da birrinha à infantilidade política
porque é que, pela primeira vez, uma sondagem não me espanta?
As sondagens são exercícios estatísticos e matemáticos que tentam espelhar os sentidos de voto ou as opções/opiniões de uma amostragem (de um determinado universo), trabalhados "laboratorialmente".
Valem o que valem... umas vezes muito, outras vezes desvalorizadas. Normalmente, são relevadas em função de interesses. Se favoráveis são 99,99% correctas e fiáveis... se desfavoráveis são, na maioria dos casos e para além de desvalorizadas, consideradas exercícios de contra-informação, propaganda e politiquice.
Por norma, tenho atenção às sondagens quando são realizadas próximas de um determinado acontecimento ou directamente relacionadas com um facto/momento específico. Fora disso são meras divagações demasiado subjectivas, descontextualizadas e conjunturais.
Mas há sondagens que são espelhos da realidade e de um determinado momento, com mais ou menos margens de erro.
A empresa Aximage realizou uma sondagem para o Diário de Notícias, Jornal de Notícias e TSF sobre preferências políticas e intenções de voto nas próximas legislativas. É certo que as legislativas terão lugar apenas em 2023. Mas ao contrário do que pensam muitos dos eleitores portugueses estas eleições presidenciais representam mais do que a escolha do próximo Presidente da República (nem que seja o mesmo). Elas têm impacto político em relação aos partidos com assento parlamentar. Todos eles.
Entre subidas (PS, Iniciativa Liberal, Chega, PAN) e descidas (PSD, BE, PCP e CDS), destaque para o valor atingido pelos centristas: 0,3% (contra os 4,22% nas legislativas de 2019).
E é neste valor que reside a principal nota da sondagem, tendo motivado a seguinte reacção do presidente do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos: «O CDS vai instar a ERC para que tome as medidas que se impõem para regular os procedimentos das empresas de sondagens, para evitar truques, falta de rigor técnico e ‘palhaçadas’ como os que lemos hoje», para além de criticar a sondagem que, na sua opinião (em nada modesta) é um exercício "de alfaiate, feita à medida de quem manda".
Mais que as queixinhas à "mãe" ERC e as birrinhas de que todos e tudo estão contra o "mundo centrista do Xicão", o que deveria preocupar verdadeiramente o Presidente do CDS é o porquê da consecutiva queda nas intenções de voto (desde agosto de 2020) que os resultados eleitorais regionais dos Açores não conseguem disfarçar; a irrelevância política a que, a sua presidência, relegou o partido; os problemas internos (as fortes críticas, a grave crise financeira); a clara e óbvia transferência de eleitorado e sentido de voto, principalmente para o Chega (seja na próxima eleição legislativa, seja no apoio à candidatura presidencial de A. Ventura) mas também para o Iniciativa Liberal, bem patente na sondagem; e a capacidade de mobilizar eleitorado (sem o hábil recuro a alianças ou acordos) para as autárquicas que acontecem já em outubro.
São mais que evidentes as enormes trapalhadas políticas de Francisco Rodrigues dos Santos neste quase primeiro ano de liderança do CDS, com claros embaraços públicos, mediatismos falhados e questionáveis opções e posições políticas.
O que deveria preocupar Francisco Rodrigues dos Santos e os quadros do CDS não é a Axemage... é o que significam, verdadeiramente, os 0,3% ou os meros 1% do mês de novembro.
Mas é sempre muito mais fácil (e desvia atenções) se o foco for deslocado para a responsabilidade e, como refere, para a "palhaçada" alheia.
