar de cidadãos pobres (e novos pobres), excluídos e marginalizados, muitas das 2.300 instituições que serão apoiadas, não beneficiariam de uma ajuda, de um apoio, de uma solidariedade e fraternidade (em alguns casos, caridade mas não simples caridadezinha) que minimize o sofrimento do dia-a-dia, a frustração da exclusão e da pobreza.

Seria bem pior convivermos com esta triste realidade da pobreza e exclusão sociais, ao mesmo tempo que nada fosse feito para evitar o que seria o escândalo humanitário da destruição, no lixo, do excedente alimentar da rede comercial, porque, cada vez mais, a fome ganha (demasiado) rostos. Não resolve estruturalmente o problema da pobreza ou da exclusão, mas combate o desespero de milhares de portugueses que vivem e sentem esse flagelo no seu dia-a-dia. Às entidades e ao Estado caberá fazerem muito mais do que têm feito.

E aos que sentiram a vontade de serem solidários, resta dizer: Obrigado.

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