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Debaixo dos Arcos

Espaço de encontro, tertúlia espontânea, diz-que-disse, fofoquice, críticas e louvores... zona nobre de Aveiro, marcada pela história e pelo tempo, onde as pessoas se encontravam e conversavam sobre tudo e nada.

Banana (da Madeira) split... ou flic-flac à retaguarda sem estalar a coluna vertebral

vale tudo, mesmo a falta de ética política, para agarrar o poder.

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(fonte da foto: Funchal Notícias)

Os factos, pela ótica e realidade crua dos números, são mais que claros e óbvias.
A coligação... repito, porque não é um contexto displicente... a COLIGAÇÃO "Somos Madeira" (PPD/PSD . CDS-PP) venceu as eleições regionais realizadas no passado domingo: 58.399 votos (43,13% dos votos expressos).
Em termos de representação na Assembleia Regional, a coligação PSD/CDS obteve 23 lugares, PS 11, Juntos Pelo Povo 5, CHEGA 4, PCP, IL, PAN e BE 1 mandato cada. A abstenção situou-se nos 46,66%, mais 2,17% em relação a 2019.
Com estes resultados, a Coligação PSD/CDS não obteve maioria absoluta por um mandato.

Importa, ainda comparar estes factos com os resultados de 2019.
A primeira nota é que a Assembleia Regional da Madeira era composta por 5 forças partidárias. Com os resultados de domingo, a Assembleia passou a ser composta por 9 partidos políticos.
Já em 2019, o PSD venceu as eleições, mas sem maioria absoluta (menos 3 mandatos), tendo surgido um acordo pós-eleitoral com o CDS-PP que tinha obtido 3 lugares, os necessários para assegurar um Governo Regional com maioria representativa.
Em 2019, os resultados (comparativos) foram:
PSD 56.448 votos (39,42%) e o CDS 8.246 (5,75%) - o que significa, em termos de coligação, uma perda de 6.295 votos, em 2023 (-2,17%); o PS perdeu 8 lugares na Assembleia e 22.363 votos; o JPP quase que duplicou o número de votos (+7.103 votos) e reforçou a sua representatividade com mais 3 mandatos atribuídos; o CHEGA obteve a maior subida em relação a 2019, obtendo 4 mandatos e conquistando mais 11.409 votos expressos. Com representação única na Assembleia regional encontra-se o PCP que mantém o seu deputado e regista um aumento de cerca de 1.000 votos, o BE, o PAN e o IL que conquistam o acesso ao Parlamento Regional da Madeira, sendo que o Iniciativa Liberal tem uma expressiva subida eleitoral de 2.763 votos, fixando-se como a quinta força política na Madeira.

Estes são os factos e, contra os mesmos, não há argumentos. Ou melhor... haver, há, porque a política não se desconstrói ou se avalia pelos números, mas sim pelos impactos, pelos objetivos alcançados ou perdidos, pelas expetativas cridas e defraudadas ou superadas. Isto, e mais um conjunto de mediocrices políticas e de populismo corriqueiro protagonizado pelo líder do PSD nacional.
Por partes...

Ainda a propósito dos números, reconhecendo-se (não há outra forma) a queda do Partido Socialista Madeira, a verdade é que, pelo histórico e pela tradição, o ano de 2019 é que terá ido um evento de exceção nos resultados eleitorais do PS nas eleições Regionais da Madeira. E, de facto, se compararmos com os resultados de 2015 (curiosamente o último ato eleitoral em que o PSD conseguiu a maioria absoluta... perdeu-a em 2019 e em 2023) o PS obtém mais 5 mandatos e conquista mais 14.270 (+9,87%).
Mas adiante...

Importa (e a satisfação que dá lembrar sempre isto aos muitos que enchem a garganta e o peito para bradar - em vão - o nome de Sá Carneiro, para, no final, acabar por 'ofender' a sua memória política e afundar o legado partidário e ideológico que deixou) recordar um dos mais importantes princípios da democracia e da política expressado por Francisco Sá Carneiro: "A política sem risco é uma chatice, mas sem ética é uma vergonha".
Tem sido esta ausência (pontual ou sistemática) da ética política, esta constante e repetida falta de vergonha que tem levado a um descrédito dos portugueses nos partidos e nos políticos (e, consequentemente, na política) e a um esvaziamento da militância e da cidadania democrática. Não é por acaso que a taxa de abstenção eleitoral tem sido bastante elevada (em quase todas as tipologias eleitorais), numa democracia que, apesar de quase 50 anos de existência, teima em demorar a amadurecer e solidificar.
As leituras políticas que se fazem nos processos eleitorais não se compaginam a uma análise aritmética ou estatística dos números. Mais do que os resultados é a concretização, ou não, dos objetivos, a avaliação das expetativas geradas que determinam as vitórias ou as derrotas eleitorais.

Os factos, que só por verdadeiro contorcionismo político, só pelo quebrar da verticalidade e pela respetiva falta de ética e de honestidade política é que se poderão contrariar (argumentar), é que Miguel Albuquerque, durante a campanha e bem sublinhado e reforçado, não deixou expetativas, deixou uma certeza absoluta que acabou por não concretizar, defraudando todo um eleitorado que orientou o seu sentido de voto com o objetivo claro da maioria absoluta.
Os exemplos seriam muitos e extensos, ficam estas referências (fonte: jornal Expresso), como espelho dos factos.

Miguel Albuquerque dramatizou a importância do voto, salientando que se a coligação não tiver "a maioria não é possível governar" a Madeira.
"Precisamos de uma maioria absoluta para governar a Madeira, se não tivermos a maioria não é possível governar esta terra", afirmou, insistindo que não é possível liderar o Governo Regional "discutindo todos os dias, tudo e a toda a hora".
"Eu em minoria, a fazer acordos pontuais, eu não governo", repetiu, lembrando que "as cartas" foram "postas em cima da mesa antes da eleição".
Miguel Albuquerque acaba o discurso (fase final da campanha) e sai pela parte de trás, como faz sempre, discreto e acompanhado por segurança, enquanto a música continua, os aficionados do PSD dançam. Acabou de repetir que se demite se não tiver maioria absoluta. O Expresso interceta-o uns segundos junto ao carro, para perguntar, afinal, o que vem depois. “É um problema para outros, terá de ser o PSD a convocar um Congresso”, responde Albuquerque. Taxativamente, confirma: se não chegar à maioria absoluta, bate com a porta.

Sejamos sérios… isto não é eticamente aceitável e politicamente responsável.
Após os resultados, e de uma forma tão repentina que leva a imaginar-se que a solução já poderia estar desenhada antes das eleições, Miguel Albuquerque acorda com o PAN um compromisso no quadro da Assembleia Regional da Madeira garantindo, assim, a viabilidade da governação, sem ter atingido uma meta que foi traçada como irrefutável e inegociável: a maioria absoluta eleitoral.
Mais grave ainda… sem que o parceiro governativo na anterior legislatura e parceiro da coligação pré-eleitoral “Somos Madeira”, o CDS-PP, nem foi tido, nem achado.
À falta de ética e responsabilidade, podemos acrescentar a falta de respeito político. É a Madeira e ao que a política (no seu pior) chegou.
Mas há mais (e pior)…

Mais grave do que o “day after” eleitoral é esta teimosia a que alguns políticos recorrem para tratar os eleitores (os seus e os dos outros) por parvos. E o termo é assumido… “por parvos”. Só que os portugueses podem estar distraídos, podem estar preocupados com a inflação, com o custo de vida, com os empréstimos bancários, com os seus salários e os impostos que pagam… mas parvos é que não somos. E os portugueses gostam muito pouco ou mesmo nada que haja políticos, principalmente com a máxima responsabilidade partidária, que os queiram fazer de parvos.

O que Luís Montenegro foi fazer à Madeira, em pleno processo eleitoral, foi, tão simplesmente isso… tentar fazer dos portugueses (os do PSD e os dos outros partidos) parvos. Só que o feitiço virou-se contra o feiticeiro… a começar pelos barões sociais-democratas. Foram duras as palavras de Alberto João Jardim (que adjetivou Montenegro de caloiro) ou de Mota Amaral (que acusou Montenegro de se ter posto em bicos de pés), para além de todo o incómodo que a presença de Luís Montenegro causou na autonomia partidária do PSD Madeira.
O facto do líder do PSD ter ofuscado o resultado eleitoral do PSD Madeira com a necessidade, mais que reconhecida e óbvia, de usar tudo e todos, qualquer milímetro quadrado de palco mediático, para fazer prova de vida política (e tentar salvar, mesmo que sem qualquer sucesso, o afundamento enquanto oposição e alternativa ao Governo PS… para bem dos portugueses e do país) foi um triste serviço que prestou ao partido. Mas isso é, acima de tudo, um problema do PSD e dos seus militantes.
Mas já é um problema comum quando Luís Montenegro tenta iludir e ludibriar os portugueses, enganar os eleitores, usar argumentação política que não é mais do que mero e baixo populismo e retórica lamacenta. Não nos faça de parvos.
Não há, nem nunca houve, qualquer paralelismo e projeção política entre os diversos processos eleitorais. O contexto, a dimensão, o universo político-partidário, a “afinidade” do eleitorado não é comparável entre Presidenciais, Legislativas, Europeias, Autárquicas ou Regionais. Não vale a pena insistir neste jogo de mera estratégica eleitoralista. Cada processo eleitoral é um processo eleitoral em si mesmo. Aliás, às vezes até comparar histórico de um mesmo processo eleitoral é difícil, quanto mais realidades políticas distintas.

Mas Luís Montenegro foi ainda mais longe nesta paupérrima aparição partidária ao comparar valores eleitorais (resultados) entre estas eleições regionais e as últimas legislativas que deram a maioria absoluta ao Partido Socialista. E para ser o mais soft possível (porque a vontade seria outra) só resta um “tenha juizinho”. A obsessão com António Costa, ou António Costa como alvo permanente, seja em que contexto for, leva a um desespero argumentativo demasiado pueril e fácil de desmontar. Na tentativa de desvalorizar o resultado que atribuiu a maioria absoluta a António Costa, a aberração foi enorme. Luís Montenegro comparou os 43.13% do PSD Madeira (com o CDS) que não deram a maioria absoluta por um escasso mandato, com os 41,37% que, em 2019, atribuíram ao PS a maioria dos lugares na Assembleia da República e, consequentemente, a governação em maioria absoluta. A infantilidade política de Luís Montenegro é visível… olhou para os dois valores e concluiu (absurdamente) que 43 é maior que 41. Matemática de 1.º Ciclo do ensino básico. Só que a matemática, e a política, já agora, são bem mais complexas.
Usando (como exceção e por contexto) a comparação eleitoral feita por Montenegro, os 43,13% de votos alcançados pela coligação (nem foi apenas pelo PSD) correspondem a 58.399 votos expressos. Vamos então para a comparação com as legislativas de 2019. Estes 58.399 votos que foram a bandeira crítica de Luís Montenegro contra António Costa e o Governo PS, em 2019, davam ao PSD uns insignificantes 1,04% dos votos (num universo de 5.563.497 votos). Ou seja, o PSD, juntamente com o CDS, desaparecia do Parlamento. Não nos faça de parvos.
E consolidando este princípio da não comparação entre processos eleitorais, apenas ouvimos Luís Montenegro a antecipar (com total falta de respeito pelo líder do PSD Madeira e, independentemente da maioria, vencedor eleitoral) o que Miguel Albuquerque afirmaria em relação a acordos para a governação: sem o Chega (embora Luís Montenegro não tenha dito, «com o Chega nunca»). Porque será quase impensável que, no contexto nacional, alguma vez o PAN faça qualquer acordo (governamental ou parlamentar) com o PSD.

Tristes provas de vida política necessita este PSD para não se afundar ainda mais.