Espaço de encontro, “tertúlia” espontânea, “diz-que-disse”, fofoquice pegada, críticas e louvores, ..., é uma zona nobre da cidade, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontram e conversam sobre "tudo e nada".

04
Nov 15

publicado na edição de hoje, 4 de novembro, do Diário de Aveiro.

Debaixo dos Arcos
Até amanhã, Almeida

Para que a memória não se apague...

Se é verdade que a vida deve ser olhada para o amanhã, não será menos verdade que o que vivemos hoje e o que projectamos no futuro é o reflexo do que foi a nossa história, do que são as nossas memórias, do quanto enriquecedor foi o nosso passado. Muito dificilmente alguém me ouvirá dizer que “antigamente é que era bom”… mais facilmente me ouvirão afirmar que “antigamente era diferente”. Mas será inquestionável afirmar que “antigamente havia muita coisa boa” e que as condicionantes da vida nos trazem, felizmente, à memória.

O Diário de Aveiro costuma publicar alguns trabalhos jornalísticos com referência a ruas que identificam personalidades da região. Tal como a maior parte da toponímia, a rua onde eu cresci (apesar de ter nascido na Beira Mar) também tem um nome. E tem um nome importante, na história política e social de Aveiro. Um nome ilustre, de alguém que prestou um inquestionável serviço à cidade e à sua região: Dr. Francisco Vale de Guimarães - preeminente político e governador civil aveirense. Homem de coragem e convicções fortes, ao mesmo tempo de uma inegável capacidade congregadora dos vários quadrantes políticos e sociais. Foi durante a sua governação política do distrito que se realizaram os congressos da oposição democrática, quando muitos teriam naquele tempo (período marcelista), só de pensar em tal processo, perdido noites e noites de sono. Mas a minha rua, a “Praceta”, também é feita de histórias. Daquelas histórias que surgem das coisas simples, do bairrismo, das brincadeiras de crianças, da tradição.

Não é uma rua carregada de simbolismo cultural, social e histórico, apesar de ter dado ao mundo gente ligada à política, ao direito, aos negócios, à cultura, ao ensino. Enquadrada numa zona circundante privilegiada (a Sé, o Museu, o Parque, o Governo Civil, o Tribunal, a Escola Primária da Glória, o Largo de Sto. António, o Hospital e a Universidade, o Convento das Carmelitas) é, acima de tudo, uma zona com a sua história e as suas “estórias”. Uma dessas muitas “estórias” tem a inevitabilidade da ligação ao velhinho Mário Duarte e ao Beira Mar. Primeiro foram as saudades deixadas pelo Zé Domingos. Neste sábado passado, são as saudades de ver partir o António Almeida… o Almeida! Gente que construiu as “estórias” da minha rua, da minha infância, de quem ensinou a tantos de nós os primeiros pontapés “à séria” no futebol, com quem nos fomos cruzando, ao longo da vida, tantas e tantas vezes na mesma esquina, no mesmo passeio, em frente ao Tako.

Alguém que nunca se cruzava connosco sem um sorriso, sem uma conversa, sem uma história, sem tantas vezes nos estancar a ‘pressa’ ao que correspondíamos com o ‘obrigatório’ parar do passo apressado, pelo respeito e amizade. Com o Almeida era assim, não podíamos deixar de parar, de sorrir, de falar, de ouvir, de comentar a vida, a nossa vida, e inevitavelmente o futebol (aquele que nos ensinou quando putos) e o Beira Mar (ou pelo menos, o seu Beira Mar).

Hoje as ruas já não têm estas “estórias”, cada vez têm menos história. As “estórias” das ruas, com o correr do tempo e da transformação da vida, foram-se dissipando das calçadas, do asfalto, das memórias, da realidade… Importante se torna, por tudo isso, não apagar a memória das boas e felizes “estórias”. Em cada encontro a despedida era sempre a mesma: “Até amanhã, Almeida”, porque resistia a certeza de nos encontrarmos no dia seguinte. Hoje, já não posso dizer o mesmo, mas para que a memória, a minha memória, não se apague e não apague as minhas “estórias” fica a minha despedida de sempre: “Até amanhã, Almeida”.

À Cila, ao Tó e ao João

Almeida.jpg

publicado por mparaujo às 10:51

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